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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE 
INSTITUTO DE HISTÓRIA 
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
HISTÓRIA DO BRASIL II
GIOVANNA OLIVEIRA MARTINS
LIGIA DO MONTE COLLECTA BARROS
LUCAS BORGES CONCEIÇÃO
Niterói 
2026
1. MEMÓRIA E HISTÓRIA
A historiografia inicial da abolição foi moldada por líderes como Joaquim Nabuco e José do Patrocínio. Eles estabeleceram 1879 como o marco inicial do movimento, coincidindo com seus próprios engajamentos.Nabuco, buscou legitimar a atuação das elites imperiais e do parlamento em detrimento dos republicanos. Sua narrativa atribui à Coroa e ao Poder Moderador o protagonismo absoluto na extinção da escravidão. Entretanto, essa visão é criticada por ser parcial e seletiva, ignorando fatores estruturais e sociais.O foco excessivo nas instituições políticas silencia a relevância de nomes republicanos como Luiz Gama. Além disso, a mobilização popular é tratada apenas como um fenômeno secundário ao processo oficial. O próprio Nabuco reconheceu a seletividade de sua versão, influenciada por disputas políticas da época. Contrariando esse recorte, o abolicionismo já possuía expressão relevante desde meados de 1850 e 1860 A abolição foi, na verdade, resultado de confrontos entre grupos sociais e não um projeto de um único ator.
2. INTERPRETAÇÕES DO ABOLICIONISMO
	A partir dos anos 60, as correntes interpretativas sobre o abolicionismo se dividiram em três principais correntes: A Marxista, Estruturalista e A das Instituições Políticas.
· Marxista (1960-70) : Essa corrente ressalta estruturas e processos socioeconômicos na explicação da abolição. Esses autores , propõem uma leitura da escravidão como parte de um sistema capitalista e intuição responsavel pela singularização das nações pós-colonial. Nela, o Processo político tem pouca relevância explicativa e o movimento abolicionista nem nem comparece como objeto específico de investigação.
· Estruturalista (1980) Essa corrente privilegiou a cultura e, como estudos anteriores, pouco se interessou pelas formas político-institucionais dos conflitos. O olhar das leituras , foram para a agência dos subalternos e para a temática da história cultural. 
· Instituições Políticas: Essa linha retornou a tese do Nabuco . Esse até hoje é o estudo mais completo sobre o assunto , com o estudo de Robert Conrad(1972-75). Seu foco principal foram , as clivagens socioeconômicas e os conflitos entre regiões: o abolicionismo seria fenômeno do norte , onde a relação econômica da escravidão deprecia com a economia do açúcar. Mas adiante também tivemos Carvalho (1980,1988,2007) e Needell(2006) retomando a dinâmica político-institucional.
 
3. TRANSNACIONALISMO E REPERTÓRIO
Para estabelecer a relevância do movimento abolicionista nacional na explicação do processo de abolição da escravidão , a autora usou uma abordagem relacional para falar do tema. Relacional porque, em vez de tomar o abolicionismo em si, considera‑parte de uma dinâmica, que envolve instituições políticas, espaço público e clandestinidade, arenas nas quais se trava o jogo do movimento com Estado e contra‑movimento. É relacional porque insere o movimento em seu contexto internacional, considera os abolicionistas brasileiros em sua relação com similares estrangeiros.
Um movimento social é uma rede de interações sociais que se constrói no curso de um conflito e que alinhava uma pluralidade de indivíduos, eventos e associações (Diani, 2003). Foi na campanha contra o tráfico de escravos, mostra Tilly (2005: 308), que os ingleses inventaram o “movimento social”, essa maneira extraparlamentar de fazer política, à qual recorrem grupos sem acesso ou capacidade de impactar a política institucional. Forma de ação que se caracterizaria por campanha de pressão sobre autoridades, sob forma de manifestações públicas; uso de mesmo repertório de confronto, isto é, de formas semelhantes de organização, expressão e ação; e 
envolve grande número de pessoas, cujo compromisso perdura ante adversidades (sobretudo repressão).
A partir dessa concepção, a autora levantou , em 35 jornais de nove províncias, 1.446 eventos de protesto abolicionista no Brasil entre 1868 e 1888. Aí se inclui uma variedade de estratégias de mobilização, sobretudo a organização de 293 associações exclusivas e de 600 manifestações públicas, como também iniciativas institucionais, ações diretas, simbólicas, de difusão e confrontação, que se distribuíram por 236 
cidades do país, em todas as províncias do Império, ao longo de duas décadas (1868‑1888). 
 	Apos essa análise , a autora percebeu que, a mobilização brasileira pela abolição da escravidão foi, pois, grande, estruturada e duradoura. Nesse sentido, mais similar ao padrão anglo‑americano do que a literatura internacional reconhece. À maneira desses precedentes, os brasileiros construíram uma rede coordenada e nacional de ativistas e associações e se valeram de uma pletora de estratégias de mobilização, inclusive propaganda de massas, recrutando grande número de adeptos. Essa mobilização de feições nacionais permite caracterizar o abolicionismo como nosso primeiro — e grande — movimento social.
Para explicá-lo, é preciso atentar para dois mecanismos. Um diz respeito à apropriação de repertórios, ao modo pelo qual o movimento se valeu das experiências políticas estrangeiras disponíveis. Outro tange à natureza relacional do conflito político, ao jogo movimento/contramovimento/Estado.
4. MOVIMENTO, ESTADO E CONTRAMOVIMENTO
No entendimento da política como um jogo, e o movimento abolicionista que também se apropria do repertório estrangeiro, entende-se que suas posições não são isoladas, mas que dependem das relações travadas com os demais atores. Contrapõe-se neste cenário, o Estado, e outros grupos socialmente estabelecidos, que resistem organizando‑se politicamente. Ademais, a mobilização de um grupo é sempre contra interesses e valores de outros grupos, no surgimento de um movimento contra as elites locais, sempre se levanta um contramovimento.
Neste sentido, na análise do abolicionismo é preciso considerar uma tríade de atores cujas ações eram interdependentes, o Estado atuando como mediador, ora tolerante, ora repressor, orientado por legislações estrangeiras. Já o Contramovimento se tratava de escravistas organizados politicamente, que utilizavam a "retórica da reação", alegando que a abolição seria inútil (processo demográfico natural), teria efeitos econômicos perversos e causaria anarquia. 
Referente ao processo político da abolição, 3 momentos decisivos, marcam a alteração na balança de poder e nas oportunidades políticas.
3.1. Gênese e o "Ciclo das Flores" (1868-1884)
· Contexto: O fim da Guerra Civil Americana e a abolição em colônias espanholas forçaram o tema na agenda brasileira. Ocorreu um racha na elite imperial entre uma ala modernizadora e outra resistente.
· Ações: Criação de associações (como a Sociedade Libertadora Sete de Setembro), lobby, ações judiciais e conferências.
· Marco: A libertação da província do Ceará em 1884, que forçou o sistema político nacional a agir.
3.2. Institucionalização e o "Tempo de Votos" (1884-1885)
· Aliança: O movimento uniu-se ao gabinete Liberal de Souza Dantas, que se comprometeu com uma reforma gradual.
· Estratégia: Candidaturas abolicionistas buscaram referendo eleitoral em diversas províncias para apoiar o projeto de emancipação progressiva.
· Reação: O contra-movimento escravista reagiu com virulência nas urnas e no Parlamento, derrubando o gabinete Dantas e fechando a janela para reformas graduais.
3.3. Confronto e o "Tempo de Balas" (1885-1888)
· Repressão: Sob o gabinete Conservador de Cotegipe, o Estado adotou linha dura e repressão policial, inspirada na "Lei do Escravo Fugitivo" norte-americana.
· Desobediência Civil: O movimento passou a orquestrar fugas de escravos em massa. José do Patrocínio e Joaquim Nabuco declararam abertamente o apoio ao acoitamento de escravos como única via restante.
· Radicalização: Publicações como A Redempção falavam em uma solução pela "estrada de sangue" e pela revolução.5. REDES DE ATIVISMO, ARTICULADORES POLÍTICOS E ESTRATÉGIAS MODULARES
Os abolicionistas brasileiros filtraram e adaptaram experiências estrangeiras para ressoar nas "estruturas de sentimento" da sociedade local. Essa reinvenção resultou em três retóricas mobilizadoras principais que redefiniram a escravidão de uma condição naturalizada para uma injustiça social:
· Retórica do Direito: Associou a abolição ao tropo de uma "nova Independência" nacional.
· Retórica da Compaixão: Diferente do modelo anglo-americano de base religiosa, no Brasil ganhou um matiz laico, artístico e romântico.
· Retórica do Progresso: Adotou uma coloração cientificista moderna, inédita em movimentos precedentes, vinculando o fim da escravidão à modernização do país.
Quanto a expansão do movimento três dimensões organizacionais podem ser destacadas:
1. Redes de Ativismo: Baseadas em relações pessoais (parentesco), profissionais (professores/alunos) e políticas (clubes republicanos e positivistas).
2. Estratégias Modulares: Táticas como conferências e libertação de territórios tornaram-se "portáteis", fáceis de reproduzir em diferentes contextos regionais.
3. Articuladores Políticos
· Joaquim Nabuco: Vinculou o espaço público à arena institucional/parlamentar.
· José do Patrocínio: Coordenou estratégias no espaço público.
· Luiz Gama: Liderou o ativismo judicial.
· André Rebouças: Identificado como o articulador mais importante ("motor oculto"). Negro, aristocrata e professor, Rebouças transitava entre empresários, políticos e estudantes, garantindo a coesão da rede abolicionista de 1868 a 1888.
6. TRÊS MITOS
	O processo de abolição da escravidão no Brasil teve grande complexidade. Certamente, a expressiva e frequente pressão do movimento abolicionista sobre as instituições políticas imperiais, ao longo de duas décadas, e seu caráter decisivo para o desfecho do processo político que levou à abolição em 1888. Por isso, ao utilizarmos esta interpretação do abolicionismo como movimento social, é possível desconstruir os seguintes mitos:
1. Mito da Desconexão de Ideias: Os abolicionistas não apenas importaram ideias estrangeiras; eles as reinventaram para a realidade brasileira, criando uma campanha secular e moderna.
2. Mito da Obra da Coroa: A abolição foi o resultado de um conflito político intenso que quase levou o país à guerra civil. O Poder Moderador foi pressionado pelas forças em conflito, não sendo o condutor exclusivo do processo.
3. Mito da Apatia Social: A sociedade brasileira do Império demonstrou forte organização e mobilização, tanto do lado abolicionista quanto do contramovimento escravista, agindo de forma independente e, por vezes, contra o Estado.
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