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O NOME PESSOAL DE DEUS 
 
O texto base do presente módulo tem por objetivo explorar exegeticamente a 
origem, o significado e a relevância do nome pessoal de Deus, com ênfase em 
uma análise histórica, gramatical e teológica. 
O nome de Deus tem muita relevância, pois a partir dele podemos extrair muitas 
informações acerca de Seu caráter. Antes de tudo, porém, é necessário que 
estabeleçamos a diferença entre as concepções antiga e moderna acerca do 
significado de um nome e o peso que ele tinha para quem o carregava. Em 
nossos dias o nome é um mero título distintivo, que nos identifica e diferencia de 
outras pessoas. Essa realidade afeta até mesmo a escolha dos nomes, que é 
feita ora por sua beleza fonética ou gramatical, ora em homenagem a uma 
pessoa bastante admirada por quem está determinando o nome. São poucos os 
que hoje se preocupam com a etimologia dos nomes. 
 No Antigo Oriente Próximo não era assim. O nome não só identificava e 
diferenciava o seu portador, como revelava o seu caráter, sua natureza, seu 
destino e suas expectativas de vida. Um dos teólogos mais respeitados do século 
XX, o alemão Gerhard Von Rad, em sua monumental obra “Teologia do Antigo 
Testamento”, dá testemunho acerca dessa realidade quando escreve que na 
concepção antiga “o nome contém uma expressão da natureza do seu portador 
ou, pelo menos, de algo do seu potencial inerente”. 
Como não se recordar de personagens bíblicos que tiveram seus nomes 
alterados justamente para expressar a definição de um novo propósito de vida? 
Em Gênesis 17, por exemplo, Deus muda o nome de Abrão para Abraão, “porque 
por pai de muitas nações te tenho posto” (Gn17.5). “Abraão” significa literalmente 
“pai de muitas nações”. Deus não escolheu o nome do patriarca por beleza 
fonética ou gramatical. O ser de Abraão estava intimamente ligado ao seu nome, 
que define precisamente quem ele é: pai de muitas nações, dentre as quais, a 
nação de Israel. 
Cientes da importância e do peso do nome para os hebreus, vamos examinar o 
nome do próprio Deus, na expectativa de conhecermos mais sobre Ele. Afinal, 
aprender o nome de alguém é entrar num relacionamento com o próprio ser 
dessa pessoa. 
Folheando as páginas da Bíblia, perceberemos que Deus é conhecido e 
invocando por alguns nomes ao longo do Antigo Testamento. Entretanto, não há 
dúvida de que o nome que melhor expressa o caráter de Deus é Yahweh, ou 
Javé em português. Ora, foi por esse nome que Deus se revelou, numa 
passagem muito especial, quando convocou e vocacionou Moisés para ser o 
libertador do povo de Israel, que padecia sendo escravizado no Egito, em Êxodo 
3-4. Moisés, diante do chamado que recebera, indaga Deus perguntando: “Eis 
que quando eu for aos filhos de Israel, e lhes disser: O Deus de vossos pais me 
enviou a vós; e eles me disserem: Qual é o seu nome? Que lhes direi?” (Êx 3.13). 
Deus responde àquele que viria a ser o maior profeta de Israel, revelando o seu 
nome próprio. Para esse nome, o nome pessoal de Deus, daremos especial 
atenção neste capítulo. 
Antes da teofania da sarça ardente e de se tornar a divindade nacional de Israel, 
Deus deu aos patriarcas a honra de estar ligado a eles, e era, até então, assim 
que se apresentava (Gn 26.24/28.13/31.42). Mesmo em Êxodo 3, Deus, antes 
de revelar seu nome, se apresenta como “o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, 
o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó” (Êx 3.6). Por isso que quando pensamos 
acerca do nome de Deus a passagem da sarça ardente é tão especial, ela 
apresenta uma mudança de paradigma, nela Deus revela o nome pelo qual mais 
seria identificado no Antigo Testamento (Yahweh aparece cerca de 6700 vezes). 
Ademais, esse seria o nome de Deus na aliança: 
 
A apresentação que Deus faz de si mesmo como o “Deus de seu pai” 
sugere que o conceito de divindade protetora talvez ainda fosse a 
compreensão mais precisa que os israelitas tinham de Yahweh. Esse 
título deixa de ser usado assim que Yahweh se torna a divindade 
nacional do Sinai. Também serve para identificá-lo como o Deus da 
Aliança. (Walton, Chavalas, Matthews- pág 99) 
 
ANÁLISE HISTÓRICO-GRAMATICAL 
 
É surpreendente olharmos para a história e percebermos quantos relatos, nos 
quais temos acesso, foram preservados no documento conhecido como Bíblia 
Sagrada. Textos que sobreviveram às perseguições, à precariedade e ao tempo, 
irrompendo milênios chegando até nossos dias. Entretanto, uma coisa não foi 
preservada, e por isso é objeto de intensas discussões e especulações: a 
pronúncia do nome pessoal de Deus. 
Há uma explicação razoável para isso. O nome de Deus, originalmente, era 
formado somente por consoantes, isto porque o alfabeto hebraico é 
consonântico. Assim sendo, o nome próprio de Deus, tal como está escrito, é 
YHWH (יהוה). Este nome, formado por quatro letras, deu origem ao termo 
“tetragrama sagrado”. Ao longo dos anos, muitos tem tentado descobrir a 
pronúncia correta do tetragrama sagrado que designa o nome do Deus de Israel. 
Thomas Römer, experiente exegeta suíço, fala no livro em que se propõe a 
estudar sobre o assunto acerca de uma técnica criada para tentar resolver o 
mistério e evitar que outros como esse surgissem: 
 
Somente mais tarde, entre os séculos III e X da era cristã, é que, para 
garantir a boa pronuncia dos textos sagrados, sábios judeus, 
chamados de massoretas, palavra que significa “guardiões”, 
elaboraram vários sistemas de vocalização, um dos quais — o da 
família de Ben Asher — finalmente se impôs. Assim os escribas 
dispuseram de um sistema bastante sofisticado para vocalizar um texto 
que só comportava consoantes. (Römer- pág 34) 
 
Nasce, então, no judaísmo o sistema de vogais que ajudaria consideravelmente 
na pronúncia das palavras. É composto, em sua maioria, por pequenos pontos, 
facilitando assim a sua inserção no texto constituído somente por consoantes. 
Römer prossegue desenvolvendo a temática ilustrando de forma muito didática 
a mecânica do uso das vogais, após a sua criação: 
 
Para ilustrar esse procedimento, imaginemos uma palavra escrita grçn. 
Advinha-se facilmente que se trata de “garçon”, e pode-se representar 
o acréscimo das vogais pelos massoretas assim g a r ç o n. (Römer- 
pág 34) 
 
Contudo, o alfabeto hebraico ser formado apenas por consoantes e as vogais 
terem surgido em um período bem posterior não explicam plenamente a perda 
da pronúncia do nome de Deus, visto que o Senhor o pronunciou a Moisés, 
Moisés ao povo, e assim sucessivamente. A tradição oral seria suficiente para 
transpor a barreira do alfabeto consonântico. Porém, a tradição oral, praticada 
de forma tão eficiente pelos judeus, também não preservou a pronúncia. O 
motivo é simples, um dos mandamentos do decálogo é: “Não tomarás o nome 
do Senhor teu Deus em vão” (Êx 20.7), os judeus, então, por temor, foram 
deixando progressivamente de falar o nome de Deus e a pronúncia perfeita se 
perdeu. 
A solução desenvolvida pelos massoretas foi criativa e um tanto quanto 
exagerada. Eles uniram as vogais da palavra adonây (Senhor), que teve a sua 
pronuncia preservada, com o tetragrama sagrado YHWH. O resultado dessa 
combinação se faz presente em nossos dias: 
 
A tentativa errônea que resultou de se pronunciar Yhwh utilizando as 
vogais de substituição de adonây, combinadas pelos massoretas com 
o tetragrama, produziu uma pronúncia que o dominicano Raimundo 
Marti, no século XIII, expressou como yêh(o)wâh. Essa forma se 
difundiu enormemente em certas traduções bíblicas até as 
“Testemunhas de Jeová”. (Römer- pág 35) 
 
Como podemos ver, a linha de pensamento que defende “Jeová” como sendo a 
verdadeira pronúncia do nome de Deus deriva de uma combinação entre 
palavras que não estão gramaticalmente relacionadas. São apenas termos 
usados em situações diferentes para se referirem ao mesmo sujeito: Deus. 
Entretanto, uma outra vertente, que inspira mais confiança, sugerea pronúncia 
do nome de Deus como sendo “Yahweh”, baseando-se nas antigas 
transliterações que os gregos fizeram de textos judaicos, em que a pronúncia 
ainda não havia se perdido. Luiz Sayão, hebraísta e teólogo brasileiro, concorda 
com essa posição. Sayão proferiu uma palestra muito rica e elucidativa sobre o 
tema que pode ser encontrada facilmente na internet. É essa linha de 
pensamento que temos adotado nesta obra por ser ela mais segura. 
Não obstante, mais um fator que dificulta o acesso da igreja de hoje ao nome 
pessoal de Deus, que é a substituição escrita, também motivada pelo extremo 
respeito fundamentado no decálogo. No judaísmo adonây (Senhor) e ha šhem 
(o Nome) eram as palavras comumente usadas no lugar de Yahweh. A 
esmagadora maioria das traduções feitas para a nossa língua insere a palavra 
“SENHOR” sempre quando aparece a palavra Yahweh, a caixa alta é justamente 
para diferenciar a palavra de adonây, que significa literalmente “Senhor”. Uma 
exceção é a Bíblia de Jerusalém, que traduz o tetragrama por “Iahweh”. Nossa 
tradução é muito influenciada pela Septuaginta , que traduz o nome de Deus por 
kύριος (kyrios), que, por sua vez, significa “Senhor”. Pelo que já foi dito e 
percebido, fica claro que não é a melhor das traduções. 
 
 
ANÁLISE TEOLÓGICA 
 
Em continuidade, após breve análise histórica e gramatical, analisaremos o 
nome de Deus teologicamente, isto é, o que ele representa sobretudo no 
contexto de revelação de Êxodo 3. 
Uma boa maneira de entendermos a mensagem de um texto bíblico é fazendo 
perguntas a ele. Nesse caso a primeira pergunta que devemos fazer é: por qual 
motivo Moisés queria saber o nome de Deus? Essa questão é fundamental para 
nossa compreensão. Pois, numa análise rápida, dá a entender que Moisés 
estava somente curioso ou necessitado do nome de Deus para que pudesse se 
apresentar como um enviado Dele. Todavia, com um olhar mais atento e 
cuidadoso, percebemos que a situação não era essa. 
Como já foi dito, o nome na cultura do Antigo Oriente Próximo representava 
muito. Se Moisés levasse com ele o nome de Deus para sua missão, certamente 
estaria levando mais do que um termo para a sua autenticação, estaria levando 
uma mensagem acerca do caráter, dos propósitos e da natureza de Deus. 
Outro fato que aponta para essa direção é a comprovação de o nome pessoal 
de Deus já ser conhecido desde a época de Sete (Gn 4.25). O teólogo britânico 
R.W.Moberly, que é PhD em Cambridge, interpreta que o autor de Gênesis, 
embora no nível da história tenha consciência de que o Senhor revela pela 
primeira vez seu nome Yahweh a Moisés, no nível do enredo emprega Yahweh 
para insistir que Deus é, na realidade, Yahweh. Do outro lado do globo, o teólogo 
americano Bruce Waltke, PhD em Havard, discorda de Moberly: 
 
Não é possível negar nem confirmar sua teoria dessa mudança do 
nome divino na passagem da história para o enredo, mas isso me 
parece improvável [...] Se, contudo, o narrador diz que os patriarcas 
adoram a Deus com o nome de YHWH, quando na verdade o adoraram 
por outro nome (Gn 4.26; 12.8), temos diante de nós a questão de sua 
integridade na apresentação da história. Será que ele iria induzir o seu 
público a erro numa questão teológica tão sensível como o nome com 
que alguém adora, sem oferecer nenhum esclarecimento? Em outras 
passagens, quando há mudança de nomes, o texto nos informa acerca 
de tais mudanças (Gn 28.19). Além do mais, o nome da mãe de Moisés 
é Joquebede (yôkebed, Êx 6.20; Nm 26.59), cujo provável significado 
é “Yahweh é glória”. Se for esse o caso, a família de Moisés adorava 
Yahweh antes de Deus revelar seu nome para Moisés. (Waltke- pág 
407) 
 
Como explicar então a revelação formal do nome de Deus em Êxodo 3 diante do 
fato de Yahweh já ter sido conhecido desde a época dos patriarcas? Waltke 
sugere que a chave para se interpretar a passagem se encontra na pergunta de 
Moisés. Para ele, o libertador de Israel não está interessado em conhecer o 
nome de Deus, mas sim significado desse nome. A proposição de Waltke 
encontra apoio não só no contexto cultural da época, em que o significado do 
nome tinha extrema relevância, como também na própria gramática do texto. E 
Deus responde exatamente o que Moisés perguntou, apresentando a etimologia 
de Seu nome. 
Acredita-se que o tetragrama sagrado, o nome pessoal de Deus, seja a 
abreviação de uma sentença. Deus diz a Moisés “EU SOU O QUE SOU” (Êx 
3.14), como resposta à pergunta que o então pastor de ovelhas fizera acerca do 
Seu nome. De modo que no mesmo verso o Senhor diz “Assim dirás aos filhos 
de Israel: EU SOU me enviou a vós”. Waltke salienta: 
 
Deus reduz seu nome-sentença a um único verbo: ’ehyeh (sou/serei). 
No mesmo versículo, Deus muda seu nome abreviado e o altera da 
primeira pessoa (’hyh) para a terceira (yhwh, “EU SOU Me enviou) 
porque a primeira pessoa só é apropriada na boca de Deus, e a 
terceira, na boca de Israel, quando o povo invoca/menciona o nome de 
Deus. (Waltke- pág 412) 
 
Pois bem, uma vez esclarecida a pergunta de Moisés e a resposta de Deus, 
prossigamos para descobrir o conteúdo teológico de ambos. Moisés fugiu para 
Midiã depois de matar um egípcio que estava castigando um hebreu na sua 
frente. Ou seja, ele sabia bem em que situação o povo para o qual ele falaria 
estava. Diante deste cenário, Moisés querer saber o significado do nome de 
Deus faz bastante sentido. Como ele chegaria com um discurso de libertação 
para um povo que padecia centenas de anos na escravidão? Onde estava Deus 
durante esse tempo? Por isso, Moisés enfatiza o povo em sua pergunta “Que 
lhes direi?” (Êx 3.13). Tanto ele quanto o povo precisavam de confiança diante 
de tudo o que estavam padecendo perante a maior potência da época. E o nome 
pessoal de Deus dá exatamente o que estavam precisando: 
 
Em sua função, o nome de Deus dá a entender sua presença 
pragmática. Esse sentido do ser divino pode ser percebido na frase “eu 
sou quem eu sou por você”. A simplicidade de Deus mostra que nele 
não há nem mesmo sombra de mudança. Deus é confiável: podemos 
contar com ele [...] Fortalecido com a confiança na suficiência plena e 
na eficácia de Deus, Moisés está pronto a desafiar o faraó, o qual, no 
mundo de Moisés, é considerado praticamente um deus. Repetidas 
vezes Israel invocará o nome de EU SOU ao confrontar adversários e 
adversidades. A simplicidade não comprometida de Deus garante o 
sucesso da missão de Moisés. (Waltke- pág 414) 
 
Luiz Sayão resume bem o significado do nome pessoal de Deus, “o Auto 
existente”. Yahweh existe por si mesmo, não muda, não se altera, era, é e há de 
ser. Yahweh é o mesmo que prometeu a Abraão que daria uma terra à sua 
descendência; é o mesmo que caminhou ao lado dos patriarcas pacientemente, 
a despeito de suas muitas falhas; é o mesmo que preservou Jacó e sua família 
no Egito, livrando-os da fome, até que se tornassem um povo numeroso. Amor, 
misericórdia, fidelidade, longanimidade... Yahweh engloba todos os atributos de 
Deus e os estende de modo a transcender tempo e espaço, tornando-os eternos. 
Por isso Yahweh é tão especial, não à toa é o nome próprio de Deus, nele Seu 
caráter, natureza e propósitos são revelados. 
Moisés ainda reluta tentando provar que sua incapacidade seria suficiente para 
desqualificá-lo. Era inútil. O êxito de sua jornada dependia tão somente do 
Autoexistente. Depois de ter as suas defesas quebradas pela realidade que 
emana de Yahweh, Moisés pôde partir confiante na libertação de seu povo. Ao 
longo de seu marcante ministério, o libertador experimentaria nas mais variadas 
situações a realidade do significado de Yahweh. 
É simbólico Deus revelar a etimologia de Seu nome exatamente quando a 
jornada do Êxodo, ato fundante de Israel, estava prestes a começar. No mosaico 
da providência não existe coincidência.

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