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25/04/2016 resenhasonline 032.03: A atualidade do pensamento de Cesare Brandi | vitruvius
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resenhas online ISSN 2175­6694
A atualidade do pensamento de Cesare Brandi
Claudia dos Reis e Cunha
A preservação do patrimônio cultural em suas diversas formas e aspectos vem
ganhando cada vez mais espaço na sociedade ocidental contemporânea (e
também, embora de modo mais discreto, entre as culturas orientais), seja
atrelada ao turismo cultural patrocinado por grandes empresas e incentivado
por ações governamentais, seja na luta por igualdade e democratização no
acesso e fruição da cultura, como no caso de grupos representativos de
minorias étnicas ou sociais. Desde a década de 1960 verifica­se ainda a
ampliação do raio de alcance das práticas patrimoniais, estendendo­se a um
número cada vez maior de países, que passam a ser signatários da Convenção
do Patrimônio Mundial e das recomendações internacionais para salvaguarda
de bens culturais.
Na atualidade, preservar a memória tem sido mesmo uma obsessão. Muito além
dos meios acadêmicos ou técnicos, preservar o passado e seus traços deixou
de ser tarefa restrita de historiadores, arqueólogos, arquitetos ou
urbanistas; a memória não mais se restringe a objeto de estudo de
antropólogos, etnólogos, cientistas sociais ou ainda psicólogos. Cada
indivíduo faz­se historiador de si mesmo e do grupo em que está inserido e
os discursos relativos à preservação do patrimônio – seja arquitetônico e
urbanístico, ambiental ou cultural, material ou imaterial – ganham a mídia
e aparecem cada vez mais intensos entre os mais distintos grupos.
Nesse sentido, a problematização das questões relativas às motivações para
a conservação e usos atribuídos ao patrimônio na sociedade contemporânea,
tendo em vista o exponencial crescimento do que se considera patrimônio
cultural, sua extensão territorial e o aumento de seu público em escala
mundial, torna­se imprescindível. Também se faz premente uma reflexão sobre
as diferentes formas de preservação da memória e ainda sobre o aparato
teórico­conceitual, bem como sobre as práticas de restauração empreendidas
em favor da manutenção dos suportes materiais dessas memórias.
A recente tradução para língua portuguesa da Teoria da Restauração, de
Cesare Brandi, permitirá a um público mais amplo o aprofundamento da
reflexão sobre as questões relacionadas com a prática do restauro. Para
muitos que trabalham com preservação no Brasil esse importante texto de
teoria do restauro permanece desconhecido e, entre aqueles que já o
resenha do livro
Teoria da restauração
Cesare Brandi
2008
032.03 
sinopses 
como citar
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original: português
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032
032.01
Arqueologia e
patrimônio não são
apenas sobre o passado
Gustavo G. Politis
032.02
A civilização de
Corbusier
Antônio Agenor Barbosa
032.04
Razões para o
desenvolvimento
restaurador
Cêça Guimaraens
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agenda cultural
rabiscos
eventos
concursos
seleção
Escola de Atenas, Rafael, Capela Sistina. Antes e depois da
restauração
em vitruvius
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25/04/2016 resenhasonline 032.03: A atualidade do pensamento de Cesare Brandi | vitruvius
http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/03.032/3181 2/4
conhecem, tem sido inúmeras vezes classificado como pouco aplicável na
prática, restringindo­se a pura reflexão teórica sobre problemas
filosóficos ligados ao tema. Na realidade, o trabalho de Brandi ao
desenvolver sua Teoria, funda­se na necessidade de excluir o empirismo dos
processos de restauração das obras de arte, garantindo, assim, que aquele
imperativo moral de preservar nossas relíquias para as gerações futuras
seja levado a cabo a contento.
Desde os últimos anos do século XIX e início do século XX vinham sendo
empreendidas diversas tentativas com o intuito de disciplinar e limitar as
ações de restauração, tendo em vista que as más restaurações estavam
causando prejuízos maiores às obras de arte do que a própria ação do tempo
sobre elas. Preconizava­se a necessidade de tornar o restauro um ato
científico, que seguisse princípios e métodos cientificamente determinados,
respeitando os monumentos enquanto documentos históricos, para os quais
deveriam ser dispensados cuidados de filólogo, tal como defendia Gustavo
Giovannoni, cujas idéias tiveram grande repercussão no entre­guerras
europeu.
Entretanto, com a maciça destruição das cidades européias durante a Segunda
Guerra e, conseqüentemente, a necessidade de reconstrução também em larga
escala, as teorias do restauro científico ou filológico, defendidas por
Giovannoni, foram postas em cheque. Não se podia pensar nos monumentos
destruídos apenas como documentos, ignorando sua existência como obra
figurativa com significação social e simbólica. Em razão da grande escala
das intervenções não se podia cogitar o tratamento de lacunas como
“neutros”. Assim, esses questionamentos suscitaram o pensamento de que o
restauro era, para além de um ato científico de filólogo, também um ato
crítico (para um histórico sobre preservação e as transformações das
teorias do restauro, ver Giovanni Carbonara, Avvicinamento al restauro.
Teoria, storia, monumenti. Napoli, Liguori Editore, 1997).
Nesse contexto, Cesare Brandi será figura de grande destaque. À frente do
Instituto Central de Restauração (ICR) de Roma, do qual foi diretor por
duas décadas, desde sua fundação, em 1939, até 1960, coordena a restauração
de inúmeras obras de arte destruídas nos bombardeios e, paralelamente,
desenvolve sua Teoria da Restauração, em que delimita preceitos teóricos
que servirão de embasamento à prática do restaurador, aliando suas
pesquisas teóricas nos campos da estética e filosofia da arte com as
práticas e experiências desenvolvidas no âmbito do ICR.
Publicado pela primeira vez em 1963, Brandi apresenta em seu texto o
conceito de restauro como “o momento metodológico do reconhecimento da obra
de arte, na sua consistência física e na sua dúplice polaridade estética e
histórica, com vistas à sua transmissão para o futuro” (p. 30), isto é,
condiciona o ato de restauração à compreensão / experimentação da obra de
arte enquanto tal, o que resulta na prevalência do estético sobre o
histórico, na medida em que é exatamente a condição de artística o que
diferencia a obra de arte de outros produtos da ação humana. Tal colocação
refuta as teorias precedentes que preconizavam a manutenção dos monumentos
apenas como documentos históricos, relegando a um segundo plano sua imagem
figurativa, embora não exclua a importância do valor histórico, intrínseco
a todo monumento.
De seu conceito de restauro, Brandi extrai dois axiomas:
1º. axioma: “restaura­se somente a matéria da obra de arte” (p. 31), que se
refere aos limites da intervenção restauradora, levando em conta que a obra
de arte, em sua acepção, é um ato mental que se manifesta em imagem através
da matéria e é sobre esta matéria – que se degrada ­ que se intervém e não
sobre esse processo mental, no qual é impossível agir. Daí decorrem as
críticas às restaurações baseadas em suposições sobre o “estado original”
da obra, condenadas a serem meras recriações fantasiosas, que deturpam a
fruição da verdadeira obra de arte.
2º. axioma: “A restauração deve visar ao restabelecimento da unidade
potencial da obra de arte, desde que isso seja possível sem cometer um
falso artístico ou um falso histórico, e sem cancelar nenhum traço da
passagem da obra de arte no tempo” (p. 33). Ainda que se busque com a
restauração a unidade potencial da obra (conceito de todo distinto de
unidade estilística), não se deve com isso sacrificar a veracidade do
monumento, seja através de uma falsificação artística, seja de uma
falsificação histórica.
Assim, é o estado de conservação da obra de arte no momento da restauração
que irá condicionar e limitar a ação restauradora, a qual deverá, sob o
ponto de vista da instância histórica, “limitar­se a desenvolver as
sugestões implícitas nos próprios fragmentos ou encontráveis em testemunhos
autênticos do estado originário” (p. 47). E em relação à instância
estética, os limites da ação do restaurador estão postos em função da
matéria original da obra e de sua definição mesmo como obra de arte, pois
“a unidade figurativa da obra de arte se dá concomitantemente com a
intuição da imagem como obra de arte” (p. 46).
O que deve guiar a intervenção é, portanto, um juízo crítico de valor,
idéia presente já no pensamento do historiador da arte vienense Alois Riegl
(Le culte moderne des monuments. Son essence et sa genèse. Paris, Seuil,
1984) e que aparece também na Carta de Veneza (1964), complementada pela
seguinte ressalva: “O julgamento do valor dos elementos em causa e a
decisão quanto ao que pode ser eliminado não podem depender somente do
autor do projeto”. Daí a afirmação da restauração como processo coletivo,
que não pode depender do gosto ou do arbítrio de um único indivíduo, antes
deve ser sustentado por profundos conhecimentos, seja do ponto de vista da
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25/04/2016 resenhasonline 032.03: A atualidade do pensamento de Cesare Brandi | vitruvius
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técnica a ser empregada, seja do ponto de vista humanístico, relacionado
com o domínio da história, estética e filosofia, sem os quais não se pode
assegurar a legitimidade das escolhas efetuadas nos procedimentos de
restauro.
Brandi define ainda como princípios para intervenção restauradora mais dois
aspectos fundamentais:
1º. “a integração deverá ser sempre e facilmente reconhecível; mas
sem que por isto se venha a infringir a própria unidade que se visa
a reconstruir” (p. 47);
2º. “que qualquer intervenção de restauro não torne impossível mas,
antes, faciliteas eventuais intervenções futuras” (p. 48).
Com esses pontos, mantém­se, como já havia sido posto – desde o século XIX
– por Boito ou Giovannoni, a regra da reversibilidade e distingüibilidade
das intervenções contemporâneas nos monumentos do passado, datando a
restauração como fato histórico indissociável do presente histórico que o
produziu. Também no texto brandiano, como nas recomendações da Carta de
Veneza, fica clara a extensão dos procedimentos de restauro para o ambiente
ou entorno da obra como forma de garantir sua adequada conservação física e
também sua leitura como obra de arte.
O rigor de princípios é a marca da reflexão de Cesare Brandi em sua Teoria,
na qual fica patente que a restauração é um ato crítico­cultural do
presente e, portanto, condicionado pelos valores do presente; valores esses
que não podem menosprezar ou se eximir à responsabilidade que o ato de
restauro traz em si, tanto para sua própria geração quanto para as
seguintes. Nisso consiste a atualidade do pensamento brandiano e o grande
mérito de sua tradução em língua portuguesa, a qual certamente aproximará
aqueles profissionais que atuam na conservação e restauração no Brasil,
tanto quanto os estudiosos e interessados do assunto, da reflexão – fator
imprescindível para uma atuação fundamentada e responsável em um campo de
conhecimento a cada momento mais extenso e com princípios cada vez mais
esgarçados.
[resenha desenvolvida como atividade de pesquisa do mestrado que vem sendo
desenvolvido junto à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade
de São Paulo, que conta com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico – CNPq.]
sobre o autor
Claudia dos Reis e Cunha, arquiteta, especialista em História e Cultura
pela Universidade Metodista de Piracicaba ­ UNIMEP e mestranda no programa
de Pós­Graduação da FAU­USP, na linha de pesquisa História e Fundamentos da
Arquitetura e do Urbanismo
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25/04/2016 resenhasonline 032.03: A atualidade do pensamento de Cesare Brandi | vitruvius
http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/03.032/3181 4/4
11 comentários Classificar por 
Otávio Maia
Muito bom texto...
Curtir · Responder · 1 · 5 de novembro de 2011 16:38
Raquel Cabral Cury · Escola Guignard - UEMG
muito bom o texto, pois a questão é profunda e complexa...
Curtir · Responder · 2 de janeiro de 2012 11:10
Leide Jane Silva
Excelente texto. Parabéns!
Curtir · Responder · 24 de fevereiro de 2012 19:37
Bia Sauer · Brasília
Agora sim.. Brandi ficou mais claro p mim 
Curtir · Responder · 3 · 12 de junho de 2012 12:23
Henrique Farias · Bibliotecário Documentalista em Faculdade
Porto/FGV
Texto otimamente cursivo a respeito da metodologia Brandiana, a qual
estou estudando aplicada ao meu curso, de biblioteconomia, tanto nas
disciplinas Conservação e Restauro e História da Arte. Farei referência !
Curtir · Responder · 2 · 13 de junho de 2012 20:48
Teresa Silveira · UNIRIO
Texto claro sobre Brandi e o conceito de restauração!
Curtir · Responder · 3 · 4 de setembro de 2014 21:15
Luciana Brotto · Vitória
Curtir · Responder · 3 de março de 2015 22:01
Andrea Oliveira · PUC-RJ
Agora sim, já entendo Brandi.
Curtir · Responder · 15 de março de 2015 16:29
Ana Luísa Meira · Trabalha na empresa Coda arquitetos
Texto muito bom!
Curtir · Responder · 15 de setembro de 2015 16:09
Marcio Oliveira · Universidade Ibirapuera
objetiva e direta ,otimo
Curtir · Responder · 7 de outubro de 2015 01:35
Manuel Martins · Udesc - Universidade do Estado de Santa Catarina
muinto bon deveria ser a biblia da conservaçao e restauro tal e qual sen
pecados %%
Curtir · Responder · 1 de março de 2016 23:14
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