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Resumo_Anestesiologia_Veterinaria

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ANESTESIOLOGIA VETERINÁRIA
Resumo Detalhado para Estudo
Tópicos abordados
Fluidoterapia · Ventilação Mecânica · Anestésicos Locais
Anestesia Locorregional em Pequenos e Grandes Animais
Monitorização Anestésica · Emergências em Anestesia
Baseado em: Lumb & Jones – Anestesia e Analgesia em Animais Domésticos
e Slides da Profa. MV. MSc. Natalia Ruf Andrade – UFBA
Anestesiologia Veterinária — Material de Estudo Página 2
CAPÍTULO 1: FLUIDOTERAPIA NA ANESTESIA
1.1 Objetivos da Fluidoterapia Perioperatória
A fluidoterapia perioperatória é um dos pilares do suporte anestésico, sendo fundamental para a
manutenção da homeostase durante os procedimentos cirúrgicos. Seus objetivos centrais são:
corrigir deficiências preexistentes de acordo com as necessidades de manutenção durante e
após a intervenção cirúrgica, além de substituir perdas específicas; e melhorar a perfusão
tecidual, mantendo boa volemia por meio de adequada entrega de oxigênio (O
2
) aos tecidos.
De forma mais detalhada, a fluidoterapia visa restaurar e manter o volume de fluidos corpóreos —
em especial o volume intravascular —, melhorar a perfusão microvascular, corrigir distúrbios
ácido-base anteriores à anestesia, e restaurar, otimizar e manter a capacidade de transporte de
oxigênio.
1.2 Compartimentos Hídricos e Dinâmica Capilar
Em cães adultos, a água representa 60 a 66% do peso corporal total. Esse volume distribui-se
entre o compartimento intracelular (LIC), com cerca de 40% do peso, e o compartimento
extracelular (LEC), com aproximadamente 20% do peso corporal. O LEC subdivide-se em
compartimento intravascular (5%) e espaço intersticial (15%); o compartimento transcelular
corresponde a cerca de 1%.
Exemplo didático: um cão de 10 kg possui ~6 litros de água, sendo 4 L no LIC, 400 mL no
intravascular, 1,5 L no interstício e 100 mL nas cavidades.
A movimentação da água entre compartimentos é regida pela pressão hidrostática (empurra a
água para fora dos capilares) e pela pressão osmótica (força de atração gerada pela
concentração de solutos). No LEC os principais solutos osmóticos são sódio, cloreto, bicarbonato,
ureia e glicose; no LIC predominam potássio (98%) e fosfatos.
A membrana capilar é impermeável às proteínas plasmáticas. A pressão osmótica exercida por
elas — especialmente pela albumina — denomina-se pressão oncótica, responsável por reter
fluido no interior dos capilares. Quando a pressão hidrostática supera a oncótica (hipoalbuminemia
ou excesso de fluido), ocorre edema. O inverso (desidratação) favorece reabsorção intravascular.
Importante: o principal efeito da anestesia geral sobre a dinâmica dos fluidos é a contração
do volume extracelular e a indução de hipovolemia, decorrente principalmente da
vasodilatação periférica promovida pelos anestésicos.
1.3 Tipos de Soluções para Fluidoterapia
Anestesiologia Veterinária — Material de Estudo Página 3
1.3.1 Cristaloides
Soluções contendo partículas que se movem livremente através das membranas biológicas.
Classificam-se em:
Cristaloides Isotônicos
Osmolaridade semelhante ao plasma; distribuem-se por todo o LEC. Exemplos: NaCl 0,9% (154
mEq/L Na+ e Cl-), Ringer e Ringer com Lactato (RL). O RL — com 130 mEq/L Na+, 109 mEq/L Cl-,
4 mEq/L K+, 3 mEq/L Ca2+ e 28 mEq/L lactato — é considerado de primeira escolha por ser o
fluido com composição mais próxima ao plasma. Doses de manutenção: 5 mL/kg/h (cão) e 3–5
mL/kg/h (gato).
Cristaloides Hipotônicos
Sódio abaixo do plasmático. No frasco são isotônicos por conterem glicose, mas após
metabolização celular comportam-se como água livre, favorecendo entrada de água no
compartimento intracelular. Exemplos: glicose 5% e NaCl 0,45%.
Cristaloides Hipertônicos
Osmolaridade acima do plasma; puxam água do interstício e das células para o intravascular.
Indicados em choque hipovolêmico grave e edema cerebral. Exemplos: NaCl 7,5%, glicose ≥ 10%,
manitol (10–20%).
1.3.2 Coloides
Soluções com moléculas de grande dimensão (proteínas ou polissacarídeos sintéticos) que
aumentam a pressão oncótica do plasma, promovendo entrada de fluido intersticial para o espaço
vascular. Dividem-se em naturais (plasma fresco congelado e albumina — indicados em
hipoproteinemia e coagulopatias) e sintéticos (gelatinas, dextranas e hidroxietilamidos/HES).
Os HES (ex.: Voluven — Tetrastarch, 3.ª geração) são coloides sintéticos mais utilizados na
clínica. Segundo a AAHA 2024, devem ser usados apenas em situações específicas e por curto
prazo, com dose inferior a 20 mL/kg, pelo risco (mínimo, mas real) de lesão renal. Quanto maior o
grau de substituição por grupos hidroxietil, maior a meia-vida plasmática e maior o risco de efeitos
adversos.
1.4 Hipovolemia vs. Desidratação
A hipovolemia é a redução do volume de fluido dentro do espaço vascular (intravascular),
causada por choque, hemorragia, vasodilatação grave ou perda aguda de volume. Exige
reposição imediata de volume intravascular em bolus rápido, pois o objetivo é restaurar a
perfusão.
A desidratação é uma condição de perda de líquidos maior que a ingestão, com desequilíbrio de
água e eletrólitos afetando principalmente o interstício e a água corporal total (vômito, diarreia,
perdas crônicas). Pode ser corrigida de forma mais sustentada, ao longo de horas, por via IV,
subcutânea ou enteral.
Anestesiologia Veterinária — Material de Estudo Página 4
1.5 Condutas Clínicas Práticas
Paciente Hipovolêmico
Carga de 15–20 mL/kg de cristaloide isotônico em 15–30 min (cão) ou 5–10 mL/kg em 15–30 min
(gato). Reavaliar e repetir se necessário.
Paciente Euvolêmico e Desidratado
Volume de reidratação (Peso kg × % desidratação) administrado em 12–24 h + taxa de
manutenção + perdas contínuas.
Exemplo Prático (cão 20 kg, 10% desidratado, hipovolêmico)
• Ressuscitação: 15–20 mL/kg × 20 kg = 300–400 mL IV em 15–30 min
• Reidratação: 20 kg × 10% = 2.000 mL em 24 h (≈83 mL/h)
• Manutenção: 60 mL/kg/dia × 20 kg = 1.200 mL/dia (50 mL/h)
• Taxa de estabilização: 2.000 + 1.200 = 3.200 mL/24 h ≈ 133 mL/h, ajustando conforme
resposta
1.6 Desafio Volêmico (Fluid Challenge)
Administração rápida de pequeno volume de fluido para avaliar a reserva cardíaca e a
responsividade ao volume (aumento do VS ou DC). Etapas: escolha do fluido → taxa de
administração (10–20 mL/kg de RL em 10–15 min) → avaliação dos endpoints (resolução da
hipotensão). Atualmente: até 10 mL/kg em 5–10 min para cães esinais pelo nervo vago ao bulbo para
frear a inspiração e evitar hiperinsuflação.
A ventilação espontânea ocorre por pressão negativa intratorácica (–10 cmH
2
O na inspiração;
–3 cmH
2
O na expiração), que favorece tanto a entrada de ar quanto o retorno venoso. Sob
anestesia geral, os agentes anestésicos — especialmente os inalatórios — deprimem a ventilação
de forma dose-dependente, reduzindo volume corrente (Vt), frequência respiratória e
volume-minuto (Vm). Soma-se a isso: decúbito (compressão das áreas pulmonares dependentes),
redução do tônus muscular, atelectasias e diminuição da complacência pulmonar.
2.2 Relação Ventilação/Perfusão (V/Q)
A relação V/Q exprime o equilíbrio entre ventilação alveolar e perfusão capilar. Três cenários
relevantes:
• V/Q baixo: alvéolo ventila pouco, mas é perfundido — o sangue capta pouco O
2
. Aumento
de FiO
2
 pode melhorar parcialmente a oxigenação.
• Shunt (V/Q = 0): alvéolo fechado (sem ventilação) e o sangue que passa por ele não é
oxigenado. Mesmo com FiO
2
 de 100%, o O
2
 não chega ao alvéolo colabado. É necessário
recrutar alvéolos (manobras de recrutamento, PEEP, posicionamento).
• Espaço morto alveolar (V/Q alto): alvéolo ventilado, mas não perfundido — sem troca
gasosa efetiva.
Durante a anestesia, o V/Q é comprometido por: decúbito, atelectasias, depressão do tônus
muscular, ausência de PEEP, redução do surfactante e obesidade/distensão abdominal.
2.3 Lei de Laplace e Colapso Alveolar
Pelos princípios da Lei de Laplace, alvéolos menores tendem a colabar porque estão sujeitos a
maior pressão interna. O surfactante pulmonar reduz a tensão superficial, tornando os alvéolos
mais fáceis de manter abertos. Toda anestesia induz algum grau de colapso alveolar pela redução
do tônus muscular, decúbito, respiração superficial e redução do surfactante.
Anestesiologia Veterinária — Material de Estudo Página 6
2.4 Indicações da Ventilação Mecânica
• Anestesias gerais de longa duração e cirurgias abdominais extensas em decúbito
• Pacientes obesos e de grande porte (equinos)
• Depressão grave do SNC e uso de bloqueadores neuromusculares (BNM)
• Cirurgias torácicas com abertura do tórax
• Hipercapnia (PaCO
2
 > 45 mmHg) e hipoxemia refratária (PaO
2
 7,35, PaO
2
 > 60 mmHg.
Reduzir gradualmente a sedação, a frequência respiratória programada e a concentração dos
anestésicos. O uso de PSV facilita a transição progressiva. Atenção: a queda abrupta de O
2
associada ao decúbito pode precipitar hipoxemia.
2.8 Complicações
• Barotrauma: lesão por excesso de pressão
• Volutrauma: lesão por excesso de volume
• Comprometimento hemodinâmico: redução do retorno venoso e do DC
• Hipoventilação inadvertida: especialmente na VCP com pulmão rígido
Anestesiologia Veterinária — Material de Estudo Página 8
CAPÍTULO 3: ANESTÉSICOS LOCAIS E
ANESTESIA LOCORREGIONAL EM PEQUENOS
ANIMAIS
3.1 Histórico e Diferenciação Conceitual
Os povos andinos perceberam os efeitos da folha de coca séculos antes do isolamento da cocaína
(1859–1860) por Albert Niemann. Em 1884, Carl Koller demonstrou seu uso oftálmico tópico;
Halsted realizou o primeiro bloqueio de condução nervosa no mesmo ano. Desde então
desenvolveram-se os anestésicos locais (AL) sintéticos modernos.
Anestesia local refere-se ao bloqueio de uma pequena área tecidual por infiltração direta.
Anestesia locorregional engloba técnicas que bloqueiam nervos ou plexos responsáveis pela
inervação de regiões mais amplas: bloqueios perineurais, de plexo, interfaciais, epidural e
raquianestesia.
3.2 Mecanismo de Ação
Os AL bloqueiam de forma reversível os canais de Na+ voltagem-dependentes nos axônios das
fibras aferentes, impedindo a despolarização e a propagação do impulso nervoso. São bases
fracas que existem em duas formas: não ionizada (B) — lipossolúvel, atravessa a membrana
celular — e ionizada (BH+) — bloqueia o canal de Na+ a partir do interior da célula.
3.3 Estrutura Química e Classificação
A estrutura geral dos AL compreende: anel aromático lipofílico + cadeia intermediária + grupo
amino hidrofílico. A cadeia intermediária define a classificação:
• Ésteres (procaína, tetracaína, benzocaína): rápida degradação por esterases plasmáticas.
Muitos derivam do PABA (ácido para-aminobenzoico) e podem causar reações alérgicas.
• Amidas (lidocaína, bupivacaína, levobupivacaína, ropivacaína): biotransformação hepática,
ação mais duradoura.
3.4 Propriedades Físico-Químicas e Farmacocinética
Lipossolubilidade
Maior lipossolubilidade → maior potência e duração do bloqueio (melhor penetração nas
membranas celulares). A bupivacaína é mais lipofílica que a lidocaína.
Anestesiologia Veterinária — Material de Estudo Página 9
Ligação a Proteínas Plasmáticas
Maior ligação → maior reservatório plasmático → maior duração. Bupivacaína: ~96%; Lidocaína:
~65%.
pKa e pH
O pKa é o pH em que a molécula se divide igualmente entre ionizada e não ionizada. Quanto mais
próximo o pKa do pH fisiológico (7,4), maior a proporção de forma não ionizada disponível e mais
rápido o início de ação. Lidocaína (pKa 7,7) > início mais rápido que bupivacaína. Em tecidos
inflamados (pH ácido) predomina a forma BH+, reduzindo a eficácia do bloqueio.
Bloqueio Diferencial
Fibras pequenas e não mielinizadas são bloqueadas antes das grandes e mielinizadas.
Sequência: (1) temperatura → (2) dor aguda → (3) propriocepção → (4) atividade motora. Em
doses baixas obtém-se analgesia sem bloqueio motor completo — explorado clinicamente nos
bloqueios interfaciais e epidurais analgésicos.
3.5 Aditivos aos Anestésicos Locais
• Adrenalina (epinefrina): vasoconstrição local → menor absorção sistêmica → maior
duração e menor toxicidade. Contraindicada em regiões de suprimento terminal (dígitos, pênis,
pinas).
• Hialuronidase: melhora a penetração tecidual, aumenta a área de bloqueio, mas pode
elevar a absorção sistêmica.
• Bicarbonato de sódio: alcaliniza a solução → menor latência → eficaz em tecidos
inflamados.
3.6 Principais Anestésicos Locais
Procaína
Tipo éster. Latência e duração curtas (30–60 min). Menor toxicidade sistêmica. Estimulante do
SNC em equinos. Sinergismo com penicilinas. Dose: 2mg/kg.
Tetracaína / Benzocaína
Ésteres tópicos. Benzocaína: anestésico em peixes; risco de metemoglobinemia. Tetracaína:
início rápido, longa duração — uso em soluções oftálmicas.
Lidocaína
AL mais versátil da prática veterinária. Amida. Latência: 2–5 min. Duração: 1 h (sem vaso) / 2 h
(com vaso). Toxicidade moderada. Doses: 5–7 mg/kg sem vaso e até 9 mg/kg com vaso
(cão/gato); 6 mg/kg (equino). Epidural: 0,36 mL/kg. Por via IV: ação anti-inflamatória,
anti-hiperalgésica, pró-peristáltica e antiarrítmica (dose: 1,5 mg/kg bolus + IC 3–9 mg/kg/h cão;
1–1,5 mg/kg + IC 1–2 mg/kg/h gato).
Anestesiologia Veterinária — Material de Estudo Página 10
Bupivacaína
Potência 4× maior que lidocaína. Amida. Mistura racêmica R(+) e S(−). Latência: 20–30 min.
Duração: 4–8 h (sem vaso) / 6–10 h (com vaso). Baixas doses: bloqueio sensitivo sem bloqueio
motor completo. Alta cardiotoxicidade — JAMAIS administrada IV. Dose peridural: 0,2–0,3
mL/kg a 0,5%. Interfacial: 5 mg/kg diluído a 0,25% (1:1 com cristaloide).
Levobupivacaína
Enantiômero S(−) da bupivacaína. Menor cardiotoxicidade. Mesmos usos e propriedades gerais;
bloqueio motor ligeiramente mais intenso.
Ropivacaína
Menor cardiotoxicidade que a bupivacaína. Ligeiramente menos potente. Maior bloqueio sensitivo
do que motor em baixas concentrações. Duração: 4–8 h. Latência: 10–15 min. Ideal para
analgesia pós-operatória sem comprometimento motor.
3.7 Toxicidade dos Anestésicos Locais
Manifestações quando absorvidos em excesso: neurológicas (agitação, tremores, convulsões →
depressão do SNC) e cardiovasculares (arritmias, hipotensão, parada cardíaca). A bupivacaína é
especialmente cardiotóxica e pode provocar fibrilação ventricular refratária se injetada IV. Outros
tipos: neurotoxicidade (altas concentrações intratecais), miotoxicidade (bupi 0,75%) e
condrotoxicidade (todos os AL, sendo a bupi a mais tóxica para condrócitos).
3.8 Técnicas Locorregionais em Pequenos Animais
Anestesia Tópica
Aplicação de AL sobre mucosas. A lidocaína aplicada sobre a laringe (anestesia periglótica) facilita
a intubação endotraqueal, especialmente em gatos (sensíveis ao laringoespasmo).
Anestesia por Infiltração
Injeção direta no tecido a ser operado, em padrão de 'pirâmide'. Exige tricotomia, assepsia e
aspiração prévia à injeção. Usa-se lidocaína ou bupivacaína.
Anestesia Perineural
Bloqueio nervoso específico — ex.: bloqueio do nervo pudendo para procedimentos em
períneo, ânus, pênis e prepúcio, e especialmente para o gato com obstrução uretral (relaxa o
esfíncter uretral externo, facilita passagem da sonda).
Bloqueios de Cabeça
Incluem: bloqueios maxilares (incisivos, caninos, pré-molares, pálpebra inferior), bloqueio do nervo
maxilar completo (arcada, palato), bloqueio retrobulbar/peribulbar (enucleação, catarata —
insensibiliza nervos troclear, abducente, oculomotor, óptico e ciliares) e bloqueio do nervo
Anestesiologia Veterinária — Material de Estudo Página 11
auriculopalpebral (acinesia palpebral).
Bloqueio do Plexo Braquial
Bloqueio motor e sensitivo do membro torácico. Indicado para fraturas de metacarpo, dígitos,
rádio/ulna, carpo, antebraço, amputações e artroscopia. Atenção à artéria braquial durante a
realização.
Bloqueio Intercostal
Toracotomia, drenagem pleural, fraturas de costelas. Bloqueia o nervo intercostal de espaços
adjacentes (cranial e caudal à incisão), na borda caudal da costela próxima ao forame
intervertebral. Volume: 0,25–1 mL de bupivacaína por espaço.
Epidural (Neuroeixo)
Depósito de AL no espaço epidural na junção L7-S1 (cão) ou S1-S2 (gato). Bloqueio sensitivo e
motor das estruturas caudais. Bupivacaína 0,5%: 0,2–0,3 mL/kg.
Bloqueios Interfaciais
Depósito do AL em plano fascial entre dois músculos, de onde difunde e bloqueia nervos de uma
ampla região. Principais exemplos:
• TAP Block: insensibilização da parede abdominal e peritônio parietal — indicado em
cirurgias abdominais
• Bloqueio do Músculo Serrátil: ramos cutâneos dos nervos intercostais — indicado em
mastectomias
• Bloqueio do Quadrado Lombar: parede abdominal + vísceras — mastectomias extensas
• Bloqueio do Eretor da Espinha: ramo dorsal dos nervos espinhais — laminectomias
• Bloqueio Ciático: joelho para baixo — fraturas de tíbia
• Bloqueio Femoral Inguinal e Cutâneo: membro pélvico proximal
Anestesiologia Veterinária — Material de Estudo Página 12
CAPÍTULO 4: ANESTESIA LOCORREGIONAL
EM GRANDES ANIMAIS
4.1 Princípios Gerais e Importância
Nos grandes animais — em especial equinos — a anestesia locorregional tem papel ainda mais
relevante do que em pequenos animais. Os riscos da anestesia geral são expressivamente
maiores nessas espécies: a mortalidade anestésica em equinos é estimada em 1:100 a 1:200,
contra menos de 1:1.000 em pequenos animais. Complicações como miopatia pós-anestésica
(hipoperfusão muscular durante decúbito), neuropatias, comprometimento respiratório por
compressão das vísceras sobre os pulmões, cólicas por íleo paralítico e traumas na recuperação
são frequentes e potencialmente fatais.
Técnicas locorregionais permitem realizar muitos procedimentos com o animal em estação,
eliminando os riscos do decúbito e da anestesia geral. São, portanto, a opção preferencial sempre
que tecnicamente viável.
4.2 Anestesia Epidural em Grandes Animais
Em bovinos e pequenos ruminantes, o bloqueio epidural caudal (junção Co1-Co2, entre as
primeiras vértebras coccígeas) é a técnica padrão para procedimentos em períneo, vulva, vagina,
reto e uretra. Lidocaína 2% a 0,05 mg/kg (epidural caudal baixa — sem comprometimento dos
membros pélvicos) ou doses maiores para bloqueio do abdômen caudal.
Em equinos, o bloqueio epidural sacrococcígeo (S5-Co1 ou Co1-Co2) é realizado com o animal
em estação, indicado para analgesia perineal, procedimentos obstétricos, exame/tratamento do
reto e cirurgias de cauda. A associação de xilazina epidural (0,05–0,25 mg/kg) à lidocaína
potencializa e prolonga o bloqueio, com menor comprometimento motor.
4.3 Bloqueios em Bovinos
Anestesia Paravertebral
Amplamente usada para cirurgias de flanco em estação (rumenotomia, cesarianas, laparotomias).
Bloqueia os nervos espinhais T13, L1 e L2. Técnicas: proximal (de Farquharson-Cambridge —
próxima ao forame intervertebral; menor volume, maior risco técnico) e distal (de
Magda-Cornell-Cakala — borda lateral dos processos transversos; mais simples). Lidocaína 2%,
20–30 mL por ponto.
Infiltração em L Invertido
Anestesiologia Veterinária — Material de Estudo Página 13
Infiltração em padrão de L ao longo da última costela e do processo transverso de L1. Mais
simples que a paravertebral, mas requer maior volume e pode não oferecer analgesia visceral
adequada.
Bloqueio do Nervo Cornual
Para descorna em bovinos adultos e caprinos. Bloqueia o nervo cornual (ramo do nervo frontal).
Em raças de chifres grandes, pode ser necessário complementar com bloqueio do nervo auricular
caudal. Lidocaína 2%, 5–10 mL em arco ao redor da base do chifre.
Anestesia Intravenosa Regional (Bier)
Torniquete distal no membro + injeção de lidocaína 2% em veia distal ao torniquete — anestesia
de toda a extremidade distal. Indicada principalmente para cirurgias no dígito e cascos em
bovinos. Torniquete não deve exceder 1,5–2 horas.
4.4 Bloqueios em Equinos
Bloqueios Diagnósticos dos Membros
Fundamentais na clínica de claudicação: infiltração progressiva de nervos de distal para proximal
para localizar a origem da dor. Principais pontos: bloqueio palmar digital (distal do dígito),
bloqueio abaxial dos sesamoides (segunda falange), bloqueio baixo e alto de quatro pontos
(metacarpo/metatarso distal e dígito). Agentes: lidocaína 2% ou mepivacaína.
Bloqueios Dentais e da ATM
Para procedimentos odontológicos. O nervo infraorbitário dessensibiliza os dentes pré-molares e
molares superiores; o nervo alveolar inferior, os dentes inferiores.
Bloqueio Retrobulbar e Peribulbar
Para enucleação e outras cirurgias oculares em equinos. O bloqueio retrobulbar deposita ALdentro do cone muscular ao redor do nervo óptico, proporcionando acinesia do globo e analgesia.
O bloqueio auriculopalpebral promove acinesia das pálpebras.
4.5 Bloqueios em Pequenos Ruminantes e Suínos
Em ovinos e caprinos, as técnicas epidurais e os bloqueios paravertebrais são adaptações das
descritas para bovinos (ajuste de doses por kg). Em suínos, o acesso epidural é realizado na
região lombossacra ou sacrococcígea para cirurgias de abdômen caudal e membros pélvicos. A
anestesia intravenosa regional (Bier) também é empregada para procedimentos nos membros.
4.6 Anestésicos Locais em Grandes Animais
Anestesiologia Veterinária — Material de Estudo Página 14
A lidocaína 2% é o agente mais utilizado: início rápido, boa difusão e custo acessível. A
mepivacaína (ausente no Brasil) é padrão em bloqueios diagnósticos de claudicação equina nos
EUA e Europa (duração intermediária, sem vasodilatação local). A bupivacaína é utilizada com
cautela (maior cardiotoxicidade e custo). A xilazina epidural (agonista alfa-2) em 0,05–0,25
mg/kg potencializa e prolonga o bloqueio epidural em equinos e bovinos.
Anestesiologia Veterinária — Material de Estudo Página 15
CAPÍTULO 5: MONITORIZAÇÃO EM ANESTESIA
5.1 Conceitos e Importância
A monitorização anestésica consiste na coleta sistemática de informações sobre o estado
fisiológico do paciente, com o objetivo de avaliar a resposta aos fármacos, prevenir alterações da
homeostase e avaliar a resposta às terapias instauradas. Três grandes fatores contribuíram para a
redução das taxas de mortalidade perianestésica: uso de fármacos mais seguros, avaliação
pré-anestésica rigorosa (APA + checklist) e monitorização mais acurada. Mortalidade
perianestésica humana: 1:20.000 — contraste com valores mais elevados na veterinária,
especialmente em equinos.
Classifica-se em: rotineira (todos os pacientes, independente do estado clínico), especializada
(para problema fisiopatológico particular) e ampla (acompanhamento de todos os principais
sistemas).
5.2 Diretrizes ACVA — Parâmetros Mínimos
As diretrizes da American College of Veterinary Anesthesia and Analgesia (ACVA, 2009)
estabelecem monitorização a cada 5–10 minutos:
• Monitorização circulatória hemodinâmica (FC, PA, ausculta)
• Concentração adequada de O
2
 no sangue arterial (oximetria de pulso)
• Manutenção adequada da ventilação (capnometria, FR)
• Controle de temperatura corporal
• Efeito de bloqueadores neuromusculares quando utilizados
• Controle da profundidade anestésica em cães e gatos
Monitorização mínima recomendada: ficha anestésica, SpO
2
, temperatura, PA, EtCO
2
, ECG,
analisador de gases. Anestesista dedicado é condição fundamental.
5.3 Profundidade Anestésica
Baseada nos Planos de Guedel (1951) — atividade muscular, movimentação do globo ocular,
padrão respiratório e conformação pupilar. Parâmetros avaliados: reflexo laringotraqueal,
interdigital, palpebral, corneal, pupilar, miorrelaxamento e alterações cardiopulmonares.
Plano superficial: reflexos preservados, tônus elevado, resposta hemodinâmica ao estímulo (FC e
PA > 20% acima do basal). Plano adequado: reflexos reduzidos, imobilidade, estabilidade
cardiovascular. Plano profundo: reflexos abolidos, depressão cardiorrespiratória, miose,
hipotensão.
Anestesiologia Veterinária — Material de Estudo Página 16
BIS (Índice Bispectral): parâmetro derivado do EEG que monitora o componente hipnótico da
anestesia. Em humanos: 40–60 = bom plano anestésico; 0 = EEG isoelétrico. Reduz despertar e
memória intraoperatória. Em veterinária, sua aplicação ainda é objeto de estudo.
5.4 Monitorização Cardiovascular
Hemodinâmica Básica
DO
2
 = DC × CaO
2
; DC = VS × FC; PA = DC × RVS. Os determinantes do DC são pré-carga
(retorno venoso), contratilidade (Lei de Frank-Starling) e pós-carga (RVS). A avaliação isolada dos
parâmetros de macrohemodinâmica (FC e PA) pode ser insuficiente — a microhemodinâmica
(lactato, TPC, temperatura periférica, débito urinário, hemogasometria) confirma se a perfusão
tecidual está sendo mantida.
Frequência Cardíaca
Avaliada por ausculta, ECG, oximetria, Doppler ou palpação arterial. Taquicardia: plano
superficial, hipotensão, hipovolemia ou dor. Bradicardia: estímulo vagal intenso, plano profundo,
hipotermia ou fármacos bradicardizantes.
ECG
Derivações DII/DIII (pequenos animais) ou base-ápice (grandes animais). Avaliar: presença de
onda P, condução P→QRS, regularidade do R-R e FC. Arritmias alteram o DC.
Pressão Arterial
Indicador direto do DC. Valores normais: PAS 100–140 mmHg; PAD 60–100 mmHg; PAM 60–100
mmHg (mínimo aceitável 60 mmHg; em equinos, 70 mmHg para prevenir miopatia).
• Técnica invasiva (padrão-ouro): arteriopunção — podal dorsal ou femoral (cão/gato);
auricular (suíno/coelho); facial ou metatarsiana (equino). Monitorização contínua e precisa
(PAS, PAD, PAM).
• Oscilometria: pacientes > 8–10 kg; fornece PAM, PAS e PAD a cada 5 min; imprecisão ≤ 10
mmHg.
• Doppler: animais de pequeno porte; fornece apenas PAS via som pulsante; simples e
barato.
Pressão Venosa Central (PVC)
Medida nos grandes vasos de retorno ao átrio direito (cateter pela jugular ou subclávia). Informa
sobre volume sanguíneo retornando ao coração, tônus vascular e função cardíaca. PVC elevada =
baixo retorno venoso (estase, ex.: ICC). PVC baixa = aumento do retorno ou vasoconstrição.
Curva Pletismográfica
Fornecida pelo oxímetro de pulso, apresenta pulso sistólico (sangue ejetado pela válvula aórtica) e
pulso diastólico (fechamento da válvula). A incisura dicrótica reflete a resistência vascular
periférica: posição alta e precoce → vasoconstrição; posição baixa e tardia → vasodilatação.
Anestesiologia Veterinária — Material de Estudo Página 17
5.5 Monitorização Respiratória
Oximetria de Pulso (SpO2)
Método não invasivo que mede a saturação de O
2
 da hemoglobina por transmissão de luz
vermelha e infravermelha através do tecido pulsátil. Hipoxemia: SpO
2
 45 mmHg = hipoventilação/hipercapnia (risco de acidose e
hipotensão). 42°C causa lesões celulares graves
(disfunções orgânicas, CID, edema cerebral). Tratamento: resfriamento ativo, fenotiazínicos,
antipiréticos e dantrolene sódico na hipertermia maligna.
Anestesiologia Veterinária — Material de Estudo Página 18
CAPÍTULO 6: EMERGÊNCIAS EM ANESTESIA
VETERINÁRIA
6.1 Prevenção e Reconhecimento
A melhor abordagem das emergências anestésicas é a prevenção: avaliação pré-anestésica
completa, classificação do risco (ASA), checklist, protocolo adequado e monitorização contínua.
Mesmo com todas as precauções, emergências podem ocorrer e o anestesista deve
reconhecê-las e tratá-las com rapidez.
6.2 Parada Cardiorrespiratória (PCR)
A PCR é a emergência mais grave. Define-se como cessação súbita das atividades cardíaca e
respiratória efetivas. Sinais premonitórios: hipotensão grave progressiva, bradicardia acentuada,
queda daSpO
2
 e da EtCO
2
 a zero, ausência de pulso.
Algoritmo RCP: sequência CAB — Compressões (100–120/min, profundidade 1/3 do diâmetro
torácico), Abertura de vias aéreas, Ventilação (animais já intubados: iniciar imediatamente).
Alternar compressores a cada 2 minutos.
Causas comuns em anestesia: hipoxemia grave (intubação esofágica, obstrução de VA, falha no
O
2
), hipotensão grave não corrigida, bradicardia grave, overdose de anestésico, toxicidade por AL,
hemorragia aguda, hipercalemia, hipotermia grave e embolia pulmonar.
6.3 Hipotensão Arterial
A hipotensão (PAM 45 mmHg → acidose respiratória (pH 42°C. Sinais: aumento abrupto da EtCO
2
, taquicardia, rigidez muscular, acidose
metabólica, hipercalemia.
Tratamento de emergência: cessar imediatamente o halogenado → hiperventilar com O
2
 100% →
dantrolene sódico 2–3 mg/kg IV (até 10 mg/kg) — único antídoto específico → resfriamento ativo
→ bicarbonato de sódio para acidose → tratamento das arritmias.
6.10 Kit de Emergência — Fármacos Essenciais
• Epinefrina (adrenalina): 0,01 mg/kg IV — vasopressor, inotrópico, broncodilatador; PCR
• Atropina: 0,02–0,04 mg/kg IV — anticolinérgico; bradicardia vagal
• Glicopirrolato: 0,005–0,01 mg/kg IV — anticolinérgico de ação prolongada
• Dopamina: 5–20 mcg/kg/min IV — vasopressor e inotrópico
• Dobutamina: 5–20 mcg/kg/min IV — inotrópico; depressão miocárdica
• Lidocaína IV: 2 mg/kg IV em bolus lento — antiarrítmico; arritmias ventriculares
• Diazepam/Midazolam: 0,2–0,5 mg/kg IV — controle de convulsões
• Dantrolene: 2–3 mg/kg IV — hipertermia maligna
• Emulsão lipídica 20% (Intralipid): 1,5 mL/kg IV em bolus — LAST
• Flumazenil: 0,01–0,02 mg/kg IV — antagonista de benzodiazepínicos
• Naloxona: 0,01–0,04 mg/kg IV — antagonista de opioides
• Atipamezole: 0,1–0,2 mg/kg IV ou IM — antagonista de agonistas alfa-2
Anestesiologia Veterinária — Material de Estudo Página 21
QUESTÕES PARA ESTUDO E REVISÃO
Tente responder às questões abaixo antes de consultar o gabarito ao final do documento.
Fluidoterapia
Questão 1. Um cão de 15 kg é admitido com histórico de vômito há 3 dias, mucosas pálidas
e pegajosas, prega cutânea retornando em 3 segundos. Qual o grau estimado de
desidratação e como você calcula o volume de reidratação?
Questão 2. Explique por que a anestesia geral causa hipovolemia e qual o principal
mecanismo fisiopatológico envolvido.
Questão 3. Um gato de 4 kg em anestesia apresenta FC de 80 bpm, PA de 60/35 mmHg (PAM
= 43 mmHg) e TPC de 3 s. Qual fluido você escolhe, qual a dose do bolus e quais são os
limites de segurança?
Questão 4. Qual a diferença entre cristaloide isotônico, hipotônico e hipertônico? Dê
exemplos e indique as principais aplicações de cada um.
Questão 5. Por que os coloides não substituem os cristaloides? Quais são as principais
indicações dos coloides sintéticos?
Ventilação Mecânica
Questão 6. Quais são as principais consequências hemodinâmicas da ventilação mecânica
por pressão positiva em comparação com a ventilação espontânea?
Questão 7. Explique o conceito de relação V/Q e descreva como o decúbito e a anestesia
geral afetam essa relação.
Questão 8. Quais as diferenças entre VCV e VCP? Descreva vantagens e riscos de cada
modalidade.
Anestesiologia Veterinária — Material de Estudo Página 22
Questão 9. Cite as principais indicações para instituição de ventilação mecânica em
pacientes anestesiados.
Questão 10. O que é PEEP e como ela melhora a oxigenação? Quais os riscos de sua
utilização?
Anestésicos Locais e Locorregional em Pequenos Animais
Questão 11. Explique o mecanismo de ação dos anestésicos locais e o papel do pKa no
início de ação do bloqueio.
Questão 12. Quais são as principais diferenças entre lidocaína e bupivacaína? Por que a
bupivacaína jamais deve ser usada por via intravenosa?
Questão 13. O que é bloqueio diferencial e qual a sequência de bloqueio das fibras
nervosas?
Questão 14. Descreva o TAP Block, suas indicações e o princípio do bloqueio interfacial.
Questão 15. Como a adrenalina modifica o bloqueio pelo anestésico local? Quais situações
contraindicam seu uso?
Anestesia Locorregional em Grandes Animais
Questão 16. Por que a anestesia locorregional tem papel ainda mais relevante em grandes
animais do que em pequenos animais?
Questão 17. Descreva a anestesia paravertebral em bovinos: indicações, nervos
bloqueados e técnicas disponíveis.
Questão 18. Em que situações o bloqueio epidural caudal está indicado em bovinos e
equinos? Quais agentes são utilizados?
Monitorização
Anestesiologia Veterinária — Material de Estudo Página 23
Questão 19. Quais são os parâmetros mínimos de monitorização recomendados pela
ACVA? Por que a avaliação isolada da macrohemodinâmica pode ser insuficiente?
Questão 20. Como a curva capnográfica pode diagnosticar intubação esofágica, parada
circulatória e reinalação deCO
2
?
Questão 21. Compare a técnica invasiva de mensuração da PA com as técnicas não
invasivas (oscilometria e Doppler).
Questão 22. Quais são as consequências clínicas da hipotermia progressiva? Descreva os
efeitos por faixa de temperatura.
Emergências em Anestesia
Questão 23. Descreva o manejo da hipotensão arterial intraoperatória, incluindo abordagem
etiológica e opções farmacológicas.
Questão 24. O que é hipertermia maligna? Quais os fatores desencadeantes, manifestações
e tratamento específico?
Questão 25. Como diagnosticar e tratar a toxicidade sistêmica por anestésico local (LAST)?
Qual o papel da emulsão lipídica a 20%?
Anestesiologia Veterinária — Material de Estudo Página 24
GABARITO — RESPOSTAS COMENTADAS
Respostas — Fluidoterapia
Resposta 1.
Prega cutânea retornando em 3 s corresponde a ~8–10% de desidratação. Volume de
reidratação = 15 kg × 10% = 1.500 mL, a repor em 12–24 h. Soma-se a manutenção (60
mL/kg/dia × 15 kg = 900 mL/dia) e as perdas contínuas. Se houver hipovolemia associada, bolus
inicial de 15–20 mL/kg de Ringer com Lactato IV em 15–30 min precede a reidratação
sustentada.
Resposta 2.
A anestesia geral causa hipovolemia relativa principalmente por: (1) vasodilatação periférica
pelos anestésicos (isoflurano, propofol), que reduzem a RVS e 'sequestram' sangue na periferia;
e (2) depressão da contratilidade miocárdica, que reduz o DC. O resultado é contração do
volume extracelular funcional e comprometimento da perfusão tecidual, mesmo sem perda real
de fluidos.
Resposta 3.
PAM de 43 mmHg indica hipotensão grave e hipoperfusão (TPC prolongado). Fluido: cristaloide
isotônico (Ringer com Lactato). Bolus: 5–10 mL/kg = 20–40 mL para 4 kg, em 15–30 min.
Limites de segurança: evitar Ht 45 mmHg); hipoxemia refratária (PaO
2
geral em equinos incluem: miopatia
pós-anestésica (hipoperfusão muscular no decúbito), neuropatias, comprometimento
respiratório grave (vísceras comprimindo os pulmões em decúbito), cólicas por íleo paralítico e
traumas na indução/recuperação. As técnicas locorregionais permitem muitos procedimentos
com o animal em estação, eliminando esses riscos.
Resposta 17.
Indicada para cirurgias de flanco em bovinos em estação (rumenotomia, cesarianas). Bloqueia
os nervos T13, L1 e L2, responsáveis pela inervação sensitiva e motora do flanco. Técnicas:
paravertebral proximal (Farquharson-Cambridge — bloqueio próximo ao forame intervertebral;
menor volume, maior risco técnico) e paravertebral distal (Magda-Cornell-Cakala — borda
lateral dos processos transversos; mais simples, maior volume). Lidocaína 2%, 20–30 mL por
ponto.
Resposta 18.
Em bovinos: para procedimentos perineais, vulva, vagina, reto, uretra, cirurgias obstétricas e
prolapso retal/uterino. Em equinos: analgesia perineal, procedimentos obstétricos,
exame/tratamento do reto, cirurgias de cauda e urogenitais. Em bovinos: lidocaína 2% a 0,05
mg/kg (baixa dose = sem comprometimento dos membros). Em equinos: lidocaína 2% ± xilazina
epidural (0,05–0,25 mg/kg diluída em SF), que potencializa e prolonga o bloqueio com menor
comprometimento motor.
Respostas — Monitorização
Anestesiologia Veterinária — Material de Estudo Página 28
Resposta 19.
Parâmetros mínimos ACVA: monitorização circulatória hemodinâmica, concentração de O
2
(SpO
2
), avaliação da ventilação (EtCO
2
, FR), temperatura corporal, efeito de BNM quando
utilizados e profundidade anestésica. A avaliação isolada da macrohemodinâmica (FC e PA)
pode ser insuficiente porque é possível ter PA normal com perfusão capilar comprometida. Os
indicadores de microhemodinâmica — lactato, TPC, temperatura periférica, débito urinário,
hemogasometria — são necessários para confirmar que a perfusão tecidual está efetivamente
sendo mantida.
Resposta 20.
Intubação esofágica: ausência completa do capnograma (EtCO
2
 = 0 ou ausente), pois o esôfago
não produz CO
2
. Parada circulatória: queda exponencial rápida da EtCO
2
 até valores próximos
ou iguais a zero — sem circulação, o CO
2
 não é transportado aos pulmões para ser eliminado.
Reinalação de CO
2
 (válvula incompetente ou absorvedor exaurido): elevação da linha de base
do capnograma — o gás inspirado já contém CO
2
, e o valor basal não retorna a zero durante a
inspiração.
Resposta 21.
Invasiva (arteriopunção): padrão-ouro; monitorização contínua e precisa de PAS, PAD e PAM;
requer profissional treinado e tem riscos de embolia, infecção e necessidade de lavagem
frequente do circuito. Oscilometria: fornece PAS, PAD e PAM a cada 5 min sem acesso arterial;
indicada para >8–10 kg; imprecisão de até 10 mmHg em relação à técnica direta. Doppler:
fornece apenas PAS pelo som pulsante do fluxo; muito útil em animais de pequeno porte (gatos
e filhotes); barato e simples, mas não fornece PAD nem PAM diretamente.
Resposta 22.
32–34°C: recuperação anestésica prolongada e risco de coagulopatias. 28–30°C: depressão do
SNC, arritmias, redução da FC e DC em até 40%, queda da PA em até 60%. 25–26°C:
metabolismo predominantemente anaeróbico (produção intensa de lactato). Abaixo de 22–23°C:
fibrilação ventricular e morte. Adicionalmente, a hipotermia aumenta a solubilidade dos
anestésicos inalatórios no sangue, prolongando o tempo de recuperação.
Respostas — Emergências em Anestesia
Resposta 23.
Abordagem escalonada: (1) Reduzir concentração do agente inalatório. (2) Bolus de cristaloide
(10–20 mL/kg cão; 5–10 mL/kg gato) para correção de hipovolemia. (3) Tratar bradicardia
associada com atropina 0,02–0,04 mg/kg IV. (4) Se hipotensão persistir: dopamina 5–20
mcg/kg/min IV (vasopressor + inotrópico), dobutamina 5–20 mcg/kg/min IV (depressão
miocárdica predominante), norepinefrina 0,1–1 mcg/kg/min IV (vasodilatação predominante) ou
fenilefrina 1–3 mcg/kg/min IV (vasoconstrição sem efeito cronotrópico). Em equinos, meta de
PAM ≥ 70 mmHg.
Anestesiologia Veterinária — Material de Estudo Página 29
Resposta 24.
Síndrome farmacogenética rara e potencialmente fatal, desencadeada por halogenados
(isoflurano, sevoflurano, desflurano) e succinilcolina em indivíduos com mutação no receptor de
rianodina (RYR1). Causa liberação descontrolada de Ca2+ no citoplasma muscular → contração
sustentada → hipermetabolismo → temperatura > 42°C. Manifestações: aumento abrupto da
EtCO
2
, taquicardia, rigidez muscular, acidose metabólica, hipercalemia. Tratamento: cessar
halogenado imediatamente → hiperventilar com O
2
 100% → dantrolene sódico 2–3 mg/kg IV
(até 10 mg/kg) — único antídoto específico → resfriamento ativo → bicarbonato de sódio →
tratamento das arritmias.
Resposta 25.
LAST deve ser suspeitada quando, após administração de AL, surgem sinais neurológicos
(agitação, tremores, convulsões) ou cardiovasculares (arritmias, hipotensão, colapso).
Tratamento: cessar a administração do AL → O
2
 100% → controlar convulsões com
benzodiazepínicos (diazepam, midazolam) ou propofol em doses baixas → emulsão lipídica
20% (Intralipid): bolus 1,5 mL/kg em 1 min + IC 0,25 mL/kg/min. A emulsão age como 'lipid sink',
sequestrando o AL dos tecidos — especialmente do miocárdio — e reduzindo sua concentração
tecidual efetiva. RCP se necessário.
Fim do material de estudo — Anestesiologia Veterinária
Baseado em: Lumb & Jones – Anestesia e Analgesia em Animais Domésticos | Slides Profa. MV. MSc. Natalia Ruf
Andrade – UFBA

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