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BACHARELADO EM FONOAUDIOLOGIA
MARCIONE DE ALMEIDA DIAS
RELATÓRIO FINAL DO ESTÁGIO SUPERVISIONADO OBRIGATÓRIO EM
CAMPO CLÍNICO I
MACAPÁ
2026
MARCIONE DE ALMEIDA DIAS
RELATÓRIO FINAL DO ESTÁGIO SUPERVISIONDO OBRIGATÓRIO EM CAMPO
CLÍNICO I
Relatório de conclusão do Estágio,
apresentado ao Curso de Bacharelado
Em Fonoaudiologia, como requisito
final para cumprimento das atividades
exigidas na disciplina do Estágio
Obrigatório – ÁREA CLÍNICA I.
Professor(a) Orientador(a): Barbara
Cassimira de Souza
MACAPÁ
2026
SUMÁRIO
1. Introdução ......................................................................................................... 04
2. Descrição do campo de estágio ...................................................................... 05
3. Atividades e rotina do campo de estágio ....................................................... 07
4. Público atendido ............................................................................................... 08
5. Relato de experiência ....................................................................................... 08
6. Estudo de caso ................................................................................................. 10
7. Estudo de aperfeiçoamento ............................................................................. 14
8. Considerações Finais ....................................................................................... 15
9. Referências ....................................................................................................... 17
ANEXOS .................................................................................................................18
Avaliação de relatório Final ................................................................................. 38
1. INTRODUÇÃO
A teoria aceita tudo. A rotina de um consultório clínico, no entanto, cobra um
pedágio alto de quem se apoia apenas em apostilas teóricas.
O início do Estágio Supervisionado em Campo Clínico I marca a fratura
inevitável entre o estudante protegido pela academia e o futuro profissional exposto à
realidade incontrolável. Realizado nas dependências da Sonora Saúde Ltda ao longo
de março e abril de 2026, este período de prática desfez qualquer ilusão sobre o
controle absoluto do ambiente terapêutico. A supervisão atenta da fonoaudióloga
Maria José Costa dos Santos exigiu um ritmo de atendimento onde a adaptação rápida
decidia o fracasso ou o êxito de uma sessão. Cumprimos ali uma carga horária
estruturada e chancelada pelo Centro Universitário UniFatecie. A documentação
formal é apenas a superfície.
Diante de uma criança com suspeita de neurodivergência ou com desvios
fonológicos severos, os protocolos engessados falham miseravelmente. Como coletar
um inventário fonético limpo utilizando a lista de registro de imitação do Teste ABFW
se o paciente sequer direciona o olhar ou recusa abrir a boca para tentar repetir a
palavra indicada pelo examinador? O papel impresso perde a utilidade diante do
retraimento comportamental. A vivência diária no estágio escancarou a necessidade
de transmutar os materiais de apoio em ferramentas de investigação sorrateiras.
Utilizar cartões ilustrando o cotidiano e reações emocionais infantis — com desenhos
de um menino machucado ou crianças brincando de areia no escorregador —
converteu-se na principal rota de fuga para arrancar precursores de linguagem. A
tática contornava a recusa do comando direto e estimulava respostas ecoicas e de
tato de forma orgânica.
Este documento detalha o choque de realidade colhido na linha de frente do
atendimento fonoaudiológico infantil e adolescente. As próximas páginas não narram
um mero cumprimento de etapas curriculares, mas sim a arquitetura de intervenções
adaptadas para casos reais. O texto dissecará a maneira como a manipulação do
ambiente físico e o uso de estratégias atípicas de engajamento foram orquestrados
para destravar a mecânica oral e prosódica de pacientes comunicativamente isolados.
A prática atestou que reabilitar a fonação exige, obrigatoriamente, decodificar a mente
de quem a produz.
2. DESCRIÇÃO DO CAMPO DE ESTÁGIO
O estágio supervisionado foi realizado na clínica Sonora Saúde Ltda, situada
na Avenida Procópio Rola, nº 2738, Bairro Santa Rita, em Macapá-AP. A clínica é uma
de saúde especializada que oferece suporte em diversas áreas da reabilitação, des-
tacando-se pela estrutura voltada ao atendimento multidisciplinar e pela adequação
dos espaços para intervenções fonoaudiológicas pediátricas.
Figura 1 – Fachada da Clínica Sonora Saúde
Fonte: Autor (2026)
A estrutura física da unidade é composta por consultórios equipados, recepção
e áreas destinadas à avaliação e terapia infantil. O ambiente terapêutico infantil é um
elemento de destaque, sendo equipado com recursos que favorecem a estimulação
sensorial e motora, essenciais para o desenvolvimento de habilidades comunicativas.
Entre os recursos disponíveis, observam-se superfícies de atividades com painéis de
letras e números, materiais lúdicos de montagem, trampolins e estruturas de organi-
zação visual (como ábacos e relógios lúdicos), que permitem ao fonoaudiólogo estru-
turar o atendimento de maneira lúdica e funcional.
Figura 2 – Sala de espera infantil
Fonte: Autor (2026)
Para além dos aspectos técnicos e da infraestrutura de equipamentos, a
Sonora Saúde Ltda prioriza a humanização do ambiente de atendimento. A disposição
dos recursos lúdicos e a organização do espaço não visam apenas a eficácia
terapêutica, mas também a criação de um ambiente seguro e acolhedor, fundamental
para que o paciente infantil se sinta confortável em expressar-se. A atmosfera clínica
foi planejada para reduzir a ansiedade comum ao ambiente de saúde, utilizando
elementos que estimulam a ludicidade e a interação afetiva entre profissional e
paciente.
Figura 3 – Sala de atendimento
Fonte: Autor (2026)
Isso não representa uma escolha de decoração aleatória. Trata-se de uma
manobra de sobrevivência metodológica. Crianças com transtornos do
desenvolvimento interpretam estímulos inóspitos ou espaços gélidos como ameaças
diretas, respondendo com crises de esquiva severas. O desenho interno da Sonora
Saúde absorve essa imprevisibilidade infantil. Ele entrega um espaço sensorialmente
controlado onde a intervenção terapêutica ganha tração imediata, anulando a
necessidade de forçar o paciente a lutar contra as próprias paredes do consultório. Na
prática fonoaudiológica, o ambiente assume o papel ativo de um terceiro terapeuta.
Essa estrutura física acolhe, organiza o comportamento do sujeito e dita o cenário
exato onde o vínculo adquire um sentido verdadeiramente humano (Adaptado de
WARE, 2010).
3. ATIVIDADES E ROTINA DO CAMPO DE ESTÁGIO
O funcionamento da Sonora Saúde Ltda impunha uma sincronia severa entre
a fonoaudiologia, psicologia, fisioterapia e psicopedagogia. O trabalho cobrava
antecipação. Preparar o consultório rapidamente perdeu o status de tarefa secundária.
Essa etapa se transformou na primeira intervenção terapêutica do dia. A simples
montagem de painéis multissensoriais ou a calibração prévia das pranchas de
Comunicação Alternativa e Aumentativa (CAA) para pacientes não verbais ditava se
a sessão fracassaria ou atingiria o alvo. O controle do ambiente determinava o grau
de engajamento do paciente infantil.
Figura 4 – Prancha de Comunicação Alternativa
Fonte: Autor (2026)
Nos bastidores o ritmo não permitia desaceleração. O manuseioe a
organização constante dos prontuários ancoravam a minha compreensão estrutural
sobre o avanço de cada caso. Eu debatia condutas de motricidade orofacial ou de
linguagem infantil diretamente com a supervisora entre a saída de uma criança e a
entrada de outra. A prática me forçou a entender que o talento no manejo de
consultório vira fumaça quando o clínico negligencia a documentação sistemática dos
seus achados.
4. PÚBLICO ATENDIDO
O público atendido na clínica é majoritariamente composto por crianças com
queixas relacionadas a atrasos no desenvolvimento de linguagem, dificuldades de fala
e questões sensoriais ou motoras que impactam a comunicação. A maioria dos
pacientes encontra-se na faixa etária da primeira infância e escolar, muitas vezes
apresentando diagnósticos ou suspeitas de Transtorno do Espectro Autista (TEA),
atrasos globais do desenvolvimento ou dificuldades de aprendizagem, o que demanda
uma abordagem terapêutica personalizada e altamente lúdica.
A demanda por atendimento fonoaudiológico nesta unidade é complementada
pela necessidade de intervenção conjunta com as áreas de psicologia,
psicopedagogia e fisioterapia, evidenciando um perfil de paciente que requer suporte
multidisciplinar para o alcance de metas funcionais. Durante as sessões, observou-se
que o público atendido responde positivamente a estratégias que privilegiam a
multimodalidade e o brincar direcionado, sendo a participação ativa dos familiares nas
orientações um componente fundamental para a continuidade do processo terapêutico
fora do ambiente clínico.
5. RELATO DE EXPERIÊNCIA
O cumprimento das trinta horas semanais na Sonora Saúde Ltda, entre os 02
de março e 28 de abril de 2026, das 07h00 às 13h00, desconstruiu a ideia de um
consultório engessado. Sob a supervisão direta da fonoaudióloga Maria José Costa
dos Santos, o turno matutino exigia uma adaptação tática constante para atender a
demanda. Preparar a sala antes de cada paciente não se resumia a espalhar brinque-
dos. Envolvia a seleção intencional de recursos de Comunicação Alternativa e Au-
mentativa, a montagem do tapete e a seleção de jogos brinquedos específicos para
cada demanda. O ambiente precisava funcionar como o espelho da intenção terapêu-
tica.
A etapa de avaliação testou minha percepção analítica. Durante a aplicação do
Protocolo ABFW, a coleta do inventário fonético por meio de tarefas de imitação ma-
peou os mecanismos exatos de omissão e substituição de fonemas. Vi a teoria da
faculdade ganhar som real. Na intervenção das queixas fonológicas, o uso de pares
mínimos e do treino motor exigiu rigor técnico. Inserimos pistas visuais e auditivas
para forçar a consciência fonológica em casos de grande resistência à correção do
ponto articulatório.
O manejo de pacientes no Transtorno do Espectro Autista cobrou um raciocínio
diferente. O tratamento se apoiou na gamificação. Transformamos os interesses res-
tritos no combustível prático para estimular a intenção comunicativa e cobrar a ampli-
tude mandibular. Sem essa roupagem lúdica voltada para a inclinação do indivíduo, o
engajamento seria inexistente.
A infraestrutura física equipada e a troca de informações com a equipe interdis-
ciplinar sustentaram a minha curva de aprendizado. Notei uma fragilidade evidente na
mecânica diária da clínica. A alta rotatividade de atendimentos espreme o tempo da
sessão. A criança concorre contra o relógio. Uma solução rápida para esse gargalo
envolve o desenvolvimento de cartilhas de orientação para os responsáveis que
aguardam na recepção. Transferir parte da responsabilidade do treino de fixação de
fonemas para a rotina de casa garante que a reabilitação não morra quando a porta
do consultório se fecha.
6. ESTUDO DE CASO
I. Anamnese
Nome (em siglas): G
Data de nascimento: 23/ 04 / 2012 Idade: 14 anos
Sexo: ( ) Feminino ( x ) Masculino
Nome dos pais: Informação indisponível no momento da avaliação
Endereço: Informação indisponível no momento da avaliação
Bairro: Informação indisponível no momento da avaliação
Cidade: Macapá- Ap UF: AP
Profissão: Estudante
Estado civil: Solteiro
Diagnóstico ou hipótese diagnóstica Fonoaudiológica: Transtorno do Espectro
Autista (TEA) a esclarecer; Alteração de Prosódia e Articulação
Queixa principal (QP): Paciente apresenta fala "travada", caracterizada por pouca
amplitude mandibular (distância entre os dentes durante a fala), além de padrão de
fala monótono com pouca variação melódica e dificuldade na expressividade facial e
vocal.
HISTÓRICO
Início do problema: A limitação na amplitude mandibular e a ausência de
variação melódica na fala acompanham o paciente desde a primeira infância. O
incômodo familiar agravou-se severamente na transição para a adolescência. A
exigência pragmática do ambiente escolar expôs o isolamento comunicativo do jovem.
A família relatou que a fala "travada" piora significativamente em situações de quebra
de rotina diária ou quando o paciente é forçado a interagir fora do seu interesse
restrito. Os responsáveis buscaram a avaliação fonoaudiológica atual ao perceberem
que a rigidez motora estava inviabilizando a socialização básica e a expressão de
emoções.
Já realizou fonoterapia? ( x ) Sim ( ) Não
Realizou intervenções pontuais na infância focadas no atraso primário de
linguagem, recebendo alta prematura. Retornou agora para adequação motora e
prosódica. A conduta terapêutica anterior falhou em recrutar a motivação intrínseca
do adolescente
Já realizou alguma cirurgia ( ) Sim ( x ) Não
Quais cirurgias? Nenhuma intervenção cirúrgica relatada.
Foi entubado ou teve alguma intercorrência? ( ) Sim ( x) Não
Qual (is)? Sem histórico de intercorrências hospitalares.
DADOS DE SAÚDE
Apresenta rinite, sinusite, bronquite ou outra alergia frequentemente? ( ) Sim
(x) Não
Qual (is)? Nenhuma alteração respiratória crônica de via aérea superior documentada
que justifique o bloqueio da amplitude oral.
O que faz quando tem crise alérgica? Não se aplica. O prontuário não registra
histórico de episódios alérgicos agudos.
Apresenta algum problema de saúde? Ex: cardíaco, circulatório, hormonal ou
outro? ( ) Sim ( x ) Não
Qual (is)?
Toma medicamento controlado (s)? ( ) Sim ( ) Não
Qual (is)? Não foi informado
Faz acompanhamento com algum outro profissional? ( x ) Sim ( ) Não
Qual (is)? Acompanhamento psicológico semanal voltado para a regulação emocional
e o manejo de crises de esquiva perante novas demandas.
Antecedentes pessoais: O adolescente exibe um padrão comportamental com
resistência moderada a mudanças. O tempo de lazer é quase integralmente
consumido pelo hiperfoco no universo do personagem Sonic the Hedgehog. Identifica-
se um uso excessivo de telas dentro de casa. Reluta em sustentar a expressividade
facial durante diálogos que fujam da sua zona restrita de conforto comunicativo.
Antecedentes familiares: Histórico na família paterna e materna de indivíduos com
traços agudos de retraimento social e comunicação restrita, não diagnosticados
clinicamente na época.
II. Avaliação
A avaliação foi realizada de forma observacional e dinâmica, respeitando o
perfil do paciente (adolescente com suspeita de TEA) e evitando comandos
infantilizados. Observou-se que o paciente apresentava baixa amplitude mandibular
durante a articulação em fala encadeada, o que comprometia a clareza e a nitidez dos
fonemas. Na avaliação da prosódia, notou-se o uso de uma fala monótona, com
escassez de marcadores expressivos (emoções) e desafios na intenção comunicativa
pragmática.
Para manter o engajamento na avaliação e nas tarefas subsequentes, utilizou-
se o hiperfoco do paciente no universo do personagemSonic the Hedgehog. Foram
introduzidas atividades de leitura de palavras-alvo (ex: GA-BRI-EL, MA-GMA, A-NE-
IS) e observou-se a articulação do paciente, evidenciando a necessidade de treino
motor para a transição de abertura e fechamento rápido da boca.
III. Planejamento terapêutico
Objetivo
Geral
Objetivos
Específicos
Estratégia
/Técnica
Exercício /
Recurso
Tempo/Duração
do exercício
Aumentar a
amplitude
mandibular e
a precisão
dos fonemas,
além de
desenvolver a
variação
melódica e
pragmática
narrativa
1. Aumentar
a amplitude
da
articulação
temporomand
ibular.
Treino Motor:
"Power-Up
Articulatório" e "O
Bocejo do Sonic".
Exercícios de
abertura de boca
extrema ("Ahhh")
utilizando um
espelho e
imagens do
personagem para
imitação
5 repetições
(intercaladas com
pausas
estratégicas)
2. Treinar a
abertura de
boca e
distensão
labial nas
vogais
abertas (A,
O, U) e fala
encadeada
Treino
Articulatório: "O
Pulo das Vogais"
e "O Código
Secreto".
Uso de um
espaçador e
emissão das 3
vogais abertas (A,
O, U). Leitura do
scanner de voz
com 6 palavras-
alvo (GA-BRI-EL,
MA-GMA, MON-
TA-NHA, A-NE-IS,
RA-PO-SA, E-S-
ME-RAL-DA)
5 repetições
3. Melhorar a
prosódia,
entonação e
a
expressividad
e.
Treino de
Prosódia:
"Dublagem de
Cutscenes" e
"Caminho das
Esmeraldas"
Atribuir emoções
específicas (susto,
raiva, alegria) a
roteiros do jogo e
treinar subidas e
descidas de tom
(glissandos)
Tempo restante
da sessão,
utilizando o
sistema de
recompensa com
"Anéis" a cada
repetição correta
IV. Evolução do paciente
A gamificação e o uso de recursos focados nos interesses do paciente
provaram ser extremamente eficazes para diminuir a resistência à mudança do padrão
motor de fala e manter o engajamento. A abordagem da terapia através da lógica de
"desempenho de dublagem" (explicando que a "caixa de som" precisava estar aberta
para o som sair nítido) teve excelente aceitação. A utilização do biofeedback visual,
como o uso de espelho e a gravação de vídeos para autoavaliação, ajudou o paciente
a perceber a diferença entre sua fala monótona inicial e a fala mais expressiva e
articulada. Ele também foi orientado a generalizar o comportamento em casa, usando
a "Voz de Herói" (com boa abertura de boca) para fazer pedidos diários.
V. Experiência Clínica
Acompanhar o caso do paciente foi uma experiência transformadora no que
tange ao manejo de pacientes adolescentes neurodivergentes. Aprendi na prática que
adaptar a linguagem da terapia e fugir de comandos infantilizados é essencial para
construir o vínculo terapêutico. Além disso, pude vivenciar como a incorporação do
hiperfoco do paciente (o universo Sonic) atua como um facilitador poderoso —
transformando exercícios motores que seriam repetitivos e exaustivos em "fases",
"missões" e "desafios" (como o Slow-Motion Challenge e o "Scanner de Voz"). Essa
estratégia consolidou meu entendimento sobre a necessidade de personalizar o
atendimento e pensar de forma criativa no planejamento fonoaudiológico.
7. ESTUDO DE APERFEIÇOAMENTO
A terapia fonoaudiológica com adolescentes no Transtorno do Espectro Autista
exige a quebra de paradigmas repetitivos. O modelo tradicional de treino motor diante
de um espelho falha frequentemente com esse público. A resistência à demanda é
alta. Como convencer um jovem neurodivergente a modificar seu padrão de
articulação e prosódia sem gerar crises de esquiva? A resposta validada na rotina
clínica envolve a incorporação dos interesses restritos do sujeito como eixo estrutural
do planejamento terapêutico.
Essa manobra metodológica encontra respaldo na literatura sobre gamificação
na saúde. Deterding et al. (2011) definem a gamificação como a aplicação de lógicas
e designs de jogos em contextos do mundo real. No estudo de caso acompanhado, o
hiperfoco no personagem Sonic the Hedgehog transformou exercícios exaustivos de
motricidade orofacial em missões narrativas narradas pelo próprio paciente. Exigiu-se
do adolescente que atuasse como dublador das cutscenes do jogo. Ele precisava
garantir uma abertura mandibular correta para que o "scanner de voz" compreendesse
a senha e liberasse o avanço da fase.
A baixa amplitude da mandíbula e a fala monótona mascaram a real intenção
comunicativa do autista. Zorzi (2015) descreve que a linguagem perde sua função
social quando a mecânica do som não acompanha a métrica das emoções. O
adolescente pode sentir irritação. A sua voz, no entanto, soará plana. Ele pode fazer
uma pergunta, mas a entonação reta confunde quem o escuta. Reabilitar essas
nuances físicas exige um nível de engajamento que comandos diretivos simples
dificilmente alcançam na adolescência.
Ao transmutar a sala de terapia em um cenário interativo, a motivação
intrínseca do indivíduo acende. O acerto no ponto articulatório passa a ser pago com
anéis virtuais. A falha na pronúncia vira apenas um obstáculo provisório da missão.
Essa roupagem lúdica desintegra a ansiedade clínica natural associada à correção de
erros. A instalação do novo padrão motor e prosódico acontece com fluidez porque o
paciente compreende o ganho da tarefa. Trata-se da consolidação prática de uma
abordagem verdadeiramente centrada na singularidade e no respeito ao universo
particular do indivíduo (KLIN, 2006).
8. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A transição do ambiente acadêmico para a imprevisibilidade de um consultório
representa um choque inevitável. Chegar à Sonora Saúde Ltda e lidar com a rotina
real de pacientes infantis rasgou a minha ilusão de que a fonoaudiologia opera em
linha reta. Livros didáticos não fazem birra na sala de espera. Protocolos estáticos não
desviam o olhar durante uma avaliação clínica.
Acompanhar casos práticos me forçou a abandonar a zona de conforto teórica.
No tratamento do paciente A, a correção da queixa principal focada na substituição do
som do S não se resumia a simplesmente demonstrar o ponto articulatório correto no
espelho. O processo exigiu jogo de cintura e uma repetição exata disfarçada de
estímulo lúdico para inibir o arredondamento labial inadequado durante a atividade do
"sopro da cobra". O paciente G, por sua vez, representou o meu principal rito de
passagem neste semestre. Estar diante de um adolescente neurodivergente com a
articulação cronicamente travada provou que o domínio anatômico perde a validade
se o clínico não souber acessar a motivação intrínseca do indivíduo. A conversão de
uma terapia motora maçante em missões narradas focadas no hiperfoco do paciente
quebrou a barreira comportamental que inviabilizava o tratamento.
Essas interações moldaram meu raciocínio clínico atual. Percebi o impacto
direto do planejamento espacial nas intervenções. A infraestrutura da clínica deixou
de ser um mero detalhe visual para se revelar uma ferramenta ativa de regulação
sensorial, reduzindo a ansiedade comum ao ambiente de saúde e facilitando a adesão
infantil. Compreendi de forma definitiva que a aplicação de métodos terapêuticos
engessados falha de forma miserável sem a elaboração de um vínculo honesto.
Minha inclinação profissional não mudou com essa vivência. Entretanto, o
estágio mostrou uma necessidade de aprofundamento na pesquisa sobre os
transtornos do neurodesenvolvimento focados na linguagem e mecânica da fala. A
reabilitação comunicativa contemporânea exige que o profissional atue fora da caixa.
O cenário clínico atual cobra fonoaudiólogos dispostos a adaptar o ambiente e
investigar o universo particular de quem se senta à sua frente para garantir que o
indivíduo consiga exercer o seu direito básico de ser escutado e compreendido
socialmente.
9. REFERÊNCIAS
DETERDING, S. et al. From game design elements togamefulness: defining
gamification. Proceedings of the 15th International Academic MindTrek
Conference. Nova York: ACM, p. 9-15, 2011.
KLIN, A. Autismo e síndrome de Asperger: uma visão geral. Revista Brasileira de
Psiquiatria, v. 28, s. 1, p. 3-11, 2006.
PIMENTA, Selma Garrido. O estágio na formação de professores: unidade entre
teoria e prática? 11. ed. São Paulo: Cortez, 2012.
WARE, A. The healing environment. Nursing Standard, v. 24, n. 45, p. 35-37, 2010.
ZORZI, J. L. O desenvolvimento da linguagem e suas alterações. São Paulo:
Revinter, 2015.
ANEXOS:
AVALIAÇÃO DE RELATÓRIO FINAL
Para que o relatório seja corrigido de forma imparcial foram definidos os
critérios avaliativos e os critérios de anulação do relatório final. Os critérios que podem
causar anulação do relatório final são:
• Falta da entrega dos documentos utilizados no estágio (Termo de
compromisso, ficha de acompanhamento e ficha de avaliação do supervisor de
campo). Os documentos Termo aditivo e Dispensa de carga horaria devem
estar presentes
• Falta de assinatura nos documentos apresentados.
• Inconsistências na ficha de acompanhamento. Realização do estágio no dia
antes da data de vigência e/ou data de assinatura do termo de compromisso.
Carga horária com mais de 6 horas diárias ou 30 horas semanais.
• Ausência de fotos durante o estágio. Essas fotos devem ser do local e uma que
contenha o aluno no local. Fotos de pacientes não precisam ser realizadas.
• Segundo a lei 9.610 de 02/1998, plágio é configurado como crime. Caso
apareça algum texto plagiado de algum site, artigo, livro ou semelhança com
algum colega de turma será anulado e o aluno não terá nota. Trabalhos sem
referências bibliográficas também são considerados plágio.
• Relatório sem preenchimento ou fora do modelo proposto na disciplina.
Os critérios avaliativos considerados na correção do relatório final de estágio,
possuem o seguinte valor: (NÃO PREENCHER)
CRITÉRIOS AVALIATIVOS VALOR PONTUAÇÃO
Normas e padrões de formatação dentro das
normativas da ABNT
1,0
Escrita científica 1,0
Uso de referência bibliográficas atualizadas e
relevantes
1,0
Ortografia, gramática e concordância adequada 1,0
Descrição das atividades realizadas 2,0
Identificação de dificuldades e problemas
encontrados durante o estágio
1,0
Capacidade argumentativa 2,0
Trabalho entregue no prazo estabelecido 1,0
TOTAL 10,0
________________________________________
Tutor(a) do Estágio
XX/XX de 2026