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21/05/2026, 11:05 Correio APPOA Seis vezes Dora 249 outubro de 2015 Temática A afonia de Dora não para de falar: Dora histérica ou adolescente? Roséli Olabarriaga Cabistani Ao pensar o Caso Dora e o que mais dizer sobre esse que tantos textos já inspirou, a questão que me veio foi aquela desenvolvida numa das reuniões preparatórias ao congresso sobre o corpo, a partir da leitura de Giorgio Agamben (2009). A pergunta refere-se a como tornar um texto contemporâneo. É conhecido o pensamento do filósofo sobre o que é o contemporâneo. texto de Freud, isto é, a apresentação do caso, atendido em 1900, nos ensina muito a partir da posição de Freud, que tem, como diz Agamben a respeito do contemporâneo,"... uma relação singular com o próprio tempo, que adere a este e, ao mesmo tempo, dele toma "(Agamben, 2007, p.59) Escreve este: "Aqueles que coincidem muito plenamente com a época, que em todos os aspectos a esta aderem perfeitamente, não são contemporâneos porque, exatamente por isso, não conseguem vê-la, não podem manter fixo o olhar sobre ela. (Agamben, 2009, p.59)." Pensei então nas perguntas que podemos colocar hoje ao texto, que é passado e que não paramos de trazer ao nosso tempo, por que ele nos dá pistas para enfrentar as dúvidas que se apresentam. Dizemos hoje que a histeria foi escutada pela psicanálise, na palavra das mulheres que na virada do séc. XIX para o séc. XX, manifestaram seu mal-estar, através dos sintomas conversivos e teatrais, tão enigmáticos para os médicos da época e tão grávidos de sentidos para Freud e os psicanalistas que seguiram. A psicanálise ao dar voz ao que foi recalcado, confere às mulheres a condição de narradoras de suas histórias, de seus sofrimentos e, portanto, também a responsabilidade que acompanha aqueles que acedem à posição de ser sujeitos de seus desejos. Dora denunciou uma trama, na qual estava metida até o pescoço, possivelmente tentando servir-se das referências necessárias para aceder a uma posição feminina, muito difícil para uma moça, cuja mãe é uma mulher que recusa a dimensão sexual de seu desejo, uma mulher "apagada", consumida pela vida doméstica em sua face mais cruel, isto é, limpar a sujeira, num automatismo sem fim, versão indicada por Freud, da psicose de ama-de-casa. Como pensaríamos Dora hoje, chegando para um tratamento psicanalítico, aos 18 anos, trazida pelo pai, homem em torno de 50 anos e já conhecido do analista? Acredito que pensaríamos em escutar a moça, buscando ouvir sua queixa e trabalhar no sentido de descolar a demanda do pai, da demanda que a própria moça poderia vir a fazer. No mesmo ano em que o Caso Dora veio a público, 1905, Freud publicou os Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (Freud, 1989). No terceiro desses ensaios, As transformações da puberdade, ele faz referência a uma das tarefas colocadas ao adolescente, que é o desligamento da autoridade dos pais, uma realização psíquica das mais significativas, como enfatiza, através do qual se cria a oposição entre a nova e a velha geração, oposição essa tão importante para progresso da cultura, conforme afirma o mestre. Com relação às moças, Freud diz que aquelas que não superam a autoridade dos pais e não retiram deles seu amor, ou só o fazem de maneira muito parcial, persistem em seu amor infantil muito além da puberdade e, segue:"...e é muito instrutivo constatar que é a essas moças que falta, no seu posterior casamento, a capacidade de dar ao marido o que é devido a ele. Tornam-se esposas frias e permanecem sexualmente anestesiadas. "(Freud, 1989, p.214) Apesar dessa abordagem, de suas elaborações sobre a puberdade, Freud escuta Dora como uma jovem e ele marca essa condição no texto, mas é como mulher que ela é instada a responder por que sente "nojo" de um homem como o Sr. K, tão interessante e bem apessoado, na opinião de Freud. Um dos elementos que nos faz voltar a este texto tão lido e relido, é o fato de encontrar nele conceitos e elaborações teóricas ainda na sua pré-história. Freud foi generoso ao legar a escrita de um caso inacabado,não ocultou a sua própria castração, isto é, seus vacilos e fracassos. De onde podemos concluir que aprendemos mais com nossos erros, do que com nossos êxitos. Lacan trabalhou sobre que Freud não escutou em Dora. E muitos psicanalistas o fizeram, na "tentativa de terminar essa análise escreveu Maria Rita Kehl (Kehl, 1998, p.298). Encontramos inclusive uma carta ficcional, escrita por Octave Mannoni (1983), cheia de ironia, onde autor "psicografa" Dora comunicando-se com a Sra. K, à propósito da publicação do Caso Dora que ela havia lido. Inicia da seguinte forma: "S.L.J. (iniciais de minha queridíssima J. em alemão, segundo a nota do editor) Sim. Não, você não se engana, nem poderia se enganar; não você. Sim, sou eu. Que estranho presente de ano novo! Deve ter ficado espantada. Que sorte extraordinária que tenha dado com esses dois números (Nota do editor: certamente os n°s4 e 5- outubro e novembro de 1905, da revista tal), senão tampouco receberia carta sua. 1/321/05/2026, 11:05 Correio APPOA Cinco anos já! Começava a esquecer essa história. Não, não esquecia de você. O estranho sobrenome a intriga, quer que o explique, mas eu mesma não sei de nada, nunca se falou disso nem tenho nada com o assunto. É na certa porque D vem antes de E, deve ser o sistema dele, viucomo a você ele chamou K. Aliás, me lembrei, no início me explicou o método, ele gosta de explicar, demais, é cansativo, e havia, não sei mais por que, uma alusão à buceta de Pandora. Ele queria falar de etimologia, isto lembrou-me que me obrigaram a aprender grego. Cortei-lhe a palavra, eu era um pouco pedante nessa época, para dizer que doronera dom, o sacrifício aos deuses, a vítima. Sabe, ele nunca entendeu, não quis entender, o quanto eu era a vítima sacrificada. Mas isso deve ter passado em sua cabeça, e é por isso que Dora sou eu. Em todo caso, é o que acabo de achar. Talvez seja um pouco forçado. Além do mais, realmente não tem nenhuma importância. Se fosse só isso! Não me agradou nada ser tratada de histérica sem a menor cerimônia, mesmo dizendo ser uma pequena histeria. Um "caso menor", é o que eu sou... (p.9-10)" Dora/Octave segue muito irônica, mais adiante, ao referir-se a pergunta que faz Freud sobre a bofetada que ela dera no Sr. K, ela diz que é claro o motivo, mas... "Para ele não é claro. Parece tão reservado e de repente solta verdadeiras barbaridades. Como quando pensa saber por que seu marido me enojava. Ele tem várias explicações (todas nojentas, naturalmente). Exemplo: que eu teria sentido o seu ...dentro das suas calças! A audácia masculina! Quando não se exerce na sedução, é no insulto! Eu não disse nada, também sei me calar. Imagine-me você dizendo: Não Herr Professor, (quero dizer Privat-dozent), eu não senti isso. Além do mais, de que valem estas explicações? Se o ...do seu marido é nojento, não há problema. Se não é, de onde vem o nojo? Enfim, é complicado demais, não estou certa de enxergar o ponto de vista dele. Mas pelo menos compreendi o professor. Pode ser visto nos seus artigos, mas eu já tinha adivinhado, sim, compreendi que ele estava apaixonado por papai! Não ria. Falo sério. É verdade e tudo se explica dessa maneira. Ele não se interessa realmente por mim, mas apenas em agradar papai. Desde que vi que estavam de acordo, o que ele próprio talvez não visse, comecei a me tornar prudente, desconfiada e até, como se diz em C,, matreira. Quando sugeriu que eu estava apaixonada por você, eu disse "claro", sem pudor, e talvez com orgulho. Isso o embaraçou, como se fosse franco demais para se verdade. Mas eu poderia tê-lo embaraçado ainda mais se dissesse: "E o senhor? Não está apaixonado pelo papai?" Mas então, o que não teria ouvido! Era arriscado demais, o jogo era desigual... (p.13-14)" Enfim, a leitura desse material é interessante, mas o recorto aqui para propor a ideia de que essa ficção, faz parte da Dora de Mannoni, mais um a buscar dar voz, lugar de fala, a essa análise interrompida tão precocemente. que nos diz o autor dessa carta? Aponta que Freud estava muito preocupado com seu método, que aliou-se ao pai de Dora, pelo menos pensa que ela o sentiu assim, e que construiu demais suas interpretações, sem conhecer como andavam as coisas no nível da transferência. Enfim, o legado de Freud nos trabalha pelo que possibilitou, pelo que faltou ou até mesmo, onde tropeçou. Ensinou- nos a continuar a escutar Dora, essa adolescente que recusou-se a subjetivar-se através da via proposta pelos homens que tentaram se servir dela, ao antecipar o destino de infelicidade neurótica, tal qual a própria mãe, nos diz Maria Rita Khel(1998), numa outra leitura do caso. Foi nessa linha de escutar Dora que pesquisei o que Dora lia na Fisiologia do Amor de Mantegazza. Paolo de Mantegazza, viveu entre 1831 e 1910 e, segundo Guerra (2013), foi um antropólogo e médico alinhado ao projeto de classificação científica, que no século XIX se estendeu para a classificação dos homens e de seus sentidos. mesmo contestou a "teoria do defendida por Lombroso e Ferrero, que dizia respeito a comparação da estrutura orgânica das mulheres com aquela das crianças, opondo a esta a "teoria da complementariedade funcional dos dois sexos. Guerra (2013) ainda afirma que Mantegazza defendeu uma iniciação sexual do jovem sem aprisioná-lo nas suas primeiras descobertas fisiológicas, exposta na seguinte expressão: "primeiro amor e não amor único". A escrita de Mantegazza prima por uma liberalização das práticas sexuais, nas suas manifestações concretas. Como podemos verificar, Dora instruiu-se cientificamente, sobre as coisas do sexo. Ela buscava um saber que não encontraria nos livros, mas essas leituras apontam a uma inquietude que a situa no espírito de sua época. A pergunta que não cessa de perseguir é aquela que Freud e Lacan decantaram de suas experiências clínicas: O que é ser uma mulher? Perguntamos então, não é essa também a questão central da adolescência? A da identidade? Dora apresentava-se como arrogante, reivindicadora, distante da mãe. Voltou-se a uma Outra a fim de resolver o enigma da feminilidade. Entretanto, a mãe ou sua substituta, à qual a menina precisa se identificar para tentar saber o que é uma mulher, também é alguém de quem precisa se manter separada, diferenciada. Isto é um impasse que impede a formulação de uma identidade feminina: "Ser mulher é, ao mesmo tempo ser como a mãe e tentar ser uma Outra, destacada desta que no inconsciente será sempre absoluta, dominadora, mortífera. À pergunta que é ser uma mulher?" a menina precisa responder ainda uma outra quer mulher sou eu? num movimento de separação da mãe para o qual ela tem de contar com o falo simbólico que ela espera lhe venha do pai." (Khel, 1998, p.304) Voltando o olhar ao "escuro de nosso tempo", penso que esta é uma questão muito presente ainda,na clínica com jovens mulheres adolescentes, quando precisam fazer uma escolha profissional, amorosa, ou tomar uma posição na vida. Como fazer escolhas que as diferenciem das mães, quando estão tão identificadas a algum traço dessas mães? Como escapar ao espelhamento mãe-filha, senão a partir de uma triangulação possível, "... para que a menina possa fazer-se mulher sem correr o risco de confundir-se com o sexo de onde ela, literalmente, saiu." (Khel, 1998, p.304) Outras questões que a leitura do caso Dora pode vir a iluminar estão postas na clinica contemporânea, onde o corpo é lugar de inscrições múltiplas, como as tatuagens, escarificações, piercings, exposição abusiva às cirurgias plásticas, uso de esteróides, etc... Cada uma dessas modalidades de inscrição e modificações do corpo devem ser pensadas no sentido de que demanda atendem. 2/321/05/2026, 11:05 Correio APPOA Para os adolescentes, confrontados com a perda do corpo infantil, dos pais da infância, o desligamento da autoridade desses pais, suas angústias, às vezes impronunciáveis, buscam algum tipo de expressão corporal. que não pode ser representado simbolicamente, emerge sem bordas, no real do corpo. Nesse sentido, podemos pensar as escarificações no corpo das adolescentes, tão frequentes hoje, como tentativas de sentir o "novo" corpo, de habitar um corpo ainda desabitado de subjetividade? Dora hoje não emerge de sua afonia como discurso que permitiria ler o sofrimento de nosso tempo, em especial aquele que os adolescentes tentam expressar? Não estão muitos deles sem um lugar de fala no laço social? Referências bibliográficas AGAMBEN, G. que é contemporâneo? E outros ensaios. Chapecó: Argos, 2009. FREUD, S. ([1905] 1989) Fragmento da análise de um caso de histeria. In: Edição Standart Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, vol.VII. p.12-115. ([1905] 1989) Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: Edição Standart Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, Vol.VII. p. 118-228. GUERRA, Sara Caumo. Viajante-antropólogo: Narrativa de Paolo de Mantegazza (1831-1919) Monografia. Departamento de Antropologia/IFCH/ Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2013-on-line. KHEL, Maria Rita. Deslocamentos do feminino: a mulher freudiana na passagem para a modernidade. Rio de Janeiro: Imago, 1998. MANNONI, Octave. Ficções Freudianas. Rio de Janeiro:Livraria Taurus Editora 1983. Autor: Roséli M. Olabarriaga Cabistani 3/3

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