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UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ ANDRÉA DE PADUA LEITE (202302774067) ANDREZA COSTA DA SILVA DIAS (202304514781) BELMA DE ARAÚJO VIANA (202403507595) PÂMELA CHRISTINE CABRAL MARTINS (202303279141) VIVIANE VILLON DE OLIVEIRA (202303488629) Estágio Básico II em Psicologia Relatório final da disciplina Estágio Básico II em Psicologia, apresentado ao Curso de Psicologia da Universidade Estácio de Sá, como parte dos requisitos necessários à aprovação e conclusão do Estágio Básico II. Profa. Superv.: Marina Guedes de O. Lopes RIO DE JANEIRO 2025 I- Apresentação do artigo: Sistemas de Informação sobre violência contra as mulheres: uma revisão integrativa Este artigo analisou o perfil do psicólogo que atua em equipe multidisciplinar com mulheres em situação de violência. O psicólogo também atua junto à família, acolhendo, orientando e informando as rotinas sobre os tipos de violências contra mulheres, sejam do tipo raça/etnia, classe e geração. As intervenções psicológicas mais utilizadas podem ser de apoio, orientação ou psicoterapia. As intervenções psicológicas podem ser realizadas com o paciente, família e equipe de saúde, no Centro Especializado de Atendimento à Mulher (C.E.A.M), um local que oferece apoio psicológico, jurídico e social a mulheres do município do Rio de Janeiro, no “Programa Mulheres do Rio”. A psicóloga entrevistada neste artigo relata práticas semelhantes com as encontradas na literatura quanto a coleta de informações importantes visando subsidiar a formulação e implementação de políticas públicas no campo de enfrentamento da violência contra mulheres e seu monitoramento. Visto que tal projeto, faz parte da Secretaria Municipal do Rio de Janeiro. A partir da entrevista realizada, foi percebida uma carência que ainda se faz presente nos cursos de Psicologia, de uma forma geral, de conteúdos que capacitem os alunos para as especificidades da atuação em saúde no atual contexto brasileiro, tanto no que se refere ao setor público como privado. Algumas lacunas ainda existem quando se examina os conhecimentos em políticas públicas, atuação em equipes multiprofissionais e pesquisas na área. No que tange a atuação em Psicologia, junto a mulher vítima de violência, o desempenho do psicologo é crucial e visa acolhimento, suporte emocional e o fortalecimento da mulher para que ela possa reconstruir sua vida e exercer autonomia. No artigo pesquisado a necessidade de adaptação das técnicas já utilizadas no atendimento clínico destes profissionais ficou evidente. Visto que, no artigo, os sistemas de informação ainda são tratados sob um viés tecnicista, onde visa mais valor ao suporte tecnológico, e menos valor a qualidade das informações coletadas. O estudo apresentando foi do tipo exploratório visando um comparativo entre o artigo cientifico (DOI:10.1590/1413-81232022274.08722021) e a realidade vivida de uma psicóloga inserida nas políticas públicas, e interage com mulheres vítimas de violência e algumas em situações de extrema vulnerabilidade, que buscam apoio com a equipe multidisciplinar do programa. Por fim, a pesquisa evidencia a carência de estudos sobre a Psicologia na política pública de enfrentamento à violência contra as mulheres. Quando não conseguimos categorizar as usuárias de forma complexa, findamos numa análise falha na interpretação de resultados. II- Entrevista com a Psicóloga: Para a continuação desse relatório foi feita uma entrevista com a psicóloga Andressa da Silva Paschoal dos Santos (CRP 05/577.19), formada na turma do Curso de Psicologia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Ela veio do atendimento clinico, e encontrou uma oportunidade para fazer a diferença na vida de mulheres de extrema vulnerabilidade. Dona de uma empatia apreciável, Andressa relata as dificuldades cotidianas de mulheres que muitas vezes não conhecem seus direitos mais básicos, não buscam e até mesmo não se entendem como merecedoras de tal suporte oferecido pelo programa municipal “Rio mais seguro para mulheres”. Transcrição da entrevista: 1. Como você iniciou o trabalho com atendimento à mulher vítima de violência? Era sua pretensão inicial? Acho que o bom da psicologia é isso, né? Que a gente tem essa amplitude das áreas. Você não precisa ficar fixo naquilo. A gente pode estar ampliando o nosso trabalho, ou pode estar focando só em uma área. E, naquele momento, eu entendi que queria outras perspectivas. O meu objetivo sempre foi atuação nas redes públicas. O meu foco, primeiro, era saúde. Mas as oportunidades também vão se abrindo. E entrou aqui um eixo para mim. Mas, aqui eu acho que entra esse dinamismo da Secretaria da Mulher. A gente vem por meio de uma construção de assistência. O governo atual pega essa pasta, que é em questão da violência contra a mulher. E eles começam a mexer nessa secretaria. Ele entende que é importante essa construção e de ter essa abertura. E, iniciam essa construção da Secretaria da Mulher. Constrói-se o CEAM em si. Mas tem outras áreas. A gente tem o CEAM Chiquinha Gonzaga, sendo o mais antigo, que é no centro do Rio de Janeiro. Com a atual gestão, eles começam a fazer investimentos dentro dessa perspectiva. Então, se abrem Casas da Mulher, que é outro lado da Secretaria da Mulher, o qual é a área de promoção da mulher. E tem a área de enfrentamento, a qual é o CEAM. Depois desse período, se tem a construção do CEAM em Santa Cruz em 2023. Trabalhar com mulher vítima de violência, não era a pretensão inicial, foi a oportunidade construída. O processo de seleção, toda essa história. Foi uma oportunidade que apareceu. Acabamos construindo redes, não é um trabalho exclusivo. Eu não vou atender uma usuária e se fechou aqui. Ao contrário, esse trabalho aqui é muito amplo. A gente tem atuação com a rede, seja com a saúde, seja com a própria assistência. Dependendo dos casos, o âmbito jurídico. Então, assim, a gente dá uma ampliação mesmo dessas áreas. Não ficamos fechados a uma coisa só. Então acho que também isso... E, você acaba se desenvolvendo. 1. Você considera que a faculdade te preparou para esse tipo de atendimento? Foi necessário fazer uma especialização nessa área, ou você considera necessário uma especialização? Se sim, qual seria? Sobre a faculdade era algo que eu conversava muito com uma antiga psicóloga que estava aqui. Quando a gente chega aqui, acho que principalmente nos serviços públicos, pelo que a gente acaba construindo com outras pessoas também, em conversa. É outro momento. Claro que a gente muitas vezes tem ideia. Até porque eu vim da Universidade Federal Rural. Então, nos estágios que era aberto à população, a gente já pegava algumas situações. Mas, no meu caso, naquele período em específico do primeiro estágio, eu atuava só com avaliação. Era um viés. Mas tinha aquele entendimento ali de rede. Depois, no outro estágio que era atendimento de estudantes. Já era outra construção, que era atendimento de estudantes, dois estudantes ali. Por ser outro viés, se tinha outra perspectiva. Eu acredito que não, não tem essa preparação. Acho também que depende muito do estágio, de qual âmbito você vai ter conhecimento. Como você está aberto àquilo também. Mas acho que é meio difícil essa preparação. Acho que fica muito no campo das ideias. Acho que principalmente para a gente, na época, para mim, quando estudantes, os professores não dão a dimensão da realidade. Os professores não preparam a gente. Sobre fazer uma especificação, sim, seria ideal dentro desse contexto, eu acho que propriamente da violência em si, buscar entender essas vulnerabilidades. Muitas vezes saber o que essa mulher perpassa até chegar aqui. Então, acho que é algo muito específico, acho que é importante. Até porque eu gosto muito desses exemplos. Quando a gente está conversando em reunião de equipe, a diretora fala muito disso. Ninguém foi preparado para ouvir violência ao longo do dia. A gente ouve muito sobre violência no nosso dia, temos muitos casos muito... Tem casos que, muitas vezes, já estão controlados, mas tem casosque só chegam e estão naquele risco iminente de morte. Situações muito complexas. Então, assim, não é fácil pegar uma pessoa e só jogar aqui é algo muito complicado. Não só para a usuária, mas para a gente, como profissional. Acho que é importante também a gente ter essa autoanálise. 2. Ao receber uma mulher para início do processo multidisciplinar, você recebe antes as informações dela (nome, idade, escolaridade, número de filhos.)? Acha relevante receber essas informações antes? Você possui livre acesso às informações dessa mulher do Sistema de Informação? O artigo científico muitas vezes pode trazer esse campo das ideias. E aí, na realidade, é outra construção. O CEAM é uma porta aberta. Então, se a mulher está entendendo que está vivendo alguma violência, ou se ela está com dúvida, se ela precisa de mais informações, ela pode chegar aqui e ser atendida. Se ela tem essa demanda de atendimento, pode vir aqui. Dentro desse atendimento, a gente faz essa análise de informações, e vamos refinando. Mas, em poucos casos, são poucos os casos que conseguimos ter essas informações iniciais. E aí, muitas vezes, são os casos que já são mais complexos. Por exemplo, essa mulher foi atendida no hospital, deu entrada no hospital, está por conta da violência, está muito machucada, precisa desse acompanhamento no território. Assim, nos encaminham para a direção do caso, e muitas vezes, a direção do CEAM vem, constrói com a gente, e dá algumas informações iniciais. Buscamos fazer esse contato, ou ele já pode estar esquematizado para que ela venha para algum dia específico para atendimento. Mas isso é muito difícil. Tem alguns casos que vem assim, mas a maioria não temos o entendimento de como é o caso inicialmente. Tem dias que a gente tem 3, 4, 5 atendimentos ao dia. E, a gente não está falando de um atendimento na saúde que atende uma população no geral. Estamos falando de uma situação específica. Então, tem dias, bem corridos, tem bastante atendimento. E não tem como ter essa dimensão, essa busca de informação vem durante o atendimento multidisciplinar, onde tem o atendimento com a psicóloga, com uma orientadora jurídica, que é uma advogada, e uma assistente social. Pelo menos, tem que ter duas profissionais para a gente conseguir fazer esse atendimento. É esta em norma técnica no contexto de violência, que agora não consigo lembrar, que essa mulher precisa ser atendida por uma equipe multidisciplinar. Então, a ideia é que se tenha essa construção dessa equipe, claro que jogando por uma realidade, às vezes só tem duas, e aí a gente vai lá e atende. Aqui, também temos essa construção de fazer grupos reflexivos, trabalhos em grupo, terapia, ou geralmente, somente ela mesmo, no primeiro atendimento e depois ela é inserida numa equipe pelo sistema, e passa a ter outro momento. 3. Você ou essa unidade, faz atendimento a mulheres trans? Claro. A gente não pode fazer essa distinção. Uma vez que ela se entende enquanto mulher, ela tem um atendimento aqui. E temos casos de mulheres trans que são acompanhadas, casos de mulheres que precisaram fazer, por conta do risco e da situação, atendimentos pontuais, que acabaram precisando de abrigamento. Às vezes, essas mulheres não entendem que tem essa possibilidade, sabe? Muitas vezes, no atendimento da saúde, as meninas na equipe entendem que essa mulher precisa desse atendimento, E nos encaminham, essa é uma forma de essa mulher ter força para conseguir chegar até aqui. Nós temos, como se fosse uma ONG voltada para o atendimento do grupo, e geralmente, eles também nos fazem esse encaminhamento. Então, muitas vezes, essa construção é a partir de uma rede. Porque, muitas vezes, essa mulher que já tem tantos estigmas, ela não consegue nem se entender pertencente a esse local. E aí é uma construção diária. Quando a gente vai fazer externas temos de lembrar para todos da equipe que o atendimento é para todos os tipos de mulheres que buscam. Não vai ter essa distinção. Porque a gente vai entender a especificidade dessa mulher e de alguma forma, tentar auxiliá-la até onde o equipamento permite, mas a gente recebe muito bem. 4. Como é a aderência dessas mulheres vítimas de violência ao acompanhamento multidisciplinar? É difícil essa pergunta. A gente passa muito por fases. A maioria tem uma aderência. Tivemos uma fase aqui no CEAM, estamos falando de uma construção do CEAM Santa Cruz. A gente não consegue nem dimensionar o CEAM do Centro. É que elas tinham uma determinada aderência, tinham essa construção, esse acompanhamento, mas já teve fases de pegar muitas primeiras vezes e, com o tempo, elas não terem tanta essa aderência. Mas acho que um ponto importante é que, mesmo com esse tempo que a gente já está aqui no território, apesar dessas mulheres estarem aqui e, muitas vezes não ficarem nesse acompanhamento, quando elas têm a necessidade, ou se veem de alguma forma em risco, elas voltam buscar. E é algo que está acontecendo no momento. Muitas que não deram continuidade no acompanhamento, mas estão retornando. Nesses momentos de perigo. E acho que também é um ponto interessante futuramente para se pensar. Recentemente, teve uma que só veio duas vezes. Foi um caso bem recente. E esse cara (perseguidor), eles moram no mesmo bairro e esta perturbando-a. Ela entendeu que aqui pode ser um ponto que pode auxiliá-la. Ela voltou para esse atendimento, veio um dia, conversou com a gente, fez um novo atendimento, nós vimos que tinham situações no processo dela com a medida protetiva que estavam muito soltas. Fizemos toda uma construção com ela. Conseguimos o apoio da patrulha, o apoio da Ronda Maria da Penha. E o caso dela está um pouco mais estável. Apesar dela só ter vindo duas vezes anteriormente, ela entendeu que aqui é um local que ela pode ter suporte. Até porque, um ponto que a gente sempre deixa claro para elas, é que elas têm autonomia. Muitas vezes ela é encaminhada, sei lá, pela saúde, pela área jurídica, mas elas têm autonomia de querer ficar ou não. De entender como ela quer construir esse atendimento. Tem mulheres que eu vou construir de uma forma, porque cada caso é um caso, e tem um lado. Há mulheres que eu vou construir de outra maneira. Tem mulheres que, se eu ficar demandando muito juridicamente, fazendo essa construção, ela não vai se apegar ali. E ela também sabe as necessidades dela. Ela vai trazer essa necessidade. Ela vai ter esse espaço. Um atendimento exclusivo com a psicóloga entra muito em avaliação, se realmente vai precisar. Mas isso vai ser sempre em ponto de avaliação. Acho que o legal é que ela consegue construir. E quando pensamos em um atendimento humanizado, não fica só nesse papel da psicóloga. Eu tenho o apoio de todas as partes. Se tem um dia que eu não vou estar no equipamento, mas essa usuária chegou muito mexida, não está legal. Ela tem um vínculo tão grande com a equipe, que não vai ser igual no suporte psicológico, mas ela vai ter atenção e acolhimento. Porque ela tem esse vínculo, porque a equipe é humanizada, tem atenção no que ela está precisando, na necessidade dela, entende o caso dela. Ela sabe que vai ter o suporte, assim a gente fica tranquila. Eu acho que a ideia é essa, a construção. Até porque, a gente também traz que a usuária, ela não é a usuária de uma determinada equipe, é a usuária do serviço. A gente trabalha 30 horas semanais, então, um dia na semana a gente não está aqui, mas tem outras equipes. Se ela sentir necessidade de vir, de precisar de um atendimento, se for uma situação de urgência, ela vem, e vai ser acolhida pela equipe que estiver aqui. Ou, se for um caso, que precisa de muita atenção, a gente tenta articular algo diferente. Mas ela é a usuária do serviço, independente de quem está aqui, ela vai ter um bom atendimento e vai ter um acolhimento. 5. Como você avalia que a violência contra a mulher afeta a autoestima e a saúde mental dela? Ao seu ver, quais seriam os principais impactos psicológicos? Afeta extremamente. E aí, novamente, eu gosto de trazer exemplos, porque a minha questão é através da vivência,da prática. Quando a gente fala de violência, e aí eu falo muito da referência daqui do CEAM, essas mulheres têm um histórico de vida. Então, a gente não está falando só da violência, porque a demanda é a violência doméstica. Não só em relação àquele relacionamento, seja com o ex-companheiro ou companheiro, seja com a família, porque a violência doméstica não está violada só em relação ao companheiro, mas a família e outros âmbitos também familiares. Então, assim, muitas vezes essa mulher traz o histórico desde a infância. Lares totalmente desestruturados, sofreu muita violência interna, ou violência comunitária. Ou seja, a gente fala de diversas violências que essa mulher vai perpassando ao longo da vida. Então é muito complexo. É muito difícil. São diversos os impactos. E acho que um ponto central, que dentro principalmente de relacionamentos que acabam sendo muito comuns, que mexe, é no ponto da autoestima dessa mulher. E quando essa pessoa não está minimamente estruturada, ou se não tem essa construção, é alvo fácil, e aí mexe muito mais. Se torna uma vítima fácil para aquelas situações. Então, muitas vezes elas não conseguem gerir a vida, muitas vezes ela vai para outras famílias, culminam em tentativas de suicídio, e aí é recorrente, totalmente. Crises de ansiedade, depressão, são muitos pontos, quando se mexe na questão da autoestima dessa mulher. E quando são diversas violências, e muitas vezes está atrelada ao psicológico e ao moral, e aí eu tenho diversos casos, tem casos que essa mulher passou 30 anos da vida dela com aquele agressor, casos que, passou um ano e foi o suficiente para destruir a vida dessa mulher, a pontos de chegar à violência física, tentativa de feminicídio, em graus, muito, muito pesados mesmo. E aí é uma reconstrução com ela, em atendimento. Para aquelas mulheres que têm esse histórico, é muitas vezes tentar ativar nela esse autocuidado, essa autopercepção do que ela passou, entender o que é violência, porque muitas vezes elas falam: “ah, ele só me agride”, ou “só agride” ou “Só me agrediu, né?” Um fator muito forte é a questão da dependência financeira. Mas percebo também em muitos casos que essa mulher é a provedora dentro da casa. E aí, são os casos que mais intrigam, que a gente vai entender que é o lado psicológico, que muitas vezes vai estar atrelado à dependência emocional, porque ela banca. Ela banca essa casa, ela banca a vida dos filhos, ela faz de tudo, ela trabalha, e aí quando a gente está em atendimento, conversa com ela, “mas você percebe que você não precisa de fato dele, porque você consegue isso e isso”. E aí vai dando aqueles insights para ela, né? “Ah, realmente, eu consigo.” Existem casos extremos, que a gente consegue acompanhar, que é a ideia. Que não fiquemos só em atendimentos pontuais ou que se tenha essa limitação de atendimentos. Então é acompanhamento. Eu tenho mulheres que estão desde 2023, quando demos início aqui, e estão até agora. Que tem esse acompanhamento. Tem mulheres que conseguem dar uma reviravolta na vida, e se reconstruir, mas tem outras que é um processo muito difícil. E aí são construções mínimas, que eu sempre falo, em conversas com as meninas. Se uma usuária sai daqui, e eu ainda entendo que ela está dentro desse ciclo de violência, porque ela tem autonomia também para fazer as escolhas dela, mas ela entende que é uma escolha dela estar nesse relacionamento. Mas, caso aconteça algo, ela sabe onde buscar, ela tem orientação, ela vai conseguir se articular. Isso, para mim, já foi um ganho. Entende? Eu não preciso ter, em si, o rompimento de ciclo. Mas, se eu entendo que essa mulher tem essa informação, está mais orientada, sabe onde buscar, sabe como se colocar em uma delegacia, sabe buscar os seus direitos, entender o que é direito dela, isso para mim foi um ganho, para a equipe foi um ganho, para o equipamento foi o ganho! E, muitas vezes, é a informação. A maioria é a informação, é a orientação. Por isso que eu acho que também tem esse entorno delas, né? A gente dá esse empoderamento de, ok, você é um sujeito de direitos. Você está fazendo isso? Você está buscando isso? Às vezes, ela vem para o atendimento e não fala só, em si, da violência, mas fala tudo que perpassa a vida dela. E, reclama de algumas situações que ela queria que estivesse se movimentando. Colocamos o questionamento: “Tá, mas o que você está fazendo em prol disso? Você já buscou tal órgão, tal aquilo? Você tem a dimensão disso?” “Ah, não, nem sabia que tinha ouvidoria para isso.” “Ah, mas tem. Você pode fazer valer o seu direito”. Uma mulher que entrou na assistência devido às assistências sociais, são mulheres que chegam muitas vezes aqui com extrema vulnerabilidade, que parece até, irreal, falar certas coisas diante de tanta informação que a gente tem. “Mas você tem direito à bolsa família.” “Tem? Nunca busquei”. Tem pessoas que, de fato, precisam, não têm social, não tem informação. Parece inacreditável, dentro da nossa realidade, mas tem casos que de fato as informações não chegam. Que vai chegar para todo mundo, mas muitas vezes não vai chegar para todo mundo. 6. Como você fica mediante os atendimentos psicológicos com essas mulheres? Isso te atravessa de alguma forma? Quais seriam seus métodos de distanciamentos? Gente! Vou para a terapia depois dessa pergunta! Então, mais um ponto que a gente também acaba construindo muito em reunião interna. Que a gente precisa se cuidar e se olhar o tempo todo. Não é fácil. Hoje mesmo a gente teve um caso que, sabe aquele que dá um soquinho no estômago? Como elaborar tudo isso? Eu falei, são oito horas do meu dia que eu passo ouvindo sobre violência, passo ouvindo sobre vulnerabilidade, passo ouvindo sobre situações muito extremas e muitas vezes não está nem só atrelado a violência, tem também questões sociais, fome, situações de miséria mesmo. Então, assim, não é fácil. É uma construção diária de autoanálise. Eu estava fazendo terapia, mas parei um pouco, mas acho que é importantíssimo ter esses momentos. Hoje mesmo, a gente conversou em reunião com a direção interna, e falamos muito desse espaço que a gente precisa de ter um momento de fala para a gente se ouvir, se escutar. E a direção humanamente propõe que isso ocorra de forma mais sistemática, porque não é fácil a gente estar em um espaço desse, até mesmo para a gente se distanciar de determinadas situações e não ficar aflorado e acabar saindo daquele teu eixo profissional. É uma autoanálise a todo tempo. É tentar ter esse cuidado fora daqui. Então, se eu consigo ir à academia ou fazer uma caminhada, meus momentos mesmo para que eu possa relaxar. Quando estou aqui eu tento fazer isso. Quando estou de folga com a minha família ou, sei lá, de férias, é estar, de fato, naquele momento e não lembrando daqui dessa construção. Claro que é difícil, porque às vezes eu estou lá em casa e penso na fulana de tal. Tenho que fechar isso aqui. Tenho que pensar naquilo. E eu tenho que construir tal coisa para aquele caso, mas é ficar mesmo em cima disso. Porque senão a gente acaba se perdendo. E aí eu não consigo diferenciar eu enquanto Andressa e eu enquanto profissional. Então, é preciso ter esses espaços. Momentos para relaxar, de verdade. Pensar em outros momentos da minha vida, do meu corpo. Porque, senão, a gente não vive. Relatório do Grupo: O artigo acredita que uma das limitações do estudo possa ser o viés tecnicista dos sistemas de informação de políticas públicas, visto que dificulta o potencial para a cidadania, afinal, investe-se muito em suportes tecnológicos, mas não na qualidade da informação, ficando evidente mais a busca por números do que a singularidade de cada caso representado. O artigo traz uma realidade que se assemelha em alguns aspectos, como, por exemplo, o fato de os geradores de violência serem em sua grande maioria parceiros ou ex-parceiros íntimos das vítimas. Entretanto, divergem quando o estudo aponta o recebimento das informações preliminares da mulher em questão. Visto que, a política do programa é a referida “portas abertas”,aonde a partir do momento que a mulher se vê necessitando de algum auxílio, ela não precisa necessariamente fazer um cadastro inicial. Ela tem a possibilidade de ir diretamente a um dos locais e buscar informação. Raros são os casos onde essa mulher é encaminhada com uma ficha já preenchida. Estes casos, quando ocorrem, são casos de extrema violência, onde geralmente essas mulheres são recebidas em hospitais ou delegacias, e são encaminhadas posteriormente para o início do acompanhamento. Neste programa em específico, os casos são construídos individualmente e a partir de uma procura da beneficiária. Outro ponto ao qual o artigo traz como uma preocupação, é o fato da variável “mulheres trans” e “orientação sexual” não serem contabilizadas. Essa situação nos deixa sem vislumbrar se tais mulheres fazem uso ou não da política pública municipal. A unidade visitada, possui mulheres trans sendo amparadas pelo projeto, mas não se sabe a porcentagem, o mesmo acontece da referida orientação sexual, sabe-se que possui pelas conversas e não pelos números. Novas pesquisas devem ser realizadas abordando principalmente a realidade deste campo profissional em outros estados do Brasil, observando o atendimento nos serviços públicos e provados e identificar a percepção de outros profissionais. Relatório Individual: Para compor esse relatório você deverá consultar o artigo ligo, o seu relatório de grupo e comentar ponto a ponto os tópicos que foram desenvolvidos durante a disciplina, as reflexões, o código de ética, suas impressões e como a pesquisa e a correlação com a realidade do profissional entrevistado pode contribuir para que você ampliasse seu olhar acerca da psicologia e sua forma de atuação e intervenção profissional. Referências Bibliográficas: SCHNEIDER, Amanda Momberger; MOREIRA, Mariana Calesso. Psicólogo intensivista: sobre uma formação profissional sem âmbito hospitalar, formação e prática profissional. Temas psicol., Ribeirão Preto , v. 25, n. 3, p. 1225-1239, conjunto. 2017. Disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-389X2017000300015&lng=pt&nrm=iso . acessos em 11 mar. 2022.