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Introdução à Psicomotricidade
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Introdução à Psicomotricidade
Desde a Antiguidade, o corpo humano é valorizado e, na Grécia, o esplendor físico era
associado à masculinidade. A construção simbólica e discursiva do corpo evoluiu ao longo
do tempo, refletindo diferentes concepções. Consoante a Levin (2003), a palavra "corpo"
tem origem no sânscrito garbas (embrião) e no grego karpós (fruto, semente), chegando
ao latim corpus (envoltório da alma).
Esse dualismo entre corpo e alma prevaleceu até o século XIX, quando avanços em
neurofisiologia possibilitaram a compreensão de disfunções sem lesões cerebrais visíveis.
A partir de 1870, estudos neurológicos de Fritsch e Hitzig revelaram áreas do córtex
cerebrais ligadas à integração de imagem mental e movimento, introduzindo o termo
"psicomotricidade".
Conforme cita Levin (2003), o neurologista francês Dupré definiu em 1907 a síndrome da
debilidade motora e introduziu o conceito de psicomotricidade, integrando o
desenvolvimento da inteligência, da afetividade e da psicomotricidade a partir de uma
visão neurológica e filosófica.
Henry Wallon (1979) foi outro pioneiro na área, defendendo que o movimento é a
expressão fundamental e o primeiro instrumento do psiquismo. Para ele, movimento,
pensamento e linguagem formam uma unidade inseparável: o movimento é o pensamento
em ação, enquanto o pensamento é o movimento em potencial.
Inspirado por Wallon, Eduard Guilman (1901-1983) estudou a prática psicomotora e
desenvolveu técnicas de neuropsiquiatria infantil, voltadas para reeducar a atividade
tônica e o controle motor por meio de exercícios. Esses estudos motivaram outros
pesquisadores a criar métodos de relaxamento, promovendo descobertas no
desenvolvimento sensório-motor.
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Nesse sentido, Jean Piaget (1896-1980), por meio de experimentação, investigou a relação
entre psicomotricidade e percepção. Falcão e Barreto (2009) destacam que Piaget
descreve a importância do período sensório-motor e da motricidade, especialmente antes
da aquisição da linguagem, para o desenvolvimento da inteligência.
Esse desenvolvimento mental ocorre de forma gradual, como uma "equilibração
progressiva", passando continuamente de estados de menor equilíbrio para estados de
equilíbrio superior. A inteligência, portanto, é vista como uma adaptação ao meio
ambiente, e esse processo inicial exige a manipulação dos objetos ao redor e a
modificação dos reflexos primários.
Em 1960, Ajuriaguerra (1983) abordou a relação entre emoções e movimento em seu
manual de Psiquiatria Infantil, no qual definiu os transtornos psicomotores, que se situam
na interseção entre aspectos psiquiátricos e neurológicos. Le Boulch (1982), por sua vez,
contribuiu para a área da psicomotricidade com seu livro A Educação pelo Movimento,
onde destaca a importância da psicomotricidade na educação e como ela influencia
diretamente o desenvolvimento educacional, posicionando as escolas como o centro do
desenvolvimento psicomotor infantil.
Na década de 1970, a psicomotricidade começou a integrar conceitos psicanalíticos. Em
1986, Ajuriaguerra (1983) estabeleceu os principais eixos do desenvolvimento psicomotor:
coordenação estático-dinâmica e óculo-manual; organização espacial e temporal da
gestualidade; estrutura do esquema corporal; afirmação da lateralidade e controle tônico
(Falcão; Barreto, 2009). Para Ajuriaguerra, algumas debilidades psicomotoras podem ter
origem emocional, levando a uma nova definição de psicomotricidade que relaciona o
corpo em movimento à construção da realidade, onde as emoções estão presentes e se
manifestam.
No Brasil, os primeiros movimentos em direção à psicomotricidade começaram por volta
da década de 1950, com foco no desenvolvimento de terapias para crianças excepcionais
e na caracterização de distúrbios psiconeurológicos. Em 1951, foi criado no Rio de Janeiro
o primeiro curso de formação de professores para deficientes auditivos, que incluía
atividades como jogos, dramatizações e educação física.
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Contudo, a psicomotricidade se consolidou no Brasil apenas em 1968, quando diversos
cursos foram oferecidos em universidades de vários estados, embora inicialmente, essas
práticas fossem restritas a escolas especializadas. Em 1977, conforme Falcão e Barreto
(2009) explicam, foi fundado o Grupo de Atividades Especializadas (GAE), que promoveu
debates e encontros sobre a psicomotricidade.
A partir de 1980, ele passou a ser responsável pela parte clínica, enquanto o Instituto
Superior de Psicomotricidade e Educação ( ISPE) também começou a atuar nesse campo.
Já em 1982, a Sociedade Brasileira de Psicomotricidade (SBP), organiza seu primeiro
congresso no Rio de Janeiro e a partir desse contexto, várias publicações no campo da
psicomotricidade aconteceram no Brasil.
Segundo Falcão e Barreto (2009), em 1983, foi realizado um curso de pós-graduação em
Psicomotricidade na Universidade Estácio de Sá e no Instituto Brasileiro de Medicina de
Reabilitação (IBMR), ambos localizados na cidade do Rio de Janeiro. Em julho de 1984, o
IBMR também abriu um curso de formação de psicomotricistas, com duração de quatro
anos e nível de graduação, que atualmente é aprovado pelo MEC.
Dessarte, a partir de 1999, a psicomotricidade passou a ser reconhecida como uma
ciência que estuda o ser humano por meio do corpo em movimento. Essa área do
conhecimento está intimamente relacionada ao processo de maturação, considerando que
o corpo é a base para o desenvolvimento das aquisições afetivas, orgânicas e cognitivas.
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Referências
AJURIAGUERRA, J. Manual de psiquiatria infantil. São Paulo: Masson, 1983.
FALCÃO, Hilda Torres; BARRETO, Maria Auxiliadora Motta. Breve Histórico da
Psicomotricidade. Ensino, Saúde e Ambiente, [S. l.], v. 2, n. 2 p. 84-96, 2009.
FONSECA, Vitor da. Psicomotricidade. São Paulo. Ed. Martins Fontes, 1988.
GONÇALVES, Fátima. Do andar ao escrever. Cajamar: Ed. Cultural RBL, 2019.
LE BOULCH, J. O desenvolvimento Psicomotor do Nascimento até os seis anos.
Porto Alegre: Artes Médicas, 1982.
LEVIN, Esteban. A clínica psicomotora: O corpo na linguagem. Petrópolis: Vozes, 2000.
MOI, Rayssa Soares; MATTOS, Márcia Simões. Um breve histórico, conceitos e
fundamentos da Psicomotricidade e sua relação com a educação. In: Encontro
Internacional: História & Parcerias, 2, 2019, Rio de Janeiro. Anais [...]. Rio de Janeiro:
Universidade Veiga de Almeida, 2019.
PIAGET, Jean. Seis estudos da psicologia. Rio de Janeiro: Editora Forense-universitária
Ltda, 1987.
WALLON, Henry. Do ato ao pensamento: Ensaio de psicologia comparada. Lisboa:
Moraes editora, 1979.

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