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Professor Esp. Alessandro Arraes Rodrigues GOVERNANÇA CORPORATIVA 2023 by Editora Edufatecie. Copyright do Texto C 2023. Os autores. Copyright C Edição 2023 Editora Edufatecie. O conteúdo dos artigos e seus dados em sua forma, correção e confiabilidade são de responsabilidade exclusiva dos autores e não representam necessariamente a posição oficial da Editora Edufatecie. Permitido o download da obra e o compartilhamento desde que sejam atribuídos créditos aos autores, mas sem a possibilidade de alterá-la de nenhuma forma ou utilizá-la para fins comerciais. FICHA CATALOGRÁFICA Dados Internacionais de Catalogação na Publicação - CIP R696g Rodrigues, Alessandro Arraes Governança corporativa / Alessandro Arraes Rodrigues. Paranavaí: EduFatecie, 2025. 112 p. : il. color. 1. Administração de empresas. 2. Governança corporativa. 3. Ética empresarial. I. Centro Universitário UniFatecie. II. Núcleo de Educação a Distância. III. Título. CDD: 23. ed. 658.4 Catalogação na publicação: Zineide Pereira dos Santos – CRB 9/1577 As imagens utilizadas neste material didático são oriundas do banco de imagens Shutterstock . REITORIA Prof. Me. Gilmar de Oliveira DIREÇÃO ADMINISTRATIVA Prof. Me. Renato Valença DIREÇÃO DE ENSINO PRESENCIAL Prof. Me. Daniel de Lima DIREÇÃO DE ENSINO EAD Profa. Dra. Giani Andrea Linde Colauto DIREÇÃO FINANCEIRA Eduardo Luiz Campano Santini DIREÇÃO FINANCEIRA EAD Guilherme Esquivel DIREÇÃO DE INOVAÇÃO Prof. Me. Jorge Luiz Garcia Van Dal DIREÇÃO DE PLANEJAMENTO E PROCESSOS Prof. Me. Arthur Rosisnski NÚCLEO DE APOIO PSICOLÓGICO E PSICOPEDAGÓGICO Bruna Tavares Fernandes BIBLIOTECÁRIA Tatiane Viturino Oliveira PESQUISADOR INSTITUCIONAL Tiago Pereira da Silva COORDENAÇÃO DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO (CONPEx) – MODALIDADE PRESENCIAL Profa. Ma. Luciana Moraes COORDENAÇÃO DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO (CONPEx) – MODALIDADE EaD Prof. Me. Bruno Eckert Bertuol COORDENAÇÃO DO DEPTO. DE PRODUÇÃO DE MATERIAIS DIDÁTICOS Luiz Fernando Freitas REVISÃO ORTOGRÁFICA E NORMATIVA Beatriz Longen Rohling Carolayne Beatriz da Silva Cavalcante Isabelly Oliveira Fernandes de Souza Jéssica Eugênio Azevedo Louise Ribeiro Marcelino Fernando Rodrigues Santos Maria Clara da Silva Costa Stephanie Rodrigues da Mota Vieira Vinicius Rovedo Bratfisch PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO Bruna de Lima Ramos Carlos Firmino de Oliveira Lucas Patrick Rodrigues Ferreira Estevão Vitor Amaral Poltronieri ESTÚDIO, PRODUÇÃO E EDIÇÃO André Oliveira Vaz DE VÍDEO Felipe Souza Oliveira Leandro Tenório Maria Beatriz Paula da Silva Thassiane da Silva Jacinto 3 AUTOR • Especialista em Docência no Ensino Superior (UniFatecie). • Especialista em Gestão de Produtos e Serviços Bancários (Faculdade Maringá). • Especialista em Auditoria e Controladoria (Unespar Paranavaí). • Bacharel em Ciências Contábeis (Unicentro - Guarapuava). • Professor do curso de Gestão Ambiental na UniFatecie. • Professor do curso de Marketing na UniFatecie. • Professor do curso de Processos Gerenciais na UniFatecie. • Professor do curso de Sistemas para Internet na UniFatecie. • Professor do curso de Ciências Contábeis na UniFatecie. • Controller do Grupo Educacional Fatecie. • Ex-Coordenador Geral dos Cursos de Tecnologia da UniFatecie. • Ex-Coordenador do Curso de Processos Gerenciais da UniFatecie. • Ex-Professor do curso de Ciências Contábeis da Unespar - Paranavaí. • Ex-Professor do curso de Ciências Contábeis da Unespar - Paranavaí. Detém mais de 19 anos de experiência na área Financeira (Cooperativas de Crédito), nos 2 maiores sistemas Cooperativos do Brasil: Sicredi e Sicoob, ocupando cargos importantes, como: Gerente de Planejamento e Desenvolvimento (Controladoria), Gerente Administrativo (agência), Gerente de Negócios (agência), Gestor de Crédito Comercial e Rural (Controladoria), Assessor de Produtos e Serviços (Controladoria). Palestrante de Professor Esp. Alessandro Arraes Rodrigues 4 Educação Financeira Familiar, com certificação pelo Banco Central do Brasil. Certificação CPA 10 AMBIMA. Já atuou como Orientador nos programas Aprender a Empreender, Boas Vendas do Sebrae/Paranavaí. Informações e contato: Currículo Plataforma Lattes: http://lattes.cnpq.br/1798263189868860 http://lattes.cnpq.br/1798263189868860 5 APRESENTAÇÃO Seja muito bem-vindo(a)! Prezado(a) aluno(a), se você se interessou pelo assunto desta disciplina, isso já é o início de uma grande jornada que vamos trilhar juntos a partir de agora. Proponho construirmos juntos nosso conhecimento sobre os conceitos do termo governança, em especial, governança corporativa, a partir de variadas perspectivas. Examinar sua relação com a estrutura, funcionamento e atuação das principais áreas da empresa e sua interação com seus vários cenários de atuação. Na Unidade I, começaremos a nossa jornada focando os fundamentos da governança corporativa, o histórico, as origens e definição de governança corporativa; o problema do conflito de agência ou conflito de agente principal; a origem da boa governança, além de buscarmos os princípios norteadores da governança corporativa, bem como os princípios norteadores da governança corporativa da OCDE; por fim, estudaremos a governança corporativa e a globalização. Essa noção geral é necessária para que possamos trabalhar a segunda unidade da apostila, que versará sobre a governança corporativa no mundo. Já na Unidade II, vamos ampliar nossos conhecimentos, entrando em contato com os principais modelos de governança corporativa no mundo e o panorama da governança corporativa no Brasil. Depois disso, avaliaremos, juntos, os modelos e práticas atuais de governança corporativa no Brasil. Em seguida, adentraremos o fantástico mundo da Bovespa, onde buscaremos verificar seus níveis de governança. Nossos estudos prosseguirão com a apresentação das entidades de promoção e regulação da governança no Brasil, e, após isso, aprenderemos acerca dos códigos de boas práticas de governança no mundo. Nesse prisma, viajaremos pelos EUA, Reino Unido, Alemanha e Japão, objetivando conhecer a governança corporativa desses gigantes da economia mundial. Em seguida, voltaremos a focar no Brasil, em busca dos principais códigos de governança corporativa de nosso país. Na sequência, os princípios de governança da OCDE e, por fim, vamos estudar o código de governança corporativa do renomado e respeitado IBGC. Depois, nas Unidades III e IV, vamos ampliar nossos conhecimentos sobre os órgãos da governança, focando a governança corporativa alicerçada na ética e na sustentabilidade. Para isso, na Unidade III vamos verificar a importância da assembleia-geral, dos conselhos de administração e fiscal, dos comitês, do conselho de administração, da 6 diretoria, do compliance, da auditoria externa. Teremos ainda a oportunidade de estudar o Office Ombusdsman. Já na Unidade IV trabalharemos com enfoque na governança corporativa sob o ponto de vista da ética e da sustentabilidade. Buscaremos sua origem histórica,negócios mais praticada, comparativamente à emissão de ações para subscrição pública. O modelo de governança é predominantemente bank oriented, não capital Market oriented. Ainda assim, de acordo com Leitão et al. (2017, p. 173), “a gestão neste modelo é compartilhada, a lei exige a presença de representantes dos empregados, sindicatos e bancos nos Conselhos das empresas alemãs”. Neste sentido, no modelo alemão, os bancos são portadores da maioria das ações da empresa. Os acionistas compram e as entregam às instituições financeiras, cujo direito é exercido de acordo com a sua participação acionária, constituindo-se em um agente fiduciário (Blok, 2017). Por outro lado, desde 1976 a lei alemã exige que um terço dos membros do conselho supervisor nas empresas pequenas seja eleito pelos seus empregados, enquanto nas empresas grandes (consideradas grandes as empresas com mais de dois mil funcionários) A GOVERNANÇA CORPORATIVA NA ALEMANHA6 TÓPICO GOVERNANÇA CORPORATIVA NO MUNDOUNIDADE 2 47GOVERNANÇA CORPORATIVA NO MUNDOUNIDADE 2 esses podem escolher até 50% do conselho. Já os demais componentes devem ser escolhidos pelos acionistas (Blok, 2017). Ainda assim, Andrade e Rosetti (2014, p. 358) também afirmam que “os conflitos de agência não são frequentes e, quando ocorrem, é porque há expropriação de interesses minoritários”. A Governança Corporativa alemã está estabelecida em bases culturais próprias. A cultura deste país interfere de modo positivo na Governança Corporativa, ou seja, a necessidade de práticas que resguardam os interesses das partes interessadas, vai além das estabelecidas pelos órgãos competentes. 48 O modelo de Governança Corporativa na Rússia predomina com intensidade devido a acontecimentos históricos do país que, de certa forma, interferiram no mercado financeiro. Em 2015, durante visita à República Checa, o professor Antônio Dirceu Marques observou que a Alemanha passou a exercer influências nas práticas de Governança Corporativa daquele país, por força do controle que o capital alemão passou a ter sobre diversas indústrias Checas e principalmente, na automobilística Skoda (controle atual da Volkswagen) (Marques, 2016 apud Leitão et al., 2017, p. 189). A GOVERNANÇA CORPORATIVA NA RÚSSIA7 TÓPICO GOVERNANÇA CORPORATIVA NO MUNDOUNIDADE 2 49 Os segmentos especiais de listagem da B3 – Bovespa Mais, Bovespa Mais Nível 2, Novo Mercado, Nível 2 e Nível 1 – foram criados quando houve a percepção de que para desenvolver o mercado de capitais brasileiro, era preciso ter segmentos adequados aos diferentes perfis de empresas. Assim, todos esses segmentos prezam por regras de Governança Corporativa diferenciadas. Essas regras vão além das obrigações que as companhias têm perante a Lei das Sociedades por Ações (Lei n. 6.404 de 15 de dezembro de 1976, também conhecida como Lei das S.As.) e têm como objetivo melhorar a avaliação daquelas que decidem aderir, voluntariamente, a um desses segmentos de listagem (B3, 2018). Além disso, tais regras atraem os investidores. Ao assegurar direitos aos acionistas, bem como dispor sobre a divulgação de informações aos participantes do mercado, os regulamentos visam à mitigação do risco de assimetria informacional e promovem a transparência entre as partes envolvidas. Ainda segundo o Portal B3 (2018), lançado no ano 2000, o Novo Mercado estabeleceu desde sua criação um padrão de governança corporativa altamente diferenciado. A partir da primeira listagem, em 2002, ele se tornou o padrão de transparência e governança exigido pelos investidores para as novas aberturas de capital, sendo recomendado para empresas que pretendam realizar ofertas grandes e direcionadas a qualquer tipo de investidor (investidores institucionais, pessoas físicas, estrangeiros e etc). Por outro lado, as empresas listadas no Nível 1 de segmento devem aderir a práticas que favoreçam a transparência e o acesso às informações pelos investidores. Sendo assim, os pertencentes deste segmento devem divulgar informações adicionais às exigidas em lei, como, por exemplo, um calendário anual de eventos corporativos. NÍVEIS DE GOVERNANÇA DA BOVESPA8 TÓPICO GOVERNANÇA CORPORATIVA NO MUNDOUNIDADE 2 50GOVERNANÇA CORPORATIVA NO MUNDOUNIDADE 2 Já no Nível 2, as empresas listadas têm o direito de manter ações preferenciais – PN (que são aquelas que dão ao seu detentor a preferência no recebimento de dividendos e outros benefícios, porém não possuem direito a voto na assembleia da organização). O nível Bovespa Mais surgiu com o propósito de contribuir para o desenvolvimento do mercado de ações brasileiro. Assim, idealizado para empresas que desejam acessar o mercado de forma gradual, esse segmento tem como objetivo fomentar o crescimento de pequenas e médias empresas via mercado de capitais. E, por fim, no nível de segmento Bovespa Mais Nível 2, muito similar ao nível Bovespa Mais, porém com algumas exceções. As organizações listadas têm o direito de manter ações preferenciais (PN). No caso de venda de controle da empresa, é assegurado aos detentores de ações ordinárias e preferenciais o mesmo tratamento concedido ao acionista controlador, prevendo, portanto, o direito de tag along de 100% do preço pago pelas ações ordinárias do acionista controlador. Neste sentido, o quadro a seguir apresenta as principais características de cada tipo de segmento de listagem na B3. QUADRO 2 - SEGMENTOS DE LISTAGEM NA B3 SEGMENTOS DE LISTAGEM Segmento Regras que devem ser seguidas Novo Mercado – Emissão de ações unicamente ordinárias; – Composição do conselho de administração deve respeitar a quantidade mínima de 5 membros, além da porcentagem mínima de 20% de conselheiros independentes à empresa, com mandato máximo de 2 anos; – Em caso de venda do controle da empresa, o tag along – que obriga o comprador a fazer aos acionistas minoritários a mesma oferta que propôs aos acionistas majoritários ou controladores em caso de negociações que envolvam a venda do controle da empresa – será de 100%, ou seja, todos os acionistas da companhia terão direito a vender suas ações pelo mesmo preço; – Obrigação de divulgação de relatórios financeiros completos, que incluem negociações de valores mobiliários da empresa que foram realizadas por acionistas, controladores, executivos e diretores; – Manutenção de, no mínimo, 25% das ações em negociação no mercado (chamadas free floats). 51GOVERNANÇA CORPORATIVA NO MUNDOUNIDADE 2 Nível 1 - Menos exigente com as companhias; - Os principais requisitos para se adequar a este nível é garantir um mínimo de 25% das ações em circulação no mercado e apresentar informações adicionais no que se refere à governança corporativa, além daquelas que já são exigidas por lei. Nível 2 - Semelhante ao segmento do Novo Mercado, porém permite que as companhias disponibilizam para negociação ações preferenciais (PN) que tenham poder de voto em situações decisivas ou críticas, como no caso de fusões entre companhias ou aquisições; - Tag Along neste nível cai para a obrigatoriedade de oferta de 80% do preço pago pelas ações ordinárias dos acionistas majoritários. Bovespa Mais - Criado com o objetivo de incorporar as pequenas e médias empresas que têm interesse em entrar no mercado de capitais gradativamente; - As empresas neste nível de segmento não precisam realizar uma oferta pública inicial (IPO) de suas ações imediatamente. Elas possuem um prazo máximo de 7 anos para realizar seu IPO, permitindo assim que a empresa possa realizar, de maneira gradativa, todas as mudanças necessárias – inclusive no que se refere à governança corporativa – para entrar no mercado de ações. Bovespa Mais Nível 2 - Segue os mesmos princípios do Bovespa Mais; - Possibilidade de exposição da empresa antes do IPO; - O diferencial do Bovespa Mais Nível 2 é permitir a negociação de ações preferenciais (PN), além de ações ordinárias (ON); - As empresaslistadas no Bovespa Mais Nível 2 tendem a atrair investidores que percebam nelas um potencial de crescimento diferenciado. Fonte: adaptado de B3 (2018) e Bona (2017). Ainda assim, há na Bolsa de Valores do Brasil, a B3, os índices de Governança Corporativa, sendo composta por quatro índices específicos, sendo eles: Índice de Ações com Governança Corporativa Diferenciada (IGC); Índice de Ações com Tag Along Diferenciado 52 Há casos de escândalos corporativos famosos, como o caso da empresa Enron nos Estados Unidos, que arruinou a empresa de auditoria (Arthur Andersen). Diversos escândalos corporativos relacionados à credibilidade das demonstrações financeiras também vieram à tona, como das empresas Xerox, WorldCom, Parmalat e Banco Pan-Americano. Com a globalização, fica mais evidente que os investidores buscam empresas com credibilidade e transparência para aplicar seu dinheiro e, num país como o Brasil, são recorrentes fatos sobre corrupção e fraude. Assim, a Governança Corporativa tornou-se ferramenta extremamente necessária para reparar o grau de confiança no mercado e impactar positivamente os investimentos. Fonte: Godoi (2020, p. 75). SAIBA MAIS GOVERNANÇA CORPORATIVA NO MUNDOUNIDADE 2 (ITAG); Índice de Governança Corporativa Trade (IGCT); Índice de Governança Corporativa – Novo Mercado (IGC-NM). Neste sentido, o objetivo do Índice de Governança Corporativa – Novo Mercado (IGC-NM) é ser o indicador do desempenho médio das cotações dos ativos de emissão de empresas que apresentem bons níveis de governança corporativa, listadas no Novo Mercado da B3 (B3, 2017). O ITAG - Tag Along Diferenciado possui como objetivo ser o indicador do desempenho médio das cotações dos ativos de emissão de empresas que ofereçam melhores condições aos acionistas minoritários, no caso de alienação do controle (B3, 2018). Já o Índice de Governança Corporativa Trade (IGCT), é o indicador do desempenho médio das cotações dos ativos de emissão de empresas integrantes do IGC que atendam aos critérios adicionais descritos na metodologia trade (operação de compra e venda em um período menor há 24 horas) (B3, 2018). E, por fim, o indicador Índice de Governança Corporativa – Novo Mercado (IGC- NM) é o indicador do desempenho médio das cotações dos ativos de emissão de empresas que apresentem bons níveis de governança corporativa, listadas no Novo Mercado da B3 (B3, 2017). 53 Prezado(a) aluno(a), apresentamos, nesta unidade, a evolução da Governança Corporativa em diversos lugares do mundo e, como vimos, o termo compreende ao conjunto de práticas que buscam alinhar os interesses das diferentes partes que compõem uma organização, e tem recebido especial atenção em todo mundo devido ao crescimento do comércio internacional e do custo crescente do capital (Block, 2017). Estudamos sobre o papel da Governança Corporativa no que tange à transparência e ao respeito para com as partes interessadas. Neste sentido, a Governança Corporativa ganha cada vez mais importância, já que ela é relativa ao modo como as empresas são dirigidas e controladas, de modo a promover transparência da gestão empresarial e a redução de riscos para os stakeholders (em português, parte interessada, interveniente). Vimos também como é vista no mundo, com suas características de acordo com as necessidades de cada país. Ainda assim, em seguida, desvendamos sobre os Níveis de Governança Corporativa da Bovespa. Portanto, esta unidade seguiu uma linha de raciocínio importante no aprendizado sobre a Governança Corporativa, pois compreendeu a definição do conceito do tema, seus princípios, a Governança Corporativa no Brasil e seus níveis na Bovespa. CONSIDERAÇÕES FINAIS GOVERNANÇA CORPORATIVA NO MUNDOUNIDADE 2 54 MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO • Título: Governança Corporativa na Prática. • Autor: Djalma de Pinho Rebouças de Oliveira. • Editora: Atlas. • Sinopse: Este livro apresenta, de forma estruturada, a explicação detalhada de “como” as empresas podem desenvolver e consolidar otimizadas governanças corporativas sustentadas por adequados conselhos de administração, os quais representam o foco central das decisões das empresas que têm esses modernos modelos de gestão. Os Conselhos de Administração das empresas e, consequentemente, os conselheiros têm um novo contexto de responsabilidades nas empresas e na economia brasileira. Esses conselhos também estão com maior amplitude de atuação e com forte interação com os acionistas das empresas, o que consolida a base de sustentação da atuação da Governança Corporativa. A maior interação com os acionistas ou quotistas das empresas também é de elevada importância para os resultados das empresas, pois esta situação proporciona, de forma natural, maior atratividade das empresas no mercado. Com referência à Diretoria Executiva, o livro apresenta o procedimento estruturado para que as informações e as decisões da Governança Corporativa sejam mais bem aplicadas pelas empresas. Esta nova abordagem de atuação está ocorrendo, inclusive, em empresas que não precisam, do ponto de vista legal, consolidar estas novas formas organizacionais baseadas na Governança Corporativa. Isto porque a prática tem demonstrado que esta nova estruturação pode ser fundamental para seus planos estratégicos e de desenvolvimento de novos negócios, bem como para a consolidação de fortes vantagens competitivas no mercado. Portanto, este livro proporciona uma contribuição efetiva para que as empresas possam desenvolver e operacionalizar este novo modelo de gestão e usufruir de todas as suas vantagens administrativas. Livro-texto para as disciplinas GOVERNANÇA CORPORATIVA, CONSELHO GOVERNANÇA CORPORATIVA NO MUNDOUNIDADE 2 55 DE ADMINISTRAÇÃO, ESTRUTURA ORGANIZACIONAL, PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO, PROCESSO DIRETIVO e TEORIA GERAL DA ADMINISTRAÇÃO dos cursos de graduação e pós-graduação em Administração, Economia, Contabilidade e Direito. Leitura de atualização e reciclagem profissional para os acionistas, conselheiros e executivos das empresas. FILME/VÍDEO • Título: Mercado de Capitais. • Ano: 2016. • Sinopse: Uma investidora está lutando para conseguir uma promoção na empresa onde trabalha em Wall Street. Ela lidera uma controversa ação no meio de uma crise financeira mundial, em que as regulações são apertadas e a pressão para que o investimento renda é ainda maior. GOVERNANÇA CORPORATIVA NO MUNDOUNIDADE 2 Professor Esp. Alessandro Arraes Rodrigues ÓRGÃOS DA GOVERNANÇA3UNIDADEUNIDADE PLANO DE ESTUDO 57 • Órgão da Governança Corporativa. • Assembleia Geral; • Conselho de Administração; • Comitês do Conselho de Administração; • Diretoria; • Conselho Fiscal; • Compliance; • Office Ombudsman; • Auditoria: Interna e Externa. Objetivos da Aprendizagem • Apresentar os órgãos da Governança Corporativa. • Apresentar e descrever a função e o objetivo dos órgãos da Governança Corporativa. • Estabelecer a importância dos órgãos da governança corporativa para as organizações e seus acionistas. ÓRGÃOS DA GOVERNANÇAUNIDADE 3 58 Caro(a) aluno(a), na unidade anterior vimos sobre o que é uma Governança Corporativa e como ela está presente nas organizações listadas na Bolsa de Valores do Brasil. Já nesta unidade da apostila da disciplina de Governança Corporativa, discorreremos sobre os órgãos da Governança Corporativa, suas características, composição, funções e objetivos. Esta unidade foi elaborada com o objetivo de demonstrar a você como a Governança Corporativa é composta e estruturada em uma organização. Veremos que cada mecanismo busca enfatizar a transparência, controle, responsabilidade e confiabilidade da organização perante o mercado, o que faz com que investidores confiem mais no valor da organização. Portanto, mesmo que nenhuma lei ou regulamento seja descumprido, ações que tragam impactos negativos para os stakeholders (acionistas, clientes, empregados,etc.) podem gerar risco reputacional e publicidade adversa à organização, comprometendo a continuidade de qualquer entidade, e devem ser evitadas. Para Blok (2017, p. 15), “para qualquer instituição, confiança é um diferencial de mercado”. De modo geral, as frentes de compliance e, de modo geral a Governança Corporativa em uma organização devem estar empenhadas na prevenção à lavagem de dinheiro, financiamento ao terrorismo (PLD-FT), anticorrupção e fraudes; devem reportar os erros quando ocorrerem; promover a integridade, seja por meio de códigos de condutas éticas, treinamentos e monitoramentos, dentre outras práticas. E, assim, cada órgão deve executar com maestria seus objetivos, de modo a facilitar o alcance destes objetivos. Desejo-te um excelente estudo! INTRODUÇÃO ÓRGÃOS DA GOVERNANÇAUNIDADE 3 59 Como vimos na unidade anterior, a Governança Corporativa pode ser entendida como um sistema composto por normas legais e regulamentares, de organização e de mecanismos contratuais necessários para proteger os interesses dos acionistas, limitando o comportamento oportunista dos seus administradores (Blok, 2017). Neste sentido, como se trata de um sistema, ele é composto por organismos, ou seja, órgãos participantes que desempenharam funções para que o sistema funcione em sua totalidade. FIGURA 1 – MODELO GENÉRICO DE GOVERNANÇA CORPORATIVA Fonte: Silveira (2015). Assim, a seguir, veremos sobre os principais órgãos que geralmente compõem a Governança Corporativa nas organizações. ÓRGÃOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVA1 TÓPICO ÓRGÃOS DA GOVERNANÇAUNIDADE 3 60 A assembleia-geral é o órgão máximo da sociedade e está no topo da hierarquia da organização. Assim, cabe a este órgão deliberações de alto impacto no destino da companhia e o poder exercido na companhia emana desse órgão superior. De acordo com o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (2015, p. 28), a assembleia-geral “é um momento relevante de prestação de contas e exercício de transparência pela administração, e oportunidade valiosa para que os sócios possam contribuir com a organização, apresentando ideias e opiniões”. Neste sentido, este órgão é composto pelos acionistas da organização e seu poder deve ser focado na defesa do negócio, a fim de promover a continuidade e desenvolvimento do negócio, partindo da ideia de que uma organização nasce pensando na perpetuidade no mercado. Contudo, ainda assim, a assembleia geral possui poder para autorizar pedido de recuperação judicial, concordata e decretação de falência, bem como o encerramento das atividades da empresa mesmo em situações em que há liquidez. No caso das companhias organizadas como sociedades anônimas, regidas pela Lei 6.404/76 — Lei das S.As.—, define as regras de convocação e funcionamento das assembleias, bem como os temas a serem deliberados pelos acionistas e a dinâmica de relacionamento entre assembleia, conselho e diretoria. Além disso, a Lei das S.As atribui à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) a competência para regulamentar diversos aspectos da lei, inclusive os relativos ao funcionamento das assembleias e, em especial, ASSEMBLEIA GERAL2 TÓPICO ÓRGÃOS DA GOVERNANÇAUNIDADE 3 61 os procedimentos de convocação e regras de votação a distância, definidos pela Instrução 481/2009 (Pereira, 2019). Segundo a Lei n.º 6.404/76, em seu artigo 109, explana que: Art. 109. Nem o estatuto social, nem a assembleia geral poderão privar o acionista dos direitos de: I - Participar dos lucros sociais; II - Participar do acervo da companhia, em caso de liquidação; III - Fiscalizar, na forma prevista nesta Lei, a gestão dos negócios sociais; IV - Preferência para a subscrição de ações, partes beneficiárias conversíveis em ações, debêntures conversíveis em ações e bônus de subscrição, observado o disposto nos artigos 171 e 172; (Vide Lei n.º 12.838, de 2013). V - Retirar-se da sociedade nos casos previstos nesta Lei. Ainda neste sentido, as assembleias podem ser divididas em dois tipos, sendo a Assembleia Geral Ordinária e a Assembleia Geral Extraordinária. A primeira refere-se àquela que é convocada após os quatro primeiros meses do encerramento do exercício social (por exercício social entende-se o período em que as empresas devem elaborar as suas demonstrações financeiras, também conhecidas como demonstrações contábeis. Esse termo encontra respaldo na Lei 6.404/1976, mais especificamente no artigo 175). Quanto a Assembleia Geral Ordinária, sua finalidade é a de tomar as contas dos administradores, examinar, discutir e votar as demonstrações financeiras, deliberar sobre a destinação do lucro líquido do exercício e a distribuição de dividendos, e eleger os administradores e, se for o caso, os membros do conselho fiscal. Por outro lado, a Assembleia Geral Extraordinária é aquela que é convocada para deliberações sobre assuntos graves e urgentes, ou ainda quando a convocação da Assembleia Ordinária não está seguindo os prazos legalmente estabelecidos (Silveira, 2015). Deste modo, para a convocação de uma Assembleia Geral Extraordinária, o motivo ou força motriz, convencionalmente, pode ser a reforma do estatuto da organização, demissão de executivos, transferências de controle, entre outros. Existem ainda algumas assembleias especiais. E neste sentido, a Lei das S.As prevê que determinadas decisões ficam condicionadas à deliberação separada de acionistas preferencialistas, debenturistas ou titulares de ações em circulação (Pereira, 2019). ÓRGÃOS DA GOVERNANÇAUNIDADE 3 62 Formado por representantes dos proprietários, controladores e minoritários, conselheiros externos independentes (outsiders) e até representantes de outros stakeholders (em concepções mais abertas), o conselho de administração é um órgão que compõe a Governança Corporativa em uma organização. Seu principal papel é monitorar o dia a dia da empresa, inclusive no que diz respeito à possibilidade de envolvimento da companhia em futuras operações de fusões e aquisições de modo a estar preparando a uma oferta que venha a receber ou mesmo de outras companhias que poderão ser adquiridas, evitando, assim, propostas surpresas ou a necessidade de tomada de decisão com tanta urgência (Blok, 2017). Deste modo, este tipo de conselho, de acordo com Silveira (2015, p. 191), “tem como grande missão atuar como um guardião dos valores da organização, promovendo a criação sustentável de valor de maneira a assegurar sua perenidade e sucesso no longo prazo”. Não obstante, destacam-se como principais tarefas de um conselho de administração: fixar as diretrizes estratégicas do negócio; decidir sobre investimento, financiamento e destinação de resultados; decidir sobre questões de fusões e aquisições; definir o pacote de remuneração dos altos executivos; eleger, monitorar e substituir o diretor- presidente e demais diretores; planejar a sucessão do presidente e dos outros executivos- chave; promover um processo estruturado para nomeação de novos conselheiros; definir a tolerância ao risco da organização, incluindo sua política de gerenciamento de riscos e sistema de controles internos; escolher a auditoria independente, aprovar seu plano de trabalho, negociar seus honorários e avaliar seu desempenho; investigar possíveis fraudes financeiras e de informação para o público; definir a política de dividendos da empresa; CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO3 TÓPICO ÓRGÃOS DA GOVERNANÇAUNIDADE 3 63 revisitar periodicamente as práticas de governança adotadas pela companhia; e assegurar a presença e disseminação de um código de conduta pela organização (Silveira, 2015). A Lei n.º 6.404/76 destaca ainda que “na companhia aberta, o conselho de administração pode deliberar sobre a emissão de debêntures não conversíveis em ações, salvo disposição estatutária em contrário”. Art. 140. O conselho de administração será composto por, no mínimo, 3 (três) membros, eleitos pela assembleia-gerale por ela destituíveis a qualquer tempo, devendo o estatuto estabelecer: I - O número de conselheiros, ou o máximo e mínimo permitidos, e o processo de escolha e substituição do presidente do conselho pela assembleia ou pelo próprio conselho; (Redação dada pela Lei n.º 10.303, de 2001). II - O modo de substituição dos conselheiros; III - o prazo de gestão, que não poderá ser superior a 3 (três) anos, permitida a reeleição; IV - As normas sobre convocação, instalação e funcionamento do conselho, que deliberará por maioria de votos, podendo o estatuto estabelecer quórum qualificado para certas deliberações, desde que especifique as matérias. (Redação dada pela Lei n.º 10.303, de 2001) (Brasil, 1976). Ainda assim, vale lembrar que neste nível hierárquico da Governança se encontram os chamados guardiães dos interesses dos proprietários. É o elo entre os acionistas e os administradores da companhia, assim, o conselho de administração monitora os executivos a favor dos acionistas. Não obstante, destaca-se que o conselho de administração se faz obrigatório para as companhias de capital aberto e sociedades de economia mista, e é recomendado para a maioria das organizações, já que é uma força interna de controle da empresa. De acordo com a Fundação Instituto de Administração (2020, on-line), além das sociedades anônimas, outro formato de empresa que precisa criar e manter um conselho de administração são as cooperativas, e essa “regra visa garantir os interesses dos acionistas, fiscalizando a ação dos gestores e os resultados alcançados pela empresa”. Ainda assim, quanto à obrigatoriedade de um conselho de administração nas cooperativas, de acordo com a Lei n.º 5.764, de 16 de dezembro de 1971, em seu artigo 47, evidencia-se que: Art. 47. A sociedade será administrada por uma Diretoria ou Conselho de Administração, composto exclusivamente de associados eleitos pela Assembleia Geral, com mandato nunca superior a 4 (quatro) anos, sendo obrigatória a renovação de, no mínimo, 1/3 (um terço) do Conselho de Administração. § 1º O estatuto poderá criar outros órgãos necessários à administração. § 2° A posse dos administradores e conselheiros fiscais das cooperativas de crédito e das agrícolas mistas com seção de crédito e habitacionais fica sujeita à prévia homologação dos respectivos órgãos normativos (Brasil, 1971). ÓRGÃOS DA GOVERNANÇAUNIDADE 3 64 Neste sentido, o conselho de administração deve ser formado por membros independentes, ou seja, sem qualquer vínculo com a empresa tanto internos (diretores ou funcionários da companhia), como externos (que em algum momento possuíram ou vínculo com a empresa), que conheçam o negócio da sociedade e que não participem de muitos outros conselhos ao mesmo tempo, de modo que tenham tempo de qualidade para exercer sua função de proteger os interesses dos acionistas e da própria empresa (Blok, 2017). No que tange aos tipos de conselheiros, de acordo com o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (2015, p. 45), os conselheiros podem ser classificados em internos, externos ou independentes, sendo atribuições suas: • Internos: conselheiros que ocupam posição de diretores ou que são empregados da organização; • Externos: conselheiros sem vínculo atual comercial, empregatício ou de direção com a organização, mas que não são independentes, tais como ex-diretores e ex-empregados, advogados e consultores que prestam serviços à empresa, sócios ou empregados do grupo controlador, de controladas ou de companhias do mesmo grupo econômico e seus parentes próximos e gestores de fundos com participação relevante; • Independentes: conselheiros externos que não possuem relações familiares, de negócio, ou de qualquer outro tipo com sócios com participação relevante, grupos controladores, executivos, prestadores de serviços ou entidades sem fins lucrativos que influenciem ou possam influenciar, de forma significativa, seus julgamentos, opiniões, decisões ou comprometer suas ações no melhor interesse da organização. Entretanto, os códigos e práticas de Governança Corporativa recomendam que os conselhos de administração tenham sempre a presença de conselheiros independentes. Tais profissionais possuem como primordiais características a independência, qualificação e a dedicação e interesse nos resultados da companhia. ÓRGÃOS DA GOVERNANÇAUNIDADE 3 65 A criação de comitês especializados visa promover confiança, transparência e responsabilidade. Sua função é enriquecer a pauta das discussões no Conselho, trazendo uma análise mais aprofundada da questão a ser deliberada, e, assim, contribuir para o processo de tomada de decisão. Os comitês são órgãos, estatutários ou não, de assessoramento ao conselho de administração. Sua existência não implica a delegação das responsabilidades que competem ao conselho de administração como um todo. Os comitês não têm poder de deliberação, e suas recomendações não vinculam as deliberações do conselho de administração (IBGC, 2015). Ainda neste sentido, de acordo com vários relevantes autores do tema Governança Corporativa, as recomendações são que Comitês específicos possam exercer diversas atividades de competência do conselho que demandam um tempo nem sempre disponível nas reuniões deste órgão social. Assim, recomenda-se a existência de diferentes comitês, como, por exemplo, o comitê de auditoria; de finanças, de pessoas; riscos; sustentabilidade, entre outros. Em especial, destaca-se que a existência de um comitê de auditoria é uma boa prática para todo e qualquer tipo de organização, independente de ciclo de vida ou tempo de existência. No entanto, não exime o conselho de administração da responsabilidade plena sobre os assuntos tratados pelo comitê, uma vez que este é órgão de apoio do conselho. O comitê de auditoria é um órgão de assessoramento do conselho de administração. O conselho fiscal tem como objetivo fiscalizar os atos da administração. Assim, a existência COMITÊS DO CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO4 TÓPICO ÓRGÃOS DA GOVERNANÇAUNIDADE 3 66 do comitê de auditoria não exclui a possibilidade de instalação do conselho fiscal (IBGC, 2015). Para o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa – IBGC (2015, p. 58), as práticas deste órgão dizem respeito a: a) O número e a natureza dos comitês devem observar o porte da organização. Uma quantidade excessiva de comitês pode gerar interferências inadequadas na diretoria. O regimento interno do conselho deve orientar a formação e a coordenação dos comitês e prever que a composição deles inclua conselheiros com competências e habilidades adequadas ao objeto do comitê. b) O escopo e a necessidade da existência de cada comitê devem ser reavaliados periodicamente, de forma a assegurar que todos tenham um papel efetivo. c) O material preparado pelos comitês para exame do conselho deve ser fornecido com antecedência adequada para análise, juntamente com a recomendação de voto. Esse material deve incluir a ata de reunião dos comitês, bem como todos os materiais relevantes (ex.: parecer emitido por consultores, advogados e outros especialistas) para a formulação da recomendação para o conselho. Todos os membros dos comitês devem ter acesso às mesmas informações. d) Em linha com o processo de avaliação do conselho, os comitês devem ser avaliados anualmente. Deste modo, percebemos que tal órgão aparece como alternativa para melhorar a atuação dos Conselhos de forma eficiente, visto que normalmente surgem inúmeras barreiras internas nas organizações para implementação de avaliações. Ainda nesta linha de pensamento, baseado na consultoria de gestão norte- americana Bain & Company (2017, p. 3), as principais funções dos comitês referem-se em: “apoiar tomada de decisão do conselho, emitindo recomendações; acompanhar temas de responsabilidade do Conselho com maior profundidade; e auxiliar o Conselho no monitoramento das operações”. Contudo, aaplicação de boas práticas na configuração, composição e funcionamento devem garantir a atuação efetiva dos Comitês. Assim, a vantagem de uma organização ter um bom comitê de conselho administrativo está em garantir que os conselheiros conheçam os principais desafios da companhia, fazendo-os sentir parte do processo, assim, tornando- os mais engajados nos assuntos da companhia; promove a participação de tomadores de decisões, o que, por sua vez, resulta em uma análise mais detalhada analisando os micros e macros cenários da corporação; e garante a comunicação fluída e frequente entre o Comitê e o Conselho (Bain & Company, 2017). Para o IBGC (2015, p. 58-59), na escolha da composição dos comitês, as entidades devem se atentar: ÓRGÃOS DA GOVERNANÇAUNIDADE 3 67 I. Os membros dos comitês devem ter conhecimento, experiência e independência de atuação sobre o tema. II. Cada comitê deve ter um coordenador que, preferencialmente, não exerça essa função em outros comitês. III. Os comitês do conselho devem, de preferência, ser formados apenas por conselheiros. Caso não seja possível, devem ser compostos de forma que um conselheiro seja o coordenador, e a maioria de seus membros também seja formada por conselheiros. Caso não haja, entre os membros do comitê, um especialista no tema a ser analisado, o comitê deve poder convidar especialistas externos, a fim de melhor desempenhar suas funções. IV. Cada comitê deve ser composto de, no mínimo, três membros, todos com conhecimentos sobre o tópico em questão, e deve contar com, ao menos, um especialista em seus respectivos temas. V. Os comitês não devem ter, na sua composição, executivos da organização. A participação deles nas reuniões deve ocorrer a convite dos membros do comitê, para prestar esclarecimentos sobre determinado tema. No entanto, vale destacar que a forma de composição depende de aspectos específicos de cada organização, mas é indicado manter no mínimo 5 e no máximo 11 conselheiros, com participação de até 2 anos cada um. É sempre recomendado ter a participação de profissionais com experiências e qualificações diversificadas para que as discussões possam contar com um maior número de pontos de vista, tais como aspectos financeiros, jurídicos e de controle de risco, por exemplo (Endeavor, 2020). Deste modo, o papel do conselho de administração merece destaque na adoção de mecanismos e ferramentas da Governança Corporativa, já que cabe a ele orientar e fiscalizar as atividades da Diretoria (Blok, 2017). ÓRGÃOS DA GOVERNANÇAUNIDADE 3 https://endeavor.org.br/3-etapas-para-uma-gestao-de-riscos-efetiva/ 68 Na hierarquia da Governança Corporativa, as diretorias possuem papel como órgão executor das estratégias corporativas. Esse nível é responsável por realizar, ou seja, executar, as decisões de gestão (Silveira, 2015). Esse órgão é responsável pela elaboração e implementação dos processos operacionais e financeiros, inclusive os relacionados à gestão de riscos e de comunicação com o mercado e demais partes interessadas. Em outras palavras, a diretoria é o órgão responsável pela gestão da organização, cujo principal objetivo é fazer com que a organização cumpra seu objeto e sua função social. Cabe à diretoria executar a estratégia e as diretrizes gerais aprovadas pelo conselho de administração, administrar os ativos da organização e conduzir seus negócios. Por meio de processos e políticas formalizados, a diretoria viabiliza e dissemina os propósitos, princípios e valores da organização (IBGC, 2015). Neste sentido, é defendido na Lei nº6.404/76, em seu artigo 143, sobre a composição da Diretoria nas companhias denominadas de sociedades anônimas, que: Art. 143. A Diretoria será composta por 2 (dois) ou mais diretores, eleitos e destituíveis a qualquer tempo pelo conselho de administração, ou, se inexistente, pela assembléia-geral, devendo o estatuto estabelecer: I - O número de diretores, ou o máximo e o mínimo permitidos; II - O modo de sua substituição; III - O prazo de gestão, que não será superior a 3 (três) anos, permitida a reeleição; IV - As atribuições e poderes de cada diretor. DIRETORIA5 TÓPICO ÓRGÃOS DA GOVERNANÇAUNIDADE 3 69 Neste cenário, ressalta-se, portanto, que cabe à diretoria assegurar que a organização esteja em total conformidade com os dispositivos legais e demais políticas internas a que está submetida. Além do monitoramento, o repórter e a correção de eventuais desvios, sejam eles decorrentes de descumprimento da legislação e/ou regulamentação interna e externa, gerenciamento de riscos, auditorias e controles internos. Para Silveira (2015, p. 205), este órgão “deve administrar as relações entre os públicos de interesse da companhia, bem como criar ambiente ético e meritocrático na organização”. A importância da Governança Corporativa nas operações na Bolsa de Valores Um sistema eficiente de Governança Corporativa possui dois objetivos essenciais: promover uma estrutura eficiente de incentivos para a administração da empresa visando a maximização do valor e estabelecer responsabilidades e outros tipos de expropriação de valor em detrimento das partes interessadas. O grau de proteção aos acionistas é fator determinante no desenvolvimento do mercado de capitais. Quando a lei oferece proteção, os investidores estão cada vez mais dispostos a financiar as companhias e o mercado de capitais é maior e mais valorizado porque há mais credibilidade e transparência. Quanto maior a proteção aos investidores maior será o preço que eles estarão dispostos a pagar pelas ações, porque, com maior proteção estes reconhecem que o retorno das companhias também será usufruído por eles, tanto quanto pelos controladores, e isso permite aos empresários financiar seus empréstimos fazendo do mercado de capital uma real alternativa de capitalização das empresas. Assim, os investidores agregam valores às empresas que possuem um bom sistema de Governança Corporativa. Considerando a Companhia Petrobras - Petróleo Brasileiro S.A., terceira maior empresa em valor de mercado da América Latina, com 55,53 bilhões de dólares; estando à sua frente a companhia Vale (57,19 bilhões de dólares) e Mercado Livre (ARG) (59,35 bilhões de dólares). Será que parte deste valor de mercado se reflete nos altos níveis de Governança Corporativa que essas empresas possuem? Fonte: Blok (2017) e G1 (2020). REFLITA ÓRGÃOS DA GOVERNANÇAUNIDADE 3 70 É parte integrante do sistema de governança das organizações brasileiras. Pode ser permanente ou não, conforme dispuser o estatuto da companhia. De modo geral, representa um mecanismo de fiscalização independente dos administradores a fim de reporte aos sócios. O objetivo deste órgão está em “preservar o valor da organização. Os conselheiros fiscais possuem poder de atuação individual, apesar do caráter colegiado do órgão” (IBGC, 2015, p. 82). Por outro lado, em vias jurídicas, o ato de fiscalizar compreende, na linguagem comum, que não difere em substância da linguagem jurídica, as atividades de examinar, controlar, vigiar, fiscalizar, cuidar, sindicar, englobando ainda o controle na execução de atos. Assim, os participantes de um conselho fiscal necessitam de respeito à autonomia de seus colegas de trabalho dentro da organização. Sendo o conselho fiscal um órgão de controle interno, que deve estar em perfeita atualização com as legislações tributárias e fiscais, e que é instalado por decisão de Assembleia Geral não deve ser guardada de subordinação ao gestor e até mesmo à Assembleia Geral. Novamente, a Lei n.º 6.404/76 reflete sobre o conselho fiscal, atribuindo-lhe suas competências, conforme o artigo 143 da referida Lei: CONSELHO FISCAL6 TÓPICO ÓRGÃOS DA GOVERNANÇAUNIDADE 3 71 Art. 163. Compete ao conselho fiscal: I - Fiscalizar, por qualquer de seus membros, os atos dos administradores e verificar o cumprimento dos seus deveres legais e estatutários;(Redação dada pela Lei n.º 10.303, de 2001) II - Opinar sobre o relatório anual da administração, fazendo constar do seu parecer as informações complementares que julgar necessárias ou úteis à deliberação da assembleia-geral; III - Opinar sobre as propostas dos órgãos da administração, a serem submetidas à assembleia-geral, relativas à modificação do capital social, emissão de debêntures ou bônus de subscrição, planos de investimento ou orçamentos de capital, distribuição de dividendos, transformação, incorporação, fusão ou cisão; (Vide Lei n.º 12.838, de 2013) IV - Denunciar, por qualquer de seus membros, aos órgãos de administração e, se estes não tomarem as providências necessárias para a proteção dos interesses da companhia, à assembleia-geral, os erros, fraudes ou crimes que descobrirem, e sugerir providências úteis à companhia; (Redação dada pela Lei n.º 10.303, de 2001) V - Convocar a assembleia-geral ordinária, se os órgãos da administração retardarem por mais de 1 (um) mês essa convocação, e a extraordinária, sempre que ocorrerem motivos graves ou urgentes, incluindo na agenda das assembleias as matérias que considerarem necessárias; VI - Analisar, ao menos trimestralmente, o balancete e demais demonstrações financeiras elaboradas periodicamente pela companhia; VII - Examinar as demonstrações financeiras do exercício social e sobre elas opinar; VIII - Exercer essas atribuições, durante a liquidação, tendo em vista as disposições especiais que a regulam. Ainda assim, as companhias devem estar cientes de que o conselho fiscal não substitui ou extingue o comitê de auditoria. Enquanto o conselho de auditoria é órgão de controle com funções delegadas pelo conselho de administração, o conselho fiscal é considerado uma ferramenta de fiscalização eleita pelos sócios e, por lei, não se subordina ao conselho de administração (IBGC, 2015). Portanto, os membros do conselho fiscal assumem o rol de obrigações idênticas às dos administradores, visto que seu trabalho impacta diretamente nos resultados da empresa, além de poder interferir na imagem da organização. Apesar do conselho fiscal não representar a organização, seus membros devem observar os mesmos deveres legais impostos aos gestores (Menezes, 2019). Por outro lado, quanto à sua formação e composição, o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC, 2015, p. 83), em harmonia com a Lei das S.As (Lei n.º 6.404/76), alude que: a) Antes da eleição dos membros do conselho fiscal, as organizações devem estimular o debate entre todos os sócios quanto à composição do órgão, buscando garantir que ele tenha a diversidade desejável de experiências ÓRGÃOS DA GOVERNANÇAUNIDADE 3 72 profissionais pertinentes às suas funções e ao campo de atuação da organização. b) A participação de todos os grupos de sócios no processo de indicação de membros para o conselho fiscal deve ser preservada, mesmo em organizações sem controle definido. c) A organização deve facilitar a instalação do conselho fiscal, se solicitada por algum grupo de sócios, especialmente quando não houver controlador definido ou existir apenas uma classe de ações. d) Nas organizações em que haja controle definido, os sócios controladores devem abrir mão da prerrogativa de eleger a maioria dos membros do conselho fiscal e permitir que a maioria seja composta de membros eleitos pelos sócios não controladores. Logo, Menezes (2019, p. 28) destaca que “é papel de extrema importância deste órgão o acompanhamento dos recolhimentos dos tributos, visando evitar qualquer responsabilidade por eventual descumprimento legal”. ÓRGÃOS DA GOVERNANÇAUNIDADE 3 73 O termo “Compliance” vem do verbo em inglês “to comply”, que significa “cumprir”, “executar”, “satisfazer”, “realizar o que lhe foi imposto”, ora, “compliance” refere-se em estar em conformidade, é o dever de cumprir e fazer cumprir regulamentos internos e externos impostos à atividade da instituição (Blok, 2017). Neste sentido, o conceito chegou ao Brasil junto com a Governança Corporativa e passou a existir a partir da Resolução 2.554/98, do Banco Central e da Lei 9.613/98. Assim, para Cicco (2008, p. 23), “evidencia-se que os comportamentos que criam e sustentam o compliance são estimulados, e comportamentos que comprometem o compliance não são tolerados”. Neste contexto, a alta direção e a diretoria de uma organização devem buscar formas de promover que todos os colaboradores estejam alinhados com os princípios do compliance. Ainda de acordo com o Cicco (2008, p. 24), dentre os fatores que dão embasamento ao desenvolvimento de uma cultura de compliance estão: a) Conjunto claro de valores divulgados. b) Direção sendo vista, implementando e seguindo tais valores de maneira ativa. c) Consistência na abordagem para recompensar ou punir ações semelhantes, independentemente do cargo. d) Incorporação no desempenho do compliance em todas as descrições de cargos. e) Identificação adequada antes da contratação de funcionários potenciais. f) Programa de integração que enfatize o compliance e os valores da organização. g) Treinamento contínuo de compliance e atualizações regulares sobre falhas de compliance. h) Orientação, preparação e comando através do exemplo. COMPLIANCE7 TÓPICO ÓRGÃOS DA GOVERNANÇAUNIDADE 3 74 i) Sistemas de avaliação de desempenho que incluem a avaliação do comportamento de compliance e que associam a remuneração variável baseada no desempenho ao cumprimento das obrigações de compliance. j) Grande visibilidade para a recompensa pelo comportamento conforme. k) Ação disciplinar imediata e visível no caso de violações propositais, negligentes ou imprudentes. l) Redução da burocracia desnecessária através da simplificação dos processos. m) Ligação clara entre a estratégia da organização e os papéis individuais, refletindo os resultados do compliance como essenciais para a obtenção dos resultados do negócio. n) Comunicação aberta e de mão dupla sobre os resultados do compliance. o) Mudanças de processo que são gerenciadas de maneira tranquila, para minimizar qualquer impacto negativo sobre os funcionários. Contudo, as regras podem variar de acordo com as atividades desenvolvidas pela empresa e não se resumem apenas a casos de corrupção ou fraude — elas podem envolver obrigações trabalhistas, fiscais, regulatórias, concorrenciais, entre outras. Estar em conformidade com tais regras é do que se trata a expressão “estar em compliance”, que também se refere aos controles internos e de Governança Corporativa (Donella, 2019). Em vias gerais, “ser compliance” é conhecer as normas da organização, seguir os procedimentos recomendados, agir em conformidade e sentir o quanto é fundamental a ética e a idoneidade em todas as atitudes humanas e empresariais. Já o termo “estar em compliance” é estar em conformidade com leis, normas e regulamentos internos e externos. E, por fim, “ser e estar em compliance” diz respeito, acima de tudo, a uma obrigação individual de cada colaborador dentro da instituição (Blok, 2017). FIGURA 2 – A FUNÇÕES DO COMPLIANCE CORPORATIVO Fonte: Donella (2019). ÓRGÃOS DA GOVERNANÇAUNIDADE 3 75 Ainda assim, as frentes de compliance em uma organização devem estar empenhadas na prevenção à lavagem de dinheiro, financiamento ao terrorismo (PLD- FT), anticorrupção e fraudes; devem reportar os erros quando ocorrerem; promover a integridade, seja por meio de códigos de condutas éticas, treinamentos, e monitoramentos, dentre outras práticas. Portanto, deve-se destacar que, mesmo que nenhuma lei ou regulamento seja descumprido, ações que tragam impactos negativos para os stakeholders (acionistas, clientes, empregados, etc.) podem gerar risco reputacional e publicidade adversa a organização, comprometendo a continuidade de qualquer entidade, e deve ser evitadas. Para Blok (2017, p. 15), “para qualquer instituição, confiança é um diferencial de mercado”. Assim, alémde violarem preceitos éticos, condutas ilícitas podem comprometer a imagem e reputação da organização e de seus colaboradores, deteriorar seu valor econômico e impactar sua sustentabilidade e longevidade. A prática de atos de natureza ilícita pode culminar na responsabilização civil, administrativa e criminal da organização e de seus responsáveis (IBGC, 2015). ÓRGÃOS DA GOVERNANÇAUNIDADE 3 76 Office Ombudsman é um termo utilizado para designar a proteção do indivíduo contra os abusos feitos em geral por autoridades da Administração. O termo foi consagrado na Suécia, sendo a proteção do indivíduo a pedra angular do direito sueco. Pode-se dizer que, por isso, o Constituinte criou a figura do Ombudsman, para exercitar um controle das autoridades e de seus funcionários (Romagnoli, 2015). De acordo com o Pimentel (2019, on-line), Office Ombudsman refere-se a “um profissional com a função de receber críticas, sugestões e reclamações de usuários e consumidores, com o dever de agir de forma imparcial para mediar conflitos entre as partes envolvidas”. Este é um cargo obrigatório nos órgãos públicos brasileiros, que devem sempre buscar as soluções para os problemas apresentados pelos clientes. Na iniciativa privada, essa função nem sempre é realizada — o que pode ser muito prejudicial para as empresas e para o bom relacionamento com o cliente. Deste modo, Office Ombudsman se refere, no contexto organizacional, como uma espécie de ouvidoria, dando voz aos clientes (IBC, 2016). Contudo, o Ombudsman é um profissional cuja função consiste em receber críticas, sugestões e reclamações de usuários e consumidores, com o dever de agir de forma imparcial para mediar conflitos entre as partes envolvidas. Este profissional é o catalisador de perguntas e respostas que possam melhorar o relacionamento entre empresa e consumidores, tendo como objetivo principal a melhoria da qualidade de atendimento e a satisfação do cliente final (Pimentel, 2019). OFFICE OMBUDSMAN8 TÓPICO ÓRGÃOS DA GOVERNANÇAUNIDADE 3 77 Portanto, a implantação de um sistema de Office Ombudsman visa promover a credibilidade. Uma empresa que possui um canal de ouvidoria (Office Ombudsman) mostra aos seus clientes que eles são importantes, e que a companhia se importa com a opinião deles, e que está em busca de soluções para as mais diversas situações. O que, como consequência, reflete positivamente na credibilidade e no relacionamento da empresa junto a seus clientes (IBC, 2016). Ainda assim, é importante salientar que reduzir significativamente o número de problemas das empresas é o caminho mais fácil para a fidelização do cliente, a melhoria da propaganda “boca a boca” nas ruas e nas redes sociais, a imagem institucional e a manutenção de novos clientes (Pimentel, 2019). ÓRGÃOS DA GOVERNANÇAUNIDADE 3 78 O surgimento das auditorias se deu em decorrência do desenvolvimento dos negócios. Historicamente, afirma-se que o auditor surgiu no fim do século XIII, na Inglaterra, quando o imperador Eduardo I dizia que, se as contas por ele examinadas não refletissem a realidade dos fatos, seu testemunho seria motivo para punição (Cordeiro, 2012). Neste sentido, a auditoria é a prática de revisão e verificação das demonstrações financeiras, sistema financeiro, registros, transações e operações de uma entidade ou de um projeto, efetuada por contadores, com a finalidade de assegurar a fidelidade dos registros e proporcionar credibilidade às demonstrações financeiras e outros relatórios da administração. Seu objetivo é promover a confiança, provando a veracidade das informações econômico-financeiras. Na visão de Attie (2010 apud Cordeiro, 2012, p. 15), a auditoria consiste em “uma atividade especializada da área contábil, que visa testar a eficácia e eficiência dos controles internos implantados sobre o patrimônio das empresas, com o objetivo de expressar a opinião sobre determinado dado ou operação”. Sendo assim, em outras palavras, a auditoria compreende o exame documental (livros, registros, documentos, etc.), com o objetivo de mensurar a exatidão desses registros e das demonstrações contábeis deles decorrentes. Deste modo, existem três tipos de auditorias, sendo elas a auditoria interna, auditoria externa, ou também chamada de auditoria independente, cada uma delas com suas particularidades. AUDITORIA: INTERNA E EXTERNA9 TÓPICO ÓRGÃOS DA GOVERNANÇAUNIDADE 3 79 A auditoria interna é uma atividade de avaliação independente, dentro de uma organização (por isso denomina-se interna), com o objetivo de revisar as operações contábeis, financeiras e outras, dentro da finalidade de prestar serviço à administração. Assim, pode ser entendido como um controle administrativo cuja função é medir a eficiência dos outros controles (Cordeiro, 2012). As diversas áreas de uma organização devem compreender o papel fundamental da auditoria interna na estrutura de governança. A auditoria interna não se concentra em pessoas, e sim em auditar temas que representam riscos que possam impedir a organização de atingir seus objetivos (IBGC, 2018). Deste modo, a auditoria interna pode interagir e colaborar com as áreas de controles internos, riscos e conformidade (compliance) e, ainda, com a redução de custos e eventual aumento de receitas. Ao longo do tempo, as pressões do mercado e o arcabouço regulatório fizeram com que a auditoria interna ampliasse o seu escopo e focasse também em questões relacionadas a riscos, controles internos e governança (IBGC, 2018). Já a auditoria externa é realizada por pessoas alheias à organização e não devem fazer parte do quadro de colaboradores da empresa. Seu objetivo principal é a emissão de parecer sobre as demonstrações contábeis, opinando se estas estão de acordo com as práticas contábeis (Cordeiro, 2012). Ainda assim, atualmente no Brasil, todas as empresas constituídas sob a forma de sociedade anônima, além daquelas reguladas por controles de fiscalização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Banco Central do Brasil (BACEN) e Superintendência de Seguros Privados (SUSEP), devem ser auditadas por auditores externos, também conhecidos por auditores independentes. Por outro lado, ambos tipos de auditoria possuem um objetivo comum, que é garantir o controle e a salvaguarda da veracidade das informações e controles pertinentes à empresa, buscamos evitar fraudes e corrupções que possam vir a afetar negativamente a organização. ÓRGÃOS DA GOVERNANÇAUNIDADE 3 80 Como desenvolver a boa governança? As maiores vítimas da crise financeira global foram a credibilidade e a confiança. A cobrança sobre as empresas privadas e as instituições públicas atualmente é muito maior. Há forte expectativa de que elas expliquem suas práticas de negócios, tornem claros os seus relacionamentos, justifiquem seus modelos de remuneração, discutam seus planos de sucessão e contribuam mais amplamente com a sociedade. E elas precisam satisfazer não apenas aos investidores, mas também aos órgãos reguladores e ao público em geral. Ao entrarem em novos mercados, muitas delas acabam se envolvendo com uma variedade maior de stakeholders, cada um dos quais requer informações diferentes. Paralelamente, as tecnologias digitais estão transformando a maneira como nos comunicamos. As pessoas podem ter mais informações sobre as empresas e falar delas como nunca antes. Novos riscos, incluindo novas formas de risco, também estão surgindo, e a carga regulatória não para de aumentar. Tudo isso está elevando a níveis jamais vistos a pressão para que as empresas prestem contas de suas ações, sejam transparentes e socialmente responsáveis. O que isso significa para o seu negócio? Qualquer organização que queira sobreviver e alcançar o sucesso terá que adotar novas regulamentações e tecnologias, gerenciar novos riscos e se preparar para o futuro com um sólido planejamento de sucessão. Isso significa que muitas empresasprivadas e instituições públicas precisarão de novos modelos de governança. A alta administração também terá que assumir mais responsabilidades de supervisão, já que o simples cumprimento das regras não bastará. A equipe de gestão terá que comunicar suas políticas de governança, processos e cultura organizacional a todos os stakeholders. Também terá que ir além dos relatórios tradicionais e abordar questões como sustentabilidade e contribuições fiscais. A divulgação transparente é a chave para criar confiança e mudar a maneira como os stakeholders e os mercados externos enxergam seus negócios. Mas a transparência sozinha não é suficiente. Demonstrar boa governança envolve mais do que estabelecer comunicação, exige criar um verdadeiro diálogo com os stakeholders. Fonte: PWC Brasil (2019). SAIBA MAIS ÓRGÃOS DA GOVERNANÇAUNIDADE 3 81 Prezado(a) aluno(a), a Governança Corporativa pode ser entendida como um sistema composto por normas legais e regulamentares, de organização e de mecanismos contratuais necessários para proteger os interesses dos acionistas, limitando o comportamento oportunista dos seus administradores (Blok, 2017). Nesta unidade, vimos os principais órgãos que compõem a Governança Corporativa nas organizações. Deste modo, vimos qual a atribuição, composição, finalidade e objetivo de cada órgão, que juntos visam transpassar transparência, confiabilidade e respeito da organização no mercado. Além disso, a Governança Corporativa, como se trata de um sistema, é composta por organismos, ou seja, órgãos participantes que desempenharam funções para que o sistema funcione em sua totalidade. De modo geral, as frentes de compliance em uma organização devem estar empenhadas na prevenção à lavagem de dinheiro, financiamento ao terrorismo (PLD-FT), anticorrupção e fraudes; devem reportar os erros quando ocorrerem; promover a integridade, seja através de códigos de condutas éticas, treinamentos, e monitoramentos, dentre outras práticas. E, assim, cada órgão deve executar com maestria seus objetivos, de modo a facilitar o alcance destes objetivos. Portanto, esta unidade seguiu uma linha de raciocínio importante no aprendizado sobre os órgãos que compõem a Governança Corporativa e como cada um deve desempenhar o seu papel para que o sistema funcione de maneira eficiente e mitigue os riscos. Na Unidade IV vamos estudar acerca da Ética e da Sustentabilidade na Governança Corporativa, reforçando o quanto a Governança impacta na imagem de uma organização. CONSIDERAÇÕES FINAIS ÓRGÃOS DA GOVERNANÇAUNIDADE 3 82 MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO • Título: Compliance e Boa Governança: Pública e Privada. • Autor: Claúdio de Castro; Milton de Castro Santos Junior. • Editora: Juruá Editora. • Sinopse: A presente obra aborda o Compliance e a Boa Governança, temas atuais e de grande relevância tanto para a Administração Pública quanto para a iniciativa privada. Buscando desenvolver o assunto de forma didática, os autores partiram da evolução histórica do Compliance no mundo e da chegada dos institutos ao Brasil. Dedicaram um capítulo inteiro aos sistemas de gestão de Compliance e Antissuborno com base nas normativas internacionais da International Standartization Organizatione, posteriormente, abordaram a normatização no sistema brasileiro, especialmente a Lei 12.846/2013 e a Lei 13.303/2016 com os seus respectivos Decretos Regulamentadores. Acompanhando o momento histórico em que vive o Brasil, os autores buscaram contextualizar o Compliance com o Neo constitucionalismo e, em seguida, buscaram desenvolver orisk assessment, que é um pilar muito significativo dos sistemas de combate à corrupção e ao suborno. Ainda, dentro da temática afeta à gestão, os autores se preocuparam em aprofundar temas importantes como o whistleblowing Program, auditoria e controle (interno e externo), aspectos do monitoramento, medição, avaliação, análise e planejamento tributário. Enfim, trata-se de uma obra atual, robusta e didática que em muito irá contribuir para o estudo do Programa de Integridade. FILME/VÍDEO • Título: Quants: Os Alquimistas de Wall Street. • Ano: 2010. • Sinopse: A grande maioria das ações do mercado financeiro mundial são vendidas e compradas por decisões de programa de computador que levam milésimos de segundo. Se nem mesmo as maiores autoridades do mundo que já trabalharam com os modelos matemáticos para calcular os riscos e o valor de um produto financeiro acreditam nesse sistema, por que a sociedade e os governos deveriam? ÓRGÃOS DA GOVERNANÇAUNIDADE 3 Professor Esp. Alessandro Arraes Rodrigues GOVERNANÇA CORPORATIVA: A ÉTICA E A SUSTENTABILIDADE4UNIDADEUNIDADE PLANO DE ESTUDO 84 • Ética e Sustentabilidade; • Origem histórica da Ética e da Sustentabilidade; • Sustentabilidade: vantagens econômicas, ambientais e sociais; • O Código de Ética; • A Responsabilidade Social; • Responsabilidade social, entidades padronizadoras e a certificação internacional. Objetivos da Aprendizagem • Apresentar os conceitos de Ética e Sustentabilidade. • Apresentar e descrever a ligação entre a Ética e a Sustentabilidade com a Governança Corporativa. • Estabelecer a importância da Responsabilidade Social para as organizações. GOVERNANÇA CORPORATIVA: A ÉTICA E A SUSTENTABILIDADEUNIDADE 4 85 Caro(a) aluno(a), na unidade anterior vimos sobre os órgãos da Governança Corporativa, suas características, composição, funções e objetivos. Esta unidade foi elaborada com o objetivo de demonstrar a você como a Governança Corporativa é composta e estruturada em uma organização. Assim, veremos nesta unidade sobre a Ética e a Responsabilidade Social das organizações e a sua ligação com a Governança Corporativa. Vislumbraremos como tais temas podem impactar negativamente ou positivamente na reputação, imagem e credibilidade de uma organização. Tal tema possui grande relevância, visto que as organizações lidam com temas intangíveis e de conceitos mais abstratos que afetam concretamente seus lucros, tais como a sua reputação com os clientes e com o mercado e a ética. Com isso, consequentemente, as companhias de hoje são protagonistas da responsabilidade social. Ainda neste sentido, veremos sobre a responsabilidade social, dentre as principais normas e certificações voltadas para a responsabilidade social das organizações destacam- se a ISSO 26000, NBR 16001 e a SA 8000. Tais normas aplicam-se a todos os tipos de organização, independentemente do porte, setor e/ou localização geográfica. Desejo-te um excelente estudo! INTRODUÇÃO GOVERNANÇA CORPORATIVA: A ÉTICA E A SUSTENTABILIDADEUNIDADE 4 86 Caro(a) aluno(a), vamos iniciar essa unidade com uma questão crucial. Vimos nas unidades anteriores que o termo Governança Corporativa varia de acordo com a trajetória de desenvolvimento de cada país e a proteção direcionada aos investidores nas variadas economias. Vimos ainda que a Governança Corporativa é fundamentada em princípios, tais como o direito aos acionistas, o tratamento equitativo, a divulgação e transparência e as responsabilidades do conselho. Neste sentido, você já parou para pensar que a ética também faz parte das relações nas organizações? Mas afinal, o que é ética? Em nosso dia a dia, nos relacionamos com diversas pessoas, cada uma com suas crenças, modos, jeitos, costumes, princípios e valores. Desta maneira, cada indivíduo age de um modo diferente para uma mesma coisa, visto que cada ser é único e individual. Você já se perguntou por que isso acontece? No contexto organizacional, a ética ocupa um lugar curioso nos corações e mentes de numerosos administradores de empresas. Por um lado, repousa em um pedestal, como algo a ser admirado e que serve de estímulo aos demais; por outro, é cercada por uma aura negativa, como algo associado a problemas controversos, outra pedrada que administradores e gestores devem evitar. Em consequência disso, no funcionamentodiário de grandes empresas, o assunto ética no ambiente organizacional é muitas vezes posto em segundo plano – ou mesmo evitado (Aguilar, 1996). Mas o que é a Ética? De modo geral, “a ética é a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens em sociedade. Ou seja, é a ciência de uma forma específica de comportamento humano” (Vásquez, 2018, p. 23). Portanto, trata-se de uma ciência do ÉTICA E A SUSTENTABILIDADE1 TÓPICO GOVERNANÇA CORPORATIVA: A ÉTICA E A SUSTENTABILIDADEUNIDADE 4 87GOVERNANÇA CORPORATIVA: A ÉTICA E A SUSTENTABILIDADEUNIDADE 4 comportamento humano, que, quando usada positivamente, nos permite viver em sociedade e em conformidade com os demais seres humanos, evitando, assim, um colapso. E quanto à sustentabilidade, o que é? A palavra sustentabilidade é comum, e por vezes ouvimos em comerciais de propaganda, em rótulos e embalagens de produtos, ou até mesmo em questões empresariais e no mundo dos negócios. Mas você sabe o que significa a palavra sustentabilidade? Contudo, desde que o conceito de desenvolvimento sustentável ganhou destaque internacional com a apresentação do Relatório Brundtland – Nosso Futuro Comum, em 1987, várias iniciativas surgiram para definir sustentabilidade e desenvolvimento sustentável (Munck; Souza, 2011). Neste contexto, desenvolvimento sustentável pode ser definido como uma melhor qualidade de vida do presente e das futuras gerações. Não envolve uma escolha entre a proteção ambiental e o progresso social. Está relacionado com um esforço maior para o desenvolvimento econômico e social que seja compatível com a proteção ao meio ambiente. Com isso, o desenvolvimento sustentável envolve três dimensões fundamentais (econômica, social e ambiental), que são interdependentes (Elkington, 2012, apud Junior et al., 2019). 88 O termo “ética” é originário da língua grega “ethos”, e significa o caráter distintivo (o conjunto de costumes, hábitos e valores) de uma determinada coletividade ou pessoa, ou seja, é o conjunto de valor que orientam o comportamento do homem em relação aos outros na sociedade em que vivem (Srour, 2018). Por outro lado, ocorre que, na linguagem cotidiana, a expressão ética é utilizada em diferentes sentidos. Mas, ainda assim, a ética trata-se de um saber científico que se enquadra no campo das Ciências Sociais. Sendo assim, Stukart (2003, p. 14) afirma que “a ética é uma ciência cujo objetivo é o exame teórico das ações humanas para conseguir uma vida satisfatória e a perfeição integral do homem e é nisso que consiste a felicidade”. Assim, enquanto ciência, a ética caracteriza-se pela generalidade de seus conceitos e que investiga os fenômenos morais (objetos singulares e reais); estuda, portanto, a moral praticada pelas coletividades, os modos de agir que afetam as pessoas para o bem ou para o mal (Srour, 2018). Já quanto ao termo sustentabilidade, a história do tema se inicia a partir da discussão de padrões econômicos relacionados ao crescimento produtivo e populacional, disponibilidade de recursos, escala e limites (Guilherme, 2007). Sustentabilidade está entre os conceitos mais utilizados pelas organizações públicas ou privadas nos seus meios de comunicação. Muitas vezes, com a intenção de agregar valor a tais produtos ou de minimizar os impactos negativos de seus produtos (Boof, 2016). Segundo o referido autor, a sustentabilidade pode ser compreendida como o conjunto de processos ou ações que se destinam a manter a integridade do planeta Terra. ORIGEM HISTÓRICA DA ÉTICA E DA SUSTENTABILIDADE 2 TÓPICO GOVERNANÇA CORPORATIVA: A ÉTICA E A SUSTENTABILIDADEUNIDADE 4 89 Em outras palavras, as organizações precisam realizar suas atividades de modo que ao final sejam mantidos ou preservados os estoques de recursos naturais dos ecossistemas (químicos, físicos e ecológicos), para que haja a continuidade da espécie humana e o atendimento de necessidades das gerações atuais e futuras. Deste modo, sustentabilidade envolve questões que vão além do desenvolvimento econômico, tais como: pessoas, comunidades, cultura, política, ecossistemas, planejamento urbano e principalmente para preservação da Terra (Boff, 2016). A sustentabilidade e o desenvolvimento sustentável representam temas e desafios centrais da atualidade, alcançando status de relevância no meio acadêmico e empresarial. Neste sentido, há dois pontos que são comuns quanto à sustentabilidade nas bibliografias: primeiro, no entendimento que o desenvolvimento sustentável representa orientação para o futuro do progresso humano, ao articular três dimensões, sendo: econômica, social e ambiental. O segundo ponto diz respeito ao entendimento de que a sustentabilidade é um fenômeno social relevante para a sociedade. Nesse sentido, pela via de discussões relacionadas ao desenvolvimento sustentável é possível fomentar o interesse das organizações em alcançá-lo por meio de dois caminhos: (1) o do imperativo legal com a regulação e a imposição; e (2) da proatividade ou do voluntarismo organizacional (Munck; Souza, 2011 apud Junior et al., 2019). Neste cenário, é certo que a maior parte das empresas quer se destacar no mercado a partir de iniciativas consideradas sustentáveis. Entender a sustentabilidade como diferencial e vantagem competitiva tem feito com que o conceito seja incorporado na filosofia de organizações, na estrutura de projetos corporativos e até no empreendedorismo moderno (Revista Brasileira De Administração, 2019). GOVERNANÇA CORPORATIVA: A ÉTICA E A SUSTENTABILIDADEUNIDADE 4 90 Como visto, a sustentabilidade é um tema estratégico nas organizações e muitas vezes utilizado com a intenção de agregar valor aos produtos, ou até mesmo à marca, ou como meio de minimizar os impactos negativos de seus produtos (Boof, 2016). Assim, a inserção do conceito da sustentabilidade nas organizações recebeu especial atenção quando John Elkington cunhou o termo Tripé da Sustentabilidade, originalmente Triple Bottom Line (TBL). O TBL propõe uma visão multidimensional que integra três dimensões correspondentes a valores e a resultados de uma organização medida em termos sociais, ambientais e econômicos (Elkington, 1994 apud Nobre; Ribeiro, 2013). FIGURA 1 – TRIPÉ DA SUSTENTABILIDADE Fonte: Nascimento (2008 apud SEBRAE, 2017, p. 8). SUSTENTABILIDADE: VANTAGENS ECONÔMICAS, AMBIENTAIS E SOCIAIS3 TÓPICO GOVERNANÇA CORPORATIVA: A ÉTICA E A SUSTENTABILIDADEUNIDADE 4 91 Hart e Milstein (2003, p. 56 apud Nobre; Ribeiro, 2013, p. 503) definem uma empresa sustentável como “aquela que contribui para o desenvolvimento sustentável à medida que gera benefícios econômicos, sociais e ambientais, referindo-se ao TBL”. Nessas organizações, a sustentabilidade pode ser compreendida como fonte propulsora de inovações. Assim, quanto às vantagens econômicas da sustentabilidade, refere-se a um conjunto de práticas econômicas, financeiras e administrativas que visam o desenvolvimento econômico de um país ou empresa, preservando o meio ambiente e garantindo a manutenção dos recursos naturais para as futuras gerações (SEBRAE, 2017). Ainda neste sentido, uma organização sustentável “é aquela que gera lucro para os acionistas, ao mesmo tempo que protege o meio ambiente e melhora a qualidade de vida das pessoas com quem mantém interações” (SEBRAE, 2017, p. 8). Portanto, a sustentabilidade econômica pressupõe o objetivo de manter o crescimento econômico, sem destruir ou prejudicar o meio (ambiental e social) em que esse crescimento econômico se dá. De acordo com o Sebrae (2017, p. 9), destacam-se como vantagens da sustentabilidade econômica: • Maior economia financeira a médio e longo prazo; • Aumento de lucros e redução do risco por meio de combate à poluição e melhoria da eficiência ambiental de produtos e processos; • Melhora da imagem perante cidadãos e consumidores; • Obtenção de ganhos indiretos, pois terão um meio ambiente preservado,maior desenvolvimento econômico e a garantia de uma vida melhor para as futuras gerações; • Vantagem competitiva em relação aos seus concorrentes. Já quanto à vertente social, a sustentabilidade, em vias gerais, traduz-se como melhoria da qualidade de vida, com critérios básicos de justiça distributiva para bens e serviços, e de universalização de cobertura para as políticas globais de educação, saúde, habitação e seguridade social, especialmente em países periféricos (Guilherme, 2007). E, por fim, quanto à sustentabilidade ambiental, diz respeito ao cuidado e preservação do meio ambiente, objetivando a conservação e o uso racional dos recursos naturais, renováveis e não renováveis, medindo o desempenho através de índices de regeneração e recuperação ambiental. GOVERNANÇA CORPORATIVA: A ÉTICA E A SUSTENTABILIDADEUNIDADE 4 92 Assim, em síntese, a vertente ambiental refere-se aos recursos naturais do planeta e a forma como são utilizados pela sociedade, comunidades ou empresas. A vertente social, por sua vez, engloba a sociedade e suas condições de vida, como educação, saúde, violência, lazer. Por fim, o quesito econômico está relacionado com a produção, crescimento, distribuição e consumo de bens e serviços. A economia deve considerar a questão social e ambiental. GOVERNANÇA CORPORATIVA: A ÉTICA E A SUSTENTABILIDADEUNIDADE 4 93 As organizações, os processos, as pessoas: o mundo está vivendo grandes mudanças e com o comportamento das pessoas não é diferente. Deste modo, vale resgatar o quão necessárias são as regras de comportamento para com o semelhante, consistindo em uma filosofia essencial para um ambiente de convívio. Assim sendo, o código de ética é um instrumento que possibilita à organização pôr em prática a sua filosofia, visão, missão e valores. Trata-se de uma declaração formal das expectativas da empresa quanto à conduta de seus colaboradores. Há também os códigos de ética específicos para cada profissão, como, por exemplo, o código de ética do profissional do contador, o código de ética das advogadas, dos médicos e assim sucessivamente. Tal documento visa eliminar comportamentos que possam denegrir a imagem da classe profissional, e nas organizações visa eliminar conflitos e atos que possam “manchar” a reputação da empresa. Neste sentido, o código de ética deve ser concebido pela própria empresa, de modo a expressar a cultura organizacional. Serve para orientar e instruir as ações de seus colaboradores e explicitar a postura da empresa em face dos diferentes públicos com os quais interage. Ainda assim, é importante e coerente que haja consistência entre o que está disposto no código de ética e o que se vive na organização. Se o código de conduta de fato cumprir o seu papel, sem dúvida significará um diferencial que agregará valor à empresa (IDIS, 2014). O CÓDIGO DE ÉTICA4 TÓPICO GOVERNANÇA CORPORATIVA: A ÉTICA E A SUSTENTABILIDADEUNIDADE 4 94 Com vista a fomentar a ética empresarial, executivos de alto nível geralmente tomam medidas tais como promulgar um código de ética, patrocinar sessões de informações e programas de treinamento e manifestar, em palavras e atos, compromisso com altos padrões de conduta. Podem também atribuir a um ou mais funcionários graduados a responsabilidade de organizar e gerir o programa. Quando bem implantadas, estas e outras medidas semelhantes podem contribuir em muito para motivar o comportamento ético na empresa. Fonte: Aguilar (1996, p. 54). REFLITA GOVERNANÇA CORPORATIVA: A ÉTICA E A SUSTENTABILIDADEUNIDADE 4 95 O modelo de crescimento econômico praticado ao longo da era industrial, no qual as organizações se ocupam somente em extrair, transformar, comercializar e descartar os recursos naturais utilizados, já não é mais viável, tendo em vista que eles estão cada vez mais escassos. Assim, as fronteiras empresariais se extinguem com a globalização, o que permitiu a comercialização de produtos e a circulação de riquezas no mundo todo. A tecnologia fez com que o capital se deslocasse de forma volátil e veloz: contratar e produzir ficou rápido e fácil, mas os riscos foram pulverizados e o volume de legislação a ser atendida e monitorada aumentou, assim como o trabalho de gerenciar diversas culturas, processos e cadeias produtivas e questões éticas. Desta forma, uma mudança consistente e com avanços positivos na consolidação da responsabilidade social empresarial vem se firmando, afinal, apesar de organizações obterem lucro, também recaem sobre elas prejuízos desse modelo globalizado, principalmente por se distanciarem de sua operação e do entendimento dos anseios e percepções de seus colaboradores e das outras partes interessadas. Então, o que mudou no decorrer das décadas de 80, 90 e 2000 para a Responsabilidade Social de hoje? De acordo com Fukunaga (2020), as empresas tinham gerações de líderes que viam como responsabilidade social somente os empregos que geravam e os bons produtos que colocavam nas prateleiras. Depois, outros líderes passaram a enxergar que não podiam mais poluir. Posteriormente, perceberam que a sociedade questionava seus passivos e, então, as empresas propuseram minimizar isso com ações sociais. A RESPONSABILIDADE SOCIAL 5 TÓPICO GOVERNANÇA CORPORATIVA: A ÉTICA E A SUSTENTABILIDADEUNIDADE 4 96 Diante dos diversos significados que o termo Responsabilidade Social Corporativa assume na literatura, o assunto é classificado em quatro categorias de acordo com a motivação principal do ato: (a) Econômico: a principal função de empresas com fins lucrativos; (b) Legal: por estar inserida na sociedade, precisa enquadrar-se nos códigos e normas instituídos; (c) Ético: diz respeito a códigos relacionais implícitos que não estão, necessariamente, descritos na forma de lei; e, (d) Discricionário: que envolve ações de cunho estritamente voluntário (Carroll 1979 apud Freguete; Nossa; Funchal, 2015, p. 236). Não obstante, atualmente, as organizações lidam com temas intangíveis e de conceitos mais abstratos que afetam concretamente seus lucros, tais como a sua reputação com os clientes, com o mercado e a ética. Com isso, consequentemente, as companhias de hoje são protagonistas da responsabilidade social. Por outro lado, quanto a prática da responsabilidade social, não são apenas demandas interessadas meramente filantrópicas ou ambientais, mas sim demandas estratégicas de partes interessadas diversas, tais como investidores e a sociedade em seus mais diversos papéis (consumidores, colaboradores, ativistas, comunidade impactada por suas atividades empresariais, etc.) (Fukunaga, 2020). Desta maneira, o tema responsabilidade social empresarial passou por diferentes fases, que podem ser sintetizadas em algumas décadas e com pontos importantes de destaque. FIGURA 2 - LINHA DO TEMPO Fonte: adaptado de Fukunaga (2020). GOVERNANÇA CORPORATIVA: A ÉTICA E A SUSTENTABILIDADEUNIDADE 4 97 • Década de 1950: surgimento das primeiras definições do conceito e notória predominância de autores americanos nesse momento. Nas universidades americanas, já se discutia o tema responsabilidade social. • Década de 1960: esforço para a construção de uma responsabilidade social que se descolasse de proprietários do negócio ou executivos, gerando um tema empresarial que não fosse mera opção, mas sim um compromisso. Publicação do livro Primavera Silenciosa, de fundamental importância para o movimento ambiental e propulsor da sustentabilidade. • Década de 1970: movimentos em função do crescimento econômico e o surgimento de estudos sobre a nossa marca no planeta levaram ao surgimento do livro Limites do Crescimento, que trouxe à tona os primeiros danos pelo crescimento desmedido e sem respeito aos limites da Terra. Tal movimento leva a exigir das empresas iniciativas consistentes com relação aos impactos de seus negócios. Também nesse período ocorreu a Conferência das Organizações dasas vantagens econômicas, ambientais e sociais da sustentabilidade. Vamos conhecer o código de ética, a responsabilidade social e as entidades padronizadoras e a certificação internacional. Estenderemos o funcionamento da autorregulamentação e os desejados reconhecimento e premiação. Aproveito para reforçar o convite a você para, junto conosco, percorrer essa jornada de conhecimento e multiplicar os conhecimentos sobre tantos assuntos abordados em nosso material. Esperamos contribuir para seu crescimento pessoal e profissional. Muito obrigado e bom estudo! 7 SUMÁRIO GOVERNANÇA CORPORATIVA: A ÉTICA E A SUSTENTABILIDADE ÓRGÃOS DA GOVERNANÇA GOVERNANÇA CORPORATIVA NO MUNDO FUNDAMENTOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVA Professor Esp. Alessandro Arraes Rodrigues FUNDAMENTOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVA1UNIDADEUNIDADE PLANO DE ESTUDO 9 • O histórico, as origens e definição de governança corporativa; • O problema do conflito de agência ou conflito de agente principal; • Princípios norteadores da governança corporativa; • Princípios norteadores da governança corporativa da OCDE; • Governança corporativa e a globalização. Objetivos da Aprendizagem • Conhecer o histórico e as origens, bem como a definição de governança corporativa. • Compreender o problema do conflito de agência ou conflito de agente principal. • Entender os princípios norteadores da governança corporativa e da governança corporativa da OCDE. • Estabelecer a relação da governança corporativa e a globalização. FUNDAMENTOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVAUNIDADE 1 10 INTRODUÇÃO Olá, tudo bem? Esta primeira unidade foi preparada com o objetivo de demonstrar a você o quanto a governança corporativa é fundamental para o aprimoramento do relacionamento das empresas com os públicos interno e externo e, consequentemente, do seu valor econômico. Concordo contigo, se estiver pensando nesse momento, que se trata de um tema complexo e talvez pouco difundido, apesar de estar diretamente ligado aos princípios ou mecanismos que comandam o processo decisório dentro das organizações. Diante disso, vamos juntos fazer uma viagem através do histórico e das origens da governança corporativa, bem como buscar o entendimento sobre quais seriam os princípios que a norteiam. O mundo corporativo atual, marcado pela agressiva competição e uma busca alucinada pela potencialização dos resultados, torna-se crucialmente importante uma boa estratégia de atuação por parte dos empresários, pois somente dessa forma as empresas terão chances de conquistar a confiança de investidores, podendo, assim, captar recursos nacionais ou internacionais para o financiamento de seus investimentos futuros. Cabe destacar que o conceito de governança corporativa não é algo novo, pois existe há mais de 50 anos, e vem ganhando destaque nos últimos anos em vários países, sejam emergentes ou desenvolvidos. Por fim, seremos desafiados a buscar uma possível conexão existente entre a governança corporativa e a globalização. Desejo-te um excelente estudo! FUNDAMENTOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVAUNIDADE 1 11 Caro(a) aluno(a), vamos iniciar essa unidade com uma questão crucial para podermos refletir e melhor compreender a importância da governança corporativa na atualidade. Você já se perguntou o caos que seria nossa sociedade caso não houvesse transparência nas relações e na prestação de contas relacionadas aos resultados das ações administrativas das empresas? Pois bem, será através desse questionamento que iniciaremos nosso estudo, para que você entenda que é a partir disso que todas as partes interessadas de uma empresa são informadas sobre como os gestores estão agindo em razão dos seus mais variados interesses, sendo possível medir a performance e, principalmente, os resultados. Pois bem, estou certo de que você estará preparado(a) para gabaritar todas as provas! Então vamos começar! Para a boa compreensão do significado e da importância do sistema de governança corporativa e dos princípios que o norteiam, é imprescindível conhecer antes de mais nada as origens desse movimento e o ambiente econômico-jurídico no qual suas regras hoje conhecidas e propagadas se desenvolveram. Especificamente no ano de 1998, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE, 2004), em conjunto com outras organizações internacionais e os setores público e privado, procederam à elaboração de um conjunto de princípios tidos como a boa prática da governança corporativa, baseados na expertise dos referidos membros da comissão, objetivando nortear as bolsas de valores, as empresas, o governo e todos os eventuais interessados, no que tange à implantação e desenvolvimento O HISTÓRICO, AS ORIGENS E DEFINIÇÃO DE GOVERNANÇA CORPORATIVA1 TÓPICO 1 FUNDAMENTOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVAUNIDADE 1 12 de boas práticas de governança corporativa, focando nos países membros da organização, como também em países que se interessem pelo tema. Pode-se afirmar que inicialmente a governança corporativa está focada no conflito entre o agente e o principal (Jensen; Mecking, 1976). Mesmo após um longo tempo de discussão acerca da conduta entre eles, o grande marco histórico da orientação da governança é datado de 1992, com a publicação do Relatório Cadbury. Relatório que foi resultado do trabalho desenvolvido por Adrian Cadbury e alguns outros participantes do comitê, criado pelo Banco da Inglaterra, o Relatório Cadbury (1992) objetiva o compartilhamento de ações a serem implementadas pelo mercado financeiro, no que se refere a elaboração das demonstrações contábeis, bem como as prestações de contas, com vistas ao desenvolvimento da governança corporativa de forma positiva. Merece destaque um outro grande marco histórico, que foi a publicação da lei Sarbanes-Oxley, instituída em julho de 2002, que surge em resposta aos escândalos corporativos e face à necessidade de alterações nos padrões da governança corporativa adotados até então. Essa lei prevê punições rigorosas para os responsáveis por danos ao sistema financeiro americano e, com isso, estimular a recuperação da confiança dos investidores prejudicados pelas empresas fraudulentas. Motivo de suas exigências se estenderem para as organizações, bem como para a bolsa de valores, analistas de mercado, corretores, advogados e países estrangeiros que negociam na bolsa americana (Silveira, 2010). A lei Sarbanes-Oxley tem seu texto pautado nos valores da governança corporativa: compliance, accountability, disclosure e fairness. No que se refere à Compliance (conformidade legal), a lei desfruta da adoção de código de ética e do cumprimento de regulamentos e leis. Já em relação à Fairness (senso de justiça), as normas predizem a vedação de empréstimos pessoais para diretores executivos, negociações no momento de troca de administradores de fundos de investimentos e, ainda, penas em caso de fraudes (Rossetti; Andrade, 2011; Silva, 2006; Silveira, 2010). Do ponto de vista da Accountability (prestação de contas), de acordo com os referidos autores, a lei versa sobre a responsabilidade dos diretores executivo e financeiro, no que diz respeito à divulgação das demonstrações periódicas e à criação do comitê de auditoria. A responsabilidade da transparência mediante informações privilegiadas, entre outras, são as normas confeccionadas com base na transparência. Diante disso, a lei Sarbanes-Oxley contribui, de maneira significativa, para o aperfeiçoamento da governança corporativa, regulando as práticas de governança dentro das mais diversas organizações em âmbito nacional e internacional. FUNDAMENTOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVAUNIDADE 1 13 Cabe destacar que não existe um conceito único para definir a expressão governança corporativa, pois cada autor e cada organização formam seus próprios conceitos. Tomemos como exemplo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)Nações Unidas (ONI) sobre o Meio Ambiente Humano, em Estocolmo, cujo início, no dia 5 de junho de 1972, passou a ser comemorado como o Dia Mundial do Meio Ambiente. Outros marcos importantes foram a criação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e a publicação do segundo relatório do Clube Roma, denominado Momento de Decisão, no qual se tenta corrigir as distorções incorridas no primeiro modelo. • Década de 1980: Lester Brown, fundador do Earth Policy Institute, cunha pela primeira vez o termo “sustentabilidade”. Gro Brundtland, primeira-ministra da Noruega, pública o “Our common future”, também conhecido como “Nosso futuro comum” ou “Relatório Brundtland”, apresentando o conceito de desenvolvimento sustentável, a única alternativa para o futuro da humanidade. Nesse período, o foco foi avançar na definição de Responsabilidade Social Empresarial, porém, por meio do perfil de atuação na responsabilidade social a fim de elaborar estratégias empresariais com foco mais ambiental, ou mais social, enfatizando os princípios e valores organizacionais querem refletir em suas ações, o modo de conduzir os negócios e como deve agir as lideranças. Se inicia a discussão sobre a ética nas organizações e passa a ser outro pilar da responsabilidade social. • Década de 1990: surgem os estudos de Carroll, autor nomeado na área, que fundamenta a importância da empresa ir além das suas fronteiras e de suas relações de negócios para realmente promover uma sociedade justa e mais sustentável. Nesse período, a assinatura do Protocolo de Quioto foi o passo internacional para a sustentabilidade como pilar da responsabilidade social. Em 1999, há um movimento global na ONU para o Pacto Global da Responsabilidade Social e uma busca de valores universais para os negócios. Nos Estados Unidos, surge o índice de sustentabilidade Dow Jones. GOVERNANÇA CORPORATIVA: A ÉTICA E A SUSTENTABILIDADEUNIDADE 4 98 • Anos 2000: ampliação dos temas relacionados à ética e à compliance, em função de diversos fatos que culminaram no fechamento de muitas organizações nos Estados Unidos, assim como impactos na economia global. Simultaneamente aos problemas econômicos, são elaborados os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio a serem alcançados por 191 estados ligados à ONU, em 2015. Nesse período, um evento importante estabelece os Princípios do Equador, acordo entre mercado financeiro e as organizações. Banco Mundial e International Finance Corporation (IFC), em conjunto com uma série de bancos privados, firmam critérios de análise de risco socioambiental no financiamento de projetos acima de 50 milhões de dólares (reduzidos em 2006 para 10 milhões de dólares). GOVERNANÇA CORPORATIVA: A ÉTICA E A SUSTENTABILIDADEUNIDADE 4 99 Dentre as principais normas e certificações voltadas para a responsabilidade social das organizações, destacam-se a ISSO 26000, NBR 16001 e a SA 8000. Tais normas aplicam-se a todos os tipos de organização, independentemente do porte, setor e/ou localização geográfica. 6.1 SA 8000 Criada em 1989 pela Social Accountability International (SAI), afiliada ao Conselho de Prioridades Econômicas, o padrão SA 8000 (Social Accountability 8000) é baseado nos princípios internacionais contidos na norma ILO (Organização Internacional do Trabalho), UN – Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Convenção dos Direitos da Criança (Vanzolini, 2015). Assim, a SA 8000 trata-se de uma norma abrangente, global e verificável para auditoria e certificação de conformidade com a responsabilidade corporativa. A referida oferece uma norma transparente e mensurável para certificação da performance das empresas em nove áreas essenciais, sendo elas, de acordo com o Portal Vanzolini (2015): 1. Trabalho Infantil: proíbe o trabalho infantil. 2. Trabalho Escravo: os trabalhadores não podem ser obrigados a entregar seus documentos de identidade ou pagar “depósitos” como uma condição de emprego. RESPONSABILIDADE SOCIAL, ENTIDADES PADRONIZADORAS E A CERTIFICAÇÃO INTERNACIONAL6 TÓPICO GOVERNANÇA CORPORATIVA: A ÉTICA E A SUSTENTABILIDADEUNIDADE 4 100 3. Saúde e Segurança: as empresas devem cumprir as normas básicas para um ambiente de trabalho seguro e saudável, incluindo água potável, instalações sanitárias, equipamentos de segurança aplicáveis e treinamento necessário. 4. Liberdade de Associação: protege os direitos dos funcionários para formar e aderir a sindicatos, e de negociar coletivamente, sem medo de represálias. 5. Discriminação: nenhuma discriminação com base em raça, casta, origem, religião, deficiência, gênero, orientação sexual, associação a sindicato ou afiliação política. 6. Práticas Disciplinares: proíbe o castigo corporal, mental ou coerção física e abuso verbal dos trabalhadores. 7. Horário de Trabalho: máximo de 48 horas de trabalho, com um mínimo de um dia de folga, e um limite de 12 horas extras por semana, remunerados a uma taxa superior. 8. Compensação: os salários pagos devem cumprir todos os requisitos mínimos legais e proporcionar um rendimento suficiente para as necessidades básicas. 9. Gestão: estabelece procedimentos para implementação da gestão eficaz e análise da conformidade com a norma da SA 8000, da designação de pessoal responsável para manutenção de registros, abordando as preocupações e tomada de ações corretivas. Deste modo, a norma é aplicável em qualquer tipo de organização, independentemente do seu tamanho, porte ou qualquer outro requisito, pois trata-se da comprovação do compromisso com a responsabilidade social e o tratamento ético dispensado aos seus colaboradores. 6.2 ISO 26000 No dia 1º de novembro de 2010, foi publicada a Norma Internacional ISO 26000 – Diretrizes sobre Responsabilidade Social, cujo lançamento foi em Genebra, Suíça. No Brasil, no dia 8 de dezembro de 2010, a versão em português da norma, a ABNT NBR ISO 26000, foi lançada em evento na Fiesp, em São Paulo. Segundo a ISO 26000, a responsabilidade social se expressa pelo desejo e pelo propósito das organizações em incorporarem considerações socioambientais em seus processos decisórios e a responsabilizar-se pelos impactos de suas decisões e atividades na sociedade e no meio ambiente. Todavia, isso implica um comportamento ético e transparente que contribua para o desenvolvimento sustentável, que esteja em conformidade com as leis aplicáveis e seja consistente com as normas internacionais de comportamento, e que a responsabilidade social esteja integrada em toda a organização. GOVERNANÇA CORPORATIVA: A ÉTICA E A SUSTENTABILIDADEUNIDADE 4 101 A ISO 26000:2010 é uma norma de diretrizes e de uso voluntário; visto que não visa, e nem é apropriada a fins de certificação. Qualquer oferta de certificação ou alegação de ser certificado pela ABNT NBR ISO 26000 constitui em declaração falsa é incompatível com o propósito da norma (INMETRO, 2013). 6.3 NBR 16001 A ABNT NBR 16001 – Responsabilidade social – Sistema da gestão – Requisitos teve sua primeira edição publicada em novembro de 2004 e a sua segunda versão em julho de 2012. A versão de 2012 foi baseada na diretriz internacional ISO 26000 publicada em novembro de 2010. Deste modo, a NBR 16001 é uma norma de sistema de gestão, passível de auditoria, estruturada em requisitos verificáveis, permitindo que a organização busque a certificação por uma terceira parte, o que não ocorre com a ISO 26000 que é uma norma de diretrizes (INMETRO, 2015). Por fim, a referida norma estabelece requisitos mínimos relativos a um sistema de gestão da Responsabilidade Social, permitindo à organização formular e implementar uma política e objetivos que levem em conta as exigências legais, seus compromissos éticos e sua preocupação com a promoção da cidadania e do desenvolvimento sustentável, além da transparência das suas atividades. Segundo Ursine & Sekiguchi (2005 apud INMETRO, 2015), os pontos mais relevantesdesta norma são: É aplicável a todos os tipos e portes de organização. Embora o público usual de normas de sistemas de gestão sejam as grandes corporações, essa norma foi redigida de forma a aplicar-se também às pequenas e médias empresas, de qualquer setor, bem como às demais organizações públicas ou do terceiro setor que tiverem interesse em aplicá-la; Entendimento amplo do tema “Responsabilidade Social”. Essa norma incorporou o conceito mais amplo de Responsabilidade Social, ao aproximá- lo do desenvolvimento sustentável e incluir em seu cerne, o engajamento e a visão das partes interessadas; Necessidade de comprometimento dos funcionários e dirigentes de todos os níveis e funções. Em diversos pontos da norma, ressalta-se a necessidade de comprometimento dos dirigentes e funcionários de todos os níveis e funções, em especial os da alta direção, uma vez que se trata de um tema transversal; Necessidade de uma política da responsabilidade social e o desenvolvimento de programas com objetivos e metas. A norma prescreve que a alta administração deve definir a política de Responsabilidade Social, “consultando as partes interessadas” e assegurando, dentre outros tópicos, que a mesma “inclua o comprometimento com a promoção da ética e do desenvolvimento sustentável”. Na etapa de planejamento, a organização deverá estabelecer, implementar e manter objetivos e metas da Responsabilidade Social, com o envolvimento de funções e níveis relevantes dentro da organização e demais partes interessadas. GOVERNANÇA CORPORATIVA: A ÉTICA E A SUSTENTABILIDADEUNIDADE 4 102 Em setembro de 2015, a Volkswagen mundial reconheceu que fraudou cerca de 11 milhões de veículos movidos a diesel em todo o mundo para driblar testes ambientais. No acordo, a Volks concordou em cooperar plenamente com as investigações em curso contra executivos e funcionários da empresa. A desventura da montadora começou em 2013, quando o alardeado baixo nível de emissões dos veículos Volkswagen com motor a diesel levou pesquisadores norte-americanos a estudar o sistema. O resultado encontrado foi surpreendente: havia clara discrepância entre o estudo nas ruas e os números dos testes oficiais realizados em laboratório. Em consequência, a Agência de Proteção Ambiental (EPA) do governo americano foi alertada. A agência governamental não tardou em descobrir que um software instalado na central eletrônica dos carros alertava as emissões de poluentes apenas quando os veículos eram submetidos à vistoria. Diante desta grave evidência, o governo norte-americano acusou a Volkswagen de burlar os dados de emissões de gases poluentes, no intuito de parecer satisfazer os níveis exigidos legalmente. Um processo criminal foi aberto na sequência. O escândalo levou o presidente da montadora, Martin Winterkon, a pedir desculpas e a demitir-se da companhia. Em 48 horas, as ações da montadora alemã caíram 34%, ocasionando a perda de 25 bilhões de euros. Os desdobramentos do caso ainda não estão esgotados e alguns podem ser anotados: nos EUA, a Volks pagará até 25 bilhões de dólares a 500 mil donos de carros, quer na compra dos veículos, quer no reparo e compensação pelos danos causados. Além disso, a Volkswagen declarou-se culpada de três crimes e pagará US$ 4,3 bilhões para encerrar investigações criminais e civis conduzidas pelo governo norte-americano. Fonte: Srour (2018, p. 35). SAIBA MAIS GOVERNANÇA CORPORATIVA: A ÉTICA E A SUSTENTABILIDADEUNIDADE 4 103 Prezado(a) aluno(a), nesta unidade vimos sobre a Ética e a Sustentabilidade na Governança Corporativa, reforçando o quanto a Governança impacta na imagem de uma organização. Desta maneira, podemos concluir que, no contexto organizacional, a ética ocupa um lugar curioso nos corações e mentes de numerosos administradores de empresa. Em síntese, o termo ética trata-se de uma ciência do comportamento humano, que, quando usada positivamente, nos permite viver em sociedade e em conformidade com os demais seres humanos, evitando, assim, um colapso. Ainda assim, vimos que o assunto pode impactar negativamente na imagem de qualquer organização perante o mercado, podendo “manchar” a reputação e imagem da marca ou empresa. Já quanto à sustentabilidade, vimos que, com o passar do tempo, o termo foi agregando assuntos fundamentais. A sustentabilidade e o desenvolvimento sustentável representam temas e desafios centrais da atualidade, alcançando status de relevância no meio acadêmico e empresarial. Sustentabilidade está entre os conceitos mais utilizados pelas organizações públicas ou privadas nos seus meios de comunicação. Muitas vezes, com a intenção de agregar valor a tais produtos ou de minimizar os impactos negativos de seus produtos (Boof, 2016). Em seguida, entramos no mundo das Responsabilidade Social, diante dos diversos significados que o termo assume na literatura, o assunto é classificado em quatro categorias de acordo com a motivação principal do ato: (a) Econômico: a principal função de empresas com fins lucrativos; (b) Legal: por estar inserida na sociedade, precisa enquadrar-se nos códigos e normas instituídos; (c) Ético: diz respeito a códigos relacionais implícitos que não estão, necessariamente, descritos na forma de lei; e, (d) Discricionário: que envolve ações de cunho estritamente voluntário (Carroll 1979 apud Freguete; Nossa; Funchal, 2015, p. 236). Por fim, vimos sobre as principais normas e diretrizes a respeito da Responsabilidade Social nas organizações, vimos que seu papel é certificar e dar credibilidade aos processos de uma empresa. Deste modo, as organizações lidam com temas intangíveis e de conceitos mais abstratos que afetam concretamente seus lucros, tais como a sua reputação com os clientes e com o mercado, e a ética. Com isso, consequentemente, as companhias de hoje são protagonistas da responsabilidade social. CONSIDERAÇÕES FINAIS GOVERNANÇA CORPORATIVA: A ÉTICA E A SUSTENTABILIDADEUNIDADE 4 104 MATERIAL COMPLEMENTAR FILME/VÍDEO • Título: A negociação. • Ano: 2012. • Sinopse: Às vésperas de vender sua empresa milionária, Robert Miller, um magnata da bolsa de valores, envolve-se em um acidente automobilístico, causando a morte de uma pessoa. Para preservar sua imagem, ele esconde sua responsabilidade no caso. Mas um investigador está disposto a descobrir o verdadeiro culpado, sabotando todos os planos de Robert. LIVRO • Título: Por que fazemos o que fazemos? • Autor: Mario Sergio Cortella. • Editora: Planeta. • Sinopse: Bateu aquela preguiça de ir para o escritório na segunda- feira? A falta de tempo virou uma constante? A rotina está tirando o prazer no dia a dia? Anda em dúvida sobre qual é o real objetivo de sua vida? O filósofo e escritor Mario Sergio Cortella desvenda em Por que fazemos o que fazemos? As principais preocupações com relação ao trabalho. Dividido em vinte capítulos, ele aborda questões como a importância de ter uma vida com propósito, a motivação em tempos difíceis, os valores e a lealdade a si e ao seu emprego. O livro é um verdadeiro manual para todo mundo que tem uma carreira, mas vive se questionando sobre o presente e o futuro. Recheado de ensinamentos como “Paciência na turbulência, sabedoria na travessia”, é uma obra fundamental para quem sonha com realização profissional sem abrir mão da vida pessoal. GOVERNANÇA CORPORATIVA: A ÉTICA E A SUSTENTABILIDADEUNIDADE 4 105 CONCLUSÃO GERAL Prezado(a) aluno(a), neste material trouxemos os conceitos mais relevantes acerca da governança corporativa. Na Unidade I, iniciamos nossos estudos fazendo uma viagem através das origens e da história da governança corporativa, conceituando-a. Contemplamos o problema do conflito da agência; os princípios norteadores da governança corporativa, bem como, os princípios norteadores da governança corporativa da OCDE, e buscamos a conexão existente entre a governança corporativa e a globalização. Essa noção geral foi primordialpara o entendimento dos assuntos que foram abordados nas demais unidades, e especialmente na segunda unidade da apostila, que focou a governança corporativa no mundo. Na Unidade II, tratamos especificamente dos modelos e níveis de governança corporativa ao redor do mundo, e, para tanto, estudamos a governança corporativa nos seguintes países: Estados Unidos; Reino Unido; França; Japão; Alemanha; Rússia, e tivemos a oportunidade de conhecermos, juntos, os níveis de governança corporativa da Bovespa. Em seguida, nas Unidades III e IV, ampliamos nossos conhecimentos sobre a governança corporativa, focando os órgãos da governança e a ética e sustentabilidade. Para isso, na Unidade III, conhecemos os órgãos da governança corporativa, suas características, funções e objetivos, e nos foi possível conhecer a composição e o funcionamento da governança corporativa nas organizações. Ficou evidente que cada mecanismo procura enfatizar a transparência, controle, responsabilidade e confiabilidade das organizações perante o mercado, com vistas à atração de investidores para as mesmas. Já na Unidade IV, trabalhamos sob o enfoque da ética e da responsabilidade social das organizações, e a sua ligação com a governança corporativa. Vislumbramos como esses temas podem impactar de maneira positiva ou negativa na reputação, imagem e credibilidade das organizações. Conhecemos e discutimos a responsabilidade social sobre a ótica das principais normas e certificações relacionadas ao tema, tais como: ISSO 26000; NBR 16001 e a SA 8000. Nos foi possível saber que tais normas se aplicam a todos os tipos de organizações, independentemente do porte, setor e/ou localização geográfica. Estou certo de que, a partir de agora, você já está seguro(a) e se sentindo preparado(a) para seguir em frente, convicto(a) da importância da Governança Corporativa e dos benefícios trazidos no que se refere à demonstração da real situação financeira, agregação de valores na marca das empresas. Estou certo de que você está ansioso(a) para pesquisar mais sobre o assunto e aprofundar seus conhecimentos acerca deste que é, sem dúvidas, um dos assuntos mais importantes da atualidade. Até uma próxima oportunidade. Muito obrigado! 106 AGUILAR, F. J. A ética nas empresas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996. ANDRADE, Adriana. ROSSETTI, José Paschoal. 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Já o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC, 2009, p. 19) define a governança corporativa como um “sistema pelo qual as organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, envolvendo os relacionamentos entre proprietários, conselho de administração, diretoria e órgãos de controle”. Enquanto que, para Silveira (2010), a governança corporativa é um conjunto de mecanismos que funciona para assegurar que as tomadas de decisões referentes à corporação proporcionem a maximização de geração de valor de longo prazo para o negócio. Sob um outro enfoque, Silva (2006, p. 5) define que a governança corporativa é: Um conjunto de princípios e práticas que procura minimizar os potenciais conflitos de interesse entre os diferentes agentes da companhia (stakeholders) com o objetivo de reduzir o custo de capital e aumentar tanto o valor da empresa quanto o retorno aos seus acionistas. É importante ressaltar que, mesmo diante desta diversidade de conceitos, há uma unanimidade de todos ao enxergarem a governança corporativa como um instrumento de proteção, especialmente dos shareholders, no que se refere ao conflito de interesses entre o agente e o principal e entre o acionista majoritário e o minoritário (Jensen; Meckling, 1976), como também dos demais stakeholders internos e externos à empresa (Phillips, 2003) em relação aos conflitos de interesses em tomadas de decisões, sem contar o fato de se tratar de um mecanismo eficiente para melhorar a lucratividade e a perenidade da empresa. Todas as empresas precisam de governança! Todas as organizações – com ou sem fins lucrativos – possuem diferentes estruturas de gestão, de poder e de organização. Elas podem ser privadas, públicas, pequenas, médias ou grandes – todas possuem uma forma mais ou menos complexa de ser governada. Sendo assim, a governança corporativa é um tema para todas as empresas. Cabe a elas definir quais as prioridades para o seu contexto. Fonte: Silveira (2014 apud Giacomell et al., 2017). SAIBA MAIS FUNDAMENTOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVAUNIDADE 1 14 Por mais que algumas empresas enxerguem a Governança Corporativa como mera ferramenta de marketing, é evidente que a mesma é o alicerce para uma boa gestão e consequentemente bons resultados. Concorda? Fonte: o autor (2020). REFLITA FUNDAMENTOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVAUNIDADE 1 15 Olá, acadêmico(a), iniciamos os nossos estudos neste tópico destacando aquela que talvez seja a maior preocupação nas empresas, a garantia de que as decisões dos gestores irão maximizar o valor da empresa e consequentemente de suas ações. O desenvolvimento da Teoria da agência foi obra de Jensen e Meckling (1976). O ponto focal desta teoria é a existência de um sistema de compensação por parte do ator principal, quando a gente passa a agir de acordo com seus interesses, mediante o cumprimento de um contrato estabelecido entre ambos. O controle e a gestão das firmas tiveram suas estruturas alteradas em conjunto com as mudanças ocorridas na economia. Organizações que, no passado, estavam literalmente nas mãos dos proprietários, os quais detinham não só as ações, como também a gestão das empresas, agora são surpreendidas com a separação das funções de administrador e proprietário. Essas alterações retromencionadas, que ocorreram no mundo moderno, revolucionaram a estrutura societária das empresas, pois, até então, a estrutura concentrava- se em uma pessoa ou em um pequeno grupo, e hoje conta com diversos acionistas em sua composição. A estrutura gerencial das organizações também passou por alterações, pois no passado o proprietário também era o gerente e o principal executivo, e atualmente existe uma clara separação entre os acionistas, detentores do capital, e os gestores (administradores), que têm a responsabilidade de gerenciar o capital investido pelos acionistas (Martin; Santos; Filho, 2004). O PROBLEMA DO CONFLITO DE AGÊNCIA OU CONFLITO DE AGENTE PRINCIPAL2 TÓPICO FUNDAMENTOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVAUNIDADE 1 16 Tal separação foi necessária em virtude do alto grau de complexidade das operações que fazem parte do dia a dia das organizações, com isto demandando especialistas para ocupar os cargos gerenciais dos diversos setores operacionais da organização. Dessa forma, a gestão das organizações passou a ser desempenhada por profissionais gabaritados para tal, o que certamente contribuiu para a expansão dos negócios e, consequentemente, do patrimônio dessas organizações. O relacionamento de agência nada mais é que o relacionamento entre os acionistas e administradores. Mas é fundamental o entendimento de que os administradores têm seus interesses próprios e tendem a procurar minimizá-los, sendo exatamente nesse momento que as suas decisões poderão ser desconexas aos interesses dos acionistas, surgindo daí o que é denominado de conflito de agência. Conflito de agência é a probabilidade de desencontro de interesses entre acionistas e administradores, cenário em que, numa mesma situação, um tentará tirar vantagens do outro. Há o envolvimento de problemas de assimetria de informações entre o agente e o proprietário, cenário que faz parte das considerações de Jensen e Meckling (1976). É nesse contexto que a Teoria da Agência atua, com vistas a proceder à análise dos eventuais conflitos e custos oriundos dessa separação entre a propriedade e o controle do capital, o que certamente dá origem às chamadas assimetrias informacionais, aos riscos, bem como a outras dificuldades e problemas relacionados à relação principal-agente (Jensen; Meckling, 1976). A teoria de agência, que explica o conflito de agência, tem sua origem na dispersão de capital e resulta no surgimento da governança corporativa. Por ser uma das teorias que dá base à GC, é importante entender como ela ocorre. A relação de agência é desenvolvida como uma equalização entre os interesses do principal (acionistas) e do agente (gestores). O problema dessa relação surge, de acordo com a teoria, quando os acionistas estão concentrados em decisões que aumentam o valor do negócio, a riqueza dos proprietários e o retorno dos investimentos, enquanto os gestores tomam decisões mais centradas em seus próprios interesses (resultados de curto prazo, comissionamentos, etc). O conflito de agência surge em torno dessa relação com divergência de interesses. A governança e, principalmente, o conselho de administração são os responsáveis por minimizar os efeitos dessa divergência e priorizar os interesses da organização. Fonte: Jensen e Meckeling (1976) apud Giacomell et al., (2017). SAIBA MAIS FUNDAMENTOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVAUNIDADE 1 17 Seria, então, o conflito de agência, o confronto de interesses entre os acionistas de uma empresa e os seus gestores? Fonte: o autor (2020). REFLITA FUNDAMENTOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVAUNIDADE 1 18 Conforme as empresas crescem, o volume de processos tende a crescer também e, com isso, os controles internos precisam ser aprimorados. Caso elas tenham se preocupado, desde o começo, com a padronização de procedimentos, estabelecendo fluxos e definindo controles, provavelmente haverá melhorias internas, naturalmente e gradualmente. Caso contrário, um grande esforço dos administradores e da alta direção serão necessários para manter a organização na devida ordem. É por meio da governança que as empresas desenvolvem os mecanismos de controle, pois, desta maneira, praticamente todas as ações executadas tendem a estar em conformidade com os seus valores e de acordo com as questões regulamentares e éticas. Por conta disso, que sua aplicação se inicia com os profissionais que trabalham na organização, visto que, sem dúvida alguma, eventuais condutas que, por ventura, estejam em desacordo com os valores e bons princípios, fatalmente irão denegrir acredibilidade e, consequentemente, a imagem da organização. Em nosso país, infelizmente, vários são os exemplos relacionados a isso, concorda? Nesse momento, você deve estar se perguntando: “Mas que valores seriam esses?”. Cabe destacar que cada organização detém um conjunto de valores. E com o objetivo de complementá-los, a governança estabelece quatro princípios, os quais são tidos como vitais para um bom sistema de Governança Corporativa. Eles atuam como os pilares, pois são com um alicerce que garantirá uma administração íntegra e sem margem para práticas ilícitas, trazendo a certeza de que tanto os interesses internos, quanto os externos PRINCÍPIOS NORTEADORES DA GOVERNANÇA CORPORATIVA3 TÓPICO FUNDAMENTOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVAUNIDADE 1 19 dos stakeholders (em português, parte interessada, interveniente) estejam devidamente alinhados e, não menos importante que isso, protegidos. De acordo com Godoi (2020, p. 29), os stakeholders classificam-se em quatro grupos, sendo eles: I. Stakeholders: como sendo os proprietários e investidores da empresa; II. Internos: como aqueles efetivamente envolvidos com a gestão da organização; III. Externos: sendo aqueles que estão integrados à cadeia de negócios; IV. Entorno: representado pelo governo, organizações não governamentais e comunidades onde atuam as empresas, as quais não participam diretamente das cadeias de geração de valor. É salutar destacar que as boas práticas de Governança Corporativa convertem princípios básicos em recomendações objetivas, alinhando interesses com a finalidade de preservar e otimizar o valor econômico de longo prazo da organização, facilitando seu acesso a recursos e contribuindo para a qualidade de gestão da organização, sua longevidade e o bem comum. Tais princípios permeiam, em maior ou menor grau, todas as práticas do código, e sua adequada adoção resulta em um clima de confiança, tanto internamente como nas relações com terceiros (Blok, 2017). Tais princípios são representados na figura a seguir: Segundo o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (2007), os princípios tidos como básicos da Governança Corporativa são: FIGURA 1 – PRINCÍPIOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVA Fonte: o autor (2020). FUNDAMENTOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVAUNIDADE 1 20 • Transparência (Disclousure) - não é por acaso que esse é um dos princípios da governança corporativa, pois é óbvio que a gestão deve incentivar uma comunicação interna e externa com qualidade, pois, como sabemos, a transparência é primordial para uma relação sadia entre organização e seus parceiros de negócio. Não há dúvidas de que menos informações geram um clima de incertezas, e, por conta disso, é primordial que a comunicação ocorra em todos os setores da organização, pois somente desta forma haverá a desejada criação de valor; • Equidade (Fairness) – dentre os princípios da governança corporativa, o da equidade defende uma abordagem igualitária na relação entre a organização e seus stakeholders. Espera-se, com isso, um tratamento pautado na justiça e igualdade, especialmente dos grupos minoritários, sejam eles de capital ou das demais partes interessadas. • Prestação de Contas (Acconuntability) – de acordo com esse princípio, deverá haver a prestação de contas acerca da atuação de todos os agentes da governança corporativa a quem os elegeu, e principalmente a responsabilização de maneira integral por todos os atos que praticarem no decorrer de seus mandatos. É importante destacar uma eventual quebra de confiança por parte de sócios, diretores ou administradores – seja por incompetência, negligência, atos pensados, omissão de fatos cruciais –, certamente serão o combustível para conflitos e, com isso, a imagem da organização será manchada. • Responsabilidade Corporativa (Compliance): o último dos princípios da governança preza pela imagem da organização. Esse princípio sugere que as empresas precisam dispensar uma atenção especial, no que se refere ao tratamento de seus funcionários, bem como na preservação ambiental, no zelo ao lidar com as diferenças culturais, na atuação ética no comércio, dentre outros. Certamente, uma organização que atua zelando pela responsabilidade corporativa irá impactar de maneira positiva na comunidade e, consequentemente, conquistará a viabilidade financeira de suas operações. Pode-se dizer, que não existe uma completa harmonia no que se refere a utilização das práticas de governança, más é possível se afirmar que todos são pautados nos princípios da independência, transparência e na prestação de contas (accountability) como estratégia para alavancar os seus negócios no país, atraindo novos investidores (Silva, 2012). Vimos que os princípios definidos pelo IBGC são essenciais para uma administração organizacional focada na proteção dos interesses das partes envolvidas, sem margem para práticas ilícitas, ou seja, uma gestão íntegra. FUNDAMENTOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVAUNIDADE 1 21 Inicialmente, a governança corporativa estava focada no conflito entre o agente e o principal (Jensen; Mecking, 1976). Não é de hoje que a conduta entre ambos vem sendo discutida, mas o grande marco histórico que trouxe realmente a orientação da governança aconteceu no ano de 1992, ano em que houve a divulgação do Relatório Cadbury. Relatório este que foi o resultado de um excelente trabalho desenvolvido por Adrian Cadbury e outros participantes do comitê idealizado pelo Banco da Inglaterra, o Relatório Cadbury (1992) teve como objetivo partilhar os padrões a serem utilizadas no mercado financeiro, relacionados a elaboração dos demonstrativos contábeis e prestações de contas, contribuindo sobremaneira para a evolução da governança corporativa. Um grande marco histórico neste processo evolutivo da governança corporativa ocorreu no ano de 1998, ano em que a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE, 1999), em conjunto com os setores público e privado, e outras organizações internacionais, baseados na expertise do membros da comissão, procederam à elaboração de um importante conjunto de princípios alinhados à boa prática da governança corporativa, o qual foi concebido com a expectativa de ser usado como um norteador para as bolsas de valores, organizações e seus interessados, os governos, no que tange à implantação e desenvolvimento das boas práticas da governança corporativa, seja em países membro da organização quanto em não membros que corroboram do mesmo interesse neste assunto. Mas foi somente no ano de 1999 que a OCDE realizou a publicação dos Princípios da Governança Corporativa, documento elaborado em duas partes. A primeira abordou PRINCÍPIOS NORTEADORES DA GOVERNANÇA CORPORATIVA DA OCDE4 TÓPICO FUNDAMENTOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVAUNIDADE 1 22 as mais importantes conclusões que resultaram em cinco princípios, já a segunda focou nas orientações relacionadas a cada um destes princípios. Vejamos os Princípios (OCDE, 2004): • Direito dos acionistas - uma boa estrutura de Governança Corporativa deve garantir os direitos dos acionistas de participar das decisões, e devem ser comunicados sobre as eventuais mudanças corporativas. Deve ser oportunizado aos acionistas a participação efetiva nas assembleias gerais ordinárias, exercendo o direito de voto, bem como o acesso aos regulamentos e aos procedimentos de votação. As estruturas de capital precisam ser devidamente divulgadas e medidas que possibilitem a alguns acionistas a obtenção de um percentual de controle de forma desproporcional a suas participações no capital da empresa. • Tratamento equitativo dos acionistas - tratamento igualitário a todos os acionistas deve ser assegurado, sem exclusão dos minoritários e dos estrangeiros. A efetiva reparação, em caso de violação dos direitos, deverá ser oportunizada a todos os acionistas. As práticas respaldadas em informações privilegiadas, bem comoem negociações abusivas, devem ser expressamente proibidas. Deve ser obrigatório aos conselheiros e à diretoria executiva a divulgação de todos os fatos relevantes relacionados a transações ou assuntos que guardem relação direta com a empresa. • O papel das partes interessadas (stakeholders) na governança corporativa – é vital que haja um reconhecimento e uma proteção aos direitos das partes interessadas (stakeholders), conforme previsão em lei, devendo ser assegurada a possibilidade de uma efetiva reparação em caso de violação de seus direitos, além de ser apoiada a colaboração ativa entre empresas e partes interessadas (stakeholders) no que se refere a geração de riquezas, oportunidade de empregos e na preservação de empresas que sejam economicamente sólidas. • Divulgação e transparência (Disclosure) – deve haver a garantia de uma divulgação objetiva e tempestiva das informações relevantes da empresa, inclusive sobre sua situação financeira, desempenho, estrutura de propriedade e sua governança. Tais informações deverão ser preparadas, obrigatoriamente auditadas e, após isso, divulgadas em conformidade com os mais rigorosos critérios contábeis e de auditoria, no que se refere à divulgação financeira e não- financeira. Deverá ainda ser realizada uma auditoria anual por uma empresa e/ ou auditor independente, com o intuito de proporcionar um parecer autônomo em relação à forma pela qual os demonstrativos financeiros foram levantados e apresentados. Os meios para divulgação das informações devem oportunizar a todos os usuários um acesso no momento oportuno e com custo compatível às informações mais relevantes. FUNDAMENTOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVAUNIDADE 1 23 • As responsabilidades do conselho – a atuação dos conselheiros deverá ser pautada em informações completas, com nexo e verídicas, e deverão agir com critério, com as devidas precauções e sempre focadas no melhor interesse da empresa e dos seus acionistas. O tratamento dispensado aos acionistas pelo conselho deve ser justo, mesmo que suas decisões afetem de forma diferente os variados grupos acionários e deve, ainda, preservar o cumprimento da legislação pertinente, considerando os interesses dos acionistas. Cabe ressaltar que tal documento deve ser encarado apenas como um referencial, sendo pertinente o seu estudo e a realização de adaptações em função de peculiaridades socioeconômicas, culturais e jurídicas de cada nação envolvida, e por sua característica evolutiva, foram publicadas e revisadas outras edições com o passar dos anos, após sua publicação inicial (IBGC, 2009; OCDE, 2004). A eficiência administrativa para resolução de conflitos internos e a transparência agregam valor à empresa, pois a adoção de boas práticas não beneficia apenas o interesse de seus donos, mas do mercado como um todo. As empresas mais estruturadas e com maior longevidade são apostas de baixo risco para os investidores. Os conceitos adotados pela Governança Corporativa são essenciais para avaliar retornos de investimento e garantir a melhor opção no mercado. Fonte: Empresas & Cooperativas (2019). SAIBA MAIS A gestão de uma empresa não é um processo fácil e a governança corporativa é a resposta. As diretrizes, valores e pretensões devem ser claras dentro do estatuto social para entender a imagem que a empresa deseja passar para o mercado. Fonte: Empresas & Cooperativas (2019). REFLITA FUNDAMENTOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVAUNIDADE 1 24 O cenário atual das relações econômicas internacionais evidencia o aumento das preocupações relacionadas ao monitoramento dos riscos aos quais as organizações estão expostas frequentemente (Candeloro; Benevides, 2013). Nas últimas décadas, o mercado global foi assolado por conta da herança herdada das crises financeiras, tornando-se evidente a necessidade de implantação de sistemas de gestão mais confiáveis no mundo corporativo. A partir da herança tomada com as crises financeiras que abalaram o mercado mundial nas últimas décadas, tornou-se necessária a ampliação dos esforços para a implantação de melhores sistemas de gestão na seara empresarial. Contexto que fez com que tanto os executivos quanto os investidores, além é claro dos consumidores, os quais foram impactados sobremaneira em suas atividades, passassem a dispensar esforços significativos no que se refere à análise e estudo das circunstâncias que motivam as variações do mercado de capitais e, por consequência, os reflexos, não raramente catastróficos, no setor privado, conforme suscita McBarnet (2009). A esse respeito, Damodaran (2010), é bastante explícito. Destaca-se que a noção de risco é típica da atividade humana; nota-se impossível desassociar-se um do outro, sem que, com isso, uma característica essencial do homem se perca. Sendo assim, observa-se que o risco está intimamente ligado ao dia a dia do homem na realização de suas atividades; sendo tal compreensão própria da condição da vida humana, pois, ao analisar os papéis realizados pelo homem na natureza, é impossível associar-se uma ideia de resultado sem que haja um risco anterior ligado a ele. GOVERNANÇA CORPORATIVA E A GLOBALIZAÇÃO5 TÓPICO FUNDAMENTOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVAUNIDADE 1 25 Conforme referido, tal inquietação motivou um estudo de modo mais explícito do fenômeno corporativo. A conexão entre o estudo do empreendedorismo e dos riscos a ele associados passou a ser visto como a maneira eficaz de se combater as situações práticas que vivenciavam – e diga-se de passagem, ainda vivenciam – os mercados nacionais totalmente conectados; nesse momento, o espaço territorial foi ultrapassado, como consequência da globalização e da integração das economias, algo que no cenário financeiro nunca havia sido contemplado com tamanha repercussão (Silva, 2011). Nessa direção, emergem a atenção ao conteúdo normativo, bem como as codificações voluntárias, ambos como uma manifestação direta da governança corporativa, a qual traz em sua proposta de desenvolvimento sustentável da atividade empreendedora. O sistema de capitais passa a atuar num formato mais exigente, tornando obrigatório o desenvolvimento de medidas capazes de auxiliar o exercício das atividades exercidas no âmbito comercial, com vistas a limitar as flutuações e os efeitos decorrentes das crises financeiras. Aflora o desejo por mais controle e segurança interna por parte das companhias, um bloqueio às eventuais fraudes e abuso de poder por parte dos gestores e componentes da alta administração. Tendo sido este o ponto focal dos debates ocorridos no decorrer das décadas de 1970 - 1990 (Erse, 2008). É evidente que as práticas empresariais, de um modo geral, vêm sendo influenciadas pela globalização, sendo possível, inclusive, a prática da modelagem, possibilitando uma maior celeridade em seu desenvolvimento. Muito se fala acerca dos efeitos negativos da globalização, mas o mesmo não ocorre em relação às contribuições e efeitos positivos. É público e notório que a globalização trouxe consigo uma maior concorrência entre os mercados, uma vez que as barreiras geográficas foram desfeitas, ampliando a comunicação e o compartilhamento cultural, entre outras coisas. É nesse contexto, por conta das tecnologias da informação que vem na mesma trilha, diversas empresas, buscando uma vantagem competitiva em relação aos concorrentes, passaram a adotar práticas e padrões de metodologias internacionais, sendo a Governança Corporativa um excelente exemplo disso (Jensen; Meckling, 1976). É importante que os investidores, cada vez mais internacionais e plurais, saibam em quais empresas estão investindo, como são geridas, como utilizam o capital que recebem, como se comportam no mercado – de forma ética ou não –, para que possam decidir de modo mais consciente em quais setores aplicarão seus recursos. Por fim, cabe mencionar que uma das orientações para quem é um investidor inicial no mercadode ações é justamente priorizar empresas que sigam o modelo de Governança Corporativa, já que costumam agir de modo mais transparente e ético, além de não terem uma direção fechada às opiniões dos acionistas. FUNDAMENTOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVAUNIDADE 1 26 No contexto de globalização, no qual são cada vez mais comuns as privatizações, o crescimento e a internacionalização do mercado de capitais, os escândalos corporativos e a instabilidade de alguns mercados, os investidores globais têm exigido cada vez mais instrumentos que transmitam segurança quanto ao retorno dos lucros sobre o capital investido. As garantias de lucro não existem no mundo de economia globalizada, mas as incertezas podem ser minimizadas e a governança corporativa se configura em uma padronização da gestão, capaz de passar maior credibilidade e confiança ao investidor através da transparência, da equidade, da prestação de contas. Temos visto estas questões sendo cobradas até mesmo na política nacional e, acredito que esse fato não tem relação somente com uma maior conscientização dos brasileiros com a exigência de uma postura ética por parte dos representantes da nação, mas creio que isso se relaciona a algo maior, qual seja, a credibilidade da economia nacional no cenário internacional. Fato que demonstra a influência da globalização sobre a Governança Corporativa. Fonte: Recursos Humanos & Administração (2012). SAIBA MAIS As empresas que você admira pela eficiência têm algo em comum: elas aplicam, ao mesmo tempo, a boa gestão empresarial e a governança corporativa. São conceitos relacionados, mas com diferenças pontuais. Enquanto a gestão empresarial compreende a tomada de decisões dentro de uma organização, a governança corporativa é o conjunto de regras e práticas que garantem o cumprimento dos seus deveres. Há uma sinergia inegável entre esses dois processos. Fonte: Recursos Humanos & Administração (2012). REFLITA FUNDAMENTOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVAUNIDADE 1 27 Ao chegarmos ao final desta primeira unidade, pudemos perceber a forte conexão existente entre a governança corporativa e o sucesso e perenidade das organizações. Nos foi possível conhecer o histórico e as origens da governança corporativa, bem como os princípios que a norteiam. Também foi possível sentirmos segurança para distinguir gestão empresarial e governança corporativa, a relevância da governança atuando como um conjunto de regras e boas práticas que vêm para garantir o cumprimento dos deveres das organizações. Certamente você já se sente mais confiante para discutir e, até mesmo, agregar conhecimentos aos seus pares. Ressalto que esta unidade foi estrategicamente preparada para fundamentar os seus conhecimentos, antes mesmo de buscarmos entendimento a respeito da governança corporativa no mundo. Como agora você está mais confiante, certamente, irá desfrutar dos conteúdos previstos em nossas próximas unidades, nas quais focaremos os principais modelos de governança no Brasil e no mundo. Cabe ressaltar que o fato de você ler este material demonstra sua sede por conhecimento e evolução como pessoa. Isso me motivou a escolher os tópicos abordados nesta primeira unidade, de maneira que você pudesse ter uma base clara da governança corporativa, para, a partir de agora, iniciarmos juntos um estudo de maneira mais específica. Estou certo de que você está pronto(a) e ansioso(a) para iniciar seus estudos da próxima unidade; e, por não ter a pretensão de esgotar o assunto, você certamente poderá enriquecer ainda mais seus conhecimentos por meio da continuidade de seus estudos e pesquisas sobre o tema. CONSIDERAÇÕES FINAIS FUNDAMENTOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVAUNIDADE 1 28 MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO • Título: A Caixa-Preta da Governança. • Autor: Sandra Guerra. • Editora: Best Business. • Sinopse: Este livro apresenta, de forma estruturada, a explicação detalhada de como as empresas podem desenvolver e consolidar otimizadas governanças corporativas sustentadas por adequados conselhos de administração, os quais representam o foco central das decisões das empresas que têm esses modernos modelos de gestão. Os Conselhos de Administração das empresas e, consequentemente, os conselheiros têm um novo contexto de responsabilidades nas empresas e na economia brasileira. Esses conselhos também estão com maior amplitude de atuação e com forte interação com os acionistas das empresas, o que consolida a base de sustentação da atuação da Governança Corporativa. A maior interação com os acionistas ou quotistas das empresas também é de elevada importância para os resultados das empresas, pois esta situação proporciona, de forma natural, maior atratividade das empresas no mercado. Com referência à Diretoria Executiva, o livro apresenta o procedimento estruturado para que as informações e as decisões da Governança Corporativa sejam melhor aplicadas pelas empresas. Esta nova abordagem de atuação está ocorrendo, inclusive, em empresas que não precisam, do ponto de vista legal, consolidar estas novas formas organizacionais baseadas na Governança Corporativa. Isto porque a prática tem demonstrado que esta nova estruturação pode ser fundamental para seus planos estratégicos e de desenvolvimento de novos negócios, bem como para a consolidação de fortes vantagens competitivas no mercado. Portanto, este livro proporciona uma contribuição efetiva para que as empresas possam desenvolver e operacionalizar este novo modelo de gestão e usufruir de todas as suas vantagens administrativas. Livro-texto para as disciplinas GOVERNANÇA CORPORATIVA, CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO, ESTRUTURA ORGANIZACIONAL, PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO, PROCESSO DIRETIVO e TEORIA GERAL DA ADMINISTRAÇÃO dos cursos de graduação e pós-graduação em Administração, Economia, Contabilidade e Direito. Leitura de atualização e reciclagem profissional para os acionistas, conselheiros e executivos das empresas. FUNDAMENTOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVAUNIDADE 1 29 FILME/VÍDEO • Título: O Lobo de Wall Street. • Ano: 2014. • Sinopse: Este aclamado filme, que tem o ator Leonardo DiCaprio no papel do Empresário do ramo da corretagem de ações que ficou conhecido como “O Lobo de Wall Street” por sua ascensão meteórica, não trata diretamente de Compliance & Governança Corporativa, porque cumprir a lei jamais foi a intenção de Jordan Belfort. Após cumprir pena de cinco anos de prisão, passou a dar palestras sobre vendas. O filme é um exemplo de tudo aquilo que seus colaboradores e terceiros (clientes e fornecedores) não devem fazer. Assédio sexual, assédio moral, consumo de substâncias entorpecentes, fraudes, mentiras para vender mais, “lavagem” de dinheiro e evasão de divisas são algumas das coisas que você vai ver no filme. Prisão de diretores também. Um clássico do mundo corporativo. WEB O Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) é uma organização sem fins lucrativos, referência nacional e internacional em governança corporativa. O instituto contribui para o desempenho sustentável das organizações por meio da geração e disseminação de conhecimento das melhores práticas em governança corporativa, influenciando e representando os mais diversos agentes, visando uma sociedade melhor. Fundado em 27 de novembro de 1995, em São Paulo, o IBGC desenvolve programas de capacitação e certificação profissionais, eventos e também atua regionalmente por meio de sete capítulos nos estados de Ceará, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Atualmente, o IBGC hospeda as atividades da Global Reporting Initiative (GRI) no Brasil, integra a rede de Institutos de Gobierno Corporativo de Latino America (IGCLA) e o Global Network of Director Institutes (GNDI), grupo que congrega institutos relacionados à governança e conselho de administração ao redor do mundo. • Acesse: https://www.ibgc.org.br/ FUNDAMENTOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVAUNIDADE 1 https://www.ibgc.org.br/Professor Esp. Alessandro Arraes Rodrigues GOVERNANÇA CORPORATIVA NO MUNDO2UNIDADEUNIDADE PLANO DE ESTUDO 31 • Principais modelos de governança corporativa no mundo; • A Governança Corporativa nos EUA; • A Governança Corporativa no Reino Unido; • A Governança Corporativa na França; • A Governança Corporativa no Japão; • A Governança Corporativa na Alemanha; • A Governança Corporativa na Rússia; • Níveis de governança da Bovespa. Objetivos da Aprendizagem • Apresentar a evolução da governança corporativa no mundo. • Apresentar e compreender o desenvolvimento da governança corporativa nos principais países. • Apresentar como é a governança corporativa no Bovespa – bolsa de valores brasileira. • Estabelecer a importância da governança corporativa para as organizações e seus acionistas. GOVERNANÇA CORPORATIVA NO MUNDOUNIDADE 2 32 Caro(a) aluno(a), nesta unidade da apostila da disciplina de Governança Corporativa discorreremos sobre a evolução da Governança Corporativa ao redor do mundo. Preparei esta unidade com o objetivo de demonstrar a você o quanto a Governança Corporativa é importante no contexto organizacional quanto à transparência e ao respeito com todas as partes interessadas. Deste modo, veremos que a Governança Corporativa pode ser entendida como o conjunto de normas, leis, regulamentos, públicos e privados, que organizam, direcionam e comandam as relações de uma empresa, isso é, de seus controladores e administradores com aqueles que investem nessa respectiva empresa e como ela se desenvolveu nos principais países do globo terrestre. Em nossa linha de estudo, primeiramente veremos sobre a evolução e modelos de governança corporativa ao redor do mundo, apresentaremos as características da governança corporativa nos Estados Unidos da América, no Reino Unido, França, Japão, Alemanha e Rússia. Posteriormente, veremos a evolução e a aplicação da governança corporativa na Bovespa, bolsa de valores brasileira. Por fim, veremos os indicadores de Governança Corporativa que compõem a Bolsa de Valores brasileira. Desejo-te um excelente estudo! INTRODUÇÃO GOVERNANÇA CORPORATIVA NO MUNDOUNIDADE 2 33 A Governança Corporativa varia de acordo com a trajetória de desenvolvimento de cada país e a proteção direcionada aos investidores nas variadas economias. No entanto, é possível afirmar que, em diferentes escalas, a Governança Corporativa tem possibilitado uma maior percepção das transações e das operações internas da empresa devido a uma maior precisão, clareza e objetividade na divulgação das informações econômico- financeiras (Blok, 2017). O termo Governança Corporativa começou a ser utilizado por volta da década de 90, e, como vimos, vários autores possuem conceitos acerca do tema, de maneira congruente e complementar (Silva, 2005). Não obstante, no sistema com propriedade mais difusa, presente principalmente nos Estados Unidos e Reino Unido, o conflito de interesse básico é entre administração e acionistas. Nesses sistemas, os mercados de capitais são mais ativos e desenvolvidos e são responsáveis pelas funções de monitoramento de administração das empresas. Os investidores institucionais e os conselhos de administração possuem um papel fundamental na atividade da governança corporativa, enquanto os bancos assumem somente um papel passivo na atividade de monitoramento das companhias (Silva, 2005). Ao longo do século XX, a economia dos diferentes países tornou-se cada vez mais marcada pela integração aos dinamismos do comércio internacional, assim como pela expansão das transações financeiras em escala global (IBGC, 2018). Neste contexto, as companhias foram objeto de sensíveis transformações, uma vez que o acentuado ritmo de crescimento de suas atividades promoveu uma readequação PRINCIPAIS MODELOS DE GOVERNANÇA CORPORATIVA NO MUNDO1 TÓPICO GOVERNANÇA CORPORATIVA NO MUNDOUNIDADE 2 34GOVERNANÇA CORPORATIVA NO MUNDOUNIDADE 2 de sua estrutura de controle, decorrente da separação entre a propriedade e a gestão empresarial (IBGC, 2018). Na primeira década do século XXI, o tema tornou-se ainda mais relevante e com destaque a partir de escândalos corporativos envolvendo empresas norte-americanas como a Enron, a WorldCom e a Tyco, desencadeando discussões sobre a divulgação de demonstrações financeiras e o papel das empresas de auditoria. Assim, o tema ganha bastante importância a partir do surgimento das modernas corporações, nas quais há a segregação entre o controle e a gestão. A importância dos Estados Unidos no cenário mundial, com seu expressivo mercado de capitais como fonte de recursos para empresas do mundo inteiro, tem estimulado a disseminação de sua cultura institucional em termos de controle corporativo, parecendo apontar para a hegemonia do modelo anglo-saxônico. No entanto, o modelo anglo-saxônico começou a ser questionado no final da década de 80, com a crescente perda de competitividade das empresas americanas frente às japonesas. A partir daí, o debate no estudo dos modelos anglo-saxão e nipo-germânico se intensificaram e os sistemas foram sofrendo evoluções, de forma que atualmente não encontramos os dois modelos em sua forma pura (Silva, 2005). O primeiro marco na Governança Corporativa foi a iniciativa de Robert Monks, um franco-atirador, ativista de resultados, inconformado com a passividade dos acionistas e com práticas oportunistas dos executivos das corporações dos EUA. De acordo com Blok (2017, p. 201), “as motivações de Monks foram os conflitos de agência, resultantes do divórcio entre proprietários e executivos, e o aperfeiçoamento necessário dos processos de governança nas empresas”. Monks defendia que uma organização com ativistas daria mais retorno do que uma com acionistas passivos. Assim, segundo ele, os acionistas deveriam unir forças para que as empresas atendessem aos anseios e desejos dos usuários estadunidenses ativistas, ou seja, ele foi o primeiro a perceber a importância de ser um acionista ativista. Na observação dele, isso pode ocorrer porque as empresas com ativismo societário tomam melhores decisões empresariais, então, pode-se dizer que a diferença de rentabilidade ao prêmio pelo ativismo (Gonzalez, 2012). O segundo marco na história da Governança Corporativa, fiel à cultura britânica, foi a constituição de um comitê de alta representatividade, envolvendo corporações, mercado acionário e órgãos reguladores. Já o terceiro acontecimento importante aconteceu na maior abrangência institucional, resultando no interesse de uma organização multilateral 35GOVERNANÇA CORPORATIVA NO MUNDOUNIDADE 2 pelo tema governança. E o quarto enfoca a importância da regulamentação e sua devida conformidade legal no processo (Blok, 2017). No Brasil, a Governança Corporativa começou a ser utilizada no final dos anos 1990, mais especificamente, passando a ganhar força a partir de 1998, em razão dos diversos conflitos entre acionistas controladores e minoritários, resultantes de operações de fechamento de capital de alienação de blocos de controle considerados prejudiciais pelos acionistas não controladores (Godoi, 2020). Ainda assim, a implementação das boas práticas de governança não é uma tarefa fácil e tende a ser ainda mais complicada no Brasil (Azevedo, 2000). A predominância do controle familiar, a reduzida pulverização do capital em bolsa e o reduzido percentual de acionistas com direito a voto são características que propiciam um cenário adverso à governança corporativa, e que abrem espaço para o desequilíbrio entre interesses de acionistas controladores e minoritários (Vilela, 2005). Neste sentido, de acordo com Tonani e Silva (2014, p. 55), Visando conquistar a confiança dos investidores, empresas e países perceberam a importância de incorporar algumas regras fundamentais, tais como sistemas regulatórios e leis de proteção aos acionistas; conselho de administração que atendaaos interesses e valores dos shareholders; auditoria independente; processo justo de votação em assembleias; e a maior transparência nas informações. A combinação entre aspectos estruturais relativos à legislação, regulamentação e democratização do mercado de capitais e fatores conjunturais, como políticas governamentais específicas, contribuiu para a constituição de uma estrutura acionária altamente concentrada no Brasil (Fonseca; Silveira; Hiratuka, 2016). O estímulo ao aprimoramento do modelo de governança no Brasil não coube somente às mudanças no âmbito jurídico com a criação de leis. O setor privado teve um papel importante na propagação de melhores práticas e, portanto, na minimização do conflito proveniente da assimetria de informação e poder entre os agentes envolvidos na companhia. Uma medida que se destacou foi a criação dos níveis diferenciados de governança pela BM&FBOVESPA (Nível 1, Nível 2 e Novo Mercado). A listagem nesses segmentos distingue as empresas em quesitos de governança, tendo em vista seu comprometimento voluntário com transparência das informações prestadas e proteção aos investidores, sinal recebido positivamente pelo mercado, cuja repercussão se faz sentir tanto na cotação das ações, como no acesso facilitado ao crédito (Fonseca; Silveira; Hiratuka, 2016). É importante ressaltar que os mecanismos de Governança Corporativa, de acordo com a literatura sobre a Teoria da Agência, propõem vários fatores de uma boa governança, 36GOVERNANÇA CORPORATIVA NO MUNDOUNIDADE 2 em que se destacam, entre eles, os mecanismos de governança corporativa, que são instrumentos capazes de reduzir a assimetria informacional, que contribuem para maximizar o valor de mercado da empresa, promovendo, assim, um ambiente ético e de proteção legal aos acionistas (Mendes; Freire, 2014). Assim, ainda que haja vários modelos aplicáveis no mundo, o objetivo da Governança é único, ou seja, garantir que as práticas estabelecidas nas entidades resultem em confiabilidade para os acionistas e as partes interessadas. Ferreira (2014, p. 208 apud Leitão et al., 2017, p. 184) afirma que “a depender das condições culturais de cada país, os mesmos adotarão um modelo de Governança Corporativa e farão as adaptações necessárias”. No Quadro 1 são apresentadas, em síntese comparativa, as principais características de cada modelo. QUADRO 1 - MODELOS DE GOVERNANÇA CORPORATIVA – SÍNTESE COMPARATIVA Fonte: Andrade; Rosseti (2011, p. 340). 37 O conceito Gestão Corporativa está sendo adotado pelas empresas por trazer transparência aos processos, além de autonomia e agilidade às atividades. Essa prática possibilita tomar decisões estratégicas, que tenham como foco a rentabilidade e a sustentabilidade na gestão como objetivos, além de também ajudar na redução dos riscos e aumentar o retorno do investimento. Diante de todo o conteúdo que vimos, a Governança Corporativa só é aplicável para grandes empresas ou de capital aberto? Fonte: B3 (2018). REFLITA GOVERNANÇA CORPORATIVA NO MUNDOUNIDADE 2 38 O mercado de capitais norte-americano é, sem dúvidas, o mais líquido do mundo, com maior volume negociado, maior capitalização e maior número de companhias listadas na Bolsa de Valores. Para se ter uma ideia, em números de investidores, nos EUA cerca de 54% das famílias investem nas Bolsas de Valores (Takar, 2019). Os Estados Unidos são detentores das duas maiores bolsas de valores do mundo: a Bolsa de Valores de Nova Iorque (NYSE, New York Stock Exchange) e a Nasdaq (Nasdaq Stock Market), que juntas superam o número de 5,4 mil empresas negociadas, operando valores acima de 2,8 trilhões de dólares por mês, exercendo impacto no mundo todo. Quanto ao modelo de Governança Corporativa do país, obedece ao mesmo mecanismo de uma aquisição hostil. Se a administração não agir de forma a maximizar o valor das ações da empresa, essa cai, e com a queda, investidores externos são atraídos a assumir o controle acionário através do mercado de capitais. Deste modo, uma vez assumindo o controle, os investidores contratam um novo time de administradores que implementaram uma nova estratégia, previsivelmente mais lucrativa (Blok, 2017). De acordo com Silva (2020), a Governança Corporativa nos Estados Unidos começou a se estruturar no contexto da Crise de 1929 (a grande depressão), da recessão econômica que se seguiu a esta crise, da segunda guerra mundial e da estratégia e marketing aplicados ao mercado de ações. Deste modo, com as grandes dificuldades e problemas que uma crise traz, foi por meio dela que os EUA desenvolveram a atitude de pesquisar o que o investidor desejava comprar. Estabeleceu-se a cultura de valorização do investidor, seja o pequeno A GOVERNANÇA CORPORATIVA NOS EUA2 TÓPICO GOVERNANÇA CORPORATIVA NO MUNDOUNIDADE 2 39GOVERNANÇA CORPORATIVA NO MUNDOUNIDADE 2 como o grande investidor. Surgiu uma Governança Corporativa orientada para o acionista (shareholder oriented) (Silva, 2020). Assim, uma característica típica do modelo norte-americano é a distância que os acionistas têm da direção e, consequentemente, a importância do conselho de diretores que age em seu nome (veremos na próxima unidade o que cada órgão da Governança Corporativa faz, e quais as suas finalidades, composições e atribuições) (Blok, 2017). Como fruto da grande depressão de 1929, também surgiram legislações e regulamentações das operações imobiliárias nas bolsas de valores, das quais, segundo o Silva (2020, on-line), destacam-se: I. A Lei de Valores Mobiliários de 1933 (The Security Act of 1933), que visando proteger os investidores, estabeleceu uma maior transparência nas demonstrações financeiras de modo a permitir aos investidores decidir sobre seus investimentos com base em informações das empresas e punições contra declarações falsas e fraudes no mercado de ações. II. A Lei da Bolsa de Valores de 1934 (The Security Exchange Act of 1934 ou SEA), que definiu o funcionamento do mercado secundário nas bolsas, com maior transparência, precisão financeira e menor possibilidade de fraude ou manipulação, além de autorizar a criação da Comissão de Valores Mobiliários americana (a SEC, Securities and Exchange Comission) como autoridade reguladora e supervisora dos mercados imobiliário e financeiro. III. A regulamentação da SEC e das bolsas de valores para as transações de mercado primário e secundário envolvendo ações, títulos e valores mobiliários de balcão, incluindo o monitoramento das publicações periódicas de relatórios financeiros das empresas de capital aberto e das atividades e conduta de corretores, revendedores e consultores de investimentos. Tais legislações visam dar mais segurança e proteção para os investidores, promovendo maior transparência entre as companhias e seus acionistas, e, de modo geral, com o mercado. Mas não para por aí, posteriormente foram promulgadas leis importantes quanto ao assunto, tais como a Lei Sarbanes-Oxley, de 2002 (The Sarbanes-Oxley Act ou SOx); e a Lei de Reforma e Defesa do Consumidor de Dodd-Frank Wall Street (The Dodd-Frank Act). A Lei Sarbanes-Oxley, de 2002, reescreveu, literalmente, as regras para a governança corporativa, relativas à divulgação e à emissão de relatórios financeiros, impactando o mundo. Enquanto a Lei de Reforma e Defesa do Consumidor de Dodd-Frank Wall Street, 40GOVERNANÇA CORPORATIVA NO MUNDOUNIDADE 2 visou estabelecer melhores normas e padrões para o funcionamento do mercado financeiro americano (Reis, 2019). Contudo, pode-se dizer que, predominantemente, existem dois modelos de Governança Corporativa no país: o modelo Outsider system e o Insider system. Neste sentido, baseado no Portal Jornal Contábil (2015, on-line), a característica de cada modelo está em: • Modelo Outsider system: Os acionistas são mais dispersos, não participam das ações diárias da empresa e a propriedade está distribuída entre as grandes empresas. Paraesse sistema, que prioriza o interesse dos acionistas e onde o foco das organizações é direcionado para o retorno aos acionistas (shareholder oriented), o mercado de ações tem um valor importantíssimo e os investidores institucionais têm uma grande influência — além de serem muito ativos. • Modelo Insider system: O comando das operações diárias fica por conta dos grandes acionistas. Diferente do Outsider System, nesse modelo não há muita influência nem muito ativismo por parte de investidores institucionais, mas há a presença de grupos industriais-financeiros — muitas vezes bastante diversificados — e a estrutura de propriedade é mais concentrada. Nesse modelo, ao invés do foco das organizações potencializar o retorno para os acionistas, o foco é no retorno para aqueles que têm papel direto ou indireto na gestão e nos resultados da organização (stakeholder oriented), como os clientes, os colaboradores, as comunidades, os fornecedores, o governo, etc. O modelo Outsider é o mais comum nas organizações de capital aberto nos Estados Unidos. Por conta da legislação e regulamentação americanas e da atitude de foco no acionista e no retorno de seus investimentos, este modelo também é chamado de modelo orientado ao acionista (shareholders oriented). E, pelo fato deste ser o modelo mais tradicional no Reino Unido e Estados Unidos, é também chamado de modelo anglo-saxão (Silva, 2020). 41 No Reino Unido, a grande maioria das empresas de capital aberto possui a mesma política que nos Estados Unidos: as ações são voltadas para o acionista, ou seja, as ações das empresas são distribuídas entre muitos acionistas minoritários (Blok, 2017). Sendo assim, no Reino Unido basicamente utiliza-se o Outsider System, e suas principais características são o controle por parte dos acionistas, a separação entre propriedade e gestão, além da proteção dos acionistas minoritários. O modelo propõe um código de boas práticas, tanto por parte de instituições do mercado de capitais, como por parte dos investidores institucionais (Jornal Contábil, 2015). Não obstante, assim como nos EUA, foi a partir de escândalos que se constituiu oficialmente a governança corporativa no Reino Unido. Por outro lado, nesse país, houve também o incentivo e a intervenção do governo que ameaçou tomar medidas de mudança na legislação, isso se o próprio mercado não acabasse com os escândalos, se organizasse de maneira a não acontecerem mais casos como os que haviam ocorrido. Diante disto, a Governança Corporativa foi uma consequência direta entre os embates e ameaças do Partido Conservador do país de intervir no mercado para coibir abusos. Por conseguinte, de acordo com Blok (2017, p. 209), foram instituídos três comitês: o Comitê Cadbury; o Comitê Greenbury e, por fim, o Comitê Hampel. Assim, o Comitê Cadbury foi instituído visando a proposição de melhorias em práticas de Governança Corporativa. O comitê era de responsabilidade da própria bolsa de valores, que apresentava informações sobre empresas e suas práticas de governança. A GOVERNANÇA CORPORATIVA NO REINO UNIDO3 TÓPICO GOVERNANÇA CORPORATIVA NO MUNDOUNIDADE 2 42GOVERNANÇA CORPORATIVA NO MUNDOUNIDADE 2 Já o Comitê Greenbury possuía o propósito de abordar boas práticas de remuneração de diretorias. Esse relatório não foi bem aceito, uma vez que o que interessava aos investidores e o que eles mais esperavam encontrar nos relatórios era exatamente a informação que não se encontrava neles (tanto no Greenbury quanto no Cadbury). E, por fim, o Comitê Hampel, presidido pelo Sir Ronald Hampbel, tendo havido aprimorado o conteúdo dos relatórios anteriores, associando a Governança Corporativa à responsabilidade e à prosperidade dos negócios, e estabelecendo a responsabilidade dos conselhos de administração, bem como os aspectos correspondentes às responsabilidades dos gestores e conselheiros, e suas remunerações. Assim, através desse comitê, a governança passou a ser caracterizada pelo foco em resultados financeiros, buscando evitar conflito de agência entre pequenos acionistas e administradores, e pela influência das entidades de mercado que operavam como clubes fechados (Blok, 2017). 43 O modelo de governança francês é composto, basicamente, por dois modelos, cada um com sua característica, conforme evidenciado por Blok (2017, p. 211): 1. Aquele no qual há um único Conselho de Administração, havendo uma concentração de poder nas mãos de um só indivíduo, que exerce os cargos de Presidente do Conselho e de Diretor Executivo; 2. Aquele inspirado no modelo alemão, pelo qual existem dois conselhos: o de administração e o de gestão. Na França, predominam as empresas familiares e estatais, por essa razão e também por motivações culturais, o modelo adotado pelos franceses é bem próximo dos latino-americanos. Deste modo, as principais características do modelo francês de governança baseiam-se na forma de financiamento não definida; há concentração de propriedade; acúmulo de função entre Conselho e direção executiva; crescimento na adoção da prática de princípios de Governança Corporativa, com recomendações da OCDE (Ferreira, 2014). Percebe-se assim, que este modelo não se assemelha aos padrões de transparência, responsabilidade e preocupação com os acionistas, aspectos previstos na maioria dos códigos de Governança Corporativa mundialmente, visto que há uma forte e robusta participação do Estado por meio do controle direto das organizações, sobretudo, nos serviços de utilidade pública (Blok, 2017). A GOVERNANÇA CORPORATIVA NA FRANÇA4 TÓPICO GOVERNANÇA CORPORATIVA NO MUNDOUNIDADE 2 44GOVERNANÇA CORPORATIVA NO MUNDOUNIDADE 2 Ainda neste sentido, foi através do Relatório Vienot que a Governança Corporativa francesa passou a ser caracterizada pela presença do Estado nas companhias (menos intensa após privatizações em setores de infraestrutura), ademais de transparência, responsabilidade e preocupações com os interesses dos acionistas inferiores aos exigidos por códigos de melhores práticas de governança e centralização das decisões organizacionais (Blok, 2017). 45 Uma característica marcante do modelo de Governança Corporativa japonês é a existência de keiretsu (conglomerados de negócios), empresas (financeiras ou não), agrupadas segundo os seus interesses em comum, formados a partir da compra de ações, dos negócios e empréstimos (Blok, 2017). Deste modo, o forte vínculo de empresas que compõem o keiretsu beneficia os grupos industriais japoneses, na medida que facilita o financiamento a qualquer membro que esteja passando por dificuldades financeiras. Essa é uma das razões da elevada concentração acionária verificada no mercado de ações japonês, concentração essa que desestimula a entrada de pequenos e novos investidores. Neste cenário, para Ferreira (2014, p. 214 - 215), por possuir uma cultura coletivista, “o Japão tem como objetivo a busca pelo equilíbrio dos interesses dos ‘stakeholders’ e garantir o emprego aos colaboradores, mas com a competitividade internacional essa garantia torna-se inviável de sustentar”. Portanto, para Leitão et al. (2017, p. 188), “o modelo adotado no Japão prevê que os envolvidos sejam beneficiados pelas práticas de Governança Corporativa”. A GOVERNANÇA CORPORATIVA NO JAPÃO5 TÓPICO GOVERNANÇA CORPORATIVA NO MUNDOUNIDADE 2 46 O modelo de governança adotado na Alemanha é muito similar ao utilizado no Japão. Para Blok (2017, p. 215), essa similaridade decorre “do fato de tanto a economia alemã quanto a japonesa terem sido arrasadas na Segunda Guerra Mundial, necessitando recomeçar praticamente do zero”. Andrade e Rossetti (2014, p. 356) afirmam que: Diferentemente do que ocorre na cultura empresarial anglo-saxônica, na Alemanha, o capital acionário das companhias é concentrado e o financiamento predominante é de origem bancária. Os exigíveis de longo prazo são a alternativa de alavancagem de