Prévia do material em texto
1 CURSO DE BACHARELADO EM BIOMEDICINA HEMOGLOBINOPATIAS SERRA 2025 2 INTRODUÇÃO: As hemoglobinopatias são doenças de base genética autossômica recessiva, em que as cadeias de globinas presentes na hemoglobina humana apresentam defeitos estruturais ou produção insuficiente. Essas condições estão difundidas por todo o mundo e são freqüentes em populações com origens raciais diversificadas. Entre estas anemias hereditárias, destacam se a Anemia Falciforme e as Talassemias. As hemoglobinopatias são distúrbios hematológicos hereditários decorrentes de alterações na estrutura ou produção das globinas humanas que geram hemoglobinas (Hb) variantes. 3 CONHECENDO A HEMOGLOBINA: A hemoglobina é a proteína responsável pelo transporte de oxigênio dos pulmões para os tecidos, pelos glóbulos vermelhos. Ela é o componente mais abundante destas células, responsável por sua tonalidade avermelhada. Qualquer redução da hemoglobina implica em uma perda da capacidade de transporte de oxigênio aos tecidos. As hemoglobinas (Hb) humanas são tetrâmeros globulares formados pela combinação de duas cadeias polipeptídicas do “tipo α” com duas cadeias do “tipo β”, sendo Hb A1, Hb A2 e Hb Fetal os três principais tipos de hemoglobinas no adulto normal. As moléculas de hemoglobina (Hb) humana são hemoproteínas globulares, quase esféricas, de aproximadamente 64.500 Dalton e com diâmetro de 6,4 nm. A parte proteica da Hb consiste em quatro subunidades, ou também nominadas globinas, que resulta em uma proteína com 574 aminoácidos. Duas das globinas são constituídas por 141 aminoácidos cada e são denominadas cadeias do tipo alfa. As outras duas possuem 146 aminoácidos cada e são denominadas cadeias do tipo beta ou não alfa. As hemoglobinas variantes são resultado de alterações ocorridas nos genes que sequenciam cada tipo de proteína globina ou gene regulador de sua produção: se uma base nitrogenada da sequência gênica é alterada pode ocorrer mudança no padrão bioquímico daquela proteína gerando moléculas com variações polimórficas e funcionais. 4 FUNÇÃO DA HEMOGLOBINA: Transporte de oxigênio: A função principal da Hb é o transporte reversível de oxigênio (O2 ) dos pulmões para os tecidos. A pressão e a solubilidade do O2 nos líquidos fazem com que apenas 200 µmol/L, no máximo, possam ser transportados pelo sangue na ausência da hemoglobina. No sangue, por apresentar aproximadamente 10 mmol/L de hemoglobina, há aumento significativo da capacidade de transporte de Transporte de outros gases: Uma vez que o organismo humano produz em média 200 ml de CO2 por minuto, esse gás precisa ser eliminado das células produtoras para o exterior do organismo. Conforme discutido anteriormente, a captação do CO2 gerado pelas células e seu transporte até o pulmão, onde é liberado para o gás alveolar e depois para o meio ambiente, são realizados pelo sangue. 5 HEMOGLOBINOPATIAS: ANEMIA FALCIFORME A anemia falciforme é a doença genética com maior incidência no mundo. Estima-se entre 300 - 400 mil novos casos / ano. No Brasil, estima-se 30-50 mil casos, e uma expectativa de vida máxima de 40 anos de idade, sendo responsável por mais de 300 óbitos por ano. A doença falciforme é definida como uma hemoglobinopatia de origem genética que se caracteriza pela predominância da hemoglobina S (HbS) nas hemácias. Quando desoxigenada, sofre alterações em suas propriedades físico-químicas, resultando na mudança da configuração da hemácia para o formato de “foice”. A doença falciforme é causada por uma troca entre os aminoácidos (A – T) no gene da β - globina adulto, o que leva a uma substituição de uma valina por um ácido glutâmico na posição 6 da cadeia β-globina. A dimerização destas cadeias β-globina mutantes com α-globina resulta na formação de HbS (α2β2S). Em pacientes homozigotos para HbS, a forma mais grave da doença falciforme, as cadeias mutantes β-globina polimerizam-se em glóbulos vermelhos desoxigenados, fazendo com que eles se deformem, de uma morfologia bicôncava para gancho /forma de foice. Ciclos repetitivos de falcização fazem com que as moléculas de HbS mudem de oxigenadas a estados desoxigenados, causando fragilidade das hemácias e promovendo vaso-oclusão, crises dolorosas, anemia crônica, síndrome torácica aguda, insuficiência de órgãos, acidente vascular cerebral e, eventualmente, morte. A anemia falciforme resultante da presença da hemoglobina S é responsável por muitas mortes entre crianças e adultos, variando entre as regiões geográficas no Brasil. Isto depende muito da qualidade do tratamento dispensado às crianças. A doença falciforme mata mais crianças entre 1 a 5 anos, diminuindo entre os 5 anos até a adolescência e aumenta após os vinte anos de idade. As crianças negras e pardas morrem por doenças falciformes em maior quantidade do que crianças brancas. 6 PRINCIPAIS SINTOMAS DA ANEMIA FALCIFORME: Pele, lábios e unhas pálidos; Inchaço, dor e vermelhidão nas mãos e nos pés; Úlceras nas pernas; Cansaço excessivo; Infecções frequentes; Falta de ar ou tontura; Irritabilidade ou dificuldade de atenção. 7 TRATAMENTO DA ANEMIA FALCIFORME: Na maioria dos casos o tratamento é sintomático, visando combater os sintomas secundários (por exemplo, anemia e dores) e amenizar o sofrimento do paciente. Além disso, é indicada a administração da hidroxiuréia e a transfusão de concentrado de hemácias (BRASIL, 2015). Em julho de 2015 através da portaria Nº 30 o ministério da saúde depois de um relatório de recomendações da comissão Nacional de Incorporação e Tecnologias no SUS (CONITEC) incorporou ao SUS o procedimento de transplante de células- tronco hematopoiéticas (TCTH), como alternativa para tratamento da anemia falciforme.O Brasil apresenta o terceiro maior banco de medula ósseas do mundo, com mais de 5 milhões de pessoas cadastradas no Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (REDOME). Porém, apesar dessa grande conquista, existe uma fila de espera com 800 pessoas necessitando de Transplante de medula óssea para tratamento de alguma doença. Sendo assim, o cadastro de novas pessoas, especialmente jovens é de extrema importância para manter o banco atualizado com novos doadores. A anemia falciforme geralmente não é considerada letal durante a infância; no entanto, na idade adulta, pode causar infarto do miocárdio e danos renais, entre outras doe 8 DIAGNÓSTICO: Com base na doença falciforme, o diagnóstico precoce torna-se crucial, podendo diminuir consideravelmente os riscos de complicações graves e mortes relacionadas à condição. O principal exame realizado de forma preventiva trata-se do “Teste do pezinho”, inserido no Programa Nacional de Triagem Neonatal (PNTN), proporcionando acompanhamento e cuidados terapêuticos antes da manifestação sintomática. Realizado entre às 48h do nascimento até o 5º dia de vida do recém-nascido; a análise é produzida através da coleta de gotas de sangue retiradas do calcanhar do bebê. Outros exames também são utilizados para o pré-diagnóstico, podendo-se citar: o hemograma, imunoensaio, teste de falcização, teste de solubilidade para HbS e reação em cadeia da polimerase (PCR). A confirmação desta patologia é feita através dos exames de eletroforese de hemoglobina, que identifica a presença de HbS e demais variantes e a cromatografia líquida de alta eficiência (HPLC), os quais possuem um melhor custo-benefício, além de sua praticidade 9 HEMOGLOBINOPATIAS: TALASSEMIAS As talassemias constituem um grupo de anemias de origem autossômica recessiva, cujas mutações afetam a síntese de cadeias de globina e caracterizam uma diminuição ou ausência de cadeias alfa ou beta, sendo classificadas de acordo com o tipo de cadeia ausente como talassemia alfa ou talassemia beta. Essas doenças são mais frequentes em populações oriundas de povos do Mediterrâneo, como italianos e espanhóis. Podem ser causadas por deleções ou mutações que impedem a expressão gênicacorreta e consequente diminuição de tetrâmeros funcionais das HbA, HbA2 e HbF, o que define o processo fisiopatológico e manifestações clínicas das síndromes talassêmicas. As síndromes clínicas associadas à talassemia surgem das consequências combinadas, da produção inadequada de hemoglobina e da acumulação desequilibrada de um tipo de cadeia de globina afetada. Como consequência tem-se anemia microcítica hipocrômica, a eritropoiese ineficaz e a hemólise. As manifestações fenotípicas variam de microcitose, completamente assintomática, até anemia grave, que é incompatível com a vida e pode causar a morte no útero ou horas após o nascimento. 10 PRINCIPAIS SINTOMAS DA TALASSEMIAS: A talassemia β é mais comum no Brasil e não é raro que esteja interagindo com HbS ou outra variante, devido à intensa miscigenação racial em nossa população. Apesar das diversas alterações moleculares possíveis e mais de 300 mutações já identificadas, as talassemias β são classificadas em quatro grandes grupos: o portador silencioso, que é clínica e hematologicamente indetectável; a beta talassemia minor, que é assintomática ou traz hemácias ligeiramente microcíticas hipocrômicas, comumente apresentando aumento da 4 HbA2; e as beta talassemias major e intermediária, que são os quadros mais graves das anemia. A talassemia maior apresenta seus sinais logo nos primeiros meses de vida. São eles palidez e sonolência e, nas crianças maiores, também fadiga e fraqueza, todos relacionados com a diminuição da hemoglobina causada pelo defeito genético. Estes sintomas podem ocorrer, às vezes, mais tardiamente, porém sempre antes dos dois anos de idade. A cor amarelada dos olhos (conhecida como icterícia) também é sintoma comum e acontece pelo acúmulo da substância bilirrubina - dentro do glóbulo vermelho existe bastante bilirrubina e, quando este glóbulo “morre”, a bilirrubina passa para o sangue e se acumula principalmente nos olhos. O baço e o fígado sofrem aumento de tamanho, tentando suprir a produção inadequada de sangue devido à hemoglobina ineficiente, mas sem sucesso. 11 DIAGNÓSTICO: A maioria das talassemias pode ser definida laboratorialmente por estudos hematológicos, eletroforese de hemoglobina, HPLC e quantificação de Hb A2 e fetal. A determinação molecular permite a caracterização dos diferentes mutantes e haplótipos herdados. Outros exames sugeridos é o hemograma (exame de sangue) para checar se a criança tem anemia ou outra alteração sanguínea. Com a suspeita da talassemia, o hematologista pode pedir a eletroforese de hemoglobina, que permite separar as hemoglobinas normais e as anormais, facilitando a descoberta da doença e o PCR (Reação da Polimerase), que com uma quantidade de sangue avaliará de forma precisa o que causa a má formação de hemoglobina. 12 TRATAMENTO PARA TELASSEMIAS: O tratamento da talassemia maior é basicamente realizado por meio de transfusões de sangue (concentrado de hemácias fenotipados e com filtro desleucocitário) que devem manter a hemoglobina entre 9,5g/dl e 10,5 g/dl. O intervalo entre as transfusões pode variar entre 2 a 4 semanas, mas em média ocorre a cada 20 dias e por toda a vida. Este processo controla a anemia grave e deve ser iniciado nos primeiros meses após a descoberta da doença, quando a hemoglobina fica abaixo de 7,0g/dl. 13 CONSIDERAÇÕES FINAIS: Pacientes com anemia falciforme, enfrentam altas taxas de mortalidade associadas a complicações pulmonares e cardíacas, sendo a maioria delas devido à hipertensão pulmonar e disfunção cardíaca, como a síndrome torácica aguda, sendo assim a segunda causa mais frequente de hospitalização em crianças com anemia falciforme e a principal consequência pulmonar. A talassemia é uma doença com um grande impacto na saúde pública, porque os indivíduos portadores (heterozigotos) podem passar a sua vida inteira sem serem devidamente diagnosticados, sendo assintomáticos ou apresentarem uma ligeira anemia. No entanto, os indivíduos homozigotos, resultantes de uma gravidez com dois pais portadores, apresentam elevadas morbilidades, que condicionam a vida do doente, e uma grande incidência de mortalidade, especialmente se o tratamento não for adequado.Devido à complexidade das talassemias é possível que, com os protocolos laboratoriais standard, certas variantes heterozigóticas compostas ou duplas não sejam detetadas porque, embora sejam globalmente raras, podem ser comuns em determinadas populações étnicas. 14 BIBIOGRAFIAS: 1. CAYUPE, B.; BARRA, R. Population characterization of mutations for sickle cell anemia and its treatment: One step towards personalized medicine for the disease. Andes pediatrica: revista Chilena de pediatria, v. 95, n. 1, p. 41–52, 2024. 2. DO RIO PRETO/SP, DE S. O. J.HEMOGLOBINOPATIAS NO BRASIL – Importância do Diagn. Disponível em: . Acesso em: 19 ago. 2025. 3. PRODEST.HEMOES - Hemoglobinopatias. Disponível em: . Acesso em: 19 ago. 2025. 4. Vista do Anemia. Disponível em: . Acesso em: 20 ago. 2025. 5. Vista do Hemoglobinopatias. Disponível em: . Acesso em: 19 ago. 2025. 6. Disponível em: . Acesso em: 19 ago. 2025a. 7. Disponível em: . Acesso em: 19 ago. 2025b. 8. Disponível em: . Acesso em: 20 ago. 2025c. 9. Disponível em: . Acesso em: 20 ago. 2025d. 10. Disponível em: . Acesso em: 20 ago. 2025e. 11. BEZERRA, a. CLARISSE. Anemia falciforme: o que é, sintomas, causas e tratamento. Disponível em: . Acesso em: 19 ago. 2025.