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Gastrite aguda e crônica Letícía Muníz – Itpac Porto – Turma 34 Anatomofisiologia - O estômago é basicamente um reservatório que recebe o conteúdo que entra no sistema digestório (alimentos e líquidos) localizado na parte superior do abdome, à frente do pâncreas, dos vasos esplênicos e do rim esquerdo. - O estômago é um órgão histologicamente composto por uma mucosa, submucosa, músculo e tecido conjuntivo (camada serosa), sendo dividido anatomicamente pelas seguintes partes: cárdia, corpo (fundo), antro e piloro . - No estômago, o alimento é agitado e misturado com ácido clorídrico e pepsina antes de ser liberado dentro do intestino delgado. ➢ O HCl (ácido clorídrico) é responsável por aumentar a acidez do estômago a fim de proporcionar uma melhor atuação da enzima pepsina (digere proteínas) que possui sua ação potencializada em meio ácido além de atuar como barreira protetora ➢ A secreção ácida é estimulada por impulsos nervosos (acetilcolina) no estômago, pela gastrina (um hormônio liberado pelo estômago) e pela histamina (uma substância liberada pelo estômago). Essas substâncias promovem a secreção de HCO3 - pela bomba de prótons, produzindo HCl - Barreira mucosa do estômago: o revestimento do estômago é impermeável ao ácido que ele secreta e esta peculiaridade possibilita que o órgão contenha ácido e pepsina, sem ter suas paredes digeridas. Além disso, também há muco espesso e tenaz secretado pelas células, que forma uma cobertura protetora para a parede interna do estômago e que também contém bicarbonato (usado para manter o pH neutro) FISIOLOGIA DA SECREÇÃO DE ÁCIDO CLORÍDRICO - O estômago possui células parietais no seu epitélio que possui bombas de prótons responsáveis por secretar HCl no lúmen para a digestão. BOMBA DE PRÓTONS (H+): é uma estrutura presente nas células parietais que liberam os íons H+ e Cl-. A célula parietal possui CO2 e H2O que sofrem ação de uma enzima chamada anidrase carbônica que degrada esses dois compostos em H2CO3 ( CO2 + H2O H→ 2CO3 ). O ácido carbônico ( H2CO3) se ioniza formando HCO3 - e H+ O H+ é liberado na luz do estômago enquanto o K+ entra na célula parietal e o HCO3 - é liberado na corrente sanguínea, agindo como tampão plasmático, enquanto o Cl- entra na célula (sistema antiporte). O Cl- que entrou sai para a luz do estômago juntamente com uma parte do K+ que entrou. A ação tamponante do HCO3 torna o sangue menos ácido ao deixar o estômago, criando uma maré alcalina que pode ser medida enquanto uma refeição está sendo digerida (sensação de sono após a refeição). Dessa forma, o H+ e o Cl- que foram pra luz do estômago reagem entre si, formando HCl (ácido clorídrico) As células parietais possuem receptores de gastrina (receptores CCK-B), receptores de histamina (receptores H2) e receptores de acetilcolina (receptores muscarínicos) que funcionam como um mecanismo de estímulo à secreção gástrica. Após o consumo de proteínas, as células G do epitélio do estômago produzem gastrina que age nas células parietais estimulando a secreção de HCl. Além disso, a gastrina secretada pela célula G estimula as células enterocromafins a liberarem histamina que também atuam nas células parietais. Por fim, o estímulo nervoso (nervo vago) proporcionado pela visão, pelo cheiro e etc liberam acetilcolina que também age nas células parietais, estimulando-as BARREIRAS DE PROTEÇÃO GÁSTRICA - Para controlar todo esse sistema, as prostaglandinas produzidas pela COX bloqueiam a ação dessas bombas de prótons e também estimulam a secreção de muco. Devido a Gastrite aguda e crônica Letícía Muníz – Itpac Porto – Turma 34 isso, medicamentos que bloqueiam a produção de prostaglandinas (AINES) aumentam o risco de gastrite. - Existem dois tipos de muco que protegem a mucosa gástrica: solúvel e insolúvel em água. O muco insolúvel em água forma um gel estável fino, que adere à superfície da mucosa gástrica e confere proteção contra as ações proteolíticas (digestão das proteínas) da pepsina. Além disso, esse tipo de muco forma uma camada irremovível que retém bicarbonato e forma uma interface alcalina entre o conteúdo luminal do estômago e sua superfície mucosa. O muco hidrossolúvel é desprendido da superfície mucosa e mistura-se com o conteúdo luminal; sua composição viscosa tem função lubrificante, impedindo lesão mecânica da superfície mucosa. - A mucina, secretada pelas células foveolares da superfície, forma uma camada fina de muco e fosfolipídios que evita que partículas grandes de alimento toquem diretamente o epitélio. Sob o muco, uma camada contínua de células epiteliais gástricas forma uma barreira física que limita a retrodifusão de ácido e o vazamento de outros materiais luminais, incluindo a pepsina, na lâmina própria. - Além de fornecer bicarbonato, o rico suprimento vascular da mucosa libera oxigênio e nutrientes enquanto remove o ácido que foi retrodifundido na lâmina própria Gastrite aguda - A gastrite aguda é processo inflamatório agudo da mucosa, geralmente de natureza transitória associado a compostos irritativos locais, inclusive AAS ou outros AINES, álcool ou toxinas bacterianas. - Na gastrite aguda ocorre a perda das barreiras de proteção do estômago, proporcionando uma lesão gástrica MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS - As queixas dos pacientes com gastrite aguda são variadas. Alguns pacientes com gastrite causada por AAS podem ser totalmente assintomáticos, ou se queixar apenas de pirose ou acidez gástrica. A gastrite associada à ingestão excessiva de álcool geralmente é uma situação diferente; em muitos casos, isto causa desconforto gástrico transitório, que pode provocar vômitos e, nos casos mais graves, sangramento e hematêmese. A gastrite causada por toxinas de microrganismos infecciosos, inclusive enterotoxinas estafilocócicas, geralmente tem início súbito e violento com desconforto gástrico e vômitos, que começam cerca de 5 h depois da ingestão de um alimento contaminado. - Em geral, a gastrite aguda é um distúrbio autolimitado, com recuperação e cicatrização completas dentro de alguns dias depois da eliminação da condição ou do agente desencadeante. Gastrite A gastrite é uma doença caracterizada por alterações histológicas no revestimento do estômago, onde se observa infiltrado de células inflamatórias - Trata-se de uma lesão mais frequente que atinge o estômago. A inflamação pode ser aguda, crônica ou apresentar forma especial sendo o tipo mais frequente a gastrite crônica bacteriana que está associada à infecção pela bactéria Helicobacter pylori - Alguns fatores podem contribuir pro surgimento da gastrite: uma dieta inadequada em relação ao seu valor nutricional, ingestão contínua de bebidas alcoólicas, tabagismo, alguns procedimentos cirúrgicos, medicamentos e ingestão de substâncias corrosivas, insuficiência hepática, irradiação do estômago e infecções sistêmicas, estresse por traumas, septicemia Gastrite crônica - Gastrite crônica é uma condição diferente da gastrite aguda e caracteriza-se pela inexistência de erosões visíveis macroscopicamente e pela existência de alterações inflamatórias crônicas que, por fim, acarretam atrofia do epitélio glandular do estômago. - A gastrite crônica compromete a mucosa do estômago, deixando a região inflamada por um longo período de tempo. A doença apresenta uma evolução lenta, em geral, o paciente não percebe os sintomas. - Existem três tipos de gastrite crônica: infecção por H. pylori, gastrite atrófica multifocal crônica, gastrite autoimune crônica e gastropatia química. GASTRITE POR INFECÇÃO POR HELICOBACTER PYLORI - H. pylori é a causa mais comum de gastrite crônica, pois essa bactéria está presente em 2/3 da população mundial. - Alguns estudos sugeriram que, nos países industrializados,a transmissão desse patógeno ocorra principalmente de pessoa a pessoa por vômitos, saliva ou fezes, enquanto as outras vias de transmissão (como a água) podem ser importantes nos países em desenvolvimento. Nos países industrializados, o índice de infecção por H. pylori diminuiu expressivamente ao longo das últimas décadas em razão dos avanços na área de saneamento. - A gastrite por infecção de H. pylori afeta principalmente o antro e o corpo do estômago, podendo causar atrofia e úlcera péptica do estômago. Está associada ao risco elevado de adenocarcinoma gástrico e proliferação de tecidos linfoides associados à mucosa que, em alguns casos, transforma-se em linfoma PATOGÊNESE: essa bactéria é uma bactéria gram-negativa que pode colonizar as células epiteliais secretoras de muco do estômago. A H. pylori possui flagelos que permitem com que a bactéria se movimente na camada mucosa do estômago. Essa bactéria secreta urease, que contribui para que produza amônia suficiente para tamponar a acidez do Gastrite aguda e crônica Letícía Muníz – Itpac Porto – Turma 34 seu ambiente imediato, possibilitando que ela se instale naquele local - A H. pylori secreta enzimas e toxinas que têm a capacidade de interferir na proteção local da mucosa gástrica contra a ação do ácido, causar inflamação intensa e desencadear uma reação imune devido a proteínas imunogênicas dessa bactéria. Além disso, o H. pylori consegue ultrapassar a barreira de muco que o estômago possui para se proteger da própria acidez, aderindo-se à mucosa, área abaixo do muco, onde a acidez é bem menos intensa - No processo inflamatório desencadeado pela H. pylori, há aumento da produção de citocinas pró-inflamatórias (IL-6, IL-8), que ajudam a recrutar e ativar neutrófilos. Linfócitos B e T podem ser encontrados com a gastrite crônica causada por esse microrganismo. Os linfócitos T podem ser responsáveis pela atenuação da resposta inflamatória contínua causada pelas citocinas, possibilitando que o H. pylori mantenha sua colonização do estômago por períodos longos. Embora as funções dos linfócitos T e B na etiologia da lesão epitelial ainda não tenham sido esclarecidas, a ativação das células B pelas células T pode estar envolvida na patogênese dos linfomas gástricos. DIAGNÓSTICO: Os métodos usados para confirmar a existência de infecção por H. pylori são: Teste respiratório da ureia marcada com carbono (C) radioativo, que utiliza um isótopo radioativo do carbono ( C13 ou C14 - ureia); Testes sorológicos (IgG e IgA); Teste do antígeno fecal; Biopsia endoscópica para determinar se há urease (degradação da ureia em amônia e bicarbonato) GASTRITE AUTOIMUNE CRÔNICA E GASTRITE ATRÓFICA MULTIFOCAL - A gastrite autoimune representa menos de 10% dos casos de gastrite crônica e consiste em uma forma difusa de inflamação gástrica limitada ao corpo e ao fundo do estômago, com pouco ou nenhum acometimento do antro. Esse tipo de gastrite é causado por autoanticorpos dirigidos contra os componentes das células parietais das glândulas gástricas e o fator intrínseco. A atrofia das glândulas e da mucosa do estômago resulta na supressão da produção de ácido. Nos casos mais graves, a produção de fator intrínseco é bloqueada, resultando em deficiência de vitamina B 12 e anemia perniciosa. Em muitos casos, esse tipo de gastrite crônica está associado a outros distúrbios autoimunes, inclusive tireoidite de Hashimoto, doença de Addison e tireoidopatia de Graves. - A g astrite atrófica multifocal é um distúrbio de etiologia desconhecida que acomete o antro e as áreas adjacentes do estômago, estando associada à redução da secreção ácida do estômago, mas não é comum ocorrerem acloridria e anemia perniciosa MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS: geralmente causam poucos sintomas relacionados diretamente com as anormalidades gástricas. Quando há destruição acentuada das células parietais dos pacientes com gastrite autoimune, os pacientes geralmente também têm hipocloridria ou acloridria e hipergastrinemia. O mais importante é que existe uma relação entre gastrite crônica e o desenvolvimento de úlceras pépticas e carcinoma do estômago. O risco a longo prazo de desenvolver câncer gástrico nos pacientes com gastrites autoimune é mínimo. GASTROPATIA QUÍMICA - Gastropatia química é uma lesão gástrica crônica resultante do refluxo do conteúdo duodenal alcalino, das secreções pancreáticas e da bile para dentro do estômago. Isso ocorre comumente nos pacientes que fizeram cirurgias de gastroduodenostomia ou gastrojejunostomia. Uma forma mais branda pode ocorrer nos pacientes com úlceras gástricas, doença da vesícula biliar ou vários distúrbios da motilidade do estômago distal. TRATAMENTO I) ANTIÁCIDOS: são bases fracas que neutralizam o ácido clorídrico, sendo usados para tratamento dos sintomas (sintomáticos). Seu principal mecanismo de ação consiste em reduzir a acidez intragástrica. • Bicarbonato de sódio: reage rapidamente com o ácido clorídrico (HCl), produzindo dióxido de carbono e cloreto de sódio. A formação de dióxido de carbono resulta em distensão gástrica e eructações • Carbonato de cálcio: é menos solúvel e reage com mais lentidão do que o bicarbonato de sódio com HCl, formando dióxido de carbono e cloreto de cálcio (CaCl2). À semelhança do bicarbonato de sódio, o carbonato de cálcio pode causar eructação ou alcalose metabólica • Hidróxido de magnésio ou hidróxido de alumínio: reagem lentamente com o HCl, formando cloreto de magnésio ou cloreto de alumínio e água. O hidróxido de magnésio tem efeito laxativo enquanto o hidróxido de alumínio tem efeito constipante II) ANTAGONISTA DE H2: as células parietais da mucosa estomacal possuem 3 tipos de receptores, sendo um deles o receptor H2 (receptor de histamina). A histamina que se liga nesse receptor tem poder de estimular as células parietais que secretam HCl. Esses medicamentos agem de maneira competitiva nos receptores de H2, impedindo que a histamina se ligue nesses receptores e estimule a secreção de HCl pelas células parietais • Cimetidina, ranitidina, famotidina, nizatidina Gastrite aguda e crônica Letícía Muníz – Itpac Porto – Turma 34 Efeitos adversos: Quando usada em longo prazo ou em altas doses, pode causar ginecomastia ou impotência nos homens e galactorreia nas mulheres. Esses efeitos são específicos da cimetidina e não ocorrem com os outros antagonistas dos receptores H2 III) INIBIDORES DA BOMBA DE PRÓTONS: são administrados como profármacos inativos. Para proteger o profármaco de sua rápida destruição no lúmen gástrico, os produtos orais são formulados para liberação tardia, na forma de cápsulas ou comprimidos de revestimento entérico, resistentes a ácido. Após passar pelo estômago e alcançar o lúmen intestinal alcalino, o revestimento entérico dissolve-se, e o profármaco é absorvido. - Esses medicamentos agem inibindo a bomba de prótons presente nas células parietais, impedindo a produção de ácido clorídrico. • Omeprazol, pantoprazol, esomeprazol, etc IV) SUCRALFATO: um sal de sacarose complexado com hidróxido de alumínio sulfatado. Em água ou soluções ácidas, forma uma pasta viscosa e de consistência firme, que se liga seletivamente às úlceras e erosões por um período de até 6 horas V) ANÁLOGO DAS PROSTAGLANDINAS: são medicamentos parecidos com as prostaglandinas. As prostaglandinas agem na proteção do estômago através do estímulo à secreção de muco e do bloqueio da ação das bombas de prótons. Logo, esses medicamentos agem de maneira similar às prostaglandinas • Misoprostol