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FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DO COMPORTAMENTO · AULA 1 É possível uma ciência do comportamento humano? SKINNER, B. F. (1953/2003). Ciência e Comportamento Humano. Caps. I–III. BAUM, W. M. (2019). Compreender o Behaviorismo (3ª ed.). Caps. 1 e 3. 1 A ciência pode ajudar? Skinner (1953), Capítulo I A CIÊNCIA PODE AJUDAR? O mau uso da ciência Francesco Lana, séc. XVII • Projetou um “navio mais leve que o ar” — mas acreditou que Deus jamais permitiria a invenção. • O motivo: nenhuma cidade estaria segura; o navio poderia pairar sobre ela, descarregar soldados, lançar “balas de fogo”. • Previu a guerra aérea moderna em detalhes: paraquedistas, metralhadoras, bombardeios. • “Ao contrário de suas expectativas, Deus permitiu que seu invento se concretizasse. E o homem também.” O que o exemplo mostra • A irresponsabilidade com que a ciência e seus produtos têm sido tratados. • “O poder do homem parece ter aumentado desproporcionalmente à sua sabedoria.” • Duas guerras mundiais em meio século; morte de milhões de inocentes. • A ciência avançou primeiro nos problemas mais fáceis: domínio da natureza inanimada sem preparo para os problemas sociais decorrentes. • Guerras mais terríveis, desequilíbrios sociais, população além dos sistemas de controle. Skinner (1953), pp. 3–5 A CIÊNCIA PODE AJUDAR? Por que querem que abandonemos a ciência? 1 Bode expiatório Em cada época, a característica mais conspícua é responsabilizada pelas dificuldades; no séc. XX, é a ciência. Desacreditada como “arma perigosa”. 2 A tentação do abandono “Abandonar a ciência por uns tempos”; volta às artes, à religião, a uma vida “de paz” — como no Erewhon de Samuel Butler, ciência em museu. 3 A resposta de Skinner “Não há nenhuma virtude na ignorância pela ignorância.” Eliminar a pesquisa = retorno à fome, à peste e ao trabalho exaustivo. “Talvez não seja a ciência que está errada, mas sua aplicação. [...] Apliquemos os métodos da ciência, então, aos assuntos humanos. Na verdade, esta é nossa única esperança.” Skinner (1953), pp. 5–6 — a ciência como corretivo A CIÊNCIA PODE AJUDAR? A ameaça à liberdade: o que a ciência exige A ciência é mais que a mera descrição dos acontecimentos — não se preocupa só em “obter os fatos”. É uma tentativa de descobrir ordem: mostrar que certos eventos estão ordenadamente relacionados a outros. DESCREVER Relatar os eventos e as relações ordenadas entre eles PREVER Tratar não só do passado, mas do futuro CONTROLAR Alterando as condições relevantes, o futuro pode ser manipulado • Pressuposto necessário: o comportamento é ordenado e determinado. • O que o homem faz é resultado de condições especificáveis — que, uma vez determinadas, permitem antecipar e até determinar as ações. A tradição vê o homem como agente livre — produto de “mudanças interiores espontâneas”, de uma “vontade” que torna previsão e controle impossíveis. “Nós, simplesmente, não queremos esta ciência.” Skinner (1953), pp. 6–7 A CIÊNCIA PODE AJUDAR? A desagradável missão de pintar um quadro mais realista “As crenças primitivas sobre o homem e seu lugar na natureza são geralmente lisonjeiras. A desagradável responsabilidade da ciência tem sido a de pintar um quadro mais realista.” Copérnico Tirou o homem do centro do universo. Hoje aceito sem emoção; à época, enorme resistência. Darwin Desafiou a segregação entre homem e animais. “A dura luta que aí surgiu não terminou ainda.” Ciência do comportamento Questiona a última fronteira: a ação criadora e espontânea. “Surgem novos atritos.” Formas de eludir a questão: dizer que é impossível; que a ciência vale “só até certo ponto”; que as ciências sociais teriam “outro tipo de lei” (interpretação no lugar de previsão e controle). Skinner (1953), p. 8 COMPREENDER O BEHAVIORISMO (BAUM) Livre-arbítrio versus determinismo Determinismo O comportamento, como qualquer objeto da ciência, é ordenado: pode ser explicado, previsto (com os dados necessários) e controlado (com os meios corretos). É determinado unicamente pela hereditariedade e pelo ambiente. Livre-arbítrio Um terceiro elemento, além da hereditariedade e do ambiente, dentro do indivíduo: apesar de toda a herança e de todo o impacto ambiental, quem se comportou de uma forma poderia ter escolhido outra. Os próprios indivíduos causam o comportamento. Argumentos sociais a favor do livre-arbítrio — e as respostas Sistema judiciário “Sem livre-arbítrio, ninguém é responsável.” Resposta: responsabilizar segue tendo sentido prático — atribuir ações a indivíduos, proteger a sociedade, tornar a reincidência improvável. Democracia e ditaduras “Determinismo encorajaria a ditadura.” Resposta: eleições não exigem livre-arbítrio — só que o comportamento seja aberto à influência e à persuasão (por isso há campanhas). Moralidade “Sem livre-arbítrio, as pessoas deixarão de ser boas?” Resposta: a maior parte da humanidade não tem esse compromisso teológico — e não é menos moral. “O livre-arbítrio é simplesmente um nome para a ignorância dos determinantes do comportamento.” Baum (2019), cap. 1 — Livre-arbítrio versus determinismo A CIÊNCIA PODE AJUDAR? A questão da prática: uma posição confusa Nossas práticas atuais não representam nenhuma posição teórica bem definida — estamos em transição. Homem comum: produto do ambiente • “Circunstâncias atenuantes” desculpam a pessoa. • Não culpamos o sem-instrução pela ignorância nem chamamos o desempregado de preguiçoso. • Menores não são plenamente responsáveis pela delinquência; insanos, livres de responsabilidade. • Crianças muçulmanas viram adultos muçulmanos; cristãs, adultos cristãos. Grandes homens: mérito especial • Reservamos o direito de dar “crédito especial” aos grandes homens por suas realizações. • Quem pensa como nós é movido por “princípios válidos”; quem discorda é “vítima de propaganda”. • Nossas crenças seriam mais que “contingências de um ambiente particular” — as dos outros, não. Skinner (1953), pp. 9–10 2 Uma ciência do comportamento Skinner (1953), Capítulo II UMA CIÊNCIA DO COMPORTAMENTO O que a ciência tem de único — e o que ela não é Progresso cumulativo • “A ciência é única ao mostrar um progresso acumulativo” (Sarton). • Newton: “de pé sobre os ombros de gigantes”. Cada cientista permite que o próximo comece mais além. Skinner (1953), pp. 11–12 UMA CIÊNCIA DO COMPORTAMENTO Características importantes da ciência 1 Conjunto de atitudes Disposição de tratar com os fatos — não com o que se disse sobre eles. 2 Rejeição de autoridade “Da natureza, não dos livros” — inclusive das próprias autoridades científicas. 3 Fatos contra o desejo Somos propensos a ver o que queremos ver; a ciência aceita os fatos mesmo opostos aos desejos. 4 Honestidade intelectual Comunicar a contradição tão rápido quanto a confirmação. “Os dados, não os cientistas, falam mais alto.” 5 Ficar sem resposta Evitar conclusões prematuras até que uma resposta satisfatória seja encontrada. 6 Busca da ordem Da observação de episódios singulares → à regra geral → à lei científica. Por que buscar ordem? Ao prever um acontecimento, podemos nos preparar para ele; dispondo as condições, não só prevemos: controlamos. Skinner (1953), pp. 12–15 UMA CIÊNCIA DO COMPORTAMENTO O comportamento como disciplina científica O objeto é um sujeito Estamos sempre na presença de ao menos um organismo que se comporta: nós. A familiaridade é quase uma desvantagem — conclusões precipitadas que a ciência não confirma. “Há muito o que desaprender.” Objeto mutável e complexo O comportamento é processo, não coisa: “mutável, fluido e evanescente”. Difícil não por ser inacessível, mas por ser extremamente complexo — nada essencialmente insolúvel. Previsão baseada em uniformidade Da narrativa (anedota, biografia, história de caso) à descoberta de uniformidades. Qualquer suposição sobre o que um amigo fará é uma previsão baseada em uniformidade. (Cada gripe é única?) Skinner(1953), pp. 15–17 UMA CIÊNCIA DO COMPORTAMENTO Algumas objeções — e as respostas de Skinner “A previsão altera o previsto” Eleição de 1948 (EUA): a previsão publicada teria mudado o voto. Nada obriga a divulgar a previsão: para fins científicos, ela pode ser retida. A interação é evitável. “O estudo distorce a coisa estudada” Observar interfere no fenômeno observado. Princípio geral do método científico — não é peculiar ao comportamento. O cientista leva em conta essa influência e busca o mínimo de interação. “O laboratório simplifica demais” De que valem estudos de laboratório se o mundo real não é simplificado? Simplificamos para entender: a simplificação revela a relevância de fatores que passariam despercebidos. Fora do laboratório já existe muito controle real. Skinner (1953), pp. 22–23 3 Por que os organismos se comportam? Skinner (1953), Capítulo III · Baum (2019), Caps. 1 e 3 POR QUE OS ORGANISMOS SE COMPORTAM? De “causa e efeito” à relação funcional Os termos “causa” e “efeito” carregam teorias demais — a ciência os substitui por termos que se referem ao mesmo núcleo factual: CAUSA Variável Independente (VI) mudança nas condições externas EFEITO Variável Dependente (VD) mudança no comportamento RELAÇÃO FUNCIONAL • “Eventos diferentes tendem a ocorrer ao mesmo tempo, em uma certa ordem” — sem sugerir como uma causa produz o efeito. • Descobrindo e analisando essas causas, poderemos prever o comportamento; poderemos controlá-lo na medida em que possamos manipulá-las. Skinner (1953), p. 24 POR QUE OS ORGANISMOS SE COMPORTAM? Algumas “causas” populares do comportamento “A explanação fantástica precede a válida. A Astronomia começou como Astrologia. A Química, como Alquimia. O campo do comportamento teve e ainda tem os seus astrólogos e alquimistas.” Eventos conspícuos Qualquer evento marcante que coincida com o comportamento vira “causa”: posição dos planetas (astrologia), números do endereço ou do nome (numerologia). Estrutura do indivíduo Físico, feições, cor da pele e dos olhos como “causas”: tipos e temperamentos. Previsões vagas + acertos casuais mantêm a crença. Correlação não distingue causa de consequência. “Nasceu assim” e a eugenia Hereditariedade como apelo à ignorância. Mesmo quando há fator genético real, ele não pode ser manipulado após a concepção — utilidade mínima para análise e controle; resta o “lento e duvidoso programa de eugenia”. Por que persistem? Previsões vagas demais para serem desmentidas; falhas encobertas, acertos ocasionais dramáticos. Skinner (1953), pp. 25–28 POR QUE OS ORGANISMOS SE COMPORTAM? Causas internas: neurais e psíquicas Vis viva, flogisto, “essências”: toda ciência já buscou causas em agentes interiores — difíceis de observar, fáceis de inventar “sem medo de contradição”. Causas neurais • “Fadiga mental”, “nervos à flor da pele”, “colapso nervoso” — sem nenhuma observação direta do sistema nervoso. • “Miolos” e “nervos” inventados no calor do momento para dar substância ao relato. • O sistema nervoso produz o comportamento — mas o que causa os eventos no sistema nervoso? A sequência leva para fora do organismo. Skinner (1953), pp. 28–32 POR QUE OS ORGANISMOS SE COMPORTAM? Causas internas: neurais e psíquicas Vis viva, flogisto, “essências”: toda ciência já buscou causas em agentes interiores — difíceis de observar, fáceis de inventar “sem medo de contradição”. Causas neurais • “Fadiga mental”, “nervos à flor da pele”, “colapso nervoso” — sem nenhuma observação direta do sistema nervoso. • “Miolos” e “nervos” inventados no calor do momento para dar substância ao relato. • O sistema nervoso produz o comportamento — mas o que causa os eventos no sistema nervoso? A sequência leva para fora do organismo. Causas psíquicas: o “homem interior” • Agente sem dimensões físicas: “mental”, “psíquico”. O interior deseja; o exterior executa. • Ego, superego e id: “criaturas sem substância” em conflito, cujas vitórias e derrotas resultam no comportamento. • Eventos da mente são inferidos do próprio comportamento — não observados de forma independente. Skinner (1953), pp. 28–32 http://www.youtube.com/watch?v=3Gp59pw8Pys POR QUE OS ORGANISMOS SE COMPORTAM? Causas internas: neurais e psíquicas Vis viva, flogisto, “essências”: toda ciência já buscou causas em agentes interiores — difíceis de observar, fáceis de inventar “sem medo de contradição”. Causas neurais • “Fadiga mental”, “nervos à flor da pele”, “colapso nervoso” — sem nenhuma observação direta do sistema nervoso. • “Miolos” e “nervos” inventados no calor do momento para dar substância ao relato. • O sistema nervoso produz o comportamento — mas o que causa os eventos no sistema nervoso? A sequência leva para fora do organismo. Causas psíquicas: o “homem interior” • Agente sem dimensões físicas: “mental”, “psíquico”. O interior deseja; o exterior executa. • Ego, superego e id: “criaturas sem substância” em conflito, cujas vitórias e derrotas resultam no comportamento. • Eventos da mente são inferidos do próprio comportamento — não observados de forma independente. Skinner (1953), pp. 28–32 POR QUE OS ORGANISMOS SE COMPORTAM? Causas interiores conceituais: a redundância disfarçada “Ele come... ...porque tem fome” “Ele fuma demais... ...porque tem o vício” “Ele briga... ...por causa da raiva / instinto de luta” “Ele toca bem... ...porque tem habilidade musical” • Aparentemente nos referimos a causas — mas são meras descrições redundantes: um único conjunto de fatos descrito com duas afirmações (“ele come” e “ele tem fome”). • Hábito perigoso: sugere que já encontramos a causa e não é preciso pesquisar mais. • “Fome”, “hábito”, “inteligência” convertem propriedades de um processo em coisas — e ficamos procurando algo que não pode existir. Skinner (1953), p. 33 COMPREENDER O BEHAVIORISMO (BAUM) Objeções ao mentalismo: por que ficções não explicam Mente, vontade, ego: “ficções explicativas” — não porque explicam, mas porque deveriam explicar. “A principal objeção a eles é que eles não conseguem explicar.” Falham por duas razões: 1 · Autonomia causas mentais obstruem a investigação • O “eu interior” que controla o corpo: o homúnculo na sala de controle, com telas e alavancas. • Se o comportamento externo resulta do eu interno, a ciência teria que estudar o eu interno — tarefa impossível: ele é uma ficção. • “Eu senti vontade” encerra a conversa: a aparência de explicação acomoda a curiosidade. 2 · Redundância ficções explicativas são antieconômicas “As explicações mentalistas inferem uma entidade fictícia do comportamento e depois afirmam que a entidade inferida é a causa do comportamento.” Naomi come vegetais infere-se “crença no vegetarianismo” “explica-se”: explicação perfeitamente circular Antieconômicas (Mach): reafirmam a observação com um conceito supérfluo — e agora é preciso explicar o comportamento E a crença. Baum (2019), cap. 3 — Objeções ao mentalismo POR QUE OS ORGANISMOS SE COMPORTAM? As variáveis das quais o comportamento é função “Bebe porque tem sede” redundância ou evento interno inferido — não explica O que altera a probabilidade de beber? pergunta científica: variáveis externas, manipuláveis Ele beberá? Não é “sim ou não”: é probabilidade — da certeza de que beberá à certeza de que não. Variáveis que a alteram: 1 A presença do copo o estímulo disponível no ambiente imediato 2 O tempo sem água privação: quanto maior, mais provável o beber 3 Sal no alimento / exercício / calor operações que produzem o mesmo efeito da privação • Para prever se vai beber, devemos conhecer as variáveis que alteram essa probabilidade; para induzi-lo a beber, precisamos manipulá-las. • “É decididamente falsa a afirmação de que se pode levar um cavalo até a água mas não se pode fazê-lo beber.” Skinner (1953), pp. 33–35 POR QUE OS ORGANISMOS SE COMPORTAM? O encadeamento causal de três elos ① Operação efetuada (externa, manipulável)② Condição interna (inferida) ③ Comportamento (observável) Privação de água “Sede” Beber Privação de alimento “Fome” Comer Privação de sono / esforço prolongado “Cansaço” Dormir / descansar História de críticas com os jogos + outro time ganhando “Ansiedade” Ir para o banco/sufocar • O 2º elo é inútil para o controle do comportamento: não podemos manipulá-lo diretamente. • Ele é inferido do 1º (privado de água há tempo → “com sede”) ou do 3º (bebeu → “estava com sede”) — neste caso, explicação espúria. • Dizer que alguém age assim porque “sofre de ansiedade” exige perguntar: qual a causa da ansiedade? As condições externas invocadas já explicariam diretamente o comportamento. Skinner (1953), pp. 36–37 SÍNTESE DA AULA Então: é possível uma ciência do comportamento humano? 1 Resistimos a essa ciência porque ela exige supor que o comportamento é ordenado e determinado — não fruto de “mudanças interiores espontâneas”. 2 Ciência é atitude e busca de ordem — descrever, prever, controlar — não instrumentos nem catálogo de fatos. 3 As causas não estão em astros, tipos físicos, nervos ou num “homem interior”: ficções explicativas falham por autonomia e redundância. 4 Elas estão nas variáveis externas — ambiente imediato e história ambiental — das quais o comportamento é função.