Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

AS NAÇÕES PAGÃS E DEUS 
 
No último módulo, nosso propósito é apresentar uma teologia bíblica da 
soberania de Deus à luz da atuação das nações pagãs. Consideraremos a 
narrativa da redenção no intento de expor que o governo universal da história 
pertence a Deus, mesmo quando autoridades pagãs se levantam e arrogam para 
si o poder. Deus usa a todos segundo sua soberana vontade, inclusive aqueles 
que se declaram contra ele: “Então endurecerei o coração do faraó, e ele os 
perseguirá. Todavia, eu serei glorificado por meio do faraó e de todo o seu 
exército; e os egípcios saberão que eu sou o Senhor” (Êx 14.4). 
A respeito disso, o grande teólogo da história da igreja, Agostinho de 
Hipona, diz: “Aquele, que providente e onipotentemente distribui por cada um o 
que a cada um convém, sabe muito bem utilizar-se dos bons e dos maus”1. 
 
BABILÔNIA: INSTRUMENTO DE JULGAMENTO 
A Babilônia teve um papel extremamente relevante na vida de Israel: 
subjugou o reino de Judá, levando seu povo cativo; profanou o templo de 
Yahweh, deixando o povo da aliança, que outrora saíra vitorioso do Egito, em 
um estado de humilhação profunda; foi instrumento de Deus para educar seu 
povo a agir segundo seus preceitos. Como é possível todas essas verdades se 
encontrarem? 
Antes de tudo, é essencial ressaltar que o motivo da queda de Judá foi o 
pecado. De modo geral, o principal responsável pela catástrofe sofrida por Judá 
foi a violação da aliança sinaítica,2 que consistia na obediência aos 
mandamentos e no cumprimento da função para a qual Israel foi levantada – ser 
um reino de sacerdotes (Êx 19.6). No livro do profeta Jeremias, ele sintetiza o 
que está sendo dito: 
 
1 FERREIRA, Franklin. Agostinho de A a Z. São Paulo: Editora Vida, 2007. p. 181. 
2 Aliança feita por Deus com o povo hebreu aos pés do monte Sinai por meio de Moisés. 
E disse-me o Senhor: Apregoa todas estas palavras nas cidades de 
Judá, e nas ruas de Jerusalém, dizendo: Ouvi as palavras desta 
aliança, e cumpri-as. Porque deveras adverti a vossos pais, no dia em 
que os tirei da terra do Egito, até ao dia de hoje, madrugando, e 
protestando, e dizendo: Dai ouvidos à minha voz. Mas não ouviram, 
nem inclinaram os seus ouvidos, antes andaram cada um conforme o 
propósito do seu coração malvado; por isso trouxe sobre eles todas as 
palavras desta aliança que lhes mandei que cumprissem, porém não 
cumpriram. Disse-me mais o Senhor: Uma conspiração se achou entre 
os homens de Judá, entre os habitantes de Jerusalém. Tornaram às 
maldades de seus primeiros pais, que não quiseram ouvir as minhas 
palavras; e eles andaram após outros deuses para os servir; a casa de 
Israel e a casa de Judá quebraram a minha aliança, que tinha feito com 
seus pais. (Jr 11.6-10) 
O fato de ocorrer toda a destruição envolve a justiça de Yahweh, que não 
suporta o pecado sem arrependimento. A situação que se encontrava Judá era 
extrema aos olhos de Yahweh. A respeito disso John Taylor diz: “O quadro de 
extorsão, de derramamento de sangue, de incesto e de falta de religião é uma 
descrição aterrorizada de qualquer nação cuja hora determinada se aproxima”3. 
Não obstante, Yahweh levantou profetas para anunciar que, se não 
houvesse arrependimento dos pecados, os israelitas sofreriam tamanha 
desgraça. O pecado do abandono a Deus e às suas orientações para a vida teria 
como consequência o exílio. Comentando sobre a catástrofe que marcou a 
história dos judeus, disse Ceresko: 
[...] Isso se deveu em boa parte aos antigos profetas, como Amós, 
Oséias, Isaías e Jeremias, e aos historiadores deuteronomistas, cujas 
palavras de advertência e de ameaças de ruína tinham fornecido de 
antemão uma explicação para a calamidade. O povo e especialmente 
seus líderes recusaram-se a seguir as condições e os ideais dos 
projetos para a vida e a sociedade humanas embutidos na aliança e na 
lealdade para com o seu Deus, Iahweh. Dessa recusa, resultou a 
calamidade para eles e seus filhos. A sobrevivência e a renovação só 
 
3TAYLOR, John B. Ezequiel: introdução e comentário. São Paulo: Mundo Cristão, p. 152. 
haveriam de acontecer mediante um novo compromisso com esses 
ideais [...].4 
A Babilônia era, então, o remédio amargo que os judeus necessitavam para 
deixarem seu pecado. Há mais de um século, o reino do Norte, Israel, também 
fora alcançado pelo juízo divino, por intermédio do Império Assírio. 
O Império Neobabilônico5 foi fundado por Nabopolassar em 626 a.C. 
Alguns anos antes um rei de nome Assurbanipal reinou sobre uma Assíria e 
Babilônia unificadas (668-627). Eugene Merrill descreve o papel fundamental 
que teve Nabopolassar na conquista da independência da Babilônia e em sua 
transformação como potência da época: 
O sucessor de Assurbanipal foi Assur-etil-ilani (627-623). Havia outro 
filho, chamado Sin-sum-lisir, que por pouco tempo apoderou-se do 
governo de Babilônia (623). Sin-sar-iskun, então, dominou na Assíria 
(623-612) e tentou submeter Sin-sum-lisir no Sul. Porém foi impedido 
por Nabopolassar, um caldeu que ironicamente havia sido designado 
governador dos Povos do Mar três anos antes pelo próprio Sin-sar-
iskun, que na ocasião era o general dos exércitos assírios incumbidos 
de rechaçar as forças de Babilônia. [...] Segundo uma crônica 
babilônica, Nabopolassar se engajou em batalha contra Sin-sar-iskun 
em Uruque, e prevaleceu definitivamente. A partir deste momento, ele 
assumiu formalmente o trono da Babilônia em 23 de Novembro de 626, 
embora a atitude não obtivesse o apoio da população assíria. Por três 
anos Nabopolassar defendeu seu reino contra os assírios, que 
tenazmente tentavam reconquistá-lo. Por fim, ele conseguiu afastar 
Sin-sar-iskun, que recentemente havia se constituído rei, e o expulsou 
definitivamente em 623. [...] Então, em 612, Nabopolassar capturou a 
cidade de Nínive, sendo apoiado por Umman-Manda (talvez os Citas) 
e pelos Medos. [...] Por fim, Nabopolassar voltou-se para a única 
fortaleza assíria ainda sobrevivente— Carquemis. Em 605, derrotou 
definitivamente os assírios, e forçou os egípcios a se retirarem do norte 
da Síria. 6 
 
4CERESKO, Anthony R. Introdução ao Antigo Testamento: numa perspectiva libertadora. São Paulo: 
Paulus, 1996. p. 229. 
5Império Neobabilônico é a denominação para uma época de 626 a.C. a 539 a.C.,em que os caldeus 
dominaram a região central e baixa da Mesopotâmia. 
6MERRILL, Eugene. História de Israel no Antigo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2018. p. 476,477. 
O Império Neobabilônico teve seu fim em 539 a.C., quando sucumbiram 
ante os persas. O rei responsável pela queda de Judá não foi Nabopolassar. 
Quando Judá foi subjugada e destruída, quem reinava na Babilônia era seu filho, 
Nabucodonosor. Antes de sua definitiva queda, Judá havia se tornado um estado 
vassalo do Egito, por ocasião da morte precoce do bom rei Josias (2Rs 23.29), 
em 609 a.C. O faraó Neco depôs Jeoacaz três meses após subir ao trono de 
Judá, colocando em seu lugar o filho mais velho de Josias, Joaquim, além de ter 
exigido um pesado tributo a ser pago (2Rs 23.33). Ao prevalecer diante do Egito, 
a Babilônia incorporou Judá ao seu Império, e requereu os tributos que eram 
pagos ao Egito, o que se deu em 605 a. C. 
Após sucessivas incursões a Jerusalém, em 587/586 a.C., Nabucodonosor 
pôs fim ao reino de Judá, tomando Jerusalém e acabando com a monarquia 
judaica. Zedequias, que também era filho de Josias, provocou este último e 
derradeiro ato de dominação, como descreve Eugene Merrill: 
[Zedequias era] Mau como foram seus irmãos, ele não atentou para as 
advertências do profeta Jeremias, para aceitar a soberania dos 
babilônicos como a vontade de Deus para a nação. Rebelou-se contra 
Nabucodonosor, ocasionando o desastre fatal para o reino.[...] 
Zedequias conseguiu escapar por uma abertura na muralha da cidade 
e fugiu para os lados de Jericó, mas logo foi capturado e conduzido à 
presença de Nabucodonosor que, na ocasião, estava alojado na Síria, 
na cidade de Ribla. Nesta cidade, o rei de Jerusalém teve de presenciar 
a execução de seus filhos. Depois, vazaram-lhe os olhos e conduziram-
no assim para a Babilônia.7 
Com um breve relato da invasão, Anthony Ceresko mostra o sofrimento e 
a devastação de Judá: 
Depois de rompidas as muralhas de Jerusalém, a cidade foi 
conquistada em 587 a.C. e o exército babilônico teve permissão de 
saquear a cidade. Poucas semanas depois, Nabucodonosor ordenou 
que ela fosse destruída. Assim o templo de Salomão, o palácio real e 
os principais bairros residenciais foram incendiados e os muros da 
cidade demolidos [...] o povo foi obrigado a fugir, foi levado para o 
Exílio (2Rs 25, 11; Jr 52, 15), ou foi executado (2 Rs 25, 18-21; Jr 52, 
 
7Idem. p. 480. 
24). Provas arqueológicas também dão eloquente testemunho da 
destruição que os exércitos babilônicos causaram no resto de Judá ao 
mesmo tempo. Parece que toda cidade fortificada foi destruída. A infra-
estrutura da terra– a lavoura, o comércio e a indústria– ficou 
seriamente comprometida quando não totalmente arrasada. A 
população, ao menos inicialmente, ficou dizimada. Muitos morreram 
nos combates ou foram depois presos e executados; grande número 
sem dúvida morreu de doença ou de fome; muitas simplesmente 
fugiram do país.8 
Eugene Merrill também disserta sobre o triste momento vivido por Judá e 
seus habitantes: 
Os principais prédios e residências de Jerusalém foram destruídos e 
incendiados pelos exércitos de Babilônia, sob o comando de 
Nebuzaradã. Arrebentaram as muralhas de defesa, e a cidade outrora 
magnificente foi vista como uma ruína, incapaz de proteger os 
miseráveis que lá ainda residiam. [...] Todos os objetos de valor foram 
tomados pelos babilônicos e carregados triunfantemente como espólio 
de guerra. A população, com exceção dos mais miseráveis, foi 
deportada irremediavelmente em massa. Somente poucos, dentre eles 
o profeta Jeremias, puderam permanecer. Os principais líderes da 
nação, como o sumo sacerdote Seraías e todos os seus assistentes, 
foram levados à presença de Nabucodonosor e sumariamente 
executados. Assim Judá e Jerusalém deixaram de ser o foco especial 
dos olhos do Senhor na terra.9 
Não se pode deixar de mencionar o considerável abalo na religião judaica 
que se fundamentava em Jerusalém e no Templo, agora destruído e vilipendiado 
pelos babilônicos.10 Como tais acontecimentos podem ser considerados 
proveitosos para os judeus? Poderia tamanha dor e sofrimento tornarem-se 
bênçãos para o povo de Yahweh? 
Se a causa do sofrimento era o pecado, a finalidade do sofrimento era 
pedagógica. Yahweh usou a nação pagã da Babilônia para que Judá passasse 
pela experiência do sofrimento e fosse moldada por ela. Ralph Klein diz que no 
 
8 CERESKO, Anthony R. Op. Cit. p. 231. 
9MERRILL, Eugene. Op. Cit. p. 481. 
10Conforme relatos bíblicos de 2Crônicas 36.7 e Daniel 1.2, Nabucodonosor ordenou que o templo fosse 
saqueado e seus utensílios levados para a Babilônia, a fim de serem postos em seus templos pagãos. 
sofrimento do exílio, o judeu “questiona a sua própria bondade. Com base nessa 
lamentação paradigmática (vv.1-39), a nação é convidada ao exame de 
consciência e ao arrependimento sincero”11– referindo-se ao capítulo três do livro 
de Lamentações de Jeremias. 
A respeito do sofrimento, Luiz Sayão, linguista e teólogo, afirma: 
O enfoque é deslocado da origem do mal e é colocado principalmente 
nos possíveis bons resultados da experiência do sofrimento. A ideia é 
que a experiência do sofrimento (mal) é um benefício indispensável 
para o desenvolvimento das capacidades humanas, do contrário a 
humanidade permaneceria eternamente na infância. Argumenta-se, 
por exemplo, que um pouco de sofrimento aumenta a nossa própria 
satisfação com a vida e que um sofrimento maior e mais intenso 
desenvolve em nós uma maior profundidade de caráter e de 
compaixão.12 
Depois do exílio babilônico Judá nunca mais foi a mesma. A idolatria – 
pecado que acompanhou o povo da aliança por séculos – nunca mais foi um 
problema nacional depois desta experiência. A Babilônia, então, foi um 
instrumento de Deus para que o povo israelita se arrependesse de seus 
pecados. Ainda que a nação pagã pensasse estar no controle do mundo antigo, 
ela estava, na verdade, sob domínio de Yahweh. 
PÉRSIA: INSTRUMENTO PARA A RESTAURAÇÃO 
Encontramos na história da redenção uma outra nação pagã que foi usada 
por Deus: a Pérsia. Desta vez, Yahweh usa a Pérsia, e mais especificamente 
seu rei Ciro, para restaurar Judá, sobretudo seus elementos identitários: a cidade 
de Jerusalém e o templo de Yahweh. Eugene Merrill discorre sobre o contexto 
do retorno do exílio: 
No século dezenove foi encontrado um cilindro cuja inscrição registrava 
o grande decreto de Ciro autorizando os cativos da Babilônia a 
retornarem para seus lugares de origem. A inscrição foi primariamente 
uma propaganda criada para demonstrar que Ciro havia sido chamado 
 
11KLEIN, Ralph W. Israel no exílio: uma interpretação teológica.Santo André: Academia Cristã, 2012. p. 
38. 
12SAYÃO, Luiz Aberto Teixeira. A Conquista de Judá pela Babilônia. Disponível em: 
. 
por Marduque, deus da Babilônia, e que seu reinado era segundo a 
permissão de todos os deuses. Não se pode negar a habilidade política 
e psicológica do homem. De fato, sua política de permitir o retorno dos 
exilados para suas terras o ajudou a ganhar o coração dos habitantes 
de seu reino.13 
Ciro promulgou o decreto que permitia o retorno dos exilados no mesmo 
ano que derrotou e destruiu o Império Neobabilônico, em 539 a.C.: 
Ele [Ciro] consolidou as fronteiras ao norte e ao leste entre 546 e 540 
e então voltou sua atenção para o Ocidente a fim de conquistar a 
Babilônia, acrescentando o reino Neobabilônico ao seu império em 539 
a.C. A cidade de Babilônia abriu seus portões para Ciro desse mesmo 
ano e, em troca, ele impediu que o santuário de Marduque fosse 
destruído ou profanado.14 
 A estratégia política de Ciro para com as nações subjugadas contrasta com 
as nações que outrora exerceram a hegemonia na região do Antigo Oriente 
Próximo: 
É evidente que a política administrativa persa diferia da política da 
Assíria ou da Neobabilônica em relação ao tratamento concedido aos 
reis vassalos e suas culturas. O Cilindro de Ciro preserva um decreto 
que reflete a tolerância de Ciro ao garantir certo grau de autonomia aos 
povos de seu império. Embora não haja uma referência específica a 
Judá, o decreto ordenava que fossem feitos reparos nos santuários e 
templos danificados, que aqueles que haviam sido destruídos fossem 
reconstruídos e que as imagens levadas para a Babilônia fossem 
devolvidas.15 
Contudo, à medida que a delegação de poder aos governos locais era 
dada, a autoridade central do rei era enfraquecida, e com o tempo essa situação 
tornou-se insustentável, levando o Império Persa à queda no ano de 334 a.C., 
ante o general conquistador Alexandre, o Grande. 
Não obstante, toda justificação histórica e cultural para o retorno dos 
exilados em última instância o responsável pelo retorno a Judá foi Yahweh. 
 
13MERRILL, Eugene. Op. Cit. p. 521. 
14WALTON, John H.; MATTHEWS, Victor H.; CHAVALAS, Mark W. Comentário histórico-cultural 
da Bíblia: Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2018. p. 597. 
15Idem. 
Ademais, antes mesmo de o desastroso exílio acontecer o profetaIsaías já havia 
proclamado que Yahweh levantaria um ungido a fim de subjugar as nações e 
cumprir Sua vontade. O profeta Jeremias também profetizara que o retorno 
aconteceria. Eugene Merrill salienta: 
Yahweh foi quem deu a Ciro condições para cumprir a missão que lhe 
estava determinada. Isaías falou acerca dele como um “pastor” de 
Yahweh (44.28), o “ungido” que era sustentado pela mão direita de 
Deus, de sorte que tinha poder para submeter as nações (45.1). Seria 
ele o homem a quem o Senhor usaria para fazer seu povo voltar e 
reconstruir sua cidade e templo. [...] Tanto o cronista (2 Cr 36.22,23) 
como Esdras (1.1-4) interpretam o decreto como um cumprimento da 
palavra do profeta Jeremias e reafirmaram que fora Yahweh, e não 
Marduque, quem inspirou Ciro a tomar esta nobre medida. Mas não se 
pode ler no texto que Ciro tenha se tornado um adorador de Yahweh. 
Ele não era mais adorador de Yahweh do que Nabucodonossor havia 
sido, quando exaltou Yahweh perante Daniel. Ambos eram sincretistas 
que buscavam razões políticas para aceitarem seus novos deuses em 
seus respectivos panteões. Não é possível negar, entretanto, que 
ambos estavam sob controle do Deus soberano dos céus e da terra, 
que os usou, soubessem ou não, para cumprir os seus santos 
propósitos.16 
Em suma, o Rei supremo governa a história de acordo com seus desígnios, 
remove e estabelece autoridades da forma que lhe apraz. Bruce Waltke descreve 
este momento da história da redenção: 
No passado, EU SOU usou as nações para disciplinar Israel (1Cr 5.26; 
2Cr 21.16; 36.17; Is 5.26-30; 7.8-19; 10.5; 45.1-9, esp. v.7; Os 10.10; 
Am 6.14), mas agora, por sua graça soberana, ele as usa para a 
restaurar a nação. A motivação de Ciro não é teológica, mas política 
(cfIs 45.1-4). Mesmo assim, todo o poder do mundo político está sob o 
governo de Deus, que fielmente preserva seu povo para servir aos 
propósitos divinos. Deus não havia se esquecido de Israel. O teólogo 
que escreveu Esdras-Neemias identifica o Deus que Ciro chama de 
“Deus do céu” como o Deus de Israel, EU SOU. Quanto ao regresso 
propriamente dito (Ed 1.5-11), o pensamento que se vê na expressão 
“todos aqueles cujo espírito Deus havia despertado” forma par com a 
 
16Idem. p. 522. 
graça soberana. Deus capacita as pessoas a dizerem “amém” para a 
oportunidade divina de regressar ao lugar onde ele está presente de 
modo único. EU SOU é a força motivacional derradeira que capacita 
as pessoas a guardar a aliança. Não existe redenção sem a 
regeneração operada por Deus.17 
IMPÉRIO ROMANO: INSTRUMENTO PARA A PROPAGAÇÃO DO 
EVANGELHO 
Na carta Aos Gálatas, o apóstolo Paulo usa o termo “a plenitude dos 
tempos” (Gl 4.4), apontando justamente para a ideia de que Cristo Jesus veio ao 
mundo quando o ambiente – seja ele cultural, histórico ou político– estava 
plenamente preparado para recebê-lo. John MacArthur comenta: “No tempo 
designado por Deus, quando as precisas condições religiosas, culturais e 
políticas exigidas pelo seu plano perfeito haviam atingido o auge, Jesus veio ao 
mundo”18. E o Império Romano, maior potência da época, foi também usado por 
Deus para que Cristo encontrasse o ambiente propício a fim de que sua 
mensagem fosse propagada. 
No entanto, o mundo que recebeu Jesus Cristo não foi totalmente 
idealizado por Roma. Alguns elementos essenciais para o estabelecimento da 
mensagem do Evangelho não foram criados e sim herdados (dos gregos). O 
Império Romano tomou posse de uma estratégia bastante eficiente que 
Alexandre, o Grande, havia estabelecido: fundar um poderoso império tendo 
como base a cultura: 
Alexandre morreu na Babilônia aos 33 anos, vítima de uma febre 
tropical. Ário, interpretando a vida de Alexandre, afirmou: “Alexandre 
era diferente de todos os homens, foi dado ao mundo, por especial 
desígnio da Providência”. No seu breve reinado, Alexandre lançou as 
bases de uma nova civilização, que durou muitos séculos depois da 
sua morte. Contribuiu grandemente para o bem da humanidade, e de 
um modo especial para o advento de Jesus.19 
 
17WALTKE, Bruce. Teologia do Antigo Testamento: uma abordagem exegética, canônica e temática. 
São Paulo: Vida Nova, 2015. p. 867. 
18Bíblia de Estudo MacArthur. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010. p. 1592. 
19TSOTSOS, Efstathios. O evangelho na Macedônia: a influência do mundo helenístico para a 
preparação da plenitude do tempo através da profecia de Daniel (Cap. 8-11).Revista Ensaios Teológicos. 
v.2, nº 2, Dez/2016, Faculdade Batista Pioneira. p. 15. 
Ainda acerca da influência grega sobre o Império Romano, dois aspectos 
se destacam como fundamentais: o estabelecimento de uma língua universal e 
o surgimento da filosofia grega. Sobre o grego como língua universal, Earle 
Cairns disse: 
O Evangelho universal precisava de uma língua universal para poder 
exercer um impacto real sobre o mundo. Os homens têm procurado 
desde a torre de Babel criar uma língua universal para que possam 
comunicar suas ideias uns aos outros sem problemas. Assim como o 
inglês no mundo moderno e o latim no mundo medieval erudito, o grego 
tornou-se no mundo antigo, ao tempo em que o Império Romano 
apareceu, a língua universal.20 
Foi por meio desse dialeto que os cristãos foram capazes de se comunicar 
com os povos do mundo antigo, usando-o inclusive para escrever o Novo 
Testamento. Até mesmo os judeus se utilizaram do grego. Em Alexandria, eles 
transcreveram todo o Antigo Testamento para a língua grega, em um documento 
que ficou conhecido como Septuaginta. 
Em continuidade, dissertando sobre a filosofia grega e sua importância na 
história da redenção, Cairns conclui: 
A filosofia grega preparou o caminho para a vinda do cristianismo por 
ter levado à destruição as antigas religiões. Qualquer um que chegasse 
a conhecer seus princípios, fosse grego ou romano, logo perceberia 
que sua disciplina intelectual tornou a religião tão inteligível que a 
acabava abandonando em favor da filosofia. A filosofia falhou, porém, 
na satisfação das necessidades espirituais do homem, que se via 
obrigado então a tornar-se um cético ou a procurar conforto nas 
religiões de mistério do Império Romano. À época do advento de 
Cristo, a filosofia descera do ponto elevado que alcançara com Platão 
para um sistema de pensamento individualista egoísta, como é o caso 
do Estoicismo ou do Epicurismo. Na maioria dos casos, a filosofia 
apenas aspirava por Deus, fazendo dEle uma abstração; jamais 
revelava um Deus pessoal de amor. Este fracasso da filosofia do tempo 
da vinda de Cristo tornou as mentes humanas prontas para entender 
 
20CAIRNS, Earle E. O cristianismo através dos séculos: uma história da Igreja cristã. São Paulo: Vida 
Nova, 1995. p. 32. 
uma apresentação mais espiritual da vida. Só o cristianismo pode 
preencher o vazio na vida espiritual de então. 21 
Contudo, talvez não tenha sido essa a contribuição mais valiosa da filosofia 
grega para o mundo antigo a fim de que recebesse o Evangelho de Jesus. Cairns 
também pontua a relevância da ideia de eternidade concebida pelos gregos: 
A outra forma pela qual os grandes filósofos gregos ajudaram o 
cristianismo está ligada ao fato de chamarem a atenção dos gregos 
para uma realidade que transcendia o mundo temporal e visível em que 
viviam. Tanto Sócrates quanto Platão ensinaram, cinco séculos antes 
de Cristo, que este presente mundo temporal dos sentidos é apenas 
uma sombra do mundo real em que os ideais supremos são ao mesmo 
tempo abstrações intelectuais, o bem, a beleza e a verdade. Insistiam 
que a realidade não era temporal e material, mas espiritual e eterna. 
Sua busca pela verdade jamais lhes conduziu a um Deus pessoal, mas 
evidenciou que o melhor que o homem deve fazer é buscara Deus 
através do intelecto. O cristianismo ofereceu a este povo que aceitava 
a filosofia de Sócrates e Platão, a revelação histórica do Bem, da 
Beleza e da Verdade na pessoa do Deus-homem, Cristo. Os gregos 
aceitavam a imortalidade da alma, mas não tinham lugar para a 
ressurreição do corpo. 22 
Esses elementos intelectuais oriundos da cultura grega permaneceram 
durante o Império Romano, que, por sua vez, inseriu novos elementos ao quadro 
histórico da época. Dois deles serão aqui examinados. O primeiro diz respeito 
justamente à facilidade logística para locomoção no mundo antigo: 
Os romanos criaram um ótimo sistema de estradas que iam do marco 
áureo no fórum a todas as regiões do Império. As estradas principais 
eram de concreto e duraram séculos. Elas passavam por montes e 
vales até chegarem aos pontos mais distantes do Império; algumas 
delas são usadas até hoje. Um estudo das viagens de Paulo indica que 
ele se serviu muito deste ótimo sistema viário para atingir os centros 
estratégicos do Império Romano. As estradas romanas e as cidades 
estrategicamente localizadas às margens dessas estradas foram uma 
ajuda indispensável na concretização da missão de Paulo. 23 
 
21Idem. p. 33. 
22Idem. 
23Idem. p. 30. 
Não obstante, o Império Romano trouxe um senso de unidade política sem 
precedentes por meio da lei romana – o que seria o segundo elemento 
intelectual. Cairns descreve: 
Os romanos, como nenhum outro povo até então, desenvolveram um 
sentido da unidade da espécie sob uma lei universal. Este sentido da 
solidariedade do homem no Império criou um ambiente favorável à 
aceitação do Evangelho que proclamava a unidade da raça humana, 
baseada no fato de que todos os homens estavam sob a pena do 
pecado e no fato de que a todos era oferecida a salvação que os integra 
num organismo universal, a Igreja Cristã, o Corpo de Cristo.[...] 
Nenhum império do Antigo Oriente Próximo, nem mesmo o império de 
Alexandre, tinha conseguido dar aos homens um sentido de unidade 
numa organização política. A unidade política seria a contribuição 
particular de Roma. A aplicação da lei romana aos cidadãos de todo o 
Império era imposta diariamente a todos os cidadãos e súditos do 
Império pela justiça imparcial das cortes romanas. [...] A lei romana, 
com sua ênfase sobre a dignidade do indivíduo, e no direito deste à 
justiça e à cidadania romana, além de sua tendência a agrupar homens 
de raças diferentes numa só organização política, antecipou um 
Evangelho que proclamava a unidade da raça ao anunciar a pena do 
pecado e o Salvador do pecado. 24 
O próprio apóstolo Paulo usufruiu desse fato, pois foi por uma ramificação 
da lei romana que ele se constituiu cidadão romano mesmo sendo judeu de 
nascimento. 
O poderoso Império Romano, portanto, também foi um instrumento nas 
mãos de Deus. A autoridade que alcançaram emanava, em última instância, 
Dele, que é soberano sobre tudo e todos. Por mais que pensassem estar no topo 
do mundo e se julgassem invencíveis em dado momento, não passavam de uma 
nação pagã agindo debaixo da permissão de Deus, para Sua honra e glória– o 
que foi afirmado por Cairns: “Este povo, seguidor do caminho da idolatria, dos 
cultos de mistério e do culto ao imperador, foi então usado por Deus, a quem 
ignoravam, para cumprir a sua vontade”25. 
 
24Idem. p. 29,30. 
25Idem. p. 29.

Mais conteúdos dessa disciplina