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Psicologia e Direitos Humanos: 
Compromisso Ético-Político da 
Profissão
Bicalho, P. P. G. | Coimbra, C. M. B. | Castro, A. L. S. | Maldos, P. R. 
M.
Psicologia: Ciência e Profissão, 44 (n.spe1), 2024
AULA — PSICOLOGIA UNISUL PROF.ª LUCIANE RAUPP
Por que Direitos Humanos? O Contexto Brasileiro
Construímos psicologia em um país marcado por 
desigualdades estruturais profundas. Dados da pesquisa 
Nós e as Desigualdades (Nascimento, 2022) revelam 
percepções amplamente compartilhadas pela população:
85%
Desigualdade como 
entrave
Acredita que o progresso 
do Brasil depende da 
redução da desigualdade 
entre pobres e ricos
86%
Cor da pele e abordagem 
policial
Acredita que a cor da pele 
influencia a decisão de 
uma abordagem policial
79%
Justiça desigual
Concorda que a justiça é 
mais dura com pessoas 
negras
71%
Cor da pele e emprego
Acredita que a cor da pele 
influencia a contratação 
por empresas
O Brasil ocupa a 2ª posição entre os países mais 
desiguais do mundo: o 1% mais rico acessa 
28,3% das riquezas produzidas no país (IPEA, 
2023). São 16,9 milhões de pessoas abaixo da 
linha da extrema pobreza (IBGE, 2024).
...apenas seis pessoas possuem riqueza equivalente a 
100 milhões de brasileiros mais pobres. Os 5% mais 
ricos detêm a mesma fatia de renda que os demais 
95%. 
— Georges, 2017, p. 6
Diante desse cenário, afirmar a assertividade política dos 
direitos humanos é necessário. A desigualdade contribui 
fortemente com a produção da exclusão, tornando 
urgente uma análise "contaminada de contexto" 
(Fernandes, 2019), atravessada pela historicidade e 
implicada com a conjuntura e as condições de 
iniquidade.
Percurso Internacional dos Direitos Humanos
11945–1948
Declaração Universal dos Direitos Humanos — 
aprovada pela ONU no contexto do pós-Segunda 
Guerra Mundial e início da Guerra Fria. 
Autoproclama-se universal a partir de uma visão 
ocidental liberal, com concepção essencialista dos 
direitos.
2 1966
Dois Pactos Internacionais — Pacto dos Direitos 
Civis e Políticos e Pacto dos Direitos Econômicos, 
Sociais e Culturais, com força legal. Aprofundaram 
a dicotomia: EUA enfatizavam direitos 
civis/políticos; URSS, direitos sociais/econômicos.31993
Conferência de Viena — Marco fundamental: 
afirmou a indivisibilidade dos direitos humanos. 
"Todos os Direitos Humanos são importantes, 
universais, indivisíveis, interdependentes e inter-
relacionados" (ONU, 1993). Enfatizou direitos das 
minorias e o direito ao desenvolvimento.
4 1970–hoje
Hegemonia Neoliberal — Desmantelamento de 
sistemas de garantia de direitos, 
desregulamentação dos mercados e erosão das 
funções sociais do Estado. Individualismo, 
flexibilidade e desigualdade são valores centrais 
Herrera Flores (2009) alerta: o essencialismo dos direitos humanos — a ideia de que "os seres humanos já 
têm os direitos" — propicia a ignorância e a passividade, ao invés de promover o conhecimento e a ação.
Crítica ao Universalismo: Direitos Humanos como Campo 
de Disputa
A Declaração de 1948 apresenta-se como universal, mas 
sua construção revela escolhas políticas concretas: mais 
da metade dos artigos fazem menção a direitos civis e 
políticos, e o direito à propriedade é um dos mais 
ressaltados desde o início (Coimbra et al., 2008; Bicalho, 
2013).
Postular essências consiste em sobrepor a uma 
pluralidade de significados uma esfera unitária e 
homogênea que reduz a complexidade do real ao que se 
considera ideologicamente como algo absoluto... o 
essencialismo dos direitos humanos propicia a 
ignorância e a passividade.
— Herrera Flores, 2009, pp. 45-46
Coimbra et al. (2008),, apontam que os direitos humanos 
— desde sua gênese — têm servido para levar aos 
subalternizados a ilusão de participação, confirmando o 
artigo primeiro da Declaração de 1948 ("todos os 
homens nascem livres e iguais"), enquanto os 
segmentos pauperizados sempre estiveram fora desses 
direitos à vida e à dignidade.
Neoliberalismo, Subjetividade e Direitos
O Projeto Neoliberal
David Harvey (2008) mostra como o neoliberalismo 
articula os ideais de dignidade e liberdade individual, a 
serviço da defesa da propriedade e das relações 
comerciais. O neoliberalismo cria uma rede composta 
pelo mercado, pelo Estado e por uma incessante 
produção de subjetividade capitalista: individualismo, 
flexibilidade, fragmentação e desigualdade (Guattari & 
Rolnik, 2013).
Precarização do Trabalho no Brasil
A regulamentação da terceirização iniciou-se na década 
de 1970 (Lei nº 5.645/1970 e Lei nº 6.019/1974). A partir 
dos anos 1990, as políticas neoliberais promoveram 
reestruturação do capitalismo com crescimentodo 
desemprego. Em 2017, nova lei ampliou a terceirização 
das atividades-fim e tornou facultativas condições como 
atendimento médico aos terceirizados.
Subjetividade Serializada
Como pensar em dignidade humana quando o humano 
está limitado a ser um indivíduo de mercado, subjugado 
a um modelo de subjetividade serializada, 
homogeneizada, individualizada, privatizada e 
intimizada? Não seria essa a concepção de humano 
presente no projeto de Psicologia consolidado no Brasil a 
partir da regulamentação da profissão em 1962? 
(Coimbra et al., 2008).
Direitos humanos representam valores oriundos 
das dinâmicas socioculturais, campos de disputa 
de poder, reconhecimento, efetividade e luta 
social — e nunca estão garantidos de uma vez 
por todas.
ssa compreensão do capitalismo não se 
limita à estrutura econômica, e considera o 
importante campo da subjetividade como 
estratégia que mobiliza não somente 
estruturas institucionais, como também 
valores, desejos, processos de escolhas e 
possibilidades de viver, criando padrões e 
narrativas voltadas para uma lógica de 
consumo (Coimbra et al., 2008).
Deleuze afirma que os direitos humanos – desde sua gênese – têm 
servido para levar aos subalternizados a ilusão de participação, de que 
as elites preocupam-se com o seu bem-estar, de que o humanismo 
dentro do capitalismo é uma realidade e, com isso, confirma-se o 
artigo primeiro da Declaração de 1948: ‘todos os homens nascem 
livres e iguais em dignidade e direitos .̓ Entretanto, sempre estiveram 
fora desses direitos à vida e à dignidade os segmentos pauperizados e 
percebidos como “marginaisˮ . . . (p. 92)
A Regulamentação da Psicologia e o Encontro com os 
Direitos Humanos
1
1962
Lei nº 4.119 regulamenta a profissão de psicóloga/o no 
Brasil, assinada pelo presidente João Goulart (Jango). A 
psicologia brasileira é hoje a maior do mundo, com mais 
de 500 mil profissionais inscritos em 24 Conselhos 
Regionais e quase 1.300 cursos de graduação.
2
1973
Criação do Conselho Federal de Psicologia (CFP) — 
primeira reunião plenária em 20 de dezembro, em pleno 
auge da ditadura militar. A primeira Resolução (nº 
1/1974) oficializou os sete primeiros Conselhos 
Regionais de Psicologia.
3
1997–1998
Encontro oficial da psicologia com os direitos humanos: 
criação da Comissão de Direitos Humanos (CDH) do 
CFP pela Resolução nº 011/98, com efeitos retroativos a 
7 de agosto de 1997. Primeira coordenadora: Prof.ª 
Cecília Maria Bouças Coimbra.
4
2005–hoje
Direitos humanos como fundamento do Código de 
Ética Profissional (Resolução nº 10/2005) e das 
Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação em 
Psicologia (Resolução CNE/CES nº 1/2023). A CDH é 
estrutura obrigatória da gestão do CFP.
Importante: durante a ditadura (1968-1979), o CFP concedeu títulos de membros honorários a Ernesto Geisel e 
Arnaldo da Costa Prieto — revogados em 31 de março de 2024, no marco dos 60 anos do golpe civil-militar-
empresarial (Resolução nº 3/2024).
Comissão de Direitos Humanos do CFP: Atribuições e 
Coordenadores
Atribuições Formais da CDH
Incentivar a reflexão 
sobre direitos 
humanos na formação, 
prática profissional e 
pesquisa em 
psicologia
Intervir em situações 
de violação dos 
direitos humanos que 
produzam sofrimento 
mental
Participar de 
iniciativas que 
preservem os direitos 
humanos na 
sociedade brasileiraApoiar o movimento 
internacional dos 
direitos humanos
Estudar todas as 
formas de exclusão 
que violem os direitos 
humanos e provoquem 
sofrimento mental
Coordenadores da CDH (1997–hoje)
01
Cecília Maria Bouças Coimbra (1997–2001) — 
Fundadora
02
Marcus Vinícius de Oliveira Silva (2002–2004)
03
Esther Maria de Magalhães Arantes (2005–2007)
04
Ana Luiza de Souza Castro (2008–2010 e 2017–2019)
05
Pedro Paulo Gastalho de Bicalho (2011–2013)
06
Vera Silvia Facciolla Paiva (2014–2016)
07
Eliane Silvia Costa (2020–2022)
08
Andreza Cristina da Silva Costa (2023–atualmente)
Campanhas da CDH/CFP: Uma Trajetória de Luta
Desde sua criação, a Comissão de Direitos Humanos do CFP realizou campanhas nacionais que marcaram a agenda 
da psicologia brasileira em defesa dos grupos mais vulnerabilizados:
2000–2002
"Manicômio Judiciário: o pior do pior" (medida de 
segurança não pode ser prisão perpétua) | "Para 
nossas crianças, nem cadeia nem caixão" (ECA) | 
"O Preconceito Racial Humilha, a Humilhação 
Social faz Sofrer"
2003–2007
"Educação Inclusiva: Direitos Humanos na 
Escola!" | "Eletrochoque: e se fosse na sua 
cabeça?" | "O que é feito para excluir, não pode 
incluir!" (fim da violência nas práticas de privação 
de liberdade)
2007–2012
Campanha contra a redução da maioridade penal | 
"Nenhuma forma de violência vale à pena" (2008–
2010) | "Em nome da proteção e do cuidado, que 
formas de sofrimento e exclusão temos 
produzido?" (2011–2012)
2013–2025
"A Verdade é Revolucionária" (memórias sobre a 
ditadura, 2013) | "Discurso de ódio não!" (2017–
2019) | "Racismo é coisa da minha cabeça ou da 
sua?" (2020–2022) | "Descolonizar corpos e 
territórios: reconstruindo existências brasileiras" 
(2023–2025)
Inspeções Nacionais de Direitos Humanos: Relatórios e 
Documentação
A CDH/CFP realizou seis grandes inspeções nacionais em instituições de privação de liberdade e cuidado, produzindo 
relatórios públicos fundamentais para a defesa dos direitos humanos no Brasil:
2004 — Unidades Psiquiátricas
27 instituições inspecionadas em 17 
unidades da federação. Relatório: 
"Direitos Humanos: Uma Amostra 
das Unidades Psiquiátricas 
Brasileiras"
Acessar relatório
2006 — Internação de Adolescentes
31 instituições em 23 unidades da 
federação. Relatório: "Direitos 
Humanos: Um Retrato das Unidades 
de Internação de Adolescentes em 
Conflito com a Lei"
Acessar relatório
2007 — Instituições para Idosos 
(ILPIs)
24 instituições em 12 unidades da 
federação. Relatório: "Inspeção a 
Instituições de Longa Permanência 
para Idosos (ILPIs)"
Acessar relatório
2011 — Comunidades Terapêuticas
68 instituições em 25 unidades da 
federação. Relatório: "4ª Inspeção 
Nacional: Locais para internação de 
usuários de drogas". Também 
produziu o livro Drogas, Direitos 
Humanos e Laço Social, série de 
vídeos e quadrinhos Drogas e 
Cidadania.
Acessar relatório
2015 — Hospitais de Custódia
Hospitais de Custódia e Tratamento 
Psiquiátrico em 17 unidades 
federativas. Relatório: "Inspeções 
aos Manicômios – Relatório Brasil 
2015"
Acessar relatório
2018 — Hospitais Psiquiátricos
40 instituições em 17 unidades 
federativas. Relatório: "Hospitais 
Psiquiátricos no Brasil – Relatório de 
Inspeção Nacional"
Acessar relatório
https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2008/08/relatorio_inspecao_2004.pdf
https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2008/08/relatorio_inspecao_2006.pdf
https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2008/08/relatorio_inspecao_2007.pdf
https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2012/03/2011_inspecao_nacional_dh.pdf
https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2015/12/Relatorio_inspecoes_manicomios_2015.pdf
https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2018/12/Relatorio_inspecao_hospitais_psiquiatricos_2018.pdf
Subjetividade, Práticas Profissionais e Descolonização
A partir dos anos 1990, a Psicologia brasileira aprofundou 
pesquisas sobre a dimensão subjetiva das lutas por 
direitos. Instituições como o Ministério Público Federal, a 
Defensoria Pública e a Corte Interamericana de Direitos 
Humanos passaram a solicitar pareceres de 
psicólogas/os para subsidiar decisões judiciais — 
inclusive sobre reconhecimento de territórios de povos 
tradicionais e reparação por violações coletivas.
Reelaboração Teórica e Descolonização
A imersão de profissionais junto a segmentos étnica e 
culturalmente diferenciados levou à revisão dos métodos 
e das linhas teóricas adotadas. A Rede de Articulação 
Psicologia e Povos da Terra (2019, p. 144) afirma:
A psicologia, seguindo o padrão hegemônico das 
ciências, é uma disciplina forjada a partir de uma 
epistemologia eurocêntrica. A descolonização do 
saber psicológico é uma transformação que deve 
acontecer nas esferas da ciência, da profissão e da 
atuação política.
Devido às mudanças no acesso à universidade nos 
últimos 20 anos, há hoje um número significativo de 
psicólogas/os indígenas, quilombolas e de povos e 
comunidades tradicionais que criam fóruns e coletivos 
próprios para debater a profissão, trilhando um caminho 
de reconstrução teórica e prática a partir das culturas e 
modos de existência dos setores populares.
Novos Processos Sociais e o Papel Transformador da 
Psicologia
Novos Olhares para Velhos Problemas
Vivemos intensos processos de mudança social.
Os novos olhares da Psicologia permitem compreender 
como as novas formas de agressão aos direitos humanos 
repetem os antigos mecanismos de exploração, 
exclusão, humilhação social e invisibilidade com novas 
roupagens.
Deleuze e Guattari (1995) nos convocam a perguntar: 
com quais conexões realizamos nossas práticas? Em 
quais contextos as práticas da Psicologia fazem passar 
suas intensidades? Sem esses questionamentos, não 
avançamos para práticas comprometidas com a vida.
Psicologia e Transformação Social
O engajamento teórico e prático dos profissionais de 
Psicologia nas lutas pelos direitos humanos contribui 
para a transformação radical das relações de poder, 
revelando as agressões aos direitos na esfera da 
subjetividade individual e coletiva — onde são menos 
acessíveis à percepção imediata.
Ou vão fazer o jogo dessa reprodução de modelos 
que não nos permitem criar saídas para os processos 
de singularização, ou, ao contrário, vão estar 
trabalhando para o funcionamento desses processos 
na medida de suas possibilidades... Isso quer dizer 
que não há objetividade científica alguma nesse ponto 
nem uma suposta neutralidade na relação.
— Félix Guattari (Guattari & Rolnik, 2013, p. 29)
ntese e Considerações Finais
Este artigo afirma que os direitos humanos são indissociáveis do compromisso ético-político da Psicologia. Eles 
representam não garantias naturais ou jurídicas automáticas, mas resultados sempre provisórios das lutas que os seres 
humanos colocam em prática para ter acesso aos bens necessários para a vida (Herrera Flores, 2009).
Contexto Histórico
Os DH são atravessados por disputas políticas e 
econômicas desde a DUDH (1948) até o 
neoliberalismo atual. Cada momento histórico redefine 
seus significados e alcances.
Compromisso Profissional
A CDH/CFP (desde 1997) é estrutura estratégica para 
a efetivação dos DH, com campanhas, inspeções 
nacionais e articulação com movimentos sociais.
Subjetividade e Luta
A Psicologia contribui desvelando os mecanismos 
subjetivos de legitimação ou invalidação das práticas 
sociais que favorecem ou mutilam os direitos 
humanos.
Descolonização
É necessário construir uma Psicologia que dialogue 
horizontalmente com saberes tradicionais e populares, 
superando sua matriz eurocêntrica e colonial.
 É necessário desnaturalizar os conceitos de direitos e de humano permanentemente, visando à invenção de outras 
formas de ação e a criação de novos mundos.Coimbra, Lobo & Nascimento, 2008
PSICOLOGIA: CIÊNCIA E PROFISSÃO, 44 (N.SPE1), 2024 DOI: 10.1590/1982-4704004287399

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