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AS NAÇÕES PAGÃS E DEUS No último módulo, nosso propósito é apresentar uma teologia bíblica da soberania de Deus à luz da atuação das nações pagãs. Consideraremos a narrativa da redenção no intento de expor que o governo universal da história pertence a Deus, mesmo quando autoridades pagãs se levantam e arrogam para si o poder. Deus usa a todos segundo sua soberana vontade, inclusive aqueles que se declaram contra ele: “Então endurecerei o coração do faraó, e ele os perseguirá. Todavia, eu serei glorificado por meio do faraó e de todo o seu exército; e os egípcios saberão que eu sou o Senhor” (Êx 14.4). A respeito disso, o grande teólogo da história da igreja, Agostinho de Hipona, diz: “Aquele, que providente e onipotentemente distribui por cada um o que a cada um convém, sabe muito bem utilizar-se dos bons e dos maus”1. BABILÔNIA: INSTRUMENTO DE JULGAMENTO A Babilônia teve um papel extremamente relevante na vida de Israel: subjugou o reino de Judá, levando seu povo cativo; profanou o templo de Yahweh, deixando o povo da aliança, que outrora saíra vitorioso do Egito, em um estado de humilhação profunda; foi instrumento de Deus para educar seu povo a agir segundo seus preceitos. Como é possível todas essas verdades se encontrarem? Antes de tudo, é essencial ressaltar que o motivo da queda de Judá foi o pecado. De modo geral, o principal responsável pela catástrofe sofrida por Judá foi a violação da aliança sinaítica,2 que consistia na obediência aos mandamentos e no cumprimento da função para a qual Israel foi levantada – ser um reino de sacerdotes (Êx 19.6). No livro do profeta Jeremias, ele sintetiza o que está sendo dito: 1 FERREIRA, Franklin. Agostinho de A a Z. São Paulo: Editora Vida, 2007. p. 181. 2 Aliança feita por Deus com o povo hebreu aos pés do monte Sinai por meio de Moisés. E disse-me o Senhor: Apregoa todas estas palavras nas cidades de Judá, e nas ruas de Jerusalém, dizendo: Ouvi as palavras desta aliança, e cumpri-as. Porque deveras adverti a vossos pais, no dia em que os tirei da terra do Egito, até ao dia de hoje, madrugando, e protestando, e dizendo: Dai ouvidos à minha voz. Mas não ouviram, nem inclinaram os seus ouvidos, antes andaram cada um conforme o propósito do seu coração malvado; por isso trouxe sobre eles todas as palavras desta aliança que lhes mandei que cumprissem, porém não cumpriram. Disse-me mais o Senhor: Uma conspiração se achou entre os homens de Judá, entre os habitantes de Jerusalém. Tornaram às maldades de seus primeiros pais, que não quiseram ouvir as minhas palavras; e eles andaram após outros deuses para os servir; a casa de Israel e a casa de Judá quebraram a minha aliança, que tinha feito com seus pais. (Jr 11.6-10) O fato de ocorrer toda a destruição envolve a justiça de Yahweh, que não suporta o pecado sem arrependimento. A situação que se encontrava Judá era extrema aos olhos de Yahweh. A respeito disso John Taylor diz: “O quadro de extorsão, de derramamento de sangue, de incesto e de falta de religião é uma descrição aterrorizada de qualquer nação cuja hora determinada se aproxima”3. Não obstante, Yahweh levantou profetas para anunciar que, se não houvesse arrependimento dos pecados, os israelitas sofreriam tamanha desgraça. O pecado do abandono a Deus e às suas orientações para a vida teria como consequência o exílio. Comentando sobre a catástrofe que marcou a história dos judeus, disse Ceresko: [...] Isso se deveu em boa parte aos antigos profetas, como Amós, Oséias, Isaías e Jeremias, e aos historiadores deuteronomistas, cujas palavras de advertência e de ameaças de ruína tinham fornecido de antemão uma explicação para a calamidade. O povo e especialmente seus líderes recusaram-se a seguir as condições e os ideais dos projetos para a vida e a sociedade humanas embutidos na aliança e na lealdade para com o seu Deus, Iahweh. Dessa recusa, resultou a calamidade para eles e seus filhos. A sobrevivência e a renovação só 3TAYLOR, John B. Ezequiel: introdução e comentário. São Paulo: Mundo Cristão, p. 152. haveriam de acontecer mediante um novo compromisso com esses ideais [...].4 A Babilônia era, então, o remédio amargo que os judeus necessitavam para deixarem seu pecado. Há mais de um século, o reino do Norte, Israel, também fora alcançado pelo juízo divino, por intermédio do Império Assírio. O Império Neobabilônico5 foi fundado por Nabopolassar em 626 a.C. Alguns anos antes um rei de nome Assurbanipal reinou sobre uma Assíria e Babilônia unificadas (668-627). Eugene Merrill descreve o papel fundamental que teve Nabopolassar na conquista da independência da Babilônia e em sua transformação como potência da época: O sucessor de Assurbanipal foi Assur-etil-ilani (627-623). Havia outro filho, chamado Sin-sum-lisir, que por pouco tempo apoderou-se do governo de Babilônia (623). Sin-sar-iskun, então, dominou na Assíria (623-612) e tentou submeter Sin-sum-lisir no Sul. Porém foi impedido por Nabopolassar, um caldeu que ironicamente havia sido designado governador dos Povos do Mar três anos antes pelo próprio Sin-sar- iskun, que na ocasião era o general dos exércitos assírios incumbidos de rechaçar as forças de Babilônia. [...] Segundo uma crônica babilônica, Nabopolassar se engajou em batalha contra Sin-sar-iskun em Uruque, e prevaleceu definitivamente. A partir deste momento, ele assumiu formalmente o trono da Babilônia em 23 de Novembro de 626, embora a atitude não obtivesse o apoio da população assíria. Por três anos Nabopolassar defendeu seu reino contra os assírios, que tenazmente tentavam reconquistá-lo. Por fim, ele conseguiu afastar Sin-sar-iskun, que recentemente havia se constituído rei, e o expulsou definitivamente em 623. [...] Então, em 612, Nabopolassar capturou a cidade de Nínive, sendo apoiado por Umman-Manda (talvez os Citas) e pelos Medos. [...] Por fim, Nabopolassar voltou-se para a única fortaleza assíria ainda sobrevivente— Carquemis. Em 605, derrotou definitivamente os assírios, e forçou os egípcios a se retirarem do norte da Síria. 6 4CERESKO, Anthony R. Introdução ao Antigo Testamento: numa perspectiva libertadora. São Paulo: Paulus, 1996. p. 229. 5Império Neobabilônico é a denominação para uma época de 626 a.C. a 539 a.C.,em que os caldeus dominaram a região central e baixa da Mesopotâmia. 6MERRILL, Eugene. História de Israel no Antigo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2018. p. 476,477. O Império Neobabilônico teve seu fim em 539 a.C., quando sucumbiram ante os persas. O rei responsável pela queda de Judá não foi Nabopolassar. Quando Judá foi subjugada e destruída, quem reinava na Babilônia era seu filho, Nabucodonosor. Antes de sua definitiva queda, Judá havia se tornado um estado vassalo do Egito, por ocasião da morte precoce do bom rei Josias (2Rs 23.29), em 609 a.C. O faraó Neco depôs Jeoacaz três meses após subir ao trono de Judá, colocando em seu lugar o filho mais velho de Josias, Joaquim, além de ter exigido um pesado tributo a ser pago (2Rs 23.33). Ao prevalecer diante do Egito, a Babilônia incorporou Judá ao seu Império, e requereu os tributos que eram pagos ao Egito, o que se deu em 605 a. C. Após sucessivas incursões a Jerusalém, em 587/586 a.C., Nabucodonosor pôs fim ao reino de Judá, tomando Jerusalém e acabando com a monarquia judaica. Zedequias, que também era filho de Josias, provocou este último e derradeiro ato de dominação, como descreve Eugene Merrill: [Zedequias era] Mau como foram seus irmãos, ele não atentou para as advertências do profeta Jeremias, para aceitar a soberania dos babilônicos como a vontade de Deus para a nação. Rebelou-se contra Nabucodonosor, ocasionando o desastre fatal para o reino.[...] Zedequias conseguiu escapar por uma abertura na muralha da cidade e fugiu para os lados de Jericó, mas logo foi capturado e conduzido à presença de Nabucodonosor que, na ocasião, estava alojado na Síria, na cidade de Ribla. Nesta cidade, o rei de Jerusalém teve de presenciar a execução de seus filhos. Depois, vazaram-lhe os olhos e conduziram- no assim para a Babilônia.7 Com um breve relato da invasão, Anthony Ceresko mostra o sofrimento e a devastação de Judá: Depois de rompidas as muralhas de Jerusalém, a cidade foi conquistada em 587 a.C. e o exército babilônico teve permissão de saquear a cidade. Poucas semanas depois, Nabucodonosor ordenou que ela fosse destruída. Assim o templo de Salomão, o palácio real e os principais bairros residenciais foram incendiados e os muros da cidade demolidos [...] o povo foi obrigado a fugir, foi levado para o Exílio (2Rs 25, 11; Jr 52, 15), ou foi executado (2 Rs 25, 18-21; Jr 52, 7Idem. p. 480. 24). Provas arqueológicas também dão eloquente testemunho da destruição que os exércitos babilônicos causaram no resto de Judá ao mesmo tempo. Parece que toda cidade fortificada foi destruída. A infra- estrutura da terra– a lavoura, o comércio e a indústria– ficou seriamente comprometida quando não totalmente arrasada. A população, ao menos inicialmente, ficou dizimada. Muitos morreram nos combates ou foram depois presos e executados; grande número sem dúvida morreu de doença ou de fome; muitas simplesmente fugiram do país.8 Eugene Merrill também disserta sobre o triste momento vivido por Judá e seus habitantes: Os principais prédios e residências de Jerusalém foram destruídos e incendiados pelos exércitos de Babilônia, sob o comando de Nebuzaradã. Arrebentaram as muralhas de defesa, e a cidade outrora magnificente foi vista como uma ruína, incapaz de proteger os miseráveis que lá ainda residiam. [...] Todos os objetos de valor foram tomados pelos babilônicos e carregados triunfantemente como espólio de guerra. A população, com exceção dos mais miseráveis, foi deportada irremediavelmente em massa. Somente poucos, dentre eles o profeta Jeremias, puderam permanecer. Os principais líderes da nação, como o sumo sacerdote Seraías e todos os seus assistentes, foram levados à presença de Nabucodonosor e sumariamente executados. Assim Judá e Jerusalém deixaram de ser o foco especial dos olhos do Senhor na terra.9 Não se pode deixar de mencionar o considerável abalo na religião judaica que se fundamentava em Jerusalém e no Templo, agora destruído e vilipendiado pelos babilônicos.10 Como tais acontecimentos podem ser considerados proveitosos para os judeus? Poderia tamanha dor e sofrimento tornarem-se bênçãos para o povo de Yahweh? Se a causa do sofrimento era o pecado, a finalidade do sofrimento era pedagógica. Yahweh usou a nação pagã da Babilônia para que Judá passasse pela experiência do sofrimento e fosse moldada por ela. Ralph Klein diz que no 8 CERESKO, Anthony R. Op. Cit. p. 231. 9MERRILL, Eugene. Op. Cit. p. 481. 10Conforme relatos bíblicos de 2Crônicas 36.7 e Daniel 1.2, Nabucodonosor ordenou que o templo fosse saqueado e seus utensílios levados para a Babilônia, a fim de serem postos em seus templos pagãos. sofrimento do exílio, o judeu “questiona a sua própria bondade. Com base nessa lamentação paradigmática (vv.1-39), a nação é convidada ao exame de consciência e ao arrependimento sincero”11– referindo-se ao capítulo três do livro de Lamentações de Jeremias. A respeito do sofrimento, Luiz Sayão, linguista e teólogo, afirma: O enfoque é deslocado da origem do mal e é colocado principalmente nos possíveis bons resultados da experiência do sofrimento. A ideia é que a experiência do sofrimento (mal) é um benefício indispensável para o desenvolvimento das capacidades humanas, do contrário a humanidade permaneceria eternamente na infância. Argumenta-se, por exemplo, que um pouco de sofrimento aumenta a nossa própria satisfação com a vida e que um sofrimento maior e mais intenso desenvolve em nós uma maior profundidade de caráter e de compaixão.12 Depois do exílio babilônico Judá nunca mais foi a mesma. A idolatria – pecado que acompanhou o povo da aliança por séculos – nunca mais foi um problema nacional depois desta experiência. A Babilônia, então, foi um instrumento de Deus para que o povo israelita se arrependesse de seus pecados. Ainda que a nação pagã pensasse estar no controle do mundo antigo, ela estava, na verdade, sob domínio de Yahweh. PÉRSIA: INSTRUMENTO PARA A RESTAURAÇÃO Encontramos na história da redenção uma outra nação pagã que foi usada por Deus: a Pérsia. Desta vez, Yahweh usa a Pérsia, e mais especificamente seu rei Ciro, para restaurar Judá, sobretudo seus elementos identitários: a cidade de Jerusalém e o templo de Yahweh. Eugene Merrill discorre sobre o contexto do retorno do exílio: No século dezenove foi encontrado um cilindro cuja inscrição registrava o grande decreto de Ciro autorizando os cativos da Babilônia a retornarem para seus lugares de origem. A inscrição foi primariamente uma propaganda criada para demonstrar que Ciro havia sido chamado 11KLEIN, Ralph W. Israel no exílio: uma interpretação teológica.Santo André: Academia Cristã, 2012. p. 38. 12SAYÃO, Luiz Aberto Teixeira. A Conquista de Judá pela Babilônia. Disponível em: . por Marduque, deus da Babilônia, e que seu reinado era segundo a permissão de todos os deuses. Não se pode negar a habilidade política e psicológica do homem. De fato, sua política de permitir o retorno dos exilados para suas terras o ajudou a ganhar o coração dos habitantes de seu reino.13 Ciro promulgou o decreto que permitia o retorno dos exilados no mesmo ano que derrotou e destruiu o Império Neobabilônico, em 539 a.C.: Ele [Ciro] consolidou as fronteiras ao norte e ao leste entre 546 e 540 e então voltou sua atenção para o Ocidente a fim de conquistar a Babilônia, acrescentando o reino Neobabilônico ao seu império em 539 a.C. A cidade de Babilônia abriu seus portões para Ciro desse mesmo ano e, em troca, ele impediu que o santuário de Marduque fosse destruído ou profanado.14 A estratégia política de Ciro para com as nações subjugadas contrasta com as nações que outrora exerceram a hegemonia na região do Antigo Oriente Próximo: É evidente que a política administrativa persa diferia da política da Assíria ou da Neobabilônica em relação ao tratamento concedido aos reis vassalos e suas culturas. O Cilindro de Ciro preserva um decreto que reflete a tolerância de Ciro ao garantir certo grau de autonomia aos povos de seu império. Embora não haja uma referência específica a Judá, o decreto ordenava que fossem feitos reparos nos santuários e templos danificados, que aqueles que haviam sido destruídos fossem reconstruídos e que as imagens levadas para a Babilônia fossem devolvidas.15 Contudo, à medida que a delegação de poder aos governos locais era dada, a autoridade central do rei era enfraquecida, e com o tempo essa situação tornou-se insustentável, levando o Império Persa à queda no ano de 334 a.C., ante o general conquistador Alexandre, o Grande. Não obstante, toda justificação histórica e cultural para o retorno dos exilados em última instância o responsável pelo retorno a Judá foi Yahweh. 13MERRILL, Eugene. Op. Cit. p. 521. 14WALTON, John H.; MATTHEWS, Victor H.; CHAVALAS, Mark W. Comentário histórico-cultural da Bíblia: Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2018. p. 597. 15Idem. Ademais, antes mesmo de o desastroso exílio acontecer o profetaIsaías já havia proclamado que Yahweh levantaria um ungido a fim de subjugar as nações e cumprir Sua vontade. O profeta Jeremias também profetizara que o retorno aconteceria. Eugene Merrill salienta: Yahweh foi quem deu a Ciro condições para cumprir a missão que lhe estava determinada. Isaías falou acerca dele como um “pastor” de Yahweh (44.28), o “ungido” que era sustentado pela mão direita de Deus, de sorte que tinha poder para submeter as nações (45.1). Seria ele o homem a quem o Senhor usaria para fazer seu povo voltar e reconstruir sua cidade e templo. [...] Tanto o cronista (2 Cr 36.22,23) como Esdras (1.1-4) interpretam o decreto como um cumprimento da palavra do profeta Jeremias e reafirmaram que fora Yahweh, e não Marduque, quem inspirou Ciro a tomar esta nobre medida. Mas não se pode ler no texto que Ciro tenha se tornado um adorador de Yahweh. Ele não era mais adorador de Yahweh do que Nabucodonossor havia sido, quando exaltou Yahweh perante Daniel. Ambos eram sincretistas que buscavam razões políticas para aceitarem seus novos deuses em seus respectivos panteões. Não é possível negar, entretanto, que ambos estavam sob controle do Deus soberano dos céus e da terra, que os usou, soubessem ou não, para cumprir os seus santos propósitos.16 Em suma, o Rei supremo governa a história de acordo com seus desígnios, remove e estabelece autoridades da forma que lhe apraz. Bruce Waltke descreve este momento da história da redenção: No passado, EU SOU usou as nações para disciplinar Israel (1Cr 5.26; 2Cr 21.16; 36.17; Is 5.26-30; 7.8-19; 10.5; 45.1-9, esp. v.7; Os 10.10; Am 6.14), mas agora, por sua graça soberana, ele as usa para a restaurar a nação. A motivação de Ciro não é teológica, mas política (cfIs 45.1-4). Mesmo assim, todo o poder do mundo político está sob o governo de Deus, que fielmente preserva seu povo para servir aos propósitos divinos. Deus não havia se esquecido de Israel. O teólogo que escreveu Esdras-Neemias identifica o Deus que Ciro chama de “Deus do céu” como o Deus de Israel, EU SOU. Quanto ao regresso propriamente dito (Ed 1.5-11), o pensamento que se vê na expressão “todos aqueles cujo espírito Deus havia despertado” forma par com a 16Idem. p. 522. graça soberana. Deus capacita as pessoas a dizerem “amém” para a oportunidade divina de regressar ao lugar onde ele está presente de modo único. EU SOU é a força motivacional derradeira que capacita as pessoas a guardar a aliança. Não existe redenção sem a regeneração operada por Deus.17 IMPÉRIO ROMANO: INSTRUMENTO PARA A PROPAGAÇÃO DO EVANGELHO Na carta Aos Gálatas, o apóstolo Paulo usa o termo “a plenitude dos tempos” (Gl 4.4), apontando justamente para a ideia de que Cristo Jesus veio ao mundo quando o ambiente – seja ele cultural, histórico ou político– estava plenamente preparado para recebê-lo. John MacArthur comenta: “No tempo designado por Deus, quando as precisas condições religiosas, culturais e políticas exigidas pelo seu plano perfeito haviam atingido o auge, Jesus veio ao mundo”18. E o Império Romano, maior potência da época, foi também usado por Deus para que Cristo encontrasse o ambiente propício a fim de que sua mensagem fosse propagada. No entanto, o mundo que recebeu Jesus Cristo não foi totalmente idealizado por Roma. Alguns elementos essenciais para o estabelecimento da mensagem do Evangelho não foram criados e sim herdados (dos gregos). O Império Romano tomou posse de uma estratégia bastante eficiente que Alexandre, o Grande, havia estabelecido: fundar um poderoso império tendo como base a cultura: Alexandre morreu na Babilônia aos 33 anos, vítima de uma febre tropical. Ário, interpretando a vida de Alexandre, afirmou: “Alexandre era diferente de todos os homens, foi dado ao mundo, por especial desígnio da Providência”. No seu breve reinado, Alexandre lançou as bases de uma nova civilização, que durou muitos séculos depois da sua morte. Contribuiu grandemente para o bem da humanidade, e de um modo especial para o advento de Jesus.19 17WALTKE, Bruce. Teologia do Antigo Testamento: uma abordagem exegética, canônica e temática. São Paulo: Vida Nova, 2015. p. 867. 18Bíblia de Estudo MacArthur. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010. p. 1592. 19TSOTSOS, Efstathios. O evangelho na Macedônia: a influência do mundo helenístico para a preparação da plenitude do tempo através da profecia de Daniel (Cap. 8-11).Revista Ensaios Teológicos. v.2, nº 2, Dez/2016, Faculdade Batista Pioneira. p. 15. Ainda acerca da influência grega sobre o Império Romano, dois aspectos se destacam como fundamentais: o estabelecimento de uma língua universal e o surgimento da filosofia grega. Sobre o grego como língua universal, Earle Cairns disse: O Evangelho universal precisava de uma língua universal para poder exercer um impacto real sobre o mundo. Os homens têm procurado desde a torre de Babel criar uma língua universal para que possam comunicar suas ideias uns aos outros sem problemas. Assim como o inglês no mundo moderno e o latim no mundo medieval erudito, o grego tornou-se no mundo antigo, ao tempo em que o Império Romano apareceu, a língua universal.20 Foi por meio desse dialeto que os cristãos foram capazes de se comunicar com os povos do mundo antigo, usando-o inclusive para escrever o Novo Testamento. Até mesmo os judeus se utilizaram do grego. Em Alexandria, eles transcreveram todo o Antigo Testamento para a língua grega, em um documento que ficou conhecido como Septuaginta. Em continuidade, dissertando sobre a filosofia grega e sua importância na história da redenção, Cairns conclui: A filosofia grega preparou o caminho para a vinda do cristianismo por ter levado à destruição as antigas religiões. Qualquer um que chegasse a conhecer seus princípios, fosse grego ou romano, logo perceberia que sua disciplina intelectual tornou a religião tão inteligível que a acabava abandonando em favor da filosofia. A filosofia falhou, porém, na satisfação das necessidades espirituais do homem, que se via obrigado então a tornar-se um cético ou a procurar conforto nas religiões de mistério do Império Romano. À época do advento de Cristo, a filosofia descera do ponto elevado que alcançara com Platão para um sistema de pensamento individualista egoísta, como é o caso do Estoicismo ou do Epicurismo. Na maioria dos casos, a filosofia apenas aspirava por Deus, fazendo dEle uma abstração; jamais revelava um Deus pessoal de amor. Este fracasso da filosofia do tempo da vinda de Cristo tornou as mentes humanas prontas para entender 20CAIRNS, Earle E. O cristianismo através dos séculos: uma história da Igreja cristã. São Paulo: Vida Nova, 1995. p. 32. uma apresentação mais espiritual da vida. Só o cristianismo pode preencher o vazio na vida espiritual de então. 21 Contudo, talvez não tenha sido essa a contribuição mais valiosa da filosofia grega para o mundo antigo a fim de que recebesse o Evangelho de Jesus. Cairns também pontua a relevância da ideia de eternidade concebida pelos gregos: A outra forma pela qual os grandes filósofos gregos ajudaram o cristianismo está ligada ao fato de chamarem a atenção dos gregos para uma realidade que transcendia o mundo temporal e visível em que viviam. Tanto Sócrates quanto Platão ensinaram, cinco séculos antes de Cristo, que este presente mundo temporal dos sentidos é apenas uma sombra do mundo real em que os ideais supremos são ao mesmo tempo abstrações intelectuais, o bem, a beleza e a verdade. Insistiam que a realidade não era temporal e material, mas espiritual e eterna. Sua busca pela verdade jamais lhes conduziu a um Deus pessoal, mas evidenciou que o melhor que o homem deve fazer é buscara Deus através do intelecto. O cristianismo ofereceu a este povo que aceitava a filosofia de Sócrates e Platão, a revelação histórica do Bem, da Beleza e da Verdade na pessoa do Deus-homem, Cristo. Os gregos aceitavam a imortalidade da alma, mas não tinham lugar para a ressurreição do corpo. 22 Esses elementos intelectuais oriundos da cultura grega permaneceram durante o Império Romano, que, por sua vez, inseriu novos elementos ao quadro histórico da época. Dois deles serão aqui examinados. O primeiro diz respeito justamente à facilidade logística para locomoção no mundo antigo: Os romanos criaram um ótimo sistema de estradas que iam do marco áureo no fórum a todas as regiões do Império. As estradas principais eram de concreto e duraram séculos. Elas passavam por montes e vales até chegarem aos pontos mais distantes do Império; algumas delas são usadas até hoje. Um estudo das viagens de Paulo indica que ele se serviu muito deste ótimo sistema viário para atingir os centros estratégicos do Império Romano. As estradas romanas e as cidades estrategicamente localizadas às margens dessas estradas foram uma ajuda indispensável na concretização da missão de Paulo. 23 21Idem. p. 33. 22Idem. 23Idem. p. 30. Não obstante, o Império Romano trouxe um senso de unidade política sem precedentes por meio da lei romana – o que seria o segundo elemento intelectual. Cairns descreve: Os romanos, como nenhum outro povo até então, desenvolveram um sentido da unidade da espécie sob uma lei universal. Este sentido da solidariedade do homem no Império criou um ambiente favorável à aceitação do Evangelho que proclamava a unidade da raça humana, baseada no fato de que todos os homens estavam sob a pena do pecado e no fato de que a todos era oferecida a salvação que os integra num organismo universal, a Igreja Cristã, o Corpo de Cristo.[...] Nenhum império do Antigo Oriente Próximo, nem mesmo o império de Alexandre, tinha conseguido dar aos homens um sentido de unidade numa organização política. A unidade política seria a contribuição particular de Roma. A aplicação da lei romana aos cidadãos de todo o Império era imposta diariamente a todos os cidadãos e súditos do Império pela justiça imparcial das cortes romanas. [...] A lei romana, com sua ênfase sobre a dignidade do indivíduo, e no direito deste à justiça e à cidadania romana, além de sua tendência a agrupar homens de raças diferentes numa só organização política, antecipou um Evangelho que proclamava a unidade da raça ao anunciar a pena do pecado e o Salvador do pecado. 24 O próprio apóstolo Paulo usufruiu desse fato, pois foi por uma ramificação da lei romana que ele se constituiu cidadão romano mesmo sendo judeu de nascimento. O poderoso Império Romano, portanto, também foi um instrumento nas mãos de Deus. A autoridade que alcançaram emanava, em última instância, Dele, que é soberano sobre tudo e todos. Por mais que pensassem estar no topo do mundo e se julgassem invencíveis em dado momento, não passavam de uma nação pagã agindo debaixo da permissão de Deus, para Sua honra e glória– o que foi afirmado por Cairns: “Este povo, seguidor do caminho da idolatria, dos cultos de mistério e do culto ao imperador, foi então usado por Deus, a quem ignoravam, para cumprir a sua vontade”25. 24Idem. p. 29,30. 25Idem. p. 29.