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Curso: O PAPEL DO PROFISSIONAL DO SUSP NA PROTEÇÃO DA MULHER TURISTA Créditos Presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva Ministério da Justiça e Segurança Pública Ricardo Lewandovisk Secretaria Nacional de Segurança Pública Mario Luiz Sarrubbo Diretoria de Ensino e Pesquisa Michele Gonçalves dos Ramos Coordenação-Geral de Ensino Marcia Alencar Machado da Silva Coordenação Pedagógica Joyce Cristine da Silva Carvalho Coordenação de Ensino a Distância Tainara Leiria da Silveira Gerente de Curso Danilo Bruno Moreira Conteudistas Elisselia Keila Ramos Leão Paes Georgia de Castro Machado Ferreira Juliana Viegas pinto Vaz dos Santos Luci Mônica Moura Ribeiro Rabêlo Sandra Mara Tabosa de Oliveira Revisão Técnica Danilo Bruno Moreira Renata Guilhões Barros Santos Revisão Textual Maria Aparecida de Barros Revisão Pedagógica Evania Santos Assunção Motta Programação e Edição Erick Tiêgo de Araújo Pessoa Atila Vinicius Oliveira Rocha Design Gráfico e Instrucional Sabrina da Silva Carneiro O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista Sumário MÓDULO 1: Turismo, que setor é esse? MÓDULO 2: Mulheres, segurança e turismo: uma relação virtuosa MÓDULO 3: Direito das mulheres, direito para mulheres APRESENTAÇÃO Objetivos do Curso Estrutura do Curso Aula 1 - As interfaces do turismo no Brasil e no mundo Aula 1 - Segurança turística - um conceito Aula 1 - Refletindo sobre o conceito de violência Aula 2 - Policiamento orientado para o turismo Aula 2 - Mulheres e viajantes: questões de segurança Aula 2 - Gênero e sexo: qual a diferença? Aula 3 - A polícia do turista Aula 3 - A violência de gênero na agenda global Aula 4 - A pauta local: normalizações nacionais Aula 5 - Feminícidio no Brasil p 05 p 10 p 12 p 32 p 56 p 82 p 57 p 65 p 70 p 83 p 87 p 90 p 94 p 99 p 09 p 09 O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista Sumário MÓDULO 4: Técnicas de entrevista e abordagem: melhores práticas Aula 1 - Importância e características de uma entrevista investigativa Aula 3 - Organizando uma entrevista investigativa Aula 2 - O papel da memória: recuperação, contaminação e processos de escuta e condução da entrevista Aula 4 - A entrevista investigativa do início ao fim Aula 5 - Um retrato da violência contra a mulher no Brasil e a abordagem de turistas mulheres REFERÊNCIAS PORTAIS PARA CONSULTA O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista p 106 p 108 p 115 p 132 p 137 p 142 p 147 p 153 “Sentir medo antes de viajar sozinha sendo mulher é quase que um sentimento obrigatório. O mundo não é um lugar muito divertido para ser mulher. É impossível não ter medo. Eu não lembro de ter feito alguma viagem que eu não senti um pouco de medo e insegurança, porque a gente tem exemplos no dia a dia que mostram que é muito perigoso.” (Camille Carboni, de 26 anos) Apresentação Sejam bem-vindos(as) ao curso que irá discutir “O Papel do Profissional do Susp na Proteção da Mulher Turista”. Este curso possui 60 horas, divididas em 4 módulos. Antes de iniciar os estudos, leia o depoimento a seguir: O trecho acima¹ reflete um sentimento que aflige grande parte das mulheres turistas ao redor do mundo e, no Brasil, essa preocupação assume contornos ainda mais preocupantes. (A reportagem completa você confere aqui: ) Infelizmente, denúncias envolvendo crimes praticados contra mulheres que viajam sozinhas, ou acompanhadas de outras mulheres, no Brasil não são raras e revelam um triste cenário. O medo e a violência nesse contexto geram consequências que ultrapassam a fronteira da segurança pública e impactam a imagem do país, prejudicando negócios e investimentos, podendo afetar, inclusive, a relação do Brasil com outras nações. ¹ A reportagem completa você confere aqui: bit.ly/3XCYpEU (Caroline Oliveira - Brasil de Fato | São Paulo -SP | 12 de janeiro de 2024 às 17:44) Figura 1: Os perigos para a mulher turista no Brasil Fonte: Brasil de Fato (2024) bit.ly/3XCYpEU O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 05 A partir do que foi apresentado, responda: você compartilha da sensação de insegurança ao viajar pelo Brasil desacompanhada(o) ou na presença de pessoas do mesmo sexo? Inclua em sua reflexão o seguinte questionamento: Homens e mulheres sentem as mesmas preocupações e correm os mesmos riscos ao realizar viagens nas mesmas condições? O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 06 Figura 2: Turismo e Segurança de Mulheres no Brasil Fonte: O Globo (2024) Abaixo, mais uma reportagem que pode auxiliar na busca por respostas às questões apresentadas. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 07 Figura 3: Turista estrangeira denuncia estupro coletivo Fonte: Agência Brasil (2024) Diante dos casos apresentados, pergunta-se: Estão os agentes de segurança pública preparados para atuar na proteção das mulheres turistas no Brasil? O Brasil, em termos de segurança e proteção de turistas, ocupa a 124ª posição nos Índices de Competitividade Mundiais sobre Segurança (T&T), dado do Fórum Econômico Mundial de 2019. Ou seja, é um requisito indispensável para a ampliação e melhoria das atividades turísticas no país e essa preocupação ganha ainda mais relevância quando envolve turistas mulheres, quer sejam acompanhadas ou sozinhas. Pesquisa realizada pela Global Solo Trave Study, apontou que 80% de todas as decisões em relação a viagens, como planejar e reservar, são tomadas pelas mulheres. A consulta ainda indicou que, por ano, elas representam mais de 60% dos viajantes em todo o mundo. Além disso, apontou que a maior plataforma de reserva de hotéis online no país destacou que mais de 20% das vendas realizadas no período do carnaval em 2023 foram para mulheres viajando sozinhas. O ranking Women’s Danger Index (Índice de Perigo para as Mulheres) divulgado em 2019, pelo blog Asher & Lyrics, identificou os países mais perigosos para mulheres que viajam sozinhas, considerando 50 dos países que mais recebem turistas internacionais. Nesse cenário, o Brasil foi classificado como o segundo país mais inseguro do mundo, ficando atrás apenas da África do Sul. O ranking desenvolvido pelo blog utilizou 8 fatores, aplicando maior relevância aos índices de “Segurança para caminhar na rua à noite” e “Intenção de homicídios para mulheres”, dois quesitos em que o Brasil ficou expressivamente mal posicionado. Além da capacidade de prevenir crimes e a possibilidade de uma pronta-reação frente a ocorrências contra viajantes, a conscientização e qualificação dos agentes estatais podem determinar a escolha do destino, principalmente entre turistas mulheres e, nesse sentido, dispor de instituições capacitadas para atender as necessidades desse público, evitando e mitigando os danos decorrentes de tais práticas é fundamental para a expansão do turismo no país. Dessa forma, em busca de promover uma segurança qualificada, com foco na proteção da mulher turista e na identificação de lacunas que permitam o aprimoramento do profissional do Sistema Único de Segurança Pública (Susp), o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) oferta em parceria com a Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur) a presente capacitação, que possui carga-horária de 60 horas e busca fortalecer as instituições de segurança pública, ampliando os meios de enfrentamento à violência de gênero no país. Vamos nessa?! Bons Estudos! O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 08 A cada 24 horas, ao menos 8 mulheres são vítimas de violência no Brasil². O número é surpreendente e pode ser ainda maior, o que torna evidente que se trata de um grupo que requer medidas urgentes de proteção. A segurança à mulher viajante assume papel de destaque no turismo, sobretudo entre aquelas que provêm de outros países, sendo, por vezes, considerado fator crucial para a escolha do destino. Visto isso, o que os dados acimaNós argumentamos que esse não seria o caso porque estávamos obedecendo o horário previsto e iniciou-se uma discussão verbal. O guia enraivecido partiu para cima de mim e desferiu vários tapas e ainda, nós ouvimos dizer que ele iria pegar uma arma, fato que não ocorreu e nós saímos correndo do hotel, com medo, e registramos a ocorrência na Delegacia de Polícia.” (Josefa Monteiro) Do relato acima, qual a reflexão que você faz a respeito? Na sua opinião, o que faltou para que essa ocorrência não acontecesse e dentro do que você já estudou nesse curso? Quais as medidas o agente de segurança deveria proceder ao tomar conhecimento desse caso? Apropriação Indébita: A apropriação indébita ocorre, por exemplo, quando a turista desembolsa o valor da viagem antecipadamente, e por alguma razão não pode realizar a viagem e ao solicitar o reembolso, dentro da previsão contratual estipulada, não recebe o valor estipulado e pago, ou ainda quando, por exemplo, a agência de viagem recebe o dinheiro das pessoas que irão viajar em excursão e por alguma razão a excursão não ocorre e a mesma não reembolsa o valor pago pelas pessoas que contrataram o serviço, observando o que foi estipulado contratualmente entre as partes. Extorsão: No que diz respeito ao crime de extorsão, veja a matéria que foi publicada no dia 25/01/ 2024, no qual a PF e a PRF identificaram suspeitos de extorsão a turistas. Segundo a referida matéria, suspeitos se passaram por falsos guias de turismo ou por representantes de estabelecimentos comerciais, para abordar turistas na entrada e saída do país. Os turistas foram vítimas de extorsão quando regressavam do Paraguai. Ao passar pela aduana, foram abordados por motociclistas, que se passavam como guias, perdendo todo dinheiro que possuíam. Link da matéria PF e PRF identificam suspeitos de extorsão a turistas: Matéria PF e PRF O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 53 Assédio: Frequentemente, chegam às Delegacias Especializadas de Proteção ao Turista a notícia de reclamação dos mesmos em relação ao assédio praticados tanto por guias turísticos, como por ambulantes e demais vendedores das diversas localidades. O Ministério da Defesa define assédio sexual toda conduta indesejada de caráter sexual que restrinja a liberdade sexual da vítima. Nesse sentido, pode ser manifesta fisicamente, por palavras, gestos ou outros meios, propostas ou impostas a pessoas, contra a sua vontade, causando-lhe constrangimento e violando a sua liberdade sexual. De acordo com o Código Penal Brasileiro, art. 216-A, o assédio sexual é o crime de constranger alguém com intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente de sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de cargo, emprego ou profissão. Com relação às mulheres turistas, não raramente há ocorrências relacionadas ao assédio sofrido pelas mesmas e é preciso deixar claro que não é necessário que a conduta tenha sido reiterada, para ser configurado o assédio sexual, haja vista, que um único ato pode ser suficientemente grave para atingir a honra, a dignidade e a moral da mulher. art. 216-A Insinuações explícitas ou veladas de caráter sexual; Gestos ou palavras escritas ou faladas de duplo sentido que constranjam sexualmente outra pessoa; Conversas indesejadas, impertinentes e ofensivas de conteúdo sexual; Narração de piadas ou uso de expressões impertinentes de conteúdo sexual que ofendam a dignidade; Contato físico de forma não razoável, que tenha cunho sexual; Convites impertinentes e desarrazoados; Solicitações de favores sexuais, entre outros. Condutas que podem ser classificadas como assédio sexual: O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 54 Acesse a matéria: SAIBA MAIS Assédio Sexual Diante disso, inserem-se os comentários de cunho sexual, os avanços físicos, a “brincadeira” que invade a intimidade, a perseguição, tudo isso gera insegurança nas mulheres turistas e demonstram que é preciso que políticas públicas de orientação, claras e eficazes, como propagandas instrutivas e mesmo as ações dos agentes de segurança que se deparam com esse tipo de ocorrência, que tais medidas sejam tomadas com eficiência para que tais ocorrências sejam menos frequentes. O assédio tem efeitos devastadores, causa danos psicológicos e pode gerar depressão, ansiedade e estresse. É importante que o agente Susp esteja preparado para oferecer apoio emocional e saiba encaminhar tais denúncias para as autoridades legais responsáveis. Veja o caso ocorrido em Mato Grosso do Sul, onde um guia foi preso, após a turista denunciar abuso sexual em passeio turístico. Segundo a jovem turista, o guia tocou em suas partes íntimas durante o passeio de flutuação em rio e ele foi preso em flagrante. Matéria G1 Matéria Band O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 55 É importante destacar o papel da denúncia como meio de proteção e repressão ao crime de assédio sexual praticado em face da turista mulher. O assédio também pode se manifestar, não apenas de forma sexual, mas também referente à invasão de privacidade das mulheres turistas, através das abordagens excessivas dos ambulantes para venda de seus produtos, gerando desconforto nas mulheres que se sentem, por vezes, invadidas em seu espaço e coagidas a comprarem, mesmo sem querer, o que lhes é ofertado. Acompanhe a matéria que saiu na Band Bahia Oficial. Assédio a turistas: insistência de ambulante incomoda – Band Cidade, (clique no link a seguir): Em sua opinião, como deve proceder o policiamento turístico no caso de uma turista denunciar assédio sexual? Ao ver a matéria acima, você se sentiria incomodado/a com o assédio dos ambulantes e vendedores? De que forma tal fato poderia ser evitado? Em sua opinião, você acha que essa é uma questão regional ou acontece em todo país? PARA REFLETIR O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 56 MÓDULO 2 Mulheres, segurança e turismo: uma relação virtuosa Esse módulo possuirá uma dinâmica diferente. E explicaremos as razões. Durante toda a caminhada empreendida até agora, você teve a oportunidade de discutir questões referentes ao turismo, gênero, violência e mulheres, nas atividades online. Sendo assim, apresentaremos a você a relação existente entre turismo e segurança, já que este último abordará os critérios de seleção dos destinos pelas viajantes. A sensação de segurança exerce, portanto, papel importante nessa decisão, ainda mais, quando pensamos em mulheres. Em mulheres que viajam sozinhas. Contudo, apesar dos tempos terem passado, algumas mulheres, que resolveram viajar sozinhas, sofreram abusos, foram mortas e foram, inclusive, culpabilizadas por tais situações. São esses aspectos que iremos refletir nesse módulo. Pensar sobre a mulher, independente intelectual e financeiramente, que viaja e precisa ter sua segurança assegurada. Por esse motivo, abordaremos o papel da segurança pública nesse cenário. Mas, para tanto, faremos isso, recorrendo a estudos de caso que permitem refletir sobre as ações que podem/devem ser adotadas diante de ocorrências envolvendo mulheres turistas. Isso porque, conforme orienta a Matriz Curricular Nacional para Ações Formativas dos Profissionais de Segurança Pública, precisamos aplicar práticas didático-pedagógicas que impulsionem a formação do profissional reflexivo, capaz de exercitar a meta-reflexão de suas próprias ações. Pedimos ainda que esteja muito atento aos aspectos doutrinários adotados por cada ente de sua federação uma vez que, cada um estabelece seu próprio manual de policiamento. Essa foi, por certo, uma das razões que nos levou a pensar de forma genérica, trabalhando com estudo de caso, sugerindo leituras e dialogando com as ideias. Esse empoderamento não é algo tão novo. Lembremos, então, da viajante Maria Grahan (1782-1842), que em seu diário de bordo descreveu a descoberta do Brasil e a personagem Maria Quitéria. Ela viajou, atravessou os mares em um períodomarcado pela posse de terras e expansão territorial. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 57 Após esses esclarecimentos, podemos iniciar o módulo. Vamos lá, então? Bons Estudos! Compreender o conceito de segurança turística e sua importância no turismo; Explicar a interligação existente entre o turismo a e segurança no processo de planejamento e gestão turística; Identificar percepções de medo, insegurança e vulnerabilidade das mulheres e suas implicações para o turismo; Discutir os fatores que influenciam o medo e a insegurança de mulheres que viajam sozinhas e (ou) acompanhadas; Aplicar estratégias de segurança para atender às necessidades das mulheres no turismo; Promover uma atitude proativa na criação de ambientes turísticos seguros para mulheres; Fomentar a empatia e compreensão sobre as experiências de medo e insegurança enfrentadas por mulheres no turismo. OBJETIVOS DO MÓDULO Este módulo está dividido em duas aulas: Aula 1 - Segurança Turística - um conceito Aula 2 – Mulheres e Segurança Turística Aula 3 – A Polícia do Turista ESTRUTURA DO MÓDULO AULA 1 Segurança turística - um conceito Visando uma melhor apresentação sobre a temática, partiremos do conceito de segurança. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 58 Quando pensamos em turismo, o quesito segurança aparece como aspecto determinante na escolha do produto e do destino turístico (BARRETO, 2005; TARLOW, 2002). Rejowski (1998) nos esclarece que Vemos, portanto, que temas como estabilidade e segurança interferem na imagem do destino, ocasionando uma forte retração turística (BENI, 2004), inibidores do turismo. Em casos delitivos recorrentes, um destino turístico poderá ser considerado inseguro. Por outro lado, é sabido que lugares isentos de práticas terroristas, surtos de epidemias e conflitos belicosos prosperam nessa atividade. De certo modo, a constatação desses fatores influi diretamente nos fluxos e ciclos das demandas turísticas. Para você, caro cursista, o que significa segurança? Diante disso, na sua percepção, o que torna um destino seguro? De que forma a sensação de segurança interfere na escolha do destino? Semanticamente, segurança pode ser compreendida com o ato ou efeito de afastar todo o perigo, segurar, garantir, confiança, tranquilidade de espírito por não haver perigo, indivíduo encarregado da proteção de bens, pessoas, locais públicos e privados. (Michaelis, 2021) a imagem negativa gerada pelos altos índices de violência e instabilidade social costuma influenciar na escolha do destino turístico, levando as agências e os consumidores a evitarem determinados lugares considerados como inseguros. Lembremos o episódio da queda das Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001, na cidade de New York e os atentados ocorridos em Madri, em 11 de março de 2004. Esses eventos revelaram que, mesmo aqueles destinos turísticos tradicionais, detentores até mesmo, de um sistema de segurança avançado, estariam sujeitos às interferências que fogem ao controle. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 59 Os primeiros estudos na área da segurança turística datam do início da década de 90 e ficaram registados numa edição coordenada por Pizam e Mansfeld (1996), intitulada Tourism, Crime and Security Issues. Nesta compilação, os diferentes artigos assinalavam principalmente incidentes ocorridos no Médio Oriente, América Central e do Sul e ainda em alguns países africanos. Estes últimos, centravam-se sobretudo na ocorrência de uma elevada taxa de criminalidade contra turistas. (BRÁS, 2012, p. 73) SAIBA MAIS Sendo assim, é muito pouco provável, a existência de ambientes perfeitamente seguros, ainda mais, quando nos referimos a destinos turísticos. Mesmo que existam controles rígidos de entradas e saídas e o estabelecimento de regras e ações de cunho preventivo e/ou repressivo. Sendo assim, a segurança se tornou cada vez mais importante, tanto para comunidade em geral, quanto para os turistas e/ou viajantes, uma vez que, é uma necessidade básica em todas as atividades humanas, incluindo o turismo. Esta preocupação está ainda bem expressa no intenso debate que envolve o conceito de segurança na contemporaneidade devido a sua amplitude e não unanimidade na significação. Com o mundo em constante mutação, “[....] o conceito de segurança e a forma de a providenciá-la ao nível internacional, nacional e local, tem procurado moldar- se a esta realidade” (ELIAS, 2012, p. 2), já que a Organização Mundial do Turismo (OMT), em 2001, sugeriu que o poder público deve estar orientado para proporcionar o máximo de bem-estar a seus cidadãos, independente de regimes ou das estruturas econômica, política e social. Porém, evidencia-se que a preocupação com a segurança deixou de ser apenas do visitante, do país acolhedor e passou a ser de um conjunto de atores, quer públicos, quer privados. O país que acolhe, acima de tudo, anseia por uma satisfação global dos serviços prestados. O viajante/turista, por sua vez, deseja preservar a sua integridade, e para isso, efetua uma análise e escolha criteriosa do seu destino (PIZAM; MANSFELD, 1996). CURIOSIDADE Qual a diferença entre TURISTA e VIAJANTE? O TURISTA possui um roteiro programado durante a sua viagem. Um cronograma de atividades definidas. ? Diferença entre turista e viajantes O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 60 Já o VIAJANTE não possui um roteiro pré-definida estando sempre à disposição para experiências inusitadas em suas viagens. Para mais detalhes acesse: SAIBA MAIS De acordo com Águas e Brás (2007), o conceito de segurança ampliado ao turismo enquadra-se nos aspetos relacionados com a proteção da vida, saúde e integridade física, psicológica e econômica dos turistas e dos agentes envolvidos na prestação de serviços a esse grupo. Segundo Grunewald (2003), segurança turística refere-se à proteção da vida, da saúde, da integridade física, psicológica e econômica dos visitantes, prestadores de serviço e membros das comunidades receptoras. Atrativos de qualidade infraestrutura; Desenvolvimento tecnológico global; Segurança; Promoções; Distância entre núcleo emissor e receptor; Hospitalidade do núcleo receptor; Política de preços ao turista que evite a exploração. (BARRETO, 1995, p. 68). a) segurança social, assegurando ao turista o direito ao deslocamento sendo protegido contra os problemas sociais, tais como greve, invasões e manifestações; Fatores que motivam o turista a decidir pela escolha de um destino turístico: Fatores que motivam o turista a decidir pela Nesse sentido, conforme esclarece o mencionado autor, esse conceito em uma comunidade envolveria: O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 61 b) segurança médica, assegurando proteção médica durante as viagens e sua permanência no destino; c) segurança informativa, fornecendo informações sobre o destino inclusive, ofertas no/do país; d) segurança econômica, prevenindo riscos de esfera econômica; e) segurança na recreação e em eventos, assegurando proteção que viabilize sua participação em atividades de cunho recreativo ou em eventos programados no destino; f) segurança viária e de transportes, deslocamento seguro entre o local de destino e passeios; g) segurança ambiental, garantindo segurança nos espaços naturais e contra acidentes de ordem climatológica; h) segurança contra incêndios, prevenindo e orientando as pessoas em caso de sinistros; i) segurança contra o terrorismo, estabelecendo planos de contingência e emergência em situações de ameaças consideradas excepcionais; j) segurança dos serviços turísticos, protegendo-os em diversos estabelecimentos; e k) segurança pública, fomentando um sistema que permita o visitante deslocar-se livremente pelo seu destino, com a minimização das possibilidades de conflito principalmente o envolvimento com os delitos ou acidentes. Nesse momento, faremos uma reflexão: Turistas e/ou viajantes possuem direitos,certamente. Mas, será que possuem deveres? Conhecer os costumes locais, procurar informações a respeito das regras e proibições do local a ser visitado, são deveres que os competem. PARA REFLETIR Fonte Fonte O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 62 A insegurança no turismo não é um fenômeno recente. Citamos como exemplo, o atentado nas Olimpíadas de Munique, em 1972. O grupo palestino Setembro Negro promoveu um ataque contra a delegação israelense na Vila Olímpica Podemos citar outro exemplo: o ataque promovido contra turistas, independente da nacionalidade, perpetrado pelo grupo Al-Gama’a al-Islamiya, no Egito, em 1997. O fato ocorreu no templo da rainha faraó Hatshepsut e culminou com a morte de 58 turistas, 3 policiais e 1 guia. VOCÊ SABIA? Tanto que, o Ministério do Turismo (MTur), para os anos de 2022 e 2023, lançou, o programa Turismo Seguro, traçando as diretrizes daquele Ministério, em parceria com outros órgãos, no que diz respeito às ações de segurança no âmbito das atividades turísticas, apontando como eixo a segurança pública. Além disso, conforme quadro abaixo, apresentou um planejamento do seu programa de segurança turística: O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 63 Fonte: Programa Turismo Seguro (pg.45) Desta maneira, não podemos perder de vista a amplitude desse conceito, pois ele perpassa por diversas questões que dizem respeito à locomoção, a segurança pública, à infância protegida, à igualdade gênero, integridade física, à alimentação. Por isso, deve ser compreendido de forma ampla, englobando a segurança dos turistas, dos prestadores de serviços, dos profissionais do turismo e da comunidade local receptora, bem como o combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes na atividade turística. RIO GRANDE DO SUL – Em Porto Alegre (RS), o projeto “RS Seguro” tem como pilares a integração, a inteligência e o investimento qualificado. Estruturada em eixos a ação busca combater o crime; criar políticas sociais preventivas e transversais; qualificar os trabalhadores para um melhor atendimento ao cliente e trabalhar no sistema prisional, tudo isso com foco no turismo. Exemplos de boas práticas: O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 64 SANTA CATARINA – Em Florianópolis, está garantido um “Verão Mais Seguro”. A cidade reforça a segurança dos turistas no verão por meio de diretrizes de segurança, disposição de cartilhas de orientação para os turistas, folhetos turísticos, mapas das regiões turísticas e informações de proteção e defesa civil. O objetivo é agregar conhecimento e segurança para quem visita e para quem mora na capital do estado. RIO DE JANEIRO – No Rio de Janeiro (RJ), o “Programa Expresso Turístico” tem como meta fortalecer o planejamento de segurança em corredores turísticos. Para isso, o programa vai contar com 20 motocicletas e uma equipe de 30 policiais especializados. O trabalho será direcionado a fazer o patrulhamento motorizado na principal via de acesso ao Aeroporto Internacional Tom Jobim (Galeão), e áreas do entorno. MINAS GERAIS – Em Belo Horizonte, o programa “Revive Turismo” conta com ações integradas para propiciar ambientes seguros, valorizando e fortalecendo o turismo e a cultura da região. A intenção do trabalho é mobilizar atores envolvidos com o turismo para que juntos tragam soluções que melhorem a segurança e a qualidade de vida no setor. GOIÁS – Caldas Novas criou a primeira “Delegacia Especializada no Atendimento ao Turista (Detur)” com atuação nas regiões de Caldas Novas e Rio Quente. A delegacia especializada investiga infrações penais em que a vítima é o turista, com exceção de crimes de homicídio. O local também vai desenvolver serviços preventivos e educativos junto ao setor hoteleiro. DISTRITO FEDERAL – Em Brasília, o “Programa Brasília Turismo Acessível” tem como objetivo transformar o Planalto Central em uma referência acessível para todo território nacional. O programa nasceu da ideia de integração com os estados da federação, buscando ligar o país e as pessoas por meio da promoção de espaços mais livres, permeáveis e acessíveis. A ideia é contar com roteiro arquitetônico de turismo acessível e guia religioso de turismo acessível. MARANHÃO – A cidade de Barreirinhas desenvolveu o “Curso de Boas Práticas de Segurança no Turismo (Projeto Turismo Seguro)”. A iniciativa visa capacitar profissionais empreendedores e agentes que atuam na cadeia produtiva do turismo da região dos Lençóis Maranhenses, com foco na segurança turística como critério de qualidade do destino. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 65 CEARÁ – Em Fortaleza, as “Células de Proteção Comunitária” são torres de reconhecimento que auxiliam na preservação e proteção para o enfretamento da violência e insegurança. As torres são responsáveis pelo videomonitoramento com drone e telas com acesso a câmeras instaladas em vários bairros da cidade, causando a ampliação da segurança do turista na região. MANAUS – “Prevenção ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes” é uma das bandeiras carregadas em Manaus para promover um turismo mais seguro. Por lá, são desenvolvidas campanhas para alertar a prática do turismo legal como forma de combater a rede de exploração e abuso de crianças e jovens. Fonte: Segurança Turistica AULA 2 Mulheres e viajantes: questões de segurança Iniciamos essa aula, compartilhando narrativa ocorrida em agosto de 2011, Em Salta, província do norte da Argentina duas turistas francesas, Moumni Houria e Bouvier Cassandre, foram violentadas e mortas, durante suas estadias em Salta, na Argentina. O crime ficou conhecido como o “caso das turistas francesas”. Cassandre Bouvier, de 29 anos, e Houria Mumni, de 24 anos, foram encontradas mortas na última sexta-feira, em uma área de trekking no Monte de San Lorenzo, a 1.600 km de Buenos Aires. A polícia argentina, inicialmente, fez a detenção de um único suspeito - Daniel Vilte, que foi preso na noite de segunda para terça-feira e a única ligação aparente do suspeito com o crime era a compra de uma arma calibre 22, similar à utilizada contra as francesas. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 66 Segundo os resultados da autópsia, quando foram encontradas, as jovens já estavam mortas há 48 ou 72 horas. Os investigadores contam com fios de cabelo e amostras de esperma encontrados no local do crime para poder identificar os autores do crime. As primeiras pistas indicavam que Cassadre Bouvier foi violentada antes de ser assassinada com uma bala na cabeça. A outra jovem, Houria Mumni, teria conseguido resistir à tentativa de estupro e escapar dos agressores, mas acabou sendo abatida com uma bala nas costas. Ela teria agonizado durante horas, antes de falecer. Os familiares das vítimas viajaram para Salta, a fim de conversarem com os responsáveis pelas investigações. Ao mesmo tempo, a embaixada francesa emitiu uma notificação exigindo que as autoridades argentinas empreendessem esforços para finalizar as investigações. Jean Michel Bouvier, pai de uma das turistas francesas mortas na Argentina em julho desse ano, disse ter certeza de que sua filha sofreu o que se pode chamar de "massacre". Bouvier se encontrou com a presidente Cristina Kirchner, a quem pediu para pressionar a justiça argentina a não esquecer o crime. Em Paris, ele publicou uma carta no jornal "Le Monde" pedindo ao governo que elevasse o crime contra mulher ao mesmo nível de crimes contra a humanidade, pelo que ele chamou de "feminicídio". Com o avanço das apurações três residentes e guias foram detidos e privados de liberdade. Durante o transcurso das investigações, especialistas passaram a frequentar diferentes programas para falarem sobre o vínculo necessário entre proteção, risco e turismo, alertando sobre a obrigação do Estado em oferecer segurança aos viajantes estrangeiros. Até pouco tempo, para grande parte da sociedade, a ideia de mulheres viajaremsozinhas era praticamente impensável. No histórico social feminino, muitas mulheres foram condicionadas a se comportarem conforme os posicionamentos dos homens e, até hoje, a liberdade da mulher gera reações negativas. O preconceito apontado para o gênero feminino é gerado pelo sistema patriarcal que ainda reforça os estereótipos com base na raça, cultura, religião ou padrão social. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 67 Segundo Perrot (1991), durante todo o século XVIII, foi se operando uma distinção forte entre o que pertencia à esfera pública e à privada. Com o decorrer da história, marcada por revoluções, essa distinção transformou-se em uma definição de papéis sociais, atreladas ao sexo, que atribuiu funções para homens e mulheres, ou seja, espaço público e doméstico, respectivamente. A valorização da família, centrada da figura do homem, foi importantíssima para este processo, pois a sociedade encontrou nesta organização uma forma de manter a mulher no espaço privado. Hunt (1991) afirma que ao final do século XVIII a mulher é representada como o inverso do homem e passa a ser identificada por sua sexualidade: “O útero define a mulher e determina seu comportamento emocional e moral. Na época, pensava-se que o sistema reprodutor feminino era particularmente sensível, e que essa sensibilidade era ainda maior devido à debilidade intelectual” (HUNT, 1991, p. 50). O discurso dos médicos se uniria ao dos políticos e no início do século XIX as mulheres estariam totalmente relegadas à esfera privada, ao doméstico, tornando-se símbolo da fragilidade que precisava ser protegida e guardada. Outra aliada fortíssima para a consolidação destes ideais foi a religião que, segundo Hall (1991), por meio de vários movimentos em prol da família cristã, elegeu a mulher como célula base do lar. As mulheres estariam condicionadas ao cuidado do lar e dos filhos, protegidas e longe do mundo, visto como perigoso. Você sabia que uma das reinvindicações feministas foi a adoção do policiamento feminino? Tanto que em 1955, na cidade de São Paulo, na gestão de Jânio Quadros, ingressam na atividade policial as primeiras mulheres. E qual seria o papel delas? Acolher, assistir e orientar as crianças, idosos, mulheres e aqueles em situação de vulnerabilidade. Segundo Hilda Macedo, a primeira e única comandante daquele grupamento, as mulheres naquele período eram presas devido a prostituição, infanticídio e furtos. Sendo assim, as mulheres contribuiriam para a manutenção da moral. Sugerimos a leitura de referenciais como Rosemeri Moreira (2017), Andréa Schactae (2006), Marcos Souza (2014), Geórgia Ferreira (2023). VOCÊ SABIA? O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 68 As conquistas alçadas pelo movimento feminista fizeram com que as mulheres adquirissem direitos, não ficando mais submetidas ao pátrio poder que as subjugava ao poder do pai, marido e irmãos. Diante do empoderamento feminino, elas passaram a viajar sozinhas, tanto para lazer, quanto para trabalho. Sendo a segurança turística uma das questões observadas por elas. Cabe aqui trazer um caso emblemático, que ganhou visibilidade internacional e impulsionou o debate sobre a violência de gênero contra mulheres que viajam sem a companhia de homens. As argentinas Maria José Coni, de 22 anos, e Marina Menegazzo, de 21, iniciaram um mochilão pela América do Sul, mas foram assassinadas no Balneário de Montanhita, no Equador. O caso veio à tona em fevereiro de 2016, quando os corpos foram encontrados depois que elas ficaram desaparecidas por alguns dias sem contato com os familiares. O episódio ganhou repercussão em todo o continente e, com a forte pressão social, os assassinos confessaram o crime e foram condenados a 40 (quarenta) anos de prisão, em julgamento ocorrido em agosto do mesmo ano. Os dois homens drogaram, violentaram e mataram as jovens. A cobertura inicial da imprensa na época e a postura das autoridades tanto no Equador quanto na Argentina traziam uma abordagem que buscava culpabilizar as vítimas, justamente por elas terem se aventurado sem a companhia masculina para “protegê-las”. Isto gerou uma hashtag que foi traduzida e ganhou força em países de língua inglesa (#ITravelAlone) e francesa (#JeVoyageSeule). No Brasil, ocorreram mobilizações com a hashtag #QueroViajarSozinhaSemMedo. O mundo é perigoso para as mulheres viajantes/turistas? Ou seria perigoso para as mulheres em qualquer situação, inclusive dentro de casa ao lado de pessoas conhecidas? PARA REFLETIR Turista Argentinas Mortas As vítimas foram culpabilizadas por terem se aventurado sem uma companhia masculina para protegê-las, trouxe a reportagem sobre o caso. Discorram sobre essa afirmação. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 69 Temos claro que a violência de gênero, o feminicídio, a cultura do estupro e outros tantos conceitos que perpassam a autonomia de corpos das mulheres são problemas extremamente complexos e que estão presentes em todos os ambientes (doméstico, trabalho, lazer etc.). De igual modo, também temos claro que existem abordagens que se desdobram, quando trazemos para o foco da reflexão outros elementos como o status social, raça/etnia, que interpolam a violência de gênero para novas perspectivas. A questão de segurança para as mulheres, de maneira geral, é quase uma só: a diferença de gênero. *IMEI é o código de identificação do celular. Com ele em mãos, é possível acessar as configurações do aparelho de forma remota e resolver uma série de problemas com o fabricante ou a operadora. Você também consegue bloquear o smartphone em caso de roubo, furto ou perda e comprovar a propriedade do celular na hora de registrar um boletim de ocorrência. Sendo assim, é importante que nos questionemos quais são as orientações básicas de segurança pública para as mulheres que pretendem viajar? Sempre estar atenta aos pertences pessoais, observando se bolsa, celulares, tablets e outros pertences estão no campo de visão; Ao transportar dinheiro ter bastante cuidado e levar consigo apenas a quantidade que pretende gastar no passeio, evitando levar grandes quantias e preferindo usar cartões de crédito, débito ou mesmo o pix; Ter cuidado com os cartões por aproximação, em festas onde há grande quantidade de pessoas, e antes de sair para as tais festividades copie o número do IMEI* do celular e deixe no hotel ou onde estiver hospedada; Se for pegar algum aplicativo, verificar a rota e se puder compartilhar com alguém conhecido também, será interessante, atinando ainda para a placa e o nome do motorista; Procurar empresas que sejam cadastradas para os pacotes turísticos ou reserva de hospedagem, antes de viajar; Procurar caminhar por lugares iluminados e de grande ou média movimentação e não reagir em caso de assalto; Se for estrangeira, trocar as moedas em casas de câmbio oficiais; Ao sair para os bares e festas locais, ficar atenta ao copo de bebida, não o deixando exposto; Não deixar seus filhos afastarem-se do campo de visão. Aqui elencaremos algumas orientações preventivas importantes, exemplificando: O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 70 Entretanto, muitas pessoas ainda não sabem como acessar o IMEI e é isso que nós vamos explicar neste artigo! Continue lendo e confira o passo a passo. Como consultar o IMEI do celular? Existem muitas maneiras diferentes de consultar o IMEI do seu celular, mas a mais simples delas é através do código universal. Basta abrir o teclado do seu aparelho, como se fosse fazer uma ligação, e digitar *#06#. O código vai aparecer automaticamente na tela. Conseguiu? Agora é só anotar o código em um lugar seguro! Você também pode acessar o IMEI diretamente pelo menu do celular. Mais informações? Clique aqui: https://blog.portoseguro.com.br/imei-o-que-e AULA 3 A polícia do turista Você está iniciando a última aula do módulo e estudará questões relativas à POLÍCIA DO TURISTA. As autoridades públicas e turismólogos têm manifestadogrande preocupação com o quesito segurança, que passou a ser considerado um aspecto fundamental para o ramo do turismo. Infelizmente, a delinquência tem se aproveitado do fato de que o turista, para sua comodidade, e prática intensa das atividades inerentes à busca do conhecimento e do lazer, sempre leva consigo quantias elevadas em espécie e equipamentos valiosos, como celulares. Em regra, nos crimes contra turistas verifica-se que é uma vítima acidental que se encontra “no local errado, à hora errada”, constituindo um alvo fácil. Os turistas são um alvo preferencial porque, de um modo geral, andam com grandes quantias em dinheiro ou outro tipo de valores; são mais vulneráveis no espaço físico e social que não é o seu, com atitudes que o denunciam enquanto turista (ter um carro alugado, usar permanentemente a máquina fotográfica, celulares, consultar mapas, entre outros); apresentam menor probabilidade de reportarem o crime na polícia local; ignoram as precauções normais de segurança; têm dificuldade em identificar os assaltantes ou agressores e raramente regressam para testemunhar em caso de julgamento (OCHRYM, 1990). O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 71 A escolha dos locais que visita conduz a uma maior probabilidade de crime (por exemplo, saídas noturnas para áreas mais movimentadas ou menos policiadas) ligada ao fato de a indústria turística, na forma como se organiza, acaba por criar situações em que os aspetos de segurança são relegados para segundo plano. Os turistas são atualmente alvos preferenciais de grupos, nomeadamente, terroristas, pela representação social e cultural que fazem do país de origem (BRÁS; ÁGUAS, 2007; GLENSOR; PEAK, 2004). O aumento da criminalidade, em alguns destinos está, de uma forma mais profunda, ligado a fatores que se prendem com elevados níveis de desemprego, a falta de qualificação profissional e de oportunidades no mercado de trabalho, ao que se junta a necessidade de manter um status social que se materializa na posse de bens socialmente importantes (roupas de marca, joias, celulares) ou com o consumo de drogas (GRINOLS et al, 2009). Qual o papel da polícia na punição e prevenção à violência contra a mulher? A principal porta de entrada das mulheres vítimas de violências ainda é a Delegacia de Polícia, embora o contato inicial se dê, em sua grande maioria, com a Polícia Militar, pelo telefone 190 ou em casos de prisão em flagrante do agressor. Por isso, as polícias civil e militar possuem papel fundamental na rede de enfrentamento, proteção e punição à violência contra a mulher. Elas devem atuar não só na punição do agressor, mas, principalmente, na prevenção à violência contra a mulher. Somente por meio da educação e da interação das polícias com as comunidades é que será possível desconstituir a cultura da desigualdade do gênero. Como vimos, investir em segurança pública pode aumentar o número de visitantes para os destinos turísticos, pois acredita-se que os turistas antes de visitarem um determinado destino, pesquisam sobre várias questões e entre elas, está: a qualidade da segurança pública, se o índice de criminalidade for alto, os turistas poderão ficar receosos e procurarão outros destinos para visitarem. Prevenção à violência contra a mulher O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 72 A percepção dos turistas nas localidades pode fazer com que eles sintam a necessidade de mais segurança, pois se sabe que, se sentir seguro é uma questão que envolve o nosso psicológico. Se visivelmente as pessoas presenciarem lugares pintados por vândalos, patrimônios públicos degradados sejam ruas, praças e outros bens públicos em má conservação, despertará psicologicamente que é um lugar propício para alojamento de pessoas usuários de drogas e outros delinquentes, pode até ser um local seguro, mas, infelizmente os turistas evitarão visitar, com medo de ser um local perigoso (FERNANDES; LACAY; GANDARA, 2014, p. 4). Sobre os questionamentos acima, é importante destacar que o papel da gestão no planejamento do policiamento de áreas turísticas deve ser realizado de forma intencional, baseado em dados e evidências, utilizando-se da cooperação interagências e da mobilização comunitária. Ademais, é certo que o policiamento de uma área histórica, urbana e com infraestrutura desenvolvida é distinto daquele a ser realizado em praias, ao longo do litoral ou em zonas de mangue, por exemplo. Cada localidade possui sua especificidade e, dessa forma, diferentes modalidades de patrulhamento devem ser desenvolvidas. Portanto, seja ao planejar uma operação, designar o efetivo ou prever um tipo de policiamento, o gestor de segurança deve conhecer o seu público, a origem, os interesses e suas necessidades. Por exemplo: a origem de turistas que viajam para a 3.1 O planejamento do policiamento turístico Como o policiamento turístico deve ser planejado? Você é capaz de identificar as necessidades de policiamento de acordo com a realidade da sua região? Como tem sido a distribuição do efetivo nos pontos turísticos locais? Você consegue identificar as estratégias de policiamento adotadas pela gestão? Como tem sido o emprego dos recursos ao longo dos dias e horários da semana? Existem alternativas e planos de ação para cada época do ano? PARA REFLETIR O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 73 Amazônia, bem como o idioma nativo e o modal utilizado para chegada, são distintos daqueles utilizados pelos turistas que chegam à Bahia, por exemplo. Capacitar policiais para identificar demandas típicas do turista europeu ou norte- americano, por exemplo, é qualificar o atendimento ao turista, contribuindo para a sensação de segurança local e permitir uma proximidade do agente com o viajante. Escolher policiais com fluência em determinados idiomas para o atendimento a turistas que são mais frequentes na localidade, bem como preparar materiais orientativos em língua que seja mais comum dentre os turistas é uma forma de otimizar recursos e tornar a comunicação mais eficiente. Observe que, de acordo com o perfil e época do ano, o gestor poderá adotar um policiamento mais adequado, alinhado à realidade local. Uma das formas de identificar o perfil do turista e as diversas variáveis que o acompanham (idioma, período de viagem, nacionalidade, modal utilizando para chegada – se aéreo ou marítimo, por exemplo) é utilizar o painel de dados disponibilizado pela EMBRATUR. Você sabia que a Embratur tem um portal de dados com informações abrangentes sobre a entrada de turistas internacionais no país? A nacionalidade dos turistas que viajam às Cataratas do Iguaçu, na fronteira brasileira, é diferente do perfil daquele turista que vai ao Rio de Janeiro, em pleno verão. Você é capaz de identificar essas variáveis em sua região? Qual o perfil do turista que chega em sua cidade? Ele é o mesmo ao longo de todo o ano ou varia de acordo com o mês analisado? E o que isso tem a ver com a segurança pública? PARA REFLETIR É por isso que conhecer os dados relacionados ao turismo em sua região é importante! O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 74 A ferramenta disponibiliza levantamentos, com filtros por estado, que informam a antecedência de compra de passagens, a motivação das viagens, o tempo de permanência, aeroporto que foi o portão de entrada e número de conexões até o destino final. A plataforma tem reconhecimento internacional e fornece informações para instituições como a Organização Mundial do Turismo (OMT), a World Travel & Tourism Council e países como Alemanha, Inglaterra, Portugal, República Dominicana e Tailândia. Cada localidade tem suas ações de promoção de destinos e, com esses dados, podem melhorar o planejamento e o resultado das campanhas. Com o painel, a Embratur passa a fornecer informações para que os governos estaduais planejem campanhas mais eficientes de atração de turistas, além de os dados alimentarem o fomento de políticas da própriaAgência para promover o Brasil no exterior. Vejamos, por exemplo, o turismo analisado com os dados coletados por aqueles viajam ao Ceará. Segundo o painel, no primeiro semestre deste ano, 18,38% dos turistas internacionais que viajaram para o estado nordestino compraram a passagem com antecedência de 60 a 89 dias, e apenas 2,87% emitiram os bilhetes faltando quatro dias para o embarque. Além disso, dos turistas que visitaram o estado entre janeiro e junho, 25,32% ficaram de nove a 13 noites. Também são maioria os que voltam para casa após esse prazo: 25,25%. Foi possível saber ainda que 24,53% passaram um total de mais de 22 noites no Brasil, estendendo a viagem para outros destinos. Já em relação às conexões, 34,5% fizeram um voo direto de seus destinos para o estado. E um grupo de 33,15% fizeram uma conexão. Muito provavelmente por Guarulhos (SP) ou Galeão (RJ), que recebem a maioria dos passageiros nesses casos. Turistas internacionais que visitaram o Ceará, este ano, viajaram para o destino a lazer; outros 19,14% foram se encontrar com familiares e amigos; 11,59% estiveram no estado em viagens de negócios e mais 5,93% viajaram com grupos de excursão. Fonte: Chegadas Internacionais Acesse o portal com dados dos turistas no Brasil, onde você poderá consultar os informações de todos os estados para apresentar documentos de inteligência, planejamento de ações e painéis informativos: Painel de Chegadas https://dados.embratur.com.br/ O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 75 SAIBA MAIS 3.2 Atendimento policial no setor turístico Existe uma polícia voltada para atender os turistas? Existe sim. Em diversos locais, há os chamados Batalhões de Policiamento Turísticos, atrelados às Polícias Militares e as Delegacias de Atendimento ao Turista - DELTUR, ligada a Polícia Civil. As delegacias atuam apurando e reprimindo infrações penais praticadas contra turistas. Por sua vez, os batalhões ou polícia turística são unidades preventivas voltadas para atender o turista nacional e estrangeiro, em ocorrências de roubo ou furto, ou até mesmo repassar informações de serviços e produtos relacionados ao turismo, como atrativos turísticos, hospedagens, transportes, bares e restaurantes, entre outros, devido ao crescimento do potencial turístico e ao aumento dos investimentos da iniciativa privada e pública em equipamentos turísticos. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 76 No caso das polícias militares ou guardas municipais, a sua atuação é baseada nos preceitos da prevenção, ou seja, trabalham na garantia da ordem pública, realizando o policiamento ostensivo, principalmente nos pontos turísticos da capital e interior dos respectivos Estados. Sua atuação peculiar é na administração de ocorrências onde estejam envolvidos turistas nacionais e estrangeiros, trabalhando ostensivamente para prevenir possíveis delitos, e atuando também como agentes de informações turísticas, pelo fato de falarem outras línguas. Para isto, a Polícia Turística mantém sempre seus policiais capacitados, com domínio de línguas estrangeiras e conhecimentos técnicos específicos para tal fim. Vimos até agora que essas especializadas cuidam do policiamento voltado para o turista. Os militares e guardas municipais prestam informações e orientações, realizam encaminhamento em casos de furtos e assaltos, e/ou acidentes. Na maioria das ocorrências levam para a delegacia especializada ou central de flagrantes, em finais de semana, para o desfecho ou registro. Nesse contexto, é relevante refletirmos sobre o perfil dos agentes de Segurança Pública que atuam no atendimento ao turista e em especial à mulher turista: Sabemos que é necessário um olhar diferenciado do profissional de Segurança Pública quando o assunto é abordagem e investigação afeta aos turistas. De uma forma genérica, o atendimento ao turista difere dos demais porque sabemos que ele não irá permanecer por muito tempo na localidade e por isso requer uma ação rápida, eficaz e com uso da inteligência policial, utilizando os indicadores de segurança pública como foco de prevenção e ação direcionada. Importante ressaltar ainda, que saber mais de que a língua “mater” poderá ajudar o profissional de segurança na comunicação com o turista estrangeiro. O profissional bilíngue será útil para trabalhar em postos turísticos ou delegacias especializadas de atendimento ao turista, tanto para fornecer informações relevantes, como para dar os encaminhamentos necessários, aos consulados, embaixadas e auxiliar o turista na parte penal também, caso tenha ocorrido algum crime. É necessário ainda que esse profissional esteja preparado para uma abordagem eficiente, no sentido de que se houver algum crime em andamento, sejam movidas as forças de segurança locais para o atendimento rápido, a fim de equacionar a situação e garantir que o criminoso não se evada do local do crime, ainda tendo o olhar e a Atuação: prevenção à delitos envolvendo turistas e atividades de apoio as Unidades Policiais localizadas em áreas turísticas, incluindo aeroportos e em alguns locais, as rodoviárias. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 77 paciência para ouvir a situação relatada pelo turista e dar à mesma a devida importância, encaminhando a situação para a Delegacia a fim de que sejam tomadas as ações investigativas pertinentes. O investimento em um policiamento preventivo de qualidade, com fardamento próprio e veículos caracterizados e condizentes com a localidade turística, como jet skis, quadriciclos, bicicletas, triciclos, além de outros, o investimento em cursos de aperfeiçoamento ao atendimento ao turista, o investimento em cursos de línguas, todas essas ações associadas ao aperfeiçoamento constante da força preventiva de segurança auxiliam o melhor atendimento ao turista. No decorrer de atendimentos, deve-se atentar para as diferenças culturais, normas locais e práticas costumeiras que influenciam na segurança e no atendimento às mulheres turistas. A Instrução nº 3.03.13/2023/CG que regula a atuação da Polícia Militar de Minas Gerais no Policiamento Ostensivo em Áreas Turísticas define como missão geral desses profissionais, proporcionar serviço de segurança Pública a todas as pessoas que visitam, frequentam ou circulam nas áreas de especial interesse turístico, suprindo os anseios apresentados pela população de um policiamento ostensivo qualificado, equipado, e capaz de atender as necessidades desse público, atuando diretamente na prevenção de crimes relacionados a eventos turísticos, em especial crimes contra a pessoa e patrimônio e priorizando as ações de caráter preventivo, de acordo com a filosofia dos direitos humanos, do policiamento comunitário e da especialização no policiamento turístico. Na realização do policiamento de áreas turísticas não deve haver favoritismos, de forma que a execução do policiamento deverá cumprir rotas, consubstanciadas em base estatística de criminalidade e fluxo de pessoas, com vistas a atender toda população envolvida no turismo local, sem qualquer distinção; Em municípios turísticos o policiamento será realizado por policiais militares capacitados e treinados a interagir com o público local e visitante, de forma a promover as liberdades e direitos fundamentais; Em cada viatura policial trabalhará uma guarnição com no mínimo dois policiais, devendo eles estarem aptos a prestar informações, de forma hospitaleira sob pontos turísticos, rede hoteleira, transportes, alimentação, dentre outros, conforme prescreve a diretriz que regula o assunto. Quanto à execução da atuação do Policiamento Ostensivo Turístico, o referido manual preleciona dentre outras ações que: O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 78 Link do Manual sobre Policiamento Ostensivo Turístico Manual sobre Policiamento Mas, voltando a problemática inicial do curso, perguntamos, o que fazer quando a vítima é turista e mulher? Por certo, os encaminhamentosserão os mesmos: atendimento, esclarecimento e registro de ocorrências. Mas, quando for violência? O que fazer? Vamos refletir sobre um caso? História da Débora “Eu tinha saído de casa para visitar uma amiga na Central do Brasil. Era 14h. Eu já estava dentro do vagão do metrô quando um homem entrou e parou na minha frente. Minutos depois ele começou a me encarar. Me encarou tanto que eu fiquei constrangida e me senti invadida. De tempo em tempo, eu o olhava e todas as vezes os meus olhos cruzavam com os dele. Comecei a sentir calafrios. Uma colega entrou no mesmo vagão. Logo me levantei, fui ao lado dela e começamos a conversar. Neste momento, consegui deixar de prestar atenção naquele homem. Achei que tivesse passado. Senti alívio. Chegou a hora de descer. Ele desceu na mesma estação, atrás de mim. Eu parei, fingi que pegava alguma coisa na bolsa, li as placas de saída do metrô (que eu sabia de cor), até que ele passou por mim e começou a subir as escadas rolantes. Tomei outro caminho. Para o meu espanto, ele estava na saída que eu tinha escolhido. Neste momento percebi que poderia ser muito sério. Na tentativa de não cruzar com ele, entrei em uma farmácia. A fila estava enorme, peguei um remédio qualquer. Imaginei que, com mais de 10 minutos na fila, ele iria embora. Eu o vi subir a escada rolante. Dois minutos depois ele estava descendo as escadas e passou ao lado da farmácia. Neste momento, eu estava calma por fora, pensando em estratégias para me livrar dele e em pânico por dentro. Enrolei o quanto pude dentro da farmácia até que ele se distraiu. Eu saí andando rápido e mais rápido ainda subi as escadas rolantes. Saí da estação de metrô e encontrei dois guardas municipais. Felizmente uma era mulher e me deu apoio. Pediu que eu ficasse com ela até me acalmar. Eu chorei de nervoso e pânico. Aquele homem sumiu ileso na multidão”. Fonte: Formação de Policiais Manual de capacitação O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 79 Mas, e quando, a vítima é alvo de violência sexual? E quanto aos crimes cometidos por turistas? Durante a chamada telefônica para a Central 190 - Ao responder a uma chamada - na residência da vítima ou em qualquer outro lugar? Transportando a vítima - Levando a vítima para prestar testemunho na delegacia? Examinando a vítima no Instituto Médico Legal? Mantendo a vítima segura e reduzindo o trauma após o evento? Que tipo de perguntas à polícia deve fazer? Que tipo de evidência é importante reunir e como? Que outras maneiras a polícia poderia ser mais sensível a vítima nas etapas de assistência? Acesse e leia: SUGESTÃO DE LEITURA Bem, em casos que tais, deve-se de igual forma seguir os parâmetros da legislação penal e processual vigente em nosso país, respeitando o princípio constitucional da dignidade da pessoa humana. Em caso de turista estrangeiro, deve-se observar, a princípio o que dispõe o art. 5º do Código Penal Brasileiro, o qual diz que se aplica a Lei Brasileira aos crimes cometidos em território nacional, sem prejuízo de Convenções, Tratados e regras de Direito Internacional. Para efeitos penais da lei vigente em nosso país, consideram-se como extensão do território nacional as embarcações e aeronaves brasileiras, de natureza pública ou a serviço do governo brasileiro onde quer que se encontrem, bem como as aeronaves e embarcações brasileiras, mercantes ou de propriedade privada, que se achem respectivamente, no espaço aéreo correspondente ou em alto mar. Aplica-se ainda a Lei Brasileira aos crimes praticados a bordo de aeronaves ou embarcações estrangeiras de propriedade privada, achando-se em pouso no território nacional ou em voo no espaço aéreo correspondente, ou em porto ou mar territorial do Brasil. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 80 Desta forma, caso um estrangeiro cometa um crime em território nacional, ou em uma de suas extensões, ele deverá ser julgado no nosso país e pela lei brasileira. Tal regra tem as exceções previstas no art. 5º do CPB, quais sejam, as Convenções, Tratados e regras de Direito Internacional). O policial do Susp, ao se deparar um uma situação de crime praticado por estrangeiro, deve imediatamente encaminhar a situação à Delegacia de Polícia, a qual tomará as providências devidas e os encaminhamentos necessários. Para finalizamos o módulo, leia o relato abaixo: Matéria Jusbrasil Para saber mais sobre o assunto, acesse: SAIBA MAIS Turista americana é vítima de estupro coletivo na Índia A mulher de 30 anos foi estuprada por um caminhoneiro e outros dois homens no norte do país Nova Délhi - Uma turista americana foi estuprada por um caminhoneiro e outros dois homens em um estado do norte da Índia, anunciou a polícia local. "A mulher de 30 anos foi violentada na segunda-feira à noite por alguns homens em um caminhão. Eles ofereceram carona e ela aceitou", afirmou à AFP Abhimanyu Kumar, policial do estado Himachal Pradesh. O crime aconteceu em Manali, uma localidade ao pé do Himalaia e a 500 km de Nova Délhi. A vítima passou por exames médicos que confirmaram o estupro, segundo Kumar, e a polícia procura os criminosos. "A mulher não memorizou a placa do caminhão e não entendia o que os suspeitos falavam. Circularam até um local isolado e a estupraram durante quase uma hora", afirmou o policial. Todos os caminhoneiros de Manali receberam a ordem de comparecer à delegacia local. O estupro foi revelado um dia depois da polícia de Calcutá (leste) ter anunciado a detenção de um empresário local como suspeito de ter drogado e violentado uma irlandesa de 21 anos que trabalhava para uma associação de caridade. Violência Sexual O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 81 No dia 16 de dezembro, cinco homens e um menor de 17 anos estupraram, agrediram e torturaram uma estudante de 23 anos em um ônibus. A vítima e o namorado foram jogados do veículo após os crimes. Levada para um hospital de Cingapura depois de passar por várias cirurgias na Índia, a estudante faleceu em 29 de dezembro. O caso provocou uma profunda comoção na Índia. Fonte: Turista americana é vítima de estupro na índia Pensando numa ocorrência policial, em nosso país, se a vítima chegasse até você e relatasse que havia sido vítima de violência, o que faria? PARA REFLETIR Finalizamos esse módulo, fazendo as seguintes pontuações: Em casos de vítimas de violência sexual, em especial mulheres, alguns cuidados precisam ser tomados: não julgar a vítima, já traumatizada pelo ato de violência sofrido, é um deles. Questioná-la sobre as roupas que usava ou o porquê do local que frequentava, soa como uma justificativa para aquilo que sofreu. Crimes sexuais traumatizam físico e psicologicamente. Sabemos que existem protocolos e procedimentos para a atuação policial. Esses protocolos devem ser seguidos. Sigam aquilo que é previsto: encaminhar para hospitais e delegacias. Como dica de leitura, sugerimos: Violência Sexual: Revitimização no âmbito policial. 2 1 3 Para saber mais sobre o assunto, acesse: Neste módulo, você aprendeu sobre: O papel da polícia turística; O conceito de segurança turística; O preconceito sobre as vítimas de violência sexual e o impacto na prática policial. SAIBA MAIS SÍNTESE O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 82 MÓDULO 3 Direito das mulheres, direito para mulheres O tema que iremos abordar nas próximas aulas é de suma importância para todos os agentes de segurança pública que lidam diariamente com mulheres viajantes, e que muitas vezes, não se atentam às questões relacionadas ao gênero e a necessidade de assistência a esse grupo. Independentes, financeira, emocional e politicamente, as mulheres têm rompido com as ideias que permeavam o discurso patriarcal que as consideravam como incapazes intelectual e juridicamente, passando a viajar sozinhas. Queremos, portanto, refletir nesse módulo, sobre a violência que é motivada pela concepção de gênero. As informações aqui apresentadas trazempara os profissionais do Susp os subsídios básicos para a compreensão das relações de gênero e violência. Essa percepção será importante para o acompanhamento dos casos afetos a segurança turística da mulher. Por meio da leitura deste módulo e das sugestões de vídeos e outros estudos, procuramos contribuir para que você juntamente com a sua equipe possa atuar na identificação das questões de gênero envolvidas nos casos de violência contra as mulheres turistas. Além das leituras aqui indicadas, bem como das atividades propostas, você poderá recorrer a outras fontes disponíveis para construção do seu conhecimento. Entretanto, pedimos a você que se lembre de discutir com os seus colegas de curso, no ambiente virtual de aprendizagem, pois no processo de aprendizado, quanto mais se compartilha, mais se aprende. Bons estudos! Compreender os diferentes conceitos de violência, especialmente no contexto de gênero. Diferenciar os conceitos de gênero e sexo, e entender suas implicações sociais e legais. OBJETIVOS DO MÓDULO O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 83 Desenvolver habilidades para discutir e argumentar sobre as diferenças entre gênero e sexo. Analisar a inserção da violência de gênero nas agendas globais de direitos humanos. Conhecer as normatizações nacionais que abordam a violência de gênero. Aplicar conceitos de violência de gênero em estudos de caso. Estudar o fenômeno do feminicídio no Brasil, suas causas e consequências legais e sociais. Incentivar o compromisso com a defesa dos direitos das mulheres e a erradicação da violência de gênero. Este módulo compreende as seguintes aulas: Aula 1 - Refletindo sobre o conceito de violência Aula 2 - Gênero e sexo: qual a diferença Aula 3 - Violência de gênero na agenda global Aula 4 - A pauta local: normatizações nacionais Aula 5 - Feminicídio no Brasil ESTRUTURA DO MÓDULO AULA 1 Refletindo sobre o conceito de violência Iniciaremos esse módulo com a discussão acerca do conceito de violência. O conceito de violência é ambíguo, complexo, implica em vários elementos e correntes teóricas. As suas formas são tão numerosas, que por vezes é difícil, elencá-las de modo satisfatório. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 84 Diversos profissionais, em especial os atores midiáticos, manifestam-se sobre elas, oferecem até alternativas de solução; todavia, a violência surge na sociedade de modo novo e ninguém consegue evitá-la por completo. A complexidade da violência aparece na polissemia do seu conceito (HAYECK, 2009). Por esta razão, é necessário tomar cuidado na exposição desse conceito, pois ele pode ter vários sentidos: ataque físico, ameaça, uso da força física, seriam alguns desses sentidos. O vocábulo VIOLÊNCIA gera diversos efeitos de sentido, significações. Dicionário Houais: “Violência. s.f. (sxiv cf. Fich IVPM) 1. qualidade do que é violento 2. ação ou efeito de violentar, de empregar força física (contra alguém ou algo) ou intimidação moral contra (alguém); ato violento, crueldade, força 3. exercício injusto ou discricionário, ger. ilegal, de força ou de poder 3.1 cerceamento da justiça e do direito, coação, opressão, tirania 4. força súbita que se faz sentir com intensidade; fúria, veemência 5. dano causado por uma distorção ou alteração não autorizada 6. o gênio irascível de quem se encoleriza facilmente, e o demonstra com palavras e/ou ações 7. JUR. Constrangimento físico ou moral exercido sobre alguém, para obrigá-lo a submeter-se à vontade de outrem; coação. Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa – Houaiss, Villar e Franco (2004). Novo Aurélio século XXI: “Violência. [Do lat. violentia] S.f. 1. Qualidade de violento. 2. Ato violento. 3. Ato de violentar. 4. Jur. Constrangimento físico ou moral; uso da força; coação”. Novo Aurélio século XXI: o dicionário da língua portuguesa – Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (1999). SAIBA MAIS O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista Interessante comentar que, a violência não está ligada somente a criminalidade. Quando analisamos unicamente esta dimensão, permanecemos apenas na aparência da questão, conforme nos alertou Pierre de Bourdieu. Segundo Bourdieu, a violência encontra-se das diferentes relações interpessoais, entre indivíduos e instituições, nas práticas repressivas do Estado, em tempos de crise, nos movimentos sociais. Elaborou, então, o conceito de violência simbólica, processo em que se perpetuam e se impõem determinados valores culturais, se diferenciando da violência física, apesar de poder, se expressar, em última instância sobre esta forma. 85 Etimologicamente, o vocábulo violência deriva do latim violentia e se refere àquele que age pela força, que é impetuoso e está relacionado a violare, “tratar com violência”, desonrar. Por certo, o termo indica algo que está fora do natural, algo ligado à força, ao ímpeto, ao comportamento que produz danos físicos. Em outras palavras, “[...] a prática de violência expressa atos contrários à liberdade e à vontade de alguém e reside nisso sua dimensão moral e ética” (PAVIANI, 2016, p. 08). “A violência simbólica é uma violência que se exerce com a cumplicidade tácita daqueles que a sofrem e, frequentemente, daqueles que a exercem na medida em que uns e outros são inconscientes de a exercer ou a sofrer” (Bourdieu, 1996: 16). Acesse e assista o vídeo abaixo: SAIBA MAIS Violência Simbólica O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 86 Você consegue perceber a relação entre violência simbólica e mulheres? Nota! Independentemente da palestrante ser religiosa, nosso objetivo aqui é analisar a sua fala. A definição de comportamentos ditos de mulheres e homens e tentam refletir, o impacto dessa padronização de papéis para as mulheres. Ademais, a violência pode ser compreendida como um problema de saúde pública e, portanto, pode ser definida como qualquer ato intencional, perpetrada por indivíduo, grupo, instituição, classes ou nações dirigidas a outrem, que cause prejuízos, danos físicos, sociais, psicológicos e (ou) espirituais (MINAYO; SOUZA, 1998). Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), há uma clara relação entre o ato violento e a intenção de quem o pratica, independentemente dos resultados produzidos, tanto que definiu violência como [...] o uso intencional da força física ou do poder, real ou em ameaça, contra si próprio, contra outra pessoa, ou contra um grupo ou uma comunidade, que resulte ou tenha grande possibilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE, 2022, p. 5). Segundo Krug et al (2002), a OMS ainda esclarece que, a violência pode ser caracterizada em 3 (três) tipos, que variam de acordo as características de quem as comete. Seriam elas: violência auto infligida, violência interpessoal e violência coletiva. Violência auto infligida pode ser dividida em comportamentos suicidas (contempla o suicídio, ideação suicida e tentativas de suicídio) e os auto abusos (agressões a si próprias e a automutilações); Violência interpessoal subdivide-se em comunitária e familiar, aquela perpetrada pelo próprio parceiro, o abuso infantil e contra idosos. Ressalta-se que nos casos de violência comunitária incluem-se atos aleatórios de violência, o estupro e ataque sexual a estranhos, bem como atos violentos praticados contra grupos institucionais, a exemplo de escolas. Violência coletiva, a que englobe atos violentos que acometem âmbitos macrossociais, políticos e econômicos. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 87 De qualquer sorte, sabemos que, as características gerais desse conceito variam no tempo e no espaço, seguindo os padrões culturais de cada grupo ou época e ilustram bem as dificuldades semânticas desse conceito. Temos como exemplo, a realidade social e histórica do casamento da mulher que, por tantas vezes, em determinadas sociedades, foi submetida a imposições, que em outra, eramconsideradas como inadequadas. Enfim, é um exemplo que aponta as relações entre a violência e a ordem social e cultural. Por certo, as ciências partem de diferentes definições de violência, a partir do seu método e objeto de investigação. Sendo assim, a violência pode ser descrita, analisada e interpretada por diversas áreas do conhecimento, tais como a filosofia, a ética, a psicologia, a psicanálise, o direito, a biologia, a antropologia. Independentemente da área do conhecimento, atualmente, o termo violência está na ordem do dia. Ele frequenta a mídia, está nas ruas e na internet. De que forma a violência se relaciona a gênero? Esses conceitos se relacionariam com a atividade de segurança pública? Afetaria ou não a prática policial? É sobre tais aspectos que iremos refletir mais a frente porque, no momento iremos responder aos exercícios de fixação. PARA REFLETIR AULA 2 Gênero e sexo: qual a diferença? Primeiramente, vamos entender o que é gênero. Para tanto, iremos recorrer aos apontamentos da filósofa Judith Butler. Em uma de suas obras, Problemas de gênero: feminino e subversão da identidade (2003), a autora afirma que não é possível existir uma identidade conforme preconizado pela metafisica ocidental bem como, que o sexo e a sexualidade seriam “convenções sociais” quanto o gênero, sendo então categorias constituídas a partir da prática, da perfomatividade e não, o oposto. Nessa linha, Butler defendia que gênero e sexo seriam construções culturais e sociais. [...] a ideia de que o gênero é construído sugere um certo determinismo de significados do gênero, inscritos em corpos anatomicamente diferenciados, sendo esses corpos compreendidos como recipientes passivos de uma lei cultural inevitável. Quando a ‘cultura’ relevante que ‘constrói’ o gênero é compreendida nos termos dessa lei ou conjunto de leis, tem-se a impressão de que o gênero é tão determinado e tão fixo quanto na formulação de que a biologia é o destino. Nesse caso, não a biologia, mas a cultura se torna o destino. (BUTLER, 2003, p.26, grifo nosso). O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 88 O conceito de gênero surgiria então, para afirmar, que as diferenças sexuais não são por si só determinantes das diferenças sociais entre homens e mulheres, mas são significadas e valorizadas pela cultura, de forma a produzir diferenças que são ideologicamente afirmadas como naturais. Nas palavras de Dias (2015, p. 49): A definição de gênero relaciona-se, portanto, com características da cultura atribuídas a cada um dos sexos, baseando-se em uma construção cultural para a definição de ser homem e ser mulher em uma determinada sociedade. O que é estabelecido pela cultura como masculino só pode ser aferido partindo- se do feminino, e vice-versa, determinando-se os modelos de masculinidade e feminilidade que seriam adotados como padrão dentro de uma sociedade. O que legitimaria essa diferenciação de papéis no gênero seriam os valores associados à divisão sexual nas esferas pública e privada (DIAS, 2015). O gênero, enquanto construção social, estabeleceria o conjunto de comportamentos esperados para homens e mulheres a partir do sexo atribuídos a cada um deles no nascimento, predefinindo os seus respectivos papéis. Por exemplo, para meninas e mulheres espera-se que brinquem com bonecas, sejam delicadas, sensíveis e preparadas para o casamento e a maternidade. Já para os meninos, as brincadeiras estariam relacionadas aos carrinhos, lutas, força física, competitividade, virilidade, o provedor do lar. Ressaltamos que, o conceito de gênero não pode ser confundido ou ser considerado sinônimo de mulher. Esta confusão, de certo modo, sempre existiu porque a noção de gênero por muito tempo foi relacionado ou substituiu a palavra mulher. Para Joan Scott (1990, p. 05), gênero é “um elemento constitutivo de relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos, e o gênero é um primeiro modo de dar significado às relações de poder”. […] distinção entre sexo e gênero é inciativa. Sexo está ligado a condição biológica do homem e da mulher, perceptível quando do nascimento pelas características genitais. Gênero é uma construção social, que identifica papéis sociais de natureza cultural, e que levam a aquisição da masculinidade e da feminilidade. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 89 Dicas: SAIBA MAIS Nesse contexto, violência de gênero é fruto de um processo histórico, que possui como origem as categorias de gênero, classe, raça e suas relações com o poder. De todo modo, a violência de gênero continua existindo como uma explícita manifestação da discriminação de gênero. Ela acomete milhares de crianças, jovens e mulheres prioritariamente no ambiente doméstico, mas também no espaço público. A despeito de todos os avanços e conquistas das mulheres na direção da equidade de gênero, persiste entre nós essa forma perversa de manifestação do poder masculino por meio da expressão da violência física, sexual ou psicológica, que agride, amedronta e submete não só as mulheres, mas também os homens que não se comportam segundo os rígidos padrões da masculinidade dominante. O conceito de violência de gênero perpassa por toda e qualquer conduta baseada no gênero, que cause ou que seja passível de causar morte, dano ou sofrimento. Tal conduta pode ser tanto no âmbito físico, sexual, bem como no psicológico, tanto na esfera pública como na privada. Apesar de algumas mudanças na sociedade brasileira, como a rejeição da tese da legítima defesa da honra, na metade final do século XX não foram raras às vezes em que as vítimas de violência se viram responsabilizadas pelo que sofreram. Em casos como o estupro de uma mulher, o assassinato de uma travesti ou de um gay, é comum surgirem perguntas como: O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 90 O que a vítima estaria fazendo naquele local e naquele horário? Como se vestia? Estaria acompanhada ou só? Dançando, bebendo, divertindo-se? Muito frequentes nos inquéritos policiais, nos processos judiciais, nas matérias de jornal e nas conversas informais, essas indagações ou comentários nos indicam como a discriminação social por gênero ou por orientação sexual ainda pune, na maioria das vezes, as vítimas de agressões com xingamentos, insultos, difamação e abusos sexuais. Assim, chegamos ao final da nossa aula e aprendemos a diferença entre gênero e violência. Vimos o que significa violência de gênero e a sua relação com a mulher. Para as próximas leituras, ampliaremos nossos conhecimentos. Iremos trabalhar, de forma sucinta, com os instrumentos internacionais e nacionais, nas aulas 03 e 04, sejam eles, leis, dispositivos convenções, que foram estipuladas para tutelar o direito da mulher. AULA 3 A violência de gênero na agenda global Na Cidade do México, no ano de 1975, ocorreu a Conferência Mundial do Ano Internacional da Mulher, considerada um marco processual na construção dos direitos das mulheres na agenda mundial. Tanto que, a este evento, seguiram-se a Década da Mulher, realizada pela Organização das Nações Unidas – ONU, no período de 1975-1985 e aprovação da Convenção sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher – CEDAW, em 1979. Para alguns autores, foi com a CEDAW que a violência contra as mulheres passou a ser reconhecida oficialmente como um crime contra a humanidade, além de, a partir de então, influenciar quase todas as políticas e iniciativas internacionais sob uma perspectiva de gender mainstreaming . Em seu primeiro artigo, a CEDAW definiu que a expressão “discriminação contra a mulher” significaria: 6 6 Pode ser entendido como um processo que visa incorporar e transversalizar a perspectiva de gênero na elaboração, implementação e avaliação de políticas públicas. Traduzem-se num instrumento no qual, de um lado as instituições do Estado promovem e incluem a temática na agenda governamental a partir do diálogo com os grupos representante da sociedade civile por outro, a sensibilização desses gestores para tal perspectiva. https://www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/bibliotecavirtual/instrumentos/discrimulher.htm 7 O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 91 https://www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/bibliotecavirtual/instrumentos/discrimulher.htm https://www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/bibliotecavirtual/instrumentos/discrimulher.htm 7 8 [...] toda distinção, exclusão ou restrição baseada no sexo e que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o reconhecimento, gozo ou exercício pela mulher, independentemente de seu estado civil, com base na igualdade do homem e da mulher, dos direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político, econômico, social, cultural e civil ou em qualquer outro campo .7 No decorrer do texto, a CEDAW apresenta diversas medidas a serem adotadas pelos Estados signatários com o objetivo de se efetivar a igualdade de gênero e erradicar a discriminação contra a mulher, como a garantia constitucional de igualdade entre homens e mulheres. Importante lembrar que o Brasil é signatário da CEDAW, com a assinatura em 1981, incorporando-a em seu ordenamento pátrio em 1984, por meio do decreto n.º 89.460/84 , todavia com ressalvas no que tange a parte do casamento civil e os direitos dos cônjuges, o que espelha a situação da sociedade à época. 8 Nas décadas seguintes, observamos que, temáticas como a discriminação, a vulnerabilidade, o risco e as violências que submetem as mulheres e as afetam de forma diferenciada em razão da desigualdade de gênero, foram paulatinamente colocadas em discussão nos contextos locais e global e incluídas, nas agendas mundiais e nacionais de direitos humanos, em especial, das mulheres. Neste contexto, um significativo conjunto de compromissos e obrigações foi firmado entre as Nações Unidas e os Estados-Membros visando ampliar a participação política, social e econômica das mulheres e a promoção e efetividade de seus direitos. [....] há, portanto, um rosto feminino do direito e haverá um rosto feminino, mas não há direitos diferentes, na minha opinião, para homens e mulheres; a maior parte dos pobres do mundo são mulheres; a maior parte dos analfabetos são mulheres; a maior parte dos crimes sexuais são praticados contra mulheres; as mulheres e jovens são a maior parte das pessoas traficadas e exploradas sexualmente; quem mais sofre as consequências da falta de assistência e de cuidados na saúde sexual e reprodutiva são as mulheres e as adolescentes e, por fim, a maior parte dos refugiados e deslocados em situação de guerra e conflitos armados, externos e internos, são as mulheres e as crianças (LOPES, 2005, p. 162). O que mudou? SAIBA MAIS O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 92 Entre os instrumentos internacionais que abordam a violência contra as mulheres, destacamos: Recomendação nº 19, de janeiro de 1992, que incluiu na Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, a violência como a expressão máxima da discriminação contra as mulheres. Declaração sobre Eliminação da Violência contra as Mulheres (1993), que estabelece que a violência contra a mulher é “qualquer ato de violência baseada no gênero que resulte, ou possa resultar, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico para as mulheres, incluindo ameaças de prática de tais atos, a coerção ou a privação arbitrária da liberdade, que ocorra na vida pública ou privada (art. 1º)”. Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (Convenção de Belém do Pará) , ocorrida em 1994, que definiu como violência contra a mulher “[...] qualquer ato ou conduta baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto na esfera pública como na esfera privada (art. 1º). Entende-se que a violência contra a mulher abrange a violência física, sexual e psicológica (art. 2º): a) ocorrida no âmbito da família ou unidade doméstica ou em qualquer relação interpessoal, quer o agressor compartilhe, tenha compartilhado ou não sua residência, incluindo-se, entre outras formas, estupro, maus-tratos e abuso sexual; b) ocorrida na comunidade e cometida por qualquer pessoa, incluindo, entre outras formas, o estupro, abuso sexual, tortura, tráfico de mulheres, prostituição forçada, sequestro e assédio sexual no local de trabalho, bem como em instituições educacionais, serviços de saúde ou qualquer outro local; e c) perpetrada ou tolerada pelo Estado ou por seus agentes, onde quer que ocorra." 9 Toda mulher tem direito a ser livre de violência, tanto na esfera pública como na esfera privada. A compreensão do enfrentamento da violência como uma questão de saúde pública também se justifica porque, por definição, a saúde pública não diz respeito aos indivíduos, mas sim à melhoria das condições de vida para o maior número de pessoas, sendo que sua preocupação é a prevenção dos problemas de saúde e a ampliação de Convenção do Belém do Pará https://www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/bibliotecavirtual/instrumentos/discrimulher.htm 9 O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 93 melhores cuidados e segurança para as populações, atuando por meio da ação coletiva de maneira intersetorial (saúde, direitos e justiça, segurança, educação e assistência social, etc.). O exemplo do caso brasileiro pode ser emblemático deste movimento, o caso Maria da Penha. A violência passou a ser considerada, portanto, uma doença social. Neste sentido, e como destacado por esse último documento citado, o enfrentamento de todas as formas de violência contra as mulheres pode ter sua eficácia aumentada quando as políticas e planos de ações com caráter universalista são debatidos e desenvolvidos numa perspectiva culturalista ou local (FERREIRA, 2005; VICENTE; 2000).7 CURIOSIDADE Você sabia que após a repercussão do caso conhecido como Campo Algodoeiro, ocorrido na Cidade de Juarez no México, e julgado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos que o conceito de feminicídio ganhou maior expressão internacional, prioritariamente nos países da América Latina e Caribe? O caso foi apresentado junto a Comissão Interamericana de Direitos Humanos em 2002, após a morte de três jovens na Cidade de Juarez no México, que tiveram seus corpos encontrados junto a uma plantação de algodão. Vale dizer que a investigação feita internamente ocorreu sem que se respeitassem os direitos inerentes às vítimas e seus familiares, razão pela qual se levou a apresentação da petição destinada a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Somente em 2007 o caso foi levado pela Comissão para apreciação da Corte Interamericana de Direitos Humanos, com os pedidos de condenação do Estado Mexicano por violação dos direitos garantidos nos artigos 04 (direito à vida), ? Gonzàles e Outras O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 94 05 (Direito à integridade pessoal), 08 (Garantias judiciais), 19 (Direito da criança) e 25 (Proteção judicial) da Convenção, também conhecida como Pacto San José da Costa Rica, bem como das obrigações dos artigos 1.1 (Obrigação de respeitar os direitos) e 2 (Dever de adotar disposições de direito interno) da mesma e para além disso, o artigo 07 da Convenção de Belém do Pará, que trata de medidas a serem tomadas pelos Estados para erradicar a violência contra a mulher. O termo Feminicídio se tornou latente visto que na sentença, a Corte Interamericana de Direitos Humanos reforçou o aspecto estrutural da violência de gênero, compreendendo a responsabilidade do Estado, justamente. Para mais detalhes acesse: AULA 4 A pauta local: normalizações nacionais O espaço que a mulher ocupa hoje na sociedade brasileira, e até mesmo o respaldo legal que a protege, foram conquistados com muito esforço destacando, o empreendimento do movimento feminista. Percebemos que as mulheres adentraram ao mercado de trabalho, engajaram-setendem a revelar? ² Fonte: Agência Brasil (2024) – Pesquisa da Rede de Observatórios de Segurança. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2024-03/cada-24-horas-ao-menos-oito-mulheres- s%C3%A3o-vitimas-de-violencia#:~:text=No%20ano%20de%202023%2C%20ao,PI%2C%20RJ%2C%20SP). O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 09 Objetivos do Curso Estrutura do Curso Objetivo geral: O objetivo deste curso é capacitar os profissionais do Susp para o atendimento à mulher turista (nacional e não nacional), visando assegurar direitos, bem como garantir a segurança, a acolhida e o respeito na estadia em destinos turísticos brasileiros. Objetivos específicos: Compreender os desafios enfrentados pelas mulheres turistas em termos de segurança, bem como o papel do profissional do Susp na proteção e prevenção da violência contra elas; Reconhecer a importância da atividade turística para o Brasil nos âmbitos social, econômico, ambiental e cultural; Identificar as diferenças culturais, normas e práticas que podem afetar a segurança e o atendimento às mulheres turistas; Aplicar técnicas de investigação e comunicação com abordagem centrada na vítima; Sensibilizar os profissionais do Susp a desenvolverem estratégias para acolhê-las adequadamente, em ocorrências policiais. Este curso, de 60 horas, compreende os seguintes módulos: Módulo 1 - Turismo, que setor é esse? Módulo 2 – Mulheres, Segurança e Turismo: Uma relação virtuosa Módulo 3 – Direito das Mulheres, Direito para as Mulheres Módulo 4 – Técnicas de entrevista e abordagem: melhores práticas O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 10 MÓDULO 1 Turismo, que setor é esse? O turismo é uma atividade econômica, social e cultural de grande importância e consiste no deslocamento de pessoas com o objetivo de conhecer novos lugares, culturas e experiências. Sobre a relevância econômica do segmento, observe: Perceba que a expressividade dos dados apresentados denota a importância econômica do turismo para o desenvolvimento de qualquer país. Além do impacto na economia local, a atividade pode trazer importantes avanços sociais, ambientais e tecnológicos mediante o aprimoramento de setores relacionados ao comércio, indústria e serviços. Não é à toa que a atividade também é conhecida como “indústria do turismo” e isto se deve ao fato de envolver uma complexa cadeia de insumos, mão de obra e processos. O Brasil, apesar de se beneficiar com uma fatia importante do segmento, tem condições de receber um maior número de visitantes e usufruir de uma parcela bem mais significativa desse mercado. Todavia, a expansão do turismo, envolve uma série de fatores, que variam de acordo com a infraestrutura local, perfil do viajante e o interesse de cada envolvido. Certamente, você é capaz de enumerar os principais pontos que influenciam na escolha de um destino pelos viajantes! É provável que você tenha pensado em aspectos relacionados ao custo-benefício, ao conforto, atrativos, e/ou segurança do destino, correto? A contribuição do Turismo para o PIB global em 2019 correspondeu a US$9.6 trilhões (10.3%), de acordo com o relatório Travel & Tourism Economic Impact 2022 – Global Trends. No Brasil, neste mesmo ano, a contribuição do turismo foi de R$ 270,8 bilhões, em torno de 8,3% do PIB doméstico, segundo o IBGE. Os valores são importantes, não? Faça um rápido exercício mental e busque elencar alguns desses fatores... Sendo assim, considerando que a segurança é um importante fator para a escolha de um destino turístico, como ela influencia a decisão de homens e mulheres?1 No seu ponto de vista, como o Brasil é percebido por turistas estrangeiros, principalmente entre as mulheres nesse quesito? 2 Por fim, o que você PODE e o que você DEVE fazer, enquanto cidadão e profissional da segurança pública para a expansão do turismo em sua região?3 O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 11 Perceba que esses itens possuem pesos diferentes para cada roteiro e cada viajante. Além disso, outros elementos devem ser considerados, como o tipo de turismo, as companhias envolvidas e o orçamento disponível. Nesse ponto, alcançamos os 3 principais pontos de discussão que orientarão este e os próximos módulos: Por fim, as informações apresentadas neste módulo fornecerão aos profissionais do Susp os fundamentos necessários para compreender o turismo e suas especificidades, de modo que possam atuar efetivamente na proteção e nos casos de violência contra mulheres turistas. Bons Estudos! Identificar as principais interfaces do turismo no Brasil e no mundo; Reconhecer os impactos econômico, social e ambiental do turismo; Conceituar turismo, governança, política e governança; Descrever os fatores motivadores na escolha do destino turístico; Comparar os tipos de turismo e a sua relação com a cultura; Explicar como a segurança pode ter um impacto significativo na motivação turística; Enumerar os principais desafios e vulnerabilidades enfrentados pelas mulheres que viajam; Analisar as interfaces do turismo e seus impactos em diferentes contextos; e Desenvolver empatia e compreensão pelas experiências das mulheres turistas. OBJETIVOS DO MÓDULO O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 12 Este módulo está dividido em duas aulas: Aula 1 - As interfaces do Turismo no Brasil e no Mundo Aula 2 – Policiamento Orientado para o Turismo ESTRUTURA DO MÓDULO AULA 1 As interfaces do turismo no Brasil e no mundo Segundo Dias (2005), foi no início do século XIX que as palavras turismo e turista começaram a ser utilizadas no sentido como as conhecemos. Enquanto a primeira estava relacionada à teoria e prática de viajar por prazer, a última referia-se à pessoa que realizava uma ou mais excursões. Os termos, porém, evoluíram e sofreram alterações ao longo de sua história, com registros de viagens realizadas por motivos diversos. Figura 3: Turista estrangeira denuncia estupro coletivo Fonte: Museu Municipal de Espinho Em outras palavras, o turismo envolve as interações e experiências dos turistas durante suas viagens temporárias, seja por lazer, negócios ou outros propósitos, desde que não envolvam trabalho remunerado no destino. No Brasil, o turismo possui uma grande importância. O país é conhecido por sua diversidade natural e cultural, com destinos turísticos que vão desde praias paradisíacas até a Floresta Amazônica, contribuindo para a geração de empregos e movimentando a economia, especialmente no setor terciário. O setor primário reúne as atividades agropecuárias e extrativas, produzindo, assim, matérias-primas e produtos in natura. O setor secundário abarca as indústrias de ramos produtivos diversos. O setor terciário é composto pelos serviços prestados e pelo comércio essencialmente. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 13 Beni (2007, p.57) conceitua turismo como: "a soma dos fenômenos e das relações resultantes da viagem e da permanência de não residentes, na medida em que não levam a atividades remuneradas no local visitado". Existem diferentes tipos de turismo, como o de lazer, de negócios, turismo cultural, de aventura, gastronômico, entre outros. Cada um deles oferece experiências únicas e atrai diferentes perfis de viajantes. Além do impacto econômico expressivo, o turismo se constitui em uma verdadeira indústria global que se relaciona com inúmeros setores, como hospedagem, transporte, alimentação e comércio local. Nesse sentido, Moesch (2002) destaca que o turismo é um fenômeno social complexo e multidimensional, que deve ser compreendido não somente como uma atividade econômica, mas também como uma prática social que envolve interações entre turistas, comunidades locais, o ambiente natural e cultural. Dessa forma, o atrativo turístico não é suficiente para alavancar a atividade turística de determinada localidade. Esta por sua vez, necessita de uma infraestrutura geral como hospitais, farmácias, abastecimentoem questões afetas ao gênero, e passaram a ter voz ativa perante a família e sua própria vida. Sabemos que a legislação é um espelho social, evidenciando os costumes e ideias que prevaleciam na sociedade à época. Nesse sentido, o Código Civil de 1916, que só foi modificado em 2002, trazia o pensamento patriarcal em seu bojo, com a defesa da submissão e dependência das mulheres aos seus maridos, onde “na classificação dos direitos e deveres de cada cônjuge, a diferença de tratamento entre o marido, chefe da sociedade conjugal, e a mulher, sua colaboradora, ficava evidente" (SAAD, 2010, p. 27). 7 O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 95 As decisões familiares ficavam a cargo do marido, o chefe da sociedade conjugal, cabendo-lhe a decisões referentes à criação dos filhos, o sustento e o zelo pela família. Às mulheres só restava o casamento. Consideradas incapazes, eram equiparadas aos menores, pródigos e silvícolas, como demonstrava o art. 6º, do código de 1916. Em poucas palavras, as mulheres e os homens não usufruíam dos mesmos direitos. O assassinato de mulheres em defesa da honra era defendido e tinha amparo legal. Dona Teffé, Ângela Diniz, Elisa Samúdio, dentre outros, mulheres que foram vítimas de crimes passionais e desaparecimento sem razões. Porém, não se pode dizer que o Código Civil de 2002 inovou, pois tais alterações já haviam aparecido em outras leis no decorrer dos quase 100 anos. Um dos exemplos é a Constituição Federal,, que apresentou um importante passo no que diz respeito à isonomia entre os sexos. Assim, diz-se que o Código Civil foi importante para compilar as regras atualizadas, que estavam aceitas pela sociedade naquele momento. Código Civil de 2002 Constituição Federal Código Civil Todavia, a sociedade brasileira passou por mudanças. De 1916 a 2002, são quase cem anos. O pátrio poder passa a ser questionado. E, às mulheres, são concedidos direitos: votar e ser votada, não usar o sobrenome do marido, estudar, colaborar com as decisões familiares. E, consequentemente, dispositivos que visavam proteger as mulheres após os casos de grande vulto: Movimentos sociais de liberação de costumes e de defesa dos direitos civis das mulheres contribuíram substancialmente para transformar a família e o casamento, antes destinos certos da mulher, agora um de seus projetos de vida, planejado, adiado e concretizado como decorrência de seu livre arbítrio, ao lado da carreira profissional e da opção pela maternidade (SAAD, 2010, p. 20). [...] Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição. [...] O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 96 Destacamos, então, dois dispositivos que visam coibir a violência contra as mulheres: Lei 11.340/2006 (Lei Maria da Penha), que cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher; Lei 13.104/2015, que altera o art. 121 do Decreto-lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), para prever o feminicídio como circunstância qualificadora do crime de homicídio, e o art. 1º da Lei nº 8.072, de 25 de julho de 1990, para incluir o feminicídio no rol dos crimes hediondos. A Lei Maria da Penha tornou-se um caso duplamente emblemático. Inicialmente, por ter sido o primeiro caso de violência doméstica que levou à condenação um país no âmbito interamericano de proteção dos direitos humanos. Tanto que, numa decisão inédita, o Estado brasileiro foi condenado pela Comissão Interamericana por negligência e omissão em relação à violência doméstica, recomendando que o supramencionado Estado, dentre outras medidas, “[...] intensificar processo de reforma, a fim de romper com a tolerância estatal e o tratamento discriminatório com respeito a violência doméstica contra as mulheres no Brasil” (PIOVISAN; PIMENTEL, 2011, p. 110). Segundo, porque, a partir dessa decisão, iniciou-se o movimento que resultaria na aprovação da Lei 11.340, de 7 de agosto de 2006, nomeada Lei Maria da Penha, cujo texto trouxe grandes avanços, colocando à disposição das vítimas, instrumentos eficazes na busca da redução da violência contra as mulheres baseada no gênero (BARSTED, 2011; PIOVESAN; PIMENTEL, 2011). Quem foi Maria da Penha? Nascida do Ceará. Biofarmacêutica. No ano de 1983, o seu então marido, disparou contra ela um tiro de espingarda. Ele tentou matá-la. Maria da Penha foi alvejada. Esse tiro a deixou paraplégica. Após tratamento no hospital, retornou para casa. Quando retornou, sofreu mais outra tentativa de assassinato: o marido tentou eletrocutá-la no banheiro. SAIBA MAIS O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 97 Ela denunciou seu agressor. Contudo, se deparou com um cenário: a incredulidade, a falta de apoio da justiça brasileira para os crimes passionais, os crimes em defesa da honra como argumento para a liberdade dos réus. Em 1994, Maria lançou o livro – Sobrevivi....posso contar- onde narrou todos os tipos de violência vivenciado por ela e suas filhas. O seu texto teve uma ampla repercussão, o que a levou a acionar o Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa das Mulheres. Esse órgão encaminhou seu caso para a Comissão Interamericana em 1998. Em 2002, os organismos internacionais condenaram o nosso país por omissão e negligência determinando, assim, que reformulássemos nossas leis e políticas em relação a violência doméstica. Nasceria assim, a Lei Maria da Penha. Este dispositivo foi nomeado em homenagem ao emblemático caso de Maria da Penha Fernandes, ocorrido em 1983. Porém, o autor só foi preso em 2002, seis meses antes da prescrição do crime. Lei Maria da Penha - Lei n. 14.310 de 08 de março de 2022, alterou a Lei Maria da Penha para determinar o registro imediato, pela autoridade judicial, das medidas protetivas de urgência deferidas em favor da mulher em situação de violência doméstica e familiar, ou de seus dependentes. Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340, 2006). A lei tem o objetivo de criar mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher de forma a prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher; tipifica 5 tipos de violência: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Lei do Feminicídio (Lei nº 13.104, 2015). A legislação altera o Código Penal e estabelece o feminicídio como circunstância que qualifica o crime de homicídio, quando uma mulher é morta em decorrência de violência doméstica e familiar, menosprezo ou discriminação à condição de mulher, fica caracterizado o feminicídio, sendo considerado um crime hediondo em que a pena pode chegar a 30 anos de reclusão. Lei do Minuto Seguinte (Lei nº 12.845/2013). Oferece atendimento imediato pelo SUS, amparo médico, psicológico e social, exames preventivos e o fornecimento de informações sobre os direitos legais das vítimas. ANOTA AÍ O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 98 Lei nº 13.718/2018, tipifica os crimes de importunação sexual de divulgação de cena de estupro, alterando o Código Penal para tipificar os crimes de importunação sexual e de divulgação de cena de estupro, tornar pública incondicionada a natureza da ação penal dos crimes contra a liberdade sexual e dos crimes sexuais contra vulneráveis; estabelece aumento de pena e define como causas para aumento de pena o estupro coletivo e o estupro corretivo. Lei nº 13.642/2018, atribui à Polícia Federal atribuição para investigação de crimes praticados na rede mundial de computadores, que difundam conteúdo misógino definidos como aqueles que propagam ódio ou aversão às mulheres. Lei nº 13.931/2019, dispõe sobre a notificação compulsória dos casos de indícios ou confirmação de violência contra a mulher, atendida em serviços de saúde públicos e privados, determinandoa comunicação à autoridade policial, no prazo de 24h, para providências cabíveis e fins estatísticos. Lei Carolina Dieckmann (Lei nº 12.737/2012). A lei definiu crimes cibernéticos no Brasil. Ela recebeu este nome, pois na época que o projeto tramitava a atriz teve o computador invadido e fotos pessoais divulgadas sem autorização por hackers. A legislação classifica como crime justamente casos como estes: invasão de computadores, tablets, smartphones, conectados ou não à internet, que resulte na obtenção, adulteração ou destruição dos dados e informações. Lei Joana Maranhão (Lei nº 12.650/2015). A lei alterou os prazos quanto à prescrição (prazo) contra abusos sexuais cometidos contra crianças e adolescentes, de forma que a prescrição só passou a valer após a vítima completar 18 anos e o prazo para denúncia aumentou para 20 anos. O nome é uma referência à nadadora brasileira que foi abusada sexualmente aos nove anos de idade, pelo seu treinador. A denúncia feita por ela resultou na lei que garante às vítimas mais tempo para denunciar e punir seus abusadores. Lei Sinal Vermelho contra a Violência Doméstica (Lei nº 14.188/2021) - define o programa de cooperação Sinal Vermelho contra a Violência Doméstica como uma das medidas de enfrentamento da violência doméstica e familiar contra a mulher, altera a modalidade da pena da lesão corporal simples cometida contra a mulher por razões da condição do sexo feminino e cria o tipo penal de violência psicológica contra a mulher. Garante atendimento emergencial, integral e gratuito às vítimas. Importante ressaltar que não há necessidade de apresentar boletim de ocorrência ou qualquer outro tipo de prova do abuso sofrido - a palavra da vítima basta para que o acolhimento seja feito pelo hospital. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 99 Lei nº 14.192/2021, estabelece normas para prevenir, reprimir e combater a violência política contra a mulher, para dispor sobre os crimes de divulgação de fato ou vídeo com conteúdo inverídico no período de campanha eleitoral, para criminalizar a violência política contra a mulher e para assegurar a participação de mulheres em debates eleitorais proporcionalmente ao número de candidatas às eleições proporcionais.Lei nº 14.324/2022, institui o dia 13 de março como Dia Nacional de Luta contra a Endometriose. A norma, publicada no Diário Oficial da União desta quarta-feira (13), também estabelece a Semana Nacional de Educação Preventiva e de Enfrentamento à Endometriose. Lei nº 14.326/2022, altera a Lei nº 7.210, de 11 de julho de 1984 (Lei de Execução Penal), para assegurar à mulher presa gestante ou puérpera tratamento humanitário antes e durante o trabalho de parto e no período de puerpério, bem como assistência integral à sua saúde e à do recém-nascido Leis Nacionais Disponível em: AULA 5 Feminícidio no Brasil Feminicídio é o homicídio doloso praticado contra a mulher por “razões da condição de sexo feminino”, cuja definição jurídica encontra-se no art. 121, § 2º, VI, do Código Penal Brasileiro que foi alterado pela Lei 13.104/15. A referida lei dispõe (Lei 13.104/15): [...] § 7o A pena do feminicídio é aumentada de 1/3 (um terço) até a metade se o crime for praticado: (Incluído pela Lei nº 13.104, de 2015). O que é feminicidio? Acesse e leia: SUGESTÃO DE LEITURA O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 100 I - durante a gestação ou nos 3 (três) meses posteriores ao parto; (Incluído pela Lei nº 13.104, de 2015). II - contra pessoa menor de 14 (catorze) anos, maior de 60 (sessenta) anos, com deficiência ou portadora de doenças degenerativas que acarretem condição limitante ou de vulnerabilidade física ou mental; (Redação dada pela Lei nº 13.771, de 2018). III - na presença física ou virtual de descendente ou de ascendente da vítima; (Redação dada pela Lei nº 13.771, de 2018). IV - em descumprimento das medidas protetivas de urgência previstas nos incisos I, II e III do caput do art. 22 da Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006. (Incluído pela Lei nº 13.771, de 2018). (BRASIL, 2015, Art. 121). Logo, no sistema penal brasileiro o feminicídio não é um tipo penal próprio ou possui lei especial, sendo uma qualificadora do homicídio, quando o comportamento do agente se situar dentro das hipóteses previstas no §2º-A. Nessa lógica, cabe observar que as condutas sobre as quais incide o feminicídio possuem características objetivas e subjetivas, tendo em vista que por um lado se tem o feminicídio íntimo previsto no inciso I, com caráter mais objetivo e de outro plano tem se a expressão “menosprezo ou discriminação à condição de mulher” que implica em uma análise altamente subjetiva da conduta do agente a fim de se atingir ao que se pretende com tal expressão. Um crime de feminicídio deve ser entendido como uma manifestação de violência extrema que termina na morte de uma ou várias mulheres e constitui uma violação aos seus direitos humanos. Mas, afinal, o que são razões de condição do sexo feminino? Para o legislador, há “razões de condição do sexo feminino” quando o crime envolve - violência doméstica e familiar e menosprezo ou discriminação à condição de mulher. Nesse sentido, a mulher deveria ser tutelada pelo Estado em razão da sua suposta fragilidade? Por vezes, ouvimos os vocábulos feminicídio ou femicídio? Existem diferenças entre eles? O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 101 Um crime de feminicídio não constitui um evento isolado, repentino nem inesperado, ao contrário, faz parte de um processo contínuo de violências, cujas raízes misóginas se caracterizam pelo uso de violência extrema; inclui uma vasta gama de abusos verbais, físicos e sexuais, e diversas formas de mutilação e de barbárie. Desde o seu surgimento, o termo passou a ser utilizado e, acabou se popularizando, porque denuncia a manifestação violenta da misoginia que resulta em morte de mulheres. Já no âmbito acadêmico, político, ou na literatura, passou a ser utilizado para denunciar as formas de violência letal contra as mulheres e meninas, o que levou a sua legitimação. Os feminicídios são resultado de múltiplas, crescentes e contínuas manifestações de violência, que estão enraizadas historicamente nas relações desiguais de poder entre homens e mulheres e na discriminação sistêmica do gênero feminino, o que é sustentado por valores sociais, religiosos, econômicos, assim como por práticas culturais (ELLSBERG et al., 2000). A palavra femicídio foi usado pela vez em um tribunal de crimes contra mulheres que ocorreu em Bruxelas, no ano de 1976, com o objetivo de mostrar que as diferenças existentes entre os homicídios femininos e masculinos. Para Diana Russel, o termo corresponderia ao ponto final de um contínuo de violência que teria como consequência a morte das mulheres afetadas (RUSSEL; RADFORD, 1992). O termo é desafiador. Inicialmente atribuído exclusivamente a assassinatos de homens contra mulheres em razão do gênero, posteriormente passou a contemplar em razão do seu gênero (RUSSELL; RADFORD, 1992; RUSSELL, 2011), contemplou crimes cometidos por mulheres em prol do interesse de um ou vários homens (IRANZO, 2015; GRZYB et al., 2018), e foi aplicado à totalidade das mortes de mulheres independentemente do motivo ou status do perpetrador (CAMPBELL; RUNYAN, 1998). O que é misoginia? Etimologicamente, misoginia deriva do grego misogynia, que significa “ódio contra mulher”. Miseó = ódio e gyné = mulher. No Cambridge Dictionary Online (2018), misoginia significa “[...] crença de que os homens são muito melhores que as mulheres”. Fonte: Para entender misoginia O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 102 A Organização das Nações Unidas (ONU) define femicídio como: A tradução literal do termo Femicide é Femicídio, no entanto, foi adaptada para o espanhol e português como feminicídio e é utilizada em vários países da América Latina para caracterizar os casos nas legislações. A diferença dos termos resulta em que feminicídiofoi usado para declarar a responsabilidade do Estado na perpetração de crimes de femicídio. Antes da Lei n.º 13.104/2015, não havia nenhuma punição especial pelo fato de o homicídio ser praticado contra a mulher por razões da condição de sexo feminino. Em outras palavras, o feminicídio era punido, de forma genérica, como sendo homicídio (art. 121 do CP). Lei n.º 13.104/2015 (art. 121 do CP)121 CP) 10 O assassinato de mulheres e meninas devido ao seu gênero, que pode assumir a forma de: 1. o assassinato de mulheres como resultado de violência praticada pelo parceiro íntimo; 2. a tortura e assassinato misógino de mulheres 3. assassinato de mulheres e meninas em nome da ‘honra’; 4. assassinato seletivo de mulheres e meninas no contexto de um conflito armado; 5. assassinatos de mulheres relacionados com o dote; 6. assassinato de mulheres e meninas por causa de sua orientação sexual e identidade de gênero; 7. assassinato de mulheres e meninas aborígenes e indígenas por causa de seu gênero; 8. infanticídio feminino e feticídio de seleção com base no sexo; 9. mortes relacionadas à mutilação genital; 10. acusações de feitiçaria que causam a morte da julgada; e 11. outros femicídios relacionados a gangues, crime organizado, traficantes de drogas, tráfico de pessoas e proliferação de armas pequenas (UNITED NATIONS AND ECONOMIC AND SOCIAL COUNCIL, 2013). A criação de um termo “feminino” específico, diferente do homicídio, respondeu à necessidade de dar visibilidade às mortes das mulheres que são proporcionalmente menores quando comparadas às dos homens e ressaltar as particularidades dessas mortes. A palavra feminicídio tem uma dimensão política e de gênero, se opondo a homicídio, que é descrita como palavra neutra (LAGARDE, 2008). É importante notar que os estudos sobre esse tipo de crime têm sido originariamente realizados desde as ciências sociais e a antropologia, motivo pelo qual a adaptação a áreas como o direito é desafiadora (TOLEDO, 2016). Todos os homicídios femininos são feminicídios? PARA REFLETIR https://www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/bibliotecavirtual/instrumentos/discrimulher.htm 10 O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 103 A depender do caso concreto, o feminicídio (mesmo sem ter ainda este nome) poderia ser enquadrado como sendo homicídio qualificado por motivo torpe (inciso I do § 2º do art. 121) ou fútil (inciso II) ou, ainda, em virtude de dificuldade da vítima de se defender (inciso IV). No entanto, o certo é que não existia a previsão de uma pena maior para o fato de o crime ser cometido contra a mulher por razões de gênero. A Lei n.º 13.104/2015 veio alterar esse panorama e previu, expressamente, que o feminicídio, deve agora ser punido como homicídio qualificado. Femicídio - significa praticar homicídio contra mulher (matar mulher). Feminicídio - significa praticar homicídio contra mulher por “razões da condição de sexo feminino”. A nova Lei trata sobre FEMINICÍDIO, ou seja, pune mais gravemente aquele que mata mulher por “razões da condição de sexo feminino” (por razões de gênero). Não basta a vítima ser mulher. A Lei Maria da Penha já não punia isso? Não. A Lei Maria da Penha não traz um rol de crimes em seu texto. Esse não foi seu objetivo. A Lei n.º 11.340/2006 trouxe regras processuais instituídas para proteger a mulher vítima de violência doméstica, mas sem tipificar novas condutas, salvo uma pequena alteração feita no art. 129 do CP. Desse modo, o chamado feminicídio não era previsto na Lei n.º 11.340/2006, apesar de a Sra. Maria da Penha Maia Fernandes, que deu nome à Lei, ter sido vítima de feminicídio duas vezes (tentado). Vale ressaltar que as medidas protetivas da Lei Maria da Penha poderão ser aplicadas à vítima do feminicídio (obviamente, desde que na modalidade tentada). Feminicídio (art. 121, § 2º, VI, do CP) Violência de gênero (PDF) O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 104 Para aprofundar seus conhecimentos sobre a temática, acesse o SAIBA MAIS!! Turista brasileira é estuprada em jardim da Torre Eiffel Itamaraty informou que prestará auxílio jurídico e psicológico para a vítima e a irmã dela, que também teria sofrido uma agressão sexual Uma turista brasileira denunciou ter sido estuprada nos jardins da Torre Eiffel, em Paris, na madrugada de domingo (5). A vítima estava acompanhada da irmã mais velha quando ocorreu o crime. Elas registraram boletim de ocorrência sobre o caso. As informações são do portal UOL, com base em reportagem do jornal francês Le Parisien. À polícia, as irmãs contaram que tinham conhecido dois homens na noite de sábado (4) e consumido bebidas alcoólicas. Elas ainda relataram que, no início, os dois indivíduos pareciam gentis, mas no fim da madrugada se tornaram "libidinosos". Quando o crime aconteceu, as duas irmãs estavam separadas. Segundo a mais velha, um dos homens passou as mãos nas nádegas dela. Ela o repeliu e ele fugiu. A moça então partiu em busca da irmã mais nova e a encontrou alguns metros adiante, com o outro homem sobre ela, de calças abaixadas. A chegada da mais velha fez o suspeito fugir correndo na direção de um carro preto. A polícia chegou até as turistas brasileiras por volta das 5h30min e relata que elas estavam em estado de choque, segundo o jornal francês. Aos prantos e se expressando com dificuldade em francês, elas foram levadas para a delegacia, onde denunciaram o crime de estupro. O caso está sendo investigado pela 3ª circunscrição da Direção de Polícia Judiciária de Paris. Auxílio do Itamaraty O Consulado brasileiro em Paris confirmou que duas brasileiras receberam apoio jurídico e psicológico. "Vamos atuar nesse caso dentro dos limites da legislação francesa e dos acordos assinados pelos dois países", informou o cônsul adjunto Ruy Ciarlini. SAIBA MAIS O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 105 Notícia "Hoje mesmo nossas assessorias jurídica e psicológica entraram em contato com elas para oferecer os dois serviços. E tudo vai depender do que elas precisarem, do que elas desejarem. O que elas necessitarem, vamos acompanhá- las e daremos todo o apoio que elas precisarem," completou. Casos semelhantes ocorreram no mesmo local O caso das turistas brasileiras não é exceção nos arredores do ponto turístico da capital francesa, segundo o Le Parisien. Em setembro de 2022, uma turista canadense foi sequestrada e estuprada por um jovem de 19 anos na mesma região. Em 2016, três homens foram presos suspeitos de um estupro coletivo também próximo à Torre Eiffel, em Paris, segundo o jornal britânico The Independent. Disponível em: A partir dessa leitura, perguntamos: Como o agente de segurança pública deveria agir? Como deveria ser o processo de escuta, tendo em vista, a barreira da língua? PARA REFLETIR Iremos refletir sobre essas questões no módulo seguinte. Vamos lá? Neste módulo, você aprendeu: O conceito de violência; As suas tipologias de violências elencadas pela Organização Mundial de Saúde; A representação da violência simbólica nas relações; Os instrumentos legais que protegem as mulheres. SÍNTESE O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 106 MÓDULO 4 Técnicas de entrevista e abordagem: melhores práticas Chegamos à reta final do nosso curso! Neste módulo serão apresentadas 5 aulas, que abordarão técnicas de entrevista que poderão ser utilizadas por profissionais do Susp em situações que demandem o levantamento de informações dentre vítimas e suspeitos no contexto do turismo. O material foi pensado e estruturado sob formato de orientações que poderão ser aplicadas em diferentes protocolos. Nele, você irá aprender desde o planejamento até a execução de uma entrevista, incluindo as técnicas de abordagem, comunicação assertiva com vítimas e testemunhas, ademais, pretende-se apresentar aspectos relacionados à linguagem corporal, sempre observando o recorte de gênero proposto para este curso. Encontrar informações específicas sobre entrevista investigativacom mulheres turistas é uma missão mais desafiadora, pois este é um tema bastante específico, portanto menos abordado na literatura. No entanto, as informações aqui apresentadas destacam os principais aspectos relacionados à entrevista investigativa e as habilidades e protocolos aplicados durante o processo de coleta de declarações. No decorrer dos seus estudos do módulo, lembre-se que, a entrevista investigativa em caso de violência contra a mulher deve ser conduzida com empatia e sensibilidade, levando em consideração as necessidades da vítima a fim de garantir sua segurança emocional. Existem abordagens que podem ser utilizadas especificamente na condução de entrevistas investigativas com mulheres vítimas de violência, contudo todas levam em consideração a sensibilidade necessária durante todo o processo, desde a definição do entrevistador(a), passando pela escolha e preparação do ambiente, até a realização e finalização da entrevista. Outro aspecto a ser destacado é que este módulo não se aplica à oitiva de menores de idade, visto que para este público específico existem normativas e legislação própria, também nomeada de escuta especial, realizada para crianças e adolescentes. Entretanto, como já mencionado, a metodologia aqui apresentada ajudará no direcionamento de procedimentos adequados nas entrevistas investigativas realizadas com vítimas e testemunhas. Bons Estudos! O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 107 Este módulo tem como objetivos: Compreender a importância e as características essenciais de uma entrevista investigativa; Entender o papel da memória na recuperação de informações, os riscos de contaminação e os processos de escuta ativa; Conhecer todas as etapas de uma entrevista investigativa, desde o início até a conclusão; Analisar a situação da violência contra a mulher no Brasil e as melhores práticas para abordar turistas mulheres; Aplicar técnicas adequadas para conduzir entrevistas investigativas com precisão e sensibilidade; Desenvolver abordagens apropriadas para lidar com casos de violência contra a mulher e turistas mulheres; Promover a escuta ativa e a sensibilidade ao lidar com informações sensíveis durante entrevistas. OBJETIVOS DO MÓDULO Este módulo compreende as seguintes aulas: Aula 1 - Importância e características de uma entrevista investigativa; Aula 2 - O papel da memória: recuperação, contaminação e processos de escuta Aula 3 - Organizando uma entrevista investigativa; Aula 4 - A entrevista investigativa do início ao fim; Aula 5 - Um retrato da violência contra a mulher no Brasil e a abordagem de turistas mulheres. ESTRUTURA DO MÓDULO O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 108 AULA 1 Importância e características de uma entrevista investigativa Na entrevista investigativa, os protagonistas são as vítimas e testemunhas. Essa é uma das principais características que distinguem a entrevista investigativa de outras técnicas destinadas a inquirição de testemunhas. Dito isso, as condições físicas e emocionais das testemunhas ou vítimas são essenciais para a obtenção de um relato fiel do evento ocorrido, ou seja, o estabelecimento de um relacionamento interpessoal positivo e assertivo entre o entrevistador e a declarante configura como fator primordial para este tipo de entrevista. O relato de testemunhas é de modo geral o meio mais utilizado para elucidação de crimes, o que reforça a necessidade da capacitação de profissionais que aplicam a entrevista investigativa, independente da sua área de atuação no contexto da segurança pública. A tomada de declaração de uma testemunha ou vítima que presenciou um determinado evento é antes de tudo colaborativa e contribui para a elucidação de crimes cometidos contra mulheres turistas (vítimas), foco deste curso. Importa ressaltar que não serão abordadas aqui as chamadas Técnicas de interrogatório, as quais se aplicam à inquirição de suspeitos, visto que este procedimento está mais relacionado ao procedimento acusatório. O foco deste módulo está relacionado à tomada de declaração de vítimas e testemunhas para compreender o ocorrido. Observe, no quadro abaixo, onde você pode identificar as principais diferenças entre as duas técnicas: O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 109 Tabela 1 - Diferença entre entrevista investigativa e interrogatório policial Fonte - Autoras (2023) O termo “declarante” quando mencionado no decorrer do módulo, engloba tanto a vítima como a testemunha. ANOTA AÍ 1.1 Tipos de Testemunha Testemunha ocular Testemunha de “canonização” Testemunha de “ouvir dizer” De acordo com o livro Guia de Entrevista Investigativa (2020), no âmbito da entrevista investigativa é necessária a compreensão dos diferentes tipos de testemunhas. Aqui você entenderá sobre os três tipos que merecem especial atenção do entrevistador investigativo: A testemunha ocular é aquela que presenciou o acontecido e por isso pode prestar esclarecimentos a respeito dos fatos. Os outros dois tipos de testemunhas, embora não estivessem presentes podem se voluntariar ou serem indicadas a prestar declarações. No caso da testemunha de “canonização”, percebe-se que o intuito é de favorecer algum suspeito ou envolvido no evento, criando uma imagem positiva, este caso merece especial atenção do entrevistador, pois tal depoimento pode contaminar a declaração, direcionando o resultado da apuração. A testemunha chamada de “ouvir dizer” não presenciou o evento, portanto sua declaração não colabora muito com a apuração dos fatos. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 110 O processo para identificação dessas testemunhas também passa pela realização de entrevistas preliminares, etapa indicada durante o processo de compreensão do evento ocorrido, onde o entrevistador poderá encontrar informações que o levem a testemunhas mais apropriadas para elucidação do caso. Vale destacar que o processo de escuta de várias testemunhas deve seguir uma ordem lógica que favoreça o entendimento do caso, esta ordem se baseia em ouvir inicialmente as testemunhas que estejam mais distanciadas do objeto da investigação, e dessa forma percorrer um caminho que leve à principal testemunha, que deve ser a última a ser entrevistada. Este procedimento possibilita ao investigador recolher o maior volume de informações que permitam uma maior compreensão dos fatos. Com relação à investigação, mister se faz que a equipe de atendimento ao turista esteja pronta para tomar as primeiras medidas necessárias, quais sejam, ouvir com paciência o relato do turista, se ocorreu algum ato criminoso, elaborar o boletim de ocorrência, tomar de imediato as primeiras medidas com fito de elucidar o crime, como tomar o depoimento do turista imediatamente, se possível for, ir ao local do fato, colher testemunhos, verificar se há imagens de câmeras de vídeo de segurança na localidade a fim de auxiliar a investigação, fazer os ofícios pertinentes, se tiver que ser feita a perícia, que a mesma seja providenciada de pronto, para que a materialidade delituosa seja resguardada. Tratando especificamente das mulheres e a depender do fato criminoso aventado, encaminhar para que para que seja feito o exame de corpo de delito e outros exames que se fizerem necessários. E mais, é muito importante também que o profissional de segurança pública saiba que mormente tenha efetuado ações preventivas e investigativas preliminares, o trabalho para a conclusão da investigação afeta ao turista não finda com seu retorno ao país ou cidade de origem, mas ele segue em frente, com persistência até o relatório final ou mesmo a prisão do infrator e a conclusão das investigações, de forma que o turista saiba que a polícia continuou os trabalhos até que a peça investigativa seja remetida ao Ministério Público e ao Juízo e assim, o processo penal siga seu curso natural. Sendo assim, percebe-se que há a necessidade da visão de ação policial rápida, usando as informações dos setores deinteligência no sentido de elucidar os casos afetos aos turistas. Outras fontes de informação, como processos, denúncias, registros, fotos, vídeos, reportagens, também fazem parte do arcabouço documental utilizado durante um processo investigativo. Porém, devem ser usados com cuidado durante a entrevista investigativa, evitando a contaminação do relato. Mala Furtada em Aeroporto O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 111 Veja o caso da ação interestadual para elucidação do furto de uma mala praticado no Aeroporto de Florianópolis/SC e foi recuperada em Maceió/AL, fruto de uma investigação célere exitosa da Polícia Civil dos respectivos estados. Acesse a matéria: SAIBA MAIS 1.2 O entrevistador e sua equipe O trabalho desenvolvido na entrevista investigativa, é sem dúvida um trabalho em equipe, por isso o ideal é a participação de mais de um profissional para a realização de entrevistas. Normalmente aconselha-se que a equipe seja composta por homens e mulheres de diferentes idades, raças e origens, dessa forma pode se garantir uma diversidade que contribui para o desenvolvimento do trabalho e da toda equipe. Entretanto, no caso particular da segurança de mulheres turistas, recomenda-se um maior número de mulheres envolvidas, em especial no processo de escuta e acolhimento. Apesar de não haver uma comprovação baseada em evidências que possa definir tal recomendação, nota-se, de forma empírica, a diferença no que se refere a testemunhos de declarantes e vítimas mulheres, em processos investigatórios conduzidos e acompanhados por profissionais de segurança mulheres. Utilizando como exemplo uma situação ideal, uma equipe de entrevista deve ser composta por: um chefe, um entrevistador principal, um assistente e demais auxiliares que variam de acordo com a necessidade do caso investigado. ANOTA AÍ O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 112 Todos os envolvidos devem estar cientes de suas responsabilidades e atribuições. Para tanto, o chefe da equipe deve elaborar um checklist definindo atividades, prazos e responsabilidades. O Chefe de equipe - gerencia todo o processo, realiza o planejamento e elabora o relatório final; O entrevistador principal e assistente - executam a entrevista e colaboram com o planejamento geral; Os auxiliares - todos os demais envolvidos, como motoristas, operador de áudio e vídeo, intérprete, tradutor, garçons etc. Em relação às atribuições, podemos afirmar que: A equipe recomendada foi pensada com objetivo de apresentar para você o ideal no processo de entrevista investigativa, mesmo sabendo que em muitos casos, dependendo da realidade do setor, ela necessite ser adaptada. Tabela 2 - Modelo de checklist O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 113 Fonte - Autoras (2023) O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 114 Um ponto importante a ser ressaltado no que se refere ao papel do entrevistador investigativo é apresentado a seguir: Os autores abordam a especial atenção que deve ser direcionada ao tema do evento investigado e ao perfil da testemunha para a melhor seleção do entrevistador, ou seja, deve-se analisar a sensibilidade do tema em questão, quanto mais sensível ele for, mais experiente deve ser o entrevistador. No caso de vítimas/testemunhas mulheres é normal que elas se sintam mais calmas e confortáveis quando são recebidas e entrevistadas por outras mulheres, especialmente quando o evento ocorrido seja um crime sexual. Ao entrevistar uma vítima de violência sexual, evite fazer com que ela relate o fato ocorrido mais de uma vez para que não ocorra a revitimização, de forma indireta ou secundária. É muito comum a revitimização institucional, quando o sistema legal e/ou a polícia tratam a vítima de forma insensível ou inadequada, fazenintérdo com que a vítima se sinta novamente traumatizada ao buscar justiça. A revitimização pode ter efeitos graves sobre a saúde mental e emocional da vítima, além de dificultar sua recuperação. Caso fique com alguma dúvida sobre o relato, peça que a vítima se coloque na perspectiva de outra pessoa, alguma testemunha, por exemplo, para responder à pergunta. Por isso, é tão importante que o especialista identifique o perfil da testemunha, o tema investigado e estude as informações sobre o caso e se muna de todos os conhecimentos necessários para melhor condução da entrevista, inclusive no que se refere ao vocabulário que será empregado na declaração. Todos esses aspectos abordados nesta aula corroboram para o estabelecimento do rapport, ou seja, criar uma conexão emocional positiva entre o declarante e o entrevistador. “Quando se planeja uma entrevista investigativa deve-se procurar encontrar um entrevistador que possua características capazes de potencializar a técnica empregada e não de prejudicar a sua aplicação. Essa escolha deve levar em consideração vários aspectos, tais como o tema que norteia o fato em apuração e os perfis na testemunha e do entrevistador. (MAURMANN E PINTO,2020). ANOTA AÍ O termo “rapport” vem do francês e significa “relação” ou “conexão”. Quando aplicado em entrevistas, isso significa criar uma relação de confiança e empatia, proporcionando um sentimento de conforto e segurança em relação ao entrevistador. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 115 Na próxima aula, você vai aprimorar ainda mais seus conhecimentos sobre as técnicas de entrevista investigativa, entender sobre o processo de escuta em silêncio e com plena atenção na testemunha. Dessa forma, irá construir uma linha de raciocínio entre o que estudou na primeira aula, relacionando os conhecimentos aprendidos sobre a importância de se atentar para as condições físicas e emocionais da declarante, os tipos de testemunha, perfil e atribuições de uma equipe de investigação e perfil da testemunha. AULA 2 O papel da memória: recuperação, contaminação e processos de escuta e condução da entrevista Um rolo de filme que, ao ser projetado, segue uma ordem cronológica e, quando pausado, volta a reproduzir as imagens de onde parou. Assim imaginamos que funciona a memória e esta ideia é um dos maiores equívocos da entrevista investigativa. Como a memória é “a matéria prima a partir da qual será construído o relato da testemunha” (PINTO, MAURMANN, 2022, p.22) precisamos entender bem seu conceito, tipos, como ela funciona e técnicas para preservá-la e recuperá-la. Neste capítulo, serão explorados o papel central da memória na entrevista investigativa, os desafios da contaminação, a relevância da escuta ativa e a aplicação de técnica para uma Comunicação não violenta (CNV) ao ouvir declarantes. 2.1 A influência da memória na prova testemunhal e os diferentes tipos de memória A memória é uma capacidade cognitiva fundamental que permite ao ser humano registrar, armazenar, recuperar e utilizar informações adquiridas ao longo do tempo. Ao contrário do que idealizamos, ela não funciona como um filme. Parece mais à Wikipedia, podendo ser editada e sujeita a falhas no processo de recuperação. Isso pode levar a lacunas e distorções no relato, especialmente quando há estímulos que afetam a lembrança exata dos fatos. Por isso, é importante entender como as recordações são formadas. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 116 O processo envolve vários estágios, desde a percepção inicial até a recuperação posterior da informação armazenada. Estudo conduzido pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e publicado na revista Science em 2017 (MOURA, 2017) revelam que a formação da memória não é um processo passivo de armazenamento, mas sim um processo ativo de construção e reconstrução. Isso significa que nossas memórias são influenciadas por nossas experiências passadas, nossas expectativas e nossos objetivos futuros. A memória se inicia com o registro de estímulos capturados pelos nossos sentidos (como visão, audição, tato, cheiro e paladar) que ficam gravados por umafração de segundos e podem ser descartados ou armazenados. Uma vez registradas, as informações são armazenadas em diferentes tipos de memória, como a: As memórias declarativas, um dos tipos de memória de longo prazo, estão diretamente relacionadas à entrevista investigativa. Elas são a base a partir da qual as testemunhas elaboram suas declarações sobre os assuntos, sejam recentes ou que tenham presenciado no passado. A memória declarativa pode ser classificada como episódica, quando envolve capacidade de lembrar de eventos específicos e experiências pessoais, como o que você fez nas suas últimas férias ou semântica, que compreende a recordação referente ao conhecimento geral e conceitual que acumulamos ao longo da vida. Os dois tipos de memórias resultam em diferentes tipos de relatos. Durante a entrevista investigativa, é essencial a colaboração da testemunha a partir de sua memória episódica. Referenciar as memórias episódicas ajuda na obtenção de informações mais detalhadas e precisas, pois é caracterizada pela descrição de uma experiência pessoal concreta. Essa forma de memória é fundamental em investigações criminais, pois permite que as testemunhas relatem o que viram, ouviram ou experimentaram em um determinado incidente. Memória de curto prazo - é usada para reter informações temporariamente, por exemplo, guardar um número de telefone para ligar e, em seguida, esquecê-lo. Memória de longo prazo - na memória de longo prazo, as informações importantes e significativas são mantidas por um período indefinido. O significado que atribuímos a um registro é o que faz ele permanecer na memória de longo prazo. ATENÇÃO A memória humana pode ser dividida em vários tipos distintos, cada um desempenhando um papel específico. A mais utilizada na entrevista investigativa visando o relato preciso dos fatos é a memória de longo prazo episódica. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 117 Seguem algumas orientações de como podemos usar a memória episódica na obtenção de informações em investigações criminais após o uso da narrativa livre (deixar sempre as perguntas para o final, o conceito será mais bem apresentado na aula 4): Os entrevistadores devem compreender os princípios da memória episódica e adotar abordagens sensíveis e eficazes para coletar depoimentos detalhados e confiáveis das testemunhas, contribuindo assim para o esclarecimento de eventos e a melhor apuração dos fatos. Ainda assim, devem estar cientes de que a recuperação da memória está sujeita a lacunas e falhas que podem comprometer a qualidade do relato. A memória episódica é responsável por reter detalhes específicos de um evento, como quem estava presente, onde e quando ocorreu, o que foi dito e feito. Solicite que a testemunha descreva o ambiente, as pessoas presentes e os eventos anteriores e posteriores ao incidente. Isso pode ajudar a reativar a memória episódica e recuperar detalhes importantes. Faça perguntas que ajudem a testemunha a relembrar os eventos em uma sequência lógica e detalhada, de acordo com a linha do tempo. Testemunhas que experimentaram eventos traumáticos podem ter memórias episódicas impactadas pelo estresse. É importante que os entrevistadores sejam sensíveis a essas emoções e forneçam um ambiente de apoio para a recuperação de memórias precisas destes fatos. Caso a declarante tenha dificuldade de relatar estes fatos, solicitar a ela que faça um desenho pode facilitar muito o seu relato. Detalhes Uso de Pistas Mnemônicas Entrevista Sensível ao Tempo Sensibilidade às Emoções e Trauma 2.2 Contaminação e falhas no processo de recuperação da memória Investigadores iniciantes podem cometer o erro de acreditar que uma declaração é verdadeira apenas se todos os fatos correspondem ao episódio. Da mesma forma, podem invalidar completamente um relato se não corresponder exatamente ao que se sabe do assunto. No entanto, é importante evitar os extremos e entender que as O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 118 testemunhas, especialmente em casos de fatos antigos, podem distorcer seu testemunho e incorporar fatos posteriores a ele. Quando, apesar dos erros causados pelo esquecimento ou distorção de suas memórias, a testemunha tende a manter a congruência dos fatos, isso denota falha no processo de recuperação da memória, não falso testemunho. A sugestão pode levar à formação de falsas memórias, especialmente em memórias antigas que são mais suscetíveis à contaminação, fenômeno que ocorre quando uma pessoa é exposta a informações falsas ou enganosas que afetam a sua capacidade de lembrar de eventos com precisão. Na ótica da entrevista investigativa, a contaminação de memória pode ocorrer quando o entrevistador faz perguntas sugestivas ou pressiona o entrevistado para fornecer uma resposta específica. É fundamental evitar declarações sugestivas durante uma entrevista investigativa, a fim de evitar a formação de falsas memórias na mente da testemunha. A contaminação pode ocasionar uma acusação injusta ou uma condenação errônea, por isso deve ser combatida durante todo o processo de apuração. Uma pergunta mal formulada ou uma palavra mal escolhida podem induzir uma mudança na resposta. 1- Procure adotar uma postura cuidadosa e abstenha-se de declarações/ perguntas sugestivas; exemplificar fatos, sugerir palavras, completar frases. 2- Prefira perguntas abertas e não sugestivas. Em vez de: Você estava na praia na hora do crime, pergunte: “Você consegue descrever o ambiente em que se encontrava na hora do crime?”; 3- Peça à entrevistada que descreva os eventos em ordem cronológica inversa; 4- Solicite à declarante que mude a perspectiva, tente narrar os fatos do ponto de vista de outra pessoa. 5- Não deixe duas testemunhas compartilharem a mesma sala de espera, na troca de percepções sobre o fato apurado, uma pode acabar tendo sua memória contaminada pela outra. 6- Seja sensível aos efeitos do estresse na memória, pois ele pode provocar lapsos e apagões. Seguem algumas dicas para evitar a contaminação durante uma entrevista e garantir a precisão dos relatos: O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 119 7- Deixe a vaidade de lado e não transmita falta de preparo e nervosismo, isso faz com que você queira ser o protagonista na entrevista, pressione ou deixe a declarante insegura. 8- Respeite os silêncios e as pausas. Por mais incômodo que eles possam gerar, é necessário para a declarante construir seu relato. Caso o silêncio dure muito tempo, você pode estimular a retomada da descrição com frases como: “e então?” Alguns exemplos de perguntas sugestivas, a serem evitadas em uma entrevista investigativa: “Você não viu o suspeito no aeroporto com um boné verde?” “Você não se lembra de ter visto um carro branco na cena do crime?” "Você concorda que o suspeito tinha um comportamento agressivo naquela situação?" Na entrevista investigativa, o foco está na testemunha e não no entrevistador. Não tente conduzir o relato pois, quanto mais livre for a narrativa, melhor. Deixe as perguntas para o final e evite perguntas sugestivas ao longo do relato. Empenhe-se para preservar as memórias originais da declarante. PARA LEMBRAR 2.3 Estratégias para a recuperação de memórias 1- Recriar mentalmente o contexto: iniciar a entrevista orientando a declarante a recriar mentalmente os estados cognitivos e emocionais que existiam no momento do evento a ser narrado. 2- Narrativa Livre: Inicialmente, permita que o declarante narre livremente sua versão dos eventos, minimizando influências externas que podem afetar a memória. Uma estratégia pode ser pedir que ela feche os olhos e retorne ao lugar do fato apurado. Seguem algumas dicas para recuperação da memória durante a entrevista investigativa: O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 120 3- Perguntas Abertas: O uso de perguntas abertas encoraja a declarante a descrever eventos em detalhes, o que pode ajudar a acessar informações cruciais.4- Reformulação: Repetir ou reformular as informações fornecidas pelo declarante pode ajudar a confirmar ou esclarecer detalhes, fortalecendo a memória. 5- Apresentação de Evidências: Apresentar evidências coletadas durante a investigação pode auxiliar na recuperação de memórias, mas deve ser feito com cautela para evitar contaminação, de preferência, após o final da narração livre. 6- Anote as dúvidas para o final: ao longo da narração, anote em um papel as incoerências, dúvidas, fatos que precisam de um maior detalhamento. Somente após o término da narração, faça as perguntas. O papel do entrevistador, então, é ajudar a testemunha a vasculhar a mente em busca desta rota. Existem dois processos que podem levar a testemunha a não conseguir acessar suas memórias: Indisponibilidade, quando aquele registro não existe mais devido a algum trauma ou a Inacessibilidade, quando o registro ainda existe, mas a declarante não consegue recordá-lo. Neste segundo caso, é possível encontrar novos caminhos que conduzam o declarante para essa memória. A estratégia utilizada será a recriação de memória direcionada para o fato que se deseja acessar. Vamos utilizar como exemplo o caso de uma turista que é abusada sexualmente durante um grande festival de música. O entrevistador precisa saber se, depois do crime, o suspeito entrou no banheiro. A testemunha, amiga da turista, afirma não recordar deste detalhe, apesar de estar perto da vítima quando o fato aconteceu. Como saber deste detalhe influencia na elucidação dos fatos, a entrevistadora adota a estratégia de recuperação de memória. Segue o diálogo abaixo: O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 121 - (Nome da testemunha), eu gostaria que você se concentrasse novamente quando o suspeito fugiu. - Tudo bem - responde a declarante - Certo! Se você estiver à vontade, vou pedir que feche os olhos. - Ok. - (Nome da testemunha), a partir de agora, escute apenas a minha voz e siga as minhas instruções. Confirme com a cabeça caso tenha entendido. Continue, em caso de confirmação, sempre com um intervalo de alguns segundos entre as instruções (adaptação de diálogo, p.110, VIEGAS, MAURMANN, 2020): - Concentre-se no que você viu quando o suspeito saiu de cena. - Recrie em sua mente toda a cena que você presenciou - Visualize os detalhes do local. - Visualize as pessoas que estavam no local - Lembre-se dos sons que você ouviu. - Lembre-se do que você fez logo em seguida. - Recorde-se do caminho que você percorreu até encontrar a sua amiga. - Recrie esse caminho em sua mente. - Recorde-se do momento em que você chegou na sua amiga. - Lembre-se do momento em que a acolheu. - Muito bem, (nome da testemunha). Agora vou pedir que você descreva da melhor maneira possível, como o suspeito fugiu. - Agora me lembrei! Quando encontrei a minha amiga, ele correu para a porta principal, não entrou no banheiro - afirma a testemunha. Caso esta estratégia não funcione, solicite que a testemunha narre os fatos na ordem inversa daquela que tenha relatado anteriormente. A última estratégia recomendada é a mudança de perspectiva, onde a declarante observa o fato a partir de outro ângulo de visualização. Qualquer estratégia adotada só deve ser aplicada com o consentimento da testemunha e uma única vez. Outra técnica utilizada para a recuperação da memória em entrevistas investigativas é a de terapia cognitivo comportamental (TCC), (PERGHER, STEIN, 2005). A TCC é uma abordagem terapêutica que se concentra na identificação e alteração de padrões de pensamento disfuncionais e pode ajudar os indivíduos a recuperar memórias reprimidas ou esquecidas por meio da identificação e correção de pensamentos negativos ou distorcidos que possam estar impedindo a recuperação dessas memórias. de terapia cognitivo comportamental (TCC), (PERGHER, STEIN, 2005) Para saber mais informações sobre a Terapia Cognitivo Comportamental acesse: SAIBA MAIS Entrevista Cognitiva O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 122 2.4 Aprenda a escutar Investigadores iniciantes podem cometer o erro de acreditar que uma declaração é verdadeira apenas se todos os fatos correspondem ao episódio. Da mesma forma, podem invalidar completamente um relato se não corresponder exatamente ao que se sabe do assunto. No entanto, é importante evitar os extremos e entender que as Como mencionamos anteriormente, o sucesso da entrevista investigativa está na capacidade de escuta ativa do investigador, renunciando ao controle no processo. É essencial que o entrevistador se preocupe com a saúde emocional da testemunha e avalie se ela está em condições físicas e emocionais para relatar o ocorrido. A escuta ativa é uma habilidade que precisa ser aprendida e treinada, muito além do ambiente investigativo. Inicie a prática nas conversas com pessoas próximas. Quando alguém lhe relatar um fato qualquer, observe como fica a sua mente. Você consegue se conectar com o que ela está dizendo, ou, ao longo da fala, automaticamente vai formulando a resposta, julgando os acontecimentos, pensando em conselho, ou trazendo exemplos de sua vida relacionados ao fato narrado? Quando seu interlocutor acaba de falar você procura saber se a conversa era apenas um desabafo ou se ele esperava alguma opinião sua? A resposta, geralmente, é não. Na sua próxima conversa, faça um exercício: experimente ouvir, sem interromper, fazer comentários ou emitir julgamentos. Esteja presente na escuta, silencie as vozes interiores que lhe desconectam do que está sendo dito e das necessidades expressas nesta fala. Essa é uma das práticas sugeridas pela Comunicação Não Violenta (CNV), uma abordagem de comunicação proposta por Marshall Rosenberg (2006) que visa melhorar a qualidade da comunicação interpessoal, promover a empatia e resolver conflitos de maneira construtiva. A CNV é baseada em um conjunto de princípios e técnicas que enfatizam a conexão e o entendimento mútuo entre as pessoas e pode auxiliar na recuperação de memórias durante uma entrevista investiga “O caminho para escutar é o parar de falar. Uma razão de não conseguirmos ouvir é que as vozes dos outros são abafadas por nossas vozes internas.” Adam Kahane O uso de técnicas de escuta ativa e a criação de um vínculo de confiança fazem com que o entrevistador estabeleça um ambiente de bem-estar, deixando a declarante segura e tranquila para narrar os fatos. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 123 Estes são alguns fundamentos da CNV: 1. Observação: ações concretas que estamos observando e que afetam nosso bem-estar. 2. Sentimento: como nos sentimos em relação ao que estamos observando. 3. Necessidades: necessidades, valores, desejos etc. que estão gerando nossos sentimentos 4. Pedido: ações concretas que pedimos para enriquecer nossa vida. Seguem outras práticas/ fundamentos da CNV que podem favorecer o processo de escuta ativa: Não importa que palavras as pessoas usem para se expressar, procuramos escutar suas observações, sentimentos e necessidades, Abdicar de todas as opiniões e julgamentos Empatia e presença, ouvir sem intenção Não faça nada, simplesmente esteja presente Na empatia saímos de “nossa casa” A CNV é 80% não verbal Para apoiar o processo de escuta de uma entrevista sugerimos a adoção da Escuta Empática, prática da CNV, na qual as pessoas se concentram nas palavras e sentimentos do interlocutor, buscando compreendê-lo profundamente, sem julgamento. Além disso, o respeito pela autonomia, outra prática da CNV, que visa o não controle e manipulação dos outros e sim a criação de conexões reais também deve ser adotada, especialmente na escuta de testemunhas mulheres. Segundo Rosemberg, “a empatia é a compreensão respeitosa do que os outros estão vivendo.” (2006). Integrar as técnicas de CNV em uma entrevista investigativa pode contribuir para a obtenção de informações mais precisas e confiáveis, pois ajuda a testemunha a se sentir respeitada, ouvida e compreendida. Assim, cria-se um ambientepropício para a recuperação de memórias detalhadas e objetivas. Ao adotar algumas práticas da CNV nas entrevistas investigativas estamos contribuindo para: Onde a testemunha se sinta à vontade para compartilhar suas lembranças sem medo de críticas, julgamento ou retaliação. A Criação de um Ambiente Seguro O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 124 A CNV recomenda o uso de perguntas abertas e neutras, que não contenham suposições ou sugestões. Isso permite que a testemunha relate suas memórias da maneira mais objetiva possível, minimizando a contaminação da memória. A técnica de repetir e reformular o que a testemunha diz pode ajudar a esclarecer informações e garantir que os detalhes sejam compreendidos corretamente. Isso também mostra à testemunha que o entrevistador está se esforçando para entender com precisão. Só faça esta intervenção em casos de silêncio prolongado, sem interromper a declarante e tomando os devidos cuidados para evitar a contaminação. Reconhecer e validar as emoções da testemunha é uma parte fundamental da CNV. Isso pode ser útil quando as emoções estão ligadas às lembranças. Quando uma testemunha sente que suas emoções são compreendidas e validadas, ela tende a compartilhar mais detalhes de sua memória. A CNV incentiva os entrevistadores a, ao fazer declarações, falar na primeira pessoa, comunicando suas próprias observações, pensamentos e sentimentos, em vez de fazer acusações ou atribuir intenções a terceiros. Uso de perguntas Abertas e Neutras Repetição e Reformulação Validação das Emoções Uso de Declarações "Eu" Repetição e Reformulação - Exemplo: Fonte - Autoras (2023) O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 125 Saber escutar não se resume a não interromper o relato e a ficar em silêncio. Vai além, vai até a capacidade de se conectar com o que a pessoa está dizendo e, assim, incentivá-la a seguir falando. Você deve se mostrar realmente interessado no que a testemunha relata, atento e responsivo o tempo todo, seja por pequenas intervenções (interjeições, repetir algumas palavras ditas), pela linguagem corporal (balançar de cabeça, se posicionar de frente) e, principalmente, pelo contato visual. Em resumo, a memória desempenha um papel crítico na entrevista investigativa em contextos de segurança pública. Para otimizar a recuperação de informações precisas, é essencial compreender a memória, aplicar técnicas apropriadas, evitar contaminação, promover a escuta ativa e utilizar abordagens de comunicação não violenta. Profissionais de segurança pública que dominam essas técnicas podem melhorar a qualidade das informações coletadas, contribuindo para investigações mais eficazes e justiça em casos de segurança pública. 2.5 Interpretando os sinais A prática de escuta ativa envolve observar os sinais não verbais da testemunha enquanto ela fala (gestos, posturas, expressões faciais), o que pode ajudar os entrevistadores a ajustar suas abordagens e perguntas para obter respostas mais precisas, além de informações adicionais e contextuais que complementam as respostas verbais. A interpretação destes sinais não verbais desempenha um papel importante em uma entrevista investigativa para avaliar o grau de ansiedade da testemunha. Assim que a declarante se apresenta, o ideal é realizar o que é chamado de “linha de base”, identificar o comportamento padrão (verbal e não verbal) que uma pessoa apresenta quando não se encontra em situação de estresse. Observe, logo da chegada da declarante, como é a sua postura, como se senta, quais gestos utiliza e se consegue tanger o contato visual. A partir deste marcador, podemos comparar os indicadores não verbais ao longo da entrevista, percebendo desconfortos em relação ao fato relatado. Seguem abaixo, alguns sinais e suas possíveis interpretações para auxiliá-lo durante a entrevista investigativa, lembrando que as pessoas são diferentes, não se pode afirmar que um gesto é um indicador seguro de uma situação emocional específica: O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 126 Fonte - Autoras (2023) * *Tamborilar: Imitar o rufo do tambor, batendo com os dedos, ou com um objeto qualquer, sobre uma superfície; batucar: tamborilar sobre a mesa. Produzir ruído semelhante ao do rufar do tambor: a chuva tamborila nos vidros. Caso perceba algum destes sinais deverá checar o que está causando a inquietação na testemunha. Experimente fazer uma pergunta sobre outro tema, para identificar se o depoimento de forma geral a está deixando tensa, ou apenas um fato dentro dele. Não existe um sinal universal absoluto, uma prova definitiva. As expressões acima podem representar indícios de desconforto que devem ser avaliados ao longo da entrevista. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 127 Caso perceba algum destes sinais deverá checar o que está causando a inquietação na testemunha. Experimente fazer uma pergunta sobre outro tema, para identificar se o depoimento de forma geral a está deixando tensa, ou apenas um fato dentro dele. Não existe um sinal universal absoluto, uma prova definitiva. As expressões acima podem representar indícios de desconforto que devem ser avaliados ao longo da entrevista. Podem revelar emoções e reações da testemunha em relação às perguntas ou tópicos discutidos. Um sorriso, franzir a testa, olhos lacrimejantes, entre outros, podem indicar sentimentos de alegria, preocupação, tristeza ou desconforto. No livro “Desvendando os Segredos da Linguagem Corporal” (PEASE, 2005), os autores abordam de forma minuciosa cada parte do rosto e seus significados e destacam que colocar as mãos no rosto é base dos gestos humanos para enganar, quando dissemos ou ouvimos uma mentira, frequentemente tentamos tapar os olhos, a boca ou os ouvidos com as mãos, esses gestos devem ser analisados de forma agrupada, ou seja, observando todo o contexto ambiental e corporal, não podem ser analisados isoladamente. Os autores também chamam a atenção para a importância do olhar, pois a comunicação ocular é possivelmente a mais sutil da comunicação corporal. Os gestos e postura corporal da testemunha podem fornecer pistas sobre sua confiança, ansiedade ou hesitação. Por exemplo, uma testemunha que cruza os braços pode parecer defensiva, na tentativa de proteção, além disso, manter os braços cruzados faz com que a declarante preste menos atenção no que está falando, os investigadores experientes sabem que este gesto demonstra a necessidade urgente de “quebrar o gelo” enquanto alguém que faz contato visual direto e relaxa os ombros pode parecer mais confiável. O tom de voz da testemunha, incluindo a velocidade, o volume e a entonação, pode transmitir emoções e intensidade. Um tom de voz trêmulo pode indicar nervosismo, enquanto um tom firme pode indicar confiança. É importante observar se os sinais não verbais da testemunha são coerentes com suas palavras. Se houver uma disparidade, pode ser um sinal de que a testemunha não está sendo completamente sincera ou está ocultando informações. Expressões Faciais Linguagem Corporal Tom de Voz Coerência com a Linguagem Verbal O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 128 Observar as reações da testemunha a perguntas específicas pode fornecer pistas sobre a relevância ou a sensibilidade do tópico. Uma reação emocional a uma pergunta específica pode indicar que esse tópico é importante. A observação do conforto da testemunha no ambiente da entrevista é crucial. Se a testemunha parece desconfortável, isso pode afetar a sua disposição em compartilhar informações. Reações à Pergunta Específica Conforto no Ambiente É importante ressaltar que a interpretação de sinais não verbais deve ser feita com cautela e não deve ser usada como prova definitiva. Os sinais não verbais podem ser influenciados por vários fatores, como nervosismo, cultura, personalidade e até mesmo gênero. Por exemplo, o ato de cruzar as pernas, entre as mulheres quando estão sentadas, é na maioriadas vezes, uma repetição do que foram ensinadas ainda quando crianças sobre a forma adequada de se sentar. Portanto, é importante combinar a interpretação dos sinais não verbais com outras evidências e informações para obter uma imagem mais completa e precisa durante uma entrevista investigativa. No podcast “O Mito do Nariz de Pinóquio”, com os autores do livro “Guia de Entrevista Investigativa”, André Paulo Maurmann e Maurício Viegas conversam com a psicóloga Lívia Borges sobre detector de mentira, se a memória é incontestável e como o entrevistador pode influenciar a testemunha. O mito do Pinóquio é quando se acredita que exista um sinal absoluto que se manifeste sempre que uma pessoa minta. SAIBA MAIS PodCast 2.6 Situações inusitadas Além de estar preparado para interpretar a linguagem não verbal, o entrevistador tem que saber lidar com situações inusitadas ao longo do depoimento. Seguem dicas de como lidar com algumas circunstâncias, a princípio, desconfortáveis e/ ou constrangedoras. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 129 2.7 O método PEACE para a coleta de informações O modelo de framework PEACE é uma das estratégias frequentemente utilizadas em entrevistas investigativas para orientar o processo de coleta de informações de testemunhas e suspeitos. Este modelo é uma abordagem sistemática que visa garantir a obtenção de informações precisas e confiáveis, enquanto respeita os direitos dos entrevistados e mantém a integridade da investigação. O termo "PEACE" é um acrônimo que representa cinco fases distintas do processo de entrevista: O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 130 1. Preparação (Planning and Preparation) Nesta fase, os entrevistadores investigativos devem preparar-se adequadamente para a entrevista. Isso envolve a revisão de informações disponíveis sobre o caso, o estabelecimento de metas e objetivos claros para a entrevista e a determinação de uma abordagem apropriada com base nas circunstâncias do caso. 2. Explicação (Engage and Explain): Durante esta fase, o entrevistador deve estabelecer uma relação de confiança com o entrevistado, explicar o propósito da entrevista e as regras que regem o processo. O objetivo é criar um ambiente no qual o entrevistado se sinta confortável para cooperar. 3. Contas (Account): Nesta fase, o entrevistado é convidado a dar sua versão dos eventos. O entrevistador faz perguntas abertas, após a narrativa livre, para permitir que o entrevistado narre sua história sem interrupções, com o objetivo de obter uma descrição completa e precisa dos acontecimentos. 4. Corroboração (Closure and Challenge): O entrevistador, nesta fase, verifica a consistência das informações fornecidas pelo entrevistado e faz perguntas para esclarecer quaisquer contradições ou lacunas. Pode-se também apresentar evidências para confrontar o entrevistado com informações contraditórias, caso existam. 5. Avaliação (Evaluate): Na última fase, o entrevistador avalia a qualidade das informações obtidas e decide quais passos adicionais podem ser necessários na investigação. Isso pode incluir a identificação de outras testemunhas a serem entrevistadas, a solicitação de documentação adicional ou a tomada de medidas legais. O modelo de framework PEACE é especialmente relevante em investigações criminais e entrevistas com testemunhas, vítimas e suspeitos, uma vez que busca obter informações de maneira imparcial e eficaz, minimizando o risco de contaminação ou coerção. Além disso, ele se alinha com princípios de direitos humanos e proporciona uma abordagem mais ética e legalmente defensável para a obtenção de informações. Vídeo Podcast O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 131 No entanto, é importante notar que a aplicação bem-sucedida do modelo PEACE requer treinamento e habilidades específicas por parte dos entrevistadores. Além disso, a estrutura pode ser adaptada para se adequar a circunstâncias específicas de diferentes casos. Em resumo, o modelo PEACE é uma ferramenta valiosa para entrevistas investigativas que buscam garantir a precisão e a justiça no processo de coleta de informações em contextos legais. Nas próximas aulas você irá conhecer o passo a passo para organizar uma entrevista investigativa, iniciando pela atenção na escolha do local, passando por todo o processo de realização de uma entrevista, assim como sua finalização adequada. Nos materiais abaixo, Yuri Camilo, do Projeto Investigador Forense discorre sobre o método PEACE: SAIBA MAIS O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 132 AULA 3 Organizando uma entrevista investigativa O processo de organização de uma entrevista investigativa, passa por algumas etapas fundamentais para que você consiga obter sucesso na atividade. Nesta aula, você vai conhecer e compreender todos os passos que compõem esta trilha investigativa. O espaço adequado para uma entrevista investigativa Recomenda-se iniciar o processo definindo em seu órgão de trabalho o melhor espaço para realização da entrevista, entende-se como espaço adequado, uma sala que tenha um bom isolamento acústico, que não seja local de passagem de pessoas que não estão envolvidas na atividade, um espaço climatizado de forma que ofereça um conforto térmico, especialmente para a testemunha. Será necessário dispor de cadeiras/poltronas e mesas laterais, não utilize mesas entre você e a declarante, conforme você estudou na aula anterior, tais utensílios dificultam o estabelecimento do rapport entre entrevistador e testemunha. O local não deve dispor de decoração em excesso, muitos elementos geram distração e prejudicam a concentração necessária para o momento. Disponha as cadeiras/poltronas de costas para a janela, outro elemento que desconcentra a testemunha. Em caso de entrevista com gravação de vídeo, a câmera deve ficar posicionada de forma que todo o corpo da testemunha seja gravado, isto facilita a leitura da linguagem corporal, posterior a entrevista. Providencie água e café, esses itens transmitem conforto a todos os presentes, assim como papel e caneta, que ajudam na demonstração gráfica de fatos ocorridos no evento. A adequada organização do espaço, proporciona uma bem-sucedida entrevista investigativa, inclusive, no que diz respeito ao resgate de memórias e a construção de um bom relacionamento entre a testemunha e o entrevistador. ANOTA AÍ Essa organização do espaço, deve ser planejada e providenciada com antecedência e precisa ser registrada no checklist conforme exemplificado na aula 1, desta unidade. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 133 Momento da entrevista: quem deve ficar presente na sala? Após organizado adequadamente o espaço, onde ocorrerá a entrevista, é necessário definir quem e quantas são as pessoas que estarão presentes na sala da entrevista. Neste tópico você vai conhecer algumas variáveis que determinam a configuração conforme algumas necessidades da testemunha ou do entrevistador: Em relação à testemunha, as principais variáveis são: necessidade de um acompanhante, familiar ou amigo; necessidade de levar filhos pequenos; necessidade de um tradutor de idiomas ou intérprete de língua de sinais. Essas são algumas das situações que fazem com que o condutor da entrevista autorize a participação de mais de uma pessoa na atividade, no primeiro caso “necessidade de um acompanhante, familiar ou amigo” nesse caso a solicitação parte da testemunha e ocorre por não se sentir à vontade para ficar sozinha no momento da entrevista. O entrevistador deve tentar fazer com que a declarante adquira confiança suficiente, porém se não obter sucesso, é importante explicar que o acompanhante não deve se pronunciar de forma alguma e o mesmo deve ficar posicionado fora do campo de visão da declarante. No que se refere à segunda necessidade, quando a testemunha tem filhos pequenos e precisa levá-los para a entrevista, o ideal é organizar uma equipe de apoio que permaneçaem uma sala próxima com os filhos menores, para evitar distrações durante a atividade. No caso de crianças muito pequenas, provavelmente será necessário ficar na mesma sala, porém sempre com uma equipe de apoio e, de preferência, atrás da declarante. E por fim, a última necessidade, se refere ao idioma falado pela declarante e a necessidade de uma pessoa para fazer a tradução, neste caso o tradutor precisa ficar dentro do campo de visão para garantir uma tradução mais eficaz, em especial se for um tradutor de língua de sinais, se a testemunha seja uma pessoa com deficiência auditiva, deve-se ter no mínimo dois intérpretes de Libras que possam revezar, durante todo o período da entrevista. Contudo, registra-se que o ideal é estar presente o mínimo possível de pessoas, somente as que realmente são necessárias para o desenvolvimento da entrevista, isso garante uma melhor qualidade dos fatos relatados. ANOTA AÍ O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 134 Gravação da entrevista Recepção da testemunha Para que se possa garantir um registro adequado da entrevista é essencial que seja realizada a gravação dela, que pode ser executada somente em áudio ou em áudio e vídeo, sendo que a gravação em áudio e vídeo é considerada ideal, visto que a imagem permite a análise de expressões não verbais, essenciais para o processo investigativo. Para além disso, observa-se que a gravação garante um registro que ultrapassa a barreira do tempo, reduzindo sobremaneira a necessidade da tomada de novos depoimentos. Importa registrar que nem todas as pessoas se sentem confortáveis com a gravação de sua imagem, dessa forma, torna-se necessário que o entrevistador seja convincente e apresente todos os benefícios da realização do registro em áudio e vídeo. Outro ponto importante de ser registrado é a necessidade do preenchimento do termo de consentimento para realização do registro da entrevista, esta autorização deve ser feita por escrito e no início da gravação. O momento inicial de recepção da testemunha, impacta no desenvolvimento de toda a entrevista, isto ocorre porque o bom relacionamento é construído a partir da primeira impressão. Em alguns casos a gravação é obrigatória por determinação legal. Mesmo neste caso, recomenda-se que seja feita a declaração prévia da testemunha para gravação de suas declarações. ATENÇÃO Cuidado para não usar vestimentas que possam constranger a testemunha ou passar uma ideia de superioridade. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 135 1) Seja pontual A equipe responsável pela entrevista precisa estar presente no local com no mínimo 1 hora de antecedência. 2) Seja gentil e cortês Receba a testemunha com tranquilidade, segurança e aperto de mão, pergunte como ela prefere ser chamada, se apresente nome/função. 3) Ofereça água e café Esses dois itens transmitem uma sensação de conforto. 4) Mantenha uma postura corporal adequada Sente-se numa distância que não seja tão próxima, nem distante da testemunha, mantenha o espaço entre vocês livre, sem mesas ou outro obstáculo, o corpo deve ficar levemente inclinado na direção da declarante. 5) Crie um contato ocular Esse vínculo estabelecido pelo olhar deve ser pensado durante toda a entrevista, o contato ocular constante, pode gerar um certo constrangimento, sendo assim, alterne o olhar, não fixe de forma a deixar a declarante inibida, porém lembre-se de demonstrar atenção constante. 6) Reduza a ansiedade da testemunha Inicie a conversa de forma mais informal, falando sobre o clima ou outros assuntos que não se relacionem diretamente com os fatos que são objeto do depoimento. 7) Motive a testemunha Explique a importância da sua participação na entrevista para o esclarecimento de todos os aspectos do evento. Sendo assim, algumas estratégias podem ser tomadas para garantir uma boa impressão entre a testemunha, o entrevistador e sua equipe: O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 136 Tabela 2 - Resumo de variáveis em uma entrevista Fonte - Autoras (2023) ATENÇÃO Para se estabelecer uma boa relação com a testemunha, é necessário identificar o perfil dela, a partir dessa pesquisa, você conseguirá se planejar desde a recepção até a conclusão da entrevista investigativa. Na próxima aula, você irá estudar sobre os diferentes tipos de perguntas e perceber a importância das mesmas durante a entrevista, o momento certo para realizá-las, como também a relação do tipo de pergunta com o sucesso ou não da entrevista. A aula 4 também relata o momento do encerramento da entrevista e os procedimentos necessários para manter um canal de comunicação aberto com as vítimas e testemunhas. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 137 AULA 4 A entrevista investigativa do início ao fim Com o decorrer das aulas, você aprendeu que o objetivo da entrevista investigativa é obter o relato mais completo possível dos fatos, esse relato só é possível com o resgate das memórias das vítimas e testemunhas, e é por isso, que se reforça durante o curso, diversas técnicas e ferramentas que auxiliam na reconstrução das lembranças. Para tanto, a narrativa livre é essencial para entrevista investigativa, ou seja, o declarante tem o controle da fala e a condução do entrevistador deve ser com o mínimo de interrupções, conferindo ao declarante o tempo necessário para construção do pensamento e resgate das memórias sobre o evento. As perguntas realizadas, devem ter como foco principal o esclarecimento de falas obscuras ou ambíguas, evitando uma má interpretação do relato, sempre com o objetivo de deixar o mais claro possível o que está sendo dito, e devem ser realizadas em um momento à posteriori, destinado a realização de perguntas, nunca durante a narrativa livre. O papel do entrevistador é incentivar a testemunha a fazer uma narrativa livre, conduzindo inicialmente a mesma a uma recriação mental do contexto, a partir de lembranças como o que estava fazendo naquele momento, quais as pessoas que estavam no local, lembrar dos detalhes que observou, inclusive do que estava pensando e sentido no momento. Realizado este momento inicial, o entrevistador deve adotar uma postura de escuta ativa, utilizando principalmente elementos não verbais durante a fala da declarante. Na psicologia cognitiva, a reconstrução de memória através da [re] contextualização dos fatos vivenciados originalmente é considerada mais eficaz do que outras técnicas. Se um registro está inacessível pela trilha da mente que normalmente seria percorrida, é necessário recorrer a outro caminho Como iniciar a entrevista e incentivar a narrativa livre: (Nome da testemunha) é muito importante que você relate todos os detalhes, mesmo aqueles que pareçam sem importância. Não vou te perguntar nada, vou apenas te ouvir. Pode falar tudo o que vier à sua mente, sem se preocupar com a ordem dos fatos. Não temos pressa, você pode utilizar o tempo que for necessário. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 138 Para a recriação mental, experimente o seguinte exercício: - Antes que você comece seu relato, gostaria de convidá-la a fazer um pequeno exercício. Podemos tentar? - Sim - afirma a testemunha. - Caso se sinta à vontade, pode ficar de olhos fechados… vou pedir que você se concentre e retorne no tempo para o dia em que (ocorrência investigada) ... (pausa)... recorde o que estava fazendo naquele momento, das pessoas que estavam no local. Deixe que toda a cena se forme em sua mente… (pausa)...lembre- se de tudo que observou naquele momento, o que as pessoas estavam fazendo. Recorde o que você estava pensando naquele momento… (pausa). Quando você achar que essas memórias já estão claras na sua mente, me avise para começarmos seu depoimento. (VIEGAS, MAURMANN, 2020). Passado o momento da narrativa livre, o entrevistador deve procurar esclarecer todos os trechos da entrevista que por algum motivo não ficaram claros, para tanto elabora perguntas, essasde água, luz, postos de combustíveis, supermercado, segurança pública, vias de acesso, terminais de passageiros, dentre outros. Também se faz necessária uma infraestrutura específica, como hotéis, agências de viagens, atrativos turísticos entre outros para que a engrenagem do turismo funcione adequadamente. O epicentro do fenômeno turístico é de caráter humano, uma vez que são estes que se deslocam e, ao fazerem isso, entram em contato com outros homens. Dessa forma, é de fundamental importância considerar outros elementos além dos econômicos, priorizando a percepção do homem dentro do processo histórico, político e social inerente à experiência turística (MOESCH, 2002). Assim, a atividade turística deve ser concebida como um sistema, que se desenvolve como uma engrenagem, trata-se, pois de um sistema aberto, no qual um elemento depende do outro, sendo eles interdependentes e nunca autossuficientes (BENI, 2000). O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 14 Trata-se, portanto, de uma atividade complexa e interdisciplinar, que se conecta a diversas áreas e setores, com impactos significativos em diferentes aspectos da sociedade. Ressalta-se, ainda, de acordo com Petrocchi (2001, p. 15) que “[...] a visão sistêmica preocupa-se com a soma desses valores e com cada uma das partes, pois cada um dos subsistemas afeta o resultado do todo”. A seguir, reportagem que elenca os principais fatores que tendem a prejudicar o turismo no Brasil. Clique e leia a reportagem completa! O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 15 Fonte: BBC News, Brasil (2022) Exploraremos, a partir dessa concepção, as conexões da atividade turística, discutindo essas interfaces e relacionando-as à segurança pública. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 16 Figura 4: As interfaces do Turismo Fonte: Conteudistas adaptado pela COED (2024) O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 17 1.1 Turismo, tecnologia e as interfaces digitais Enquanto sistema, a atividade turística deve dispor de uma boa gestão local. O seu desenvolvimento exige planejamento, controle e aprimoramento - funções básicas da Administração. Dentre os múltiplos fatores e dimensões que impactam a atividade, destaca-se o avanço das tecnologias, geralmente voltadas para o conforto e a segurança dos viajantes. Nesse quesito, as soluções e inovações tecnológicas oferecem benefícios, tanto para o viajante, quanto para os gestores do turismo e da segurança pública. Turistas fazem uso das tecnologias há algum tempo e seu emprego pode ser percebido em aplicativos e dispositivos eletrônicos que auxiliam na orientação, dicas de roteiros e pontos de interesse, por exemplo. O emprego desses recursos começa antes mesmo do potencial turista definir o destino, buscando informações relativas à hospedagem, reservas aéreas e câmbio, sendo realizada com o apoio de aplicativos de viagens, redes sociais e experiências compartilhadas por outros usuários em blogs e sites especializados. Figura: Aplicativos e soluções digitais para o viajante Fonte: Wert Garantie (2024) O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 18 As interfaces digitais no turismo também têm impactos significativos nos negócios e na gestão do setor. Elas permitem que as empresas de turismo gerenciem suas operações de forma mais eficiente, automatizem processos, coletem e analisem dados para tomar decisões estratégicas, e se comuniquem de forma mais eficaz com os clientes. Essas interfaces digitais permitem aos viajantes pesquisar e comparar opções, fazer reservas, obter informações em tempo real, interagir com outros viajantes e compartilhar experiências. Além disso, as tecnologias digitais também têm sido aplicadas em áreas como realidade virtual e aumentada, além da inteligência artificial, proporcionando experiências imersivas e personalizadas aos turistas. De igual modo, a tecnologia tem condições de promover a colaboração e a integração entre os diferentes atores do setor do turismo, como agências de viagens, hotéis, companhias aéreas, restaurantes e destinos turísticos. Por exemplo, plataformas de reserva online podem conectar fornecedores de serviços turísticos a clientes em potencial, facilitando a movimentação e a distribuição de produtos turísticos. Na segurança pública, como veremos adiante, as possibilidades de uso pelas instituições são inúmeras e abrangem desde o uso de câmeras para o monitoramento de regiões com maior fluxo de pessoas, até o desenvolvimento de aplicativos para o registro de demandas e suporte aos turistas. Você acredita que o acesso à internet, a qualidade da conexão local e a existência de serviços públicos digitais disponibilizados pelo poder público são capazes de influenciar a decisão de viajantes? Como esses recursos impactam a sensação de segurança do turista? A existência de aplicativo, por exemplo, que dê suporte para o turista estrangeiro se comunicar em tempo real, no idioma de origem e com informações básicas acerca da região, poderia auxiliar na escolha do destino de alguém que esteja em dúvidas sobre a segurança de determinada localidade? PARA REFLETIR A tecnologia tem desempenhado um papel cada vez mais importante no setor do turismo, transformando a forma como as pessoas planejam, reservam e vivenciam suas viagens. As interfaces digitais, como sites, aplicativos móveis e sistemas de reserva online, facilitam o acesso à informação sobre destinos, segurança, atividades e serviços turísticos. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 19 Nos últimos dois anos, a prestação de serviços digitais no país e a população conectada às redes registraram crescimento em todas as esferas do setor público brasileiro. Estudo recente do Comitê Gestor da Internet no Brasil trouxe números importantes e considerações acerca do uso das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), tanto sobre a prestação de serviços públicos ofertados remotamente no país, quanto aos hábitos do brasileiro, de acesso à internet. Abaixo, um trecho do curso de TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA, disponível na Rede EaD Senasp, que discute as soluções digitais e emprego pelos agentes de segurança no Brasil. SEGURANÇA PÚBLICA E TECNOLOGIA Figura 2: Domicílios com acesso à Internet, por região – 2021 Fonte: CGI.BR (2022). Em 2022, três de cada quatro órgãos federais (75%) declararam disponibilizar de forma digital o serviço público mais procurado pelos cidadãos, cenário bem diferente daquele obtido em 2019, quando pouco mais da metade desses órgãos afirmaram a intenção de utilizar os serviços em formato online. Nas entidades estaduais, a oferta pela Internet do serviço mais procurado cresceu de 31%, em 2019, para 45%, em 2021. Observou-se ainda uma diminuição de órgãos públicos que reportaram não oferecer o serviço mais buscado pela internet, como nos órgãos federais (de 8% para 2%) e estaduais (de 20% para 13%). O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 20 A pesquisa demonstra um aumento na adoção de chats em websites, seja com atendentes humanos ou de forma automatizada. No âmbito federal, o uso de chats com atendentes em tempo real passou de 8%, em 2019, para 30%, em 2021. Nos órgãos estaduais, o uso que era de 5% em 2019 alcançou 18% em 2021 (CGI.Br, 2022). De acordo com o estudo, a adoção de soluções tecnológicas ainda ocorre de forma tímida no setor público brasileiro e, entre as iniciativas pesquisadas, as tecnologias ligadas à Inteligência Artificial (IA) apareceram como as mais utilizadas (no entanto representando uma pequena quantidade no país). Já a Internet das Coisas (IoT) e o blockchain foram soluções empregadas por menos de 20% das organizações federais e estaduais dos Poderes Executivo, Legislativo, Judiciário e Ministério Público. Gráfico 1: Perfis dos usuários de internet que recorrem aos serviços públicos nos últimos 12 meses (%) Fonte: CGI.br (2022). Pesquisa sobre o uso dasperguntas segundo (MAURMANN e PINTO, 2000) podem ser classificadas por sua amplitude (abertas ou fechadas) ou pelo assunto tratado (primárias ou de sondagem). Exemplos de perguntas abertas e fechadas: Fonte - Autoras (2023) Observe que, quanto menos fechada for a pergunta, mais opções de resposta existirão, permitindo que a testemunha relate mais sobre o assunto abordado, por outro lado as perguntas fechadas exigem que a pessoa assuma um posicionamento, o que pode ser o objetivo do entrevistador em determinadas situações. Em relação à pergunta primária e à pergunta de sondagem, a principal diferença é que a pergunta primária muda o foco do que está sendo tratado, enquanto a pergunta de sondagem complementa algum aspecto do mesmo assunto. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 139 Tabela 4 - Exemplo de pergunta primária Fonte - Autoras (2023) Após o entendimento sobre a pergunta primária, passa-se para a pergunta de sondagem, que são divididas em cinco categorias: sondagem em silêncio, sondagem de confirmação, sondagem para esclarecimento, sondagem informacional e sondagem reflexiva. 1) Sondagem em silêncio É demonstrada pela linguagem não verbal, ou seja, as demonstrações de consentimento, podendo ser através de um balanço de cabeça, inclinação corporal, mudança no olhar, ou por frases curtas quando ocorrer pausas na fala da declarante como “continue” “compreendo”. 2) Sondagem de confirmação Esse tipo de pergunta pretende despertar na declarante a vontade de acrescentar mais alguma informação ao relato. 3) Sondagem de esclarecimento Pergunta que se destina a esclarecer algum trecho do relato, podendo ser aberta ou fechada. 4) Sondagem informacional Neste caso, por mais que a informação tenha sido feita de forma clara, o entrevistador percebe que algum detalhe complementar pode auxiliar no entendimento dos fatos. 5) Sondagem reflexiva Convidam a testemunha a refletir sobre o conteúdo de suas declarações. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 140 Exemplos de perguntas abertas e fechadas: Tipos de perguntas sugestivas Fonte - Autoras (2023) Fonte - Autoras (2023) ATENÇÃO Muito cuidado com perguntas sugestivas, pois elas podem induzir determinadas respostas e contaminar o relato. Saber utilizar cada tipo de pergunta, nos momentos adequados, faz toda a diferença em uma entrevista investigativa. Alternar entre perguntas abertas, fechadas, primárias e de sondagem também enriquecem o relato da testemunha, conferindo ao momento da entrevista maiores possibilidades para resgate das lembranças dos fatos. Ressalta-se que o momento das perguntas, não deve ocorrer antes da narrativa livre, sob pena de contaminar e induzir o relato da testemunha. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 141 Por fim, mas não menos importante, destaca-se a possibilidade de realização de entrevista investigativa em formato virtual, nesta modalidade, também devem ser considerados os passos relatados neste módulo, com as respectivas adaptações necessárias para realização de uma entrevista à distância com auxílio de ferramentas de tecnologia. Importa registrar: preferencialmente chamada de vídeo; conexão cabeada, ao invés sem fio; computador ou notebook, ao invés de celulares. Encerrando a entrevista: No encerramento da entrevista, sugere-se que sejam retomados alguns assuntos mais suaves, assim como foi realizado no início da entrevista, tendo em vista que durante o depoimento geralmente são abordados temas sensíveis e desconfortáveis, dessa forma, ao se finalizar uma entrevista de forma amena o declarante ficará com a última impressão mais leve do processo. Também se recomenda que seja lido em voz alta e de forma pausada o resumo das declarações que foram prestadas, informando a testemunha que qualquer diferença que ela perceba entre o que foi registrado e sua declaração, deve ser corrigido durante a leitura final e que mesmo após o término da entrevista, caso tenha alguma recordação de novos elementos, a testemunha pode contatar novamente. Por fim, é muito importante finalizar registrando a importância da colaboração da declarante, agradecendo a disponibilidade em participar e contribuir com todos os esclarecimentos realizados. Procure deixar o canal de comunicação aberto, pois não é raro que sejam necessários novos esclarecimentos, tanto por parte da testemunha, quando por parte do entrevistador, inclusive em casos de aparecimento de novas evidências que podem alterar o curso da investigação. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 142 AULA 5 Um retrato da violência contra a mulher no Brasil e a abordagem de turistas mulheres “Duas mulheres ficaram feridas após um assalto na areia da praia de Copacabana, zona sul do Rio, na manhã desta quarta-feira (21). As vítimas, identificadas como Katarina, 43, e Viktoria, de 21, são turistas da Eslováquia e caminhavam pela orla quando foram abordadas por dois adolescentes de 17 anos, que foram apreendidos. O crime aconteceu por volta das 6h, na Avenida Atlântica, na altura do posto 4. Katarina Novakova, 43, e Viktória Bartkova, 21, tiveram os celulares roubados e foram brutalmente agredidas com socos pelos assaltantes... …Assim que as vítimas foram liberadas do hospital, elas foram encaminhadas para a delegacia, onde irão prestar depoimento. Em nota enviada ao UOL, o Consulado Honorário da Eslováquia RJ e a Embaixada informaram que tomaram conhecimento do caso e as medidas cabíveis já foram efetuadas” Fonte: UOL, 2022 Conforme estudado no Módulo 2, a violência contra as mulheres é um grave problema social e de saúde pública que atinge proporções epidêmicas no Brasil. Ela se manifesta nas interações sociais entre homens e mulheres, influenciada por construções sociais dos papéis de gênero. É importante destacar que esse problema não se restringe a determinados grupos; ele permeia toda a sociedade, afetando indivíduos de diferentes origens e classes sociais. Não seria diferente com turistas mulheres. O crime relatado acima, de duas turistas espancadas à luz do dia, em Copacabana, bairro turístico do Rio de Janeiro, infelizmente, não é exceção. Em 2022, mesmo ano deste fato, 3,4 mil turistas estrangeiros foram vítimas de violência no Rio de Janeiro, segundo a Delegacia Especial de Apoio ao Turismo (Deat) da polícia fluminense. São, em média, 9,5 visitantes internacionais vítimas de violência por dia, no topo da lista, está o bairro de Copacabana. Como antecipado em nosso primeiro módulo, o índice Women’s Danger Index, criado pelos jornalistas Asher e Lyric Ferguson, detectou que o Brasil é o segundo país mais perigoso do mundo para mulheres. O estudo classifica 50 países mais populares para o turismo com base em oito fatores relacionados à segurança das mulheres, incluindo violência sexual, homicídio intencional, discriminação legal e desigualdade de gênero. Women’s Danger Index O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 143 No Brasil, de acordo com o índice, apenas 28% das mulheres se sentem seguras ao caminhar sozinhas à noite. O país também tem a terceira maior taxa de homicídio intencional de mulheres e a sexta maior porcentagem de mulheres que sofreram violência física ou sexual de seus parceiros íntimos. Os problemas identificados no Brasil incluem altas taxas de violência doméstica, feminicídios e violência sexual. A pesquisa destaca a necessidade de medidas para abordar esses problemas e melhorar a segurança das mulheres no Brasil, como campanhas de conscientização, treinamento para profissionais e ações legais mais eficazes. No país, mais de 18 milhões de mulheres sofreram violência em 2022, segundo a pesquisa Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil, realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A pesquisa entrevistou 2.017 pessoas, entre homens e mulheres, em 126 municípios brasileiros e revelou que uma em cada três brasileiras com mais de 16 anos sofreu violência físicae sexual provocada por parceiro íntimo ao longo da vida. São mais de 21,5 milhões de mulheres vítimas de violência física ou sexual por parte de parceiros íntimos ou ex companheiros, representando 33,4% da população feminina do país, mais de 6% acima da média global da Organização Mundial da Saúde, de 27%. Estes dados demonstram a vulnerabilidade do público abordado neste curso. Se a intenção é preparar profissionais da segurança pública para abordar mulheres turistas e apoiar na investigação criminal de ocorrências contra elas, é necessário entender o cenário de violência contra a mulher no Brasil. Não há dados específicos sobre a violência à qual mulheres viajantes são submetidas no Brasil, mas pelos dados gerais, há como se ter uma visão do estado da arte. A violência de gênero contra mulheres turistas estrangeiras é uma questão complexa que exige uma abordagem multidimensional, que vai desde a conscientização e a educação até a implementação de medidas de segurança e preparo da força policial para o devido atendimento. Utilizando os conhecimentos adquiridos neste curso, qual seria a sua abordagem se fosse o policial a atender as turistas eslovacas da matéria acima? O primeiro passo é levar em consideração a sensibilidade, empatia e respeito necessários para lidar com mulheres vítimas deste crime. Caso a turista tenha sofrido algum tipo de violência sexual ou esteja machucada, ela deve ser encaminhada ao Hospital mais próximo para pronto atendimento. No Brasil, ao chegar no hospital, há uma série de protocolos (em um cenário ideal) de abordagem à mulher vítima de violência. Estes protocolos visam garantir o atendimento adequado, o apoio emocional e a coleta de evidências em casos de violência sexual. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 144 1) Atendimento Médico de Emergência: O primeiro passo é fornecer atendimento médico de emergência, caso a vítima tenha ferimentos físicos que necessitem de tratamento imediato. A prioridade é garantir a segurança e a integridade física da vítima. 2) Apoio Psicológico e Social: Às vítimas de violência recebem apoio psicológico e social, geralmente por meio de equipes de psicólogos, assistentes sociais ou profissionais de saúde mental. Isso é fundamental para ajudar a vítima a lidar com o trauma e a tomar decisões sobre seu atendimento e apoio subsequente. 3) Coleta de Evidências: Em casos de violência sexual, os profissionais de saúde são treinados para coletar evidências forenses de forma sensível e respeitosa. Isso inclui a coleta de amostras de DNA, fotografias de lesões e a documentação detalhada do histórico da agressão. 4) Notificação às Autoridades: Caso a vítima deseje denunciar o crime, a equipe médica auxilia na notificação das autoridades competentes, como a polícia, para garantir que o caso seja investigado adequadamente. 5) Acesso a Serviços de Saúde Reprodutiva: Em casos de violência sexual, a vítima tem acesso a serviços de saúde reprodutiva, incluindo informações sobre contracepção de emergência e profilaxia pós-exposição (PEP) para prevenir infecções sexualmente transmissíveis, como o HIV. 6) Orientação sobre Direitos: A vítima recebe informações sobre seus direitos legais e as opções disponíveis, como solicitar medidas protetivas, entrar com ações legais contra o agressor e acessar serviços de apoio psicológico e social. 7) Confidencialidade e Sigilo: É essencial garantir a confidencialidade e o sigilo das informações da vítima, a menos que haja risco iminente à sua segurança. 8) Entrevista Investigativa: A vítima deve ser encorajada a relatar o incidente à polícia e a entrevista investigativa é o melhor método para a escuta deste depoimento. 9) Contato com consulado/ embaixada: Se a vítima for uma cidadã estrangeira, entre em contato com a embaixada ou consulado do país dela no Brasil. Eles podem oferecer assistência consular, como fornecer informações sobre direitos legais, ajudar com documentação e comunicar com a família da vítima, se necessário. 10) Apoio na Partida ou Continuação da Viagem: Dependendo da gravidade do incidente, a vítima pode precisar de assistência para decidir se deseja continuar a viagem ou voltar para casa. Indique alguém que possa fornecer suporte logístico, como o reagendamento de voos, transporte e acomodação, se necessário. Aqui estão seguem algumas sugestões de abordagem: O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 145 É importante ressaltar que a abordagem à mulher vítima de violência no Brasil deve ser realizada de forma empática, respeitosa e centrada na vítima, com foco na segurança e no bem-estar da pessoa agredida. Há leis e regulamentos específicos que regem a atenção à violência de gênero, conforme foi explicado no Módulo 3 e as instituições de saúde têm a responsabilidade de cumprir essas diretrizes. Para finalizar, a pesquisa Women’s Danger Index, destaca a necessidade de medidas para abordar esses problemas e melhorar a segurança das mulheres no Brasil, como campanhas de conscientização, treinamento para profissionais e ações legais mais eficazes. É fundamental que as autoridades brasileiras e a indústria do turismo trabalhem em conjunto para criar um ambiente seguro e acolhedor para turistas estrangeiras. A segurança dos visitantes é um fator-chave na promoção do turismo no país e na construção de uma reputação positiva no cenário global. Espera-se, com esta publicação, contribuir neste processo de posicionamento do Brasil como uma potência turística. Em linhas gerais, quando tais crimes ocorrem, as mulheres recorrem às unidades de apoio policial próximas ao fato, as quais fazem os encaminhamentos devidos. No entanto, seria importante a existência de uma rede de apoio a essas mulheres e por esta, se entende um atendimento não só no eixo policial, mas também todo um aparato articulado de atuação entre as instituições/ serviços governamentais, não governamentais e a comunidade visando ao desenvolvimento de estratégias efetivas de prevenção e de políticas públicas que garantam o empoderamento e a construção da autonomia das mulheres, os seus direitos humanos, a responsabilização dos agressores e a assistência qualificada às mulheres em situação de violência, tendo por objetivo efetivar os quatro eixos previstos na Política Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres – combate, prevenção, assistência e garantia de direitos – e dar conta da complexidade do fenômeno da violência contra as mulheres. É preciso o olhar diferenciado para a questão da mulher turista vítima de crime, haja vista que a mesma não está normalmente perto de seus entes queridos, encontra-se fora da cidade onde habita de seus costumes e conhecimentos locais, sente-se muitas vezes sozinha e sem, saber a quem recorrer no momento de perigo, sofrem por vezes o Women’s Danger Index ATENÇÃO Ressalte- se a necessidade veemente de uma rede de proteção às turistas vítimas de crime. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 146 machismo e preconceito e é necessário que uma rede de proteção acolha essa mulher e a trate com o devido respeito auxiliando, inclusive, na questão psicológica que envolve ser vítima de um ato criminoso. Enfrentamento à Violência contra as Mulheres Acesse e leia a matéria: Neste módulo, você aprendeu: A entrevista investigativa tem caráter colaborativo e não objetiva o confronto e por isso é fundamental para o sucesso da investigação; Existem diferenças claras entre a entrevista investigativa e o interrogatório policial; A entrevista investigativa possui características e protocolos específicos e suas abordagens devem seguir um planejamento minucioso. Existem vários tipos de perguntas, e a escolha de como realizá-las interfere na declaração da testemunha; Os protocolos e habilidades do(a) entrevistador(a) investigativo(a quando se trata de uma mulher turista, perpassam pela sensibilidade na aplicação das técnicas; O processo de organização da entrevista investigativa leva em consideraçãodiversos fatores internos e externos; É possível recuperar memórias não acessadas pela testemunha. Para realizar uma entrevista investigativa exitosa é importante utlizar a escuta empática e ativa, além de saber interpretar a linguagem não verbal. No Brasil, a violência contra a mulher atinge índices maiores que os da média global, ou seja, isso inclui as mulheres viajantes. O atendimento a este público deve ter um olhar diferenciado e especial. SAIBA MAIS SÍNTESE O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 147 Referências ALVES e BUENO, Vazios Urbanos Públicos: Abandono e rupturas na cidade de Erechim/RS, UFPel, 2023. Disponível em: https://periodicos.ufpel.edu.br/index.php/pixo/article/download/26465/19613/ . Acesso em: 10/10/2023. ANGOTTI, Bruna. Cadernos da Escola do Parlamento. Igualdade de Gênero I. Disponível em: http://www2.câmara.sp.gov.br/dce/escola_do_parlamento/publicacoes/CEP_IV_Igualda de_de_Genero_I.pdf. Acesso em: ANSABRASIL. Rio: 34 mil turistas foram vítimas de violência em 2022. 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Em sua opinião, quais fatores contribuem para esse cenário? Por que o número de serviços ofertados digitalmente na segurança pública é menor que nos demais setores? Você acredita que há espaço para crescimento? Na sua instituição, o registro de ocorrências, o atendimento aos cidadãos e acompanhamento de processos poderiam, em determinados casos, ser ofertados remotamente? PARA REFLETIR Verifica-se na segurança pública que as TICs ainda são pouco exploradas, revelando inúmeras alternativas para a aplicação. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 22 Como você acredita que essa realidade possa ser transformada? Para mais informações sobre o tema, faça o curso TECNOLOGIAS APLICADAS À SEGURANÇA PÚBLICA da Rede EaD Senasp. O turismo é composto por diversos atores que fazem parte do poder público e da iniciativa privada. Esses atores são como as engrenagens do turismo e precisam de uma gestão ou governança para que seu desenvolvimento seja representativo para todos os envolvidos. Nesse sentido, a política e a governança estão interligadas e desempenham um papel fundamental no desenvolvimento e na gestão do setor. Logo, a política e a governança são responsáveis por estabelecer diretrizes, regulamentações e estratégias para o turismo, promovendo a promoção de um desenvolvimento sustentável, equitativo e responsável. A política de turismo envolve a formulação e implementação de medidas e ações governamentais para promover o turismo como um setor econômico importante. Isso inclui a criação de políticas de incentivo, atração de investimentos, promoção de destinos, desenvolvimento de infraestrutura turística e estabelecimento de marcos regulatórios. Para Mastrocinque (2015, p.141): Para a autora, governança eficaz do turismo envolve a criação de parcerias e redes de cooperação entre os diferentes atores, a promoção da participação da comunidade local na tomada de decisões, a gestão sustentável dos recursos naturais e culturais, a proteção dos direitos dos trabalhadores do setor turístico e a promoção da qualidade e segurança dos serviços turísticos. 1.2 Turismo, gestão, política e governança A governança do turismo refere-se aos mecanismos e processos de tomada de decisão, cooperativa e gestão do setor turístico. Isso envolve a participação de diferentes atores, como governos, empresas do setor privado, organizações da sociedade civil e comunidades locais. A busca por governança garante a colaboração, a transparência, a responsabilidade e a participação de todos os envolvidos no planejamento e na gestão do turismo. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 23 Além disso, a política e a governança do turismo devem levar em consideração os princípios do turismo sustentável, minimizando os impactos negativos no meio ambiente, na cultura local e nas comunidades, ao mesmo tempo, em que maximizam os benefícios econômicos e sociais. Essa complexidade entre sujeitos, tempo e espaços, e os antagonismos expressados nas práticas discursivas políticas e sociais, podem ser traduzidos em uma das principais questões desse fenômeno social que é a sustentabilidade dos recursos naturais e culturais dos locais turísticos para as futuras gerações. Todos esses aspectos são intrínsecos à oferta e demanda turística, bem como possuem relações diretas com as motivações sentidas pelas pessoas para visitarem os diferentes produtos turísticos do Brasil. Amplia-se, assim, os fatores que impactam a gestão do turismo, devendo-se considerar variáveis como infraestrutura, segurança e meio ambiente, mas não apenas! A concepção moderna de turismo deve, sobretudo, focar no desenvolvimento do setor de forma sustentável, isto é, aquele dito “turismo responsável”, o qual possui bases comunitárias, que respeita os objetivos e diretrizes traçados pela própria comunidade. O turismo atrai o interesse público e privado devido aos impactos econômicos e sociais. Segundo Krippendorf (1989), geralmente os dois impactos, positivos e negativos, estão presentes em qualquer local que atrai fluxos turísticos. O ganho está em analisar constantemente se há mais custos ou benefícios para o local e os sujeitos, moradores ou turista. a participação das comunidades nos processos decisórios da gestão do turismo; a gestão e transparências das informações; a distribuição dos benefícios gerados pelo turismo para as comunidades; a valorização e a promoção da cultura e do modo de vida local; a responsabilidade socioambiental; e a promoção de relações interculturais entre visitantes e comunidades anfitriãs. O Turismo de Base Comunitária, portanto, propõe, de maneira construtiva, inclusiva, democrática e de base endógena, atingir os seguintes objetivos: O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 24 Recomenda-se, portanto a definição de políticas sustentáveis e execução de planos de ação estruturados na participação social e dos demais interessados. As medidas de desenvolvimento devem se basear na realidade vivenciada e nas oportunidades locais existentes. Para o desenho de um plano coerente, é importante identificar potenciais ambientes, infraestrutura, meios de transporte utilizados pelos visitantes, a origem (nacionalidade e rotas), os principais interesses e as atrações que concentram grande procura. As instituições de segurança, de defesa civil e de emergência, nesse contexto, devem contribuir para o progresso do turismo, em prol das políticas desenhadas democraticamente e de acordo com os anseios da comunidade. A definição de políticas públicas para o desenvolvimento e a organização do turismo são essenciais para a efetivação desse fenômeno, econômico, social, cultural e ambiental, e amparam todos os deslocamentos de pessoas no e para o país. As políticas públicas para a entrada de estrangeiros no país, como as leis de trânsito, marinha, segurança pública, paz interna, saneamento básico, medidas sanitárias, meios de comunicação, tecnologias, uso do solo, questões ambientais, trabalhistas e incentivo ao empreendedorismo, são exemplos de como o fenômeno turístico é complexo e sensível. O turismo lida com a experiência de vida das pessoas fora do seu entorno habitual, ao longo de seus ciclos de vida, desde a infância, passando pela juventude até o envelhecimento. Nesse sentido, são instrumentos de uma política de turismo orientada para o desenvolvimento comunitário: a participação, a autogestão, integração e cooperação entre os atores envolvidos nos núcleos turísticos, tais como iniciativas públicas, privadas, sociedade civil, organizada e organismos internacionais. Identificar pontos fortes e fraquezas locais são etapas que antecedem a elaboração de estratégias e alternativas locais de desenvolvimento para o turismo. Estabelecer metas, responsabilidades e prazos é fundamental para a sistematização de um bom plano e exige uma análise do perfil turístico da região, necessidades, recursos e atores envolvidos. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 25 Para que essa experiência aconteça, há uma série de ofertas turísticas usadas pelos turistas, internos e externos. O Brasil, de grandes dimensões geográficas, e diferenças sociais, é marcado por diversificada oferta turística, sobretudo em seus recursos naturais e culturais. De acordo com Oliveira (2002) As principais motivações turísticas são descritas da seguinte forma: turismo de lazer ou de sol e praia, turismo de eventos, águas termais, desporto, religioso, juventude, social,cultural, ecoturismo, compras, aventura, gastronômico, incentivo, terceira idade, rural, cruzeiros marítimos, negócios, LGBTQIA+ e saúde. Figura: Tipos de turismo Fonte: Elaborado pelas conteudistas (2024). O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 26 1.3 Turismo e cultura Cultura e turismo se relacionam mutuamente em um constante processo de transformação. O Brasil é marcado por sua rica diversidade cultural, erigida historicamente e localmente com a participação de diferentes povos e nações. Fatos históricos, elementos étnicos, sociais, econômicos e geográficos moldam a identidade do povo brasileiro e contribuem para a formação de suas tradições, valores e comportamentos. Diversas culturas e povos de diferentes nacionalidades contribuíram para a formação da(s) identidade(s) brasileira(s), cada uma trazendo consigo aspectos culturais, comportamentais quem influenciam e sofrem influência das novas gerações, onde cada interação contribui de maneira significativa no processo de identificação e transformação cultural. Cultura é um conceito complexo das áreas da Antropologia e Sociologia e pode ser considerada como uma construção socioambiental, a partir de sua história, e, como consequência de suas manifestações identitárias, comportamentos e tradições. Possui relação direta com costumes, normas e experiências repassadas de geração a geração. Trata-se de um processo dinâmico e sinérgico. Em que pese a amplitude e dinamismo, algumas características são largamente reconhecidas: O Brasil é conhecido por sua diversidade cultural, resultado da mistura de diferentes grupos étnicos, como indígenas, africanos, europeus e asiáticos. Essa diversidade se reflete nas tradições, na música, na dança, na culinária e nas festas populares do país. O Brasil é um país onde diferentes religiões coexistem e se influenciam mutuamente. O sincretismo religioso é uma característica marcante, com a combinação de elementos do catolicismo, do candomblé, da umbanda e de outras religiões. Diversidade Cultural Sincretismo Religioso O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 27 A cultura popular brasileira é rica e variada, com manifestações como o samba, o frevo, o forró, o maracatu, o bumba-meu-boi, o carnaval e o futebol. Essas expressões culturais desempenham um papel importante na identidade nacional e na coesão social. O povo brasileiro é conhecido por sua hospitalidade, energia, calor humano; receptividade e acolhimento com os visitantes. As festas e comemorações têm um papel importante na cultura brasileira. O carnaval, por exemplo, é uma das festas mais famosas do país, caracterizada por desfiles de escolas de samba, música, dança e fantasias extravagantes. As relações sociais no Brasil são marcadas pela informalidade e pela importância da família e dos amigos. O convívio social é valorizado, e as pessoas tendem a ser extrovertidas e expressivas. O futebol é uma paixão nacional no Brasil. O esporte é amplamente praticado e seguido, e os jogos de futebol são eventos sociais que reúnem pessoas de diferentes idades e classes sociais. A culinária brasileira é diversificada e reflete a influência de diferentes culturas. Pratos como feijoada, acarajé, churrasco, moqueca e brigadeiro são exemplos da variedade gastronômica do país. Cultura Popular Hospitalidade Festividades Relações Sociais Futebol Gastronomia Alguns aspectos Comportamentais de nossa cultura: É importante ressaltar que esses aspectos culturais e comportamentais podem variar em diferentes regiões do Brasil, devido à sua extensão territorial e diversidade regional. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 28 Sobre os aspectos comportamentais dos brasileiros, brasileiras e turistas, esses, se baseiam também, por seus valores individuais, sociais e culturais, como abordado anteriormente. Os aspectos culturais e comportamentais do Brasil são influenciados por sua diversidade étnica, histórica e social. Tradições, valores, religião, música, dança e gastronomia, contribuem para a formação da identidade nacional. Figura: Diversidade cultural, valores e comportamentos Fonte: A12 (2024) É importante perceber que ora você será a (o) turista, ora será a (o) profissional que irá atendê-la (o) e acolhê-la (o). Identificar-se e reconhecer a cultura, a política e o papel do agente público no desenvolvimento do turismo é fundamental para o progresso do setor. Ademais, refletir sobre questões relativas à diversidade de culturas e valores é uma forma de revisitar as atitudes que você deve tomar para assumir uma postura compatível com a sociedade que queremos construir – plural e isonômica. Para isso, é relevante pensar em instrumentos que proporcionem a criação de ambientes onde todos possam conviver de forma harmônica e sustentável, orientados para o aprendizado coletivo e intencionalmente responsável. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 29 Cuidar dos espaços, dos recursos naturais e das pessoas, sobretudo da parcela em situação de vulnerabilidade é papel do profissional de segurança pública e, culturalmente, há evidente herança histórica de desigualdades, que marginaliza e exclui parte da população de uma série de direitos e garantias fundamentais. O cenário de vulnerabilidade é realidade de grande parte das mulheres no país, sejam residentes ou em trânsito (visitantes), sujeitas a um número maior e mais frequente de agressões, como o assédio moral, sexual, o feminicídio, o abuso e a exploração, a ameaça, o furto, o roubo e o estelionato, para citar os mais comuns. Nesse processo de conquista por direitos, as mulheres têm alterado significativamente seu papel e espaço. Gerações mais novas, inclusive, têm desafiado os padrões, dito tradicionais, de comportamento em busca de maior autonomia e igualdade de gênero. É importante ressaltar, por fim, que existem desafios a serem enfrentados. A desigualdade de gênero persiste em diversos aspectos da sociedade brasileira. A violência de gênero é alarmante, a disparidade de salários e a sub-representação das mulheres em cargos de liderança são alguns desses obstáculos. As lutas travadas por direitos e a democratização dos espaços públicos têm permitido às mulheres a condução de trilhas autônomas de formação, marcadas pela independência e titularidade do ser, possibilitando o compartilhamento de experiências individuais, coletivas, sociais, profissionais e afetivas. Ressignificando temas como emancipação política e econômica, lazer, relações afetivas e constituição familiar. Lidar com diferentes públicos e atender demandas legítimas da sociedade exige, por parte do servidor público, a compreensão de que a diversidade é a regra e a diferença é o que marca o convívio social. Valores distintos daqueles que adotamos, por exemplo, estarão presentes em toda atuação do profissional da segurança pública. Ser contradito e questionado é próprio da cidadania. O espaço democrático é plural e assim deve ser. A exclusão de qualquer segmento enfraquece os laços comunitários e corroem as bases que legitimam as instituições. Portanto, dar voz, garantir o exercício de direitos e proteger os desiguais 1.4 Turismo e segurança pública O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 30 é essencialmente o que aproxima a segurança pública do cidadão e confere autonomia e pertencimento ao indivíduo. Portanto, esteja preparado para atuar e atender aquele que você considera diferente, esteja apto a conviver, respeitar culturas diversas e comportamentos distintos. Assim, ao agente público não compete julgar crenças, valores e comportamentos legais, ele deve agir de forma imparcial enquanto se aproxima e assegura a integridade e liberdade individual. Desse modo, no policiamento turístico, assim como na atuação diária do agente de segurança, é fundamental o desempenho ético, legal e efetivo. Dito isso, apresentamos como essa divisão tem sido comumente adotada por especialistas.Observe, no entanto, que as datas podem sofrer alterações de acordo com o estudo analisado. Vale frisar: ao cidadão é lícito o exercício de tudo aquilo que não é proibido, logo proteger esse direito é princípio básico da democracia. Culturalmente, as transformações vivenciadas pelo agente de segurança pública podem ser percebidas mais facilmente quando analisadas sob a ótica geracional. Os nascidos a partir de 2000, por exemplo, tendem a possuir crenças, comportamentos e orientações distintas do grupo de pessoas nascidas na década de 80. Fonte: Infogram (Comunicação Pontotel) O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 31 Logo, espera-se que o profissional da segurança pública seja capaz de administrar os embates geracionais de forma cooperativa, compreendendo os modos diversos como as pessoas se autodeterminam. Nesse contexto, as novas gerações de mulheres, por exemplo, têm buscado participar cada vez mais, tanto em quantidade como em qualidade, do mercado de trabalho, atingindo posições de destaque em diversas áreas profissionais. Elas têm se destacado pela busca de independência financeira, pela quebra de estereótipos de gênero, pela busca por igualdade salarial e de oportunidades. Algumas das características e comportamentos observados nessas gerações: As novas gerações de mulheres cresceram em um ambiente altamente conectado e são nativas digitais. Elas estão constantemente conectadas às redes sociais, utilizam smartphones e têm acesso fácil à informação. Essa conectividade influencia sua forma de se comunicar, buscar informações e se relacionar com o mundo. As novas gerações de mulheres têm se engajado em movimentos feministas e lutado por igualdade de gênero. Elas buscam maior representatividade e igualdade de oportunidades no mercado de trabalho, na política e em outras esferas da sociedade. Essas gerações têm se posicionado contra o machismo e a discriminação de gênero. As novas gerações de mulheres valorizam marcas e empresas que compartilham de seus valores e têm um propósito claro. Elas buscam consumir de forma consciente, levando em consideração questões sociais, ambientais e éticas. Essas gerações têm uma preocupação maior com a sustentabilidade e a responsabilidade social. Conectividade e uso da tecnologia Empoderamento e igualdade de gênero Busca por propósito e valores O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 32 As novas gerações de mulheres têm buscado um equilíbrio entre suas carreiras e suas vidas pessoais. Elas valorizam a flexibilidade no trabalho, buscam por ambientes que promovam o bem-estar e a qualidade de vida, e têm uma visão mais holística do sucesso, que não se limita apenas ao âmbito profissional. Busca por equilíbrio entre vida pessoal e profissional As novas gerações de mulheres têm mostrado um interesse crescente pelo empreendedorismo e pela busca de autonomia. Elas têm procurado criar seus próprios negócios e projetos, aproveitando as oportunidades oferecidas pela tecnologia e pelas redes sociais. Essas gerações têm uma mentalidade mais empreendedora e estão dispostas a correr riscos para alcançar seus objetivos. Empoderamento e igualdade de gênero É importante ressaltar que essas características podem variar de acordo com o contexto social, cultural e econômico em que as mulheres estão inseridas. Nem todas as mulheres das novas gerações se encaixam nessas características, e é importante evitar generalizações. No entanto, essas são algumas tendências observadas nas gerações de mulheres mais jovens. IMPORTANTEi AULA 2 Policiamento orientado para o turismo Com a massificação da internet e dos dispositivos de comunicação e interatividade, basta que uma notícia negativa acerca de determinada prática ou de uma localidade provoque centenas ou até milhares de cancelamentos de viagens por parte dos turistas. Práticas discriminatórias ou abusivas, desvios éticos e legais, atuações dolosas ou até mesmo negligentes podem facilmente “viralizar” nas redes sociais e trazer consequências maiores que aquelas registradas em épocas passadas. O dano ocasionado por uma abordagem mal sucedida ou no atendimento de uma ocorrência, por exemplo, podem prejudicar toda uma comunidade. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 33 A segurança e a qualificação dos agentes que lidam diretamente com o turista devem ganhar espaço na agenda dos gestores da segurança pública. A responsabilidade é grande e os prejuízos decorrentes exigirão muito mais energia e recursos para sua correção que aqueles necessários para preveni-los. PARA LEMBRAR É por isso que diversos países, de distintas regiões do mundo, adotaram unidades policiais especializadas em turismo (Wallace, 2020), sendo comum a utilização do policiamento orientado para o turismo (MAWBY ET AL., 2015; PAYAM, 2016). Segundo a definição de Hunter (citado em Wallace, 2020): Estas unidades especializadas prestam um serviço direcionado, destacando-se as seguintes competências (Payam, 2016): Uma segurança orientada para o turismo deve ser compreendida de forma ampla, ou seja, as propostas que impactarão na segurança do turista permeiam diversos setores, além daqueles tipicamente relacionados à atividade-fim do profissional de segurança pública. A estruturação de bases de policiamento, projetos de monitoramento e Policiamento Orientado para o Turismo é uma filosofia de policiamento baseada no conceito de que agentes policiais especialmente treinados, trabalhando estreitamente com líderes empresariais, autoridades aeroportuárias, empresas de apoio ao turismo e cidadãos privados podem ajudar a prevenir ou reduzir tremendamente os problemas turísticos relacionados com a criminalidade, o medo do crime, e a decadência dos bairros através dos quais os turistas viajam frequentemente. (p. 160) Reforçar a prevenção e facilitar a repressão criminais e a subsequente ação judicial. Zelar pela segurança e prestar assistência e informação ao turista. Apoiar e sensibilizar os operadores, turistas e comunidade na adoção de medidas de segurança³. 2 1 3 ³ https://comum.rcaap.pt/bitstream/10400.26/37090/1/TIF-Intendente%20Loureiro.pdf O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 34 patrulhamento orientado para áreas de maior movimento tendem a repercutir na prevenção criminal de forma muito menos efetiva que o desenvolvimento dessas ações aliadas à reestruturação ambiental. Dito de outra forma, é possível afirmar que a segurança turística é exercida por ações que transcendem as atividades de polícia. Investimento social, na infraestrutura e revitalização urbana são medidas de promoção da segurança. É preciso compreender que o investimento em iluminação, limpeza, manutenção, roçagem de lotes, o cuidado com espaços públicos e alternativas de lazer para crianças e jovens têm condições de prevenir ocorrências e diminuir a criminalidade. Sabe-se que os investimentos em prevenção são muito mais eficazes e permitem resultados mais sólidos do que aqueles derivados da repressão e da persecução criminal . Por isso, não há qualquer possibilidade de se pensar “Segurança Pública” no mundo moderno se continuamos lidando, isoladamente, com o trabalho policial e se nós concentramos nele todos os investimentos e toda a expectativa por resultados. As polícias são e continuarão sendo muito importantes para a Segurança Pública. É dever da União e dos Estados aperfeiçoá-las e capacitá-las para que estejam à altura de sua missão de fazer cumprir a Lei e é dever dos cidadãos colaborar ativamente com as forças policiais de forma a torná-las mais eficientes. Ocorre que uma política de segurança deve envolver também outras agências, públicas e privadas, capazes de desenvolver e apoiar políticas da prevenção. Assim, é preciso estruturar uma atividade em rede, que envolva as polícias e muitas outras instituições em um trabalho racional, no qual o esforço de cada um possa complementar o esforço dos demais e não concorrer com ele.Um trabalho onde, ao mesmo tempo, as comunidades passem a desempenhar um verdadeiro protagonismo. 4 U A ideia de “Segurança Pública” pressupõe uma realidade complexa e deve abarcar um conjunto de providências e de programas que podem manter pouca ou nenhuma relação com o trabalho das polícias. Perry Project - Para cada dólar investido em prevenção ao crime, a sociedade economizaria 7 dólares a longo prazo. Estudo de Sansfaçon e Welsh (1999) calculou que os benefícios derivados de investimentos que estimulem o desenvolvimento das crianças e dos jovens e que amparem as famílias na redução do crime variam de $ 1.06 a $ 7.16 para cada dólar gasto. Demonstraram, também, que as ações direcionadas à redução das oportunidades de vitimização produzem um retorno entre $ 1.83 a $ 7.14 para cada dólar investido. Disponível em: https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/sua-seguranca/seguranca-publica/Senasp-1/guiapreven__o2005.pdf (pag. 8) 4 O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 35 É um erro acreditar que as principais “ferramentas” para fazer cumprir a lei são as armas e as algemas, quando deve ser uma boa comunicação, pois tendo em conta que a violência e a força física fazem parte da atividade de todos os agentes de autoridade, as situações perigosas podem ser contidas ou até prevenidas pelos mesmos através do uso cuidado e eficiente de técnicas de comunicação, até porque os cidadãos respondem muito melhor a uma atuação respeitosa do que à demonstração de força ou domínio, pois o nível de respeito que se demonstra afeta diretamente o nível de respeito que se recebe, e isso só é possível quando efetivamente é usada a comunicação. “A capacidade de se comunicar efetivamente, portanto, está no cerne de muito trabalho policial, e o polícia atual precisa de uma caixa de ferramentas de estratégias de comunicação que possam ser adaptadas para atender às inúmeras situações que enfrentam ” (Ainsworth, 2002, p. 68).5 Paralelamente, é importante compreender que a desigualdade no acesso a direitos alimenta a violência. As comunidades mais afetadas pela violência têm em comum uma superposição de carências. Fonte: Mapa da Desigualdade (Abrahão, 2020) DUARTE. Carla Sofia Miranda Figueiredo. Competências comunicacionais – Um desafio à atuação policial. Lisboa, 2019. Disponível em: https://comum.rcaap.pt/bitstream/10400.26/34851/1/Compet%C3%AAncias%20Comunicacionais%20- %20Um%20desafio%20%C3%A0%20atua%C3%A7%C3%A3o%20policial.pdf 5 O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 36 Estes e outros fatores fazem com que estas regiões sejam muito mais violentas do que os bairros de classe média, por exemplo. As regiões mais abandonadas pelo Poder Público, onde residem as pessoas em situação de vulnerabilidade social, serão aquelas onde, tendencialmente, se encontrarão as maiores taxas de desemprego, a maior frequência de abuso de álcool e de drogas ilícitas, os indicadores mais altos de mau êxito e evasão escolar, a maior incidência de casos de gravidez precoce e de negligência dos pais no cuidado e monitoramento de seus filhos etc. Costumam ser, também, as regiões menos policiadas (ALVES e BUENO, 2023). Fonte: G1 (2018) O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 37 Viver em uma região com estas características sociais podem implicar, então, em riscos significativos para a vitimização por homicídio, por exemplo, ou estupro. Riscos que serão ainda maiores nesta mesma região para os moradores jovens e adolescentes. Fonte: G1 (2017) O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 38 As degradações das cidades e da qualidade de vida de seus habitantes estimulam o aumento dos deslocamentos a locais que despertam motivações turísticas fora de seu entorno habitual. Além disso, a influência da mídia na comunicação, divulgação, nos deslocamentos e a globalização que enfraquece as fronteiras entre local, regional, nacional e internacional também reforçam esse trânsito. A discussão sobre a violência e sua relação com a manutenção (crescimento) da desigualdade teria que incorporar o papel que a falta de resposta do poder público desempenha na manutenção dos altos índices de violência. Não se trata aqui de pensar apenas o papel dos agentes encarregados de aplicar as leis, mas de todos aqueles setores que deveriam garantir que a população tenha uma vida digna. Os dados apresentados reforçam que violência e insegurança caminham junto com pouca qualidade de vida, com ausência de política habitacional, com a implementação deficitária de serviços que podem provocar mais competição entre a população que se deseja, em tese, atender e proteger. (CARDIA e SCHIFFER, 2014) Fonte: Núcleo de Estudos da Violência / USP Acesse o mapa interativo, elaborado pelo Instituto Cidades Sustentáveis que traz análise de cada um dos objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU para agenda 2030: IDSC - BR Índice de Desenvolvimento Sustentável das Cidades – Brasil A evolução das 5.570 cidades brasileiras em direção a Agenda 2030 da ONU. SAIBA MAIS Índice de Desenvolvimento O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 39 SAIBA MAIS Ao garantir a segurança dos turistas, os destinos podem colher os benefícios econômicos de forma mais sustentável. Quando não há segurança turística, a economia local pode ser afetada de várias maneiras negativas. Aqui estão alguns dos possíveis impactos, conforme infográfico: 2.1 Segurança, turismo e os impactos na economia O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 40 Portanto, é crucial que as autoridades locais e os envolvidos no setor priorizem a segurança turística para proteger a economia. Isso pode envolver a implementação de medidas de segurança, o treinamento adequado para profissionais, a cooperação entre as autoridades locais e a conscientização dos turistas sobre as medidas de segurança existentes. A seguir, reportagem sobre o tema: Fonte: Elaborado pelas autoras, 2024 O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 41 Figura: Reportagem sobre os impactos da violência no setor de turismo no RJ Fonte: Veja (2024) Quando se fala em segurança turística com foco nas mulheres, agir para beneficiar os aspectos sociais e econômicos irá envolver medidas específicas para garantir a segurança e o bem-estar. Diversas iniciativas exigirão a atuação coordenada de setores distintos do poder público municipal e estadual. Portanto, dispor de espaço colaborativo, preferencialmente integrado por multiagências, poderá auxiliar a divisão de tarefas e o trabalho conjunto. A seguir, listam-se ações que podem ser adotadas: 2.2 Segurança pública orientada para a mulher turista É importante garantir que as áreas turísticas sejam bem iluminadas e tenham presença policial adequada. Isso pode ajudar a prevenir crimes e aumentar a sensação de segurança das mulheres turistas, encorajando-as a visitar e gastar dinheiro no destino. Policiamento e iluminação eficiente Transporte seguro Treinamento de profissionais do setor Promoção de destinos seguros para mulheres Informação e orientação O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 42 É fundamental garantir que o transporte público e privado seja seguro para as mulheres turistas. Isso pode incluir a implementação de medidas de segurança nos transportes, como câmeras de segurança, presença de funcionários de segurança e sistemas de comunicação eficazes. É importante fornecer treinamento adequado para profissionais do setor turístico, como funcionários de hotéis, guias turísticos e motoristas de táxi, sobre como lidar com situações de segurança e como oferecer um ambiente acolhedor e seguro para mulheres turistas. Trabalhar em parceria com organizações locais que promovam a segurança e os direitos das mulheres pode ser uma estratégia eficaz. Essas organizações podem fornecer orientação e apoio às mulheres turistas, além de ajudar a identificar áreas de melhoria em termosde segurança. Fornecer informações claras e precisas sobre a segurança do destino, incluindo áreas a serem evitadas e números de emergência, pode ajudar as mulheres turistas a se sentirem mais seguras. Além disso, oferecer orientação sobre comportamentos seguros e práticas de viagem pode ser útil. Por meio de campanhas de marketing e promoção, os destinos podem destacar suas medidas de segurança específicas para mulheres turistas. Isso pode atrair mais mulheres viajantes, aumentando o número de visitantes e beneficiando a economia local. Parcerias com organizações locais O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 43 Ao implementar essas ações, os destinos podem criar um ambiente seguro e acolhedor para as mulheres turistas, o que pode resultar em um aumento no número de visitantes do sexo feminino. A importância de pensar no turismo na segurança turística das mulheres reside no fato de que as mulheres podem enfrentar desafios e riscos adicionais ao viajar, como assédio sexual, violência de gênero e discriminação. Esses problemas podem afetar características da experiência de viagem das mulheres e até mesmo desencorajá-las a viajar. Ao considerar a segurança turística das mulheres, é necessário implementar medidas e políticas que promovam um ambiente seguro e inclusivo para as mulheres. Isso pode incluir a presença de policiamento adequado, iluminação adequada nas áreas turísticas, transporte seguro, treinamento de funcionários do setor turístico sobre questões de gênero e sensibilização da comunidade local sobre a importância de conformidade e proteção das mulheres turistas. Além disso, é essencial envolver as mulheres na tomada de decisões e no planejamento do turismo, para que suas vozes sejam ouvidas e suas necessidades sejam atendidas. Isso pode ser feito por meio da participação de mulheres em cargos de liderança no setor turístico, consultas públicas e programas de capacitação para mulheres empreendedoras no turismo. Ao promover a segurança turística das mulheres, não apenas se garante uma experiência de viagem positiva para elas, mas também se contribui para a igualdade de gênero e para a promoção de um turismo mais inclusivo e sustentável. A reflexão sobre políticas públicas para a segurança das mulheres turistas é essencial, pois asseguram proteção e bem-estar para mulheres viajantes. A segurança turística de mulheres é de extrema relevância no contexto do turismo. É fundamental que o turismo seja planejado e gerenciado levando em consideração as necessidades e preocupações específicas das mulheres, a fim de garantir que elas se sintam seguras e protegidas durante suas viagens. As políticas públicas desempenham um papel fundamental na criação de um ambiente seguro e inclusivo para as mulheres no setor do turismo. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 44 As políticas públicas podem abordar questões como a implementação de barreiras e dispositivos de segurança, treinamento de funcionários do setor turístico sobre questões de gênero, conscientização da comunidade local acerca do respeito às normas de proteção às mulheres turistas, a criação de mecanismos de denúncia e apoio para mulheres que enfrentam assédio ou violência durante suas viagens. Além disso, podem promover a participação ativa das mulheres na tomada de decisões e no planejamento do turismo, garantindo que suas vozes sejam ouvidas e que suas necessidades sejam atendidas. Isso pode incluir a promoção do empreendedorismo feminino no setor do turismo e a criação de oportunidades de liderança para as mulheres. É importante, portanto, que elas sejam desenvolvidas em colaboração com as partes interessadas relevantes, incluindo organizações de mulheres, agências de turismo, autoridades locais e organizações da sociedade civil. Essa abordagem colaborativa pode garantir que as políticas sejam eficazes, abrangentes e sensíveis às necessidades das mulheres. E quando falamos no recorte das mulheres turistas, há uma preocupação com a segurança dessas mulheres no destino escolhido, haja vista que a divulgação de fatos negativos tende a diminuir toda uma demanda turística e que há uma preocupação evidente com a busca de informação se o local escolhido para a viagem é um local seguro. Acompanhe o depoimento a seguir: Moro em Portugal e sempre tive muita vontade de conhecer o Nordeste brasileiro. Estava me programando para ir ao Nordeste e já havia juntado grande soma em dinheiro para isso e comprado roupas e acessórios que combinassem com o clima tropical e alegre daquela região. Ocorre que, ao ver uma notícia sobre um crime de maior potencial ofensivo ocorrido em outra região do país, tendo essa notícia sido veiculada nos principais jornais e redes sociais de Portugal e sabendo que viajaria sozinha, pensei se não seria perigoso visitar o Brasil pelos riscos na segurança pública e comecei a ponderar ir para outra localidade. Por sorte, encontrei uma amiga brasileira, que estava visitando Portugal, e ela me explicou que o Brasil era seguro sim, viajar, e que (se) eu tomasse as medidas de segurança normais, a viagem seria maravilhosa e eu conseguiria viajar para o Brasil, que sempre foi meu sonho. Eu ouvi a minha amiga e viajei para o Brasil tendo visitado não só o Nordeste, mas também várias regiões lindas brasileiras e a viagem foi inesquecível. Mas eu quase havia desistido do destino por conta da negativa notícia de crime que havia circulado em Portugal. (crédito: pessoal) O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 45 As graves consequências provocadas pela violência contra as mulheres ultrapassam os dramas pessoais e as perdas não se restringem aos núcleos familiares, reverberam em âmbito cultural, econômico e social - de forma local e global. Você consegue estimar os impactos econômicos decorrentes da prática da violência contra a mulher na economia global? E a violência doméstica? Como ela pode prejudicar a economia do Brasil? SAIBA MAIS A seguir, você poderá acessar dois estudos que abordam essa questão. Estudo 1 Estudo 2 O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 46 As reuniões entre os gestores estaduais, bem como outros atores, como o Poder Judiciário, o Ministério Público e, eventualmente, os setores privados, têm se tornado cada vez mais frequentes para discutir novas estratégias de prevenção e enfrentamento à violência. Nessas reuniões, as autoridades analisam o cenário atual da segurança pública, identificam os focos de criminalidade, o horário, o dia da semana, a comparação entre meses e anos, os tipos mais frequentes de crimes e ocorrências policiais e a infraestrutura local. Dessa forma, são criadas estratégias e, em conjunto, são elaborados planos de ação que visam prevenir e combater a criminalidade. Veja as seguintes matérias sobre as reuniões entre os gestores da Segurança Pública: SAIBA MAIS Reunião de trabalho com a cúpula de Segurança Pública Segurança pública O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 47 Trazendo tal metodologia ao turismo, as reuniões com gestores de segurança pública e atores da iniciativa privada que trabalham o turismo local, podem sim ser de grande valia para reduzir a criminalidade local, tendo em vista a ação integrada das forças de segurança e a participação social das representatividades locais. Nesse aspecto, seriam estudadas estratégias de ação a partir dos dados estatísticos afetos à localidade como quais as ocorrências frequentes aos turistas, os dias da semana que mais ocorrem tais crimes ou ocorrências, os locais e suas geografias, quais as dificuldades enfrentadas pelos agentes de segurança naquelas regiões, as situações mais corriqueiras e com base nessa discussão ampla e com a participação também das lideranças locais seriam elaborados planos de ação e algumas dificuldades enfrentadas como a questão da má iluminação que dificulta a ação policial e até outras questões poderiam ser solucionadas a partir dessas discussões e as forçasde segurança, por conseguinte, trabalharem exatamente no foco da criminalidade. Para muitas pessoas viajar significa baixar a guarda, descansar, relaxar total, conhecer outras culturas e ficar distante de preocupações. Exatamente por nutrirem esse tipo de pensamento é que os turistas se tornam alvo fácil para a ação de criminosos. Dentre as ocorrências mais comuns afetas aos turistas estão a perda ou extravio de documentos e os crimes que são considerados não violentos como furto, fraudes, estelionatos, apropriações indébitas. Dentre os crimes considerados violentos, os mais comuns são roubos, extorsões e lesões corporais. As operações policiais em áreas turísticas são de suma importância para a prevenção de delitos. Durante as operações em aeroportos, rodoviárias, praias, campos e outros locais de grande circulação de turistas, os agentes de segurança pública alertam e orientam sobre temas relevantes, supervisionam a área turística, coíbem atos de vandalismo e outros delitos, inclusive, intervindo de forma infiltrada. Em geral, essas operações são exitosas e trazem um resultado satisfatório para toda população e especialmente os turistas. “Um Aliado no Turismo Seguro em Alagoas”. Acesse a reportagem: SAIBA MAIS Reportagem E quais seriam as ocorrências mais comuns que afetam os turistas? O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 48 Leia a matéria completa abaixo: A estratégia utilizada pela Segurança Pública de São Paulo de colocar policiais fantasiados e dessa forma passarem despercebidos pela população no meio dos foliões foi um recurso utilizado que permitiu que a população e os turistas estivessem mais seguros naquela festividade. Recentemente, em São Paulo, segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP), policiais fantasiados auxiliaram na Operação Carnaval de 2024, ação que proporcionou números satisfatórios na redução de roubos e furtos de celulares no período, os registros desses delitos caíram quase 50% em relação ao ano anterior. Fonte: ABC em Off (2024) Você consegue perceber a importância das operações policiais estratégicas na prevenção e repressão desse tipo de crime? PARA REFLETIR O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 49 Dentre as ocorrências mais frequentes que afetam aos turistas está a perda ou extravio de documentos. O agente de segurança que se deparar com tal narrativa deve orientar o turista a registrar a ocorrência policial o mais rápido possível. Para registrar uma ocorrência policial afeta à vítima turista mulher basta comparecer a uma Unidade Policial mais próxima e/ou nos lugares que tiverem Delegacias Especializadas de Atendimento ou Proteção ao Turista e fazer o registro da ocorrência. Há, em muitos estados brasileiros, a figura do Boletim de Ocorrência on-line em que a vítima pode registrar, de seu próprio aparelho celular, a ocorrência policial a qual foi acometida. Pois bem, tais aeroportos possuem profissionais qualificados para atender às demandas afetas aos turistas e eles são especialistas no tema, possuindo, quase sempre, cursos de policiamento turístico para ingresso desses policiais nessas unidades investigativas. O trabalho das Delegacias de Atendimento/ Proteção ao Turista e das Unidades Policiais nos aeroportos brasileiros em muito contribuem para a prevenção e redução da criminalidade. Os tipos penais mais frequentes acometidos às mulheres turistas são: Furto: crime previsto no art. 155 do Código Penal Brasileiro, que consiste na subtração de coisa alheia móvel para si ou para outrem, com o fim de apoderamento definitivo; Estelionato: crime previsto no art. 171 do Código Penal Brasileiro, que consiste em obter para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício ou ardil, ou qualquer outro meio fraudulento; Você sabia que em muitos aeroportos do Brasil existem Delegacias de Proteção ao Turista, com profissionais preparados e equipados para atender as ocorrências policiais? art. 155 art. 171 O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 50 Roubo: crime previsto no art. 157 do Código Penal Brasileiro, que consiste em subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem, mediante grave ameaça ou violência a pessoa, ou depois de havê-la por qualquer meio, reduzido à impossibilidade de resistência; Apropriação Indébita: crime previsto no art. 169 do Código Penal Brasileiro que consiste em apropriar-se alguém de coisa alheia vinda ao seu poder por erro, caso fortuito ou força da natureza; Lesão Corporal: crime previsto no art. 129 do Código Penal Brasileiro que consiste em ofender a integridade corporal ou a saúde de outrem; Extorsão: crime previsto no art. 158 do Código Penal Brasileiro que consiste em constranger alguém a fazer, tolerar ou deixar de fazer algo sob violência ou grave ameaça, com objetivo de obter vantagem indevida. art. 157 art. 169 art. 129 art. 158 Pela importância do tema, faz-se relevante entendermos alguns aspectos principais dos crimes abaixo citados: Furto e Roubo: As ocorrências mais comuns indicam os furtos e roubos, especialmente, de pertences pessoais, incluindo aparelhos celulares. Normalmente, ocorre em festas com grande quantidade de pessoas, a exemplo de réveillon, carnaval etc., ou mesmo em circulação pela cidade visitada. Estelionato e outras fraudes: Quanto às supostas ocorrências de estelionato e outras fraudes, as frequentes ocorrências dizem respeito, por exemplo, à venda de pacotes turísticos aos quais não correspondem à realidade; à venda de hotéis sem a devida lotação, no qual a turista chega à cidade e não tem lugar para ficar; à venda de Airbnb Art. 158. Caput.: Quando a infração deixar vestígios, será indispensável o exame de corpo de delito, direto ou indireto, não podendo supri-lo a confissão do acusado. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 51 sem aclarar no contrato o que realmente contém o local, gerando insatisfação por parte da turista que contratou o serviço, dentre outros casos. É muito importante que no contrato firmado para a locação do Airbnb tenha as especificações do que tem dentro do imóvel, para que não ocorram surpresas indevidas, gerando processo para quem realizou a locação. Lesão Corporal: Em relação à lesão corporal, as ocorrências dizem normalmente respeito a uma discussão inicialmente verbal sobre algum ponto mal esclarecido da viagem e que finda em agressão física, ou ainda, há relatos de agressões em festas onde há grande concentração de pessoas. É importante que tão logo a autoridade policial tome conhecimento do caso de uma possível lesão corporal, que a vítima seja imediatamente encaminhada para o Exame Pericial de Corpo de Delito, no qual será comprovada a materialidade delituosa. Veja o que dispõe o caput do artigo 158 do Código de Processo Penal: Por vestígios entende-se que são as pegadas, rastros, indícios, sinais. A principal finalidade do exame de corpo de delito é a de comprovar que o crime de fato ocorreu. Segundo dispõe o art. 6º, I, II e III e IV do Código de Processo Penal: Veja esse relato de um fato ocorrido com uma turista: logo que tiver conhecimento da prática de infração pena, a autoridade policial deverá dirigir-se ao local, providenciando para que não se alterem o estado das coisas, até a chegada dos peritos criminais; apreender os objetos que tiverem relação com o fato, após liberados pelos peritos criminais; determinar, se for o caso, que se proceda a exame de corpo de delito e a quaisquer outras perícias. O Papel do Profissional do SUSP na Proteção da Mulher Turista 52 “Estava visitando uma cidade brasileira e paguei o pacote com o guia turístico para o Day use do hotel, sendo que ele me disse que o Day use acabaria às 16h30 e, por conta disso, eu e minha amiga fomos aproveitar a piscina do hotel. Às 15h30, o guia turístico chegou no hotel gritando conosco e, aos berros, ele dizia que nós estávamos atrasadas e fazendo isso de propósito.