Prévia do material em texto
Saúde Mental e Atenção Psicossocial Aula 4 Prof. Murilo Galvão Amancio Cruz murilo.cruz@professores.estacio.br A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) 01 Origens Movimento da psiquiatria democrática, iniciado na Itália nos anos 1970, expandiu-se para o mundo. 02 Brasil Associou-se à redemocratização e ao movimento sanitarista, culminando na criação do SUS. 03 Ideal Libertação dos manicômios, melhores condições de trabalho e práticas mais humanas. Marcos Históricos da Saúde Mental No século XVIII, comportamentos "loucos" foram reconhecidos como doença mental pelo alienismo, que depois se tornou a especialidade médica denominada psiquiatria. Tratamento Moral A psiquiatria clássica utilizava o "tratamento moral": um modelo baseado em castigos e disciplina rígida, sem mediação medicamentosa ou terapêutica. O objetivo era remodelar o comportamento do paciente, forçando uma conduta considerada "normal" pela época. A prática ocorria em manicômios isolados, refletindo a crença de que os doentes mentais deveriam ser excluídos do convívio social. Institucionalização da Loucura O isolamento em instituições segregadas agrava o quadro clínico do indivíduo em sofrimento psíquico. A deterioração causada pelo regime asilar é o que se define como institucionalização da loucura. Causa Real A degradação decorria dos efeitos do ambiente e da ruptura de vínculos — não da evolução natural da patologia. Consequência Afastamento do convívio social e rotina de controle rigoroso levam ao declínio da saúde mental. Reforma Psiquiátrica: Franco Basaglia Na década de 1970, Franco Basaglia, na Itália, iniciou o movimento pelo tratamento em liberdade, fora dos muros dos manicômios. Medicação: Eliminou contenções físicas Reeducação: Humanização dos profissionais Vínculos: Restabelecimento com o exterior Abertura: Destruição de barreiras físicas Nasce a Psiquiatria Democrática "A segregação não é terapêutica e viola os direitos humanos da pessoa com transtorno mental." O ponto central da psiquiatria democrática é o tratamento em liberdade, extramuros. Não adianta só tornar o hospital psiquiátrico mais humanizado: a reforma psiquiátrica busca reinserir as pessoas na sociedade e acabar com o tratamento fechado. O Início da Reforma no Brasil O marco inicial foi a luta por redemocratização do país no final dos anos 1970. O estopim foi a greve dos trabalhadores da saúde mental contra condições precárias de trabalho e desumanização do cuidado. As pautas incluíam: regularização trabalhista, críticas ao eletrochoque, humanização dos serviços e melhores condições de assistência à população. Contexto da Reforma Sanitária A luta por melhores condições na saúde mental caminhou junto com a batalha pela saúde pública universal, denominada Reforma Sanitária, que levou ao surgimento do SUS. No meio dessas reivindicações, surgia a luta contra os maus-tratos sofridos pelos pacientes nos manicômios. LEGISLAÇÃO Lei nº 10.216 — Lei da Reforma Psiquiátrica Projeto apresentado em 1989, homologado em 2001 como Lei nº 10.216 (Lei Paulo Delgado). Propunha: Diminuir leitos em hospitais psiquiátricos Investir em dispositivos de tratamento extramuros Impedir internações arbitrárias Direitos Garantidos pela Lei 10.216 Humanidade e Respeito Tratamento sem discriminação, visando à reinserção na família, no trabalho e na comunidade. Transparência Direito a esclarecimentos sobre diagnóstico, tratamento e internação involuntária. Meios Minimamente Invasivos Tratamento em ambientes terapêuticos e serviços comunitários, com o menor impacto possível. Consentimento em Pesquisas Pesquisas diagnósticas ou terapêuticas exigem consentimento expresso do paciente ou representante legal. A Lei Prevê o Fim dos Hospitais Psiquiátricos? Hospital Exceção Fim do Asilar RAPS Forte Não exatamente. A lei prevê a substituição progressiva e a mudança radical da função hospitalar. O Artigo 4º estabelece que a internação só é indicada quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes. A Resolução 487/2023 do CNJ determinou o fechamento definitivo dos Hospitais de Custódia (manicômios judiciários). PORTARIA Nº 148/2012 Serviço Hospitalar de Referência (SHR) O SHR são leitos de saúde mental dentro de Hospitais Gerais — não em hospitais psiquiátricos isolados. A pessoa em crise recebe atendimento no mesmo ambiente onde se tratam outras condições de saúde, combatendo o estigma. Características do SHR Curta Permanência Internação apenas pelo tempo necessário para estabilização do quadro agudo. Porta de Entrada e Saída Paciente vem encaminhado pelo CAPS ou UPA e retorna à rede territorial após a alta. Equipe Multiprofissional Psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros e médicos, com foco na reintegração. Cuidado Transversal Acesso a exames e especialidades antes negligenciadas nos hospitais psiquiátricos. Por que o SHR é Estratégico? O SHR quebra a lógica do hospitalocentrismo: oferece cuidado intensivo e seguro sem muros altos ou longas distâncias. Ao colocar o leito de saúde mental no Hospital Geral, o Estado reconhece que o sofrimento psíquico é uma questão de saúde como qualquer outra. Projeto Terapêutico Singular (PTS) O PTS é a principal ferramenta de gestão do cuidado na RAPS. Substitui o tratamento padronizado por uma estratégia desenhada especificamente para as necessidades de um único sujeito, considerando sua história, vínculos, desejos, cultura e território. Os Quatro Movimentos do PTS 1 Diagnóstico Situacional Vai além do sintoma: busca vulnerabilidades e potencialidades do sujeito. 2 Definição de Metas Objetivos de curto, médio e longo prazo, pactuados com o próprio usuário. 3 Divisão de Responsabilidades Define técnico de referência e papéis da equipe, família e usuário. 4 Reavaliação O PTS é dinâmico: revisado periodicamente conforme a evolução do caso. O PTS na Prática A pessoa com transtorno mental não precisa apenas de medicamentos ou psicoterapia. Ela pode ter diversas necessidades: renda, acesso a serviços, inclusão social. O usuário não é visto como paciente passivo, mas como protagonista de sua vida e cidadão portador de direitos e voz política. O PTS é construído em conjunto com o usuário e busca melhorar sua qualidade de vida nas esferas física, mental e social. Ações que Compõem o PTS Clínico Atendimento psicoterápico individual ou em grupo; oficinas no CAPS. Social Visitas domiciliares, inserção em atividades comunitárias, auxílio para benefícios governamentais. Familiar Atendimento aos familiares em reuniões de família ou consultas específicas. Intersetorial Ações em conjunto com atenção primária e rede de assistência social. Atuação Interdisciplinar O ser humano deve ser visto como constituído de dimensões biológica, psicológica, social e histórica. O trabalho nos CAPS é realizado por equipe multidisciplinar sem hierarquia entre especialidades — rompendo com o poder médico do período pré-reforma. ESPECIALIDADES E INTEGRALIDADE Especialidades e Integralidade Coletivo da Equipe Construção do PTS, acolhimento, atividades grupais. O cuidado em saúde mental exige intercâmbio constante entre saberes. O acompanhamento psicossocial frequentemente demanda redes externas: assistência social, justiça, educação e cultura. O atendimento deve ser norteado pelo princípio da integralidade, opondo-se a qualquer assistência fragmentada. Papel da Família no Acompanhamento O modelo atual prevê que o acompanhamento no CAPS ocorra em parceria com as famílias — sem culpá-las pelos problemas dos pacientes, nem responsabilizá-las por todo o cuidado. O objetivo é auxiliar na relação cotidiana com o paciente, diminuir conflitos intrafamiliares e incentivar a participação de todos no tratamento. Família como Elo Terapêutico Escuta e Acolhimento É essencial disponibilizar espaço deescuta para os familiares — o sofrimento do cuidador também precisa ser acolhido. Vínculo com o Serviço Muitas vezes a família é o único elo entre a pessoa com transtorno mental e o serviço de saúde mental. Divisão Técnica Preconiza-se profissionais distintos para o usuário e para a família, preservando espaços de escuta independentes e evitando conflitos éticos. Tratamento em Liberdade e Crise O paradigma contemporâneo privilegia a permanência do sujeito em seu território e convívio social, mesmo em episódios de intensificação do quadro. Transtornos mentais severos têm natureza frequentemente crônica: o foco se desloca da cura para o manejo contínuo e a reabilitação. Cuidado Intensivo Acessa o serviço, mas retorna diariamente ao domicílio. Momento de Crise Desestabilizaç ão aguda que pode gerar risco à integridade física exige atenção imediata. Desinstitucionalização É a desconstrução da ideia de que transtornos mentais devem ser tratados somente com internação. A tendência manicomial está presente em toda a cultura — patologizar e excluir o diferente, segregando quem vai contra as normas. A luta antimanicomial é uma mudança cultural ampla, não apenas a retirada de internos dos hospitais. Redução de Danos e Trabalho em Rede Redução de Danos A abstinência não é critério de inclusão no tratamento. O objetivo é diminuir os prejuízos que o transtorno causa à vida da pessoa, não eliminar completamente as alterações. Trabalho em Rede Não existe um centro de destaque: todos os serviços, pessoas e instituições são essenciais. Os CAPS dependem de outros serviços de saúde, ONGs, família, educação e assistência social. DISPOSITIVO CENTRAL Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Os CAPS não devem ser apenas dispositivos de saúde. Precisam ser espaços de convivência e exercício de cidadania, acolhedores, sem reprimir a singularidade dos usuários. Tipos de CAPS CAPS I Cidades de 15.000 a 70.000 hab. Atende toda a demanda de saúde mental do município. CAPS II / CAPSi / CAPS- ad Cidades de 70.000 a 150.000 hab. Subtipos para infantojuvenil e álcool/drogas. CAPS III / CAPS ad III Cidades com mais de 150.000 hab. Funcionam 24h, com acolhimento noturno e todas as faixas etárias. Estrutura Física do CAPS O ambiente do CAPS precisa ter: Espaços de convívio social Áreas para oficinas (esporte, música, geração de renda) Refeitório para pacientes em período integral Salas para atendimentos e sanitários Atenção Psicossocial: Além da Clínica A atenção psicossocial deve levar em conta todo o entorno e contexto do paciente. O objetivo é estimular a autonomia e o protagonismo do usuário, evitando dependência, submissão e incapacidade. Perigo Interno Existe o risco de tornar o espaço do CAPS excludente e manicomial, com atividades que são meros "passatempos" sem produção de cultura ou trabalho político. Meta Real Nosso papel não é tornar o CAPS o único local seguro para o paciente, mas possibilitar sua convivência em um território cada vez mais amplo. Matriciamento O matriciamento é o trabalho conjunto e compartilhado entre as equipes de saúde mental (CAPS) e a Atenção Primária à Saúde (UBS/ESF). Os profissionais do CAPS podem assumir a função de equipe matriciadora, oferecendo suporte técnico à Estratégia Saúde da Família, que mantém o vínculo com o usuário. Papéis no Matriciamento O objetivo é evitar encaminhamentos sem efetividade. Ao trabalhar em conjunto e responsabilizar cada setor, é possível uma atenção à saúde eficiente. O especialista em saúde mental não atende nas UBS: seu papel é dar suporte à equipe da atenção básica. Internação na Perspectiva da Reforma A internação permanece como recurso para situações graves, mas sob lógica de curta permanência. A Lei 10.216 define que ela só será utilizada quando o tratamento extra- hospitalar não for suficiente para evitar riscos. Tipos de Internação 1 Voluntária O paciente aceita ou se encaminha voluntariamente para a internação. 2 Involuntária O paciente recusa a indicação. Deve ser notificada ao Ministério Público em até 72 horas. 3 Compulsória O paciente não pode decidir. Determinada pela Justiça. Alta Hospitalar e Continuidade do Cuidado A alta não depende apenas da estabilização do quadro: deve ser planejada para reverter os fatores que agravaram o quadro. O trabalho de atenção psicossocial não se interrompe com o paciente internado — ele se intensifica. A família deve receber orientações sobre diagnóstico, tratamento, alta hospitalar e continuidade do cuidado na RAPS. DESINSTITUCIONALIZAÇÃO Serviço Residencial Terapêutico (SRT) Pessoas que passaram décadas em manicômios adquirem graves prejuízos pela institucionalização psiquiátrica. Não basta retirá-las do aprisionamento: é necessária uma reabilitação psicossocial assistida. Instituição Total — Goffman Horários Rígidos Toda a vida regulada pela instituição. Vigilância Constante Risco permanente de punição. Isolamento Contato restrito com o mundo externo. Sem Poder Internos sem informação ou voz nas decisões. Erving Goffman descreveu os efeitos da estadia em uma instituição total: aquela em que todas as atividades da vida são realizadas dentro dela, causando ruptura com todos os outros espaços sociais. O resultado é a "mortificação do eu" e o "desculturamento" — perda da concepção de si mesmo e de suas crenças. Legislação dos SRTs Ano 2011 Portaria nº3.090: Tipo I e II Ano 2003 Lei nº10.708: De Volta para Casa Ano 2000 Portaria GM nº106 cria SRTs Anos 1990 Pensões e lares como protótipos A legislação consolidou os SRTs como moradias mantidas pelo Estado para ex-internos sem suporte familiar, com foco na reabilitação psicossocial. Tipos de SRT SRT Tipo I Até 8 moradores com transtorno mental em processo de desinstitucionalização. Sem equipe própria — referenciado a um serviço de saúde mental. SRT Tipo II Até 10 moradores com acentuado nível de dependência e comprometimento físico. Conta com 5 cuidadores e 1 técnico de enfermagem. Estrutura física: máximo de 3 por dormitório, mobiliado como casa confortável, com garantia de três refeições diárias. Importância dos SRTs Os SRTs representam ao máximo a desinstitucionalização e a luta antimanicomial. Cada residência em funcionamento significa menos pacientes enclausurados. "Resgatar a cidadania dos ex-internos não é somente a restituição de seus direitos formais, mas de reconstruir seus direitos ao afeto, às relações sociais, à moradia digna e à produtividade." Desafios dos SRTs Preconceito dos Proprietários Resistência em alugar imóveis para funcionamento de SRTs. Capacitação Profissional Funcionários precisam ser treinados no novo referencial ético e clínico, evitando excesso de tutela ou disciplina rígida. Gestão Peculiar Funciona 24h como serviço, mas deve ser gerido como residência e não como espaço "hospitalar". A RAPS em Síntese Considerações Finais A reforma psiquiátrica é um campo relativamente recente que exige rompimento com o senso comum sobre transtornos mentais. O trabalho na saúde mental pública vai além da saúde: envolve cultura, assistência social e educação. Toda a sociedade é responsável pelo cuidado das pessoas que, por tantos anos, foram excluídas e submetidas a tratamento desumano. Princípios que Guiam a RAPS Atenção Humanizada Todos os serviços devem seguir os preceitos da reforma: cuidado centrado no sujeito. Direitos Humanos Combate ao preconceito e garantia dos direitos de cidadania para pessoas com transtorno mental. Cuidado em Rede Família, serviços de saúde, assistência social e toda a sociedade compartilham a responsabilidade. A Reparação Histórica A reparação de todo malfeito ao longo da história manicomial encontra seu ápice na manutenção pelo Estado de residências para aqueles que não conseguem retornarpara suas famílias e na garantia de uma renda para que possam se manter.