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Autor: Prof. Fernando Gorni Neto Colaboradores: Prof. Enzo Fiorelli Vasques Prof. Livaldo dos Santos Comércio Exterior - Exportação e Importação Professor conteudista: Fernando Gorni Neto Fernando Gorni Neto é graduado e pós-graduado pela Universidade Nove de Julho – Uninove em Marketing. Também é pós-graduado em Agronegócios pela Universidade Federal do Paraná – UFPR e em Formação em Educação a Distância pela Universidade Paulista – UNIP. Foi professor de Transportes Internacionais na Exportacian Assessoria em Comércio Exterior. Atua como membro do Comitê Editorial do Seminário de Logística – Supply Chain Managemet, com a responsabilidade de avaliar trabalhos técnicos inscritos no evento sobre as melhores práticas de logística e supply chain management ligados à área siderúrgica. Acumula mais de 30 anos em comércio internacional nas áreas de desembaraço aduaneiro de importação e exportação, tráfego marítimo internacional de graneis tramp, tráfego marítimo de navios liners, distribuição de produtos em todo o Brasil por via rodoviária, ferroviária e marítima de cabotagem e em Business Intelligence Center. © Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Universidade Paulista. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) G671s Gorni Neto, Fernando Comércio Exterior - Exportação e Importação / Fernando Gorni Neto - São Paulo: Editora Sol, 2020. 220 p., il. Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e Pesquisas da UNIP, Série Didática, ISSN 1517-9230. 1. Importação. 2. Exportação. 3. Produtos. I.Título. CDU 658.7 U508.88 – 20 Prof. Dr. João Carlos Di Genio Reitor Prof. Fábio Romeu de Carvalho Vice-Reitor de Planejamento, Administração e Finanças Profa. Melânia Dalla Torre Vice-Reitora de Unidades Universitárias Profa. Dra. Marília Ancona-Lopez Vice-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa Profa. Dra. Marília Ancona-Lopez Vice-Reitora de Graduação Unip Interativa – EaD Profa. Elisabete Brihy Prof. Marcello Vannini Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar Prof. Ivan Daliberto Frugoli Material Didático – EaD Comissão editorial: Dra. Angélica L. Carlini (UNIP) Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR) Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT) Apoio: Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD Profa. Deise Alcantara Carreiro – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos Projeto gráfico: Prof. Alexandre Ponzetto Revisão: Ana Luiza Fazzio Amanda Casale Marcília Brito Sumário Comércio Exterior - Exportação e Importação APRESENTAÇÃO ......................................................................................................................................................9 INTRODUÇÃO ...........................................................................................................................................................9 Unidade I 1 O COMÉRCIO EXTERIOR ................................................................................................................................ 17 1.1 História do comércio exterior no Brasil....................................................................................... 19 1.1.1 Período Colonial (1500 – 1822) ........................................................................................................ 19 1.1.2 Período do Império (1822 – 1889)................................................................................................... 20 1.1.3 Primeira República (1889 – 1930) ................................................................................................... 22 1.1.4 Era Vargas e Brasil Democrático (1930 – 1964) ......................................................................... 24 1.1.5 Regime Militar (1964 – 1985) ........................................................................................................... 28 1.1.6 Redemocratização (1985 – atual) .................................................................................................... 31 1.2 Contextualização do Brasil no comércio internacional ........................................................ 40 1.3 O desenvolvimento das exportações brasileiras (1990 a 2010) ......................................... 44 2 O COMÉRCIO INTERNACIONAL .................................................................................................................. 47 2.1 Organização Mundial do Comércio – OMC ............................................................................... 48 2.2 Banco Interamericano de Reconstrução e Desenvolvimento – Bird ............................... 49 2.3 Fundo Monetário Internacional – FMI ......................................................................................... 50 2.4 Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID ................................................................. 51 2.5 Sistema Geral de Preferências – SGP ........................................................................................... 52 2.6 Sistema Global de Preferências Comerciais – SGPC .............................................................. 54 2.7 Blocos econômicos .............................................................................................................................. 54 2.7.1 Zona ou área de preferência tarifária ............................................................................................ 54 2.7.2 Zona ou área de livre-comércio ........................................................................................................ 55 2.7.3 União aduaneira ...................................................................................................................................... 55 2.7.4 Mercado comum ..................................................................................................................................... 55 2.7.5 União econômica e monetária .......................................................................................................... 56 2.7.6 Blocos econômicos ................................................................................................................................. 56 2.8 Barreiras ao comércio internacional ............................................................................................ 61 2.8.1 Barreiras técnicas .................................................................................................................................... 62 2.8.2 Barreiras comerciais tarifárias ........................................................................................................... 63 2.8.3 Barreiras comerciais não tarifárias .................................................................................................. 65 3 A ESTRUTURA BRASILEIRA PARA O COMÉRCIO EXTERIOR ............................................................ 69 3.1 Ministério da Economia ..................................................................................................................... 69 3.1.1 Câmara de Comércio Exterior – Camex ......................................................................................... 70 3.1.2 Secretaria de Comércio Exterior – Secex ...................................................................................... 71 3.1.3 Secretaria de Inovação e Novos Negócios ................................................................................... 72 3.1.4 Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia – Inmetro .............................. 72 3.1.5 Instituto Nacional de Propriedade Industrial – Inpi ................................................................. 72 3.1.6 Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES ................................ 73 3.1.7 Conselho Nacional das Zonas de Processamento de Exportação – CZPE .......................como Vice o candidato da oposição João Belchior Marques Goulart. Renunciou ao cargo sete meses depois, abrindo uma grave crise política no país. Assumiu o governo João Belchior Marques Goulart, empossado na Presidência da República, em 7 de setembro, após a aprovação pelo Congresso da emenda constitucional que instaurou o regime parlamentarista de governo, tendo como primeiro-ministro Tancredo Neves. 28 Unidade I Em janeiro de 1963, com a realização do plebiscito que decidiu pela volta do regime presidencialista, João Goulart assumiu plenamente os poderes de presidente, até que foi deposto pelo golpe militar de 1964. A renda obtida com as exportações de US$ 1,43 bilhões correspondia a 43% da dívida externa do país que era de US$ 3,29 bilhões, e a Inflação Geral de Preços/Disponibilidade Interna – IGP/DI, medido pela Fundação Getúlio Vargas atingiu o índice de 92,1% ao ano. Observação O Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna – reflete as variações mensais de preços, pesquisados do dia 1º ao último dia do mês corrente. 1.1.5 Regime Militar (1964 – 1985) O Supremo Comando Revolucionário, que assumiu o poder em 31 de março de 1964, resultou no afastamento do Presidente da República, João Goulart, assumindo provisoriamente o presidente da Câmara dos Deputados Ranieri Mazzilli. Conforme consta no site do Ministério da Justiça e Segurança Pública, Centro de Informação de Acervos dos Presidentes da República – CIAPR, por meio da decretação do Ato Institucional nº 1, foi eleito, pelo Congresso Nacional, Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, chefe do Estado-Maior do Exército, no dia 11 de abril de 1964, tomando posse em 15 de abril de 1964, permanecendo no poder até 15 de março de 1967. No início do Regime Militar, a inflação estava em alta, o crescimento do Produto Interno Bruto – PIB era negativo em relação ao ano de 1963 (US$ 20,921 bilhões contra US$ 23,262 bilhões do ano anterior), as exportações não passaram de US$ 1,43 bilhões e a taxa de investimentos era quase nula. Em fins de 1966, o Congresso Nacional foi fechado e, no início do ano seguinte, foi convocado para aprovar uma nova Constituição, promulgada em 24 de janeiro de 1967. As medidas econômicas adotadas tinham por objetivo combater a inflação e favorecer a retomada dos investimentos, com uma política recessiva e monetarista, consolidada no Programa de Ação Econômica do Governo – PAEG. Seus objetivos principais eram sanear a economia e baixar a inflação para 10% ao ano, criar condições para que o PIB crescesse 6% ao ano, equilibrar o balanço de pagamentos e diminuir as desigualdades regionais. Parte desses objetivos foi alcançada. Nesse sentido, o novo governo renegociou novos empréstimos com o FMI. Também estabeleceu o controle sobre os salários, instituiu a correção monetária, criou o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço – FGTS, fundou o Banco Nacional de Habitação – BNH que, com os recursos do FGTS, deveria financiar a construção de casas populares, e criou o Instituto Brasileiro de Reforma Agrária e o Estatuto da Terra. 29 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO Apesar de não atingir as metas propostas, as medidas de Castelo Branco criaram condições para o crescimento econômico que ocorreu posteriormente. Os setores que mais cresceram foram as indústrias da construção civil e de bens de consumo duráveis, a pecuária e os produtos agrícolas de exportação. Os bens de consumo não duráveis como calçados, vestuário, têxteis e produtos alimentícios, tiveram crescimento reduzido ou até negativo. Castelo Branco foi sucedido por Arthur da Costa e Silva, ex-ministro da Guerra, no governo anterior, cujas maiores marcas no período foram de crescimento, com a expansão industrial, facilidade de crédito, política salarial restritiva e controle da inflação, que ficou em torno de 23% ao ano. Foram criadas a Empresa Brasileira de Aeronáutica – Embraer e a Companhia de Pesquisa e Recursos Minerais – CPRM. Em agosto de 1969, Arthur da Costa e Silva se afastou do cargo em consequência de uma trombose cerebral, sendo substituído por uma junta militar, composta pelo ministro da Marinha, Augusto Hamann Rademaker Grünewald, pelo ministro do Exército, Aurélio de Lira Tavares e pelo ministro da Aeronáutica, Márcio de Sousa e Melo. Em 30 de outubro de 1969, assumiu a Presidência da República Emílio Garrastazu Médici, que teve seu nome indicado pelo Alto Comando do Exército à sucessão presidencial, governando o país até 15 de março de 1974. O modelo de crescimento econômico instaurado pela ditadura contou com recursos do capital externo, do empresariado brasileiro e o Estado participou como agente econômico. O PIB cresceu, em média, 10% ao ano, entre 1968 e 1973. Antônio Delfim Netto, ministro da Fazenda nos governos Marechal Artur da Costa e Silva, o segundo presidente do regime militar, e seu sucessor, Emílio Garrastazu Médici foi o principal artífice do “milagre econômico”; apostou nas exportações para obter parte das divisas necessárias às importações de máquinas, equipamentos e matérias-primas. O crescimento do mercado mundial, na época, favoreceu essa estratégia, mas foi a política de incentivos governamentais aos exportadores que garantiu seu sucesso, com grandes subsídios aos exportadores. Nesse período foi assinado com o Paraguai o acordo para construção da usina hidrelétrica de Itaipu e, com a Bolívia, para a construção de um gasoduto entre Santa Cruz de la Sierra e Paulínia. Para estimular a indústria, Delfim Netto expandiu o sistema de crédito ao consumidor e garantiu à classe média o acesso aos bens de consumo duráveis. A partir de 1973, decorrente do 1º choque de petróleo, o crescimento econômico começou a declinar. 30 Unidade I 1.1.5.1 O primeiro choque do petróleo: 1973 Após a Guerra do Yom Kipur, também conhecida como Guerra Árabe-Israelense, em outubro de 1973, os países árabes decretaram completo bloqueio do fornecimento de petróleo aos aliados de Israel, atingindo principalmente Estados Unidos, Holanda e Portugal. Segundo dados do Sindipreto-SJC – Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Destilação e Refinação de Petróleo de São José dos Campos - SP, no artigo Os choques mundiais do petróleo, “o barril de petróleo, de tipo Brent, salta de US$ 8 para US$ 38”. O preço se manteve por um longo tempo, mesmo após o fim do bloqueio. Os países árabes, organizados na Opep, chegaram a aumentar mais de 300% o preço do petróleo. O Brasil, muito dependente do petróleo importado, deu ênfase na produção de álcool anidro para a mistura com gasolina. 1.1.5.2 O segundo choque do petróleo: 1979/80 Com a Revolução Islâmica no Irã, o Aiatolá Sayyid Ruhollah Musavi Khomeini, líder espiritual e político da Revolução Iraniana implantou uma ampla renegociação dos contratos de exploração de petróleo das companhias estrangeiras estabelecidas no país. No ano seguinte, eclodiu a Guerra Irã-Iraque, iniciada em 1980 e que durou até 1988, por Saddam Hussein (nome completo Saddam Hussein Abd al-Majid al-Tikriti) contra o novo regime xiita do Irã. O preço do barril se elevou a US$ 78/79 entre 1979 e 1980, os preços mais altos até então. Lembrete O preço de um produto é resultado da relação entre oferta e demanda. Como a demanda por petróleo vem registrando uma alta taxa de consumo, o preço continua subindo. Com o choque do petróleo e a possibilidade de produzir álcool em grande quantidade, foram criados incentivos governamentais e começaram a surgir os primeiros carros movidos exclusivamente a álcool. A proporção de carros a álcool, no total de automóveis produzidos no país, passou de 0,46%, em 1979, a 26,8%, em 1980. No dia 15 de outubro de 1978, o Colégio Eleitoral elegeu o general João Baptista de Oliveira Figueiredo, que permaneceu no cargo até 15 de março de 1985. Seu mandato foi marcado pela continuação da abertura política iniciada no governo Geisel e, pouco após assumir, houve a concessão de uma anistia ampla geral e irrestrita aos políticoscassados com base em atos institucionais. Em 1980, extinguiu-se o bipartidarismo instaurado. Em 1980, a inflação bateu em 110% e, em 1983, ultrapassou 200%. Nesse ano, a dívida externa ultrapassou os US$ 64,259 bilhões e a receita das exportações, que chegou a US$ 20,132 bilhões, foi utilizada para o pagamento dos juros da dívida. O Brasil mergulhou em nova recessão e sua principal 31 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO consequência foi o desemprego. Em agosto de 1981, houve 900 mil desempregados nas regiões metropolitanas do país e a situação se agravou nos anos seguintes. Sua gestão ficou marcada pela grave crise econômica que assolou o Brasil e o mundo, com as altas taxas de juros internacionais, pelo 2º choque do petróleo, em 1979. A disparada da inflação, que passou de 45% ao mês para 230% ao longo de seis anos e com a dívida externa crescente no Brasil, que pela primeira vez rompeu a marca dos 100 bilhões de dólares, levou o governo a recorrer ao Fundo Monetário Internacional – FMI, em 1982. O final de o Governo Militar de 1964, em março de 1985, culminou com a hiperinflação e grande parte das obras paralisadas. As empreiteiras abandonaram as construções, as máquinas, os equipamentos e as edificações. 1.1.6 Redemocratização (1985 – atual) Após o Regime Militar, o Brasil retornou a sua democracia, mas viveu um período de grande estagnação econômica. Os anos 80 foram conhecidos como a década perdida. Internamente, o país sofreu com a inflação, atingindo 235,1% ao ano, em 1985 e 1.782,9% ao ano, em 1989, a dívida externa (US$ 105,171 bilhões e 115,506 bilhões, em 1985 e 1989 respectivamente), dificuldades em conseguir dinheiro externo e instabilidade política. Em 15 de janeiro de 1985, foi eleito Presidente da República pelo Colégio Eleitoral, Tancredo de Almeida Neves, mas em 14 de março de 1985, foi internado em estado grave, assumindo o cargo o Vice-presidente. Com o falecimento de Tancredo Neves, no dia 21 de abril de 1985, o Vice-presidente, que em 1965 adotou legalmente o nome de José Sarney de Araújo Costa, que até então era José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, foi efetivado no cargo. No mercado interno, as vendas de carros a álcool atingiram 95,8% das vendas totais, mas a demanda de álcool foi superior à oferta e o Brasil passou a importar álcool para o abastecimento de veículos, derrubando a credibilidade do programa, criado em 1980, sob o nome Proálcool. O governo do presidente Sarney foi marcado, sobretudo, por duas tarefas que se impunham ao país: reconstruir a democracia e enfrentar a crise inflacionária. Assim, em 1º de fevereiro de 1987 instalava-se a Assembleia Nacional Constituinte e a nova constituição foi promulgada em 5 de outubro de 1988, tendo sido a mais democrática da história brasileira. No plano econômico, o governo Sarney anunciou, em 1º de março de 1986, uma reforma monetária conhecida como Plano Cruzado, em referência à nova moeda implantada. Comandado pelo ministro da Fazenda Dilson Domingos Funaro, tinha como medidas de estabilização econômica o congelamento de preços e salários, o abono de 8% para todos os trabalhadores, o “gatilho” salarial a cada vez que a inflação ultrapassasse 20% e o incentivo à produção em detrimento da especulação financeira. 32 Unidade I Verificou-se a diminuição dos investimentos públicos, traduzidos em cortes orçamentários, e retração da iniciativa privada, dadas as altas taxas de juros e a reduzida perspectiva de consumo. Em fevereiro de 1987, as reservas cambiais caíram demasiadamente e o ministro da Fazenda Dilson Funaro suspendeu os pagamentos dos juros da dívida externa aos bancos privados, enquanto a inflação atingia um patamar de 365,7% anuais. Novas tentativas de frear a inflação foram feitas. Em 29 de abril de 1987, Dilson Funaro deixou o Ministério da Fazenda, em seu lugar assumiu Luiz Carlos Bresser Gonçalves Pereira que, em janeiro de 1988, promoveu outro plano de estabilização que, ainda assim, não conteve a inflação, cujo índice girou em torno de 1.000% naquele ano. Em janeiro de 1989, um terceiro programa econômico foi anunciado pelo governo, batizado de Plano Verão, porém o ano encerrou-se com a taxa anual de inflação de 1.764,86%. Fernando Afonso Collor de Mello se elegeu presidente da República em 1989, sucedendo ao então presidente Sarney, após derrotar Luís Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores – PT, no segundo turno eleitoral. Foi o primeiro Presidente eleito pelo voto popular depois de 25 anos de regime de exceção. No primeiro dia de governo, o Presidente anunciou o plano econômico de combate à inflação, que em um ano – de março de 1989 a março de 1990 chegou a 4.853%. As medidas tomadas, que confiscaram contas de poupança, contas correntes e outras aplicações financeiras estabeleceram também a extinção de órgãos públicos, a demissão e a disponibilidade de funcionários públicos federais, além de promover a privatização de inúmeras empresas públicas. A inflação reduziu drasticamente e o déficit fiscal foi diminuído. A eliminação das tarifas aduaneiras teve grande impacto nas importações brasileiras, que aumentaram rapidamente. O caráter pouco competitivo da indústria brasileira e a valorização do cruzeiro, em função da pouca disponibilidade da moeda nacional e a moeda americana cotada abaixo da moeda nacional, levariam à redução das exportações e à diminuição das vendas no mercado interno. Foi iniciada uma recessão econômica, com a queda da produção industrial do país, a expansão do desemprego, e a redução do PIB de 453 bilhões de dólares, em 1989, para 433 bilhões em 1990. Em 16 de agosto de 1990, o Programa Nacional de Desestatização que estava previsto no Plano Collor, regulamentado e as Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais S/A - Usiminas foram a primeira estatal a ser privatizada, por meio de um leilão em outubro de 1991. Com a volta da inflação no final de 1990, o governo instituiu o Plano Collor II, em janeiro de 1991. Intensificou-se, então, a política de juros altos, a desindexação da economia, a abertura para o mercado externo e o incentivo às importações. 33 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO Em 26 de março de 1991, a República Argentina, a República Federativa do Brasil, a República do Paraguai e a República Oriental do Uruguai assinaram o Tratado de Assunção, com vistas a criar o Mercado Comum do Sul – Mercosul, para maior crescimento econômico dos Estados Partes, do aproveitamento da especialização produtiva, das economias de escala, da complementação comercial e do maior poder negociador do bloco com outros blocos ou países, por meio da livre circulação de bens, serviços e fatores produtivos, do estabelecimento de uma Tarifa Externa Comum – TEC, da adoção de uma política comercial comum, da coordenação de políticas macroeconômicas e setoriais, e da harmonização de legislações nas áreas pertinentes. De modo geral, o projeto de “modernização” implementado pelo governo, visando à diminuição de gastos públicos e o incentivo à economia de mercado, ajustava-se à ideia de “Estado mínimo” e à nova ordem mundial que se impôs com o término da Guerra Fria, conceituada como neoliberal. O primeiro plano do governo Fernando Collor estava centrado em praticamente 8 pontos: 1. Retirar de circulação cerca de US$ 115 bilhões dos US$ 150 bilhões que se encontravam aplicados principalmente no overnight (aplicações financeiras feitas no open-market em um dia para ser resgatado no dia útil seguinte), poupança e fundos de curto prazo. 2. Uma desindexação geral, principalmente entre preços e salários. 3. A reformulação dos mercados cambiais e a criação do dólar livre (a taxa do dólar seria fixada pelo mecanismo de oferta e procura). 4. Um programa de privatização de empresas estatais e a instituição dos certificados de privatização, mecanismo por meio do qual o setor privado poderia comprar as empresas estatais. 5. Total abertura aos capitais estrangeiros. 6. Desregulamentação, incidindo inicialmentesobre as facilidades de exportação e importação. 7. Uma reforma administrativa com o objetivo de demitir 360 mil funcionários públicos, de um contingente de 750 mil, reduziu o número de ministérios de 23 para 12 e extinguiu diversos órgãos da administração pública. 8. A supressão dos subsídios fiscais (exceto Zona Franca de Manaus). Foi fundamental a abertura do mercado brasileiro para produtos importados, que obrigou a indústria nacional a investir alto na modernização do processo produtivo, a investir pesado na automação, a reduzir a hierarquia interna nas indústrias para crescer a produtividade, a qualidade e o lançamento de novos produtos no mercado. Toda essa modernidade era necessária para as empresas se tornarem mais competitivas tanto no mercado interno quanto no mercado externo. O aumento de produtividade foi fundamental para a sobrevivência das empresas, porém, para os trabalhadores, significava perdas de postos de trabalho. 34 Unidade I No governo Collor houve uma grande reforma da administração do comércio exterior brasileiro com a extinção da Carteira de Comércio Exterior – Cacex, do Conselho de Política Aduaneira – CPA e do Conselho de Desenvolvimento Industrial – CDI e, em 1990, suas funções executoras se transferiram para o então Departamento de Comércio Exterior do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento – MEFP. O Governo Collor extinguiu ainda outros órgãos com importantes atribuições na estrutura do comércio exterior brasileiro como a Empresa de Portos do Brasil S.A. – Portobrás, criada em 1975, dissolvida em 12 de abril de 1990. Lembrete O Governo Collor fez da privatização parte fundamental das reformas estruturais a serem implementadas na sua gestão, com a criação do Programa Nacional de Desestatização – PND. Em 1992, foi denunciada na imprensa a existência de um esquema de corrupção no governo e foi instalada a Comissão Parlamentar de Inquérito – CPI para investigar as denúncias que encerrariam seus trabalhos, recomendando o afastamento de Collor da presidência. Afastado do cargo após a votação na Câmara, Collor foi substituído interinamente pelo Vice-presidente Itamar Augusto Cautiero Franco. Em 29 de dezembro, Collor renunciou à Presidência da República, antes de ser condenado pelo Senado por crime de responsabilidade. Itamar Franco assumiu, assim, definitivamente a Presidência da República, apoiado por um amplo leque partidário, num esforço claro para a manutenção da ordem democrática e a superação dos graves problemas econômicos. O processo inflacionário fez com que a inflação atingisse 2.851,3% em 1993, estimados pelo Índice Geral de Preços – IGP/DI da Fundação Getúlio Vargas. Em fins de julho, foi decretado o corte de três zeros na moeda, que passou a se chamar Cruzeiro Real. Em dezembro, foi lançado o Plano de Estabilização Econômica, que visava à entrada em circulação de uma nova moeda, o Real, antecedida pela adoção da Unidade Real de Valor – URV, que passou a vigorar a partir de 1º de março de 1994, como um indexador único da economia. Ainda em março, foram diminuídas as alíquotas de importação de diversos produtos. Em julho de 1994, o Real entrou em circulação, cotado acima da moeda norte-americana. O plano promoveu a queda da inflação e, no primeiro trimestre de 1994, a atividade econômica cresceu em proporções comparáveis apenas ao início da década de 1980, apesar das altas taxas de juros. O programa de privatizações executado durante o governo Itamar Franco abrangeu a Companhia Siderúrgica Nacional – CSN, a Aço Minas Gerais – Açominas e a Companhia Siderúrgica Paulista – Cosipa, além de subsidiárias da Petrobrás. 35 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO Fernando Henrique Cardoso, ministro da Fazenda durante o governo Itamar Franco, foi candidato à Presidência da República e elegeu-se no primeiro turno, em 3 de outubro de 1994, sob o impacto do êxito do Plano Real. Um programa de privatizações foi implementado: o setor de energia elétrica, na área de distribuição e geração regional, foi completamente privatizado; o setor de telecomunicações, incluindo a Telebrás e as empresas telefônicas estaduais, passaram às mãos da iniciativa privada na segunda metade de 1998; teve fim o monopólio da Petrobrás sobre a exploração e o refino do petróleo e sobre a exploração de gás natural; o controle acionário da Companhia Vale do Rio Doce – CVRD, atualmente apenas Vale S/A passou, em maio de 1997, a um consórcio formado por bancos nacionais e estrangeiros e fundos de pensão. Em 1995, visando à desindexação da economia, o governo proibiu o reajuste automático dos salários pela inflação e estabeleceu a livre negociação entre patrões e empregados. Dependente dos mercados financeiros internacionais, o Brasil enfrentou um complicado quadro internacional, com sucessivas crises econômicas externas, destacando-se a do México, em 1994, a da Rússia, em 1998, a da Argentina, a partir de 2001 e uma expressiva saída de divisas do Brasil nesse período. Em 4 de junho de 1997, foi aprovada no Senado a emenda que permitia a reeleição para mandatos do Executivo nos âmbitos federal, estadual e municipal. O Presidente Fernando Henrique Cardoso e o vice Marco Antônio de Oliveira Maciel candidataram-se à reeleição e, uma vez favorecido pela estabilidade econômico-financeira, venceu o primeiro turno das eleições realizadas em 4 de outubro de 1998, tomando posse em 1º de janeiro de 1999. Em janeiro de 1999, o Real sofreu uma desvalorização após o Banco Central do Brasil adotar a livre flutuação do dólar, o que contribuiu para o aumento das exportações e a redução da taxa de juros. A necessidade de ampliar as exportações brasileiras foi atendida, em parte, pelos resultados da produção agroindustrial, com uma safra em 2002/2003 de 123,2 milhões de toneladas de grãos. Em favor do governo Fernando Henrique Cardoso pode-se argumentar que este enfrentou uma série de problemas econômicos internacionais e problemas internos nos seus dois mandatos. No primeiro mandato: • a crise financeira da economia mexicana (1995); • a crise financeira da economia do sudeste asiático (1997); • a crise financeira da economia da Rússia (1998), que conduziu à falência e desvalorização do Real, em 1999. 36 Unidade I No segundo mandato: • a desaceleração da economia norte-americana; • os ataques terroristas nos EUA (2001); • a crise financeira da argentina (2001); • a crise na oferta de energia no país, também em 2001. Em 2002, depois de quatro disputas eleitorais pela Presidência da República (Luiz Inácio Lula da Silva foi candidato em 1989 e perdeu para Fernando Collor, em 1994, e, em 1998, perdeu para Fernando Henrique Cardoso), Lula venceu as eleições presidenciais, com o mandato de 1º de janeiro de 2003 até 31 de dezembro de 2006. O “governo de transição” criou-se quando Lula foi declarado vencedor das eleições presidenciais, pelo então Presidente Fernando Henrique Cardoso e, assim, democraticamente, o Brasil iniciou uma fase diferente de sua história: um representante do partido de oposição, representante dos trabalhadores, um partido de esquerda, assume o poder no Brasil. A reformulação da política macroeconômica de Fernando Henrique Cardoso, baseada em três pontos (a implementação da política de metas de inflação, a mudança no regime cambial com taxa flutuante e as metas de superávit2 primário) foi mantida pelo governo Lula. Observação Superávit primário é a economia que o governo faz destinada ao pagamento de juros da dívida e quitação de parte das dívidas, quando as receitas são maiores que as despesas. A mudança na política cambial e o aprofundamento dos benefícios concedidos ao capital externo, associado ao crescimento acelerado das exportações devido à conjuntura internacional favorável dos últimos anos, permitiram que o governo Lula conseguisse uma significativa redução na vulnerabilidade externa. Conforme o trabalho publicado por Fabrício Augusto de Oliveira e Paulo Nakatani, intituladoA economia brasileira sob o governo Lula: resultados e contradições temos: A dívida externa total representava 45,87% do PIB, no final do governo FHC e caiu para 21,28%, em dezembro de 2005, uma redução de mais de 50%, enquanto a dívida total diminuiu 19,55% e o PIB cresceu a uma taxa média real de apenas 2,6% ao ano. Esse fenômeno pode ser explicado pela forte 2 Do latim superavit, significando receitas maiores que as despesas, balança comercial favorável. 37 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO desvalorização do real frente ao dólar, principalmente pelo ataque especulativo em 2002. Com isso, a taxa média de câmbio para a conversão do PIB aumentou até 2002 e passou a declinar a partir daí, depois que o governo assegurou o mercado financeiro de que continuaria a mesma política macroeconômica3. A dívida externa amortizada do setor público reduziu de US$ 110,4 bilhões para US$ 87,6 bilhões e o setor privado de US$ 100,3 bilhões para US$ 81,9 bilhões, entre 2002 e 2005. O total de juros pagos foi de US$ US$ 15,3 bilhões, em 2002, e de US$ 15,7 bilhões, em 2005. O governo Lula não só continuou como aprofundou a política de geração de superávits primários, estabelecendo aumento da meta de 3,75%, segundo o acordo com o Fundo Monetário Internacional – FMI, para 4,25% do PIB. Enquanto o governo FHC atingiu 3,89%, em 2002, o governo Lula superou a própria meta, realizando 4,59% e 4,85%, em 2004 e 2005, respectivamente, enquanto a conta de juros foi de 7,26% e 8,13% do PIB, nos mesmos anos. Apesar de indicadores financeiros e variáveis econômicas mais favoráveis terem reduzido consideravelmente o grau de vulnerabilidade externa, o Brasil não tem se beneficiado dessas condições para os objetivos do crescimento econômico, pois o Produto Interno Bruto – PIB está muito aquém do crescimento mundial. Tabela 2 – Crescimento do PIB Brasil e economia mundial – 2000-2013 Ano Taxa de crescimento do PIB (%) Brasil Mundo 2000 4,3 4,8 2001 1,3 2,3 2002 2,7 2,9 2003 1,1 3,6 2004 5,7 4,9 2005 3,2 4,6 2006 4,0 5,2 2007 6,1 5,4 2008 5,2 2,9 2009 -0,6 -0,5 2010 7,5 5,2 2011 2,7 3,9 2012 1,0 3,2 2013 2,3 3,6 Adaptada de: Fundo Monetário Internacional – FMI (Datamapper). 3 OLIVEIRA, F. A., NAKATANI, P. A economia brasileira sob o governo Lula: resultados e contradições. Disponível em: http://www.forumdesalternatives.org/. Acesso em: 23 jun. 2011. 38 Unidade I Conforme pode ser verificado na tabela anterior, em 14 anos, somente por quatro vezes o Brasil superou o crescimento médio mundial. Considerando as propostas do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, a implementação da política de metas de inflação, a mudança no regime cambial com taxa flutuante e as metas de superávit primário, foram três, basicamente, os instrumentos utilizados para alcançar as metas de inflação: a taxa de juros, a carga tributária e os gastos públicos: 1. A manutenção de elevadas taxas de juros reais (em torno de 11% ao ano, a mais alta do mundo) inibiu o consumo, desestimulou investimentos e, também importante, garantiu um acentuado e permanente ingresso de capitais externos na economia brasileira em busca de lucros rápidos e fáceis, valorizando a moeda nacional (o Real) e prejudicando o setor exportador, e vários setores enfrentam dificuldades para sustentar suas atividades com a situação do câmbio como os de calçados, vestuário e até mesmo o automobilístico, entre outros. 2. A elevação da carga tributária, instrumento preferencial que tem sido utilizado pelo governo, desde 1999, para garantir a geração de superávits primários, aumentou o “custo-Brasil”, reduziu a lucratividade dos investimentos privados e inibiu o mercado interno ao reduzir a renda disponível da população. Não bastasse a forte elevação que conheceu entre 1998 e 2004, a carga tributária brasileira deu um salto de 29,7% para 35,9% do PIB – sua composição é ainda mais perversa para o crescimento econômico: contando com cerca de 80% de impostos indiretos em sua estrutura, o que torna o sistema tributário um forte instrumento de concentração de renda; cerca de 30% de toda arrecadação provêm de impostos cumulativos, também conhecidos como impostos “em cascata”, prejudiciais à questão da competitividade no mundo globalizado e à integração econômica regional. 3. O terceiro instrumento de que o governo lançou mão para garantir a geração de superávits primários4 – os cortes de gastos públicos – não alimentou apenas as forças da recessão mas impediu que o governo realizasse os investimentos em infraestrutura econômica para remover os gargalos estruturais da economia. Com baixo nível de investimentos, não houve como crescer de forma mais expressiva em longo prazo. E mais grave: sem aumento na capacidade de oferta, as pressões de demanda, dele resultante, terminaram gerando pressões adicionais sobre os preços, exigindo que a recuperação da economia fosse abortada para impedir o comprometimento das metas de inflação. Alguns paliativos foram criados pelo governo federal para demonstrar a vontade de melhorar a infraestrutura do país por meio de dois programas: Programa de Aceleração de Crescimento – PAC – lançado em 28 de janeiro de 2007, englobou um conjunto de políticas econômicas, planejadas para quatro anos, e teve como objetivo acelerar o 4Significa que a arrecadação do governo foi superior aos gastos, mas, no cálculo, não são levados em consideração os juros e a correção monetária da dívida pública. 39 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO crescimento econômico do Brasil, prevendo investimentos totais de 503 bilhões de reais até 2010, sendo uma de suas prioridades a infraestrutura, como portos e rodovias. A origem dos recursos: • 219,20 bilhões de reais deverão ser investimentos por empresas estatais; • 67,80 bilhões de reais deverão ser investidos com recursos do orçamento fiscal da União e da seguridade; • 216,9 bilhões de reais deverão ser investidos pela iniciativa privada, induzidos pelos investimentos públicos já anunciados. Programa de habitação popular Minha Casa, Minha Vida – lançado por Lula em março de 2009 para atender a famílias com renda de até R$ 4.650,00 tinha o compromisso de contratar 1 milhão de casas até o fim de 2010. Até 27 de dezembro, o país havia contratado 937.250 mil unidades, mas em 29 de dezembro, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou o cumprimento de 1 milhão de moradias contratadas. Na campanha eleitoral, a então candidata à presidência, Dilma Rousseff, prometeu construir 2 milhões de unidades habitacionais em quatro anos. No dia 03 de abril de 2010, Dilma deixou o Governo Federal para se candidatar à presidência. No segundo turno das eleições, realizado em 31 de outubro de 2010, aos 63 anos de idade, Dilma Vana Rousseff é eleita a primeira mulher Presidenta da República Federativa do Brasil. O governo Dilma O governo Dilma, de início, parecia uma continuidade do governo Lula, mas, efetivamente, iniciou-se com uma mudança lenta, cautelosa e ainda incompleta para o novo regime de política macroeconômica, agora voltado para o crescimento econômico acelerado, mantendo compromisso firme com a estabilidade. Alguns meses após assumir o governo, a presidente Dilma Rousseff estabeleceu como meta acabar com a pobreza e estabeleceu a meta de crescimento do PIB de 5% ao ano (a.a.). Assumiu compromissos de manter o controle fiscal, mas anunciou a intenção de reduzir a taxa de juros. O governo manifestou preocupação maior com a apreciação do real, levando adiante a tributação da entrada de capitais. O Banco Central passou a operar com dois instrumentos: a taxa de juros e a taxa de câmbio; e dois objetivos: a inflação e o crescimento econômico e emprego, com estímulos tributários à demanda agregada e desoneração tributária de alguns setores industriais e dos investimentos produtivos, particularmente nos setores afetados pela concorrência externa. Mas este não é o problema macroeconômico. A forte apreciação da taxa de câmbio, que fazcom que o quantum de importações cresça demasiadamente, enquanto a produção da indústria de transformação passa a ser fortemente substituída pelas importações, com o quantum de exportações declinando em função da apreciação cambial. De fato, a apreciação cambial muda os preços relativos favoravelmente aos não comercializáveis, ou seja, setores não expostos à competição internacional, como o de serviços, construção civil, entre outros, em detrimento dos comercializáveis, setores que competem exportando, ou sofrem concorrência das importações, como a indústria de transformação. 40 Unidade I Enquanto os setores não comercializáveis podem repassar as pressões de salários aos preços, os setores de comercializáveis não conseguem, em função da competição externa. Com isso, a inflação do setor de serviços e na construção civil tem sido elevada e ela se transforma em elevação de custos para a indústria de transformação. Este último setor, como não pode repassar essas pressões de custos aos preços pela concorrência externa e dos importados, acaba tendo redução nas margens de lucros. Daí a reduzida taxa de investimento e a incapacidade da indústria de acompanhar o crescimento da demanda doméstica. Se a indústria fosse capaz de investir mais e acompanhar o crescimento da demanda doméstica, a economia brasileira poderia crescer facilmente de 6% a 7% ao ano. A presidente Dilma manifestou, no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, a firme determinação do governo em enfrentar a questão da competitividade da indústria brasileira, começando com a redução do custo de energia. A presidente afirmou, também, a determinação em atacar a questão do custo Brasil, agenda que inclui obrigatoriamente, além do custo de energia, a carga tributária elevada para o seu nível de desenvolvimento, e a taxa de juros do Banco Central, ainda muito acima da internacional. O governo está atacando também a questão do financiamento em longo prazo dos investimentos, com a criação de estímulos para a introdução de novos instrumentos financeiros a serem anunciados após as eleições. Esta questão é mais delicada, pois a estrutura do sistema financeiro nacional precisa ser revista, pois ela não foi montada para financiar o investimento produtivo, mas para financiar déficit público. Para completar, a poupança do governo ainda é negativa e a tributação é excessiva. 1.2 Contextualização do Brasil no comércio internacional Foi a partir da década de 1990, com a abertura para o comércio internacional iniciada pelo governo do Fernando Collor de Mello e intensificada pelos governos do Fernando Henrique Cardoso e do Luiz Inácio Lula da Silva que o Brasil passou a acentuar o seu processo de internacionalização, aumentando, significativamente, suas importações e suas exportações. Na tabela a seguir, pode-se verificar como está o ranking de alguns países no comércio mundial: Tabela 3 – Exportações e importações de mercadorias, ranking por países Posição Exportações Posição Importações 1 China 1 Estados Unidos 2 Estados Unidos 2 China 3 Alemanha 3 Alemanha 4 Japão 4 Japão 5 Coreia do Sul 5 Reino Unido 6 Holanda 6 França 7 França 7 Hong Kong 8 Hong Kong 8 Curação 9 Itália 9 Coreia do Sul 41 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO Posição Exportações Posição Importações 10 Reino Unido 10 Holanda 11 Canadá 11 Índia 12 México 12 Canadá 13 Singapura 13 Itália 14 Rússia 14 México 15 Taiwan 15 Espanha 16 Espanha 16 Singapura 17 Suíça 17 Bélgica 18 Emirados Árabes Unidos 18 Taiwan 19 Índia 19 Suíça 20 Bélgica 20 Rússia 21 Tailândia 21 Emirados Árabes Unidos 22 Austrália 22 Turquia 23 Polônia 23 Polônia 24 Arábia Saudita 24 Austrália 25 Irlanda 25 Tailândia 26 Brasil 26 Vietnã 27 Vietnã 27 Malásia 28 Malásia 28 Áustria 29 Indonésia 29 Brasil 30 Turquia 30 Suécia Adaptada de: Central Intelligence Agency ([s.d.]a); Central Intelligence Agency ([s.d.]b). Um país considerado a 6ª economia mundial, conforme o Fundo Monetário Internacional em 2013, o 5º maior país do mundo em extensão territorial, com pouco mais de 8,5 milhões de km² (seria o 4º, acima dos Estados Unidos, se fosse considerado apenas a extensão territorial contínua), o 5º mais populoso do mundo, ampla variedade de condições de clima em uma topografia variada, com 12% da água doce de superfície do planeta e grande parte do país em região tropical, não pode ter uma participação tão pequena, está muito atrás na sua participação no comércio exterior. A pauta brasileira, hoje, é considerada diversificada e está entre os 30 maiores países exportadores mundiais, ocupando a 26ª posição, com aproximadamente US$ 217,2 bilhões (em 2013) vendidos a outros países, entre produtos e serviços, mas apenas foram de produtos de baixo valor agregado – destacando-se minério de ferro, petróleo, soja, carnes bovina e de frango congeladas, açúcar refinado e bruto, café cru, fumo, milho, celulose – que totalizaram US$ 122,33 bilhões, de um total de US$ 242,18 bilhões, ou seja, 50,51% de nossas exportações. E se considerados os critérios de Paridade de Poder de Compra – PPC (purchasing power parity), de acordo com o Banco Mundial (World Bank), em 2016, o Brasil ocupou também a 7ª colocação entre as 10 maiores economias do mundo, sendo a maior da América do Sul. Ocupa o 79º lugar no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano – IDH 2012 (Human Development Index – HDI), de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD, obtendo 42 Unidade I o índice de 0.759 (ocupava o 73° lugar com 0,699 pontos em 2010), que situa o país entre os de alto desenvolvimento humano dentre os 189 países listados nesta faixa; é maior que a média mundial do ano (0,709317). Esse índice é composto pelas seguintes variáveis: • características do município: região, área de localização etc.; • saúde: esperança de vida ao nascer, mortalidade infantil, probabilidade de sobrevivência, número de médicos residentes por mil habitantes etc.; • educação: composto por 46 itens, dentre eles a taxa de alfabetização – pessoas acima de 15 anos de idade que sabem ler e escrever pelo menos um bilhete simples, percentual de pessoas que frequentam curso superior em relação à população de 18 a 22 anos, percentual de pessoas de 18 a 24 anos que estão frequentando curso superior etc.; • renda: renda per capita, intensidade da pobreza etc.; • moradia: percentual de pessoas que vivem em domicílios com água encanada, serviço de coleta de lixo, energia elétrica etc.; • população: densidade demográfica, população urbana e rural, população por faixa etária etc. Saiba mais O site da United Nations Development Programme – UNDP contém milhares de dados sobre o mundo e o Índice de Desenvolvimento Humano. Disponível em: http://www.beta.undp.org/undp/en/home.html. Acesso em: 4 nov. 2011. Depois dessa breve análise das condições brasileiras, retoma-se o BRICS, formado por: Brasil, China, Índia, Rússia e África do Sul. Mesmo sendo cedo para alguns especialistas para traçar projeções sobre o BRIC, um fato pode ser constatado hoje: três dos cinco países citados não estão apenas correspondendo às expectativas mas também estão bem à frente delas, com exceção do Brasil e da África do Sul. Segundo Organização das Nações Unidas – ONU, World Population Prospects, the 2010 Revision, a população mundial deverá atingir 8.18 bilhões de consumidores no mercado mundial até 2025, e isso deverá impactar de forma explosiva sobre a demanda de um vasto número de bens de consumo. A participação do BRICS nesse crescimento é de cerca de quase 28%, como pode ser verificado na tabela em sequência: 43 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO Tabela 4 – População mundial – projeção ONU 2025 (em milhões) Países 2010 2015 2020 2025 Mundo 6.895,89 7.284,30 7.656,53 8.185,61 Brasil 194,95 203,29 210,43 220,04 Rússia 142,96 142,23 141,02 142,61 Índia 1.224,61 1.308,22 1.386,91 1.451,83 China 1.341,34 1.369,74 1.387,79 1.438,84 África do Sul 50,1351,43 52,57 61,79 Adaptada de: Organização das Nações Unidas – ONU. Exceto pela Rússia, que deverá reduzir a sua população em quase 2 milhões de pessoas e que já vem decrescendo sistematicamente (entre 2000 e 2010, já viu reduzida a população em 3,8 milhões de pessoas), o BRICS terá acréscimo de 130 milhões de pessoas no mundo, com especial destaque para a Índia, que deverá ultrapassar a população da China. A competitividade dos países do BRICS pode ser verificada na tabela a seguir, de acordo com o World Competitiveness Yearbook, versão 2011 do International Institute for Management Development, sobre a competitividade dos países no mundo, posição no ranking de 63 países: Tabela 5 – Posição dos países do BRICS – Indicadores de Competitividade Global Países Ranking 2007 2008 2009 2010 2011 2018 1. China 15º 17º 20º 18º 19º 13º 2. Índia 27º 29º 30º 31º 32º 44º 3. Brasil 49º 43º 40º 38º 44º 60º 4. Rússia 43º 47º 49º 51º 49º 45º 5. África do Sul 50º 53º 48º 44º 52º 53º Adaptada de: International Institute for Management Development, World Competitiveness Yearbook, 2011. Sobre a questão sobre o BRICS, se considerarmos o Brasil, não é a influência que esses países terão na economia mundial, mas como o Brasil vai se comportar junto a seus parceiros. Já na área da educação, o Brasil ocupa a quinta posição dentre os países do BRICS, no qual o maior valor significa maior índice de desenvolvimento educacional, conforme pode ser verificado na tabela a seguir: 44 Unidade I Tabela 6 – Índice educacional dos cinco países do BRICS Países Ranking 2007 2008 2009 2010 2011 2018 1. Índia N/D N/D 6,86 6,96 7,09 5,63 2. África do Sul N/D N/D 5,43 5,89 5,47 3,44 3. China N/D N/D 4,18 4,40 5,11 5,68 4. Brasil N/D N/D 4,91 4,12 4,60 2,27 5. Rússia N/D N/D 4,09 3,97 4,28 4,82 Adaptada de: International Institute for Management Development, World Competitiveness Yearbook, 2011. O que se verifica é que o Brasil, dentre os cinco países componentes do BRICS, não passou do 4º lugar em todas as classificações. Uma das comparações interessantes analisada pela pesquisa foi entre a eficiência do setor público em relação ao setor privado. Em todos os países, orientais ou ocidentais, o setor privado é mais eficiente. Entre os países mais competitivos, a Venezuela está no fim da fila, bem longe da ponta, da qual estão Hong Kong e EUA. Porém, todo mercado emergente é instável por natureza e os países componentes do BRIC não fogem à regra. Ninguém pode afirmar que o fantástico crescimento que se percebe hoje nesses países será sustentado pelos próximos anos, porque o que não faltam são problemas para serem solucionados, como danos causados ao meio ambiente, conflitos religiosos, infraestrutura precária, altos índices de corrupção e criminalidade, população com tendência à envelhecimento rápido, pesada carga tributária, excesso de burocracia etc. Imprevisibilidade à parte, o fato é que Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul têm um grande potencial para dar novos rumos à economia mundial, o que poucas vezes se viu na história do capitalismo. São países que não podem ser ignorados, mas devem-se ter cuidado com projeções excessivas. 1.3 O desenvolvimento das exportações brasileiras (1990 a 2010) O histórico do comércio brasileiro no exterior não é muito bem-sucedido ao ser comparado ao resultado mundial. Na realidade, de acordo com dados do Ministério da Economia, o Brasil não obteve rendimentos significativos em sua balança comercial desde a década de 1950 até meados dos anos 1970, quando a política brasileira reduziu drasticamente as importações e incentivou as exportações por meio de subsídios. Na década de 1990, o país começou a melhorar o desempenho das suas exportações, mas a sua participação no comércio mundial, entre 1990 e 2010, não ultrapassou meio ponto percentual, de 0,93% para 1,38%. 45 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO Ao longo do tempo, muitos governos buscaram resolver o problema do saldo da balança comercial brasileira por intermédio de pacotes cambiais. Mas, somente nos últimos anos, pôde-se constatar que houve uma evolução das exportações brasileiras. Notoriamente, de acordo com a figura a seguir, as exportações brasileiras, em 2010, superaram quase quatro vezes as exportações de 2000 e quase sete vezes o desempenho de 1990: Comércio exterior brasileiro 1990-2013 500,0 450,0 400,0 350,0 300,0 250,0 200,0 150,0 100,0 50,0 0,0 -50,0 19 90 19 91 19 92 19 93 19 94 19 95 19 96 19 97 19 98 19 99 20 00 20 01 20 02 20 03 20 04 20 05 20 06 20 07 20 08 20 09 20 10 20 13 Exp US$ bi Imp US$ bi Comex Total Saldo Figura 3 – Evolução do comércio exterior brasileiro 1990 – 2013 Agora observe na figura a seguir a participação das exportações no PIB – Produto Interno Bruto, no período de 1990 a 2010: 6,7 7,8 9,2 9,0 8,0 6,6 5,7 6,1 6,1 8,2 8,5 10,5 12,0 13,2 14,6 13,4 12,7 11,8 12,1 9,7 9,7 19 90 19 91 19 92 19 93 19 94 19 95 19 96 19 97 19 98 19 99 20 00 20 01 20 02 20 03 20 04 20 05 20 06 20 07 20 08 20 09 20 10 Figura 4 – Exportações com relação ao PIB Brasil – 1990 – 2010 (%) A seguir, a participação das exportações brasileiras nas exportações mundiais: 46 Unidade I Participação das exportações brasileiras nas exportações mundiais (em %) 19 90 19 91 19 92 19 93 19 94 19 95 19 96 19 97 19 98 19 99 20 00 20 01 20 02 20 03 20 04 20 05 20 06 20 07 20 08 20 09 20 10 0,93 0,93 0,99 1,07 1,04 0,93 0,91 0,98 0,96 0,86 0,88 0,97 0,96 0,99 1,08 1,16 1,17 1,18 1,26 1,26 1,38 Figura 5 – Exportações brasileiras e o comércio mundial – 1990 - 2010 Conforme foi mencionado, a pauta brasileira de exportações é diversificada, mas considera-se o desempenho das exportações brasileiras, em 2013, dos 25 principais produtos da pauta brasileira, que correspondem em seu total 66,15% dos valores exportados: Tabela 7 – Principais produtos exportados POS Principais produtos – 2013 US$ milhões % 1 Minérios de ferro e seus concentrados 32.491.531 13,42 2 Soja mesmo triturada 22.812.299 9,42 3 Óleos brutos de petróleo 12.956.607 5,35 4 Açúcar de cana em bruto 9.163.696 3,78 5 Plataformas de perfuração ou exploração, dragas etc. 7.735.537 3,19 6 Carne de frango/miúdos congelada, fresca ou refrig. 7.003.840 2,89 7 Farelo e resíduos da extração de óleo de soja 6.787.272 2,8 8 Milho em grãos 6.250.565 2,58 9 Automóveis de passageiros 5.484.727 2,26 10 Carne bovina congelada, fresca ou refrigerada 5.358.664 2,21 11 Pastas químicas de madeira (celulose) 5.179.447 2,14 12 Café cru em grãos 4.582.227 1,89 13 Óleos combustíveis (diesel, fuel-oil etc.) 3.868.670 1,6 14 Aviões 3.829.595 1,58 15 Partes e peças para veículos e tratores 3.306.467 1,37 16 Fumo em folhas e desperdícios 3.192.512 1,32 17 Produtos semimanufaturados de ferro e aço 2.709.830 1,12 18 Açúcar refinado 2.678.214 1,11 19 Couros e peles, depilados, exceto em bruto 2.492.074 1,03 47 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO POS Principais produtos – 2013 US$ milhões % 20 Ferro ligas 2.351.150 0,97 21 Veículos de carga 2.211.087 0,91 22 Ouro em formas semimanufaturadas, não monetário 2.132.548 0,88 23 Polímeros de etileno, polipropileno e estireno 1.921.016 0,79 24 Motores, geradores e transforms. eletr. e partes 1.869.021 0,77 25 Etanol 1.868.939 0,77 Total acima 160.237.533 66,15 Total das exportações 242.178.649 100% Fonte: BRASIL (2013). Nota-se que automóveis e aviões ocupam a posição 9 e 14 respectivamente, e são os primeiros itens de alto valor agregado. Se for feita uma análise dos últimos anos, verifica-se que a participação dos produtos de menor valor agregado vem aumentando sua participação nas exportações brasileiras, conforme pode ser verificado na tabela a seguir, com uma pequena queda em 2013: Tabela 8 – Principais exportações brasileiras – 2008 – 2013 Produtos Valores em US$ milhões 2013 2010 2009 2008 Minérios de ferro e concentrados 32,492 28,91213,247 16,539 Petróleo e combustíveis 12,957 18,729 11,159 16,52 Soja, farelo e resíduos de soja 29,600 15,762 16,017 15,316 Açúcar de cana bruto e refinado 11,842 16,217 10,777 7,316 Café cru em grãos 4,582 5,182 3,761 4,131 Milho em grãos 6,251 2,216 1,302 1,405 Carne de frango e bovino 12,363 9,65 7,84 9,828 Fumo em folhas e desperdícios 3,193 2,707 2,992 2,683 Total acima 113,277 99,374 67,095 73,739 Participação 46,77% 49,20% 43,90% 37,30% Fonte: BRASL (2013). Verifica-se que em 2010, em valores, as exportações brasileiras equivaliam a 49,2% e, em 2005, representavam apenas 32,0%, o que exprime um elevado crescimento e dependência de exportações de produtos básicos. 2 O COMÉRCIO INTERNACIONAL O comércio nacional é regido por leis e diretrizes que regulamentam as negociações de bens e serviços entre duas ou mais pessoas, sejam físicas ou jurídicas. Dessa forma, são estabelecidas as responsabilidades entre as partes envolvidas e seus respectivos limites de direito na transação. 48 Unidade I Por exemplo, é comum ocorrerem casos de pessoas que se sentem lesadas em uma relação comercial e procuram seus direitos recorrendo ao Procon (Órgão de Proteção ao Consumidor) ou ao SPC (Serviço de Proteção ao Crédito). Esse tipo de procedimento é regulamentado pelo governo brasileiro. Por isso, a necessidade da criação de órgãos que sejam responsáveis para dirimir quaisquer questões nesse âmbito comercial como elaborar as leis, fiscalizar e julgar as suas aplicações. Para tanto, é necessário que as autoridades governamentais elaborem leis que reflitam a realidade das transações comerciais e sejam imparciais em seus processos de fiscalização e julgamento de ações que possam causar prejuízo a alguma das partes e, no âmbito geral, ao Estado de direito. De forma similar, está organizado o comércio internacional; há leis e autoridades para cobrar o seu cumprimento e, com o mesmo rigor, fiscalizar as operações comerciais. Infelizmente, o Brasil não possui uma lei única de comércio exterior e há consolidação da legislação do setor. Isso dificulta bastante, pois possuímos aproximadamente centenas de Instruções Normativas da Receita Federal, Decretos, Portarias, órgãos anuentes e intervenientes. 2.1 Organização Mundial do Comércio – OMC Antes do final da Segunda Guerra Mundial, considerava-se que a paz mundial requeria uma cooperação econômica e financeira, e em uma conferência internacional, foi proposta a criação de uma Organização Internacional do Comércio – OIC (Internacional Trade Organization – ITO), que regularia as relações comerciais entre os países. Em julho de 1944, enquanto a Segunda Guerra Mundial ainda estava em curso, representantes de todas as 44 nações aliadas que reuniam os países em guerra contra o eixo fascista (inclusive o Brasil), 730 delegados encontraram-se em Bretton Woods, New Hampshire, no nordeste dos Estados Unidos, para empreender uma das mais audaciosas iniciativas em engenharia social. Tratava-se de criar regras e instituições para a criação de um sistema monetário internacional capaz de superar as enormes limitações que o padrão-ouro e o sistema de desvalorizações cambiais competitivas haviam imposto ao comércio internacional e também à operação das economias domésticas. Buscava-se, aos países participantes, definir regras comuns que contribuíssem para que eles atingissem níveis sustentados de prosperidade econômica e, por outro lado, que abrissem mão de parte da sua soberania na tomada de decisões sobre políticas domésticas, subordinando-as ao objetivo comum de estabilidade macroeconômica. A OMC foi idealizada em 1944, simultaneamente à criação do Fundo Monetário Internacional – FMI e do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento – Bird – as chamadas instituições de Bretton Woods, concebidas pelos Estados Unidos e pela Inglaterra. Com FMI e Bird, a então denominada Organização Internacional do Comércio – OIC formaria um sistema econômico multilateral. Além de estabelecer disciplinas para o comércio de bens, continha normas sobre emprego, práticas comerciais restritivas, investimentos estrangeiros e serviços. 49 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO Diante da oposição do congresso americano a tais regras, 23 países, incluindo o Brasil, assinaram o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (General Agreement on Tariffs and Trade, Gatt) – tratado que estabelecia um conjunto de normas para a liberalização do comércio internacional. A institucionalização do Gatt como um foro de negociações comerciais resultou na criação da cláusula central do Acordo – a chamada cláusula de nação mais favorecida, que determinava qualquer concessão feita por uma nação a um parceiro comercial, deveria ser estendida a todos os países signatários do Gatt. Essa cláusula impedia as chamadas preferências na abertura comercial. Em 1947, o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio foi firmado entre os países signatários (dentre eles, o Brasil) para regulamentar as relações comerciais internacionais. Um dos principais resultados obtidos foi a criação da Organização Mundial do Comércio – OMC, em janeiro de 1995, após a “Rodada Uruguai” (1986 – 1994). A OMC surgiu com o objetivo de fortalecer e aperfeiçoar o sistema de comércio multilateral existente desde os anos que se seguiram ao final da Segunda Guerra Mundial. Seus propósitos consistiam em garantir a livre concorrência entre os países-membros, abolir os obstáculos ao comércio entre os países e permitir o acesso das empresas ao mercado externo. Agregou às regras do Gatt normas quanto aos setores de serviços e de propriedade intelectual, pois antes apenas eram contempladas as normas relativas ao comércio de bens. Observação A OMC, com sede em Genebra/Suíça, desde Março de 2013, tem 164 membros que negociam e assinam acordos que são ratificados pelo parlamento de cada nação e passam a regular o comércio internacional. 2.2 Banco Interamericano de Reconstrução e Desenvolvimento – Bird O Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento – Bird foi criado em 1945 e conta, em 2011, com 184 países-membros e a entrada, em 23 de julho, de 2002 do Timor Leste, um país que, em 30 de agosto de 1999, cerca de 80% do povo timorense optou pela independência em referendo organizado pela Organização das Nações Unidas. Juntamente com a Associação Internacional de Desenvolvimento – AID (International Development Association – IDA), instituída em 1960 e destinada a prover assistência aos países de menor desenvolvimento, o Bird constituiu o Banco Mundial; organização que tem como principal objetivo a promoção do progresso econômico e social dos países-membros, com financiamento de projetos que visam à melhoria da produtividade e das condições de vida desses países. 50 Unidade I Em 1956, foi estabelecida a Corporação Financeira Internacional – CFI (International Finance Corporation – IFC), cuja função básica é promover o desenvolvimento econômico dos países-membros por meio do crescimento e fortalecimento do setor privado. A CFI somente aceita garantias das empresas para os projetos financiados e também atua mediante a compra de participações em investimentos privados. Em 1988, criou-se a Agência Multilateral de Garantias de Investimentos – (Multilateral Investment Guarantee Agency – Miga), que objetiva oferecer garantias contra riscos não comerciais para investimentos estrangeiros nos países-membros. O Banco Mundial, a IDA e a Miga formam o Grupo Banco Mundial. Ainda que os quatro organismos sejam instituições legalmente e financeiramente separadas, compartilham serviços administrativos do Bird e, no caso da IDA, também recursos de pessoal. A redução da pobreza e a promoção do desenvolvimento sustentável são os focos da atuação do Bird, que tem se dedicado à promoção da gestão governamental e do fortalecimento da sociedade civil, do investimento em setores de infraestrutura e serviços e do incentivo ao desenvolvimento do setor privado. Lembrete O Birdutiliza recursos do mercado internacional de capitais, mas também possui recursos próprios. Somente os países-membros do Fundo Monetário Internacional – FMI podem fazer parte do Bird. 2.3 Fundo Monetário Internacional – FMI O Fundo Monetário Internacional – FMI (International Monetary Fund – IMF), pensado em 1944, foi criado em 1945 e tem como objetivo básico zelar pela estabilidade do sistema monetário internacional entre os seus 189 países-membros, em 2017. Juntamente com o Bird, o FMI emergiu das Conferências de Bretton Woods como um dos pilares da ordem econômica internacional do pós-guerra. O FMI objetiva evitar que desequilíbrios nos balanços de pagamentos e nos sistemas cambiais dos países-membros possam prejudicar a expansão do comércio e dos fluxos de capitais internacionais. O Fundo favorece a progressiva eliminação das restrições cambiais nos países-membros e concede recursos temporariamente para evitar ou remediar desequilíbrios no balanço de pagamentos. A autoridade máxima do FMI é a assembleia de governadores, e a diretoria executiva é composta por 24 membros eleitos ou indicados pelos países ou grupos de países-membros. É responsável pelas atividades operacionais do Fundo e deve reportar-se, anualmente, à assembleia de governadores. 51 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO A diretoria executiva concentra suas atividades na análise da situação específica de países ou no exame de questões como o estado da economia mundial e do mercado internacional de capitais, a situação econômica da instituição, monitoramento econômico e programas de assistência financeira do Fundo. A assembleia de governadores do FMI é assessorada pelo “Comitê Interino” e pelo “Comitê de Desenvolvimento” (conjunto com o Bird), que se reúnem duas vezes por ano e examinam assuntos relativos ao sistema monetário internacional e à transferência de recursos para os países em desenvolvimento, respectivamente. Observação O FMI, com sede em Washington, D.C/USA, desde Junho de 2012, tem 188 membros que buscam criar uma cooperação mundial para a estabilidade financeira dos países-membros. 2.4 Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID O BID foi fundado em 1959, como uma parceria entre 19 países da América Latina e os Estados Unidos. Os países-membros originais eram Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, El Salvador, Equador, Guatemala, Haiti, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai, Venezuela e Estados Unidos. Ao longo das décadas seguintes, o Banco ampliou o número de membros, inicialmente, somente no hemisfério ocidental. Trinidad e Tobago tornaram-se membro, em 1967, seguido de Barbados (1969), Jamaica (1969), Canadá (1972), Guiana (1976) e Suriname (1980). Os países-membros não regionais ou de fora do hemisfério ocidental, 16 Estados europeus mais Israel e Japão tornaram-se membros, entre 1976 e 1986. Belize passou a membro em 1992 e a Croácia e Eslovênia aderiram como estados sucessores da Iugoslávia em 1993. A República da Coreia tornou-se um país membro em 2005 e a República Popular da China em 2009. Cuba assinou, mas não ratificou os Artigos do Convênio Constitutivo – a carta da instituição, não sendo, portanto, ainda membro. É a maior fonte de financiamento para o desenvolvimento na América Latina e Caribe, apoiando iniciativas para reduzir a pobreza e a desigualdade, obter e conceder financiamentos para projetos que visam ao desenvolvimento econômico, institucional e social, como também dispõe de programas de promoção do comércio e integração regional de toda a América Latina e Caribe. É composto por 48 países-membros, entre eles, 26 membros mutuários da América Latina e Caribe, que têm participação majoritária no BID. 52 Unidade I Em 1999, o BID começou a utilizar uma classificação para supervisionar a distribuição dos empréstimos. De acordo com essa classificação, os países foram divididos em Grupos I e II, segundo seu PIB per capita, em 1997. O Banco canaliza 35% do volume dos seus empréstimos aos países do Grupo II, que possuem a menor renda per capita: Belize, Bolívia, Colômbia, Costa Rica, El Salvador, Equador, Guatemala, Guiana, Haiti, Honduras, Jamaica, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana e Suriname. Aproximadamente 65% do volume de empréstimos são canalizados para os países do Grupo I: Argentina, Bahamas, Barbados, Brasil, Chile, México, Trinidad e Tobago, Uruguai e Venezuela. Dos 48 países-membros, 22 países são não mutuários, o que significa que entram com capital e têm poder de voto na Assembleia de Governadores do Banco e Diretoria Executiva segundo suas subscrições de capital. Os membros não mutuários do BID são Estados Unidos, Canadá, Japão, Israel, República da Coreia, República Popular da China e 16 países europeus: Alemanha, Áustria, Bélgica, Croácia, Dinamarca, Eslovênia, Espanha, Finlândia, França, Itália, Noruega, Países Baixos, Portugal, Reino Unido, Suécia e Suíça. 2.5 Sistema Geral de Preferências – SGP O Sistema Geral de Preferências – SGP foi criado sob o amparo da United Nations Conference on Trade and Development – UNCTAD e consiste num sistema de tratamento preferencial por meio do qual países concedem reduções parciais ou totais de tarifas de importação a países em desenvolvimento, incluindo o Brasil, sobre determinados produtos. Trata-se de uma exceção ao princípio da nação mais favorecida, que consiste na proibição de regras de importação discriminatórias entre os países-membros, sendo essa exceção provida de legalidade no sistema multilateral de comércio. O Brasil é beneficiado pelo SGP, concedido por 36 países, incluindo os EUA e a União Europeia, que estão entre principais parceiros comerciais do Brasil. Para obter o benefício, o produto a ser exportado deve constar das listas de mercadorias com direito ao SGP, divulgadas, periodicamente, pelos países outorgantes. Também é necessário que o produto tenha origem do país beneficiário exportador, em conformidade com as regras do país outorgante. Há ainda, algumas regras de cada país outorgante do benefício, a exemplo dos EUA, que estabelecem “limites de competitividade” a serem seguidos. Assim: a) as importações de um único produto com as isenções do programa não podem ser superior à metade do total das compras externas americanas desse produto; b) o valor da importação de uma única mercadoria não pode ultrapassar o limite máximo de US$ 110 milhões. Esse limite estabelecido na norma americana indica que, uma vez ultrapassado, não há que valer os benefícios do SGP, pois o país exportador passa a demonstrar 53 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO competitividade suficiente dentro do mercado norte-americano que não justifique qualquer tipo de privilégio. Vale notar que parte significativa dos produtos listados tanto pelo programa dos EUA quanto pelo da União Europeia constam da pauta exportadora brasileira para aqueles mercados. Com o crescimento da União Europeia, visto a possibilidade de entrada de novos países, pois aguardam aprovação da Croácia, Macedônia, Islândia, Albânia, Montenegro e Turquia, novas oportunidades de beneficiamento por meio do SGP serão criadas, sendo prudente que as empresas brasileiras estejam atentas a estes benefícios. O tratamento preferencial revela uma excelente possibilidade de aumento de exportações brasileiras, o que propicia ganhos com o aumento do comércio e dos empregos. O SGP possui as seguintes características: • unilateral e não recíproco: os outorgantes concedem o tratamento tarifário preferencial, sem obter o mesmo tratamento em contrapartida; • autônomo: cada país outorgante possui sua própria lista de produtos elegíveis ao benefício, as margens de preferências (redução da tarifa alfandegária) e regras a serem cumpridas para a concessão do benefício; • temporário: cada país determina o prazo de validade da concessão; • autorizado no âmbito da Organização Mundial de Comércio – OMC por meioda “Cláusula de Habilitação”, por tempo indeterminado. Para evitar que os benefícios provenientes das reduções tarifárias, por intermédio do SGP sejam apropriados por outros países, foi instituída a obrigatoriedade, pela UNCTAD, do uso de um certificado de origem denominado Form A, cujo modelo foi aprovado pela Conferência. Esse documento é utilizado para atestar o cumprimento de todos os requisitos de origem. No Brasil, ele é emitido pelas agências do Banco do Brasil, autorizadas pela Secex e pelo Ministério da Economia. Com o objetivo de comprovar a nacionalidade de algum produto que está sendo importado e para evitar fraudes nas concessões do SGP, os países outorgantes das preferências adotam um regime de origem, tendo como regra básica o critério de “percentual mínimo de componentes nacionais”, isto é, a nacionalidade não somente do produto final mas também das partes que o compõem, para que ele possa usufruir o benefício preferencial. Os países que outorgam o SGP são: Austrália, Bielorrússia, Bulgária, Canadá, Estados Unidos da América, Rússia, Japão, Noruega, Nova Zelândia, Suíça e Turquia, além da União Europeia (25 países). Cabe à Secretaria de Comércio Exterior – Secex do Ministério da Economia administrar o SGP no Brasil. 54 Unidade I 2.6 Sistema Global de Preferências Comerciais – SGPC O Sistema Global de Preferências Comerciais – SGPC é um mecanismo por meio do qual os países em desenvolvimento, membros do Grupo dos 77 (O G-77 possui atualmente 130 países-membros), negociam concessões comerciais. Pretende ser um instrumento para a promoção do comércio, bem como de aumentar a participação de suas economias no comércio internacional. Foi criado, em 15 de junho de 1964, o acordo que constituiu o SGPC, quando 77 países em desenvolvimento adotaram, na conclusão da Primeira Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento, uma declaração conjunta. O acordo sobre o Sistema Global de Preferências Comerciais – SGPC foi concluído em Belgrado, em abril de 1988, e entrou em vigor em 19 de abril de 1989, tendo sido ratificado e assinado por 40 países, incluindo o Brasil, em 25 de maio de 1991. No âmbito do SGPC, os exportadores brasileiros podem obter vantagens por intermédio de margem de preferência percentual, aplicável sobre a tarifa de importação em vigor no país outorgante, para os produtos que constam de sua lista de concessões. Para a obtenção de tratamento preferencial, é necessário que: • o produto conste das listas de concessões; • o exportador satisfaça as Regras de Origem; • o exportador obtenha os Certificados de Origem – SGPC, junto à federação estadual de indústria credenciada. 2.7 Blocos econômicos Com a economia mundial globalizada, a tendência é a formação de blocos econômicos, que são criados com a finalidade de facilitar o comércio de bens e serviços entre os países-membros. Adotam redução ou isenção de impostos ou de tarifas alfandegárias diferenciadas e buscam soluções em comum, envolvendo várias questões como geográficas, econômicas e sociais. As zonas de comércio internacional, ou blocos, como são denominados, apresentar, geralmente, os formatos que veremos nos subtópicos seguintes. 2.7.1 Zona ou área de preferência tarifária Os acordos visam à redução de tarifas alfandegárias entre os signatários, para todos ou para grupos de produtos. As reduções das alíquotas de importação podem ocorrer de forma gradativa, ser estabelecidas para um patamar fixo ou para uma redução gradativa ao longo do tempo, cujo objetivo final é chegar a uma situação de eliminação total das tarifas alfandegárias. 55 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO Uma vez cumprida essa etapa, o bloco estará preparado para uma segunda fase no seu relacionamento econômico. A antiga Associação Latino-Americana de Livre-Comércio – Alalc, foi um exemplo de Zona de Preferência Tarifária que, em 1980, foi substituída pela Associação Latino-Americana de Integração – Aladi. 2.7.2 Zona ou área de livre-comércio Esse é o segundo estágio no caminho da integração econômica. As barreiras comerciais entre os países-membros são eliminadas para o trânsito de bens, e reduzem ou eliminam as barreiras alfandegárias, tarifárias e não tarifárias, que incidem sobre a troca de mercadorias dentro do bloco. Constitui-se como exemplo de zona de livre-comércio, o Nafta, um acordo firmado entre os Estados Unidos, o Canadá e o México. Um acordo comercial só pode ser considerado uma zona de livre-comércio quando, pelo menos, 80% dos bens comercializados entre seus países-membros estejam livres de barreiras. 2.7.3 União aduaneira A união aduaneira é uma fase quando o intercâmbio é livre e restringin-se à circulação de bens dentro do bloco (como na zona de livre-comércio), momento em que os estados-membros, além de abrir mercados internos, regulamentam o seu comércio de bens com nações externas. Desse modo, todos os países devem adotar a mesma política comercial e utilizar uma alíquota para importação comum. A união aduaneira caracteriza-se por adotar uma Tarifa Externa Comum – TEC, que permite estabelecer a mesma tarifa aplicada a mercadorias originadas de países que não integram o bloco econômico. O Mercosul é um exemplo da atual fase de desenvolvimento, uma união aduaneira que luta para se transformar em um mercado comum. 2.7.4 Mercado comum O mercado comum já é processo avançado de integração econômica, garantindo a livre circulação de pessoas, bens, serviços e fatores de produção (capitais e mão de obra). No mercado comum pressupõe-se a coordenação de políticas macroeconômica devendo, todos os países-membros, seguirem os mesmos parâmetros para fixar taxas de juros, câmbio e políticas fiscais. A Comunidade Europeia, a partir de 1993, transformou-se em um bloco econômico do tipo mercado comum. 56 Unidade I 2.7.5 União econômica e monetária Constitui o estágio mais avançado do processo de formação de blocos econômicos, contando com uma moeda única e um fórum político. No estágio de união econômica e monetária tem de existir uma moeda única e uma política monetária inteiramente unificada e conduzida por um Banco Central que una todos os estados-membros. Para se chegar ao estágio de união econômica e monetária, há que se realizar vários acordos de interesse comum e isso significa um avanço em relação a outros níveis de integração. O Nafta parece não pretender adotar o princípio da livre circulação de pessoas, mas avançou com respeito ao volume das trocas de bens. Já a União Europeia, originada da Comunidade Econômica Europeia – CEE, depois de 50 anos de negociações, é o maior exemplo de um processo de formação de bloco econômico no mundo contemporâneo. Hoje, a União Europeia representa o mais avançado estágio de integração em blocos econômicos, adotando uma moeda comum, o euro, e uma política com o funcionamento de um parlamento europeu; formado por deputados dos países da Comunidade Europeia, eleitos pelos cidadãos dos países-membros para representá-los. 2.7.6 Blocos econômicos Os blocos econômicos são separados também a partir de sua natureza. Veja a seguir: • Acordo de Livre-Comércio da América do Norte (North American Free Trade Agreement – Nafta) Formado pelos Estados Unidos, Canadá e México, e tendo o Chile como associado em livre-comércio, com custo reduzido para troca de mercadorias entre os três países. O Nafta entrou em vigor, em 1º de janeiro de 1994. Todos os direitos e as restrições quantitativas foram eliminados, em 1º de janeiro de 2008. Nafta criou a maior área do mundo de livre-comércio, que liga agora 450 milhões de pessoas, com uma produção aproximada de 17 trilhões de dólares no valor de bens e serviços. • Apec – Fórum Econômico da Ásia e do Pacífico Formado por Austrália, Brunei, Darussalam, Canadá, Indonésia, Japão, Malásia, Nova Zelândia, Filipinas, Cingapura, Coreia do Sul, Tailândia e Estados Unidos da América, desde 1989; China, Hong Kong, Taiwan, desde 1991; México, Papua-Nova Guiné,desde 1993; Chile, a partir de 1994; e Peru, Rússia e Vietnã, a partir de 1998. 57 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO • Asean – Associação de Nações do Sudeste Asiático Uma organização regional de Estados do sudeste asiático, que foi constituída em 8 de agosto de 1967, formada pela Indonésia, Malásia, Filipinas, Cingapura e Tailândia, os fundadores, e mais Brunei, a partir de 1984; Vietnã desde 1985; Mianmar e Laos a partir de 1997 e Camboja desde 1999. Em 1992, foi criada a uma zona de comércio livre de modo a desenvolver a competitividade da região, que funciona como um bloco unido. Nas relações externas, a prioridade da Asean é fomentar a integração com os países da região Ásia-Pacífico, mas foram também estabelecidos acordos de cooperação com o Japão, China e Coreia do Sul. Passou para área de livre-comércio, na qual cada país tem autonomia na administração de sua política comercial e entrou em vigor, em 1º de janeiro de 2010. • Anzcerta – Acordo Comercial sobre Relações Econômicas entre Austrália e Nova Zelândia O Acordo Comercial sobre Relações Econômicas entre Austrália e Nova Zelândia (Australia New Zealand Closer Economic Relations Trade Agreement, Anzcerta), criado em 1983, é o principal instrumento de administração das relações econômicas entre Austrália e Nova Zelândia. Foi planejado para transformar-se em uma área de livre-comércio. Além do protocolo geral destinado a acelerar o livre-comércio de mercadorias entre os dois países, o Anzcerta destaca-se pelo seu protocolo sobre livre-comércio na área de serviços, o primeiro do mundo globalizado. Vale destacar que o Anzcerta assinou um acordo inicial com a Associação de Nações do Sudeste Asiático – Asean, em 1995, para facilitar os fluxos de comércio e de investimentos entre as duas regiões. Em 1º de janeiro de 2010, os dois blocos estabeleceram um novo acordo de comércio denominado Anzfta – Asean–Australia–New Zealand Free Trade Area, compreendendo oito dos 12 países da Asean. Aguarda, ainda, a posição de Tailândia, Laos, Camboja e Indonésia. • CAN – Comunidade Andina de Nações Também conhecido por Pacto Andino (Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, tendo o Panamá como observador), o Chile deixou o bloco em 1977, mas em 20 de setembro de 2006, o Conselho Andino de Chanceleres, reunido em Nova York, aprovou a reincorporação do Chile à CAN como membro associado. A Venezuela, que havia se vinculado em 1973, deixou o acordo em 2006, argumentando que os Tratados de Livre-Comércio assinados pela Colômbia e Peru com os Estados Unidos causaram dano irreparável às instituições andinas. Além dos países membros, existem quatro países associados (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai). Há também os países observadores (México e Panamá). O bloco surgiu em 1969 e foi chamado Pacto Andino até 1996. O Acordo de Cartagena – seu nome oficial – tem o objetivo de aumentar a integração comercial, política e econômica entre os países- membros. Também é conhecido como Grupo ou Comunidade Andina. Em 1991, a Declaração de Caracas 58 Unidade I estabeleceu uma zona andina de livre-comércio, que começou a vigorar em janeiro de 1992. As tentativas de determinar uma tarifa externa comum, no entanto, vêm fracassando. Em 1999, o bloco firmou um acordo de tarifas preferenciais com o Brasil, com prazo inicial de dois anos, e em julho de 2000 assinou um trato similar com a Argentina. • Mercosul – Mercado Comum do Sul Formado por Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai, Venezuela (aderiu em 04 de Julho de 2006) e Bolívia (aderiu ao Bloco em 2012, mas está suspensa, desde dezembro de 2016, por descumprimento de seu Protocolo de Adesão e, desde agosto de 2017, por violação da Cláusula Democrática do Bloco), e participam, até o momento, como países associados ao Mercosul, Chile, Colômbia, Equador, Peru, Guiana e Suriname. O processo de integração regional no âmbito do Mercosul iniciou-se em 26 de março de 1991, com a assinatura do Tratado de Assunção pelos governos de Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. As discussões para a constituição de um mercado econômico regional para a América Latina remontam ao tratado que estabeleceu a Associação Latino-Americana de Livre-Comércio – Alalc, desde a década de 1960, organismo que foi sucedido pela Associação Latino-Americana de Integração – Aladi na década de 1980. • Caricom – Mercado Comum e Comunidade do Caribe Tem como países-membros – Antígua e Barbuda, Bahamas, Barbados, Belize, Dominica, Granada, Guiana, Haiti, Jamaica, Montserrat, Santa Lúcia, São Cristóvão e Névis, São Vicente e Granadinas, Suriname, Trinidad e Tobago, e Territórios associados – Bermudas, Ilhas Virgens Britânicas, Turks e Caicos (1991), Ilhas Caimán, Anguilla (1999). Em 1998, Cuba foi admitida como observadora do Caricom e, em maio e julho de 2000, a República Dominicana e Cuba, respectivamente, firmam acordos de livre-comércio com o bloco. Atualmente são países observadores: Aruba, Colômbia, Curaçao, México, Porto Rico, Sint Maarten e Venezuela. A Caricom, antiga Comunidade e Mercado Comum do Caribe e atual Comunidade do Caribe, é um bloco de cooperação econômica e política que foi estabelecido, em 4 de julho de 1973, pelo Tratado de Chaguaramas (Trinidad e Tobago) e, com sede em Georgetown (Guiana), a Caricom veio substituir a Carifta (Associação de Livre-Comércio do Caribe), que existia desde 1965. — UE – União Europeia É formada pela Alemanha, Áustria, Bélgica, Bulgária, Chipre, Croácia (desde 2013), Dinamarca, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Estônia, Finlândia, França, Grécia, Hungria, Irlanda, Itália, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Holanda (Países Baixos), Polônia, Portugal, Reino Unido, República Checa, Romênia, e Suécia; anteriormente designada por Comunidade Econômica Europeia – CEE, Comunidade 59 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO Europeia – CE e Mercado Comum Europeu – MCE. Cabe lembrar que o Reino Unido está no processo de Brexit (originada na língua inglesa resultante da junção das palavras British - britânico e exit - saída), após o referendo de 2016, em que 51,8% da população de eleitores da Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte, além dos residentes britânicos de Gibraltar e os cidadãos britânicos que vivem no exterior, optaram pela saída do Reino Unido do Bloco. A União Europeia é uma instituição que passou a dispor de personalidade jurídica após o início da vigência do Tratado de Lisboa. Possui competências próprias, tais como a Política Agrícola Comum, a Política Comum das Pescas, entre outros. Essas competências são partilhadas com todos os estados-membros da União Europeia. Utiliza um modelo híbrido de governo: o Conselho da União Europeia, que é o representante dos Estados (decisões não requerem unanimidade, o voto de cada Estado é definido por meio do número de habitantes de cada um) e o Parlamento Europeu, que é o representante dos cidadãos. Esse modelo é uma chave para a luta de influências entre as três instituições europeias: o Parlamento, a Comissão e o Conselho. Ao todo, são sete instituições: - Parlamento Europeu: é a assembleia parlamentar, eleita por sufrágio universal direto pelos cidadãos da União Europeia. - Conselho da União Europeia: o principal órgão legislativo e de tomada de decisão na UE. Representa os governos dosestados-membros. - Conselho Europeu: composto pelos chefes de Estado dos países-membros da União, juntamente com o presidente da Comissão Europeia. - Comissão Europeia: instituição independente que representa e defende os interesses da União como um todo, propõe legislação, políticas e programas de ação, e é responsável pela execução das decisões do Parlamento e do Conselho da UE. - Tribunal de Justiça da União Europeia: garante a conformidade com a legislação da União, uma vez que os estados-membros estão sujeitos judicialmente a este. - Tribunal de Contas Europeu: controla a legalidade e a regularidade da gestão do orçamento da UE. - Banco Central Europeu: é responsável73 3.2 Ministério da Economia ..................................................................................................................... 74 3.2.1 Secretaria de Assuntos Internacionais – Sain ............................................................................. 74 3.2.2 Secretaria de Política Econômica – SPE ........................................................................................ 74 3.2.3 Secretaria de Assuntos Internacionais – Seain ........................................................................... 74 3.2.4 Secretaria da Receita Federal – SRF ................................................................................................ 75 3.2.5 Banco Central do Brasil – Bacen ...................................................................................................... 75 3.2.6 Banco do Brasil – BB ............................................................................................................................. 75 3.3 Ministério das Relações Exteriores – MRE ................................................................................. 76 3.4 Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – Mapa .......................................... 76 3.4.1 Secretaria de Política Agrícola – SPA.............................................................................................. 77 3.4.2 Secretaria de Defesa Agropecuária – SDA .................................................................................... 77 3.4.3 Secretaria de Relações Internacionais do Agronegócio – SRI .............................................. 77 3.5 Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos – Apex-Brasil ...... 77 3.6 Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos – ECT .................................................................. 78 4 GESTORES E ANUENTES E AUTORIDADES EM COMEX ..................................................................... 78 4.1 Órgãos gestores ..................................................................................................................................... 78 4.2 Órgãos anuentes ................................................................................................................................... 78 4.2.1 Banco do Brasil ........................................................................................................................................ 79 4.2.2 Secretaria da Receita Federal – SRF ................................................................................................ 80 4.2.3 Banco Central do Brasil – Bacen ...................................................................................................... 80 4.3 Autoridades na área de transportes ............................................................................................. 81 4.3.1 Ministério da Infraestrutura ............................................................................................................... 81 4.3.2 Secretaria Nacional de Aviação Civil - Ministério da Infraestrutura ................................. 97 Unidade II 5 A POLÍTICA BRASILEIRA PARA O COMÉRCIO EXTERIOR ................................................................106 5.1 Exportação ............................................................................................................................................106 5.1.1 Documentos exigidos para a exportação ....................................................................................108 5.1.2 Exportações temporárias ...................................................................................................................109 5.1.3 Exportações em consignação ...........................................................................................................111 5.1.4 Fontes de financiamento à exportação .......................................................................................112 5.2 Importação ............................................................................................................................................ 115 5.2.1 Aspectos conceituais ...........................................................................................................................115 5.2.2 Tributos incidentes na importação ................................................................................................116 5.2.3 Valoração aduaneira ............................................................................................................................ 117 5.2.4 Cálculo dos tributos na importação ..............................................................................................118 5.2.5 Redução de alíquota dos tributos na importação...................................................................118 5.3 Regimes aduaneiros especiais .......................................................................................................121 5.3.1 Trânsito aduaneiro ............................................................................................................................... 122 5.3.2 Admissão temporária ......................................................................................................................... 122 5.3.3 Regime de drawback .......................................................................................................................... 123 5.3.4 Entreposto aduaneiro ......................................................................................................................... 125 5.3.5 Entreposto industrial .......................................................................................................................... 127 5.3.6 Exportação temporária ...................................................................................................................... 127 5.3.7 Depósito Alfandegado Certificado – DAC.................................................................................. 127 5.3.8 Operador Econômico Autorizado (OEA) ..................................................................................... 128 6 SISTEMA FISCAL .............................................................................................................................................129 6.1 Aspectos tributários na exportação ............................................................................................134 6.1.1 O IPI e o ICMS nas exportações ..................................................................................................... 135 6.1.2 Contribuição para Financiamento da Seguridade Social – Cofins .................................. 136 6.1.3 Programa de Integração Social – PIS .......................................................................................... 137 6.2 Aspectos tributários na importação ...........................................................................................137 6.2.1 Imposto de importação ..................................................................................................................... 137 6.2.2 Regime de tributação unificada .................................................................................................... 138 6.2.3 Ex-tarifários ........................................................................................................................................... 139 6.2.4 Drawback – suspensão de tributos ............................................................................................... 140 6.2.5 Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços – ICMS ........................................... 142 6.2.6 Valoração aduaneira ........................................................................................................................... 143 6.2.7 Dumping e direitos antidumping .................................................................................................. 143 6.2.8 As medidas de salvaguarda .............................................................................................................pela moeda única da Zona Euro e a sua principal missão é preservar o poder de compra do euro, assegurando a estabilidade de preços na zona do euro. É composta pelos países da União Europeia, que adotaram a moeda comum: Alemanha, Áustria, Bélgica, Chipre, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Estônia, Finlândia, França, Grécia, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Malta, Países Baixos e Portugal. 60 Unidade I Além disso, a UE tem cinco órgãos principais: o Comitê Econômico e Social, o Comitê das Regiões, o Banco Europeu de Investimento, o Provedor de Justiça Europeu e a Europol. — SADC – Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral Desde 2011, a SADC engloba 14 países do sul da África: África do Sul, Angola, Botsuana, Lesoto, Malavi, Maurício, Moçambique, Namíbia, República Democrática do Congo, Seicheles, Suazilândia, Tanzânia, Zâmbia e Zimbábue. A Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral existe desde 1992, quando foi decidida a transformação da SADCC (Southern Africa Development Co-ordination Conference ou Conferência de Coordenação para o Desenvolvimento da África Austral). — CEI – Comunidade dos Estados Independentes Formada pela Armênia, Belarus, Cazaquistão, Federação Russa, Moldávia, Quirquistão, Tadjiquistão, Uzbequistão, desde 1991; Azerbaidjão, a partir de 1993 e Turcomenistão, atuando apenas como membro associado, a Comunidade dos Estados Independentes – CEI é uma organização supranacional envolvendo agora 11 repúblicas que pertenciam à antiga União Soviética, fundada em 8 de dezembro de 1991. A Ucrania se retirou do bloco em 19 de maio de 2018 A Geórgia se integrou ao Grupo em 1994, mas o seu Parlamento aprovou por unanimidade, em 14 de agosto de 2009, a saída do país da Comunidade dos Estados Independentes, devido ao apoio russo às causas de independência da Abecásia e da Ossétia do Sul. — EFTA – Associação Europeia de Livre-Comércio Hoje, a EFTA é apenas constituída por quatro países – Suíça, Liechtenstein, Noruega e Islândia. É uma organização europeia fundada, em 1960, pelo Reino Unido, Portugal, Áustria, Dinamarca, Noruega, Suécia e Suíça; países que não tinham aderido à Comunidade Econômica Europeia – CEE. Esses estados decidiram se juntar para defender os seus interesses econômicos mediante a criação de uma área de comércio livre e o seu funcionamento centra-se num princípio simples: os produtos importados de estados-membros não estavam sujeitos ao pagamento de impostos aduaneiros, o que naturalmente serviu para fomentar as trocas internacionais no espaço desses países. Em 1973, a Comunidade Econômica Europeia assinou acordos com os estados-membros da EFTA no sentido da criação de uma zona de comércio livre para os 380 milhões de consumidores dos países das duas organizações europeias. Assim, em maio de 1992, a CEE e a EFTA, ao abrigo dos acordos então assinados, passaram a designar essa área por Espaço Econômico Europeu – EEE. A Suíça não participa do acordo devido ao resultado negativo do referendo realizado, em dezembro de 1992. 61 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO — MCCA – Mercado Comum Centro-Americano O Mercado Comum Centro-Americano, ou somente MCCA, (em espanhol: Mercado Común Centroamericano, MCCA) foi criado em 1960 e é formado até hoje pelos países fundadores Costa Rica, Guatemala, Honduras, Nicarágua e El Salvador. Nasceu da tentativa de promover a paz na região, afetada por graves conflitos bélicos. Em 4 de junho de 1961, foi assinado o Tratado de Integração Centro-Americana com o objetivo de criar um mercado comum nessa região. Na mesma época, foi criado o Parlamento Centro-Americano e a Corte Centro-Americana de Justiça, que ainda não possui caráter permanente. Hoje, os estados-membros do MCCA designaram um grupo de trabalho para preparar o processo de constituição da União Centro-Americana, nos mesmos moldes da União Europeia. — Aladi – Associação Latino-Americana de Integração Formada por Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, Equador, México, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela, a Aladi foi criada pelo Tratado de Montevidéu 1980 (TM80), assinado em 12 de abril de 1980, e substituiu e deu continuidade ao processo iniciado pela Associação Latino-americana de Livre-Comércio – Alalc. Em 24 de abril de 2009, foi aceita a adesão da República do Panamá, passando a ser membro pleno da Aladi no ano de 2012. A República da Nicarágua está em fase de adesão, desde 11 de agosto de 2011. A Associação Latino-americana de Integração – Aladi é um organismo intergovernamental com sede na cidade de Buenos Aires, na Argentina, que visa contribuir com a promoção da integração da região latino-americana, procurando garantir seu desenvolvimento econômico e social. Este é também o maior bloco econômico da América Latina. O Chile formalizou sua associação ao Mercosul em 25 de junho de 1996, durante a X Reunião da Cúpula do Mercosul, em San Luis, Argentina; a Bolívia formalizou sua associação em Fortaleza, Brasil, em 17 de dezembro de 1996, e o Peru formalizou sua associação ao Mercosul em 2003. A Colômbia, Equador e Venezuela formalizaram sua associação ao Mercosul, em 2004, mediante a assinatura do Acordo de Complementação Econômica Mercosul-Colômbia, Equador e Venezuela. O México é um estado observador. 2.8 Barreiras ao comércio internacional Embora não haja uma definição precisa para barreira comercial, esta pode ser entendida como qualquer lei, regulamento, política, medida ou prática governamental que imponha restrições ao comércio exterior. 62 Unidade I Todos os países que comercializam com outros países são afetados por diversas barreiras, tais como a região geográfica, o idioma, a moeda, sistema de pesos e medidas, alfabeto e as legislações, tanto internacional como as internas. Apesar de termos mencionado que blocos econômicos são criados com a finalidade de facilitar o comércio de bens e serviços entre os países-membros, com a adoção da redução ou isenção de impostos ou de tarifas alfandegárias diferenciadas e buscando soluções em comum, e que muitos países têm se unido para a redução ou eliminação de barreiras alfandegárias, é necessário estarmos conscientes de que existem muitos empecilhos ao comércio exterior, sendo uma delas as chamadas barreiras comerciais e as barreiras técnicas. 2.8.1 Barreiras técnicas Segundo o Inmetro, Barreiras técnicas, considerando o estipulado pela OMC, são barreiras comerciais derivadas da utilização de normas ou regulamentos técnicos não transparentes ou não embasados em normas internacionalmente aceitas ou, ainda, decorrentes da adoção de procedimentos de avaliação da conformidade não transparentes e/ou demasiadamente dispendiosos, bem como de inspeções excessivamente rigorosas (Inmetro, 2012). Se formos utilizar as regras estipuladas pela OMC, podemos considerar a seguinte definição de barreiras técnicas, também segundo o Inmetro: Barreiras técnicas às exportações são barreiras comerciais derivadas da utilização de normas ou regulamentos técnicos não transparentes ou que não se baseiem em normas internacionalmente aceitas ou, ainda, decorrentes da adoção de procedimentos de avaliação da conformidade não transparentes e/ou demasiadamente dispendiosos, bem como de inspeções excessivamente rigorosas (Inmetro, 2012). Temos como exemplos de barreiras técnicas: • Requisitos relativos às características dos produtos: como produtos sujeito à avaliação de conformidade, no caso de brinquedos infantis e eletrodomésticos. • Requisitos relativos à embalagem: as exigências de materiais, tamanhos ou padrões de peso para embalagens de produtos, são alguns dos requisitos de embalagem. • Requisitos relativos à rotulagem: são exigências especiais quanto a tipo, tamanho de letras ou tradução nos rótulos de produtos. • Requisitos relativos a informações sobre o produto: consideremos as exigências de conteúdo alimentar ou proteico de produtos ou de informações ao consumidor. 63 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO• Requisitos relativos à inspeção, ensaios e quarentena: produtos sujeitos à inspeção física e análise nas alfândegas ou a procedimentos de quarentena. • Outros requisitos técnicos: as exigências de certificados relativos à fabricação do produto mediante processos não poluidores do meio ambiente é um exemplo deste tipo de barreiras técnicas. Já nas barreiras comerciais, temos duas categorias mais comuns: • Barreiras comerciais tarifárias: que tratam de tarifas de importações, taxas diversas cobradas de importadores ou exportadores e valoração aduaneira. • Barreiras comerciais não tarifárias: que tratam de restrições quantitativas, licenciamento de importação, procedimentos alfandegários, medidas antidumping, medidas compensatórias, subsídios, medidas de salvaguarda e medidas sanitárias e fitossanitárias. Dentre estas últimas, encontram-se as barreiras técnicas, que também são mecanismos utilizados com fins protecionistas. 2.8.2 Barreiras comerciais tarifárias As barreiras comerciais tarifárias, como o próprio nome indica, são barreiras que são estipuladas em decorrência de uma tarifa. Essas tarifas podem ser impostos de importação ou taxas sobre taxas como, por exemplo, um percentual sobre o valor FOB (free on board, posto livre a bordo) ou EXW (ex-works, na fábrica) das mercadorias, ou ainda sobre o valor internado da mercadoria (CIF mais impostos). O objetivo dessas taxas é elevar o valor do produto importado, a fim de tornar a mercadoria nacional mais competitiva, já que, com o aumento do valor do produto importado, a demanda por ele é bem reduzida. • Barreiras por dumping Barreiras por dumping é um tipo de barreira alfandegária. Dumping, de uma forma geral, é a comercialização de produtos a preços abaixo do custo de produção, para eliminar a concorrência e conquistar uma fatia maior de mercado. O Ministério da Economia – considera que há prática de dumping quando uma empresa exporta para o Brasil um produto a preço (preço de exportação) inferior àquele que pratica para o produto similar nas vendas para o seu mercado interno (valor normal). Desta forma, a diferenciação de preços já é por si só considerada como prática desleal de comércio. Essa prática pode ser causada por subsídios ou empréstimos com taxas de juros baixíssimas dados pelos governos. Por exemplo, o subsídio que o governo americano dá aos produtores agrícolas faz com que o custo ao produtor seja menor, o que, consequentemente, gera um preço de venda menor. Além disso, o dumping pode ser causado por empresas que visam eliminar seus concorrentes e, para isso, vendem seus produtos a valores muito mais baixos, o que gera a quebra das companhias locais. Em 64 Unidade I caso de suspeita, as empresas prejudicadas por essa prática devem solicitar a investigação do caso, pois a OMC penaliza o dumping por ele ser desleal. A União Europeia vem sendo acusada pela OMC (Organização Mundial do Comércio) de práticas comerciais ilegais, no caso do açúcar. A região adota cotas de produção e oferece subsídios para exportadores para compensar a diferença entre os baixos preços no mercado externo e os altos preços internos. O preço do açúcar na Europa chega a ser quatro vezes maior do que o praticado no mercado externo. Existem vários tipos de dumping5: o estratégico, o estatal, o intencional, o não intencional e o ocasional: • Dumping estratégico: é usado como uma estratégia do país para ter o controle de certo mercado no exterior. Incentivos fiscais, empréstimos e financiamentos com juros abaixo dos disponíveis no mercado são algumas de suas formas. • Dumping estatal: o governo detém o controle da empresa e o dinheiro público é usado para custear essa prática. • Dumping intencional: quando uma empresa executa o dumping conscientemente, o objetivo é prejudicar ou eliminar o concorrente. O setor aéreo pode ser um exemplo, pois nele grandes companhias reduzem o preço de seus serviços para prejudicar companhias menores. • Dumping não intencional: moeda desvalorizada, mão de obra barata e carga tributária reduzida contribuem para um cenário favorável ao dumping não intencional, que faz com que a mercadoria a ser exportada seja extremamente competitiva. Esse tipo de dumping não pode ser combatido, pois é resultado de um diferencial competitivo. • Dumping ocasional: uma repentina e momentânea desvalorização da moeda em relação ao dólar pode gerar uma situação temporária de vantagem comercial. Porém, com a flutuação das moedas ao decorrer do tempo, perde-se essa vantagem e há um reequilíbrio dos preços. Como forma de salvaguardar a indústria local, alguns países adotam uma política antidumping, ou seja, na importação, cobram taxas extras além do imposto. Dessa forma, fazem com que os produtos externos se tornem menos competitivos. A Defesa Comercial no Brasil está baseada em três instrumentos: • Medidas antidumping: que buscam anular o dano sofrido por uma indústria, em decorrência de importações realizadas a preços de dumping. Considera-se que há prática de dumping, em comércio internacional, quando uma empresa exporta para outro país um produto a preço inferior àquele vigente em seu mercado interno, com o objetivo de eliminar a concorrência, tanto de produtores locais, como de outros produtores estrangeiros. 5 Dumping é uma palavra de origem inglesa que não tem encontrado tradução nas línguas latinas, sendo incorporada, em sua grafia original, ao vocabulário de inúmeros idiomas, dentre os quais o português e é definido como o ato de vender mercadorias no exterior por preço menor do mercado doméstico. 65 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO • Medidas compensatórias: que visam à neutralização dos efeitos danosos à produção doméstica de importações de produtos subsidiados. Entende-se por subsídio a concessão de um benefício, em função das seguintes hipóteses: — Haja, no país exportador, qualquer forma de sustentação de renda ou de preços que, direta ou indiretamente, contribua para aumentar exportações ou reduzir importações de qualquer produto. — Haja contribuição financeira por um governo ou órgão público, ao exportador, no interior do território de um país. • Medidas de salvaguarda: cuja finalidade é garantir uma proteção temporária, que permita ao setor prejudicado por um aumento substancial de importações, ajustar-se às novas condições de concorrência. • Barreira por impostos e gravames adicionais. São consideradas barreira por impostos e gravames os adicionais de tarifas portuárias ou de marinha mercante, como no Brasil que é adotada a tarifa de 25% sobre o valor do frete nas importações, outros países que adotam a taxa de estatística etc. Também podem ser adotados impostos e gravames internos que discriminem entre o produto nacional e o importado, como por exemplo, imposto do tipo do ICMS ou IPI que onere o produto importado em nível superior ao produto nacional. • Estabelecimento de preços de referência. É o estabelecimento de preços mínimos para importação ou chamados preços de referência. No Brasil, é adotado estabelecimento prévio de preços mínimos como referência para a cobrança das tarifas de importação, sem considerar a valoração aduaneira do produto. 2.8.3 Barreiras comerciais não tarifárias As barreiras comerciais não tarifárias também limitam as importações, contudo, isso ocorre muitas vezes de uma maneira não tão clara, pois os tipos de barreiras comerciais não tarifárias são inúmeros e estas podem ou não ser temporárias. A seguir, abordaremos algumas dessas barreiras e suas características. • Barreiras para determinadas origens: Esse tipo de restrição é aplicado às importações de determinados produtos ou de determinados países. Por exemplo, a União Europeia proíbe a importação de carnes bovinas para o gado procedente de áreas que podem estar infectadas com a febre aftosa. • Barreiras técnicas e de certificação de qualidade: As diferenças de padrões entre um país e outro muitas vezes impede que o produto fabricadoseja exportado da forma como ele é comercializado no mercado interno. Um exemplo simples desse fato é o padrão brasileiro para tomadas, que só é utilizado aqui. 66 Unidade I Para que uma empresa possa importar seus produtos, por exemplo, é preciso que se faça ajustes e alterações técnicas nos produtos importados. Portanto, além de o exportador ter de atender a certos requisitos de conformidade técnica, existe também a necessidade de ajustar procedimentos, processos e índices de qualidade a fim de ganhar a certificação de órgãos internacionais. Cabe aqui salientar a diferença entre um regulamento e uma norma técnica. Segundo a Cartilha de Barreiras Técnicas e a Competitividade Empresarial, editado pelo Inmetro – Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia, ([s.d.]): A diferença fundamental reside na questão da obrigatoriedade. Enquanto o uso de uma norma técnica é voluntário, o regulamento técnico é obrigatório, ou seja, o seu não cumprimento constitui uma ilegalidade sujeita às correspondentes sanções legais, diferentemente das normas técnicas. É por isso que os regulamentos técnicos representam potenciais barreiras técnicas ao comércio. • Barreiras por certificação de origem: Países integrantes da União Europeia, por exemplo, têm tarifas reduzidas e, para muitos produtos, a tarifa de circulação entre esses países é zero. No entanto, caso o Brasil queira exportar a um dos países membros da União Europeia, os produtos serão taxados, pois o Brasil não faz parte da UE. Essa restrição visa beneficiar os países membros de um determinado bloco econômico. O mesmo ocorre entre os países membros do Mercosul. Uma das formas de restringir a comercialização por certificação de origem é a exigência de serviços nacionais obrigatórios, como a de direitos consulares (visto consular nos documentos de embarque). • Barreiras por composição química: O importador restringe a entrada de certos produtos em seu território, tais como determinados tipos de medicamentos, alimentos, bebidas alcoólicas etc. Como exemplo, temos a Europa: desde 2006, os países do continente restringiram a importação de componentes eletrônicos com chumbo em sua composição (lead free – ROHS). Também são proibidas as importações de farelo de laranja, destinado à alimentação de frangos, que contenham dioxina. • Barreiras por tradições religiosas: Antes de exportar um produto, é preciso conhecer os costumes e as tradições do mercado de destino das mercadorias. Na Arábia Saudita, por exemplo, a comercialização de alimentos Halal são aqueles cujo consumo é permitido por Deus segundo a religião muçulmana. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes – ABIEC, as normas básicas a serem seguidas para o abate Halal são: 67 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO — Serão abatidos somente animais saudáveis, aprovados pelas autoridades sanitárias e que estejam em perfeitas condições físicas. — A frase “Em nome de Alá, o mais bondoso, o mais misericordioso” deve ser dita antes do abate. — Os equipamentos e utensílios utilizados devem ser próprios para o abate Halal. A faca utilizada deve ser bem afiada, para permitir uma sangria única que minimize o sofrimento do animal. — O corte deve atingir a traqueia, o esôfago, artérias e a veia jugular, para que todo o sangue do animal seja escoado e o animal morra sem sofrimento. — Inspetores mulçumanos acompanharão todo o abate, uma vez que eles são os responsáveis pela verificação dos procedimentos determinados pela Sharia. — O abate Halal deve ser feito por um muçulmano, em local voltado para à cidade de Meca. — O produto Halal deve ser mantido e transportado separadamente dos outros. Outros produtos como as bebidas alcoólicas, a carne de porco e os artigos pornográficos são proibidos. • Barreiras por proibição: Essas barreiras são feitas por decreto-lei com o intuito de impedir a importação de produtos não essenciais. Essas proibições podem ser definitivas ou temporárias e muitas vezes acabam por incentivar o surgimento do mercado negro. Como exemplo, temos a restrição de importação de substâncias entorpecentes, permitida somente por laboratórios autorizados. • Controles sanitários e fitossanitários: São normas sanitárias e fitossanitárias exigidas na importação de produtos de origem animal e vegetal. Podem ser classificadas como barreiras sanitárias e barreiras fitossanitárias. — Barreiras sanitárias: a restrição sanitária tem por meta proteger a saúde da população do país de destino dos produtos, já que estes podem estar contaminados ou fora de um índice de qualidade aceitável. Há alguns anos, por exemplo, tivemos a contaminação de rebanhos na Europa com a encefalopatia espongiforme bovina, popularmente conhecida como doença da vaca louca. No Brasil as exportações de carne bovina têm restrições quando infectados pela febre aftosa. — Barreiras fitossanitárias: as barreiras fitossanitárias têm como alvo evitar a proliferação de pestes e doenças nas plantas e nos vegetais. É por esse motivo que os pallets (embalagens de madeira) têm de ter um tratamento químico antes de entrar no país de destino desses produtos. Outro exemplo pode ser encontrado nas exportações de mangas brasileiras para vários destinos, em que há obrigação das regiões destinadas a 68 Unidade I mangas para exportação, receber uma atenção especial, ou seja, por exigência dos países importadores, toda a área deve ser monitorada com armadilhas, e serem certificados de isenção quando do embarque ao exterior. • Barreiras por quota: São aplicadas limitações de importações pela fixação de quotas para determinados produtos. As barreiras por quota são impostas pelos governos na importação com o objetivo de limitar a quantidade de determinado produto que entra no país. Existem diversos produtos que são limitados por cotas, entre eles os produtos agrícolas, as carnes, os tecidos etc. As quotas de importação podem também ser combinadas com as barreiras tarifárias tradicionais, com tarifas que variam entre um valor mais baixo, quando a quantidade importada ainda está abaixo da quota (tarifa intraquota), para um mais alto, uma vez que a quota seja excedida (tarifa extraquota). Os Estados Unidos impõem quota tarifária às importações de açúcar brasileiro, por considerar que o Brasil possui vantagens comparativas nesse produto, ele é o único país latino-americano não beneficiado pelo SGP. Ainda tem restrições de exportações de açúcar aos Estados Unidos: Argentina, Austrália, Barbados, Belize, Bolívia, Brasil, Colômbia, Congo, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, México, entre vários. • Barreira por exigência de bandeira nacional: Alguns países fazem exigência de uso de navios ou aviões de bandeira nacional para o transporte das importações. O Brasil faz deste tipo de exigência quando as importações são feitas por estatais ou pelo governo brasileiro. • Medidas de salvaguarda: Medidas de salvaguarda têm como objetivo proteger a indústria doméstica que esteja sofrendo prejuízo grave ou ameaça de prejuízo grave em virtude do aumento das importações, para que ela tenha tempo de se adequar à competição externa. No Brasil o processo de salvaguarda é conduzido, de acordo com o definido no Decreto nº 1.488 de 11 de maio de 1995, pela Secretária de Comércio Exterior – SECEX, do Ministério da Economia. Dentro da SECEX, a investigação é responsabilidade do Departamento de Defesa Comercial (DECOM). É a aplicação de quotas de importação ou elevação de tarifas por questões de medidas de salvaguarda, exceto salvaguardas preferenciais previstas em acordos firmados entre países. • Pedido de licenciamento: Quando a importação estiver sujeita a licenciamento e anuência prévia, o importador deverá prestar, no Siscomex, as informações constantes no anexo II da Portaria Interministerial MF/MICT nº 291/96, previamente ao embarque da mercadoria no exterior ou antes do registro da declaração, conforme o caso.O licenciamento automático, do produto ou operação, poderá ser efetuado após o embarque da mercadoria no exterior, mas anteriormente ao despacho aduaneiro de importação. 69 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO Saiba mais O Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia - Inmetro, através do site http://www.inmetro.gov.br/barreirastecnicas/ barreirastecnicas.asp, disponibiliza um Manual de Barreiras Técnicas, para download. 3 A ESTRUTURA BRASILEIRA PARA O COMÉRCIO EXTERIOR Existem diversas organizações, governamentais ou não, que atuam na elaboração das políticas e procedimentos do comércio exterior brasileiro, de forma direta ou indiretamente. Observação A Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior – Funcex é um exemplo de entidade não governamental, com o objetivo de desenvolver pesquisas e formação de pessoal no campo de comércio exterior. Para elaboração dos textos sobre a estrutura brasileira para o comércio exterior, foram utilizados dados do Ministério da Economia, da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Departamento de Estatística e Apoio à Exportação (Deaex), do Banco do Brasil e de todos os demais órgãos que aqui são citados, e que intervêm no comércio exterior, seja para importação, seja para exportação. A estrutura brasileira para o comércio exterior está baseada na seguinte forma, de acordo com os dados do Departamento de Estatística e Apoio à Exportação (Deaex): 3.1 Ministério da Economia O Ministério da Economia (anteriormente denominado da Indústria, Comércio Exterior e Serviços - MDIC) foi criado pela Medida Provisória nº 1.911-8, de 29/07/1999 – DOU 30/07/1999, tendo como área de competência a política de desenvolvimento da indústria, do comércio e dos serviços; a propriedade intelectual e transferência de tecnologia; metrologia, normalização e qualidade industrial; políticas de comércio exterior; regulamentação e execução dos programas e atividades relativas ao comércio exterior; dentre outras atividades ligadas ao comércio nacional e internacional e à indústria. Ao Ministério da Economia estão vinculadas várias entidades como a Superintendência da Zona Franca de Manaus – Suframa, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial – INPI, o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia – Inmetro e o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES. 70 Unidade I 3.1.1 Câmara de Comércio Exterior – Camex A Câmara de Comércio Exterior – Camex tem por objetivo a formulação, a adoção, a implementação e a coordenação de políticas e atividades relativas ao comércio exterior de bens e serviços, incluindo o turismo, definidas pelo Decreto n° 4.732, de 10 de junho de 2003. Lembrete A Camex foi criada em 1995, para articular os diferentes órgãos e agências governamentais e otimizar os resultados do país no comércio internacional. Dentre as competências da Camex, definidas pelo Decreto n° 4.732, de 10 de junho de 2003, destacam-se a definição das diretrizes e procedimentos relativos à política de comércio exterior; à coordenação das ações dos órgãos que possuem competências na área de comércio exterior; à definição, no âmbito das atividades de exportação e importação, das diretrizes e orientações sobre normas e procedimentos, para: • racionalização e simplificação do sistema administrativo; • habilitação e credenciamento de empresas para a prática de comércio exterior; • nomenclatura de mercadoria; • conceituação de exportação e importação; • classificação e padronização de produtos; • marcação e rotulagem de mercadorias; • regras de origem e procedência de mercadorias. Além de estabelecer as diretrizes para as negociações de acordos e convênios do comércio exterior, de natureza bilateral, regional ou multilateral; da orientação da política aduaneira; da política tarifária na importação e exportação e procedimentos para investigações relativas a práticas desleais de comércio exterior. Ressaltam-se que os atos expedidos pela Camex devem considerar, ainda, os compromissos internacionais firmados pelo País, em particular junto à Organização Mundial do Comércio – OMC, ao Mercosul e à Associação Latino-Americana de Integração – Aladi. 71 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO 3.1.2 Secretaria de Comércio Exterior – Secex Compete à Secretaria de Comércio Exterior – Secex formular propostas de políticas e programas de comércio exterior, propor medidas no âmbito das políticas fiscal e cambial, de financiamento, de recuperação de créditos à exportação, de seguro, de transportes e fretes e de promoção comercial; e propor alíquotas para o imposto de importação e suas alterações; além de participar das negociações em acordos ou convênios internacionais relativos ao comércio exterior. À Secex, cabe igualmente a coordenação da aplicação de defesa contra práticas desleais de comércio (práticas de dumping6, por exemplo), bem como de medidas de salvaguardas comerciais (medidas antidumping) e a disseminação de informações sobre comércio exterior. A Secex é um dos órgãos gestores do Sistema Integrado do Comércio Exterior – Siscomex, além do Banco Central do Brasil – Bacen e da Secretaria da Receita Federal – SRF. Dentro de sua estrutura administrativa, a Secex se subdivide em cinco departamentos: Departamento de Operações de Comércio Exterior (Decex): organismo responsável pelo acompanhamento e controle das operações de comércio exterior, tanto no que se refere às exportações como às importações brasileiras. Departamento de Defesa Comercial (Decom): tem como atribuições o exame da procedência e do mérito de petições de defesa da produção doméstica; a instauração e a condução de investigações para a apuração de dumping ou subsídios nas importações, de dano à produção doméstica; o exame e a avaliação do mérito de petições de salvaguarda; a instauração e a condução de investigações para aplicação de salvaguardas comerciais mediante a aplicação de medidas previstas (quotas e/ou sobretaxas tarifárias) nos correspondentes dispositivos da OMC; o acompanhamento de investigações de defesa comercial abertas por terceiros países contra exportações brasileiras, incluindo a preparação da defesa em processos externos de medidas compensatórias contra exportações brasileiras e a assistência à defesa do exportador em investigações antidumping. Departamento de Negociações Internacionais (Deint): tem por encargo promover estudos e iniciativas voltadas para apoiar, orientar e informar os trabalhos de preparação brasileira nas negociações de acordos internacionais de comércio. O Deint participa em negociações no âmbito da Organização Mundial do Comércio – OMC, da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento – UNCTAD, da Associação Latino-Americana de Integração – Aladi, do Mercado Comum do Sul – Mercosul, da Área de Livre-Comércio das Américas – Alca e das negociações do Mercosul com a Comunidade Andina – CAN, União Europeia, entre outras. Ainda fazem parte do Secex os seguintes departamentos: Departamento de Estatística e Apoio à Exportação (Deaex). Departamento de Competitividade no Comércio Exterior (Decoe). 6 Dumping é uma palavra de origem inglesa que não tem encontrado tradução nas línguas latinas, sendo incorporada, em sua grafia original, ao vocabulário de inúmeros idiomas, dentre os quais o português e é definido como o ato de vender mercadorias no exterior por menos que o preço do mercado doméstico. 72 Unidade I 3.1.3 Secretaria de Inovação e Novos Negócios Compete à Secretaria de Inovação e Novos Negócios contribuir para a formulação da Política de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior nos aspectos relacionados à inovação e à política tecnológica, além de planejar, estabelecer, supervisionar e coordenar as ações decorrentes de tratados, acordos e convênios internacionais relativos aos assuntos de sua competência, tais como propriedade intelectual, transferência de tecnologia, prospecção, articulação, aperfeiçoamento, disseminação,promoção, incentivo e fomento da inovação, das competências inovadoras e do conhecimento. 3.1.4 Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia – Inmetro É uma autarquia federal vinculada ao Ministério da Economia, executor da política nacional de metrologia, normalização e qualidade industrial, encarregado de promover o reconhecimento internacional do Sistema Nacional de Metrologia e do Sistema Brasileiro de Certificação. Está presente em três áreas técnicas importantes para o desenvolvimento nacional: metrologia científica e industrial, metrologia legal e normalização, qualidade e produtividade. Saiba mais Acesse o site do Inmetro para verificar a sua estrutura e competências. Verifique o link de informações sobre exigências técnicas para produtos de outros países. Disponível em: http://www.inmetro.gov.br/. Acesso em: 11 nov. 2011. 3.1.5 Instituto Nacional de Propriedade Industrial – Inpi Também é uma autarquia federal vinculada ao Ministério da Economia, atuando em âmbito nacional nas áreas de propriedade industrial (registros de marcas e concessões de patentes de invenção) e de transferência de tecnologia. O Inpi examina os pedidos de concessão para registros de marcas e concessão de patentes. Ademais, é sua atribuição pronunciar-se quanto à conveniência de assinatura, ratificação e denúncia de convenções, tratados, convênios e acordos sobre propriedade industrial. Saiba mais Acesse o site do Inpi para verificar a sua estrutura e competências. Disponível em: http://www.inpi.gov.br. Acesso em: 15 maio 2014. 73 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO 3.1.6 Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES Empresa pública federal vinculada ao Ministério da Economia, o BNDES desempenha papel de grande importância para o comércio exterior, sobretudo, em função dos financiamentos à exportação. O BNDES possui duas subsidiárias: • BNDES Participações S/A – BNDESPAR que objetiva fortalecer a estrutura de capital das empresas privadas e desenvolver o mercado de capitais. • Agência Especial de Financiamento Industrial – Finame que financia a comercialização de máquinas e equipamentos e administra as operações de financiamento à exportação. O programa de financiamento às exportações de bens e serviços denominado BNDES-Exim é administrado pela Finame nas seguintes modalidades: pré-embarque, financia a produção de bens a serem exportados em embarques específicos; pré-embarque especial, financia a produção nacional de bens exportados, sem vinculação com embarques específicos, mas com período pré-determinado para a sua efetivação; pós-embarque, financia a comercialização de bens e serviços no exterior, por meio de refinanciamento ao exportador, ou mediante a modalidade buyer’s credit (crédito do comprador). Cabe ao BNDES as gerências temáticas do Programa Especial de Exportações – PEE, relativas a financiamento às exportações e a investimento para exportação. Observação O BNDES realiza investimentos em todos os segmentos da economia com apoio à agricultura, à indústria, à infraestrutura, ao comércio e serviços, oferecendo condições especiais para micro, pequenas e médias empresas. 3.1.7 Conselho Nacional das Zonas de Processamento de Exportação – CZPE O Conselho Nacional das Zonas de Processamento de Exportação – CZPE é o órgão da estrutura básica do Ministério da Economia. Compete ao CZPE analisar as propostas de criação de Zonas de Processamento de Exportação – ZPE e submetê-las à decisão do Presidente da República, acompanhadas de parecer conclusivo, analisar e aprovar os projetos industriais, autorizar a instalação de empresas e a relação de produtos a serem fabricados em ZPE e autorizar, em regime excepcional, a revenda no mercado brasileiro das matérias-primas, produtos intermediários e materiais de embalagem adquiridos no mercado interno ou importados. 74 Unidade I Lembrete As ZPE são áreas de livre-comércio destinadas à instalação de empresas para a produção de bens a serem comercializados no exterior, consideradas zonas primárias para efeito de controle aduaneiro. 3.2 Ministério da Economia O Ministério da Economia é o órgão que na estrutura administrativa da República Federativa do Brasil cuida basicamente da formulação e execução da política econômica, sendo o responsável pela formulação e definição de políticas macroeconômica, fiscal, tributária, monetária e cambial, pela administração tributária e aduaneira, fiscalização e arrecadação; administração das dívidas públicas, interna e externa; negociações econômicas e financeiras com governos e entidades nacionais estrangeiras e internacionais, e pela fiscalização e controle do comércio exterior. Na estrutura do Ministério, cabe destacar a atuação de quatro Secretarias na área de comércio exterior: Sain, Seae, SPE e SRF. 3.2.1 Secretaria de Assuntos Internacionais – Sain A Secretaria de Assuntos Internacionais – Sain, órgão específico singular, é diretamente subordinado ao Ministro de Estado da Economia. Cabe à Sain cuidar de questões que envolvam a economia brasileira no seu relacionamento com os demais países, blocos econômicos e organismos internacionais, tais como o Fundo Monetário Internacional – FMI, a Organização Mundial do Comércio – OMC, o Mercosul, a Alca etc. 3.2.2 Secretaria de Política Econômica – SPE A Secretaria de Política Econômica – SPE é responsável pela coordenação da política econômica; analisa e sugere alternativas de políticas ao setor externo, incluindo política cambial, comercial, balanço de pagamentos e mercado internacional de crédito e pronuncia-se sobre a conveniência da participação do Brasil em acordos ou convênios internacionais relacionados ao comércio exterior. 3.2.3 Secretaria de Assuntos Internacionais – Seain Compete à Secretaria de Assuntos Internacionais – Seain acompanhar e avaliar as políticas e diretrizes globais dos organismos financeiros multilaterais, e participar da formulação da política brasileira junto a esses organismos. Compete ainda a Seain o planejamento e o acompanhamento da política de avaliação, negociação e recuperação de créditos governamentais brasileiros concedidos ao exterior. 75 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO 3.2.4 Secretaria da Receita Federal – SRF A SRF é o órgão gestor junto à Secex e ao Bacen, do Sistema Integrado de Comércio Exterior – Siscomex, responsável pelo controle de procedimentos aduaneiros e fiscais. Dentro da Secretaria da Receita Federal – SRF, a Coordenação-Geral do Sistema Aduaneiro – Coana tem a competência de planejar, orientar, supervisionar, controlar e avaliar as atividades aduaneiras, bem como aplicar a legislação aduaneira e correlata, baixando os atos normativos necessários. A SRF tem em sua estrutura administrativa, além da Coana, a Coordenação de Assuntos Tarifários e Comerciais, com as divisões de valoração7 aduaneira e merceologia8, de nomenclatura e classificação fiscal de mercadorias e a de assuntos comerciais, além das coordenações de fiscalização e de controles aduaneiros informatizados e a coordenação de regimes, logística e auditorias aduaneiras. 3.2.5 Banco Central do Brasil – Bacen O Banco Central do Brasil – Bacen é uma autarquia federal integrante do Sistema Financeiro Nacional vinculada ao Ministério da Economia e atuação em todo o território nacional. O Bacen desempenha importante papel no comércio exterior em função de suas atribuições enquanto formulador e executor das políticas cambial e monetária, responsável pelo controle das operações de crédito relacionados com os temas de comércio exterior. Na área de comércio exterior, atuam a Diretoria de Assuntos Internacionais – Direx, o Departamento da Dívida Externa e de Relações Internacionais – Derin e a Gerência-Executiva de Normatização de Câmbio e Capitais Estrangeiros – Gence. Cabe ao Bacen atuar ainda como gestor do Siscomex, em conjunto com a Secex e a SRF, responsabilizando- se pelo controle cambial das operações de comércio exterior. Paratanto, conta com o Sistema Integrado de Registro de Operações de Câmbio – Sisbacen/Câmbio, um sistema online de teleprocessamento, integrando o Bacen e os bancos autorizados a operar em câmbio, além das corretoras credenciadas. 3.2.6 Banco do Brasil – BB O Banco do Brasil é uma sociedade de economia mista com o Tesouro Nacional, detendo mais de 51% do seu capital, atuando como agente financeiro do Tesouro e tem papel fundamental no financiamento das exportações via Proex, também integrando o CCEX, e no que se refere às linhas de crédito com repasse do BNDES, o Banco do Brasil se ocupa de operações Finame. Compete ao Banco do Brasil, no tocante a assuntos de comércio exterior e câmbio: • ser agente pagador e recebedor fora do país; 7Valoração – ato de atribuir valor a um objeto. 8A merceologia pode ser entendida como um estudo que leva em consideração a análise das características técnicas e comerciais de uma determinada mercadoria. 76 Unidade I • realizar operações de compra e venda de moeda estrangeira, nas condições estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional – CMN; • difundir e orientar o crédito, suplementando a ação da rede bancária no financiamento às importações e exportações. Enquanto banco comercial presente em vários países, a rede externa do Banco do Brasil conta com 40 pontos de atendimento no exterior, divididos em agências, subagências, unidades de negócios/ escritórios e subsidiárias, localizadas nas principais praças financeiras internacionais. Sua rede doméstica tem cerca de 450 pontos de atendimento de operações de câmbio. Deve-se destacar o Programa de Geração de Negócios Internacionais – PGNI, programa destinado a pequenas e médias empresas (clientes ou não do Banco do Brasil), que atuam ou apresentam potencial para atuar no comércio internacional. 3.3 Ministério das Relações Exteriores – MRE Ao Ministério das Relações Exteriores – MRE cabe executar a política de comércio exterior, bem como organizar o sistema externo de promoção das exportações e de oportunidades de investimentos. É de sua responsabilidade a participação nas negociações comerciais, econômicas, técnicas e culturais com governos e entidades estrangeiras; os programas de cooperação internacional e de apoio a delegações, comitivas e representações brasileiras em agências, organismos internacionais e multilaterais. Cabe destacar a atuação do Departamento de Promoção Comercial – DPR, encarregado do planejamento e da execução dos programas e atividades de promoção comercial, e acompanhamento da execução das atividades da rede dos Setores de Promoção Comercial – Secoms de Embaixadas e Consulados-gerais do Brasil. 3.4 Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – Mapa Ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – Mapa cabe formular a política de desenvolvimento da agricultura brasileira, auxiliar na definição do correto equilíbrio entre o abastecimento interno e as vendas externas; fiscalizar o cumprimento de normas nacionais e internacionais de inspeção de produtos agropecuários; e participar em negociações internacionais que envolvam esses temas. Além disso, acompanham e participam das decisões tomadas pela Câmara de Comércio Exterior – Camex e atuam diretamente em negociações no âmbito do Mercosul. Dentro de sua estrutura, cabe destacar a atuação das seguintes Secretarias: 77 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO 3.4.1 Secretaria de Política Agrícola – SPA Conta com os Departamentos de Planejamento Agrícola, Economia Agrícola e Abastecimento Agropecuário. 3.4.2 Secretaria de Defesa Agropecuária – SDA Divide-se nos Departamentos de Defesa Animal; Defesa e Inspeção Vegetal; e Inspeção de Produtos de Origem Animal. Dentre suas várias atribuições, cabe à SDA implementar as ações decorrentes de decisões de organismos internacionais e acordos com governos estrangeiros relativas aos assuntos de sua competência. 3.4.3 Secretaria de Relações Internacionais do Agronegócio – SRI Compete à Secretaria de Relações Internacionais do Agronegócio – SRI promover os contatos do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento com o mercado externo, sendo responsável pela elaboração de propostas para negociações de acordos sanitários e fitossanitários com outros países e também por analisar as deliberações relativas às exigências fitossanitárias que envolvam interesses do setor produtivo brasileiro. 3.5 Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos – Apex-Brasil A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos – Apex-Brasil é um serviço social autônomo e foi criada com o objetivo de apoiar a política de promoção comercial brasileira, em conformidade com as políticas nacionais de desenvolvimento relativas às áreas industrial, comercial, de serviços e tecnológica. A Apex-Brasil atende empresas de todos os portes, com foco nas pequenas e médias, e em todas as fases de maturidade exportadora. Atua para inserir mais empresas no mercado internacional, agregar valor à pauta de produtos exportados, aumentar o volume comercializado e, principalmente, abrir outros mercados para os produtos e serviços brasileiros. Para isso, oferece soluções no apoio a programas voltados para aumentar as exportações, elevando o volume exportado, o número de empresas exportadoras e o número de produtos exportados. São descritos, a seguir, os principais produtos da Apex: 1. Programa Setorial Integrado de Promoção de Exportações, projetos de apoio à capacitação empresarial, adequação de produtos, informação comercial e promoção comercial. 2. Projetos horizontais, com foco em empresas de distintos setores, por exemplo: empresas calçadistas de uma região do estado. 3. Projetos isolados, que consistem em ações individuais como participações em feiras, seminários ou elaboração de uma pesquisa de mercado. 78 Unidade I 4. Consórcios de exportação, nos quais a Apex presta apoio à formação, manutenção e às ações de promoção comercial de consórcios formados. 3.6 Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos – ECT A Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos – ECT, vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) desenvolveu, no ano 2000, em parceria com a Camex, Secex, SRF e outros, o programa Exporta Fácil, visando à inserção de pequenas e médias empresas na atividade exportadora, e o Importa Fácil, destinado a pessoas físicas, pessoas jurídicas, pesquisadores e entidades de pesquisa. Os programas simplificam os processos de exportação e importação, visando reduzir os custos de transporte e portuários, e solucionar dificuldades no desenvolvimento de embalagens e acondicionamento. 4 GESTORES E ANUENTES E AUTORIDADES EM COMEX 4.1 Órgãos gestores Em janeiro de 1993, foi implantado o módulo exportação do Sistema Integrado de Comércio Exterior – Siscomex, com o objetivo de conferir maior agilidade às operações de comércio exterior, reduzindo-se as exigências por meio de um sistema informatizado de informações, com tratamento padronizado. Diversos processos burocráticos foram substituídos por registros eletrônicos, passando-se a gerar um único documento ao final do processo. Em 1996, foi implantado o módulo importação do Siscomex. Os órgãos governamentais gestores do comércio exterior no Brasil são: Secex/Ministério da Economia, SRF e Bacen. Atuam de forma integrada por meio do Siscomex. A Secex é responsável pelos controles de natureza comercial; a SRF controla procedimentos aduaneiros e fiscais; e o Bacen efetua o controle cambial das operações. A descrição e as funções desses órgãos já foram descritas anteriormente. 4.2 Órgãos anuentes Para as mercadorias sujeitas ao licenciamento não automático, o importador deverá solicitar a anuência prévia ao embarque da mercadoria no exterior. Os órgãos anuentes são todos aqueles que efetuam análise de uma operação de exportação ou importação, dentro de sua área de competência, estabelecendo normas específicas (exigências) para finsde desembaraço da mercadoria ou licenciamento da operação. A relação dos produtos sujeitos a licenciamento não automático contém todas as mercadorias, relacionadas em NCM/SH e respectivos destaques (se houver) sujeitas à manifestação prévia, com a indicação do órgão anuente envolvido. Tal relação está sempre disponível no site do Ministério da 79 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO Economia, mas quando do registro da exportação ou da licença de importação, o sistema avisa se há ou não necessidade de anuência prévia. Essas relações não substituem a consulta ao Tratamento Administrativo do Siscomex para verificação do sistema administrativo aplicado às mercadorias. Considere-se que a anuência de determinado órgão é apenas um parecer se a empresa ou produto está autorizado ou não a ser exportado ou importado e, em muitos casos, se há um controle de quotas de exportação ou de importação, que depende de autorização de determinado órgão. Cada anuente responsabiliza-se, dentro da sua área de atuação, por atestar o cumprimento das condições para fins de licenciamento da operação; a saber: 4.2.1 Banco do Brasil Certificados emitidos pelo Banco do Brasil por delegação do Ministério da Economia/Secex: • Emissão do Certificado de Origem – Form A: documento por meio do qual o país exportador beneficiário do SGP atesta que os produtos foram produzidos de acordo com as regras especificadas pelo outorgante. É emitido como prova documental de origem para a solicitação das preferências tarifárias do SGP, mediante pedido por escrito do exportador ou de seu representante autorizado. • Certificado de Autenticidade do Tabaco: as exportações para a União Europeia de tabaco flue cured do tipo Virginia, light air-cured do tipo Burley (incluindo os híbridos de Burley), tabacos light-air-cured do tipo Maryland e tabaco fire cured devem ser acompanhadas por um Certificado de Autenticidade do Tabaco, um documento preenchido pelo exportador. São credenciadas, além de algumas agências do Banco do Brasil S/A, as Federações das Indústrias do Estado do Paraná – Fiep; Federação das Indústrias do estado de Santa Catarina – Fiesc e Federação das Indústrias do estado do Rio Grande do Sul – FIERGS, conforme circular nº 9, de 11/02/2009, publicada no Diário Oficial da União – DOU de 12/02/2009, pela Secretaria de Comércio Exterior – Secex. Convém sempre verificar com a Secex a atualização destes credenciamentos. • Certificado de Origem para Produtos Agrícolas para a União Europeia – UE: o Banco do Brasil é o responsável pela emissão do Certificado, tal como relacionado em “Certificado de Origem – Form A”, anteriormente. • Certificado para produtos artesanais para a União Europeia – UE: sistema de quotas, paralelo ao Sistema Geral de Preferências (já que a validade das quotas foi vinculada ao do SGP), primeiro para produtos manufaturados de juta e de fibras de coco e foi ampliado para os produtos feitos à mão e tecidos fabricados em teares manuais, com abertura de quotas anuais para esses produtos. O Banco do Brasil é o responsável pela emissão do Certificado para Produtos Feitos à Mão e do Certificado para Produtos Tecidos em Teares Manuais. Os Certificados podem ser entregues em qualquer agência do Banco do Brasil, que os enviará para processamento numa 80 Unidade I Gerência Regional de Apoio ao Comércio Exterior – Gecex. Atentar que as etiquetas deverão constar em cada um dos produtos tecidos em teares manuais enviados ao exportador juntamente com o certificado. A colocação das etiquetas às peças é de responsabilidade do exportador. • Certificado de Origem – Carnes de Aves – União Europeia – UE – conforme Portaria nº 15, de 04.07.07 – DOU-1, de 05.07.07 da Secretaria de Comércio Exterior – Secex: documento preenchido pelo requerente e emitido pelas agências do Banco do Brasil S.A sob a delegação do Decex, quando da exportação de carnes de aves para países da UE. • Emissão do Certificado de Origem – têxteis para os Estados Unidos/Porto Rico, Canadá e União Europeia: as exportações de produtos têxteis estão sujeitas a controle de quotas, quando destinadas aos Estados Unidos/Porto Rico, Canadá e União Europeia. O primeiro passo a ser dado por uma empresa que pretenda exportar confecções para esses países é verificar, junto ao importador, se o produto que está sendo negociado sujeita-se a controle de quotas. Em caso positivo, será necessária a apresentação de um carimbo Visa, que deverá ser aposto na fatura comercial, tratando-se de exportações para os EUA e Porto Rico, e de Licença de Exportação – LE e Certificado de Origem no caso da União Europeia e Canadá. Tanto o carimbo Visa como a Licença de Exportação são documentos necessários para o desembaraço da mercadoria no exterior, sem o qual a mercadoria ficará retida na alfândega do país de destino. 4.2.2 Secretaria da Receita Federal – SRF Vinculado ao Ministério da Economia, cabe a esse órgão fiscalizar os embarques relativos às importações e às exportações de mercadorias, procedendo aos despachos de exportação e desembaraços na importação, e a verificação da correta utilização dos incentivos fiscais concedidos pela legislação, bem como atua como agente arrecadador dos direitos aduaneiros incidentes sobre a entrada e a saída de mercadorias no país. Também atua na fiscalização dos valores de exportação mantidos no exterior. 4.2.3 Banco Central do Brasil – Bacen É uma autarquia federal que efetua o controle de capitais estrangeiros, da moeda estrangeira e em Direitos Especiais de Saque, autorizando as instituições financeiras a operar em câmbio e fiscalizá-las. Atua nos mercados de câmbio, financeiro e comercial para manter a estabilidade relativa das taxas de câmbio e o equilíbrio no balanço de pagamentos. Nas praças em que não há unidade do Banco Central, são delegados ao Banco do Brasil o controle e a fiscalização das operações cambiais. As autorizações para a prática de operações no mercado de câmbio podem ser concedidas pelo Banco Central aos bancos comerciais, múltiplos, de investimento, de desenvolvimento, caixas econômicas, sociedades de crédito, financiamento e investimento, sociedades corretoras de câmbio ou títulos e valores mobiliários, sociedades distribuidoras de títulos e valores mobiliários, agências de turismo e aos meios de hospedagem de turismo. 81 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO Além dos órgãos gestores e anuentes, participam do processamento das operações com acesso ao Siscomex: bancos, corretoras, transportadores, despachantes aduaneiros, exportadores e importadores. Há ainda outros 15 órgãos intervenientes que são anuentes no licenciamento de importação: Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). • Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). • Agência Nacional do Cinema (Ancine). • Comando do Exército (Comexe). • Departamento de Operações de Comércio Exterior (Decex). • Departamento de Polícia Federal (DPF). • Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). • Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). • Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). • Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). • Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (EBC). • Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro). • Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). • Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). • Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa). 4.3 Autoridades na área de transportes 4.3.1 Ministério da Infraestrutura A autoridade máxima na área de transportes no Brasil é o Ministério da Infraestrutura. Por meio da Lei nº 10.233, de 05/06/01 – Art. 21 foram instituídas o Conselho Nacional de Integração de Políticas de Transporte – Conit, da Agência Nacional de Transportes Terrestres – ANTT, da Agência Nacional de Transportes Aquaviários – Antaq e do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes– DNIT, entidades integrantes da Administração Federal indireta, submetidas ao regime autárquico especial e vinculadas ao Ministério da Infraestrutura. 82 Unidade I 4.3.1.1 Autoridades Transportes Aquaviários Agência Nacional de Transportes Aquaviários – ANTAQ É a entidade integrante da Administração Federal indireta, vinculada ao Ministério da Infraestrutura. Desempenha a função de entidade reguladora e fiscalizadora das atividades portuárias e de transporte aquaviário. Esfera de atuação da Antaq: • Navegação marítima e de apoio: — longo curso; — cabotagem; — apoio marítimo; — apoio portuário. • Navegação interior interestadual e internacional: — passageiros; — cargas; — travessias. • Instalações portuárias: — portos públicos; — terminais portuários privativos; — estações de transbordo de cargas; — instalações portuárias públicas de pequeno porte; — terminais turísticos. Definindo a Lei nº 8.630/93, de 25/2/93 (Lei de Modernização dos Portos), logo em seu Art. 1º tem dois enunciados que servem de ponto de partida para a compreensão do que sejam eles: Porto organizado: construído e aparelhado para atender às necessidades da navegação e da movimentação e armazenagem de mercadorias, concedido 83 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO ou explorado pela União, cujo tráfego e operações portuárias estejam sob a jurisdição de uma autoridade portuária. Área do porto organizado: compreendida pelas instalações portuárias, quais sejam ancoradouros, docas, cais, pontes e píeres de atracação e acostagem, terrenos, armazéns, edificações e vias de circulação interna, bem como pela infraestrutura de proteção e acesso aquaviário ao porto, tais como guias-correntes, quebra-mares, eclusas, canais bacias de evolução e área de fundeio que devam ser mantidas pela Administração do Porto, referida na Seção II, do Capítulo VI, dessa Lei. As funções no porto organizado são exercidas pela a Administração do Porto, denominada autoridade portuária, e as autoridades aduaneira, marítima, sanitária, de saúde e de polícia marítima. O novo modelo portuário brasileiro, do ponto de vista de um porto como elo de cadeia logística de transporte, tem como base jurídica: • Lei nº 8.630/93 de 25/2/93 – Lei de Modernização dos Portos. • Lei nº 8.666/93 de 21/06/93 e 8.883/94 de 08/06/94 – Leis de Licitações. • Lei nº 8.987/95 de 13/02/95 e 9.074/95 de 07/07/95 – Leis de Concessão e Permissão de Serviços Públicos. • Lei nº 9.277/96 de 10/05/96 – Lei de Delegação. • Lei nº 9.491/97 09/09/97 – Lei de Desestatização. • Lei nº 10.233 de 05/06/01 – Lei da Reestruturação dos Transportes Aquaviário e Terrestre. A Lei nº 8.630 de 25/02/93 – Lei de Modernização dos Portos define operação portuária como a movimentação e armazenagem de mercadorias destinadas ou provenientes de transporte aquaviário. Essas operações são de responsabilidade dos operadores portuários, pessoa jurídica qualificada para exercer tal tarefa. Os avanços mais significativos e os resultados imediatos da implementação da Lei nº 8.630, de 25/2/93 – Lei de Modernização dos Portos foram os seguintes: • implantação nos portos dos Conselhos de Autoridade Portuária – CAP que passam a participar, em parceria com as autoridades portuárias, da regulamentação de algumas atividades portuárias, exercendo, em alguns casos, o papel de última instância deliberatória; • extinção do monopólio das administrações portuárias nos serviços de movimentação de cargas nos cais públicos, que passam a ser realizados por empresas privadas mediante sua qualificação como operadores portuários; 84 Unidade I • possibilidade de terminais de uso privativo movimentarem cargas de terceiros; • diversificação das tarifas e estímulo à concorrência intra e interportos; • quebra do monopólio dos sindicatos de trabalhadores avulsos no fornecimento e escalação da mão de obra para as operações portuárias; • constituídos Órgãos Gestores de Mão de Obra – OGMO para substituírem os sindicatos dos trabalhadores, no fornecimento da mão de obra aos operadores portuários; • aprovados os novos horários de funcionamento dos portos (4 turnos de 6 horas cada um) – porto 24 horas; • aprovadas em cada porto as novas estruturas tarifárias (redução do número de tabelas de 18 para 7); • demarcadas as áreas dos portos organizados com a extinção das áreas de jurisdição; • definidos e aprovados novos planos de desenvolvimento e zoneamento para cada porto com a introdução dos terminais dedicados. A política do governo federal é consolidar as parcerias privadas dentro dos portos organizados por meio da privatização das operações portuárias, promovendo a descentralização e transferindo as administrações dos portos para os estados e municípios, ou, no caso de portos ainda sob a jurisdição federal, conceder-lhes autonomia administrativa e financeira. No âmbito federal, são mantidas as funções de supervisão, controle e promoção. Para a consecução desses objetivos, o governo retirou-se da prestação de serviços portuários, que passaram a ser executados pelo setor privado, objetivando a melhoria da qualidade dos serviços ofertados ao público, a otimização do uso de suas instalações e a redução dos custos. Autoridades portuárias Para cada porto organizado corresponde uma autoridade portuária. Como consequência, também uma administradora, que é a própria autoridade portuária e um Órgão Gestor de Mão de Obra – OGMO. Nenhuma dessas organizações existe, obrigatoriamente, para as instalações portuárias de uso privativo. A Lei nº 8.630/1993 – Lei de Modernização dos Portos previu a existência de dois tipos de terminais para a movimentação e armazenagem de mercadorias: os terminais de uso público e os terminais privativos. Os terminais de uso público constituem instalações voltadas à prestação do serviço público de movimentação e armazenagem de mercadoria aos usuários em geral. São explorados por empresas privadas por intermédio da celebração de contratos com poder público e precedidos de licitação. Submetem-se às normas de direito público regedoras da matéria, mais rígidas e onerosas. 85 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO Os terminais privativos constituíam instalações voltadas, na origem, a possibilitar que empresas que produzissem grandes quantidades de mercadoria própria se encarregassem diretamente de sua movimentação e armazenagem portuária, a fim de racionalizar medidas de logística e de custos. Como o objetivo desses terminais era o autosserviço, estavam sujeitos a mera autorização, sem prévia licitação e sujeitavam-se ao regime jurídico de direito privado, sem os mesmos ônus do regime público: • Terminal portuário de uso privativo exclusivo: a instalação portuária explorada por pessoa jurídica de direito público ou privado, não integrante do patrimônio do porto público, localizada dentro ou fora da área do porto organizado, utilizada na movimentação ou armazenagem de cargas próprias, destinadas ou provenientes de transporte aquaviário. São empresas arrendatárias de terminais portuários de uso público, por meio de licitação pública, no qual celebraram contratos de arrendamento com as autoridades portuárias e são especializadas na movimentação de contêineres. Atualmente, transitam nesses terminais 93% dos contêineres movimentados nos portos nacionais. Os terminais prestam serviços portuários, proporcionando aos seus usuários (armadores, exportadores e importadores) agilidade nos embarques e redução dos custos. • Terminal portuário de uso privativo misto: a instalação portuária explorada por pessoa jurídica de direito público ou privado, não integrante do patrimônio do porto público, localizada dentro ou fora da área do porto organizado, utilizada na movimentação ou armazenagem de cargas próprias e de cargas de terceiros, destinadas ou provenientes de transporte aquaviário. A Antaq publicou a Resolução nº 1.660, em 12/04/2010, na seção 1 do Diário Oficial da União e diz que a outorga de autorização é formalizada pormeio de contrato de adesão. O início da operação do TUP fica condicionado à emissão de termo de liberação de operação. A autorização é exercida em liberdade de preços dos serviços e em ambiente de livre e aberta competição. Com isso, a norma passa a incorporar todas as definições editadas no Decreto 6.620, de 29 de outubro de 2008, que dispõe sobre políticas e diretrizes para o desenvolvimento e o fomento do setor de portos e terminais portuários de competência da Secretaria Especial de Portos da Presidência da República, além de disciplinar a concessão de portos, o arrendamento e a autorização de instalações portuárias marítimas. Para a norma, as cargas movimentadas em terminal de uso privativo, exclusivo ou misto, classificam-se, segundo sua natureza, em granéis sólidos, granéis líquidos e carga geral. • Carga própria: é a carga pertencente à autorizada, à sua controladora, à sua controlada, ao mesmo grupo econômico ou às empresas consorciadas no empreendimento, cuja movimentação, por si só, justifique técnica e economicamente a implantação e a operação da instalação portuária objeto da outorga. • Carga de terceiros: aquela compatível às características técnicas da infraestrutura e da superestrutura do terminal autorizado, tendo as mesmas características de armazenamento e movimentação, a mesma natureza da carga própria autorizada que justificou técnica e economicamente o pedido de instalação do terminal privativo e cuja operação seja eventual e subsidiária. Considerando que as exportações são em sua maioria por via marítima, devido ao seu menor custo, cabe salientar que o Brasil possui 34 portos marítimos públicos. 86 Unidade I Dos 34 portos públicos marítimos, 16 encontram-se delegados, concedidos ou tem sua operação autorizada aos governos estaduais e municipais. Os outros 18 marítimos são administrados diretamente pelas Companhias Docas, sociedades de economia mista, que tem como acionista majoritário o Governo Federal. Figura 6 – Portos brasileiros Segundo estatísticas da Antaq, a carga total embarcada pelos portos e terminais marítimos, em 2013, foi superior a 931 milhões de toneladas métricas. Na tabela a seguir, pode-se verificar a distribuição dos tipos de cargas embarcadas e desembarcadas nos portos brasileiros: 87 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO Tabela 9 Longo curso (ano) Carga geral (milhões t.) Contêineres (milhões TEUs) Granel sólido Granel líquido e gasoso 2010 28.600.511 5.623.294 461.943.869 68.307.455 2011 29.421.003 6.511.688 487.148.473 69.538.748 2012 26.906.575 6.435.750 500.971.302 71.483.881 2013 25.828.357 6.881.441 514.656.696 66.117.194 2014 27.743.277 6.993.906 534.305.957 71.530.666 2015 31.058.718 6.817.513 577.013.288 67.203.109 2016 30.611.985 6.490.776 569.576.210 64.640.593 2017 34.243.699 6.727.482 613.266.911 N/D Adaptada de: Brasil (2018a). Segundo a mesma autoridade, 88,4% das importações brasileiras e 95,94 das exportações, em tonelagem, são feitas via marítima. Além das autoridades portuárias, atuam nos portos: Alfândega A Lei nº 8.630/93, de 25/2/93 – Lei de Modernização dos Portos dispõe que “Exercem suas funções no porto organizado, de forma integrada e harmônica, a administração do porto, denominada autoridade portuária, e as autoridades aduaneira, marítima, sanitária de saúde e de polícia marítima” (Art. 3º). Mas, de acordo com o Regulamento Aduaneiro, instituído pelo Decreto nº 4543, de 26/12/2002, a autoridade aduaneira tem precedência sobre as demais autoridades, em tudo aquilo que interessar à fiscalização (Art. 17), com “a obrigação, por parte das demais autoridades, de prestar auxílio imediato, sempre que requisitado pela administração aduaneira, disponibilizando pessoas, equipamentos ou instalações necessários à ação fiscal”. Havendo precedência de uma autoridade sobre as demais, pode haver uma situação de conflito entre as autoridades, interferindo no processo logístico. Órgãos Gestores de Mão de Obra – OGMO É uma entidade civil de utilidade pública, sem fins lucrativos, constituída pelos operadores portuários foi criado pela Lei nº 8.630/1993, tendo como finalidade fundamental “administrar o fornecimento de mão de obra do trabalhador portuário e do trabalhador portuário avulso” (Art. 18, Inciso I), substituindo o sindicato de trabalhadores avulsos na execução dessa necessidade. O OGMO, consoante ao Art. 18, da mencionada Lei, “devem constituir, em cada porto organizado, um órgão de gestão de mão de obra do trabalho portuário [...]”. 88 Unidade I A mão de obra portuária se divide em trabalhadores vinculados e trabalhadores avulsos. Os trabalhadores vinculados são contratados diretamente pelas empresas que operam os terminais, enquanto a categoria dos avulsos é controlada pelo Órgão Gestor de Mão de Obra. As operações de estiva e desestiva, conferência de carga e outras, são exemplos de movimentações de carga a bordo dos navios. A capatazia é a atividade de movimentação de mercadorias nas instalações de uso público, compreendendo o recebimento, conferência, transporte interno, abertura de volumes para conferência aduaneira, manipulação, arrumação e entrega, bem como o carregamento e descarga quando efetuado por aparelhamento (guindastes) portuário. A principal diferença entre os trabalhadores da estiva e da capatazia é a de que estes não trabalham nos conveses, nem nos porões dos navios. Exceto se a empresa for operadora portuária, não haverá nenhum contato entre importadores e exportadores com esse Órgão, pois a sua contratação se dá pelos operadores portuários. Operadores portuários A operação portuária é a movimentação e armazenagem de mercadorias destinadas ou provenientes de transporte aquaviário, realizada no porto organizado por operadores portuários. O operador portuário é aquele que presta, para as embarcações, os serviços de capatazia, estiva, conferência de carga, conserto de carga, bloco e vigilância de embarcações nos portos organizados, sendo responsável, perante a autoridade aduaneira, pelas mercadorias sujeitas ao controle aduaneiro no período em que estas lhe estejam confiadas ou quando tenha controle ou uso exclusivo de área do porto onde se acham depositadas ou devam transitar. No Art. 11 – O operador portuário responde perante: I. A administração do porto, pelos danos culposamente causados à infraestrutura, às instalações e ao equipamento de que a mesma seja a titular ou que, sendo de propriedade de terceiro, encontra-se a seu serviço ou sob a sua guarda. II. O proprietário ou consignatário da mercadoria, pelas perdas e danos que ocorrerem durante as operações que realizar ou em decorrência delas. III. O armador, pelas avarias provocadas na embarcação ou na mercadoria dada à transporte. IV. O trabalhador portuário, pela remuneração dos serviços prestados e respectivos encargos. V. O órgão local de gestão de mão de obra do trabalho avulso, pelas contribuições não recolhidas. VI. Os órgãos competentes, pelo recolhimento dos tributos incidentes sobre o trabalho portuário avulso. 89 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO Portanto, o operador portuário é titular e responsável pela direção e coordenação das operações portuárias que efetuar. Se a empresa exportadora ou importadora contratar uma carga de grande volume (geralmente granéis), e que tenha 50% mais 1 tonelada da carga transportada por um navio, a empresa poderá contratar um agente portuário e operador para a movimentação da carga a bordo, sujeitando-se os demais importadores ou exportadores, à vontade daquele que detém a maioria. Salienta-se que essa maioria não necessariamente deve ser uma empresa, mas um conjunto de empresas, que em comum acordo escolhem e determinam um operador portuário e/ou um terminal para suas operações de carga e descarga. Os fatores de escolha e contratação de um terminal devem levar em consideração: • Infraestrutura: — acesso logístico (rodovia, ferrovia); — capacidade de recepção, ou seja, quantode carga pode receber por determinado período de tempo; — in & out control, que se traduz em controle de entrada e saída de cargas; — tipos de armazéns ou tanques (caso de granéis líquidos) que o terminal tem disponível; — quebras operacionais, ou seja, de um determinado volume de carga movimentada, o quanto o terminal “perde” na operação. Essa chamada “quebra operacional” ocorre principalmente nos graneis sólidos, pois na movimentação da carga, parte dela se perde na movimentação (caem dos equipamentos) ou sobram resíduos no armazém. • Segurança: — histórico ambiental, lembrando que danos causados ao meio ambiente, sobretudo, de produtos tóxicos ou poluentes, poderá o importador ou exportador responder solidariamente; — regularidade legal; — know how do produto, o que o terminal tem de experiência ou conhecimento na movimentação de determinado tipo de carga; — certificações e homologações. • Mercadológico: — posicionamento estratégico: quanto mais próximo da origem da carga, menor os custos de transporte, mas há de se considerar a oferta de navios para embarque, pois se não há muita oferta, a carga poderá ficar por muito tempo aguardando embarque; 90 Unidade I — participação do mercado; — sinergia entre players, o que os importadores ou exportadores tem em comum para determinar este ou aquele terminal; — capacidade de expansão, caso a carga a ser agregada ao terminal supere sua capacidade de atendimento atual ou futura. • Modalidade de contratação: — spot, atendimento por uma única vez, por um único contrato e deve atender: – necessidade pontual, uso por uma única vez, ou por apenas algumas vezes; – inflexibilidade logística, ou seja, não ter alternativa imediata; – performance limitada. — Sob contrato: – se o terminal tiver posicionamento estratégico; – atender à linearidade logística, ou seja, há possibilidade de atender a chegada da carga no terminal mediante o meio pelo qual foi despachado, seja trem, caminhão ou balsa, e o armador, que é o dono do navio, tiver preferência por aquele terminal, mantém uma linearidade, melhorando também a redução de custo linear; – possibilita uma maximização da performance, pois o terminal sabe o que e quando deverá movimentar a carga daquele exportador ou importador. Os custos do transporte são influenciados por diversas características, tais como: tipo da carga, peso e volume; fragilidade; embalagem; valor; distância e localização dos pontos de embarque e desembarque. Navios e contêineres9 Com relação ao transporte, seja rodoviário, marítimo, ferroviário, dutoviário ou aéreo, a negociação de fretes se dá diretamente com as empresas pelas quais uma determinada empresa se interessar em contratar, exceto, no caso dos armadores, que em marinha mercante é o nome que se dá à pessoa ou à empresa que, por sua própria conta, promove a equipagem e a exploração de navio comercial, independente de ser ou não proprietário da embarcação. Assim, negocia-se com uma empresa que é o agente marítimo, a empresa responsável no atendimento do navio e sua tripulação no país onde o navio está atracado. 9A grafia internacional é container e o plural containers é reconhecido mundialmente. Mas, no Brasil, a grafia utilizada é contêiner e o plural contêineres. 91 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO A empresa proprietária do navio, o armador, tem como objetivo transportar mercadorias, na qual é contratada para realizar determinada rota, conforme a demanda. Podem ser liners (expressão para designar uma embarcação de transporte regular, com programação fixa, que atende a determinado tráfego como, por exemplo, Brasil/Estados Unidos/Brasil ou Brasil/Europa/Brasil), ou tramps (expressão usada para designar uma embarcação de transporte ocasional, ou seja, sem programação fixa, mas que atende às necessidades de qualquer porto em que houver carga disponível). Para embarques marítimos, é necessário contatar um agente marítimo, que representa os interesses do armador em determinado porto para negociar o embarque. Alguns tipos de navios Cargueiros – são navios construídos para o transporte de carga geral, ou seja, carga acondicionada. Normalmente, seus porões são divididos horizontalmente, formando o que poderíamos chamar de prateleiras (conveses), nas quais diversos tipos de cargas podem ser estivados ou acomodados para o transporte. A fim de diferenciá-los dos navios destinados ao transporte de mercadorias específicas, são também chamados de navios convencionais. Porta-contêineres – são navios especializados, utilizados exclusivamente para transportar contêineres, dispondo de espaços celulares. Os contêineres são movimentados com equipamento de bordo ou de terra. As unidades são transportadas tanto nas células como no convés. Roll-on/Roll-off (Ro-Ro) – são navios especiais para o transporte de veículos, carretas ou trailers. Dispõem de rampas na proa, popa e/ou na lateral, por onde a carga, sobre rodas, desloca-se para entrar ou sair da embarcação. Internamente, possuem rampas e elevadores que interligam os diversos conveses. Multipurpose – são navios projetados para linhas regulares para transportarem cargas diversas como: neogranéis (aço, tubos etc.) e contêineres, embora também possam ser projetados para o transporte de granéis líquidos em adição a outras formas de acondicionamento como granéis sólidos e contêineres. Graneleiros – são navios destinados apenas ao transporte de granéis sólidos. Seus porões, além de não possuírem divisões têm cantos arredondados, o que facilita a estiva da carga. A maioria desses navios opera como tramp, isto é, sem linhas regulares. Considerando que transportam mercadorias de baixo valor, devem ter baixo custo operacional. A sua velocidade é inferior a dos cargueiros. Cabotagem – A cabotagem inclui todo o transporte marítimo realizado ao longo da costa brasileira. No meio marítimo ouve-se falar também em “grande cabotagem” o que se refere ao transporte marítimo realizado ao longo da costa até os países vizinhos, mas, em termos oficiais, sempre quando se fala de cabotagem, refere-se ao transporte realizado ao longo da costa brasileira do Rio Grande do Sul até Manaus. Segundo armadores e usuários, o maior problema da cabotagem está na regulamentação, nos impostos e na infraestrutura portuária. 92 Unidade I Para o transporte marítimo de carga geral (estrados – conhecidos como pallets – caixas, engradados ou cargas que possam ser acondicionadas em um único volume chamado de unitização), pode-se utilizar o contêiner; uma caixa construída em aço, alumínio ou fibra, criada para o transporte unitizado de mercadorias e suficientemente forte para resistir ao uso constante. No quadro a seguir, pode-se verificar os tipos de contêineres existentes e utilização: Quadro 1 – Tipos de contêiner Tipo Função Dimensões (L x A x P) (cm) Peso (kg) Externas Internas m3 Tara Carga Standard Carga não perecível (20 pés) 6.058 x 2.438 x 2.591 5.910 x 2.340 x 2.388 33,2 2.080 21.920 Carga não perecível (40 pés) 12.192 x 2.438 x 2.591 12.044 x 2.342 x 2.380 67,6 3.550 26.930 High Cube Cargas de grande volume 12.192 x 2.438 x 2.895 12.032 x 2.350 x 2.695 76,2 3.650 26.930 Flack Rack De 20 pés 6.058 x 2.438 x 2.591 6.058 x 2.438 x 2.591 28,9 2.845 22.555 De 40 pés 12.192 x 2.438 x 2.591 12.192 x 2.438 x 2.591 67 5.180 39.820 Tanque Líquidos 6.058 x 2.438 x 2.591 Refrigerado De 20 pés 6.058 x 2.438 x 2.591 5.498 x 2.270 x 2.267 28,3 3.040 22.360 Open Top De 20 pés 6.058 x 2.438 x 2.591 5.910 x 2.340 x 2.388 32,2 2.050 21.950 De 40 pés 12.192 x 2.438 x 2.591 12.044 x 2.342 x 2.380 65,6 3.800 27.020 Plataforma De 20 pés 6.058 x 2.438 x 226 plataforma: 6.020 x 2.413 x 2.290 29 De 40 pés 12.192 x 2.438 x 628 plataforma:12.150 x 2.413 x 2.290 67 Adaptado de: VIEIRA, 2003. Contêiner é definido como um equipamento do veículo transportador, que se caracteriza pela resistência e facilidade de transporte de mercadorias, por um ou mais modais. É provido de portas,143 6.3 Aspectos administrativos na exportação ..................................................................................144 6.3.1 Sistema Integrado de Comércio Exterior – Siscomex ........................................................... 144 6.3.2 Tratamento administrativo das exportações ............................................................................ 146 6.3.3 Controle administrativo das importações ................................................................................. 146 6.3.4 Controle cambial das operações de comércio exterior ........................................................ 147 6.4 Nomenclatura e classificação de mercadorias .......................................................................148 6.5 Contratação do transporte .............................................................................................................150 6.5.1 Composição do frete marítimo ...................................................................................................... 152 6.5.2 Adicional de Frete para Renovação da Marinha Mercante – AFRMM ........................... 153 6.6 Termos Internacionais de Comércio – Incoterms ..................................................................155 6.6.1 Incoterms: Grupo D – até a chegada ao local nomeado ..................................................... 158 6.6.2 Incoterms: Grupo C – transporte internacional pago .......................................................... 159 6.6.3 Incoterms: Grupo F – transporte internacional não pago .................................................. 160 6.6.4 Incoterms: Grupo E ............................................................................................................................. 160 Unidade III 7 OBJETIVOS DA ORGANIZAÇÃO EM INGRESSAR NO COMÉRCIO INTERNACIONAL .............167 7.1 O acesso ao mercado internacional ............................................................................................171 7.2 O que exportar? ..................................................................................................................................173 7.3 Promoção comercial..........................................................................................................................174 7.4 Marketing internacional ..................................................................................................................175 7.4.1 Diferenças entre marketing internacional e local .................................................................. 176 7.5 Comércio eletrônico ..........................................................................................................................178 7.6 Para onde exportar ............................................................................................................................179 8 HABILITAÇÃO PARA UTILIZAR O SISCOMEX .......................................................................................179 8.1 Habilitação e credenciamento de responsável legal ............................................................180 8.2 Despachante aduaneiro ...................................................................................................................180 8.3 Despacho aduaneiro de exportação ...........................................................................................182 8.3.1 Início da operação de exportação ................................................................................................. 182 8.3.2 Declaração de exportação ................................................................................................................ 183 8.4 Despacho aduaneiro de importação ..........................................................................................184 8.4.1 Importação por conta e ordem de terceiro ............................................................................... 185 8.4.2 Importação por encomenda ............................................................................................................ 185 8.4.3 Declaração de Importação – DI...................................................................................................... 185 8.4.4 Tributos incidentes na importação ............................................................................................... 186 8.4.5 Início do despacho aduaneiro de importação ......................................................................... 186 8.4.6 Documentos de instrução da DI .................................................................................................... 186 8.4.7 Parametrização (canais verde, amarelo, vermelho e cinza) ................................................ 186 8.4.8 Desembaraço aduaneiro ................................................................................................................... 187 8.5 Formação do preço para a exportação ......................................................................................187 8.5.1 Metodologia para a fixação do preço de exportação ........................................................... 187 8.6 Passo a passo para a exportação .................................................................................................190 8.6.1 Fluxograma de exportação .............................................................................................................. 190 8.7 Passo a passo para importar ..........................................................................................................192 8.8 Documentos necessários para importação ..............................................................................195 8.9 Modalidades de pagamento ..........................................................................................................195 8.9.1 Pagamento antecipado ..................................................................................................................... 196 8.9.2 Remessa direta (ou remessa sem saque) .................................................................................... 196 8.9.3 Cobrança documentária .................................................................................................................... 197 8.9.4 Carta de crédito .................................................................................................................................... 197 8.9.5 Aspectos cambiais na exportação ................................................................................................. 198 9 APRESENTAÇÃO Esta disciplina tem por objetivo capacitar e propiciar ao aluno uma visão abrangente e integrada de gestão de negócios internacionais, analisar a dinâmica do ambiente de negócios, seus efeitos na estratégia e competitividade empresariais, e oferecer elementos para a compreensão dos conceitos essenciais, princípios, técnicas e processos dos modelos modernos de gestão dos processos de importação e exportação. Para que uma empresa possa ingressar no clube fechado dos negócios internacionais, deve haver uma preparação interna, assim como pesquisa, análise e desenvolvimento de habilidades que lhe permitam sobreviver no ambiente internacional e avaliar níveis de concorrência para definição de estratégias de comercialização de produtos ou serviços. Ao adquirir os conhecimentos sobre as operações de importação e exportação, tanto na legislação brasileira quanto conceitos comuns em outros países, e conhecendo a documentação característica e a regulamentação do comércio exterior, o aluno estará capacitado a gerenciar operações para negociações internacionais. Apresentamos, assim, abordagens do comércio internacional e as políticas comerciais estratégicas; os sistemas cambiais; as relações econômicas internacionais do Brasil e a sua evolução recente; o desenvolvimento contemporâneo do capitalismo em nível das relações internacionais; o sistema monetário internacional e sua evolução; e a integração regional.escotilhas e aberturas que permitem seu estufamento10 e esvaziamento com facilidade, cumprindo os objetivos propostos para a sua criação e utilização. Os contêineres são identificados com marcas (como todos os volumes movimentados nessa área), números, definição de espaço e peso. As características de resistência e identificação visam dar ao contêiner vantagens sobre os demais equipamentos para unitização como segurança, inviolabilidade, rapidez e redução de custos nos transportes. A Convenção CSC-IMO (International Convention for safe Container – International Maritime Organization) estabelece normas para segurança nas operações com contêiner. Tem como objetivo facilitar o comércio, introduzindo regulamentos internacionais uniformes, de forma a garantir um alto nível de segurança no transporte de contêineres. 10Estufar significa preencher os espaços dos contêineres, que podem ser feitos de várias maneiras. Além do estudo da adequação da carga, é essencial verificar também a questão do peso. Deve existir um equilíbrio nos espaços ocupados para que não tenha o problema de movimentação e com isso danificar os produtos ou problemas de pesos mal distribuídos. 93 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO 4.3.1.2 Autoridades transportes terrestres Agência Nacional de Transportes Terrestres – ANTT A Agência Nacional de Transportes Terrestres – ANTT é responsável pela regulação dos mercados de: • transporte ferroviário de cargas; • transporte ferroviário de passageiros; • transporte rodoviário interestadual e internacional de passageiros; • infraestrutura de transporte rodoviário. Também atua na habilitação do operador de transportes multimodal. O Brasil, em virtude de sua situação e dimensão geográfica, mantém acordos de transporte internacional terrestre, principalmente rodoviário, com quase todos os países da América do Sul. Com a Colômbia, Equador, Suriname e Guiana Francesa o acordo ainda está em negociação. O transporte internacional terrestre entre os países do Cone Sul, que contemplam os transportes ferroviários e rodoviários, inclui Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Peru, Paraguai e Uruguai. Com a Venezuela refere-se apenas ao transporte rodoviário. O Mercado Comum do Sul – Mercosul, que é um tratado de integração entre Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai absorveu o Acordo de Transportes do Cone Sul. Tais acordos buscam facilitar o incremento do comércio, entre os países, no transporte de bens e pessoas, permitindo que veículos e condutores de um país circulem nos territórios dos demais. No caso do Mercosul, já se atingiu estágio mais avançado com a negociação e adoção de normas técnicas comunitárias por meio de negociações conjuntas periódicas, visando atender às crescentes necessidades dos países membros, tendo por objetivo maior grau de segurança e maior agilidade dos procedimentos aduaneiros e imigratórios. Ressalta-se que o transporte terrestre doméstico de cada país não pode ser executado por empresas estrangeiras. Complementarmente aos acordos básicos citados, têm sido estabelecidos acordos específicos no Mercosul como o de Transporte de Produtos Perigosos e o Acordo sobre Trânsito. Na sequência, uma tabela com a quantidade de empresas e os números da frota, que estão autorizadas a operar no Transporte Rodoviário Internacional de Cargas – Tric, atualizada em 25/6/2019. 94 Unidade I Tabela 10 Origem Habilitadas Empresas Frota Brasileiras 1.541 58.799 Estrangeiras 1.868 50.059 Empresas Brasileiras Habilitadas País Destino Empresas Frota Argentina 1.148 41.522 Bolívia 372 13.107 Chile 731 30.021 Paraguai 744 27.041 Peru 146 3.438 Uruguai 703 28.007 Venezuela 80 1.955 Obs.: uma mesma empresa e um mesmo veículo podem ser habilitados para mais de um país. Empresas Estrangeiras Habilitadas País de Origem Empresas Frota Argentina 818 16.288 Bolívia 252 6.869 Chile 277 6.177 Paraguai 289 15.222 Peru 28 1.943 Uruguai 200 3.515 Venezuela 4 45 Adaptada de: Tric (2019). Frete rodoviário As tarifas de frete são organizadas individualmente por cada empresa de transporte e o frete pode ser calculado por peso, volume ou por lotação do veículo. A composição do frete rodoviário é a seguinte: • frete básico: tarifa x peso da mercadoria. Se a carga for “volumosa”, pode-se considerar o volume no lugar do peso; • taxa de ad-valorem: percentual cobrado sobre o valor FOB da mercadoria; • seguro rodoviário. 95 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO O usuário deve consultar a transportadora para conhecer quais cláusulas da apólice de seguro dão cobertura e quais ele deve complementar com sua seguradora. Transporte dutoviário O transporte dutoviário é realizado por meio de tubulações, seja para granéis líquidos ou sólidos. O transporte dutoviário pode ser dividido em: • oleodutos: tem como principais produtos transportados: petróleo, óleo combustível, gasolina, diesel, álcool, GLP, querosene e nafta, e outros; • gasodutos: o produto transportado é o gás natural; • minerodutos: os produtos transportados são: sal-gema, minério de ferro e concentrado fosfático. Outros assuntos relacionados a dutovias são de responsabilidade da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis – ANP. Transporte ferroviário O sistema ferroviário brasileiro totaliza 30.914 quilômetros, concentrando-se nas regiões sul, sudeste do centro-oeste e norte do país. Por intermédio das privatizações, temos a seguintes distribuição das concessões: Tabela 11 Concessionária Total km Linhas Rumo Malha Paulista S.A. 2.055 Rumo Malha Oeste S.A. 1.973 Rumo Malha Norte S.A 735 Rumo Malha Sul S.A 7.223 MRS Logística S.A 1.686 Ferrovia Transnordestina Logística S.A. 4.295 Ferrovia Tereza Cristina S.A. 163 Ferrovia Norte Sul 723 Ferrovia Centro-Atlântica S.A. 7.223 Estrada de Ferro Paraná Oeste S.A. 248 Estrada de Ferro Carajás 978 Ferrovia de Integração Oeste-Leste 1.527 Transnordestina Logística S.A. 1.190 Estrada de Ferro Vitória a Minas 895 Total 30.914 Fonte: ANTT ([s.d.]). . 96 Unidade I O modal ferroviário caracteriza-se, especialmente, por sua capacidade de transportar grandes volumes com elevada eficiência energética, principalmente, em casos de deslocamentos a médias e grandes distâncias. São cargas típicas do modal ferroviário: produtos siderúrgicos, grãos, minério de ferro, cimento e cal, adubos e fertilizantes, derivados de petróleo, calcário, carvão mineral e clínquer. Devido à grande produção brasileira, não só para o mercado doméstico como exportação, o setor sucroalcooleiro também está tendo grande destaque no transporte de álcool etílico e açúcar. O sistema ferroviário brasileiro é o maior da América Latina em termos de carga transportada, atingindo 266,9 bilhões de tku11 (tonelada quilômetro útil), em 2008, última estatística disponibilizada pelo Ministério da Infraestrutura. O transporte ferroviário não é tão ágil e não possui tantas vias de acesso quanto o rodoviário (chamado de capilaridade), porém, é mais barato. Propiciando menor frete, transporta quantidades maiores e não está sujeito a riscos de congestionamentos. O frete ferroviário é baseado em dois fatores: • quilometragem percorrida: distância entre as estações de embarque e desembarque; • peso da mercadoria. O frete ferroviário é calculado por meio da multiplicação da tarifa ferroviária pelo peso ou volume, utilizando-se daquele que proporcionar maior valor. O frete também pode ser calculado pela unidade de contêiner, independente do tipo de carga, peso ou valor da mercadoria, não incidindo taxas de armazenagem, manuseio ou qualquer outra, mas podem ser cobradas taxa de estadia do vagão (considerando o tempo além do necessário para carregamento das unidades). Transporte multimodal de cargas O transporte multimodal de cargas é aquele que, regulado por um único contrato utiliza duas ou mais modalidades de transporte (ferroviário + rodoviário; hidrovia + ferroviário; hidrovia + rodoviário + ferroviário etc.), desdea origem até o destino e é executado sob a responsabilidade única de um Operador de Transporte Multimodal – OTM, que depende de prévia habilitação e registro na ANTT. O Conhecimento de Transporte Multimodal de Cargas – CTMC é o contrato de transporte multimodal e governa toda a operação de transporte, desde o recebimento da carga até a sua entrega no destino. O OTM assume a responsabilidade pela execução desses contratos pelos prejuízos resultantes de perda, por danos ou avaria às cargas sob a sua custódia, assim como por aqueles decorrentes de atraso em sua entrega, se houver prazo acordado. Além do transporte, inclui os serviços de coleta, unitização, desunitização, consolidação, desconsolidação, movimentação, armazenagem e entrega da carga ao destinatário. 11TKU é definida como a quantidade de toneladas úteis transportadas multiplicadas pela quilometragem percorrida pelas mesmas. 97 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO A realização do transporte multimodal de cargas, da origem até o destino, pode se dar por meios próprios ou de terceiros e ele poderá ser transportador ou não. Caso o OTM pretenda atuar em âmbito internacional, deverá também se licenciar na Secretaria da Receita Federal. 4.3.2 Secretaria Nacional de Aviação Civil - Ministério da Infraestrutura O transporte aéreo internacional é um dos setores mais dinâmicos e de rápida evolução do mundo. A associação representativa é a Associação de Transporte Aéreo Internacional (International Air Transport Association – Iata). A sede da Iata é em Montreal e seu principal escritório executivo é em Genebra, com escritórios regionais em Amã, Bruxelas, Dacar, Londres, Nairobi, Santiago, Cingapura e Washington/USA, além de 57 escritórios espalhados no mundo, responsáveis pelo Serviço de Agências, entre eles o do Brasil. É o transporte adequado para mercadorias de alto valor agregado, pequenos volumes ou com urgência na entrega, como produtos farmacêuticos e carga viva (animais). Agência Nacional de Aviação Civil – Anac No caso do transporte aéreo, a regulação passou a ser exercida por uma agência com autonomia e independência, e a reformulação do aparato institucional responsável por sua regulação somente ocorreu em 2005, com a criação da Agência Nacional de Aviação Civil – Anac, pela Lei nº 11.182. A nova Agência substituiu o antigo Departamento de Aviação Civil – DAC, como autoridade de aviação civil e regulador do transporte aéreo no país. O DAC foi um departamento integrante da estrutura administrativa do Ministério da Aeronáutica, até 1999. A Anac, vinculada à Secretaria Nacional de Aviação Civil - Ministério da Infraestrutura é uma autarquia especial caracterizada por independência administrativa, que tem, como atribuições, regular e fiscalizar as atividades de aviação civil e de infraestrutura aeronáutica e aeroportuária. Para tal, o órgão deve observar e implementar as orientações, diretrizes e políticas estabelecidas pelo governo federal, adotando as medidas necessárias ao atendimento do interesse público e ao desenvolvimento da aviação. A atividade regulatória da Anac pode ser dividida em duas vertentes: I. A regulação técnica, que ocupa um papel de destaque na Agência e busca, principalmente, a garantia da segurança aos passageiros e usuários da aviação civil por meio de regulamentos que tratam sobre a certificação e fiscalização da indústria. II. A regulação econômica, que se refere ao monitoramento e a possíveis intervenções no mercado, de modo a buscar a máxima eficiência. 98 Unidade I Não estão no campo de atuação da Anac as atividades de investigação de acidentes aeronáuticos e o controle do espaço aéreo, que ficam a cargo, respectivamente, do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes – Cenipa e do Departamento de Controle do Espaço Aéreo – Decea. Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária – Infraero Da mesma forma que a Anac, a Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária – Infraero é vinculada ao Ministério da Infraestrutura e está encarregada de administrar os aeroportos brasileiros. Ao todo são 66 aeroportos, 69 grupamentos de navegação aérea e 51 unidades técnicas de aeronavegação, além de 34 terminais de logística de carga. Esses aeroportos concentram aproximadamente 97% do movimento do transporte aéreo regular do Brasil. A seguir, os movimentos de cargas totais nos aeroportos nacionais, de acordo com a origem, e o total de pousos e decolagens por aeronaves, domésticas ou internacionais: Tabela 12 Evolução da quantidade de voos Mercados doméstico e internacional de 2007 a 2016 Ano Doméstico Internacional Total 2007 627.550 105.399 732.949 2008 657.977 106.681 764.658 2009 733.624 101.124 834.748 2010 844.718 117.474 962.192 2011 958.083 135.423 1.093.506 2012 990.839 142.514 1.133.353 2013 946.685 144.846 1.091.531 2014 941.973 149.293 1.091.266 2015 935.704 146.997 1.082.701 2016 828.935 135.453 964.388 Adaptada de: Anac (2018). Tabela 13 Evolução da quantidade de carga paga e correio transportados Mercados doméstico e internacional, 2007 a 2016 (milhares de toneladas) Ano Doméstico Internacional Total 2007 418,0 647,3 1.065 2008 421,4 593,1 1.015 2009 394,1 481,4 876 2010 480,5 656,7 1.137 99 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO Evolução da quantidade de carga paga e correio transportados Mercados doméstico e internacional, 2007 a 2016 (milhares de toneladas) Ano Doméstico Internacional Total 2011 524,9 738,4 1.263 2012 511,7 763,5 1.275 2013 521,9 815,3 1.337 2014 514,9 808,1 1.323 2015 455,8 763,3 1.219 2016 419,4 726,3 1.146 Adaptada de: Anac (2018). Tarifas aeroportuárias Quando da importação aérea, é devido pelo importador ou exportador as seguintes tarifas aeroportuárias: • tarifa de armazenagem: pelo armazenamento, guarda e controle de mercadorias nos armazéns de carga aérea dos aeroportos; incide sobre o consignatário ou o transportador, no caso de carga aérea em trânsito; • tarifa de capatazia: pela movimentação e manuseio de mercadorias a que se refere o item anterior; incide sobre o consignatário ou o transportador, no caso de carga aérea em trânsito. O transporte aéreo possui algumas vantagens sobre os demais modais, pois é mais rápido e seguro e são menores os custos com seguro, estocagem e embalagem, além de ser mais viável para remessa de amostras, brindes, bagagem desacompanhada, partes e peças de reposição, mercadoria perecível, animais, cargas de alto valor etc. No entanto, apresenta desvantagem como a menor capacidade de carga e valor do frete mais elevado em relação aos outros modais. A base de cálculo do frete aéreo é obtida por meio do peso ou do volume da mercadoria, sendo considerado aquele que proporcionar a maior receita para a empresa transportadora. Para saber se devemos considerar o peso ou o volume, a Iata – International Air Transport Association – entidade internacional que congrega grande parte das transportadoras aéreas do mundo estabeleceu a seguinte relação: • relação Iata (peso/volume): 1 kg = 6000 cm³ ou 1 ton = 6 m³. Por exemplo: no caso de um peso de 1 kg acondicionado em um volume maior que 6000 cm³, considera-se o volume como base de cálculo do frete, caso contrário, considera-se o peso. As tarifas, baseadas em rotas, tráfegos e custos são estabelecidas no âmbito da Iata, pelas empresas aéreas, para serem cobradas uniformemente, conforme as classificações seguintes: 100 Unidade I • tarifa geral de carga (general cargo rates): — normal: aplicada aos transportes de até 45 kg; — tarifa de quantidade: para pesos superiores a 45 kg. • tarifa classificada (class rates): percentual adicionado ou deduzido da tarifa geral, conforme o caso, quando do transporte de mercadorias específicas (produtos perigosos, restos mortais e urnas, animais vivos, jornais e periódicos, e cargas de valor, assim consideradas aquelas acima de US$ 1000/kg), apurados no aeroporto de carga; • tarifas específicas de carga (specific commodity rates):são tarifas reduzidas aplicáveis a determinas mercadorias, entre dois pontos determinados (transporte regular); • tarifas ULD (Unit Load Device): transporte de unidade domicílio a domicílio, aplicável a cargas unitizadas, no qual o carregamento e o descarregamento das unidades ficam por conta de remetente e destinatário (prevista a cobrança de multa por atraso por dia ou fração até que a unitização esteja concluída); • tarifa mínima: representa o valor mínimo a ser pago pelo embarcador. Não é classificada pela Iata, ficando a critério de cada empresa aérea transportadora. Adicional de Tarifa Aeroportuária – Ataero O Adicional de Tarifa Aeroportuária – Ataero destina-se à aplicação em melhoramento, reaparelhamento, reforma e expansão de instalações aeroportuárias, e da rede de telecomunicações e auxílio à navegação aérea, calculado pelo percentual de 50% sobre todas as tarifas aeroportuárias, a saber: • tarifa de embarque – devida pela utilização das instalações e serviços de despacho e embarque em estação de passageiros; incide sobre o passageiro do transporte aéreo; • tarifa de pouso – devida pela utilização das áreas e serviços relacionados às operações de pouso, rolagem e estacionamento da aeronave até três horas após o pouso; incide sobre o proprietário ou explorador da aeronave; • tarifa de permanência – devida pelo estacionamento da aeronave, além das três primeiras horas após o pouso; incide sobre o proprietário ou explorador da aeronave; • tarifa de armazenagem e capatazia – devida pela utilização dos serviços relativos à guarda, manuseio, movimentação e controle da carga nos armazéns de carga aérea dos aeroportos; incide sobre o consignatário ou o transportador no caso de carga aérea em trânsito. 101 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO Resumo Nessa unidade, verificou-se que o comércio internacional está presente desde os primórdios da humanidade, pois os países não são autossuficientes; sempre dependem de algum produto ou serviço produzido em outros países. Com o advento da globalização, os países passaram a formar blocos econômicos de forma a complementar suas economias, criados com a finalidade de facilitar o comércio, reduzindo ou isentando impostos ou tarifas alfandegárias e buscaram soluções para problemas comerciais, envolvendo várias questões como geográficas, econômicas e sociais entre os países-membros e suas relações com os demais países. Esses blocos econômicos podem ser Zona ou Área de Preferência Tarifária , Zona ou Área de Livre-Comércio , União Aduaneira, Mercado Comum ou, ainda, União Econômica e Monetária, como é a União Europeia. O comércio internacional é regido por leis e diretrizes que regulamentam as negociações de bens e serviços entre os países, estabelecidos por organizações como a Organização Mundial do Comércio – OMC, e as barreiras técnicas e tarifárias e não tarifárias são as “armas” utilizadas por alguns países para proteção de seus mercados. Já os países mais desenvolvidos estabelecem sistemas e formas de favorecer os que estão em fase menos desenvolvidas de suas economias. Pode ser verificado também que os países podem obter recursos para o seu desenvolvimento em organismos internacionais como o Fundo Monetário Internacional – FMI. Além disso, foi retratado como o Brasil evoluiu na sua produção, economia e política, desde o descobrimento até sua história mais recente, com os grandes problemas enfrentados pelo País e que, mesmo sendo considerada uma das dez maiores economias do mundo, a participação brasileira no comércio internacional mal chega a 2%. Verificou-se também como está constituída a estrutura do comércio exterior brasileiro. Percebe-se que o número de intervenientes, gestores e anuentes é muito grande, parecendo, à primeira vista, complicado internacionalizar as operações das empresas. No entanto, há de se considerar que cada empresa tem um ramo específico de atuação e para cada empresa há um regime específico de atendimento. 102 Unidade I Diversos processos burocráticos foram substituídos por registros eletrônicos por meio do Siscomex, tendo como órgãos gestores do comércio exterior a Secex/Ministério da Economia, a SRF e o Bacen, que atuam de forma integrada por meio do sistema eletrônico, para os controles de natureza comercial, controle dos procedimentos aduaneiros e fiscais e o controle cambial das operações. Quanto aos órgãos anuentes, estes são responsáveis pelo deferimento da Licença de Importação – LI após a análise de uma operação de exportação ou importação, dentro de sua área de competência, estabelecendo exigências para fins de desembaraço da mercadoria ou licenciamento da operação. Quando do registro da exportação ou da licença de importação, o sistema sempre avisa se há ou não necessidade de anuência prévia. Com relação ao transporte, foi visto que o Brasil dispõe de agências reguladoras; órgãos criados pelo governo para regular e fiscalizar os serviços prestados por empresas privadas para os modais de transporte, de forma a assegurar aos importadores e aos exportadores um serviço contínuo, que garanta a capacidade do País de cumprir seus compromissos de recepção e embarque de mercadorias. Exercícios Questão 1. Leia o texto a seguir: O Brasil tem alterado, ao longo das últimas décadas, a sua política de comércio exterior. Em determinados períodos, privilegiou a produção interna e, em outros, defendeu a competição com o exterior. Baumann, em 1999, afirmou: “Com exceção dos produtos primários energéticos, das semimanufaturas baseadas em recursos minerais, e das manufaturas com conteúdo tecnológico médio e alto, em todos os demais produtos classificados, o sinal da balança comercial foi, em média, positivo na década de 1980, na maioria dos casos invertendo a situação observada na década anterior. Parte das explicações para esses resultados estão associadas ao ciclo interno do produto e à vigência de uma política restritiva às importações, que teriam desestimulado a demanda por produtos importados. Mas não cabe dúvida de que esses saldos também foram obtidos graças ao dinamismo e ao processo de diversificação das exportações”. A partir deste texto, é correto afirmar que: A) Os resultados da balança comercial no período citado podem ser explicados em parte pelo relaxamento do controle sobre importações ocorrido no período. 103 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO B) Na década de 1980, a balança comercial apresentou saldos positivos em produtos como manufaturas de alto conteúdo tecnológico e em produtos primários energéticos como petróleo. C) Na década de 1980, o consumo de importações era fortemente desestimulado, motivo parcial que explica a balança comercial favorável nesse período. D) A balança comercial apresentou saldos favoráveis no período citado em razão de fatores como a restrição a importações e ao ciclo interno do produto além de outros fatores conjunturais, não podendo ser atribuída em nenhum grau a capacidades de exportação como diversificação. E) Com exceção de alguns produtos, como as manufaturas de alta tecnológica agregada, ocorreram saldos positivos na balança comercial nos anos 80, mantendo uma tendência já consagrada na década anterior. Resposta correta: alternativa C. Análise das alternativas A) Alternativa incorreta. Justificativa: o período citado no texto é caracterizado pela política de restrição às importações e não o oposto, conforme afirmado na alternativa. B) Alternativa incorreta. Justificativa: a balança comercial apresentou na década de 1980 uma inversão sobre a década anterior na maioria dos produtos, com exceção de alguns, entre eles, justamente os citados na alternativa. C) Alternativa correta. Justificativa: realmente o período citado é caracterizado por uma política restritiva às importações, fazendo com que a balança comercial pendesse a favor do Brasil. D) Alternativa incorreta. Justificativa: apesar de fatores conjunturais e políticos terem sido responsáveispor grande parte dos superávits da balança comercial, e reconhecido que na época houve um aumento da diversidade das exportações e um incremento dinâmico a elas. E) Alternativa incorreta. Justificativa: a balança comercial apresenta nos anos 80 uma inversão em relação aos anos 70 e não uma tendência continuada. 104 Unidade I Questão 2. Acerca da estrutura brasileira para o comércio exterior, foram feitas as seguintes afirmações: I - O órgão responsável na alfândega brasileira pelos desembaraços aduaneiros na importação é a Secretaria da Receita Federal. II - As importações geralmente estão dispensadas de licenciamento. III - O Siscomex é administrado pelo Bacen. IV - Com relação ao Siscomex, podemos afirmar que ele é uma ferramenta facilitadora, que permite a adoção de um fluxo único de informações, eliminando controles paralelos e diminuindo significativamente o volume de documentos envolvidos nas operações. V - O órgão responsável por fiscalizar preços mínimos e máximos é Camex. Assinale a alternativa correta: A) As afirmativas I, II e III estão corretas. B) As afirmativas I, II e IV estão corretas. C) As afirmativas I, III e V estão corretas. D) As afirmativas II, IV e V estão corretas. E) As afirmativas III, IV e V estão corretas. Resposta correta: alternativa B. Análise das afirmativas I - Afirmativa correta. Justificativa: a Secretaria da Receita Federal é a responsável no Brasil pelos desembaraços aduaneiros. II - Afirmativa correta. Justificativa: segundo o Ministério da Economia, como regra geral, as importações brasileiras estão dispensadas de licenciamento, devendo os importadores tão somente providenciar o registro da Declaração de Importação – DI no Siscomex, com o objetivo de dar início aos procedimentos de despacho Aduaneiro junto à Unidade Local da Receita Federal do Brasil – RFB. 105 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO III - Afirmativa incorreta. Justificativa: o Bacen administra o Sisbacen e não o Siscomex que é administrado pelo Decex. IV - Afirmativa correta. Justificativa: a centralização de fluxos é um dos objetivos do Siscomex. V - Afirmativa incorreta. Justificativa: a responsabilidade pela fiscalização de preços mínimos e máximos é do Secex e não do Camex.INTRODUÇÃO Cabe a esta disciplina capacitar o aluno a analisar a dinâmica do ambiente de negócios internacionais e seus efeitos na estratégia e competitividade das pequenas e médias empresas, bem como para a compreensão de conceitos essenciais, princípios, técnicas e processos dos modelos modernos de gestão no âmbito dessas organizações, sejam elas de comércio, indústria ou de serviços, públicas ou privadas. Segundo o Ministério da Economia, indicadores da economia mundial entre exportações e importações, o mundo movimentou a quantia de 30 trilhões de dólares, valores nada desprezíveis, dos quais o Brasil não chegou a mais do que 1,3% de participação. Isso denota que existe um grande potencial no mercado mundial e as empresas brasileiras não só devem olhar o mercado internacional como opção mas como uma obrigação, ainda que o mercado interno tenha muito a ser desenvolvido. Os gestores devem conhecer e praticar as técnicas de planejamento e de gestão estratégica profissional. Para que aprimorem seus conhecimentos de forma objetiva, e entendam como gerenciar os processos de importação e exportação serão abordados os aspectos que cercam a sistemática do comércio exterior, envolvendo: 10 • a legislação e a estrutura brasileira para o comércio exterior; • os termos internacionais de comércio; • algumas práticas adotadas no Brasil no comércio internacional; • as atualidades sobre o mercado internacional, levando em consideração os efeitos da globalização; • conhecimento da documentação característica e regulamentação, e adquirir noções da estratégia de operações e condições para negociações internacionais. Exportar é uma estratégia de ampliação de mercado, assim como o acirramento da concorrência entre empresas, que já não mais respeitam fronteiras e se intensificam a cada dia, representando diversas ameaças e oportunidades que devem ser consideradas em decisões sobre entrada em mercados internacionais. 11 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO Unidade I Pode-se dizer que o fenômeno da globalização se iniciou com o surgimento do ser humano na face da terra, quando percorria longos caminhos em busca de alimentos ou bens. É lógico que, em uma época na qual havia somente fronteiras geográficas naturais, qualquer metro percorrido podia ser considerado território estrangeiro, ainda que não tivesse dono. Na Antiguidade, o comércio internacional pouco existia. Uma das civilizações mais antigas que se conhece é a egípcia. No Egito, o comércio exterior era inexpressivo e as importações e exportações se limitavam apenas a artigos de luxo. Em épocas posteriores surgiu a civilização mesopotâmica. Foi constatado que o comércio da Mesopotâmia era mais intenso do que o Egito; chegaram a estabelecer postos comerciais fora do país. Um salto mais à frente, temos os grandes descobridores, que navegavam em busca daquilo que necessitavam em seu país. Podem-se citar os navegadores fenícios (milênios a.C., com o comércio em toda a região do Mediterrâneo e do Atlântico Norte europeu), grandes navegadores, o que permitiu que se tornassem também grandes comerciantes. Instalaram postos de vendas em diversos pontos da Europa. A Grécia Antiga não tinha produção suficiente de alimentos, por exemplo. Isso fez com que ela comprasse produtos do exterior e pagasse com azeite e vinho. O Império Romano (27 a.C. a 476 d.C., pela força impuseram, por meio de Leis, comércio, moeda, costumes, língua, religião e cultura na Europa, Norte da África e Mesopotâmia.) desenvolveu bastante o comércio exterior, mesmo porque Roma dominava o mundo. Negociaram até com países distantes como China e Índia, os comerciantes venezianos como Marco Polo e os navegadores espanhóis e portugueses (século XIV e XV foram épocas das grandes descobertas, novos continentes, abertura para o Oriente). O século XIX foi marcado pela colonização europeia da África e da Ásia, o tratado de livre-comércio entre França e Inglaterra. Portanto, verifica-se que a troca de mercadorias entre as nações advém do início da civilização, mas consolidou-se mesmo com as práticas mercantilistas na Europa, nos séculos XV e XVI, principalmente, por causa do desenvolvimento da navegação marítima, que foi largamente utilizado para o comércio entre Europa, Índia, África e América. O período mercantilista vai de 1500 a 1750. A Europa já vivia o fim do feudalismo e da Idade Média. O regime corporativista perdia força e o comerciante individual estava em ascensão. Cerca de 80% a 90% da população europeia trabalhava na agricultura. Os artesãos, isto é, alfaiates, carpinteiros e ferreiros eram os industriais da época, logo, uma produção de natureza doméstica. 12 Unidade I Os governantes tinham no ouro e na prata a forma mais importante de riqueza, sendo, portanto, o principal fundamento do poder nacional. A exportação precisava ser maior do que a importação, para a nação ter benefícios com o comercio exterior. Assim, estimulavam as exportações e desestimulavam as importações, até quando isso proporcionava prejuízos para o povo. No fim do século XVIII, a Europa passou por transformações muito grandes. Foi o que se chamou de I Revolução Industrial; as indústrias passaram a trabalhar com máquinas que, para a época, eram muito eficientes. O crescimento da produção industrial estimulou as migrações dos camponeses para as cidades. Esse fato ficou mais agravado porque a agricultura também teve um progresso técnico, o que tornou necessário menos trabalhadores rurais. Os empresários passaram a ter mais força política. Entre o século XIX até 1914, ocorreram diversos eventos políticos com grande efeito na vida econômica, como as Guerras Napoleônicas e a Primeira Grande Guerra. Por sua posição insular, a Inglaterra ficou longe dos campos de batalha, o que lhe permitiu viver com uma tranquilidade que a Europa não teve. Isso lhe proporcionou um crescimento econômico maior do que o dos outros países, tornando-se, assim, a nação de maior projeção do mundo. Nessa época, ocorreram novos inventos. O trem a vapor proporcionou facilidades que desenvolveram o comércio interno e externo. Nasceu a indústria automobilística. Novas máquinas foram introduzidas nas fábricas. Ford criou um sistema novo de trabalho, isto é, a produção em linha de montagem. Houve, portanto, uma revolução na economia internacional que se denominou II Revolução Industrial. O artesão, com sua produção doméstica, foi substituído pela fábrica. Assim, mudou toda a estrutura social; surgiram as lideranças sindicais, que representavam os operários, e também as lideranças empresariais. O sistema monetário vigente até 1914 era o padrão-ouro (gold exchange): as moedas tinham lastro em ouro e eram conversíveis em ouro. Os Bancos Centrais de cada país trocavam moedas por ouro. Estavam, portanto, livres da intervenção do Estado. A exportação e a importação do ouro eram livres. A paridade da moeda de um país em relação a de outro era feita de acordo com a quantidade de ouro que elas representavam. Portanto, as flutuações monetárias eram insignificantes. Os déficits dos balanços de pagamento eram cobertos em ouro. A participação americana na Guerra de 1914 trouxe como consequência o desenvolvimento industrial muito grande dos Estados Unidos, porque o parque industrial europeu ficou destruído e também porque as indústrias americanas tiveram que crescer, durante o conflito, para atender às necessidades bélicas. 13 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO A partir de 1927, o Canadá e a Inglaterra passaram por um período recessivo e isso afetou as indústrias dos Estados Unidos, que tiveram quedas em suas vendas. Um contrassenso foi que, enquanto as empresas americanas sofriam os efeitos dessa recessão, na Bolsa de New York o preço das ações mantinha-se em nível elevado, sustentado pelos especuladores. Diante disso, o Banco Central dos Estados Unidos (Federal Reserve) tomou algumas medidas para refrear a especulação. Houve uma onda de falências muitogrande. Fazendeiros endividados perderam suas terras. O desemprego atingiu níveis insuportáveis, 25% dos trabalhadores estavam desempregados. Os Estados Unidos importaram, em 1929, US$ 4,4 bilhões. Em 1932, apenas US$ 1,3 bilhões. Em fase posterior ao final da Segunda Guerra Mundial, no período 1950 –1973, teria ocorrido o mais espantoso aumento das trocas mundiais, na ordem de 8% ao ano em valores reais. Nesse momento, o crescimento do comércio mundial e da produção foi acompanhado de grandes mudanças no tamanho relativo das economias participantes. Nesse intervalo (1950 a 1973), os países que mais se destacavam eram da Europa Ocidental e o Japão. A reconstrução no período de pós-guerra e a guerra da Coreia estimularam as exportações japonesas e europeias. Em história bem mais recente, nos anos 60, surge a Teoria da Comunicação, conhecida como “Aldeia Global”, de Herbert Marshall McLuhan (Edmonton, 21 de julho de 1911 – Toronto, 31 de dezembro de 1980), um filósofo e educador canadense, cujas ideias e teorizações revolucionaram a comunicação no mundo moderno, relatou o processo crescente dos meios de comunicação e trouxe para a educação novo enfoque, baseado em suas teorias sobre comunicação. Era o princípio do termo que hoje conhecemos como globalização, difundido pelos economistas no final dos anos 70, e nos anos 90 saiu das esferas dos economistas para cair em domínio público. Nesse período, a globalização entrou num ritmo jamais visto na história humana. Os capitais passaram a circular instantaneamente de um país para outro e as empresas multinacionais, escoradas em novo patamar de produtividade, foram buscar mão de obra mais barata em países da Ásia ou da América Latina. Apenas como ilustração, na década de 1980, a Ford decidiu produzir seus caminhões da linha Cargo, na Austrália, com a função de abastecer a Ásia; na Inglaterra para abastecer a Europa e o Brasil para abastecer as Américas. Convencionou-se uma data para o início, ainda que simbólica, da globalização turbinada dos mercados. Ela teria seu ponto de partida em 25 de dezembro de 1991, dia que marcou o fim do comunismo na extinta União Soviética. Para se ter uma ideia do que ocorreu no mundo, no período de 1950 a 1973, teria ocorrido o mais espantoso aumento das trocas mundiais, na ordem de 8% ao ano em valores reais. No gráfico a seguir, a evolução comparativa do comércio e a evolução da população mundial: 14 Unidade I Comparativo de crescimento Comércio mundial x população Valores em trilhões US$ x População bilhões pessoas Comércio mundial (Imp+Exp) População 4.114 4.453 7.069 5.306 13.108 37.564 7.200 1980 1990 2000 2010 6.122 Figura 1 – Comparativo de crescimento do comércio mundial Saiba mais O site da United Nations Conference on Trade and Development (UNCTAD) disponibiliza dados sobre a economia mundial, população, finanças e tendências econômicas. Disponível em: http://unctadstat.unctad.org. Acesso em: 16 mai. 2014. Mas o que significa essa globalização? Para Antonio Negri (2001, p. 15), essa nova dominação que ele batiza de “Império” no livro de mesmo nome, a globalização é constituída por redes assimétricas, e as relações de poder se dão mais por via cultural e econômica do que uso de força. Negri entende que entidades organizadas como redes (tais como corporações, ONGs – Organizações Não Governamentais e até grupos terroristas) têm mais poder e mobilidade (portanto, mais chances de sobrevivência no novo ambiente) do que instituições paradigmáticas (representação de um padrão a ser seguido) da modernidade como o Estado, partidos e empresas tradicionais. Portanto, a globalização trata do conjunto de transformações de ordem política e econômica mundial, com a interligação dos mercados internacionais, explorada pelas grandes corporações internacionais, alterando o conceito de mundo. O ambiente se mostra extremamente competitivo, sem fronteiras, sedento na busca por novas tecnologias, uma permanente à sensação de ameaça. O cenário atual de negócios internacional é, dessa forma, caracterizado por uma dinâmica crescente de adaptação a novas tecnologias e mercados, desencadeada pelo acirramento da concorrência, crescente integração econômica e financeira, e principalmente uma necessidade de obtenção de diferenciais e recursos que garantam a competitividade e a sustentabilidade das corporações. 15 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO Os governos também possuem interesses particulares no comércio internacional, pois a sua prática agrega valor e confiança internacionais, além da movimentação de divisas, o que impacta no câmbio e na balança comercial do país. Lembrete Balança comercial é um termo econômico que representa as importações e exportações de bens entre os países. Logo, tais vantagens despertaram os interesses de empresários e de governos, conduzindo esse comércio a um patamar em que toda a economia é regulamentada por práticas capitalistas, o que provocou uma reaproximação de países anteriormente avessos a essas práticas, para tornar viável o ingresso de todos nesse mercado global. Dessa forma, muitas economias reformularam suas ações comerciais para se remodelarem aos novos rumos tomados pela economia mundial. Alguns países como Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – conhecidos atualmente pela sigla BRICS (acrônimo formulado pelo economista-chefe da Goldman Sachs, Jim O´Neil, em estudo de 2001, intitulado “Building Better Global Economic BRICS”, para se referir aos quatro maiores países emergentes do mundo e que agora inclui a África do Sul, pois em abril de 2011, por ocasião da III Cúpula do BRICS na cidade de Sanya, na China, a África do Sul passou a fazer parte do agrupamento, que adotou a sigla BRICS), que representa os países economicamente emergentes – aproveitaram suas potencialidades naturais, humanas e tecnológicas para iniciar um novo ciclo em suas economias, estabelecendo parcerias para otimizar suas balanças comerciais e desenvolver seus polos industriais, além de outras ações, como geração de emprego e renda, livre concorrência, câmbio, atração de investimentos estrangeiros, abertura de novos negócios etc. O peso econômico dos BRICS é certamente considerável. Segundo artigo e dados do Ministério das Relações Exteriores do Brasil – MRE, entre 2003 e 2007, o crescimento dos quatro países representou 65% da expansão do Produto Interno Bruto – PIB mundial. Observação O Produto Interno Bruto representa a soma (em valores monetários) dos bens e serviços finais produzidos numa determinada região ou país, durante um período determinado, geralmente, um ano. Em paridade de poder de compra (em inglês: purchasing power parity), o Produto Interno Bruto – PIB dos BRICS já supera hoje o dos EUA ou o da União Europeia. Para dar uma ideia do ritmo de crescimento desses países, em 2003, os BRICS respondiam por 9% do Produto Interno Bruto – PIB mundial e, em 2009, esse valor aumentou para 14%. Em 2010, o PIB conjunto dos cinco países (incluindo a África do Sul) totalizou US$ 11 trilhões, ou 18% da economia mundial. 16 Unidade I Considerando o Produto Interno Bruto – PIB pela Paridade de Poder de Compra – PPC, esse índice é ainda maior: US$ 19 trilhões, ou 25% da economia mundial, de acordo com dados do Banco Mundial. Lembrete A PPC é um método para se calcular o poder aquisitivo da pessoa com o custo de vida do local, se ela consegue comprar tudo que necessita com seu salário. Empresas e governos devem estar preparados para enfrentar os novos desafios que se apresentam no dia a dia de suas atividades. Essa preparação consiste no condicionamento correto da empresa para vencer na arena internacional e exige pessoal capacitado, treinado, motivado e apto a lutar em um campo no qual os adversários são competentes e agressivos. O mercado de capitais internacional também se desenvolveu muito, passando a oferecer novos produtos e tecnologias financeiras, possibilitando novas relações entre os centrosfinanceiros e as economias dos países. Essas relações nem sempre são estáveis, pois a mobilidade de capitais provoca, por vezes, grandes oscilações na taxa de câmbio e mudanças estruturais nos padrões de comércio que, por sua vez, podem resultar em fortes pressões políticas. Embora tenham sido citados valores expressivos, e o Brasil ocupe a 8ª posição no Ranking Mundial do Produto Interno Bruto – PIB, de acordo com dados compilados, conforme pode ser verificado a seguir, nossa participação no comércio mundial atingiu 1,3% em 2010. Confira a seguir o Produto Interno Bruto – PIB, medido em milhões de US$, das 10 maiores economias mundial e a participação no comércio mundial. Na sequência, o gráfico da evolução da participação brasileira no comércio internacional: Tabela 1 – Ranking do PIB x participação no comércio mundial Países POS PIB 2013 PIB Nominal 2013 em US$ bilhões POS EXP 2012 Valor em US$ bilhões Part. % nas exportações mundiais Estados Unidos 1 15.653,4 2 1.547,0 8,4 China 2 8.250,2 1 2.049,0 11,2 Japão 3 5.984,4 4 799,0 4,4 Alemanha 4 3.336,7 3 1 407 7,7 França 5 2.875,0 6 569,0 3,1 Brasil 6 2.673,6 22 243,0 1,3 Reino Unido 7 2.585,8 11 468,0 2,6 Itália 8 1.980,4 8 529,0 2,9 Rússia 9 1.953,6 9 500,0 2,7 Índia 10 1.946,8 19 293,0 1,6 17 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO Países POS PIB 2013 PIB Nominal 2013 em US$ bilhões POS EXP 2012 Valor em US$ bilhões Part. % nas exportações mundiais Canadá 11 1.770,1 13 446,0 2,4 Austrália 12 1.542,1 21 257,0 1,4 Espanha 13 1.340,3 18 300,0 1,6 México 14 1.162,9 17 301,0 1,6 Coreia do Sul 15 1.151,3 7 548,0 3 Indonésia 16 894,9 26 188,0 1 Países Baixos 17 770,2 5 656,0 3,6 Arábia Saudita 18 657,0 15 386,0 2,1 Suíça 19 622,9 23 230,0 1,3 Suécia 20 520,3 28 172,0 0,9 Fonte: Fundo Monetário Internacional (2013); Organização Mundial do Comércio (WTO) (2012). 1,40% 1,20% 1,00% 0,80% 0,60% 0,40% 0,20% 0,00% 19 90 19 91 19 92 19 93 19 94 19 95 19 96 19 97 19 98 19 99 20 00 20 01 20 02 20 03 20 04 20 05 20 06 20 07 20 08 20 09 20 10 Figura 2 – O Brasil no comércio internacional – 1990/2010 (%) 1 O COMÉRCIO EXTERIOR Nos últimos 500 anos, o mundo das relações internacionais passou por transformações em três movimentos definidos: I. O crescimento do Ocidente, que trouxe a substituição das ferramentas manuais por máquinas, da energia humana pela energia vapor e do modo de produção doméstico pelo sistema fabril, que constituiu a Revolução Industrial ocorrida na segunda metade do século XVIII e encerrou a transição entre feudalismo e capitalismo, e a dominação do Ocidente em escala global. II. O crescimento dos Estados Unidos, a partir dos fins do século XIX, que foi uma nação capaz de exercer uma hegemonia mundial a qualquer outra referência na história, principalmente, 18 Unidade I após a Segunda Guerra Mundial. Houve um grande esforço por parte das empresas e do Estado à pesquisa científica para desenvolver novas técnicas de produção. A siderurgia avançou qualitativamente e quantitativamente, assim como as indústrias mecânicas, pelo aperfeiçoamento da fabricação do aço. Na indústria química, a descoberta de novos elementos e materiais ampliou as possibilidades para outros setores, como o petroquímico. A descoberta da eletricidade beneficiou tanto as indústrias como a sociedade em geral, pois promoveu a melhoria na qualidade de vida. Além da Primeira Guerra Mundial, ocorreu a Revolução Russa de 1917, a Crise de 1929, e a Grande Depressão, a ascensão do nazifascismo na Europa e a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945). Nessas poucas décadas, o capitalismo passou por crises e transformações, adquirindo novos contornos. III. A emergência do “resto do mundo”. A economia mundial seguiu em direção à região da Ásia-Pacífico, desde a década de 1970, primeiro com a ascensão econômica do Japão e em seguida com a emergência dos Tigres Asiáticos (Taiwan, Hong Kong, Coreia do Sul e Cingapura), a ascensão da China e da Índia ao status de grandes potências econômicas, tendo como consideração a enorme capacidade de produção destinada à exportação e seu enorme mercado interno, que somam juntos quase 40% da população do planeta. A história mostra que, após cada crise, isto é, ao fim de cada período de crescimento em determinado prazo, uma economia emerge com novos padrões e instituições que orientam as práticas econômicas e as formas de geração de riqueza. Ao longo dos últimos 100 anos, é possível identificar três momentos nos quais a economia internacional viveu crises associadas a mudanças de ciclos econômicos de longo prazo. O colapso econômico da década de 1930 com a Grande Depressão, também chamada, por vezes, de Crise de 1929 foi uma grande depressão econômica que teve início em 1929 e que persistiu ao longo da década de 1930, terminando somente na Segunda Guerra Mundial. A Grande Depressão foi considerada o pior e o mais longo período de recessão econômica do século XX. Esse período de depressão econômica causou altas taxas de desemprego, grandes quedas do produto interno bruto de diversos países, bem como quedas na produção industrial, nos preços de ações e em praticamente todo medidor das atividades econômicas, em diversos países no mundo. A crise na verdade era uma evidência do esgotamento da ordem liberal herdada do século XIX. O segundo momento de crise associada a mudanças foi a crise associada aos choques do petróleo e à crise do endividamento dos países considerados em desenvolvimento, que revelava o fim de um ciclo de crescimento centrado no financiamento de grandes obras e de estímulo da economia por intermédio de agências oficiais de desenvolvimento. Finalmente, a terceira crise ou fim de um ciclo de crescimento de longo prazo refere-se ao momento atual, e pode ser identificada como a crise da economia da globalização e da fé irrestrita numa presumida racionalidade dos mercados, especialmente, financeiros. A economia vive agora um processo de transição para um novo ciclo econômico, no qual novos elementos estão passando a servir de base para o crescimento, embora muitos dos elementos do ciclo que vai se encerrando continuem ainda presentes. 19 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO 1.1 História do comércio exterior no Brasil 1.1.1 Período Colonial (1500 – 1822) A descoberta do Brasil, em 22 de abril de 1500, pela esquadra de Pedro Álvares Cabral, integra o ciclo da expansão marítima portuguesa. Assim, a economia brasileira é integrada ao processo mundial de expansão do capitalismo mercantil, tendo, Portugal, a exclusividade do comércio com a colônia. A agricultura é rudimentar e provoca rápido esgotamento da terra, com a produção centrada no latifúndio, e na utilização de mão de obra escrava – primeiro dos indígenas e depois dos negros. A partir de 1530, aconteceu o início efetivo da ocupação portuguesa, com um sistema de produção baseado nos princípios mercantilistas, dominantes na época: formação de colônias preferencialmente nas áreas tropicais, para fornecer gêneros alimentícios tropicais, matéria-prima e metais preciosos que atendessem às necessidades do mercado europeu. 1.1.1.1 O ciclo do pau-brasil O primeiro produto a ser “exportado” foi a madeira denominada pau-brasil, retirada das terras brasileiras e embarcadas para a Europa. A utilidade principal era como madeira de construção, na fabricação de móveis e a de tingir panos. Aos índios cabia o trabalho da derrubada, do corte e do transporte dos toros, que depois eram embarcados para a Europa. Era a época da chamada Revolução Comercial. Formou-se aqui uma economia dependente, a fim de atender às economias europeias dominantes. 1.1.1.2 O ciclo da cana-de-açúcar O cultivo da cana-de-açúcar foi introduzido no Brasil por Martim Afonso de Souza, na capitania de São Vicente, e foi um período da história do Brasil no qual o plantio da cana-de-açúcar foi a principal atividade econômica do país. O auge da cana-de-açúcar ocorreuentre 1570 e 1650. Dois fatores contribuíram para a perda dessa posição: primeiro, a exploração do ouro nas “Minas Gerais”, a partir do final do século XVII e durante o século XVIII ocupou a centralidade econômica colonial. Segundo a exploração do produto em outras áreas (particularmente nas Antilhas), quebrou o monopólio do Brasil sobre o mercado mundial de açúcar. Ainda ocorria a plantação do milho e a mandioca. Da mandioca os indígenas faziam a farinha e que se tornou de uso comum na alimentação do povo brasileiro. 20 Unidade I 1.1.1.3 O ciclo do ouro A descoberta das lavras de ouro nas Minas Gerais, nos finais do século XVII e início do século XVIII, foi o acontecimento mais espetacular da história econômica do Brasil Colônia. Desde os primeiros tempos da descoberta, por Cabral, acreditava-se que o Brasil tinha ouro e outros metais, e pedras preciosas. Porém, quase 200 anos depois da ocupação, não haviam sido encontrados em volume significativo. A descoberta de ouro no Brasil provocou uma verdadeira “corrida do ouro”, durante todo século XVIII (auge do ciclo do ouro). Houve uma grande migração para as regiões auríferas, buscando o enriquecimento rápido. A população naquele século decuplicou, atingindo mais de 3 milhões de habitantes, sendo que 650 mil concentravam-se na área das minas. A pecuária se desenvolveu no interior, expandindo a ocupação de regiões próximas ao rio São Francisco e da região sul do Brasil, mas essa produção era apenas para consumo local. Em 1808, foi promulgado o Decreto de Abertura dos Portos às Nações Amigas pelo príncipe-regente de Portugal Dom João de Bragança, depois D. João VI, após sua chegada, com a família real e a nobreza portuguesa, em 24 de janeiro de 1808. Esse Decreto autorizava a abertura dos portos do Brasil ao comércio com as nações amigas de Portugal; a primeira experiência liberal do mundo após a Revolução Industrial. Outra das iniciativas de D. João VI durante seu período no Brasil foi a criação do primeiro Banco do Brasil, por meio da assinatura do Alvará de 12 de outubro de 1808, entrando em operação em 1809, com autorização de funcionamento por 20 anos. O fundo de capital era de 1.200 contos, divididos em 1.200 ações de um conto de réis cada uma: O início das operações do primeiro Banco do Brasil, em 1809, pode ser considerado um marco fundamental na história monetária do Brasil e de Portugal, tanto por ter sido a primeira instituição bancária portuguesa quanto pelo fato de representar uma significativa mudança no meio circulante do Brasil por meio da emissão de notas bancárias (MÜLLER; LIMA, 20071). 1.1.2 Período do Império (1822 – 1889) Em 1822, ocorre o chamado “Grito do Ipiranga”, declarando a Independência do Brasil, processo que culminou com a emancipação política do país do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, no início do século XIX. 1MÜLLER, E.; LIMA, F. C. C. Moeda e Crédito no Brasil: breves reflexões sobre o primeiro Banco do Brasil (1808 – 1829). Revista Tema Livre, Niterói, ano VI, n. 12, 25 abr. 2007. Disponível em: http://www.revistatemalivre.com. Acesso em: 17 mai. 2011. 21 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO Um fato importante dessa época foi a assembleia constituinte que iniciou seu trabalho em 03 de maio de 1823, quando o imperador Dom Pedro I discursou sobre o que esperava dos legisladores. D. Pedro I queria ter poder sobre o legislativo por meio do voto, iniciando uma desavença com uma parte dos constituintes que tinha orientação liberal-democrata. Assim, mandou o exército invadir o plenário em 12 de novembro de 1823, prendendo e exilando diversos deputados, episódio que ficou conhecido como “a noite da agonia”. Feito isto, reuniu dez cidadãos de sua inteira confiança, os quais, após algumas discussões a portas fechadas, redigiram a primeira Constituição do Brasil no dia 25 de março de 1824. Quando foi revogada com a proclamação da república em 15 de novembro de 1889, era a terceira constituição mais antiga do mundo que estava em vigor. Só era mais nova que as constituições dos Estados Unidos, de 1787 e da Suécia, de 1809. A constituição recebeu importantes modificações por meio do ato adicional de 1834, que, dentre outras alterações, criou as assembleias legislativas provinciais. Durante o período do Império, o café era o principal produto de exportação e gerador de renda. Acredita-se que o café tenha sido introduzido no Brasil durante o século XVIII, período no qual o produto já alcançara grande popularidade na Europa. As primeiras plantações foram registradas no Rio de Janeiro, por volta de 1760, e ao longo do século XIX e início do século XX o café se transformou no principal produto brasileiro vendido no mercado internacional. Na última década do Império, o café representava 60% do total de exportação do Brasil, enquanto o açúcar entrava em crise. Os engenhos foram desaparecendo, o açúcar brasileiro começou a sofrer cada vez mais a concorrência do que era produzido nas possessões francesas das Antilhas e em outras partes do globo, enquanto na Europa, cada vez mais se utilizava açúcar extraído da beterraba. O modo de produção adotado pelos produtores era a mão de obra escrava. A partir de 1850, com a proibição do trabalho escravo, e com a expansão da cafeicultura no oeste paulista optando pelo uso de novas tecnologias e pelo trabalho assalariado, o modelo de produção fluminense se tornou ultrapassado. O ciclo do café provocou significativas mudanças socioeconômicas no Brasil, permitindo que a economia brasileira ganhasse uma nova dinâmica. Foi a partir desse momento que surgiram as primeiras associações de trabalhadores e os primeiros sindicatos. Em compensação, o ciclo do café fortaleceu ainda mais os grandes produtores rurais com mais poder político, especialmente, no período conhecido como República Velha. No período de 1850, até o fim da monarquia, o Brasil passou por um processo de modernização. A integração geográfica foi marcada pela introdução de um meio de transporte que representava uma revolução – a estrada de ferro. O centro da expansão ferroviária durante o Império se situou em São Paulo e no Rio de Janeiro, pois o café precisava chegar aos portos para ser exportado. Além do café, outras culturas se destacaram como produto de exportação. 22 Unidade I O cacau, produzido na Bahia; a borracha, explorada na bacia do rio Amazonas; o algodão, cultivado em larga escala no Maranhão, em Pernambuco e no Ceará passaram a ser produtos expressivos na economia brasileira. Em 1860, o algodão chegou a ser o segundo produto de exportação nacional. A expansão de sua cultura, nesse período, é consequência da Guerra de Secessão norte-americana (1861 – 1865), que desorganizou a produção algodoeira dos Estados Unidos. A pecuária, voltada ao mercado interno, era a mais importante atividade econômica na região centro-sul. Na Constituição outorgada de 1824, apareceram os primeiros sinais para a abolição da escravatura. Falava-se em “homens livres”, embora defendessem como legítima a propriedade sobre os não livres, o que é uma forma violenta de racismo, pois só os negros eram escravizados. O Brasil foi o último país do ocidente a conceder a libertação dos escravos. Algumas leis que antecederam a Lei Áurea, como a que proibiu o tráfego de escravos, embora nunca fosse cumprida fortificou o movimento abolicionista que acabou levando a outras leis como a Lei do Ventre Livre, de 28 de setembro de 1871. Essa lei tornava livres os filhos de escravos que nascessem a partir de sua promulgação, que determinava a liberdade a todo filho de escravo, a partir daquela lei. Em 1885, foi aprovada a Lei Saraiva-Cotegipe ou Lei dos Sexagenários, que beneficiava os negros de mais de 65 anos. A pressão política dos abolicionistas levou ao fim da escravidão por meio da Lei Áurea assinada pela Princesa Isabel, no dia 13 de maio de 1888, redigida pelo então ministro dos Negócios da Agricultura, Rodrigo Augusto da Silva, que apenas declaravaextinta a escravidão. 1.1.3 Primeira República (1889 – 1930) Depois de instaurada a República no Brasil, foi promulgada, em 24 de fevereiro de 1891, a primeira Constituição. Estabeleceu como forma de governo o regime representativo, no qual o povo exerceria indiretamente o poder ao escolher, por meio de voto, seu representante pelo período de quatro anos. Todos os cidadãos masculinos maiores de 21 anos poderiam votar. A Constituição reconheceu as divisas dos estados e o princípio de federação, e a União só interviria nos estados para manter a ordem ou em casos de invasão estrangeira. Foi também essa Constituição que previu a transferência da capital para o planalto central, em seu Art. 3º. Só para constar, essa transferência se deu somente quando Brasília foi inaugurada, em 1960. A Primeira República foi caracterizada pela agricultura de exportação, na qual o café ainda ocupava o posto mais importante. A partir de 1880, a borracha da Amazônia, extraída da seringueira, foi o segundo produto de exportação, superando o açúcar. Era grande a demanda desse produto no que hoje chamamos de Primeiro Mundo: quando se iniciou a produção de pneus de borracha para bicicletas; depois com o surgimento do automóvel. 23 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO No final do século XIX, a recém-criada indústria de automóveis estava em plena expansão. A demanda pela borracha aumentou significativamente, pois a borracha era matéria-prima para a fabricação de pneus. A riqueza gerada por ela mudou a fisionomia de Manaus e de Belém. Na primeira década do século XX, o Brasil tornou-se o maior produtor e exportador mundial de borracha. Em 1910, por exemplo, chegou a exportar, aproximadamente, 40 mil toneladas do produto. Mas, por volta de 1910, começou a crise; os empresários holandeses e ingleses entraram no lucrativo mercado mundial de borracha. Passaram a produzir o produto em larga escala e custos baixos na Ásia (Ceilão, Indonésia e Malásia) e que hoje responde, junto com a Índia, por 78% da produção mundial. A concorrência fez com que, no começo da década de 1920, a exportação da borracha brasileira caísse significativamente. Além disso, ocorreu aqui o ataque de uma série de pragas, era o fim do ciclo da borracha no Brasil. Muitas cidades se esvaziaram, entrando em plena decadência. Entre 1898 e 1911, o Brasil não pagou a dívida externa. Depois, abriu negociação com os banqueiros da casa Rothschild & Sons para voltar aos pagamentos. Em troca, o Brasil teve que hipotecar as rendas da Alfândega do Porto do Rio de Janeiro; adotou um programa de cortes dos gastos públicos; aumentou os impostos e os bancos privados passaram a fiscalizar as contas públicas. Nos negócios do café, o capital estrangeiro atuou de duas formas. A exportação esteve praticamente nas mãos de grandes firmas estrangeiras – americanas, alemãs e inglesas. Além disso, alguns grupos financeiros forneciam recursos para valorizar o produto: se o preço do café no mercado internacional estivesse muito baixo, ele era retido nos portos, mas o produtor era pago com recursos obtidos no exterior. A riqueza acumulada com o café dinamizava o mercado consumidor e estimulava o desenvolvimento industrial. Em 1910, o Brasil possuía cerca de 3.500 indústrias. Depois de dez anos, já eram 13 mil estabelecimentos industriais, com uma grande concentração, entre 1915 e 1919, em consequência das dificuldades de importação durante a Primeira Guerra Mundial e da política de incentivo à industrialização dos governos republicanos. No início do século XX, o capital estrangeiro ampliou sua presença no Brasil, principalmente o norte-americano. A indústria de alimentação foi a que mais cresceu nas primeiras décadas da República e chegou a representar 40% dos estabelecimentos industriais do país. Observação N. M. Rothschild & Sons é o banco da família Rothschild, fundado em Londres, em 1811. 24 Unidade I 1.1.4 Era Vargas e Brasil Democrático (1930 – 1964) Ao assumir o poder, em novembro de 1930, Getúlio Vargas suspendeu a Constituição em vigor, dissolveu o Congresso Nacional e nomeou interventores para o governo dos estados. Além dessas medidas, criou dois novos ministérios: o Ministério da Educação e o Ministério da Saúde. Com a criação do Ministério do Trabalho, o governo de Vargas inaugurava uma fase de diálogo com a classe trabalhadora. Em 1931, reiniciou a política de valorização do café e criou o Conselho Nacional do Café, que, em 1933, foi substituído pelo Departamento Nacional de Café (DNC), autarquia federal subordinada ao Ministério da Fazenda, que controlou o setor até 1946, quando foi extinto. Em 1º de junho de 1933, criou também o Instituto do Açúcar e do Álcool – IAA, para coordenar a agricultura canavieira, controlar a produção, o comércio, a exportação e os preços do açúcar e do álcool. Segundo Baer (1988, p. 16), “a depressão dos anos 1930 teve severo efeito negativo sobre as exportações brasileiras, cujo valor caiu de US$ 445,9 milhões, em 1929, para US$ 180,6 milhões, em 1932”. A crise da cafeicultura estimulou a agricultura de novos produtos como frutas, algodão e óleos vegetais, e também na área de minérios, mas os rendimentos não conseguiram equilibrar o balanço de pagamentos do país. A Segunda Guerra Mundial interrompeu as vendas de algodão para o Japão e Alemanha, feitas em grandes volumes até 1939. A redução das receitas com as exportações afetou o balanço de pagamentos do país, entre 1931 e 1939, devido à crise econômica que precede a guerra. Para contornar o problema, ocorreram sucessivas desvalorizações da moeda e as medidas adotadas desagradaram aos investidores internacionais: redução da margem de remessa de lucros, suspensão dos pagamentos dos juros da dívida externa e recusa em pagar uma grande parte da dívida pública negociada com os bancos estrangeiros. Em agosto de 1931, durante o governo provisório, o governo Getulio Vargas suspendeu o pagamento da dívida externa e fez uma auditoria nas contas públicas. Comprovou que apenas 40% do total da dívida estavam baseados em contratos escritos. Do restante, não foram encontrados qualquer documento que comprovasse sua existência. Assim, negociou o cancelamento de grande parte da dívida externa brasileira, o que viabilizou a política de desenvolvimento industrial do Brasil. As medidas de governo, relativas às dificuldades externas, constituíram elemento essencial para a criação das condições necessárias ao desenvolvimento do chamado Processo de Substituição de Importações. As reduções das divisas e da capacidade de importar favoreceram o desenvolvimento da indústria. Entre 1930 e 1945, o país passou por um grande desenvolvimento industrial. O mandato de Getúlio deveria terminar no começo de 1938, quando haveria novas eleições presidenciais. Em setembro de 1937, os aliados de Getúlio anunciaram a descoberta de um plano 25 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO terrorista atribuído aos comunistas, conhecido como “Plano Cohen”. O plano era falso, mas era o que Getúlio precisava para dar o golpe de Estado que instituiu o Estado Novo, em 10 de novembro de 1937, e o país passava a ter outra Constituição, inspirada nas constituições fascistas da Itália e da Polônia. A Carta de 1937 suprimiu a autonomia dos estados e substituiu a democracia representativa por um sistema de governo autoritário e centralizado. Os partidos foram extintos e a imprensa passou a sofrer censura. Entretanto, a legislação trabalhista foi mantida. Em abril de 1938, Getúlio implantou o salário-mínimo. Criaram-se, então, a Companhia Siderúrgica Nacional – CSN (1940), a Companhia Vale do Rio Doce – CVRD (1942) e a Companhia Hidro Elétrica do São Francisco – CHESF (1945). Ao eclodir a Segunda Guerra Mundial, o Brasil procurou manter uma posição de neutralidade em relação aos dois lados envolvidos no conflito, mas a neutralidade brasileira começou a ser afetada em dezembro de 1941, quando os japoneses atacaram a base militar norte-americanade Pearl Harbor, no Havaí. Os EUA entraram na guerra contra o Eixo e exigiram que os países latino-americanos fizessem o mesmo. Durante a Segunda Guerra, o crescimento industrial caiu para 5,4% ao ano, e o Brasil chegou a exportar tecidos para a América Latina, África do Sul e Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a população começou a se mobilizar, pressionando o governo a declarar guerra contra a Alemanha, em manifestações de rua lideradas pela União Nacional dos Estudantes – UNE, criada em 1937. Nesse período, alguns navios brasileiros foram afundados por submarinos alemães, quando o governo de Vargas declarou guerra aos países do Eixo, em agosto de 1942. Vargas também assinou o Tratado de Washington com o presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt, garantindo a produção de 45 mil toneladas de látex para as forças aliadas, o que impulsionou o segundo ciclo da borracha. No dia 29 de outubro de 1945, Getúlio Vargas foi deposto por um golpe militar, sendo conduzido ao exílio na sua cidade natal, São Borja. No dia 2 de dezembro do mesmo ano, foram realizadas eleições livres para o parlamento e presidência, nas quais Getúlio seria eleito senador pela maior votação da época. Em 1951, Getúlio Vargas retornou a presidência da República, dessa vez por meio do voto popular, vencendo o pleito de 1950 com 48,7% dos votos. O segundo mandato presidencial de Getúlio Vargas foi marcado por importantes iniciativas nas áreas sociais e econômicas. Nesse período foram fundados a Petróleo Brasileiro S/A – Petrobras (1953), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, hoje com a denominação de Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES. Na fase final do seu governo, porém, as pressões de grupos oposicionistas civis e militares desencadearam uma aguda crise política que levou Vargas a interromper seu mandato com um ato que atentou contra sua própria vida. Após ser muito pressionado, Getúlio Vargas não suportou e, supostamente, suicidou-se com um tiro no peito, em 24 de agosto de 1954. 26 Unidade I Após a morte de Vargas, João Fernandes Campos Café Filho, Vice de Vargas, assumiu o poder. Nas eleições de 1956, o candidato Juscelino Kubitschek de Oliveira venceu, tendo João Belchior Marques Goulart (Jango) como vice-presidente. Assumiu o governo no dia 31 de janeiro de 1956, ficando no poder até 31 de janeiro de 1961, quando passou o cargo para Jânio da Silva Quadros. O governo de Juscelino foi marcado pelas políticas cambial e de comércio exterior, bem como pela política industrial, delineada pelo Plano de Metas e apoiada num complexo sistema cambial e numa nova tarifa alfandegária. Essas políticas provocaram grandes mudanças na sociedade e na economia brasileira. No começo de seu governo, Juscelino Kubitschek apresentou ao povo brasileiro o seu Plano de Metas, cujo lema era “50 anos em 5”, com a pretensão de desenvolver o país 50 anos em apenas cinco anos de governo. O plano previa investimentos em áreas necessárias para o desenvolvimento econômico, principalmente, infraestrutura (rodovias, hidrelétricas, aeroportos) e indústria, uma delas a Usiminas – Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais S/A. Foi na área do desenvolvimento industrial que teve maior êxito, com a abertura da economia para o capital internacional, atraindo o investimento de grandes empresas, como as montadoras de automóveis, por exemplo, Ford, Volkswagen, Willys-Overland e General Motors. Essas indústrias instalaram suas fábricas na região sudeste do Brasil, principalmente nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e região do ABC (Santo André, São Caetano e São Bernardo), nas proximidades da cidade de São Paulo. Esse fato fez aumentar o êxodo rural (saída do homem do campo para as cidades) e a migração de nordestinos e nortistas de suas regiões para as grandes cidades do sudeste. A região centro-oeste também cresceu com a construção de Brasília – a nova capital do Brasil – com capital originário de empréstimos internacionais. Juscelino Kubitschek conseguiu finalizar e inaugurar Brasília, em 21 de abril de 1960. Dois anos após assumir o governo, a inflação já havia crescido, surgindo as manifestações de greve por todo o país e as contas externas sofriam grande desequilíbrio, como aponta Leopoldi (1991, p. 115). Em 1959, criou-se a Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste – Sudene para integrar a região ao mercado nacional. A política econômica desenvolvimentista de Juscelino apresentou pontos positivos e negativos ao país. A entrada de multinacionais gerou empregos, porém, deixou nosso país mais dependente do capital externo. O investimento na industrialização prejudicou o trabalhador do campo e a produção agrícola, pois não estavam sendo considerados no Plano de Metas. O país ganhou uma nova capital, todavia a dívida externa, contraída para essa obra, aumentou significativamente. Com relação às importações e exportações, o governo deu continuidade à política cambial, estabelecida ainda no governo de Vargas, no qual os importadores pagavam ágio de acordo com a essencialidade do produto e os exportadores recebiam bônus. Foi mediante tal política que o Juscelino Kubitschek captou receitas para os gastos resultantes da construção de Brasília. 27 COMÉRCIO EXTERIOR - EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO O regime cambial cumpria, assim, a função fiscal, uma vez que tributava o importador, dele arrecadando a receita sobre as importações. Tributava também o exportador, que perdia para o governo a diferença entre o valor do dólar no mercado livre e o dólar exportação (LEOPOLDI, 1991, p. 115). “A partir de 1958, houve uma simplificação no sistema cambial, mediante tarifa organizada e produzida na Confederação Nacional da Indústria – CNI”, como afirma Leopoldi (1991, p. 122). A simplificação do sistema cambial, com a gradual redução dos controles (licenças prévias, câmbio múltiplo, quotas de importação), respondia em parte às recomendações do Fundo Monetário Internacional – FMI, em inglês International Monetary Fund – IMF. Por essa época, o Fundo Monetário Internacional – FMI estava começando a financiar programas de estabilização na América Latina e uma das exigências da instituição era a simplificação de câmbio. Em 1960, a balança comercial ficou deficitária, os fluxos de capital privado se reduziram e aumentou o pagamento de serviços no exterior, o que levou o governo a retomar relações com o FMI, rompidas quando o Fundo se negou a conceder um empréstimo de longo prazo caso não ocorresse uma reforma cambial, porque o país não teria condições de pagar futuras dívidas, o que resultaria na queda da inflação e no saque de empréstimos de curto prazo. Nos anos de governo juscelinista, o país cresceu 7,5% ao ano, modernizou-se, foram construídas grandes estradas como a Rodovia Belém-Brasília, a Rodovia Régis Bittencourt e a Rodovia Fernão Dias, e diversas obras de infraestrutura. No entanto, a dívida externa bruta aumentou, chegando a um total de US$ 3,291 bilhões e reservas de US$ 470 milhões, de acordo com Anderson Caputo Silva, Lena Oliveira de Carvalho, Otavio Ladeira de Medeiros, organizadores do livro Dívida pública: a experiência brasileira (CAPUTO, et al, 2009, p. 467). A queda das exportações de produtos agrícolas, o pagamento de elevados fretes e seguros para os produtos importados e as remessas de lucros das empresas internacionais foram os principais fatores de desequilíbrio do balanço de pagamentos. Em 1961, das 66 empresas com maior concentração de capital, 32 eram estrangeiras e apenas 19 pertenciam a grupos privados nacionais. O capital estrangeiro controlava mais de 90% das indústrias de tratores e das indústrias automobilísticas, mais de 80% do setor de cigarros, das indústrias farmacêuticas, e do setor de eletricidade, e mais de 70% das indústrias de máquinas e das indústrias químicas. Ao deixar o poder em 31 de janeiro de 1961, assumiu, por eleição direta, Jânio da Silva Quadros, primeiro chefe de Estado a tomar posse em Brasília, tendo