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DIREITOS HUMANOS
AULA 1
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Tiemi Saito
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CONVERSA INICIAL
Olá! Nesta aula, daremos início aos estudos sobre os Direitos Humanos, uma temática que é, ao
mesmo tempo, muito comentada no senso comum e pouco compreendida em sua essência e
extensão. Para tentar compreendê-la melhor, abordaremos de forma geral o sistema universal de
proteção aos Direitos Humanos, discutindo o conjunto de instrumentos legais – nacionais e
internacionais – órgãos, competências e procedimentos voltados à garantia desses direitos.
Nesse sentido, será objeto dos nossos estudos uma visão global a respeito do processo histórico
de proteção universal dos Direitos Humanos, partindo da noção de que não há um início bem-
definido e declarado, mas que sua evolução é dinâmica e acompanha a própria evolução da
sociedade ao longo dos anos.
Veremos, ainda, quais são os órgãos de proteção dos Direitos Humanos no sistema global que
se originam de tratados internacionais dos quais os Estados são signatários, e, por outro lado,
aqueles que derivam da Carta da Organização das Nações Unidas (ONU). Estudaremos também o
Conselho de Direitos Humanos, aprofundando nossas análises acerca da Revisão Periódica Universal,
dos Procedimentos Especiais e do Procedimento de Queixas.
Por fim, dentro da noção de Sistema Convencional, fracionaremos o estudo no sentido de
contemplar os nove principais tratados de Direitos Humanos que fundamentam os mecanismos
convencionais não contenciosos estabelecidos pelas Nações Unidas.
TEMA 1 – SISTEMA UNIVERSAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS
HUMANOS
Embora os Direitos Humanos não apresentem um início específico na história, uma vez que
acompanham as evoluções sociais, alguns documentos e acontecimentos internacionais foram de
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extrema importância para a construção do atual sistema global de proteção aos Direitos Humanos.
Vejamos quais são eles.
1.1 HISTÓRICO DE PROTEÇÃO UNIVERSAL DE DIREITOS
A Organização das Nações Unidas, fundada pela Carta das Nações Unidas, em 1945, no cenário
pós-guerra, é a entidade que estrutura, coordena e produz os documentos internacionais,
proporcionando uma noção de sistema global de promoção da paz e da segurança em âmbito
internacional.
Em 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU, 1948) promoveu um grande passo
em prol da instrumentalização do sistema universal de direitos humanos, servindo de base
fundamental para a formação de valores e princípios que influenciaram mais tarde os demais
sistemas (europeu, interamericano e africano) de proteção aos direitos.
Nesse sentido, é possível afirmar que essa declaração inovou ao proclamar diretrizes gerais que
orbitam em torno da dignidade da pessoa humana, bem como universalizar a proteção aos direitos
humanos que devem ser reconhecidos a todos os seres humanos, sem distinção de qualquer
natureza.
No que se refere à sua natureza jurídica, é importante salientar que, em um primeiro momento,
do ponto de vista formal, a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi aprovada como uma
Resolução, e não um tratado, o que não lhe conferia uma obrigatoriedade vinculante, mas, de
antemão, já influenciava o movimento internacional para a criação de sistemas de proteção aos
direitos humanos.
Porque o cenário encontrava-se ainda bipolarizado quanto à proclamação de direitos de
primeira dimensão (direitos liberais) e de segunda dimensão (direitos sociais), tornou-se necessária a
adoção de dois tratados distintos de direitos humanos: o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e
Políticos e o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, em 1966 (Brasil, 1992).
Como os direitos civis e políticos ensejam medidas de abstenção da atuação do Estado, pois se
configuram como direitos de liberdade em sua essência, entende-se que a sua aplicabilidade deve
ser imediata, enquanto os direitos econômicos, sociais e culturais devem ter uma aplicação
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progressiva, já que, para sua garantia, o Estado precisa atuar, planejar e prever leis orçamentárias,
políticas públicas e as demais medidas necessárias.
Entre os direitos reconhecidos pelo Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, podemos
citar o direito à vida, à igualdade entre homens e mulheres, à proibição de tortura e de penas ou
tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes, à proibição de escravidão, de servidão e de
submissão a trabalho forçado, à liberdade e à segurança pessoal, à integridade do preso, à não prisão
por descumprimento de obrigação contratual, ao direito de circulação, ao juízo natural, à presunção
de inocência, à tipicidade penal, à personalidade jurídica, à vida privada, à liberdade de pensamento,
consciência e religião, à liberdade de expressão, ao direito de reunião (que pode ser objeto de
restrições impostas em conformidade com a lei e que são necessárias numa sociedade democrática,
no interesse da segurança nacional, da segurança pública ou para proteger a saúde e a moral
públicas ou os direitos e as liberdades de outrem), direito de associação, inclusive de constituir
sindicatos, proteção à família, proteção à criança, direito de participação política, igualdade perante a
lei e igual proteção da lei, proteção às minorias, entre outros.
No que tange ao Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, podemos
destacar como direitos reconhecidos a igualdade entre homens e mulheres, o direito ao trabalho, o
direito a condições de trabalho justas e favoráveis, a liberdade sindical, a segurança social, a proteção
e a assistência à família, o direito a um nível de vida adequado de alimentação, vestimenta e moradia,
o direito à saúde, à educação, à vida cultural.
Para que se garanta, por exemplo, o direito à saúde, é preciso que o Estado adote medidas
necessárias para a redução da mortalidade e da mortalidade infantil, buscando melhorias no que se
refere ao desenvolvimento da criança e do adolescente, promova melhorias referentes à higiene do
meio ambiente e industrial, viabilize a profilaxia, o tratamento e o controle de doenças epidêmicas,
assegure o acesso a serviços médicos etc.
Nesse sentido, fundamenta-se quanto aos direitos econômicos, sociais e culturais a necessidade
de uma aplicação progressiva que adote de maneira efetiva as medidas necessárias para a garantia
destes, evitando ao máximo o retrocesso social. A junção de todos os referidos documentos – a
Declaração Universal dos Direitos Humanos, o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos e o
Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais – constitui a Carta Internacional
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dos Direitos Humanos (ONU, [S.d.]), também conhecida como International Bill of Rights, que
sustenta o Sistema Universal de Direitos Humanos (Fachin, 2019).
TEMA 2 – ÓRGÃOS DE PROTEÇÃO UNIVERSAL DE DIREITOS
HUMANOS NO SISTEMA GLOBAL
Na medida em que os direitos humanos foram se incorporando às discussões em âmbito global,
a violação desses direitos deixou de ser um problema meramente interno de cada Estado e passou a
integrar a pauta da comunidade internacional.
Diante disso, surge a noção de responsabilidade internacional dos Estados em matéria de
Direitos Humanos, e, assim, o Estado que descumprir suas obrigações internacionais ferindo direitos
humanos poderá responder por seus atos ou omissões perante a comunidade internacional.
Para promover a proteção aos direitos humanos e fiscalizar o cumprimento das obrigações
internacionais, tornou-se necessária a instituição de órgãos e mecanismos convencionais, que são
originados de tratados internacionais, e extraconvencionais,que derivam da própria Carta da ONU e
da atuação de seus órgãos.
No âmbito do Sistema Convencional, os Estados signatários dos tratados comprometem-se a
garantir e proteger os direitos ali instituídos, e suas atuações e omissões são monitoradas por
comitês que verificam o cumprimento das obrigações estatais de acordo com o documento
internacional, recebem e verificam as petições ou comunicações de violação de direitos.
Já o Sistema Extraconvencional aplica-se a todos os Estados, mas tem como fundamento a
Cooperação Internacional em matéria de Direitos Humanos, que dispõe de mecanismos temáticos
que visam à proteção de tais direitos, sugerindo medidas que devem ser tomadas para a sua
garantia.
TEMA 3 – O CONSELHO DE DIREITOS HUMANOS
O Conselho de Direitos Humanos compõe o Sistema de Direitos Humanos da ONU como
principal órgão de incentivo e promoção desses direitos em âmbito global. É encarregado de
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promover o respeito universal a tais direitos com base na universalidade, na imparcialidade, na
objetividade, na não seletividade e na cooperação internacional entre os Estados.
Substituiu a Comissão de Direitos Humanos em 2006 e é composto de representantes de 47
Estados, cuja distribuição se dá de maneira geográfica equitativa, atualmente com 13 assentos para a
África, 13 assentos para Ásia-Pacífico, 8 assentos para a América Latina e Caribe, 7 cadeiras para a
Europa Ocidental e outros Estados e 6 cadeiras para a Europa do Leste.
Os membros do conselho são eleitos pela maioria absoluta dos membros da Assembleia Geral,
por voto direto e secreto, para o mandato de três anos, sendo vedada a recondução imediata após o
exercício de dois mandatos subsequentes. Para tanto, dois critérios devem ser observados pelos
candidatos: o primeiro é a sua contribuição para a promoção e a proteção dos direitos humanos, e o
segundo está relacionado aos compromissos que assumiram durante a campanha.
O conselho realiza pelo menos três sessões ordinárias durante o ano e possibilita a convocação
de sessões especiais, desde que haja o voto afirmativo de pelo menos 1/3 dos membros da casa.
Suas atuações contam com o auxílio de Comitês Consultivos.
3.1 REVISÃO PERIÓDICA UNIVERSAL
A Revisão Periódica Universal (RPU) foi estabelecida pela Resolução n. 60/251, em 2006 (Fachin,
2019), quando da criação do Conselho de Direitos Humanos. Trata-se de um instrumento de
cooperação internacional que busca promover a avaliação mútua entre os Estados quanto à situação
de direitos humanos, propondo um conjunto de recomendações pautado no tratamento igualitário
para todos os países.
É por meio da RPU que, com base na universalidade, na abrangência e no tratamento igual a
todos os Estados, estes têm a oportunidade de declarar as ações que têm tomado para melhorar a
situação dos direitos humanos e compartilhar as melhores práticas que vêm alcançando êxito.
3.2 PROCEDIMENTOS ESPECIAIS
Os Procedimentos Especiais foram instituídos pela Resolução n. 1.235 (Fachin, 2019), por meio da
qual é possível examinar informações indicativas de violações massivas de direitos humanos e
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práticas de discriminação racial. Para tanto, atribuem-se mandatos a relatores especiais para tratar
desses temas.
Para o processamento desses procedimentos, como, por exemplo, a análise de uma
comunicação individual, não é necessário observar o esgotamento dos recursos internos, e é possível
desenvolvê-los por experts no assunto em Grupos de Trabalhos (GTs) específicos com mandatos
renováveis de três anos ou de um ano.
3.3 PROCEDIMENTO DE QUEIXAS
O Procedimento de Queixas é iniciado por comunicações individuais para verificar, diante de
informações consistentes, graves violações a direitos humanos. O processamento desse instrumento
deve seguir parâmetros de imparcialidade, objetividade, eficiência, orientação às vítimas, celeridade,
cooperação dos Estados e confidencialidade.
Para tanto, a comunicação individual que alega a violação de algum(ns) direito(s) humano(s)
deve passar por uma análise sumária do Presidente do GT, que poderá rejeitá-la por anonimato ou
por se tratar de alegação manifestamente infundada. A comunicação é encaminhada ao Estado para
que se manifeste quanto às fundamentações e o cumprimento dos requisitos de admissibilidade da
demanda é analisado pelo próprio GT.
Constatada a admissibilidade da comunicação, o GT analisará o mérito, ou seja, os fatos ali
relatados, a fim de verificar se individualmente ou em conjunto com outras petições há um padrão de
violação de direitos humanos no Estado em questão. Se assim for, o procedimento é encaminhado
ao GT de Situações, que formulará as recomendações acerca das medidas que devem ser tomadas e,
caso entenda que efetivamente houve violação, poderá encaminhar o procedimento ao Conselho de
Direitos Humanos.
TEMA 4 – O SISTEMA CONVENCIONAL E OS COMITÊS TEMÁTICOS
O Sistema Convencional é constituído principalmente de Tratados Internacionais de Direitos
Humanos das Nações Unidas, os quais serão abordados a seguir. Contudo, importa observar que
cada um desses tratados institui um Comitê Temático que busca, em síntese, a promoção da
ratificação e da implementação de documentos pelos Estados, o recebimento e a avaliação dos
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Relatórios Periódicos dos Estados signatários, o recebimento das comunicações individuais e as
respectivas recomendações, bem como a promoção de debates.
4.1 PODERES E COMPETÊNCIAS GERAIS DOS COMITÊS TEMÁTICOS
A principal atuação dos Comitês deve estar voltada ao monitoramento dos relatórios produzidos
pelos Estados Partes, pois é o instrumento por meio do qual serão demonstrados os avanços e
desafios no cumprimento das respectivas convenções.
Assim sendo, o procedimento do sistema de relatórios inicia-se pela submissão do relatório pelo
Estado ao Secretário Geral das Nações Unidas, que agenda uma data dentro do período de sessões
para que o comitê o analise. O comitê, por sua vez, pode requerer informações adicionais e inquirir o
Estado sobre assuntos específicos por meio de uma lista de questões e temas a ele enviada, a fim de
viabilizar um diálogo construtivo entre a delegação estatal e o comitê.
As respostas do Estado devem ser elaboradas por escrito e serão devidamente analisadas junto a
eventuais outras fontes de informações, como, por exemplo, em instituições nacionais de Direitos
Humanos, a fim de que o relatório seja formalmente apreciado pelo comitê. Essa apreciação se dá em
sessões orais e culminará na elaboração de observações e recomendações visando a avanços na
implementação dos Direitos Humanos, com instruções práticas para a solução dos problemas
apresentados.
TEMA 5 – MECANISMOS CONVENCIONAIS NÃO CONTENCIOSOS
Os Tratados Internacionais de Direitos Humanos das Nações Unidas, que formam o Sistema
Convencional, podem ser listados a partir da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de
Discriminação Racial (1965), do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (1966) e seus
protocolos facultativos, do Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1966) e
seu protocolo facultativo, da Convenção sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação
contra a Mulher (1979) e seu protocolo facultativo, da Convenção contra a Tortura e Outros
Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes (1984) e seu protocolo facultativo, da
Convenção sobre os Direitos da Criança (1989) e seus protocolos facultativos, da Convenção
Internacional sobre a Proteção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migrantes e suas Famílias
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(1990), da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (2006) e da Convenção para a
Proteção de Todas as Pessoas contra DesaparecimentosForçados (2006).
Como o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional sobre Direitos
Econômicos, Sociais e Culturais já foram objeto de análise, verificaremos os demais tratados que
compõem os mecanismos convencionais não contenciosos do Sistema Internacional de Proteção aos
Direitos Humanos.
5.1 CONVENÇÃO SOBRE A ELIMINAÇÃO DE TODAS AS FORMAS DE
DISCRIMINAÇÃO RACIAL
Diante dos termos da Convenção sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação
Racial, o Estado Parte responsabiliza-se internacionalmente pelos atos racistas praticados e pela
imissão em apurar os casos de discriminação racial por particulares.
Para tanto, endente-se por discriminação racial, de acordo com o art. 1º da Convenção (Brasil,
1969):
qualquer distinção, exclusão restrição ou preferência baseadas em raça, cor, descendência ou
origem nacional ou étnica que tem por objetivo ou efeito anular ou restringir o reconhecimento,
gozo ou exercício num mesmo plano ( em igualdade de condição), de direitos humanos e
liberdades fundamentais no domínio político econômico, social, cultural ou em qualquer outro
domínio de vida pública.
Para o monitoramento da proteção e a garantia dos direitos assegurados nessa convenção,
instituiu-se o Comitê para Eliminação da Discriminação Racial e adotaram-se os mecanismos de
relatórios, comunicações interestatais e petições individuais.
5.2 CONVENÇÃO SOBRE A ELIMINAÇÃO DE TODAS AS FORMAS DE
DISCRIMINAÇÃO CONTRA A MULHER
A Convenção sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher descreve
como discriminação contra a mulher, em seu art. 1º (Brasil, 2002),
toda a distinção, exclusão ou restrição baseada no sexo e que tenha por objeto ou resultado
prejudicar ou anular o reconhecimento, gozo ou exercício pela mulher, independentemente de seu
estado civil, com base na igualdade do homem e da mulher, dos direitos humanos e liberdades
fundamentais nos campos político, econômico, social, cultural e civil ou em qualquer outro campo.
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Em um primeiro momento, a convenção previa apenas como formas de monitoramento dos seus
termos a instituição do Comitê para Eliminação da Discriminação contra as Mulheres e o mecanismo
de relatórios. Contudo, posteriormente, por meio de protocolo facultativo, foi instituído o sistema de
petições individuais para que qualquer mulher vítima de violação aos seus direitos pudesse denunciar
o caso perante o comitê.
5.3 CONVENÇÃO CONTRA A TORTURA E OUTROS TRATAMENTOS OU PENAS
CRUÉIS, DESUMANOS OU DEGRADANTES
A Convenção contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou
Degradantes, adotada pela ONU em 1984, designou como tortura, em seu art. 1º (Brasil, 1991),
qualquer ato pelo qual dores ou sofrimentos agudos, físicos ou mentais, são infligidos
intencionalmente a uma pessoa a fim de obter, dela ou de uma terceira pessoa, informações ou
confissões; de castigá-la por ato que ela ou uma terceira pessoa tenha cometido ou seja suspeita
de ter cometido; de intimidar ou coagir esta pessoa ou outras pessoas; ou por qualquer motivo
baseado em discriminação de qualquer natureza; quando tais dores ou sofrimentos são infligidos
por um funcionário público ou outra pessoa no exercício de funções públicas, ou por sua
instigação, ou com o seu consentimento ou aquiescência. Não se considerará como tortura as
dores ou sofrimentos que sejam consequência unicamente de sanções legítimas, ou que sejam
inerentes a tais sanções ou delas decorram.
Diante dos termos estabelecidos por essa convenção, os Estados têm o dever de adotar medidas
de cunho administrativo, legislativo e judicial para impedir a prática de atos de tortura em toda a
extensão de sua jurisdição. Não é possível, portanto, a alegação de qualquer circunstância
excepcional, como ameaça ou estado de guerra, instabilidades políticas internas etc.
Para o monitoramento desse tratado, quatro mecanismos podem ser utilizados – o Comitê
contra Tortura, os relatórios periódicos dos Estados, as comunicações interestatais e as petições
individuais.
5.4 CONVENÇÃO SOBRE OS DIREITOS DA CRIANÇA
A Convenção sobre os Direitos da Criança (Fachin, 2019), adotada pela ONU em 1989, considera
criança toda pessoa menor de 18 anos, salvo quando atingida por meio da legislação nacional a
maioridade antes, impondo aos Estados a adoção de medidas administrativas, legislativas e outras
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que se fizerem necessárias para a implementação dos direitos reconhecidos nesse tratado, sempre
observando o interesse da criança.
O monitoramento do cumprimento dos termos dessa convenção pode ser realizado pelo Comitê
para os direitos das crianças e pelo mecanismo de relatórios periódicos dos Estados Partes.
A convenção conta ainda com três protocolos facultativos, um que trata do envolvimento de
crianças em conflitos armados (2000), outro que se refere a venda de crianças, prostituição e
pornografia infantil (2000) e, por fim, o que diz respeito ao procedimento de comunicações (2011).
5.5 CONVENÇÃO INTERNACIONAL SOBRE A PROTEÇÃO DOS DIREITOS DE
TODOS OS TRABALHADORES MIGRANTES E SUAS FAMÍLIAS
A Convenção Internacional sobre a Proteção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migrantes e
suas Famílias foi adotada pela ONU em 1990, por meio da Resolução n. 45/158 (Fachin, 2019), em
virtude da consciência da comunidade internacional quanto à situação de vulnerabilidade que
frequentemente os trabalhadores migrantes e membros de suas famílias enfrentam no Estado onde
conseguem um emprego.
Há, portanto, dispositivos que buscam a proteção dos direitos desses trabalhadores e de suas
famílias independentemente da sua situação migratória, no sentido de dispor acerca da não
discriminação, dos direitos de todos os trabalhadores migrantes, dos direitos adicionais de migrantes
documentados, das disposições aplicáveis a categorias especiais de trabalhadores migrantes e
membros de suas famílias, da promoção de condições saudáveis, equitativas, dignas e legais no que
se refere à migração internacional destes, entre outras situações.
5.6 CONVENÇÃO SOBRE OS DIREITOS DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA
A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência busca promover, proteger e
assegurar o exercício pleno e equitativo de todos os direitos humanos para pessoas com deficiência e
promover o devido respeito pela sua dignidade, que lhe é inerente. Para tanto, entende como
pessoas com deficiência aquelas que “têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental,
intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua
participação plena e efetiva na sociedade em igualdades de condições com as demais pessoas”
(Brasil, 2009).
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O monitoramento dessa convenção conta com a atuação do Comitê sobre os direitos das
pessoas com deficiência, os relatórios periódicos e, por meio de protocolo facultativo, com o sistema
de petições individuais.
5.7 CONVENÇÃO PARA A PROTEÇÃO DE TODAS AS PESSOAS CONTRA
DESAPARECIMENTOS FORÇADOS
A Convenção para a Proteção de Todas as Pessoas contra Desaparecimentos Forçados (Fachin,
2019) dispõe que nenhuma pessoa será submetida a essa prática e não admite qualquer justificativa
para isso. O desaparecimento forçado constitui a prisão, a detenção, o sequestro ou qualquer outra
forma de privação da liberdade perpetrada pelo Estado por meio de seus agentes ou diante de seu
apoio e a recusa em admitir tal ato ou declarar o paradeiro da pessoa desaparecida.
Para monitoramento da observância dessa convenção, não há previsão de relatórios periódicos,
mas o comitê pode requerer informações sempre que entender necessário. Ademais, é possível que
este receba comunicações individuais ou interestatais de eventuais violações aos direitos humanos
protegidos por esse tratado.NA PRÁTICA
Para que possamos compreender melhor o funcionamento do Sistema Universal de Direitos
Humanos e a função dos comitês, especialmente no cumprimento dos termos da Convenção sobre
Direitos das Pessoas com Deficiência, vamos analisar um caso prático.
Um homem albino tanzaniano apresentou comunicação ao Comitê sobre os Direitos das Pessoas
com Deficiência narrando que, no seu trabalho, foi atacado por dois homens desconhecidos que
amputaram seu braço esquerdo. Na ocasião, os fatos foram levados ao conhecimento das
autoridades do Estado, mas não houve qualquer investigação no sentido de buscar os culpados ou
estabelecer um quantum indenizatório.
O Comitê apresentou sua decisão final em 2017 e identificou violação aos art. 5º (igualdade e
não discriminação), 15 (prevenção contra a tortura ou tratamentos ou penas cruéis, desumanos ou
degradantes) e 17 (proteção da integridade das pessoas), em conjunto com o art. 4º (obrigações
gerais) da convenção.
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FINALIZANDO
Nesta aula, foi possível compreender de maneira geral como os Direitos Humanos foram
ganhando espaço na comunidade internacional, demonstrando uma verdadeira preocupação global
pelo estabelecimento de parâmetros, valores e princípios que orbitam em prol da dignidade da
pessoa humana.
Diversos documentos, mecanismos e instrumentos tornaram-se essenciais para o
desenvolvimento das dimensões desses direitos, entre os quais destacamos a Declaração Universal
dos Direitos Humanos, que constituiu um verdadeiro parâmetro universal para os demais Sistemas de
Proteção aos Direitos Humanos, e as Convenções Internacionais de Proteção aos Direitos Humanos,
que constituem um verdadeiro mecanismo convencional que atua na promoção e na monitoria da
atuação dos Estados Partes na proteção dos Direitos Humanos.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Decreto n. 65.810, de 8 de dezembro de 1969. Diário Oficial da União, Poder
Legislativo, Brasília, DF, 10 dez. 1969. Disponível em:
. Acesso em: 26 fev. 2019.
_____. Decreto n. 40, de 15 de fevereiro de 1991. Diário Oficial da União, Poder Legislativo,
Brasília, DF, 18 fev. 1991. Disponível em: . Acesso em: 26 fev. 2019.
_____. Decreto n. 592, de 6 de julho de 1992. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília,
DF., 7 jul. 1992. Disponível em: . Acesso em: 26 fev. 2019.
_____. Decreto n. 4.377, de 13 de setembro de 2002. Diário Oficial da União, Poder Legislativo,
Brasília, DF, 16 set. 2002. Disponível em:
. Acesso em: 26 fev. 2019.
_____. Decreto n. 6.949, de 25 de agosto de 2009. Diário Oficial da União, Poder Legislativo,
Brasília, DF, 26 ago. 2009. Disponível em: . Acesso em: 26 fev. 2019.
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https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 14/14
FACHIN, M. G. (Org.). Guia de proteção dos direitos humanos. Curitiba: InterSaberes, 2019.
ONU – Organização das Nações Unidas. Declaração Universal dos Direitos
Humanos.  1948.  Disponível  em:  .
Acesso em: 26 fev. 2019.
_____. Carta Internacional dos Direitos Humanos. Disponível em:
. Acesso em: 28 fev. 2019.

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