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Universidade Federal do Tocantins Campus de Palmas – Curso de Medicina Turma XXX – Disciplina de Saúde Mental Leovegildo Caldas Carneiro; Max Soares Maione Questões complementares 17/06/2025 1) Jovem de 18 anos em uso diário de cocaína. Chegou ao pronto-socorro agitado, agressivo, com pupilas dilatadas, frequência cardíaca de 140bpm, pressão arterial de 150x100mmHg e ideias persecutórias. Diante do caso responda: a. Qual o diagnóstico? DSM-5: Transtorno induzido por substância – Intoxicação por estimulantes (F14.22 no CID-10). • Caracteriza-se por uso recente de estimulante (ex: cocaína), com sintomas clínicos significativos (agitação, taquicardia, hipertensão, midríase, delírios persecutórios). CID-10: F14.21 – Transtorno mental e comportamental devido ao uso de cocaína – Intoxicação com delírio (ou intoxicação delirante). b. Qual a conduta? • Contenção verbal e, se necessário, contenção física ou química em ambiente seguro. • Monitorização dos sinais vitais, hidratação venosa e suporte clínico. • Administração de benzodiazepínicos (ex: diazepam ou lorazepam) para agitação e prevenção de convulsões. • Se houver delírios persecutórios com risco, considerar antipsicóticos como haloperidol. • Avaliação psiquiátrica posterior para internação e encaminhamento para tratamento da dependência. Referência: ABEAD (2006); DSM-5 (2014); Cunha et al. (2004) c. Qual o mecanismo de ação da cocaína? A cocaína age principalmente como um bloqueador da recaptação de dopamina, noradrenalina e serotonina nas sinapses cerebrais. Isso resulta em aumento da concentração desses neurotransmissores no espaço sináptico, provocando: • Euforia, aumento de energia e alerta (dopamina); • Aumento da pressão arterial e frequência cardíaca (noradrenalina); • Alterações de humor (serotonina). Com o uso crônico, ocorre depleção dopaminérgica e hipofunção mesolímbica, o que está relacionado à fissura intensa e à síndrome de abstinência. Referência: FOCCHI (2001) 2) Familiares relataram que o paciente faz uso da droga nesse padrão há 2 anos. Quando fica mais de 24 horas sem utilizar ou fica desanimado, dorme muito, chora com facilidade ou fica ansioso e chega a roubar dinheiro para comprar a substância. Deixou de estudar e trabalhar. Não sai mais com seus amigos de infância, seus amigos atualmente são somente os que têm interesse no uso de substâncias. Começou a utilizar a droga com 14 anos eventualmente e foi aumentando progressivamente até chegar ao uso diário. Responda: d. Diagnóstico. DSM-5: • Transtorno por uso de cocaína – Grave, com critérios como: • Tolerância; • Abstinência; • Perda de controle sobre o uso; • Comprometimento social e ocupacional; • Persistência apesar dos danos. CID-10: • F14.24 – Síndrome de dependência de cocaína. • Diagnóstico confirmado por: craving, dificuldades de controle, abstinência, tolerância, uso continuado apesar das consequências e prioridade ao uso da substância. Referência: DSM-5 (2014); CID-10 (1993); ABEAD (2006) e. Conduta. • Encaminhamento para tratamento especializado em dependência química, preferencialmente com abordagem multiprofissional. • Intervenção psicoterapêutica, com ênfase na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e entrevista motivacional. • Acompanhamento psiquiátrico para avaliar necessidade de medicação adjuvante. • Envolvimento da família no processo terapêutico (psicoeducação). • Avaliação para internação terapêutica em casos graves ou com risco social. O tratamento medicamentoso será sintomático e sindrômico, com foco em três eixos principais: 1. Fase de abstinência (desintoxicação) Objetivo: Reduzir os sintomas da síndrome de abstinência, como irritabilidade, ansiedade, insônia, agitação psicomotora e disforia. • Benzodiazepínicos (curto prazo): • Ex: Diazepam 5–10mg ou Clonazepam 0,5–2mg/dia, por no máximo 7–14 dias. • Indicado em caso de insônia, ansiedade intensa, agitação. • Deve-se ter cautela devido ao risco de potencial aditivo de dependência. • Trazodona 50–100mg à noite, em caso de insônia com perfil mais depressivo. 2. Fase de manutenção (prevenção de recaída/fissura) Embora não exista um fármaco aprovado universalmente para todos os tipos de substâncias, pode-se utilizar: • Bupropiona (150–300mg/dia): • Indicada principalmente se houver história de uso de nicotina ou cocaína, e sintomas depressivos/ansiosos leves a moderados. • Atua na recaptação de dopamina e noradrenalina. • Topiramato (50–200mg/dia): • Pode reduzir fissura e impulsividade em dependentes de álcool, cocaína e outras substâncias. • Cuidado com efeitos colaterais cognitivos. • Naltrexona (oral 50mg/dia ou injetável mensal): • Mais indicada para álcool e opioides, mas estudos mostram possível efeito anti- recompensa em fissura geral. 3. Comorbidades psiquiátricas associadas Como o caso clínico descreve sintomas afetivos (depressão, isolamento, choro fácil), pode haver comorbidade com transtorno depressivo ou de ansiedade. Nesses casos: • ISRSs (ex: sertralina, fluoxetina, escitalopram): • Indicado se, após 2 semanas de abstinência, persistirem sintomas depressivos ou ansiosos graves. • Evitar tricíclicos em pacientes com risco de overdose. Importante: • A farmacoterapia só deve ser iniciada após a avaliação psiquiátrica especializada e inserida dentro de um plano terapêutico estruturado com psicoterapia e abordagem psicossocial. • Monitoramento contínuo da aderência ao tratamento e prevenção de recaídas é fundamental. • Sempre considerar indicação de internação em casos de risco à vida, falha terapêutica ambulatorial ou ausência de suporte familiar/social. Segundo as Diretrizes da ABEAD, o tratamento deve ser integrado, abordando a comorbidade com transtornos afetivos, de conduta e ambientais Referências ABEAD. Diretrizes da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas para o diagnóstico e tratamento de comorbidades psiquiátricas e dependência de álcool e outras substâncias. Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 28, n. 2, p. 142–148, 2006. AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014. CUNHA, Paulo J. et al. Alterações neuropsicológicas em dependentes de cocaína/crack internados: dados preliminares. Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 26, n. 2, p. 103–106, 2004. FOCCHI, Guilherme R. A. et al. Utilização do agonista dopaminérgico pergolida no tratamento da “fissura” por cocaína. Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 23, n. 4, p. 188–194, 2001. OLIVEIRA, Maria Sílvia de L. et al. Tratamento farmacológico dos transtornos por uso de substâncias psicoativas. Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 35, supl. 1, p. S85-S92, 2013. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10: descrições clínicas e diretrizes diagnósticas. 10. ed. Porto Alegre: Artmed, 1993.