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Slide 1 Epistemologia Slide 2 Conhecimento O cientista não se distingue por aquilo em que acredita, mas sim por procurar (1) fundamentos para aquilo em que acredita. Acredita em (2) hipóteses bem fundamentadas, não em teorias verdadeiras. Suas crenças são (2) conjecturais, não dogmáticas; não são baseadas na autoridade ou na intuição, mas sim nas (3) evidências e razões”. Karl Kautsky Conhecimento. Definição tradicional: crença, ou informação, verdadeira e justificada. (1) Entretanto, não temos como saber se algo é verdadeiro, logo, o que vale é a devida (racional) fundamentação, de sorte que que o enunciado “p está provado” deve ser entendido como sinônimo de “há elementos de prova suficientes a favor de p”. A fundamentação deve ter poder explicativo ou preditivo, isto é, ela deve ser capaz de explicar racionalmente as evidências. Slide 3 Ex.: teoria da gravidade: a partir dela podemos deduzir fatos (se a considerarmos como verdadeira e soubermos a massa dos astros ao próximos, podemos prever ou explicar o comportamento de determinado astro). Esse requisito (da fundamentação racional) será adiante mais desenvolvido, ao vermos epistemologia do direito e fundamentação racional. (2) Para um determinado conhecimento ser considerado científico não basta que seja bem fundamentado. Ele precisa ser passível de ser falseado. Karl Popper e a garantia da falseabilidade (natureza hipotética) Exemplos de proposições que podem não ser falseáveis: Existe um dragão invisível, intangível e indetectável vivendo na minha garagem Existe uma força invisível que controla todos os eventos do universo, mas que não pode ser detectada por nenhum instrumento. Complexo de Édipo Piscianos devem evitar decisões importantes nessa semana, a menos que estejam seguros. Slide 4 (3) O mérito da ciência não é “apresentar verdades”, mas manter aberta a discussão sobre elas. A ciência mira na verdade, mas nunca saberemos se a atingimos. Sendo assim, as leis e teorias científicas possuem natureza conjectural, de hipótese. Os nomes “lei” e “teoria” servem para indicar que se tratam de hipóteses muito bem consolidadas. Lembrem-se: fora da matemática e da lógica, somente a falsidade pode ser provada com certeza. Observação: hipótese –> teoria (ao ser bem confirmada) –> Lei (ao adquirir aceitação universal). Nomenclatura inconsistente e enganadora. Exemplos: na física temos as leis do movimento de Newton (lei da inércia, da dinâmica e da ação e reação) e a teoria da relatividade; na química a “teoria molecular da matéria”; em biologia a “teoria celular”. São conjuntos de hipóteses tão bem fundamentadas que encaramos como verdades. (4) O quarto requisito do conhecimento científico é que ele deve ser baseado evidência. Slide 5 Toda verdade envolve algum tipo de correspondência entre uma proposição ou declaração (em sentido amplo) e a realidade. A evidência é a ponte entre uma coisa e outra. Assim, se uma proposição não expressa relações puramente lógicas ou matemáticas, deve se basear em evidências. A palavra “evidência” é muita vezes usada como sinônimo de prova ou de premissa, mas aqui usaremos evidência para se referir às coisas no mundo real que são mobilizadas para se realizar uma prova. Já o nome “prova” deve ser encarado como equivalente a argumento ou cadeia argumentativa. Exemplo de evidências: um documento, uma arma, uma marca, objetos materiais etc. Vejamos: a marca de uma digital é apenas uma coisa, nada prova. Quando um indivíduo, diante da marca de uma impressão digital em determinado objeto conclui que alguém tocou nele, o faz devido ao conhecimento que associou a essa marca (uma digital): toda pessoa possui essa marca (uma digital); e nada, a não ser pessoas, possuem essa marca. Logo, se há uma digital em um objeto, é porque uma pessoa tocou nele. Slide 6 A prova, é portanto, o argumento e a digital é apenas uma marca física, a evidência. Por economia podemos dizer a “evidência prova”. Isso não está errado se for encarado como uma abreviação, afinal, o que prova algo efetivamente é um argumento que parte de proposições bem evidenciadas. Para perceber isso com clareza podemos pensar na seguinte situação: um policial, diante da marca de uma impressão digital em determinado objeto e de um banco de dados que contém o registro de fotos das mais variadas pessoas e suas respectivas digitais, conclui que Maria foi pessoa que tocou no objeto marcado. Essa conclusão ocorre mediante um raciocínio, frequentemente, automático, daí porque temos a sensação de que a marca de digital é que prova. Porém, para perceber que a prova de algo é um argumento (e não a evidência) basta pensar em uma criança (filho do policial) indagando: “pai, não entendi, como o senhor sabe que foi a Maria que tocou no objeto somente por essa marca?” Nesse caso, o pai exporia o raciocínio completo, o que mostra que ele (o argumento que representa o raciocínio) é que é a prova e não a evidência em si. Vejamos: Slide 7 P1: A digital é uma marca única que toda pessoa possui P2: Há um registro com as digitais de cada cidadão e eu tenho acesso a ele P4: Encontramos a marca de uma digital no vaso de cerâmica do museu X. P5: Ao conferir a marca encontrada no vaso com aquelas que tenho no registro, só a de Maria correspondeu. ---------------------------------------------------------- Logo, foi Maria que tocou nesse objeto. Essa é a prova completa. Como já conhecemos essas proposições triviais associadas ao conhecimento básico do que é uma digital, não as explicitamos e, por abreviação, dizemos que a marca da digital prova que Maria tocou no objeto. Slide 8 Epistemologia do Direito – fundamentação racional Slide 9 O que é uma boa fundamentação? O que é uma boa prova? As hipóteses precisam ser articuladas racionalmente para que sejam consideradas como “justificadas”, “fundamentadas” ou “provadas”. Para uma teoria ou conclusão ser considerada como provada é necessário: (1) partir de premissas verdadeiras; (2) os termos empregados terem sentidos bem delimitados; (3) o método de inferência ser respeitado; (4) a prova cumprir sua função no processo. 1) Premissas verdadeiras. Sempre partimos de algum lugar. Se esse pilar se revela falso, nossa conclusão será maculada. 2) Clareza e delimitação dos termos. Vedação quanto à flutuação do sentido de algum termo empregado na mesma argumentação. Exemplo: P1. Até antes de iniciar o governo Dilma, o número de estupros era x P2. Ao final do governo Dilma, o número de estupros era 7x C. Logo, a quantidade de estupro aumentou 7 vezes no governo Dilma Em P1 ‘estupro’ tem o sentido de ‘ato libidinoso sem consentimento e, necessariamente, com conjunção carnal’. Já em P2 ‘estupro’ tem o sentido de ‘ato libidinoso sem consentimento, independentemente de conjunção carnal’ Slide 10 Esse erro (de flutuação quanto ao que uma palavra se refere) é chamado de falácia do equívoco, anfibolia ou equivocação. Obs.: Vimos que um argumento pode conter 4 tipos de erro que são fatais e que o primeiro tipo de erro fatal é incluir no argumento ao menos uma premissa falsa. Todos os demais tipos de erro podemos chamar de falácia. Exemplo 2: P1. O elefante é um animal C. Logo, um elefante cinza é um animal cinza. P1. O elefante é um animal C. Logo, um elefante pequeno é um animal pequeno Slide 11 No Direito o sentido de um termo é muitas vezes objeto de disputa. Ex.: quando a lei fala em ‘casa’ ou ‘domicílio’ deve-se incluir o carro ou o escritório (interpretação ampliativa)? Nas ciências humanas os conceitos costumam ser mais difíceis de definir e, já por esse motivo, elas podem ser consideradas menos científicas. Exemplos: “pobreza” “democracia”, “golpe”, “revolução”, “cultura woke” etc. Todos eles são genéricos e ambíguos. Basta comparar com alguns conceitos das ciências naturais e exatas para percebemos a diferença de precisão: água = h2O, Força = massa x aceleração; Triângulo = polígono com 3 lados etc. Quanto mais precisamente são definidos os termos, menos chances há de ocorrer essa falácia. Notem que nas ciências humanas aambiguidade é maior, por isso há mais imprecisão e maiores são as chances de ocorrência dessa falácia. Slide 12 Exemplo: uma pesquisa da área de Sociologia se propõe a analisar o papel da universidade na sociedade brasileira. Como a primeira universidade surgiu apenas na década de 1920, a hipótese aponta fatores históricos desse contexto para justificar o referido aparecimento (ex.: somente a partir desse ano o Brasil se industrializou; surgiu uma classe média que antes não havia etc.). Entretanto, todas essas hipóteses explicativas caem por terra se for demonstrado que já existiam instituições com a mesma estrutura antes e o que mudou em 1920 foi apenas a nomenclatura. Vejamos um argumento que representa esse erro de raciocínio: P1 – Universidade é uma instituição que possui tais e tais funções P2 – A primeira universidade no Brasil somente surgiu em 1920 C – Logo, a primeira instituição que possui tais e tais funções no Brasil somente surgiu em 1920. Slide 13 A conclusão acima é falsa não porque alguma premissa é falsa, mas porque o sentido de universidade varia em cada premissa. Na primeira, universidade é definida através de um sentido material (pela função que ocupa), na segunda é definida por um critério formal (só universidade as instituições formalmente reconhecidas como tal, independentemente da função exercida). 3) Método de inferência. Não é raro que as pessoas compreendam “método científico” como um método único, normalmente aquele praticado por cientistas que integram as ciências naturais. Entretanto, o método varia conforme o objeto investigado. Determinados métodos de investigação contém mais raciocínios dedutivos enquanto outros contém mais raciocínios indutivos. Cada um deles dá origem a uma espécie de falácia: dedutiva ou indutiva. Falácias Dedutivas: Ocorre um erro no processo de dedução, ou seja, a intenção do argumentador é realizar uma dedução e, mesmo considerando as premissas como verdadeiras e não havendo oscilação no sentido das palavras empregadas no argumento, a conclusão pode ser falsa. Slide 14 Considere-se os seguintes exemplos: P1. Sempre que chove molha tudo P2. Está tudo molhado C. Logo, certamente choveu Note-se que P1 apenas diz que se chove molha tudo, mas isso não quer dizer que se está tudo molhado é porque choveu. Pode ser que outro evento tenha causado isso: encanação estourada, criança com uma mangueira etc. P1. Todas as rosas são flores. P2. Algumas flores murcham rápido. C. Logo, com certeza, algumas rosas murcham rápido Slide 15 Apesar de alguns flores murcharem rápido, pode ser que toda rosa murche devagar. Nesse caso, as premissas são verdadeiras, mas a conclusão continua sendo falsa. P1. Se sua namorada descobrir sua traição, ela terminará com você. P2. Porém, ela nunca vai descobrir essa traição. Logo, com certeza, ela nunca terminará com você. Apesar de serem vários os erros dedutivos possíveis, aqui só cobraremos 2 tipos: afirmação da consequente e negação do antecedente. Antes de ver os tipos de erros indutivos precisamos ver um tipo de erro que tanto pode ser considerado dedutivo (pela nossa convenção, caso a conclusão seja prometida ‘com certeza’) como indutivo: irrelevância. Trata-se do caso em que a(s) premissa(s) não tem relevância para provar a conclusão (note que no exemplo da chuva, acima, o conjunto de premissas é relevante para conclusão, pois P1 e P2 aumentam a chances da conclusão ser verdadeira, apenas não a garantem com certeza). Slide 16 P1. Alípio está no Japão C. Logo, Alípio vai morrer. Note-se que a premissa não explica a conclusão, entretanto, isso costuma ocorrer de forma mais disfarçada. Avaliem o seguinte argumento: P: Se todas as pessoas fossem veganas, a economia seria seriamente afetada e muitas pessoas perderiam o emprego. C: Logo, o veganismo é uma prática insalubre e deve ser evitada ------------------------------------------------------------------------------------------------------------- P: Questionar a justeza dos EUA na guerra mexicana de 1848 é antipatriótico e daria conforto aos nossos inimigos ao promover a causa do derrotismo. C: Logo, os EUA foram justos na guerra mexicana de 1848 Slide 17 P.1. Se deus não existir, então a vida não tem sentido. P.2. O fato da vida não ter sentido provoca angústia e sensação de vazio. C. Logo, deus existe. Falácias indutivas: ocorrem quando a intenção do argumentador é realizar uma indução, ou seja, ele não promete certeza à conclusão, entretanto, mesmo considerando as premissas como verdadeiras, a conclusão não é provável. Obs.: não é porque uma conclusão contém a expressão ‘provavelmente’ que o argumento é indutivo, afinal, ele pode ser dedutivamente válido (um argumento dedutivamente válido não depende de intenção, basta analisar a relação entre as premissas e a conclusão). Exemplo: P1. Se algo é um gato, provavelmente mia. P2. Nelma é um gato. C. Logo, Nelma, provavelmente mia. Slide 18 Esse argumento é considerado dedutivo porque a conclusão ‘Nelma provavelmente mia’ é necessariamente verdadeira, caso P1 e P2 sejam tomadas como verdade. Entretanto, observe que não é certo o fato de que ‘Nelma mia’, o que é garantido com certeza é que esse fato é provável. Isso acontece porque nesses casos o ‘provavelmente’ já está contido no conjunto das premissas, assim, os cálculos indutivos já foram feitos e as premissas já contém o que é provável (os cálculos indutivos ocorrem justamente para descobrir o que é provável diante de determinados dados). Logo, passar esse ‘provavelmente’ (já contido nas premissas) para conclusão exige apenas raciocínio dedutivo. Por outro lado, muitas vezes, nas premissas temos apenas determinados dados e o ‘provavelmente’ aparece apenas na conclusão. É nesse caso que determinados requisitos (ligados à lógica indutiva, probabilística) precisam ser atendidos para que a conclusão possa traduzir esses dados em ‘provavelmente’. Aqui veremos apenas 2 desses requisitos, cada um deles, se não atendidos, leva a um tipo específico de falácia: amostragem pequena e amostragem enviesada. Vejamos alguns exemplos: Slide 19 P1. Eu fui para o Batistão no domingo e perguntei para 20 torcedores se acreditam que o prefeito está fazendo um bom trabalho. P2. 19 dos 20 torcedores disseram "NÃO". C. Logo, provavelmente, a maioria da população da cidade desaprova a gestão do prefeito. Existem regras de lógica indutiva que determinam requisitos para que possamos dizer se dado evento é provável. Uma dessas regras é que o tamanho da amostragem precisa ser suficiente. Ou seja, para afirmar algo sobre um determinado universo de análise, há um calculo para determinar qual é o tamanho da amostragem ideal. Vocês não precisam saber esse cálculo, mas precisam identificar os casos óbvios, em que claramente a amostra é pequena demais. O último exemplo foi exatamente o caso. O universo de análise corresponde a todos os eleitores da cidade de Aracaju. Claro que entrevistar 20 pessoas em um estádio de futebol é muito pouco para saber algo sobre todo esse conjunto. Slide 20 Para tornarmos esse argumento válido indutivamente precisaríamos ter uma premissa no sentido de que a amostragem utilizada é suficiente, em tamanho, e representativa, o que é, obviamente, seria falso. Exemplo 2: imagine uma situação em que um estudo diz que cigarro aumenta as chances em 70% de alguém ter câncer de pulmão. Diante dessa afirmação, um interlocutor alega: que nada, meu tio fumava uma carteira por dia e morreu com 100 anos e apenas porque tomou uma queda, nada teve a ver com seu cigarro. Transformem esse raciocínio em argumento e o erro ficará evidente: meu tio fumava uma carteira por dia, viveu 100 anos, e nunca teve qualquer complicação advinda do cigarro. Logo fumar até uma carteira por dia não provoca câncer de pulmão (como afirmar isso com base apenas em um caso?) Slide 21 Exemplo 3: uma pesquisa sociológica apontou que escolas menores são melhores, a partir de determinados testes. Isso levou a Gates Foundation a fazer um grande investimento na criação de pequenas escolas evárias outras instituições proeminentes se juntaram à iniciativa, inclusive, o próprio Departamento de Educação dos Estados Unidos. No entanto, havia um erro no raciocínio indutivo: a amostragem dessas escolas é consideravelmente menor, daí porque os resultados são mais propensos a serem extremos e não representarem a média real. Isso explica por que as piores escolas também eram as menores. Obs.: Sobre amostragem pequena em argumentos sociológicos ou em ciências humanas em geral acontece muito o seguinte: tal país fez X e deu certo, logo vamos fazer X; o país X e país Y adotaram o socialismo e não deu certo, logo o socialismo não deve ser adotado. Nesses casos, além do clássico problema, de se chamar coisas bem diferentes de socialismo, como a experiência x e a experiência y, há ainda a amostragem extremamente pequena, afetada por variáveis particulares de cada processo histórico (embargos econômicos em Cuba, por exemplo). Slide 22 Amostra enviesada: uma pesquisa presidencial realizada nos Estados Unidos da América, em 1936, apontou a vitória de Alfred Landon sobre Roosevelt com vantagem considerável. O tamanho da amostragem era adequado, mas a seleção foi enviesada: as pessoas entrevistadas foram escolhidas a partir de catálogo de listas telefônicas (quando só os mais ricos detinham linha telefônica) e de pessoas assinantes da própria revista que realizou a pesquisa (também pessoas mais ricas) etc. A amostragem não foi representativa, pois pessoas mais ricas foram selecionadas, e Roosevelt venceu a partir dos votos dos mais pobres. Note-se que vimos apenas 2 tipos de falácias indutivas: amostragem pequena e amostragem enviesada. Assim, uma dica de valor pragmático para prova consiste no fato de que se a questão contiver um erro de amostragem a falácia será necessariamente indutiva (pequena ou enviesada). Slide 23 Refinando a diferença entre argumento indutivo e dedutivo: P1. Ronaldo teve um infarto com 18 anos e não tem problema genético conhecido no coração P2. Anabolizantes costumam gerar problemas cardíacos P3. Se alguém é jovem, não usa anabolizante e não tem problema genético conhecido no coração, então a chance de um infarto repentinamente é baixa C. Logo, provavelmente Ronaldo usou anabolizante Note-se que a conclusão ‘provavelmente Ronaldo usou anabolizante’ parece certa (ela é certa se considerarmos que tudo que conhecemos é tudo que há). Sempre que, indutivamente, indicamos uma probabilidade, isso significa que aquela é a probabilidade determinada em função das premissas disponíveis. Se novas informações forem apresentadas, a conclusão pode ser atacada. Slide 24 Essa é uma das diferenças entre o argumento dedutivo e o argumento indutivo. No dedutivo, se as premissas forem verdadeiras, a conclusão deve ser necessariamente verdadeira e nada pode mudar isso. No indutivo, novas informações podem refutar o argumento sem contradizer as premissas. Pense-se, por exemplo, que Ronaldo trabalha em uma fábrica em contato com um químico cuja probabilidade de acarretar ataque cardíaco é bem maior do que a do anabolizante. Poderíamos atribuir valores a tais aos dados a ponto de que não seria provável que Ronaldo tenha tomado anabolizante, já que a probabilidade maior, diante desses novos dados, seria a de que o solvente causou o infarto. Assim, um argumento indutivo válido e com as premissas verdadeiras, pode ser atacado a partir de informações que não foram considerados no argumento (omissão de premissas). Por outro lado, um argumento dedutivamente válido, com as premissas verdadeiras, é invencível. Slide 25 ARGUMENTAÇÃO E PROCESSO DE COMUNICAÇÃO RACIONAL 4) Função da prova Vimos que para enfrentar um argumento é necessário atacar um daqueles 3 pontos que já vimos: (1) contestar, ao menos, uma de suas premissas, explícitas ou implícitas; (1.1) ou apresentar novas premissas que, quando consideradas, alteram a conclusão do argumento (esse erro não vimos); (2) contestar a alternância no sentido de algum termo empregado mais de uma vez na mesma argumentação; (3) contestar o método de inferência. Agora iremos adicionar mais um critério: é possível ainda 4) contestar a função do argumento no processo de comunicação. Em resumo: 1) Problemas nas premissas 2) Problemas de oscilação no sentido dos termos 3) Problemas no método de inferência 4) Problemas na lógica processual (quanto à função do argumento no processo de racional comunicação) Processo racional de comunicação é aquele cuja intenção é a resolução racional de uma controvérsia. Esse requisito deve ser observado em qualquer campo científico, mas é notadamente mais importante onde impera o raciocínio indutivo sem quantificação (no Direito, por exemplo). Slide 26 Os três primeiros tipos de erro podem ser percebidos considerando o argumento isoladamente. Todavia, esse quarto tipo erro (falácias processuais), somente pode ser captado considerando o argumento no contexto de um processo racional-argumentativo de comunicação, tal como o judicial. Em um processo de comunicação racional-argumentativo, qualquer argumento somente ter 2 funções: argumentos de alegação cuja função é provar uma proposição ou ponto de vista; e argumentos enquanto contestação cuja função é atacar um outro argumento, invalidando-o enquanto prova. Falácia processual de alegação. Ocorre quando o argumentador não prova a proposição que prometeu provar no processo racional de comunicação. Normalmente essa falácia é persuasiva quando o argumento, tomado isoladamente, é bom, isto é, quando as premissas provam a conclusão. Entretanto, o argumento falha porque a conclusão que se prometeu provar no processo não foi a mesma que efetivamente se provou. Vejamos um exemplo: Slide 27 Exemplo: 2 amigos discutem se torcer para um time de fora do Estado é subserviência cultural (entendida como consumir a cultura de outro lugar em vez em vez da cultura correspondente que existe onde você foi criado). Um deles argumenta: P1: o flamengo tem torcida em todos os Estados e aqui eu observava desde pequeno várias pessoas que torciam por ele P2: cresci vendo o flamengo jogar como um programa familiar que remonta a uma tradição do tempo de meus avôs C: Logo, me parece bem razoável que eu torça por ele. A discussão não gira em torno do aspecto moral da ação, isto é, se tal postura é mais ou menos virtuosa. O debate é sobre se o fato se enquadra ou não no conceito de subserviência cultural, previamente declarado. Slide 28 Caso prático: uma denúncia anônima foi feita ao MP. A pessoa que realizou a denúncia o fez por email, usando o email de sua turma da graduação, cujo endereço é o nome do professor. O professor dessa disciplina é o juiz Mévio. O MP apurou a denúncia e não encontrou irregularidade na questão denunciada. Ao dar satisfação ao juiz, este informou que não fez denúncia alguma. O MP, então, enviou os autos para a delegacia a fim de se apurar se houve crime de falsa identidade (art. 307 do CP). A polícia investigou o caso, descobriu o PC do qual saiu a mensagem anônima e, efetivamente, nessa casa residia um aluno do professor Mévio que, portanto, tinha acesso ao email usado para enviar a denúncia. Indiciou, portanto, o aluno. O aluno negou a autoria. Seus argumentos foram todos no sentido de negar o fato de que foi ele que enviou a mensagem (deve ter ocorrido algum erro). O delegado não acatou esses argumentos e mandou o inquérito para o MP afirmando que estava provado o crime de falsa identidade. Seu argumento pode ser resumido dessa forma: Slide 29 P1: o indiciado possui acesso ao email usado para enviar a denúncia P2: a denúncia saiu de um computador na casa onde o indiciado reside. P3. [A ocorrência de um erro (ao determinar o PC de onde saíram as mensagens) é muito improvável. Mais ainda quando se constata que o PC apontado pertence a alguém que tinha acesso ao email da turma.] Logo, o mais provável é que o indiciado tenha enviado as mensagens em questão. Slide 30 O argumento é perfeito indutivamente. Entretanto, não foi essa conclusão que se prometeu provar. Ninguém podeser punido por ter enviado mensagens. O que se prometeu provar foi que o acusado cometeu o crime de falsa identidade, mas ele não se passou pelo juiz, ao contrário, sequer assinou a mensagem, deixou esse campo anônimo. Apenas usou um email coletivo (da turma) para não ser identificado Slide 31 Falácia de contestação ou resposta: responder ao argumento de alguém como se o estivesse superando quando, em verdade, o argumento nem sequer foi atacado. Exemplo: considere um caso em que uma defensora de uma dieta sem açúcar, Paula, trouxe um pesquisador e autor que tem um Ph.D. em nutrição para dar uma palestra sobre dieta. O palestrante afirmou que as pessoas não deveriam comer açúcar porque causa alergias alimentares, problemas endócrinos, hipoglicemia, diabetes, doenças cardíacas, câncer etc. Uma pessoa da plateia, Herbert, fez algumas objeções durante o período de perguntas que se seguiu à palestra. Mas Paula interveio, apoiando o ponto de vista do palestrante: Herbert: Eu acho que você precisa de açúcar para se manter vivo e, de qualquer maneira, se você não comesse nenhum açúcar, seu corpo produziria glicose (uma forma de açúcar) de qualquer coisa que você comesse. Não acredito que o açúcar cause todos esses transtornos. - Paula: Bem, o que você sabe sobre isso afinal? Você é nutricionista? - Herbert: Não. Paula: Exatamente o que eu pensei. Próxima questão. Slide 32 O argumento de Paula pode ser interpretado como uma abreviação do seguinte raciocínio: “X é um pesquisador PhD e você (Herbert) é um leigo, nem sequer é nutricionista; um pesquisador com as referências que ele possui detém um conhecimento muito maior e mais refinado dentro de sua área do que um leigo; essas ideias que agora você está contestando foram obtidas através de rigorosos estudos; além disso, foram apresentadas a vários outros especialistas, que não encontraram erros. Logo, provavelmente você está errado em sua discordância”. Note-se que o argumento de Paula é bom. Eu também apostaria que o especialista tem razão, nesse caso. Porém, se a intenção é estabelecer um processo de comunicação racional-argumentativo, então Paula não pode rejeitar o argumento de Hebert sem atacá-lo. Lembre-se: aquele é o momento na palestra em que o argumento do ouvinte deve ser respondido. Para contestar um argumento é necessário impugnar uma dos 4 elementos antes citados [premissas, sentido (referência), método de inferência, não cumprimento da função]. Sem enfrentar ao menos um desses pontos o argumento não foi atacado. Slide 33 Nesse caso, o argumento de Hebert continua valendo enquanto prova já que não foi atacado. Paula pode até vencer o debate porque entre os 2 argumentos de alegação, o dela pode ser avaliado como melhor. Entretanto, isso já será uma questão de sopesamento, que veremos a seguir. SOPESAMENTO Exemplo: pense-se em um processo do MP contra fábrica (alegando poluição em um rio) vs uma Fábrica (alegando a não ocorrência de poluição). Provas resumidas pela evidência principal: A favor do MP: peixes mortos A favor de MP: doenças nos moradores que não tinham antes - A favor da fábrica: perícia técnica. * Se eu anular umas das provas do MP, não quer dizer que ele vá perder. Slide 34 Se você não consegue encontrar erro no argumento do adversário, mas conhece um argumento que entende melhor é preciso confessar isso expressamente. Quando isso ocorre ou, de modo geral, quando os argumentos de contestação não atingem sua finalidade de invalidar os argumentos enquanto prova, então os conjuntos de provas que apontam cada um para um lado somente podem ser avaliados por sopesamento. Note-se que nesse último exemplo o MP pode ter uma prova invalidada e mesmo assim ganhar a ação. A fábrica poderia provar que os peixes morreram devido a um fenômeno da natureza. Nesse contexto, restariam apenas a doença das pessoas, de um lado, e a perícia técnica do outro. Nesse contexto, imagine-se que médicos afirmam a mesma coisa: essa doença, provavelmente, decorre de um tipo produto que fábricas usam, inclusive essa. Entretanto, não sabem quantificar esse provavelmente. O que resta, então, são duas provas válidas apontando para lados opostos. Slide 35 Nesse caso, os argumentos não contém erros e são válidos enquanto prova. A resolução de uma confronto argumentativo por sopesamento confere um espaço de discrionaeriedade maior para o julgador. O sopesamento é uma forma de resolver disputas entre dois conjuntos de provas válidas (bons argumentos), isto é, nenhum deles contém erros fatais (falácias) e precisamos sopesar para decidir qual é o melhor argumento. O sopesamento ocorre, na maioria das vezes, nas ciências humanas, sobretudo na prática jurídica. Exemplo 2: Suponha-se que existe uma correlação real entre pessoas que cantam em bandas de rock e que fumam cannabis, de modo que seria verdadeira a seguinte proposição: se a pessoa é um cantor de rock, então, provavelmente já foi ou é usuário de cannabis (sabemos apenas que mais de 50% das pessoas que cantam em bandas de rock ao menos já usaram cannabis. Não sabemos o valor exato, só que é uma boa regra geral). Nesse contexto alguém argumenta: Slide 36 (Se a pessoa é um cantor de rock, então, provavelmente já foi ou é usuário de cannabis) X é cantor de rock Logo, provavelmente X usa ou já foi usuário de cannabis A esse argumento, seu amigo responde: X é religioso, possuiu educação rígida e já se posicionou publicamente contra a legalização da cannabis (se a pessoa é religiosa, possui educação rígida e se posiciona publicamente contra a legalização da cannabis, então provavelmente nunca foi usuário de cannabis) Logo, provavelmente, X nunca foi usuário de maconha. Da mesma forma, sabemos que mais de 50% das pessoas que são religiosas, possuem educação rígida e se posicionam publicamente contra a legalização da cannabis nunca foram usuárias de cannabis. Mais uma vez: não sabemos o valor exato, só que é uma boa regra. Slide 37 Claro que a regra pode não ser confiável, entretanto, esse seria um problema no campo da premissa. A questão que ora interessa é: mesmo que as duas regras sejam confiáveis, como saber a que tem mais peso, se não podemos quantificar sua força? É nesse campo que entra a livre convicção do juiz. Exemplo 2: suponha-se um processo para determinar se o incêndio em uma fábrica foi criminoso ou não. O laudo do perito indica (sem força de certeza e sem quantificação) que houve falha no sistema e não sabotagem. No entanto, uma testemunha pode dizer que viu determinada pessoa em um lugar suspeito, em que não deveria estar, e, em paralelo, descobre-se que a tal pessoa (a que estava onde não deveria) possuía um motivo para sabotar: havia sido demitido por justa causa naquele dia. Se nenhuma das provas foi contestada com sucesso, então teremos provas válidas que apontam para lados opostos e nenhuma delas quantificada objetivamente. Isso significa que a testemunha estava sóbria, não possui interesse nem motivação aparente para mentir, não se contradisse em relação a questões essenciais etc. Por outro lado, a perícia foi realizada pelo procedimento padrão em todo o mundo, ninguém foi capaz de apontar qualquer erro no procedimento. O caminho é o sopesamento. Slide 38 Exemplo 3: Em uma noite de sábado, Renato Drummond, empresário de 45 anos, foi encontrado morto em sua própria sala, com um único disparo no peito. A porta estava trancada por dentro. Não havia sinais de arrombamento. Drummond era casado com Letícia, 38 anos, com quem vivia em regime de separação de fato há cerca de oito meses, embora ainda residissem na mesma casa. O casal tinha dois filhos adolescentes. Letícia era a principal beneficiária do seguro de vida do marido, no valor de R$ 2 milhões. Na noite do crime, Letícia afirma que estava no quarto, assistindo televisão, e que ouviu o disparo por volta das 23h. Ela teria então descido as escadas, encontrado o marido caído e chamado o SAMU. Os filhos estavam dormindo. A perícia constatou que a arma encontrada ao lado do corpo pertencia ao próprio Drummond, registrada em seu nome.As digitais na arma eram exclusivamente dele. O laudo do Instituto Médico Legal, no entanto, apontou que o ângulo do disparo era de difícil execução de forma voluntária. O Ministério Público denunciou Letícia por homicídio doloso. A defesa sustenta que se trata de suicídio. Slide 39 Ministério Público - Ponto de vista: Letícia matou Drummond P1 — Letícia era a principal beneficiária de um seguro de vida de R$ 2 milhões, o que configura motivo econômico relevante. P2 — O casal vivia em separação de fato há oito meses, dentro da mesma casa, o que indica um ambiente de conflito e tensão conjugal. P3 — O laudo do IML apontou que o ângulo do disparo era de difícil execução de forma voluntária. C — Logo, Letícia matou Drummond. Defesa - Ponto de vista: Drummond tirou a própria vida P1 — A arma encontrada ao lado do corpo era registrada em nome do próprio Drummond, indicando que ele tinha acesso habitual a ela. P2 — As únicas digitais encontradas na arma eram as de Drummond, sem qualquer vestígio de terceiros. P3 — A porta da sala estava trancada por dentro, sem sinais de arrombamento ou de entrada forçada. C — Logo, Drummond tirou a própria vida. Slide 40 Se nenhuma das provas foi contestada com sucesso, então teremos provas válidas que apontam para lados opostos e nenhuma delas quantificada objetivamente. Observação: por mais que haja uma certa margem de discricionariedade para realizar sopesamentos. À medida que os juízes começam a se posicionar por determinados entendimentos, vai se formando uma jurisprudência que deveria ser respeitada (países que adotam o common law são mais rigorosos com a necessidade seguir a jurisprudência. Isso conduz a um sistema judiciário mais racional e menos arbitrário). Tudo que se disse até aqui decorre exclusivamente da lógica que permeia qualquer processo racional de comunicação como um processo judicial, entretanto, apenas para reforçar o dever de fundamentação racional dos julgadores o CPC introduziu o art. 489, §1º Slide 41 Art. 489 § 1º: não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela interlocutória, sentença ou acórdão, que: I - se limitar à indicação, à reprodução ou à paráfrase de ato normativo, sem explicar sua relação com a causa ou a questão decidida; II - empregar conceitos jurídicos indeterminados, sem explicar o motivo concreto de sua incidência no caso; III - invocar motivos que se prestariam a justificar qualquer outra decisão; IV - não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese, infirmar a conclusão adotada pelo julgador; V - se limitar a invocar precedente ou enunciado de súmula, sem identificar seus fundamentos determinantes nem demonstrar que o caso sob julgamento se ajusta àqueles fundamentos; VI - deixar de seguir enunciado de súmula, jurisprudência ou precedente invocado pela parte, sem demonstrar a existência de distinção no caso em julgamento ou a superação do entendimento. O artigo 489, §1º do CPC explicita muito bem o que significa seguir a lógica em um processo racional de comunicação. O conteúdo dessa lei apenas é importante por razões políticas, pois, logicamente falando, tal conteúdo está compreendido pelo “direito ao devido processo legal ( art. 5º, LIV da CF)” e pelo “direito à fundamentação das decisões judiciais (art. 93, IX da CF)”. Slide 42 Análise de argumentos. Norteamento 1. Se o argumento não estiver formalizado, faça a extração do argumento, formalizando-o (etapa optativa). 2. Observe se as premissas são verdadeiras. Se uma premissa for falsa a prova está comprometida. 3. Observe se há oscilação quanto à referência dos termos que se repetem. Em caso positivo, a prova está comprometida: falácia do equívoco. 4. Não havendo premissas falsas, nem oscilação da referência, passamos à análise do método de inferência. (A) primeiro passo dessa análise: analisar se o argumento é dedutivamente válido, se não for, e a conclusão for indicada ‘com certeza’, qualquer erro na passagem das premissas para a conclusão será considerado dedutivo. (A.1) lembre-se de observar a relevância entre as premissas e a conclusão. Se as premissas forem irrelevantes haverá falácia (de irrelevância, que pode ser considerado um erro dedutivo ou indutivo). (B) Por outro lado, se a conclusão não for prometida com certeza, qualquer erro na passagem das premissas para conclusão será indutivo. Tais erros são chamados de falácias indutivas. Aqui vimos 2 erros específicos dessa natureza: amostragem pequena e enviesada Slide 43 5. Com os 4 primeiros passos, você analisou o argumento fora de qualquer contexto (tanto que nada contextual foi levado em conta). Entretanto, se o argumento integra um processo racional-argumentativo de comunicação, também devemos analisar se ele cumpre a função que desempenha no processo. Primeiro passo: observar se o argumento pretende provar um ponto de vista no processo ou se pretende contestar outro argumento como prova. (A) Caso seja um argumento de alegação, devemos analisar não se a conclusão do argumento está bem justificada pelas premissas (aí não estaríamos considerando o processo), mas se o argumento é suficiente para provar o ponto de vista com o qual o argumentador se comprometeu a provar no processo. (B) Caso seja um argumento de contestação, então deve ser analisado se o argumento de resposta ataca algum dos 4 pontos passíveis de serem atacados (premissas, oscilação na referência, método de inferência, função do argumento). Caso não o faça, a contestação é falaciosa e o argumento atacado deve permanecer válido como prova Slide 44 (Slide sem texto extraível) Slide 45 A) Suponha-se que o salário dos professores está congelado há anos, sem reajuste e correção, razão pela qual está ocorrendo uma greve. Suponham que X argumentou o que segue e que todas as premissas desse argumento e da resposta são verdadeiras e analise o caso: Pessoa 1: A categoria de professor possui ofício de extrema importância, inclusive, quando comparado com o dos demais servidores do Estado. Entretanto, os outros servidores sofreram aumento e reajuste, sem ser oferecida qualquer razão que justifique a descriminação com os professores. Além disso, a greve é uma ferramenta eficaz e adequada segundo nosso Ordenamento Jurídico para que os professores pressionem pelo seu direito. Logo, a greve dos professores é justa Pessoa 2: A greve é injusta. Pessoa 1 apenas a está defendendo porque é professor e, como tal, irá se beneficiar dela. B) Francês é muito mal educado mesmo, você precisava ver, conheci 2 franceses muito rudes durante minha viagem a Paris. Slide 46 C) Devemos proibir os videogames violentos, afinal, há muitos jovens que não praticam esportes e estão com problemas de saúde. D) Uma pesquisa para presidente realizada no Nordeste declarou que Lula vai ganhar de Bolsonaro com 70% dos votos, logo, muito provavelmente Lula irá vencer, já que a diferença (entre os percentuais) é muito maior que a margem de erro. E) Se eu estudasse para prova, me sairia bem, mas acabei não estudando, portanto, com certeza, não vou me dar bem. F) Quando neva, faz frio, porém, não está frio, então não está nevando. Slide 47 A) Falácia processual de contestação ou resposta e de Irrelevância B) Falácia indutiva: amostragem pequena C) Falácia indutiva de irrelevância (se disser “falácia de irrelevância” já considerarei correto) D) falácia indutiva: amostragem enviesada E) Falácia dedutiva (quando for dedutiva não precisam dizer o nome, nesse caso foi negação do antecedente) F) Argumento correto (dedutivamente válido). Slide 48 CASO PRÁTICO 1 Trata-se de um processo em que a parte requerente alegava a incapacidade de um indivíduo, com mais de 80 anos, requerendo sua interdição. Na audiência, foram demonstradas várias contradições e desconhecimentos desse indivíduo que evidenciavam a conclusão pretendida: ele não lembrava o nome dos filhos ou o que havia feito no dia (o que comeu, com quem se encontrou etc.). O indivíduo dizia que nunca havia vendido terra alguma, mas vários documentos demonstravam alienaçõesde imóveis realizadas por ele e bem recentes. Enfim, a questão era evidente e, efetivamente, a liminar foi deferida à parte autora. Cuida-se do tipo de processo cuja perícia é obrigatória por lei. Além das informações de qualificação sobre o indivíduo (nome, número de registro civil, profissão etc.), o laudo da perita, uma psicóloga, continha somente o seguinte conteúdo: Slide 49 IV- H.D.A. O periciando comparece em companhia de uma filha (XXX), a qual ajuda nas informações solicitadas. O periciando refere que era lavrador, está aposentado, a esposa administra seu salário e em relação aos bens existentes ele tem noção que não está vendendo desnecessariamente. Refere ser para os pastos, vê os gados. Faz uso de medicação clínica. Nega vícios. Vida social restrita. V - Exame mental Calmo orientado, lentidão no curso dos pensamentos, leve déficit cognitivo. VI – Conclusão Sem alterações psicopatológicas, apto a reger-se. A parte autora impugnou a validade do laudo pericial através das seguintes objeções: (A) nos trechos não transcritos, com informações qualificando o periciando, várias informações objetivas estavam erradas, inclusive, o nome de uma suposta filha que havia comparecido junto a ele na avaliação pericial. O periciando não possuía nenhuma filha com aquele nome (ou sequer com nome parecido), de modo que nunca se soube quem o acompanhou. Havia outros defeitos objetivos nas informações: número de filhos errado etc. – provavelmente o idoso concedeu a informação errada e a perita simplesmente tomou como verdade. Slide 50 (B) O próprio fato de o periciando ter comparecido com alguém, que o auxiliou nas respostas, também foi objetado pela parte autora. Ele deveria entrar sozinho na avaliação ou acompanhado dos advogados de ambas as partes. O que não se pode aceitar é o comparecimento apenas do representante de um dos lados. Ainda que não haja um acordo mal-intencionado, a presença da parte contrária evita a criação de um clima amigável, informal, em favor somente de uma das partes. (C) Impugnou-se também a ausência de citação, por parte da perita, sobre o método empregado para chegar à sua conclusão. Ela sequer relatou as perguntas que realizou e as respostas que obteve, a fim de as partes avaliarem se as perguntas foram bem processadas. O laudo é tão sucinto e informal que equivale a dizer: “tive uma conversa de menos de dois minutos com o periciando, em que ele me respondeu essas informações. É visível que ele tem alguma lentidão, mas penso que é apto para reger-se”. Obs.: Quando o processo voltou da perícia para ser julgado, a magistrada já não era a mesma que participou da audiência. Outro juiz assumiu o caso e tomou conhecimento do processo apenas por meio dos autos . Assim, quem julgaria o caso não seria a magistrada que presenciou o modo desorientado como o réu agiu em audiência (se contradizendo, sem responder as perguntas etc.), mas um juiz que nunca encontrou o réu pessoalmente. Slide 51 Analisem a Sentença (sem o relatório): Nesse contexto, imprescindível se mostra a necessidade de realização de criterioso exame pericial para avaliar a higidez mental do interditando. Pois bem. Compulsando os autos, verifico que a perícia realizada concluiu que o requerido não é portador de qualquer patologia psiquiátrica, e encontra-se apto a reger-se. Com efeito, ao analisar os fatos narrados na inicial e o laudo pericial verifico que o requerido não sofreu de qualquer distúrbio mental a ensejar incapacidade para os atos da vida civil. Assim, não sendo constatada nenhuma doença mental que afete o discernimento do demandado, impõe-se a improcedência do pedido. Slide 52 Ora, a sentença simplesmente não enfrentou os argumentos da parte autora que impugnam o laudo pericial. Analisando-se a sentença de forma isolada, o argumento parece razoável (uma deferência ao saber do especialista). No entanto, uma das funções da Sentença é servir de resposta para os argumentos que não acatou (art. 489 §1º, IV do CPC), de modo que ela necessariamente deveria enfrentar os argumentos, não acolhidos, da parte autora quanto à impugnação do laudo pericial. Desse modo, a fundamentação contida na sentença não pode ser considerada como boa/adequada, já que não enfrenta os argumentos/provas que rejeita. Slide 53 Caso prático 2 A parte autora recorreu da decisão de primeiro grau alegando justamente que não houve fundamentação, haja vista que o julgador simplesmente endossou o laudo pericial, sem enfrentar os argumentos que o impugnavam com fundamento em vários defeitos que, pela lei, induziam nulidade. No bojo do recurso, foram expostos os argumentos que impugnavam o laudo pericial e que não foram apreciados. Pois bem, a Câmara do Tribunal, analisando o argumento que pedia a nulidade da Sentença por não ter enfrentado a argumentação da parte autora, assim decidiu: Slide 54 De fato, ao lado do princípio do livre convencimento na apreciação das provas e na apuração do litígio em si, está o princípio da fundamentação das decisões judiciais. Estes, por sua vez, não estão soltos, tampouco são de aplicação discricionária do magistrado. Possuem uma íntima ligação, de modo que sempre devem estar presentes como ferramentas indispensáveis à formação da certeza na solução das lides. O princípio da fundamentação das decisões judiciais, contudo, vem, em relação ao princípio do livre convencimento, a constituir-se em uma barreira ao arbítrio do magistrado. Decorre de que a função jurisdicional tem a finalidade de aplicação do direito material no caso concreto. Sendo assim, cumpre ao juiz ser o agente realizador de tal função, promovendo-a conforme o ordenamento jurídico vigente ao tempo da sua atuação. A fundamentação, porém, não se constitui no ato em que o julgador embasa a sua sentença em artigo de lei, decreto etc, mas sim no ato pelo qual ele expõe os motivos que formaram o seu convencimento sobre a causa, em consonância com ordenamento jurídico vigente. O juiz está vinculado a alicerçar o seu entendimento de acordo com os princípios, institutos e normas presentes no ordenamento jurídico vigente. Não está vinculado a regra seca da lei, mas a todo um conjunto cuja lei é um dos seus elementos. Registre-se, por fim, que não há de se confundir a ausência de fundamentação, com a fundamentação sucinta, mas que possui contornos suficientes que justifiquem a decisão prolatada pelo magistrado. Logo, não há nulidade alguma a ser decretada. Slide 55 Importa notar, primeiramente, que essa decisão poderia ser usada em qualquer processo em que há pedido de nulidade de sentença baseado fundamentação insuficiente, sem importar o argumento que embasa o pedido. Esse fato, por si só, demonstra que também essa decisão não analisou a argumentação da parte autora (ofensa ao art. 489, §1º, III) Basta pensar em vários argumentos distintos, através dos quais, alega-se a nulidade da sentença por ausência de fundamentação. Essa decisão poderia ser usada para refutar (falaciosamente) todos eles. O erro do argumento se encontra após o 4º parágrafo (iniciado por “registre-se, por fim”). Há pelo menos duas formas de representar esse argumento. A primeira é literal e, assim, a conclusão fica completamente arbitrária, sem conexão com as premissas. Esse é um erro quanto ao método de inferência, afinal, as premissas podem até ser verdadeiras, mas delas não decorre a conclusão. Por outro lado, alguém poderia interpretar que após o 4º parágrafo (iniciado por “registre-se, por fim”) há uma premissa implícita tal como “a Sentença aqui analisada possui fundamentação, ainda que sucinta”. Slide 56 Ao acrescentar essa premissa, cria-se uma ligação entre a verdade das premissas e a verdade da conclusão, ou seja, passa a ser possível inferir a verdade da conclusão se as premissas forem tomadas como verdadeiras. Entretanto, essa proposição acrescentada como premissa implícita (“a Sentença aqui analisada possui fundamentação, ainda que sucinta”) é justamente o que julgador promete provar, de modo que se ele parte dela como premissa, deixa de provar o quedeveria para provar seu ponto de vista. Portanto o Acórdão possui: (a) defeito no método de inferência (indutivo de irrelevância) ou defeito na função de alegação do argumento, conforme a interpretação. Seja como for, o argumento é inválido como prova; (b) defeito na função do argumento enquanto contestação. Obs.: As decisões judiciais precisam apresentar tanto argumentos de alegação, já que se posicionam em favor de uma tese e, assim, precisam mostrar como ela pode ser verdadeira, bem como de contestação já que precisam enfrentar todos os argumentos opostos contra essa tese. Slide 57 Pi = premissa implícita (retângulo tracejado) P = premissa ordinária M = proposição defendida no processo ou controvérsia. Slide 58 A tentativa de refutar um argumento pressupõe que o argumento foi exarado Assim, o conteúdo do argumento atacado é uma premissa que chamamos de X A essa premissa o contestador adiciona outras, almejando atingir a conclusão que deve ser necessariamente a negação do argumento combatido, já que se trata de uma contestação. Outra forma de ver é: o argumento cuja função é de contestação deve necessariamente contestar um dos 4 elementos da estrutura argumentativa: premissas, referência dos termos, método de inferência, ou função do argumento.