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EDUCAÇÃO INFANTIL NO CONTEXTO DA EDUCAÇÃO BÁSICA Prezado(a) aluno(a), O Grupo Educacional FAVENI reafirma o compromisso de oferecer uma formação de excelência, reconhecendo que a modalidade de estudo confere ao aluno autonomia e flexibilidade para organizar seus estudos de acordo com suas necessidades e rotina. Nesse contexto, é fundamental que o estudante estabeleça uma rotina de estudos disciplinada e consistente, reservando horários para leitura, reflexão e realização das avaliações propostas. Reiteramos ainda que o ambiente virtual é equiparável ao presencial no que concerne à troca de conhecimentos e esclarecimento de dúvidas. Assim como em sala de aula, onde a interação acontece espontaneamente, no semipresencial o diálogo deve acontecer por meio dos canais disponíveis no Portal do Aluno e nos encontros ao polo. Incentivamos você a utilizar esses recursos para questionar, esclarecer dúvidas e aprofundar seu entendimento sobre os conteúdos abordados, pois suas perguntas serão respondidas de forma ágil e eficiente pelo nosso suporte. Lembre-se de que a autonomia no processo de aprendizagem implica também responsabilidade. A gestão do seu tempo, o cumprimento dos prazos e a organização das tarefas são essenciais para o seu crescimento acadêmico. Aproveite a flexibilidade que o curso oferece, estabelecendo uma rotina compatível com seus compromissos pessoais e profissionais. Desejamos sucesso em sua jornada de estudos e reforçamos nossa disposição em apoiá-lo(a) na construção de um aprendizado sólido e significativo. Bons estudos! 1 O DIREITO À EDUCAÇÃO INFANTIL E O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA Korczak (1984) sustentava a perspectiva de que a infância representava os prolongados e cruciais anos na vida de um indivíduo. Ele afirmava que as crianças possuíam o direito de expressar suas ideias de maneira livre, enfatizando que os adultos deveriam levar em consideração as opiniões, sugestões e perspectivas infantis. O filósofo Rousseau, um destacado pensador do século XVIII, defendia que o processo educativo deveria respeitar o desenvolvimento natural da criança, prestando atenção às diversas etapas de seu crescimento (ROSSEAU, 2004). A concepção da criança como um sujeito de direito é um fenômeno relativamente recente, moldada por debates e mobilizações da sociedade civil, bem como pela promulgação de políticas e legislação correspondente. No século XIX, período em que a população estava predominantemente ligada à vida rural, as mulheres assumiam a responsabilidade pelo cuidado das crianças enquanto os homens se dedicavam ao trabalho. Entretanto, apenas com o processo de urbanização no século XX e as mudanças na estrutura familiar, incluindo a participação crescente das mulheres no mercado de trabalho, começou a surgir a demanda por serviços de cuidado infantil. À medida que os movimentos operários lutavam por melhores condições de empregos e salários, uma das reivindicações das mulheres trabalhadoras era a disponibilização de locais adequados para deixar seus filhos durante o horário de trabalho (SOUZA e GARCIA, 2015). No Brasil, aproximadamente nos anos 1920, a partir das ideias da Psicologia que enfatizavam o papel ativo do indivíduo na aquisição e construção do conhecimento, surgiu o movimento da Escola Nova. Através desse movimento, iniciou-se uma discussão sobre a necessidade de reformular o atendimento às crianças nos jardins de infância. No entanto, é importante notar que essa discussão inicial estava limitada ao atendimento das crianças pertencentes às classes sociais mais privilegiadas (ROMANELLI, 2012; SOUZA e GARCIA, 2015). Conforme destacado por Souza e Garcia (2015), na década de 1940, com a promulgação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), surgiu a primeira legislação que abordava a obrigatoriedade do atendimento em creches para crianças, especialmente aquelas cujas mães eram trabalhadoras. Até o ano de 1980, essa permaneceu como a única legislação a tratar desse tema. Em 1961, foi promulgada a primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 4.024), a qual estabelecia a obrigatoriedade do ensino público para crianças a partir dos 7 anos e mencionava a educação infantil, indicando que esta deveria ocorrer em maternais e jardins de infância. Nesse contexto, o governo incentivava as empresas que tinham funcionárias com filhos de até 6 anos a se responsabilizarem pela educação dessas crianças. Dessa forma, a educação infantil estava diretamente relacionada aos interesses das famílias e dos empresários (SOUZA e GARCIA, 2015). Com o golpe militar de 1964, o Estado passou a favorecer as classes mais privilegiadas e os setores empresariais, deixando de se comprometer com o financiamento público e promovendo o estímulo à privatização da educação. No que diz respeito à educação infantil, houve uma orientação para que crianças com menos de 7 anos recebessem atendimento educacional em instituições como "escolas maternais, jardins da infância e instituições equivalentes", mas sem definir os parâmetros desse atendimento (BRASIL, 1971, Art. 19). Durante as décadas de 1970 e 1980, começaram a surgir debates nas universidades e entre setores da sociedade civil, abordando se a educação infantil deveria ter um caráter assistencialista ou educacional. Inicialmente, a abordagem educacional da infância estava voltada para a ideia de suprir as deficiências culturais das crianças pertencentes às classes menos favorecidas (ROMANELLI, 2012; SOUZA e GARCIA, 2015). Além dos eventos mencionados anteriormente, ao longo do século XX, ocorreram eventos e aprovações de legislações significativas relacionadas à infância, tanto no âmbito nacional quanto internacional, visando assegurar os direitos das crianças e sua prioridade absoluta. Exemplos desses marcos incluem a Declaração de Genebra (de 1924), a Declaração dos Direitos da Criança (de 1959), a Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança (de 1989), a Constituição Federal Brasileira (de 1988), o Estatuto da Criança e do Adolescente (de 1990) e a Lei de Diretrizes e Bases (de 1996) (SOUZA e GARCIA, 2015). A Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança (UNICEF, 1989) desempenhou um papel crucial na promoção da doutrina da proteção integral da criança, um conceito adotado pelo Brasil no ano subsequente, através do Estatuto da Criança e do Adolescente (SOARES, 2016). Esta Convenção se baseia em três categorias fundamentais: provisão, proteção e participação. Os direitos de provisão englobam as necessidades sociais da criança, como cuidados com a saúde, educação, segurança social, bem-estar físico, vida familiar, lazer e cultura. Os direitos de proteção dizem respeito à proteção da criança contra discriminação, abuso físico e sexual, exploração, injustiça e conflito. Por fim, os direitos de participação se relacionam com os direitos civis e políticos da criança, incluindo o direito ao nome, identidade, liberdade de expressão, opinião e tomada de decisões em seu próprio interesse. A Constituição Federal de 1988, também conhecida como Constituição Cidadã, reconheceu a importância da proteção da infância e estabeleceu diversos direitos para as crianças. Estes incluem o direito ao atendimento em creches e pré-escolas, bem como os direitos à vida, saúde, alimentação, educação, lazer, cultura, dignidade, respeito, liberdade e convivência familiar e comunitária. A Constituição também proíbe qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão contra as crianças (BRASIL, 1988, Art. 227). O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), reforça a ideia de que a criança é um sujeito de direito, afirmando que "crianças e adolescentes são titulares dos direitos previstos"Além disso, você pode contar com as orientações presentes no projeto pedagógico da instituição escolar em que está envolvido. O projeto pedagógico, que engloba a concepção de criança, metodologias e planejamento, é o guia das ações da escola. Ele é desenvolvido pela equipe de educadores com a participação dos pais e, de maneira adaptada, das próprias crianças. Esse projeto deve servir como diretriz para o planejamento das atividades didáticas do professor, uma vez que inclui um roteiro de atividades a serem implementadas com a turma. O professor deve realizar observações sistemáticas e contínuas do comportamento de cada bebê em diversos momentos. Isso se revela para que o educador possa entender como a criança está absorvendo os padrões culturais de comportamento, emoção e pensamento. Portanto, a observação não se limita a ser apenas um meio descritivo, mas se configura como um recurso valioso que permite ao professor investigar e planejar o processo de aprendizagem da criança. O registro dessas observações, orienta as estratégias para o desenvolvimento das crianças e também proporcionando aos pais uma visão das conquistas e progressos de seus filhos (MOLETTA, BIERWAGEN E TOLEDO, 2018). 4.2 A recepção dos bebês no ambiente escolar Goldschmied e Jackson (2006), destaca que, como mencionado anteriormente, as crianças, mesmo desde a infância, estabelecem laços afetivos com os adultos, conhecidos como relações de vínculo. Através desses vínculos, as crianças conseguem identificar as pessoas ao seu redor e reagem de maneira distinta às que são familiares e às que são desconhecidas. Os adultos têm como papel fornecer segurança e apoiar a exploração do ambiente por parte da criança. Na ausência do adulto, a criança pode se sentir insegura, chorar ou se isolar, o que pode afetar negativamente sua capacidade de interagir e explorar o mundo ao seu redor. Portanto, deve-se planejar cuidadosamente o processo de adaptação da criança à creche, de modo que o professor possa se tornar uma figura de referência afetiva para ela. No ambiente do berçário, o professor é o destaque para a criança. Ele monitora de perto os movimentos do bebê, fornecendo apoio e segurança, e reage segundo o afastamento da criança. Com o passar do tempo, o bebê começa a se acostumar com o ambiente escolar e a lidar de maneira mais tranquila com a separação das pessoas às quais está vinculado afetivamente. Isso resulta em um aumento de sua confiança, à medida que compreende que aqueles que se distanciam podem eventualmente retornar. Assim, é necessário considerar estratégias construtivas para abordar a questão do apego, visando a formação de vínculos sólidos entre o educador e a criança no contexto da creche. Nesse sentido, as entrevistas com mães, pais ou responsáveis pelos bebês que estão ingressando na creche constituem fontes primordiais de informações iniciais. Através dessas conversas, é possível adquirir conhecimento sobre as rotinas individuais das crianças e suas histórias familiares. Além disso, as entrevistas oferecem oportunidades para tranquilizar as famílias em relação à adaptação dos filhos a um ambiente novo. O professor pode contribuir para esse período de acolhimento ao receber a criança de braços abertos e, quando necessário, oferecer conforto ao segurá-la no colo. O educador tem que compreender as manifestações da criança, como choro, alterações no apetite, sono excessivo ou insônia. Caso a criança adoeça, esses sintomas podem ser indicativos que ela percebeu a introdução de elementos novos e desconhecidos em sua vida. O educador deve manter vigilância constante em relação a esses sinais, não apenas durante o processo de adaptação inicial na creche, mas também ao longo de toda a trajetória educacional na instituição. A observação detalhada de todos os comportamentos infantis é relevante, uma vez que esses comportamentos influenciam a interação das crianças entre si e, consequentemente, seu processo de aprendizagem (MOLETTA, BIERWAGEN E TOLEDO, 2018). 5 EDUCAÇÃO EM CRECHE: CRIANÇAS DE 1 ANO E 7 MESES A 3 ANOS E 11 MESES Para entender os elementos essenciais que devem ser considerados nas abordagens educacionais destinadas a crianças bem pequenas, é necessário adquirir conhecimento sobre as principais características dessa fase do desenvolvimento infantil. Essas particularidades representam potenciais áreas de progresso que podem ou não se manifestar, dependendo das oportunidades disponibilizadas pelo ambiente em que a criança se encontra. Consoante a Goldschimied e Jackson (2018), procuraremos situar a criança nas faixas etárias de 2 e 3 anos para melhor compreensão do tema. Especificamente, quando nos referimos às crianças nesta faixa etária, estamos tratando do grupo atendido nas creches, ou seja, as "crianças bem pequenas", que a Base Nacional Comum Curricular – BNCC (BRASIL, 2017), define. Desse modo, durante o segundo ano de vida, a criança demonstra uma notável atividade, buscando constantemente aprimorar suas habilidades recentemente desenvolvidas, como a linguagem e um maior controle sobre seus movimentos e habilidades de manipulação. Durante esse estágio, a exploração e a movimentação independente são atividades que proporcionam grande satisfação. Conforme observado por Goldschimied e Jackson (2008, p. 131): [...] nos primeiros dois anos a criança passa de uma situação de dependência quase total para uma de relativa independência, de quatro maneiras, em termos gerais: por meio do movimento e da habilidade de manipulação, ao alimentar-se sozinha, no desenvolvimento da linguagem pré-verbal precoce até a fala propriamente dita, bem como no cuidado corporal que leva ao controle dos esfíncteres (GOLDSCHIMIED e JACKSON, 2008, p. 131). A velocidade com que essas realizações se manifestam varia de criança para criança e está sujeita às oportunidades oferecidas pelo ambiente, bem como às interações com seus pares e adultos. As novas habilidades infantis, especialmente as relacionadas à manipulação e movimento, capacitam as crianças a se tornarem gradualmente mais independentes dos adultos, permitindo-lhes realizar tarefas simples por conta própria. Além disso, um aspecto do desenvolvimento que apresenta avanços notáveis é a linguagem. Dependendo dos estímulos proporcionados pelo ambiente, as crianças começam a desenvolver uma linguagem mais elaborada, melhorando sua comunicação verbal e tornando-se gradualmente mais capazes de transcender o momento presente. Através da linguagem, elas adquirem a capacidade de explorar diferentes períodos e locais, não dependendo tanto da experiência imediata. Crianças com idades entre 2 e 3 anos começam a desenvolver a capacidade de compreender as explicações e negociações necessárias para interagir em um ambiente social. É importante que elas percebam que são valorizadas e respeitadas pelos adultos, que, por sua vez, devem gradualmente permitir que as crianças tomem decisões e façam escolhas. O terceiro ano de vida representa um período de solidificação das habilidades adquiridas no ano anterior. Nesse mesmo período, enquanto as conquistas anteriores se consolidam, a criança começa a questionar o mundo ao seu redor, buscando compreendê-lo e entender sua relação com ele. Nesse estágio de desenvolvimento, a criança exibe um amplo domínio de diversos movimentos, demonstrando habilidades sólidas ao caminhar e correr. Além disso, o repertório vocabular da criança já se encontra consideravelmente expandido, e sua utilização da linguagem com objetivos comunicativos se tornou mais eficaz. A consolidação de múltiplas competências, aliada às novas descobertas e ao acúmulo de conhecimento, capacita a criança a alcançar uma maior autonomia em relação aos adultos. Esse crescente grau de independência promove uma maior conscientização de sua própria identidade(CASTELLAR e SEMEGHINI-SIQUEIRA, 2015). 5.1 Práxis educativas Conforme estabelecido pelas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (BRASIL, 2010), a brincadeira é importante nas práticas educacionais direcionadas às crianças pequenas que frequentam as creches. Para que as creches se tornem um ambiente onde as atividades lúdicas sejam incentivadas e o ato de brincar se torne verdadeiramente um meio de desenvolvimento e aprendizado, é necessário considerar algumas condições específicas. O Manual de orientações Pedagógicas (BRASIL, 2012), apresenta uma série de sugestões, tais como: • Reconhecer o brincar como um direito inalienável da criança. • Compreender a relevância do ato de brincar para a criança, considerando suas necessidades de atenção, afeto, bem como suas iniciativas, conhecimentos, interesses e demandas individuais. • A concepção de ambientes educacionais cuidadosamente elaborados, que proporcionem oportunidades de alta qualidade para atividades lúdicas e interações. • O cultivo da natureza brincalhona por parte da professora. Além do mais os ambientes devem ser dispostos para facilitar a interação entre as crianças, com o propósito de tornar a interação um componente significativo no processo de construção de conhecimento. Além disso, é essencial que, durante essa fase da educação, as crianças tenham acesso a uma variedade de recursos culturais, como livros de literatura, brinquedos, objetos e outros materiais, bem como a diferentes formas de expressão artística e elementos da natureza. Nesse contexto, torna-se necessário que instituições de educação infantil planejem cuidadosamente os espaços e disponibilizem recursos e materiais que promovam a brincadeira e as interações. Esses elementos são considerados como pilares das práticas pedagógicas. A abordagem não concebe os espaços como meros locais onde os professores transmitem conhecimento durante aulas tradicionais. Em vez disso, são vistos como ambientes nos quais as crianças podem explorar diversas experiências, desempenhando um papel ativo na construção de seu próprio conhecimento (BRASIL, 2012). Aqui estão alguns exemplos de materiais e atividades que podem ser utilizados com crianças bem pequenas. Dentre as diversas opções de materiais disponíveis, incluem-se: caixas de papelão para brincar e empilhar, colchões, cestas contendo objetos variados, como pedaços de tecido, conchas, tampinhas e caixinhas, fantasias, bem como utensílios de uso comum, como objetos de cozinha, escritório e cabeleireiro, entre outros. É importante que esses materiais estejam acessíveis às crianças, permitindo que elas os escolham e, posteriormente, os guardem quando não estiverem em uso. Esses objetos estimulam à criatividade, à imaginação nas brincadeiras de faz de conta. É importante planejar e organizar diferentes espaços para permitir uma variedade de experiências e explorações nas creches. Esses espaços podem incluir: • Área externa, que pode ser utilizada tanto para brincadeiras livres quanto para desafios planejados pelos professores. • Biblioteca, que pode ser criada mesmo que não haja um espaço específico para ela na escola, utilizando um canto da sala. • Cantos temáticos para brincadeiras, como o canto da fantasia, da construção, da leitura e das experiências. • Uma área dedicada à exploração com água, equipada com utensílios apropriados. Deve-se envolver as crianças na organização dos espaços e na escolha dos materiais, consultando suas opiniões e considerando suas sugestões. Além disso, as famílias podem ser incluídas no processo, contribuindo com objetos de cozinha, escritório, roupas e outros itens que não estejam sendo utilizados em casa, tornando- se valiosos recursos para o aprendizado infantil na escola (GONZALEZ-MENA e EYER, 2014). 5.2 A experimentação e a construção de conhecimentos pelas crianças Conforme estabelecido pela Base Nacional Comum Curricular – BNCC (2017), durante a fase da educação infantil, as atividades lúdicas e interações nas práticas pedagógicas garantem a concretização dos direitos de aprendizagem, que incluem conviver, brincar, participar, explorar, expressar-se e conhecer-se. A abordagem curricular propõe uma ruptura com o modelo tradicional de ensino ao sugerir que os conteúdos sejam organizados em campos de experiências. Nesta perspectiva, a BNCC (2017), aborda que: Os campos de experiências constituem um arranjo curricular que acolhe as situações e as experiências concretas da vida cotidiana das crianças e seus saberes, entrelaçando-os aos conhecimentos que fazem parte do patrimônio cultural. A definição e a denominação dos campos de experiências também se baseiam no que dispõem as DCNEI em relação aos saberes e conhecimentos fundamentais a ser propiciados às crianças e associados às suas experiências (BRASIL, 2017, p. 40). A perspectiva interacionista de aprendizado, que tem como base renomados estudiosos como Piaget, Wallon e Vygotsky, argumenta que a formação de saberes ocorre por meio da interação (troca de ações) entre o indivíduo e o objeto de conhecimento, ambos inseridos em um contexto específico. O conceito de ação implica que, no processo de aprendizagem, o sujeito deve se envolver em experimentação. Portanto, é fundamental que as crianças bem pequenas tenham a oportunidade, na educação infantil, de experimentar uma variedade de movimentos, linguagens, materiais, interações, emoções e expressões. Durante as fases de exploração, as crianças aplicam os conhecimentos que já adquiriram, formulam suposições, testam-nas, validam ou negam-nas e, assim, edificam novos saberes. As estratégias mentais empregadas nesse procedimento garantem que os novos conhecimentos sejam internalizados pelas crianças, adquirindo significado. A introdução dos campos de experiências na BNCC reitera essa concepção e auxilia o educador na elaboração de suas abordagens pedagógicas. Portanto, tais abordagens necessitam estar intimamente ligadas aos interesses e demandas manifestados pelas crianças, de modo a se transformarem em experiências com um verdadeiro propósito educacional (GOLDSCHMIED e JACKSON, 2008). O professor deve possuir um conhecimento sólido dos objetivos de aprendizado para o grupo etário sob sua orientação, o que lhe permitirá planejar experiências de aprendizado eficazes para as crianças. Deve ainda estar atento ao que as crianças comunicam e observar suas interações e resultados, a fim de adaptar essas estratégias às suas necessidades e interesses. Quanto a avaliação, esta deve se dar com ênfase na formação contínua, fornecer percepções sobre o alcance ou não dos objetivos previamente estabelecidos. Se forem alcançados, o educador pode continuar a desenvolver novos objetivos. No entanto, se não forem atingidos, é responsabilidade dele buscar abordagens alternativas (MOLETTA, BIERWAGEN e TOLEDO, 2018). 5.3 Interações e o desenvolvimento da linguagem na infância Para Moletta, Bierwagen e Toledo (2018), a aquisição da linguagem e a capacidade de comunicação eficaz são processos complexos que ocorrem gradualmente nas crianças. Geralmente, por volta dos 2 anos (embora isso possa variar entre crianças), elas começam a falar, mas esse início da fala ocorre porque já têm algo para expressar. Os fundamentos do vocabulário infantil são moldados por meio da interação com adultos e outros indivíduos mais experientes em comunicação. Portanto, as interações que ocorrem desde o nascimento até cerca dos 2 anos são cruciais no desenvolvimento da capacidade de falar. Os adultos que cuidam, alimentam e estabelecem vínculos afetivos com bebês não apenas garantem sua sobrevivência, mas também fornecem elementos para o desenvolvimento da inteligência das crianças. Nas primeiras interações, as palavras do adulto, através do diálogo que se estabelece, envolvendopalavras, emoções e afetos, as bases para a compreensão de como o mundo da linguagem são construídas. A medida que a criança começa a incorporar suas experiências ao vocabulário do adulto, o significado da linguagem se avança. Dessa forma, sensações previamente desconhecidas gradualmente se tornam identificáveis, como fome, cólica ou sono, por exemplo. Da mesma maneira, experiências agradáveis passam a ser traduzidas como alegria, entusiasmo ou bom humor. Mesmo que a criança ainda não possa se comunicar de maneira que seja compreensível socialmente, aos poucos ela desenvolverá gestos, vocalizações e expressões que se repetirão em situações similares, indicando uma intenção. Esse processo, chamado de verbalização, representa o primeiro passo na jornada rumo à aquisição da linguagem falada (LABORATÓRIO DE EDUCAÇÃO, 2016). Considerando isso, é evidente que as crianças constroem seus conceitos por meio de suas interações com adultos e colegas, e posteriormente nomeiam esses conceitos com palavras. Durante essas interações, elas aprendem o significado de palavras, expressões e como utilizá-las socialmente. A extensão e qualidade dessas interações influenciam o ritmo da fala e o tamanho do vocabulário adquirido pela criança. Por volta dos 2 anos, geralmente a criança já possui um conjunto de palavras e frases que lhe permitem se comunicar eficazmente e expressar suas emoções, sentimentos e desejos de forma compreensível para os adultos. Aos três anos, sua linguagem está mais sólida, o que abre oportunidades para a expansão do vocabulário e uma redução gradual da dependência de choro e outras formas de comunicação para expressar emoções (MOLETTA, BIERWAGEN e TOLEDO, 2018). 5.4 A Evolução da linguagem na abordagem de Piaget e Vygotsky Tanto Piaget (1896 – 1980) quanto Vygotsky (1896 – 1934) foram teóricos que seguiam a abordagem interacionista. Isso significa que eles compartilhavam a visão de que os seres humanos construíam seu conhecimento por meio da interação com os elementos de conhecimento presentes em seu ambiente. Portanto, ambos enfatizavam a interação na formação da linguagem, considerada como um dos elementos de conhecimento disponíveis no ambiente. Moletta, Bierwagen e Toledo (2018), abordar que apesar de concordarem sobre a importância das interações, Piaget e Vygotsky têm perspectivas distintas em relação ao desenvolvimento da linguagem. Para Piaget, em torno dos 2 anos, o aparelho vocal das crianças está preparado para a aquisição da fala, criando oportunidades para o desenvolvimento linguístico. Segundo a visão piagetiana, as crianças começam a falar porque já possuem um conjunto de conhecimentos previamente construídos. Esses conhecimentos são adquiridos durante suas interações com outros indivíduos do ambiente, principalmente com os adultos. Antes de adquirir a habilidade da fala, a criança expressa suas necessidades, desconfortos e emoções, principalmente através do choro. No entanto, a maneira como um adulto responde a esse choro não é uniforme. O adulto interpreta o choro e age de acordo com essa interpretação, como verificar se o bebê foi recentemente alimentado, se a fralda está suja ou se algo está causando desconforto. Ao fazer isso, o adulto transmite informações essenciais sobre como a sociedade funciona e enriquece o repertório cognitivo da criança. De acordo com Piaget (1975), o início da fala ocorre devido à maturação do aparelho vocal, enriquecida pelos conhecimentos adquiridos durante o estágio pré- verbal. Em um estágio subsequente, emerge a chamada "fala egocêntrica," que se manifesta por volta dos dois ou três anos, quando a criança começa a falar sozinha em voz alta, como se estivesse dando instruções a si mesma. Para Piaget, essa fala egocêntrica indica o surgimento da fala socializada, que é a capacidade de se comunicar com os outros. Piaget postula que o conhecimento precede a linguagem, sendo a fala uma consequência subsequente. Em contraste, Vygotsky (1984), argumenta que o pensamento e a linguagem se desenvolvem em paralelo inicialmente e, posteriormente, tornam-se interligados, tipicamente por volta dos 2 anos. Nesse ponto, o significado assume um papel central no desenvolvimento da linguagem. Piaget articula o desenvolvimento do pensamento em estágios distintos: sensório- motor, pré-operacional, operatório concreto e operações formais, destacando a fala nesse processo. Consoante a perspectiva piagetiana, a criança percorre um longo caminho antes de suas ações se tornarem socializadas e sua linguagem se tornar verdadeiramente comunicativa. Por outro lado, para Vygotsky (1984), o desenvolvimento ocorre por meio da linguagem, progredindo junto com o pensamento, facilitados por instrumentos linguísticos, psicológicos e sinais, bem como pela experiência sociocultural da criança. Ele enfatiza o papel do contato social mediado no desenvolvimento infantil. Quando se trata da origem do pensamento, Piaget considera que o pensamento autístico representa a forma mais primitiva de comunicação. Por outro lado, Vygotsky (1984), argumenta que a linguagem já é de natureza social desde o nascimento. Dessa maneira, podemos interpretar que a criança piagetiana é ativa na interação com objetos ao longo de um caminho solitário, uma vez que suas interações sociais surgem em uma fase posterior, especificamente no estágio final já mencionado. Durante esse processo, os "objetos" podem assumir várias formas, incluindo coisas tangíveis, pessoas, o mundo ao seu redor e até mesmo a própria linguagem em si. Por outro lado, a criança com uma perspectiva vygotskyana segue um percurso inverso, sendo ativa nas interações sociais desde o início e, portanto, adotando uma teoria socializada do desenvolvimento. Vygotsky (1984), enfatiza o papel do social como um elemento constitutivo do desenvolvimento, afirmando, por exemplo, que o caminho entre o objeto e a criança, e vice-versa, passa pelo outro. Portanto, ontogeneticamente, os dois teóricos seguem caminhos distintos. As primeiras interações na infância não dependem necessariamente de experiências escolares. Desde o nascimento, as crianças estão imersas em um ambiente onde a linguagem é uma presença constante. O desenvolvimento da linguagem no contexto familiar ocorre de maneira informal. Os adultos que cuidam das crianças desejam que elas comecem a falar, mas geralmente não empregam estratégias pedagógicas específicas para esse fim. Quando as crianças de 2 e 3 anos ingressam na educação infantil, já possuem um repertório de palavras e frases que utilizam para se comunicar. Nesse contexto, é responsabilidade do professor acolher essas formas de comunicação e planejar situações de interação autêntica. O objetivo é estimular a mobilização dos conhecimentos já adquiridos e promover o avanço na construção de novos saberes (CASTELLAR e SEMEGHINI-SIQUEIRA, 2015). 6 A PRÉ – ESCOLA: CRIANÇAS PEQUENAS DE 4 ANOS A 5 ANOS E 11 MESES Flores e Albuquerque (2016) esclarecem que, nas últimas décadas, o país tem ampliado gradualmente o acesso à educação escolar visando aumentar o número de anos de matrícula obrigatória. Isso tem exigido esforços variados por parte dos líderes governamentais para garantir os recursos necessários. Esses esforços podem incluir a construção de novos prédios escolares, aquisição de equipamentos, materiais e móveis, a realização de concursos públicos para a contratação de professores e a expansão de programas complementares, como merenda escolar, transporte, material didático e programas de apoio à saúde dos estudantes. Durante a vigência da primeira Lei de Diretrizes e Bases (LDB) 4.024/61, era obrigatória a matrícula no ensino primário, que tinha uma duração de quatro a seis anos. Posteriormente, com a aprovação da LDB 5.692/71, o ensino de 1º grau, com oito anos de duração, tornou-se obrigatório,englobando tanto o primário quanto o curso ginasial. De 1996 a 2006, conforme previsto na LDBEN 9.394/96, o ensino fundamental com oito anos de duração era obrigatório, sendo posteriormente estendido para nove anos, com a inclusão de crianças de seis anos, após a aprovação da Lei Federal 11.274/ 06. Com essa alteração, as crianças de seis anos, que estavam anteriormente matriculadas no último ano da pré-escola, passaram a ser escritas no primeiro ano do "novo ensino fundamental". Essa expansão foi apresentada oficialmente como um avanço em termos de direitos educacionais e inclusão de crianças dessa faixa etária no sistema de ensino obrigatório. Isso se deu porque essa ampliação foi planejada para oferecer um período mais extenso de escolarização, adequado às necessidades específicas desse grupo etário. Antes que fossem realizadas pesquisas sobre a relevância e as consequências desta política, a Emenda Constitucional nº 59, em 2009, estendeu a obrigação de matrícula escolar por um período de 14 anos, porém sem estabelecer uma conexão obrigatória com a conclusão de qualquer fase da educação básica. Outrossim, em 4 de abril de 2013, a então chefe de Estado Dilma Rousseff sancionou a Lei nº 12.796/2013, que modificou a Lei nº 9.394/96, colocando-a conforme a Emenda Constitucional nº 59. Nesse contexto, foi exigida a obrigação de disponibilizar a educação básica e gratuita a partir dos 4 anos. Segundo a legislação, a responsabilidade de efetuar a matrícula das crianças nessa faixa etária recai sobre os pais e responsáveis. Entretanto, as redes de ensino municipais e estaduais tinham até o ano de 2016 para se ajustarem e acolher os alunos com idade entre 4 e 17 anos. O artigo 30, § 2º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), que foi promulgado em 1996, estipulava que as pré-escolas deveriam receber crianças com idades entre 4 e 6 anos. Entretanto, a Lei nº 12.796/2013, com modificações na LDB, alterou o texto desse parágrafo. Como resultado, as pré-escolas passaram a acolher crianças de 4 e 5 anos segundo a nova redação desta legislação. Para garantir que todas as crianças brasileiras de 4 e 5 anos estejam matriculadas e frequentando a pré-escola, é crucial que o governo garanta a disponibilidade de vagas em quantidade suficiente para atender à demanda. A primeira meta do Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado por meio da Lei nº 13.005/2014, distribuída até o ano de 2016, a educação infantil deveria ser acessível a todas as crianças dessa faixa etária nas pré-escolas. Além disso, o PNE também define que a oferta de creches será necessariamente ampliada de modo a atender, no mínimo, 50% das crianças de até 3 anos até o final da vigência do plano, em 2024. Conforme informações apresentadas no Anuário Brasileiro da Educação Básica (BRASIL, 2018, p. 22): No caso da população de 4 e 5 anos, faixa etária da Pré-Escola, os dados disponíveis, [...] mostram que as crianças vêm sendo paulatinamente incluídas no sistema educacional, com uma taxa de atendimento que chegou a 93%, em 2017. A desigualdade no atendimento entre ricos e pobres vem caindo, no que se refere ao acesso à Pré-Escola (BRASIL, 2018, p. 22). Apesar de um aumento gradual no número de crianças matriculadas nas pré- escolas, ainda existe um caminho a ser percorrido antes de alcançar a universalização dessa fase da educação básica. O desafio de universalizar a educação infantil persiste para as administrações municipais, que colaboram com os governos estaduais e federais para encontrar soluções para essa questão (MOLETA, BIERWAGEM e TOLEDO, 2018). 6.1 Práticas pedagógicas para crianças de 4 e 5 anos As pré-escolas atendem crianças com idades entre 4 e 5 anos, definidas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) como o grupo das “crianças pequenas” (BRASIL, 2017). Conforme previsto na BNCC, o trabalho realizado na pré-escola deve ser uma continuação do que foi feito com bebês (0 até 1 ano e 6 meses) e crianças bem pequenas (1 ano e 7 meses até 3 anos e 11 meses), como estudamos nas aulas anteriores. Nesse contexto, as práticas educativas devem focar principalmente as interações e a brincadeiras. O trabalho pedagógico deve garantir o desenvolvimento dos seis direitos de aprendizagem da educação infantil, semelhante às fases anteriores, a organização curricular não se baseia em áreas de conhecimento, mas é dividida em cinco campos de experiências. A estrutura curricular baseada em campos de experiência aborda dois aspectos essenciais para o ensino na pré-escola: a interdisciplinaridade e a perspectiva da criança como protagonista do seu próprio processo de aprendizagem. As contribuições dos modelos interacionistas de aprendizagem transformaram a concepção da criança em relação ao ensino tradicional, que se fundamentava nos modelos empiristas de aprendizagem. Nesse novo paradigma, a criança deixou de ser vista como um receptor passivo de conhecimento pronto e acabado, passando a ser percebida como alguém que desempenha um papel ativo em seu próprio processo de aprendizagem. Na educação infantil, esse envolvimento ativo se manifesta por meio de interações sociais, experimentações e atividades lúdicas. Quando se aborda a interdisciplinaridade, é essencial quebrar a barreira da fragmentação do conhecimento para promover uma aprendizagem genuína. Na pré- escola, a criança construiu seu entendimento por meio da exploração do mundo ao seu redor e da interação com adultos e colegas. Esse mundo explorado não se enquadra rigidamente nas divisões das diferentes áreas de conhecimento, pois sua natureza é intrinsecamente interdisciplinar. O professor da pré-escola ocupa uma posição única para fomentar uma abordagem interdisciplinar, uma vez que ele é, por natureza, um educador polivalente (MOLETA, BIERWAGEM e TOLEDO, 2018). A Visão de Vygotsky sobre a importância do brincar Ao tratar do conceito de brincadeira em sua teoria, Vygotsky (1984) focaliza em particular o jogo de faz de conta. A ênfase atribuída a essa categoria específica de atividade infantil está relacionada à sua relevância no processo de crescimento e desenvolvimento da criança, englobando atividades como simular ser médico, participar de brincadeiras de escola e cenários de exploração de casinha, entre outras formas lúdicas. Nesta perspectiva, Oliveira (1993) aponta que: Numa situação imaginária como a brincadeira de “faz de conta”, [...] a criança é levada a agir num mundo imaginário (o “ônibus” que ela está dirigindo na brincadeira, por exemplo), onde a situação é definida pelo significado estabelecido pela brincadeira (o ônibus, o motorista, os passageiros, etc.) e não pelos elementos reais concretamente presentes (as cadeiras da sala onde ela está brincando de ônibus, as bonecas, etc.) (OLIVEIRA, 1993, p. 67). Deste modo, a atividade imaginativa infantil, conhecida como brincadeira de faz de conta, se configura como um elemento de transição entre objetos tangíveis e suas ações dotadas de significado. Uma das características primordiais desse tipo de brincadeira é a sua conformidade com as diretrizes, embora estas não sejam específicas à brincadeira em si, mas sim às normas sociais vigentes. Por exemplo, uma criança que simula estar em uma sala de aula dentro da brincadeira de escolinha obedece às normas sociais que governam o ambiente escolar. Nesse sentido, as crianças apresentam comportamentos mais sofisticados, adiantando-se ao seu estágio de desenvolvimento habitual. Sobre o assunto, o autor aponta: Tanto pela criação da situação imaginária, como pela definição de regras específicas, o brinquedo cria uma zona de desenvolvimento proximal na criança. No brinquedo a criança comporta-se de forma mais avançada do que nas atividades da realidade e também aprende a separar objeto e significado. Embora num exame superficial possa parecer que o brinquedotem pouca semelhança com atividades psicológicas mais complexas do ser humano, uma análise mais aprofundada revela que as ações no brinquedo são subordinadas aos significados dos objetos, contribuindo claramente para o desenvolvimento da criança (OLIVEIRA, 1993, p. 69) Isso posto, torna-se de enorme importância que, no âmbito da educação pré- escolar, as crianças recebam diversas oportunidades para participar em variadas formas de brincadeiras fictícias que contribuem para o seu desenvolvimento. As turmas da pré-escola devem disponibilizar uma ampla gama de materiais e itens do dia a dia, a fim de possibilitar que as crianças cultivem sua capacidade criativa e imaginação ao se envolverem em atividades de faz de conta. Uma maneira particularmente interessante de proporcionar esse tipo de atividade lúdica é através da criação de áreas temáticas, tais como o cantinho da imaginação, o salão de beleza fictício e a clínica médica simulada. Nestes espaços, deverão ser disponibilizados objetos relacionados a cada tema, à disposição das crianças. Na concepção e manutenção dessas áreas, é possível envolver as famílias, que podem contribuir enviando para a escola itens que não estão mais em uso, como seringas sem agulhas, radiografias, roupas, materiais de escritório, entre outros recursos. Caso haja restrições de espaço na sala de aula para criar esses cantinhos, uma alternativa viável é organizar kits temáticos, condicionados em caixas que serão armazenadas em um armário ou prateleira, acessíveis às crianças. É importante ressaltar que a organização tanto dos cantinhos temáticos quanto dos kits deve ser um processo colaborativo com as crianças. Eles devem ter a oportunidade de expressar suas preferências em relação aos cantos ou kits que desejam ter, aos objetos que desejam incluir e com que frequência desejam fazer alterações. Além disso, deve-se considerar a gestão do tempo na escola. As brincadeiras de faz de conta requerem um período adequado, o qual deve ser assegurado no planejamento educacional. A atividade de brincar de faz de conta está intimamente ligada à ideia da zona de desenvolvimento proximal de Vygotsky. Consoante a Vygotsky (1984, p. 97) a zona de desenvolvimento proximal é: [...] a distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar por meio da solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado por meio da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes. Assim, a zona de desenvolvimento proximal representa o percurso que um indivíduo trilha para consolidar as funções psicológicas no processo de amadurecimento. Essa zona é dinâmica, com a capacidade de transformar-se ao longo do tempo; o que uma criança só pode fazer com ajuda hoje, poderá fazer sozinha no futuro. Esse conceito, desenvolvido por Vygotsky (1984), ganhou relevância devido à sua aplicação significativa, na prática, educacional. Vygotsky argumentou que a aprendizagem ocorre na zona de desenvolvimento proximal, tornando-a o ponto central da intervenção pedagógica eficaz. Ao intervir nessa zona, seja por um adulto ou uma criança mais experiente, promove-se a aprendizagem e, por conseguinte, o desenvolvimento. Dado que a missão da instituição escolar é fomentar o processo de aprendizagem, torna-se essencial que o educador participe ativamente na Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP). Para atingir tal propósito, é necessário que ele reconheça a esfera de desenvolvimento atual dos estudantes, isto é, os conhecimentos prévios que eles possuem. O conhecimento prévio do aluno pode ser considerado como ponto de partida para aquilo que, num primeiro momento, ele realizará com o auxílio de um indivíduo mais versado no assunto. Após uma intervenção pedagógica, a nova aprendizagem será assimilada e incorporada ao seu acervo de conhecimento. A brincadeira na educação infantil O ato de brincar constitui uma prática intrínseca à fase infantil e se desenrola em variados cenários. No entanto, considerando o papel relevante desempenhado por essa atividade no contexto do progresso e aprendizagem das crianças, é imperativo que ela seja assegurada como uma presença constante nas instituições de ensino dedicadas à educação das crianças pequenas. Corroborando, o Referencial curricular nacional para a educação infantil aponta: A brincadeira é uma linguagem infantil que mantém um vínculo essencial com aquilo que é o “não brincar”. Se a brincadeira é uma ação que ocorre no plano da imaginação, isto implica que aquele que brinca tenha o domínio da linguagem simbólica. Isto quer dizer que é preciso haver consciência da diferença existente entre a brincadeira e a realidade imediata que lhe forneceu conteúdo para realizar-se. Nesse sentido, para brincar é preciso apropriar-se de elementos da realidade imediata de tal forma a atribuir-lhes novos significados (BRASIL, 1998, p. 27). Sobre as funções da brincadeira, a atividade lúdica estabelece os fundamentos para o crescimento das competências sociais e intelectuais essenciais para que o adulto possa desempenhar seu papel em uma sociedade que se torna progressivamente mais intrincada. Segundo Brock et al. (2011, p. 25), “[...] a diversão é uma experiência versátil e autônoma, que atende tanto às demandas da criança em particular quanto às necessidades da futura sociedade em que ela se integrará na fase adulta”. Quanto a brincadeira no desenvolvimento psicológico, para teóricos importantes da psicologia do desenvolvimento, como Piaget e Vygotsky, o ato de brincar contribui na formação de um conjunto de representações mentais do ambiente que circunda uma criança. De acordo com kishimoto (2003), para Piaget a formação de novos saberes ocorre por meio de um processo contínuo que envolve a perturbação do equilíbrio cognitivo, a assimilação e/ou acomodação e a subsequente restauração do equilíbrio cognitivo. Para este autor, o indivíduo alcança um estado de equilíbrio cognitivo quando compreende seu ambiente circundante. No entanto, quando ele se depara com um novo elemento, esse encontro cria um conflito cognitivo e, como resultado, desestabiliza seu equilíbrio cognitivo. O primeiro esforço do indivíduo consiste em conferir significados ao novo elemento, relacionando-o com os conhecimentos previamente adquiridos. Piaget (1975), denomina esse processo de assimilação. Quando uma estrutura mental precisa ser reconfigurada para incorporar o novo elemento do ambiente externo, ocorre o que Piaget chama de acomodação. A teoria piagetiana sublinha a importância das atividades lúdicas no processo de aprendizagem, uma vez que, nessas circunstâncias, os indivíduos incorporam eventos e objetos à sua identidade e à sua estrutura mental. O papel do professor no incentivo da prática lúdica Qual é o papel do professor no apoio às experiências lúdicas? Para Silva et al. (2022), esta questão demanda uma análise mais profunda: em suas práticas, o professor tem desenvolvido estratégias para enriquecer o ato de brincar? Se sim, de que maneira? Conforme a perspectiva de Brock (2011), o papel do adulto envolve a criação de "ambientes enriquecedores que estimulem uma ampla variedade de atividades lúdicas, incluindo brincadeiras espontâneas, aquelas com estrutura, explorações imaginativas e manifestações criativas" (BROCK, 2011, p. 6). Esses ambientes devem, por sua vez, possibilitar que as crianças alcancem seu pleno potencial no que diz respeito ao desenvolvimento, à aprendizagem e ao bem-estar. Os adultos que trabalham e brincam com crianças têm, portanto, um papel importante na tomada de decisões sobre a didática apropriada e os ambientes para brincar. Eles precisam levar em conta as disposições e a autoestima das crianças, baseando-se em sua “diversidade de legados e experiênciasculturais, reconhecendo que as crianças são aprendizes capazes e confiantes, assim como valorizando as novas experiências que elas trazem todos os dias” (BROCK, 2011, p. 6). O ato de brincar engloba diversas categorias de experiências que se distinguem pelo uso predominante de materiais ou recursos específicos (BRASIL, 1998). Estas categorias abrangem: • Movimento e percepção: Estas experiências decorrem principalmente da mobilidade física das crianças, resultando em mudanças na percepção do ambiente. • Interação com objetos e suas características físicas: envolve a exploração e manipulação de objetos, bem como a combinação e associação entre eles durante o brincar. • Linguagem oral e gestual: Compreende a utilização de diferentes níveis de organização na comunicação oral e gestual como parte integrante das atividades lúdicas. • Conteúdos sociais: Inclui papéis, situações, valores e atitudes que refletem a construção do universo social e são incorporados nas brincadeiras das crianças. • Regras e limites: As regras no contexto do brincar, estabelecem limites e diretrizes que estruturam as atividades lúdicas. Nas instituições de educação infantil, é importante promover a coexistência de dois tipos de brincadeiras: aquelas que surgem de forma espontânea e as que têm um propósito pedagógico específico. Quando se trata das brincadeiras com objetivos educacionais, é responsabilidade do professor estruturar esse ambiente no cotidiano das crianças. Portanto, é incumbência do educador fornecer uma variedade de objetos, fantasias, brinquedos e jogos, criar diversas situações de aprendizado, além de organizar os horários e espaços destinados ao brincar. Através das situações de brincadeira, o professor tem a oportunidade de realizar uma observação atenta das crianças, permitindo-lhe identificar seus conhecimentos, habilidades linguísticas, competências sociais e grau de autonomia moral e intelectual. Com base nessas observações e nos dados coletados, é possível efetuar intervenções construtivas. Essas intervenções são aquelas que têm o potencial de facilitar novos processos de aprendizado. Isso pode envolver a disponibilização de materiais apropriados, a reorganização do ambiente e a orientação na escolha dos papéis a serem desempenhados por cada criança. As intervenções pedagógicas enriquecem as habilidades imaginativas, criativas e de organização das crianças. Assim sendo, o Referencial curricular para educação infantil destaca: Cabe ao professor organizar situações para que as brincadeiras ocorram de maneira diversificada para propiciar às crianças a possibilidade de escolherem os temas, papéis, objetos e companheiros com quem brincar ou os jogos de regras e de construção, e assim elaborarem de forma pessoal e independente suas emoções, sentimentos, conhecimentos e regras sociais (BRASIL, 1998, p. 29). Durante as brincadeiras espontâneas, o professor assume um papel de observador atento, além de desempenhar funções relacionadas à organização do ambiente, gestão do tempo e disponibilização de materiais adequados. Além disso, ele atua como mediador em situações de conflito que possam emergir durante o brincar. É crucial que os adultos desenvolvam sensibilidade para saber como e quando intervir no contexto do brincar. Essa sensibilidade é essencial e está intrinsecamente ligada ao conhecimento sobre as crianças envolvidas e à natureza da brincadeira em si. Em última análise, os adultos devem aprimorar o ato de brincar imaginativo. Eles são responsáveis por tomar decisões, servir como modelos e facilitar o desenvolvimento das brincadeiras. Tanto nas brincadeiras livres quanto nas estruturadas, os adultos têm a responsabilidade de apoiar, fortalecer, organizar e planejar as atividades lúdicas, visando ao desenvolvimento das crianças. Isso envolve a capacidade de supervisionar de perto pequenos grupos de crianças, especialmente aquelas com quatro ou cinco anos (SILVA et al. 2022). 7 CUIDAR E EDUCAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL Ao longo do tempo, a creche foi considerada como uma instituição assistencialista. Para Azevedo et al. (2022), como resultado, as práticas adotadas nesse ambiente tendem a seguir um modelo previsto por um longo período, às vezes assemelhando-se a um formato de ensino primário. Diante disso, surge uma pergunta: o que exatamente envolve o cuidado e a educação em uma creche e na pré-escola? Como podemos concebê-los como interligados? As concepções de cuidado e educação no contexto da educação infantil não podem ser abordadas de maneira isolada, uma vez que o trabalho realizado com crianças pequenas deve estar centrado em sua singularidade e inseparabilidade. Isso envolve o reconhecimento de que o desenvolvimento, a aquisição de conhecimento e a formação de identidade não se limitam a momentos e espaços compartimentados. A criança é um ser integral, com sua interação social e construção como ser humano existindo de forma contínua e constante. Cuidar e educar significa entender que o ambiente e o tempo em que a criança está imersa exigem esforços específicos por parte dela e a orientação dos adultos, a fim de criar ambientes que promovam a curiosidade com consciência e responsabilidade (FOREST, 2003). Entender o cuidado e a educação como princípios inseparáveis implica considerar a implementação de abordagens pedagógicas que reflitam a realidade da criança. Além disso, envolve a compreensão do contexto temporal e espacial em que a criança está inserida como um espaço onde sua identidade e autonomia são construídas. Mas, afinal, o que implica educar no âmbito da educação infantil? A educação, originada da palavra latina "educatione", destaca-se no desenvolvimento das capacidades físicas, morais e intelectuais do indivíduo, direcionando-se para uma preocupação abrangente que engloba aspectos intelectuais, cognitivos, morais e sociais. Isso se trata de fornecer cuidado gentil que facilite o aprendizado. Nesta perspectiva, diz Leal (2010): O educar tem um papel fundamental na Educação Infantil, pois na maioria das vezes vemos as crianças como seres indefesos e inocentes e, até mesmos incapazes, mas isso são formas errôneas de se ver as crianças. Ao contrário do que pensamos, elas são surpreendentes e capazes de ações e atitudes inesperadas pelo adulto; é por meio das capacidades de pensar, agir, sentir das crianças que o educar deve ser fortalecido cada vez mais desde a creche (LEAL, 2010, p. 3). Quando abordamos o cuidado no contexto da educação infantil, é importante não restringi-lo apenas a situações que envolvem potencial risco para a criança ou a tarefas como alimentação, higiene e segurança. Cuidar não se limita apenas à proteção, mas também engloba o atendimento das necessidades essenciais. Compreender essa concepção mais ampla representa um desafio a ser enfrentado pelos educadores, segundo o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI) de 1998: Contemplar o cuidado na esfera da instituição da educação infantil significa compreendê-lo como parte integrante da educação, embora possa exigir conhecimentos, habilidades e instrumentos que extrapolam a dimensão pedagógica. Ou seja, cuidar de uma criança em um contexto educativo demanda a integração de vários campos de conhecimentos e a cooperação de profissionais de diferentes áreas (BRASIL, 1998, p.24). Para que o cuidado infantil seja verdadeiramente eficaz, é essencial reconhecer a singularidade de cada criança, uma vez que cada indivíduo possui características e experiências únicas. Quando um educador se compromete a trabalhar com crianças, deve considerar cuidadosamente suas necessidades e particularidades. Isso implica em um conhecimento mais aprofundado sobre elas, incluindo a compreensão de sua cultura, contexto familiar, e outros aspectos quecompõem sua subjetividade (AZEVEDO et al., 2022). Reconhecendo que o cuidado e a educação na primeira infância não ocorrem em momentos isolados, torna-se possível e necessário que os professores organizem um aconselhamento consciente e personalizado para atender às variadas necessidades das crianças. Os educadores, ao buscarem compreender as crianças, considerando suas necessidades, faixa etária e estágio de desenvolvimento, perceberão que, tão importante quanto as práticas de ensino convencionais, são as práticas de aceitação, escuta e proximidade que contribuem para a aprendizagem da criança. Em outras palavras, para educar de forma eficaz, deve-se cuidar das necessidades individuais, e para cuidar adequadamente, é necessário considerar a origem social da criança e a diversidade das experiências infantis. Conforme discutido, a educação infantil representa um ambiente dedicado a cuidar integralmente das crianças. Portanto, não deve ser concebida como um espaço onde o cuidado e a educação são tratados de forma separada, mas sim como um local onde as crianças devem ser acolhidas de maneira integrada. Com a supervisão de adultos capacitados, as crianças participam de experiências que combinam cuidado e educação, orientadas por profissionais treinados para promover o seu desenvolvimento. Compreendemos que a formação desse tipo de profissional pode ser um desafio significativo. Quando avaliamos o ambiente fornecido pela instituição para a realização das atividades, é fundamental destacar que o professor precisa utilizar os recursos didáticos disponíveis. Ao mesmo tempo, ele deve considerar os detalhes do dia a dia da criança, obtidos ao longo do seu trabalho, para garantir que elas tenham experiências diversas tanto individualmente como em grupo. Ao considerarmos o papel dos profissionais que trabalham na educação infantil, podemos observar uma hierarquia devido às diferentes responsabilidades atribuídas a eles no cuidado das crianças: os professores e os monitores, também conhecidos como auxiliares de sala ou ajudantes de classe, entre outros termos. Geralmente, as atividades pedagógicas e de ensino são realizadas por professores que possuem maiores qualificações e salários. Por outro lado, tarefas relacionadas à saúde, higiene, alimentação e sono são desempenhadas por cuidadores ou auxiliares de sala, muitas vezes com menos treinamento e, consequentemente, com remuneração inferior. Essa divisão de funções resulta na separação entre cuidado e educação, ao mesmo tempo, em que reduz o escopo das atividades a serem desenvolvidas com as crianças. Além disso, isso também limita os benefícios que podem ser alcançados por meio de ações colaborativas voltadas para crianças de 0 a 5 anos (AZEVEDO et al., 2022). A existência dessas distintas abordagens de profissionais nos ambientes destinados às crianças é influenciada por hierarquias que surgem devido às diferenças nos níveis de formação, remuneração e atribuições individuais. Esse cenário resulta em uma segregação de funções, que por sua vez gera uma separação de responsabilidades entre o cuidado e a educação. Isso evidencia a lacuna que está presente, como apontado por Cerisara (2002): Em geral, as professoras têm formação de 2º grau, recebem salário maior, trabalham menos horas por dia e são responsáveis pelas atividades tidas como “educativas”. As outras, independentemente da denominação que têm recebido (monitoras, atendentes, auxiliares de sala), não precisam sequer o 1º grau completo, recebem salários mais baixos, trabalham mais horas por dia e são responsáveis por empenhar as atividades relativas ao cuidado das crianças (higiene, alimentação, limpeza do ambiente, etc.) (CERISARA, 2002 p. 16) Para Azevedo et al. (2022), a estrutura organizacional ou hierárquica presente entre os professores e os responsáveis pela creche resulta em lacunas na distribuição das atividades do cotidiano da instituição. Profissionais qualificados recebem salários mais elevados e se concentram nas tarefas educacionais, com ênfase na cognição e no desenvolvimento das crianças. Em contrapartida, os monitores/auxiliares de sala desempenham funções relacionadas ao cuidado pessoal, garantindo a higiene das crianças, a adequada alimentação e a manutenção da limpeza nos espaços. Isso acaba por reduzir as suas atividades ao aspecto de limpeza, higienização e organização física do ambiente. É crucial que os professores e supervisores envolvidos nas atividades realizem uma análise crítica dessa estrutura, a fim de determinar se a organização atual efetivamente resulta em um atendimento produtivo e eficaz para as crianças. Essa reflexão pode servir como base para a implementação de novas abordagens e para a partilha do trabalho realizado com as crianças entre os adultos que estão diretamente envolvidos, considerando a qualidade das interações e a intencionalidade das práticas adotadas. Cuidar e educar são ações que dependem da intervenção humana, em especial dos professores e responsáveis, que mantêm um contato constante com as crianças. Seu papel consiste em reconhecer as particularidades da educação infantil e abordar os desafios da prática com a compreensão de que quem educa também cuida, e quem cuida também educa. As atividades que os professores selecionam devem ser abrangentes, proporcionando diversas oportunidades e experiências coletivas, para permitir que as crianças se envolvam de maneira mais ampla com a sociedade. As crianças, nas suas diferenças e diversidades, são completas, pois têm um corpo capaz de sentir, pensar, emocionar-se, imaginar, transformar, inventar, criar, dialogar: um corpo produtor de história e cultura. Porém, para tornarem- se sujeitos precisam se relacionar com outras crianças e adultos [...] (BARBOSA, 2009, p.23-24) Nesta fase da educação infantil, é importante compreender que, embora a criança já possua conhecimentos e experiências, ao ingressar na instituição, ela continuará a aprender com um professor por meio das interações ocorridas no ambiente escolar. Isso significa que não apenas os professores, mas toda a equipe educacional, desde aqueles que realizam tarefas de limpeza até os diretores, devem ter em mente a importância da perspectiva que envolve tanto o cuidado quanto a educação no contato direto ou indireto com a criança. As práticas de educação, em conjunto com o cuidado, têm um impacto significativo na maneira como os professores preparam o ambiente para receber as crianças. A organização do espaço é crucial para promover a autonomia e a segurança delas. Caso contrário, elas podem ficar expostas a riscos e ter dificuldade em aprender, mudando a rotina em algo monótono e cuidadoso de qualidade. Os educadores que cuidam atentamente de uma criança são conscientes de suas expressões e do seu olhar, demonstrando sensibilidade para suas necessidades físicas e emocionais. É essencial que o professor observe minuciosamente os detalhes das atividades realizadas, desde o momento do banho (o que pode oferecer oportunidades para aprendizado) até as rotinas de sono, alimentação, brincadeiras e todas as outras tarefas envolvidas no cuidado infantil. O cuidado vai além das ações físicas e inclui também a percepção das conexões afetivas condicionadas na prática, como quando o professor interage com uma criança ao se machucar ou durante a higiene das mãos, demonstrando preocupação com o bem-estar geral e a tranquilidade durante o sono. Isso significa que a criança está constantemente sob vigilância e recebendo cuidados durante sua permanência na instituição de educação infantil. Os educadores devem estabelecer relações afetuosas e positivas, reforçarem os vínculos de amizade com as crianças e encorajarem-nas a comunicar suas necessidades de forma aberta, sempre considerando suas vivências diárias que devemser compartilhadas com todos os alunos. O ato de zelar por eles está intrinsecamente ligado à prática educacional (AZEVEDO et al., 2022). 7.1 Parceria com a família A importância do vínculo entre a família e a escola é fundamental na busca por uma educação de excelência para as crianças. Essa conexão, que deve ser cultivada e preservada, possibilita o fornecimento de informações sobre uma criança, incluindo seu progresso físico e intelectual, suas necessidades, interesses, expectativas e aspirações. De acordo com Bassedas, Huguet e Solé (1999), essa relação entre a família e a escola deve concretizar o propósito de compartilhar a responsabilidade educativa em diversos aspectos. A partir das observações das referidas autoras citamos alguns destes aspectos: Compreensão da criança: É essencial que os professores adquiram um entendimento completo da criança, incluindo seus padrões de comportamento, interações sociais, preferências e aversões. Segundo as autoras, esses detalhes costumam ser adquiridos durante uma entrevista inicial da escola. No entanto, se por alguma razão isso não aconteceu, é responsabilidade do professor criar oportunidades para ocorrer a troca de informações. Padrões educacionais compartilhados: Conforme recomendado por Bassedas, Huguet e Solé (1999, p. 287), "Uma condição essencial para coordenar abordagens de intervenção relacionadas à criança é, de fato, chegar a um consenso na interpretação da conduta que nos preocupa [...]". Isso implica que o estabelecimento de acordos específicos promova a transição suave da criança entre diferentes contextos, ou seja, da família para a escola e vice-versa. Abordagens de intervenção e interações com crianças: as interações que as crianças experimentam na escola frequentemente se diferenciam das que têm em casa. Essas novas experiências encontraram oportunidades para o desenvolvimento de comportamentos, habilidades e formas de se relacionar individualmente. Ao dar às famílias a oportunidade de observar o processo de aquisição de conhecimentos na escola, possibilitamos aos pais a compreensão de novas maneiras de se relacionar com seus filhos. Compreensão do papel educativo da escola: lamentavelmente, ainda existe a crença de que crianças com idades entre 0 e 5 anos frequentam a educação infantil apenas para se divertirem ou ocuparem o tempo. Nesse entendimento, a figura do professor aparenta não ser muito relevante. Portanto, é fundamental que as famílias tenham um entendimento e apreciem o trabalho realizado no ambiente escolar. A colaboração entre a família e a escola requer atenção especial. Cada família apresenta suas próprias características e possui uma estrutura específica, com regras e métodos que orientam a maneira como seus membros se relacionam entre si e com os outros. Essa multiplicidade deve ser acolhida e apreciada dentro do ambiente escolar. É por meio dessa diversidade que podem surgir iniciativas notáveis, no sentido de permitir que os estudantes e toda a comunidade reconheçam a riqueza das diferentes abordagens para compreender, dar sentido e interpretar o mundo. Portanto, é responsabilidade da escola estabelecer um canal de comunicação aberto com as famílias, considerando-as como colaboradoras e interlocutoras no processo educacional. Facilitar o diálogo contínuo com as famílias, demonstrando respeito e valorização pelas suas formas de organização. A escola e a família devem considerar que têm o mesmo propósito: facilitar o desenvolvimento integral da criança e garantir seu sucesso na aprendizagem. Nesse trabalho em conjunto, é responsabilidade da escola criar situações que incentivem a participação contínua da família na vida acadêmica de seus filhos, de modo que as tradições e valores familiares se harmonizam com as práticas escolares. Dentro dessa dinâmica colaborativa, a comunicação entre família e escola deve se tornar uma prática habitual. O passo inicial para estabelecer essa parceria é compreender que as fronteiras que circundam uma instituição educacional não são específicas e intransponíveis. A escola representa um ambiente de participação e promoção da cidadania. A criança, que é o foco mútuo, é única. Portanto, para fomentar seu crescimento e bem-estar, é preciso comunicação e troca de informação. A necessidade de estabelecer estratégias de acolhimento que incentivem a participação efetiva da família no desenvolvimento educacional de seus filhos, promovendo uma educação completa para a criança. Essa colaboração não deve se limitar a uma mera presença, mas sim manifestar-se de maneira consciente, ativa e responsável. Quando a família e a instituição educacional estão homologadas, o processo de aprendizagem da criança flui de maneira mais harmoniosa e natural (BASSEDAS, HUGUET E SOLÉ, 1999). A seguir você pode observar alguns aspectos relevantes sobre a parceria entre a família e a instituição educacional: Valorizar a singularidade: é crucial, afinal, não há duas famílias idênticas, e é sensato evitar estereótipos em relação ao que constitui uma "família padrão". Definir diretrizes educacionais: é igualmente importante, pois a harmonização entre família e escola beneficia mutuamente, promovendo o bem-estar geral. Enriquecer a conexão entre família e escola: é possível através da colaboração com diversos profissionais, o que acrescenta variedade de experiências e conhecimentos à relação. Promover a integração de contextos: a interação entre a escola e a família tem o potencial de ir além das obrigações administrativas, transformando-se em uma ferramenta que aprimora e simplifica o processo educativo mútuo. Promover a partilha de perspectivas: é importante trocar ideias e dúvidas entre a família e a instituição educacional, estimulando a criação de hipóteses. Facilitar a comunicação entre ambas as partes: é viável criar oportunidades para que a família compreenda o papel educativo desempenhado pela instituição (BASSEDAS, HUGUET E SOLÉ, 1999). A família e a instituição educacional devem explorar ao máximo as oportunidades de fortalecimento de laços. A sintonia entre ambos aprimora a aprendizagem e a construção da cidadania. O sucesso na concretização dessas experiências positivas promove o desenvolvimento de uma cultura participativa em ambas as instituições (AZEVEDO et al., 2022). 8 O PLANEJAMENTO NA EDUCAÇÃO INFANTIL O ato de planejado é baseado na natureza humana, envolvendo a reflexão sobre a realização de algo possível e viável. Quando o indivíduo considera “o que fazer”, o planejamento se torna uma necessidade evidente e justificável por si só (OLIVEIRA, SOUSA e TARGINO, 2013). Esse processo de planejamento tem sua origem nas necessidades e prioridades que emergem em nossa vida cotidiana. Portanto, para a compreensão da realidade há princípios para a identificação e análise dessas necessidades, orientando o planejamento subsequente. Na escola, a situação não difere. A atividade educativa implica em ter um propósito claro, e o planejamento se apresenta como uma ferramenta poderosa no contexto de sistematização, estruturação e coordenação dessa atividade. Como um procedimento, requer que se leve em consideração, durante a sua concepção, desde o plano pedagógico da instituição de ensino até o plano de ação do docente. Só dessa maneira é viável contribuir para o processo de desenvolvimento infantil e a expansão das aptidões físicas, intelectuais, emocionais, morais e artísticas das crianças. Para Bassedas, Huguet e Solé (2007), muitos acadêmicos concordam em identificar uma etapa anterior ao ato de ensinar, conhecida como "pré-ativa", desenhada pela preparação do que será posteriormente aplicada na sala de aula. Essa fase pré-ativa pode ser interpretada como o período de preparação, organização e planejamento. A sua sequência envolve a formulação de estratégias, a elaboraçãodo plano e a avaliação da implementação. A prática educacional deve ser direcionada para promover o desenvolvimento global dos alunos, utilizando elementos relacionados ao processo de ensino e aprendizagem. Nesse contexto, esperamos que a elaboração do planejamento seja uma ferramenta de reflexão, abrindo caminhos para mudanças significativas. Sem importar qual nomenclatura que lhe é atribuída, uma atividade de planejamento apoia o educador na reavaliação de suas abordagens. O planejamento é o contexto no qual as atividades diárias (como as rotinas) adquirem importância, permitindo que todos alcancem os resultados desejados. Ao examinarmos de forma crítica os caminhos já percorridos, torna-se possível guiar e reorientar todo o procedimento. O planejamento na educação infantil é uma prática que não está restrita a nenhum nível de ensino em particular. Isso é evidenciado pelas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, conforme previsto em seu artigo 3º, que diz: O currículo da Educação Infantil deve contemplar o conjunto de práticas que buscam articular as experiências e os saberes das crianças com os conhecimentos que fazem parte do patrimônio cultural, artístico, ambiental, científico e tecnológico, de modo a promover o desenvolvimento integral de crianças de 0 a 5 anos [...] (BRASIL, 2010). Desta forma, o ato de planejar na educação infantil é uma tarefa que exige organização, dedicação, adaptabilidade e uma capacidade reforçada de observação por parte dos profissionais. Deve-se levar em consideração as características individuais, necessidades e interesses das crianças. O planejamento desempenha um papel orientador no processo educacional, especificamente como um guia para a ação do professor. Em outras palavras, o docente atua como um estrategista que analisa a situação atual, reflete sobre ela e métodos de ação antecipados para atingir determinados objetivos. Nas palavras de Bassedas, Huguet e Solé (2007, p. 133): [...] se admitirmos que as finalidades da educação — favorecer o desenvolvimento do aluno em todas as suas capacidades — alcançam-se mediante o trabalho que se realiza em torno dos conteúdos que fazem parte do currículo, é inegável que a análise e a tomada de decisões sobre o planejamento constituem um elemento indispensável para assegurar a coerência entre o que se pretende e o que se sucede na sala de aula. Levar em conta o planejamento da educação infantil é uma maneira de garantir a otimização do potencial das crianças, proporcionando-lhes oportunidades para se envolverem em brincadeiras, experimentações e aprendizagem. Nessa perspectiva, ao elaborar um plano, o professor deve garantir que a criança tenha a chance de alcançar seu pleno desenvolvimento. Independentemente da complexidade que possa envolver um planejamento, ele é um elemento essencial em todos os níveis de ensino. Através dele, estabelecem- se objetivos para garantir a entrega de um ensino de alta qualidade, comprometido com a aprendizagem e a promoção de uma formação democrática (BASSEDAS, HUGUET e SOLÉ, 2007). 8.1 Tipos de planejamento na educação infantil Na rotina da educação infantil, o planejamento deve ser encarado como um processo de reflexão. Ele vai além de um formulário simples a ser preenchido; é uma abordagem que abrange todas as ações e situações que envolvem crianças e professores no dia a dia do trabalho pedagógico. Conforme apontado por Ostetto (2012), existem cinco categorias de planejamento, que são: o planejamento baseado em listas de atividades, o planejamento direcionado para dados comemorativos, o planejamento relacionado a áreas de desenvolvimento, o planejamento associado a áreas de conhecimento e o planejamento temático. Além disso, Barbosa (2009), acrescenta dois à lista: o planejamento de controle social e o planejamento centrado nas linguagens. A seguir, exploraremos com mais detalhes cada uma dessas abordagens: Planejamento que se fundamenta em listas de atividades: também referido como “hora da atividade”, se apoia na criação de listas de tarefas a serem realizadas. Nessa abordagem, a ênfase está em preencher espaços entre diferentes momentos da rotina. Nesse contexto, a criança assume um papel passivo, sem que suas particularidades ou necessidades específicas sejam consideradas. Planejamento centrado em atividades comemorativas: é orientado pelo calendário, observando dados considerados significativos para os adultos, como o Carnaval, o Dia de Tiradentes, o Dia do índio, entre outros. Esse tipo de planejamento, caracterizado por "episódios isolados" conforme descrito por Ostetto (2012), apresenta conteúdos fragmentados e, muitas vezes, simplistas. Isso acaba por promover a massificação e a redução da profundidade do conhecimento, além de negligenciar e subestimar as necessidades e habilidades das crianças. Planejamento fundamentado em áreas de desenvolvimento: a ênfase está no crescimento da criança, considerando, períodos da psicologia do desenvolvimento, com destaque para as esferas motora, afetiva, social e cognitiva. No entanto, consoante as observações de Ostetto (2012), embora essa abordagem priorize algumas áreas do conhecimento, acaba por negligenciar outras. Além disso, esse tipo de planejamento cuida de uma continuidade e é isolado, sem integração com aspectos relacionados aos demais níveis educacionais. Planejamento baseado em temas: implica a organização de uma série de atividades em torno de um tema escolhido. Essa abordagem abrange diversas tipologias de temas, incluindo temas integrados, temas geradores, centros de interesse e unidades de experiência. Conforme destacado por Ostetto (2012), os temas podem surgir a partir das sugestões das crianças ou emergir de situações vividas pelo grupo. Nessa abordagem, além da preocupação em abordar aspectos relacionados à realidade das crianças, são identificados conteúdos considerados relevantes para a aprendizagem dos alunos. No entanto, apesar de aparentemente consideradas como relacionadas com o desenvolvimento infantil, essa perspectiva muitas vezes relegada e até mesmo desconsidera questões relacionadas à construção do conhecimento e ao processo de aprendizagem. Planejamento por áreas de conhecimento: sustenta que a pré-escola é um ambiente tanto pedagógico quanto de desenvolvimento. Portanto, a pré-escola tem a responsabilidade de contribuir para a disseminação do conhecimento acumulado pela sociedade, uma vez que, durante o seu desenvolvimento, a criança vai adquirindo e produzindo conhecimento. Conforme observado por Barbosa (2009), esse tipo de planejamento é concebido a partir da estrutura das disciplinas escolares, que se baseia na ideia de que a função primordial da escola é transmitir conhecimento, com ênfase na abordagem de conteúdo. Planejamento direcionado para o controle social: tem como foco principal a supervisão das crianças e o ensino de como executar as tarefas escolares de maneira específica. Trata-se de uma prática que busca impor disciplina aos corpos, às mentes e às emoções das crianças (BARBOSA, 2009). Planejamento por linguagens: é uma inovação recente na educação infantil. Essa forma de planejamento possibilita a compreensão da multiplicidade de formas de expressão das crianças e das diversas linguagens que utilizam. Como destacado por Barbosa (2009), nesse contexto: As linguagens surgem no encontro de um corpo que simultaneamente envelhece, observa, interpreta e reflete em um mundo saturado de linguagens, com pessoas que imersas em linguagens, em um mundo social que é estruturado e dotado de significado por meio delas... (BARBOSA, 2009, p. 56). 8.2 A Base Nacional Comum Curricular – BNCC e o planejamento na educação infantil No artigo 26 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei nº 9.394/1996, é estipulado que os programas educacionaisdestinados à educação infantil devem possuir uma base nacional unificada. Dessa forma, em 2017, o Ministério da Educação propôs a Base Nacional Comum Curricular, um documento com caráter regulatório que estabelece o conjunto coerente e contínuo de conhecimentos fundamentais que todos os estudantes devem adquirir ao longo das diferentes fases e tipos de educação básica. A BNCC garante o direito à aprendizagem e ao progresso para todas as crianças, e estabelece uma parcela substancial de que elas devem adquirir a cada ano, desde a creche até o término do ensino fundamental, em todas as instituições, sejam elas públicas ou privadas. Este documento, dessa forma, contribui para a formação integral das crianças e para a edificação de uma sociedade mais equitativa, participativa e inclusiva. É importante notar que a abordagem de formação integral mencionada no documento não se refere a uma educação em período integral, mas sim a uma educação que abranja todos os aspectos do desenvolvimento humano, ou seja, as dimensões cognitiva, física, emocional, social e cultural (BRASIL, 2017). As competências centrais na BNCC visam garantir o progresso das crianças na direção de 10 (dez) habilidades gerais que representam, no contexto educacional, os direitos referentes ao aprendizado e desenvolvimento. Essas habilidades englobam: conhecimento; pensamento científico, crítico e criativo; repertório cultural; comunicação; cultura digital; trabalho e projeto de vida; argumentação; autoconhecimento e autocuidado; empatia e cooperação; responsabilidade e cidadania (BRASIL, 2017). Na educação infantil, essas competências estão ligadas aos seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento. São eles: estéticos (explorar, expressar-se), éticos (brincar e conviver) e políticos (participar e conhecer-se). 8.3 Registros Dentro dos instrumentos pedagógicos empregados na educação infantil, a prática de observar, documentar e ponderar são atividades intrínsecas à prática de documentação e, por extensão, ao trabalho do educador. Quando o docente realiza a observação e o registro do desenvolvimento educacional do aluno e, posteriormente, utiliza esse registro como base para ponderar e analisar suas decisões e métodos, ele eleva o grau de reflexão e relevância de sua atuação profissional (BARBOSA, 2009). Observação A prática de observação deve ser incorporada de maneira sistemática e deliberada no exercício pedagógico do educador. Essa prática exige claramente nossos objetivos e interesses, bem como a organização e a seleção criteriosa dos aspectos da rotina da criança pertinentes para serem monitorados e registrados. A ação de observar transcende a mera atitude de olhar superficialmente. O professor deve direcionar seu olhar com base em princípios e diretrizes estabelecidas em documentos legais. Durante a observação, é fundamental que o educador confie no propósito de sua ação, especialmente quando seu objetivo é estimular o progresso da criança. A observação deve refletir de maneira implícita os elementos que o professor deseja verificar, seu interesse, o método de coleta de informações e, sobretudo, a propósito dessa coleta. De acordo com Mendonça (2009), a prática de observação fornece ao professor a capacidade de realizar as seguintes ações: • Coletar informações pertinentes que, de outra maneira, não estariam acessíveis. • Descrever diversas facetas das interações humanas. • Monitorar e entrevistar em tempo real. Para viabilizar essas ações, é essencial adotar algumas atitudes: • Definir previamente as ações a serem observadas. • Selecionar as crianças que serão objeto de observação. • Delimitar o período e os eventos a serem oferecidos. Registro O processo de registro, enquanto uma prática de envio, encontra sua fundamentação no cenário legal, especificamente na Resolução nº 5 de 17 de dezembro de 2009, que estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. A observação é um suporte valioso. Uma de suas principais finalidades consiste em prevenir a perda de informações relevantes, mas suas funções vão além desse propósito. A documentação deve ser produzida com o propósito de promover a reflexão sobre a intenção subjacente às ações que ocorrem no dia a dia da escola, as diversas situações vivenciadas e os variados diálogos que se estabelecem. Em outras palavras, trata-se das experiências que marcam o cotidiano das crianças na educação infantil. A documentação pode ser realizada de diversas formas, incluindo registros escritos, fotografias, gravações e filmagens. Esses registros representam uma ferramenta essencial para compreender o que está sendo feito e por qual motivo, considerando que as vivências cotidianas contribuem para a construção da história daquele grupo de crianças e daquele professor (MENDONÇA, 2009). Utilização de registros A utilização de registros é uma técnica pedagógica que se revela como uma estratégia para gerar narrativas, avaliações, interpretações e compreensão da rotina das crianças nas instituições de ensino infantil. Isso possibilita a identificação de seus avanços e conquistas. É fundamental manter uma constante reflexão sobre como as crianças estão adquirindo conhecimento e se desenvolvendo, bem como sobre as diversas abordagens e táticas que elas empregam para demonstrar seu progresso. Além disso, é importante manter uma vigilância atenta em relação à maneira como direcionamos e criamos oportunidades para o desenvolvimento infantil. Gonzalez-Mena (2015) delineia várias alternativas de documentação que facultam ao educador conceber narrativas, avaliações, interpretações e entendimento das experiências diárias das crianças nas instituições de ensino infantil. As diferentes modalidades de documentação podem ser observadas adiante: Documentação anedótica: Constitui uma forma de elaborar breves descrições acerca de uma atividade, diálogo, música, incidente, lembrança ou algum acontecimento notável relacionado a uma criança. Esses registros podem se originar de reflexões posteriores ou ser redigidos no calor do momento. Documentação em tempo real: Ao contrário dos registros anedóticos, a documentação em tempo real apresenta-se como uma descrição minuciosa do que está ocorrendo enquanto acontece. Seu propósito é capturar com riqueza de detalhes a situação, permitindo que o leitor se transporte mentalmente para a cena descrita. Registo de episódios: Descreve uma situação desde o seu início até o seu desfecho. É de suma importância documentar não apenas o incidente em si, mas também os eventos anteriores e posteriores, com o intuito de identificar eventuais tendências ou padrões. Diários: Estes podem englobar uma ampla variedade de conteúdos, tais como narrativas anedóticas, descrições pormenorizadas em tempo real ou relatos de incidentes, além de incluir desenhos e fotografias. Essa ferramenta pode ser preenchida tanto pelos educadores quanto pelos pais. Normalmente, o caderno é entregue à criança e devolvido no dia seguinte, podendo conter anotações adicionais. É relevante destacar que o caderno desempenha o papel de um instrumento auxiliar para o professor, fornecendo informações acerca do estado de saúde e desenvolvimento da criança. Imagens, gravações e vídeos: representam registros tanto do processo quanto do resultado alcançado pela criança. Esse material pode ser empregado em diversas maneiras, como afixação em um mural, exposição aos pais e à comunidade, utilização como documentação escolar, entre outras. Checklist: Demonstram utilidade ao avaliar o avanço da criança. Aqui, são considerados os objetivos estabelecidos para o aprendizado e desenvolvimento na educação infantil, conforme definidos na Base Nacional Comum Curricular para a Educação Infantil. Mapeamento: Seu intuito é paralelo ao da lista de verificação. Tem como finalidadeno ECA, em outras leis e na Constituição Federal (BRASIL, 1990). O ECA define uma criança como uma pessoa com menos de 12 anos e um adolescente como alguém entre 12 e 18 anos. Os direitos fundamentais das crianças e adolescentes são considerados especiais devido às suas condições peculiares de desenvolvimento. Embora a Constituição de 1988 tenha sido a primeira a reconhecer o direito das crianças pequenas à educação em creches e pré-escolas, foi somente com a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases de 1996 que a educação infantil foi explicitamente destinada a crianças de 0 a 3 anos em creches e de 4 a 5 anos em pré-escolas, tornando-se parte integrante da Educação Básica e visando promover o desenvolvimento integral da criança (BRASIL, 1996, Art. 29). Assim, a educação infantil foi estabelecida como a etapa inicial da Educação Básica, tornando-se parte integrante dos sistemas educacionais do Brasil. No Quadro 1, apresentam-se alguns aspectos relevantes sobre o desenvolvimento da educação infantil no país que buscaram garantir à criança os seus direitos e a sua prioridade absoluta Quadro 1. Relação de principais marcos históricos e legislativos Legislação Principais contribuições Declaração de Genebra (1924). Havia uma preocupação significativa em garantir os direitos das crianças e dos adolescentes, baseada em cinco princípios fundamentais que visavam assegurar o desenvolvimento saudável das crianças, bem como sua segurança, alimentação adequada, cuidados de saúde e proteção. Declaração dos Direitos da Criança (1959). A Declaração dos Direitos da Criança aborda uma série de direitos essenciais relacionados à proteção do desenvolvimento físico, mental e social das crianças. Estes direitos incluem a proteção contra o abandono e a exploração no trabalho, o direito a um nome e nacionalidade, acesso à alimentação adequada, moradia digna, assistência médica, afeto e compreensão, educação gratuita e oportunidades de lazer. Além disso, a Declaração reconhece o direito das crianças a serem prioridade em situações de catástrofes e promove a igualdade, sem qualquer forma de discriminação baseada em raça, religião ou nacionalidade. Convenção Internacional sobre Direitos da Criança (1989) Os princípios subjacentes a essa iniciativa eram a consagração dos direitos à vida e à liberdade, bem como a definição das responsabilidades dos pais, do Estado e da sociedade em termos de proteção infantil e formulação de políticas públicas e educacionais. Constituição Brasileira (1988) Foi a primeira Constituição brasileira a reconhecer o direito das crianças pequenas à educação em creches e pré-escolas. Estatuto da Criança e do Adolescente (1990) Por meio do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), as crianças e adolescentes passaram a ser considerados cidadãos em processo de desenvolvimento, com garantias especiais proporcionadas por essa legislação, não sendo mais equiparados aos adultos. Lei de Diretrizes e Bases do Brasil (1996) e Lei n° 12.796 (2013) Estabeleceu que a educação infantil será oferecida em “I – creches ou entidades equivalentes, para crianças de até três anos de idade; II – pré-escolas, para as crianças de quatro a cinco anos de idade” e que a educação infantil é a primeira etapa da educação básica. Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil (DCNEI) (1999) e (2010) Essa legislação define diretrizes referentes ao currículo e outros elementos relevantes de uma proposta pedagógica destinada à educação infantil. Fonte: Adaptado de MOLETTA; BIERWAGEN e TOLEDO (2018). 1.1 Educação Infantil: um direito garantido por lei Para Moletta, Bierwagen e Toledo (2018), a aceitação da criança como um indivíduo com direitos é uma evolução recente, e esse reconhecimento foi resultado de conflitos e debates na sociedade civil, levando à formulação de políticas e leis. É possível notar também que convenções internacionais influenciadas por ideias que consideram a criança como um sujeito de direito, reconhecendo que, apesar de seu estágio de desenvolvimento, elas têm capacidade para expressar opiniões, sentimentos, sugestões e pontos de vista, e tiveram impacto na legislação brasileira. Essas convenções ajudaram a moldar uma nova percepção em relação à criança e à infância no contexto legal do Brasil. A seguir, serão destacados os principais eventos que resultaram em ações legislativas relacionadas à educação infantil. A educação infantil, de acordo com Kuhlmann (2007), abrange uma ampla gama de significados, englobando a instrução recebida no ambiente familiar, na comunidade e na sociedade em geral, e também inclui instituições criadas com base nos direitos das crianças. No Brasil do século XIX, não havia programas educacionais voltados especificamente para a educação infantil. As crianças das classes sociais mais privilegiadas tinham a oportunidade de receber educação por meio de tutores em suas próprias casas. Somente a partir de 1920, surgiram os primeiros jardins de infância, mas ainda eram predominantemente frequentados pelas classes mais abastadas. Muitas crianças pertencentes às classes trabalhadoras estavam envolvidas em atividades laborais, enquanto aquelas que eram órfãs ou consideradas delinquentes recebiam assistência em internatos, ou orfanatos (SOUZA e GARCIA, 2015; SOARES, 2016). Em 1934, o Brasil promulgou uma Constituição que trazia princípios significativos para a educação, inspirados pelo Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. No entanto, com a promulgação da Constituição de 1937, muitos desses avanços previstos na Constituição anterior foram revogados. Em 1940, com a criação do Departamento Nacional da Criança, foram estabelecidas regulamentações para o funcionamento de creches, que incluíam diretrizes relacionadas à higiene do ambiente físico e à presença de profissionais de saúde. Em 1941, surgiu o Serviço de Assistência ao Menor, que oferecia serviços de acolhimento para crianças em situação de abandono e aquelas consideradas delinquentes (SOUZA e GARCIA, 2015). Nos anos 1970, foi evidente o crescimento de berçários administrados por entidades privadas, os quais atendiam predominantemente crianças pertencentes a estratos econômicos mais abastados. Paralelamente, existiam instituições como creches voltadas para as crianças cujas mães eram trabalhadoras, especialmente aquelas que desempenhavam atividades operárias. Nas décadas de 1970 e 1980, é perceptível que a luta pela expansão de creches na educação infantil contou com a participação ativa dos grupos feministas, destacando as mudanças no papel das mulheres na sociedade. Portanto, o direito das crianças à educação infantil está intrinsecamente ligado aos direitos das mulheres, assegurando o respeito e a plena cidadania feminina. Essa conexão entre os direitos da criança e da mulher se reflete na demanda por creches para os filhos das mães que trabalham e no direito das mães a retornarem ao mercado de trabalho após um período de licença-maternidade de 120 ou 180 dias (MOLETTA; BIERWAGEN e TOLEDO, 2018). Conforme já mencionado, as definições presentes na Constituição (BRASIL, 1988), na Lei de Diretrizes e Bases (BRASIL, 1996) e no Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990) deram origem a um novo período de discussões acerca das crianças pequenas. Essas definições podem ser encontradas na própria Constituição, como no artigo a seguir: É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressãoapoiar o professor na compreensão do comportamento de cada criança no ambiente. Pode ser aplicado em bebês ou em crianças que apresentam grande mobilidade no ambiente, entre outras situações possíveis. Amostragem temporal: Implica na coleta de amostras do comportamento de grupos de crianças durante um intervalo de tempo específico. Isso permite ao professor adquirir percepções sobre padrões tanto individuais quanto coletivos. Como foi ilustrado, a documentação pedagógica, enquanto um processo que abarca a criação, comunicação, pesquisa e disseminação de informações, constitui um elemento que enriquece a proposta pedagógica ao unir a reflexão à ação. Essa prática, quando alinhada ao planejamento e à avaliação, desempenha um papel crucial na busca por uma educação de excelência destinada às crianças de 0 a 5 anos nas instituições de ensino infantil (GONZALEZ-MENA, 2015). 8.4 Avaliação Segundo as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, Brasil (2010), a legislação estabelece que as instituições dessa etapa devem implementar procedimentos de acompanhamento pedagógico e avaliação do desenvolvimento das crianças, sem fins de seleção ou promoção. Isso deve incluir a observação das atividades e interações das crianças, o uso de diversos tipos de registros, a continuidade dos processos de aprendizagem durante as transições, a documentação para informar as famílias sobre o trabalho da instituição e a proibição de retenção de crianças na Educação Infantil. No trecho da legislação, quatro termos são pertinentes às questões apresentadas por Gonzalez-Mena (2015): observação, registro, documentação e estratégias apropriadas. Através dessas quatro proposições, o educador obtém a capacidade de se familiarizar com o conjunto de crianças com as quais trabalha, bem como cada indivíduo que integra esse grupo. Em relação a esse tópico, Zabalza (2007) esclarece que, ao examinar o grupo infantil, o professor consegue estabelecer conexões com o desenvolvimento do programa ou projeto educacional, o funcionamento das estruturas implementadas (tais como espaços, materiais e experiências) e sua própria atuação. Já por meio da análise individual de cada criança, é possível rastrear seu progresso, colaborar na recriação dos métodos de ação, direcioná-la e oferecer suporte na aquisição de competências ou comportamentos específicos. Essa abordagem é viável porque, com base nas informações reunidas, é factível estabelecer metas e conduzir o processo de ensino e aprendizado. Afinal, um programa destinado à infância envolve tanto a aprendizagem quanto o desenvolvimento, abrangendo todos os envolvidos, ou seja, crianças e adultos, em igual medida (GONZALEZ-MENA, 2015). De acordo com Bassedas, Huguet e Solé (2007), na educação infantil, a avaliação permite ao professor observar o desenvolvimento e o progresso da criança. Essa observação, por sua vez, auxilia na elaboração de situações, relações ou atividades que, por sua vez, embasam decisões educacionais. O aspecto mais crucial não consiste em fazer julgamentos ou estabelecer definições definitivas, mas sim em sugerir hipóteses, confrontá-las com as de outros adultos que interagem com a criança, testá-las e ajustá-las conforme a evolução do aluno. É imperativo que os educadores compreendam que avaliar não implica em categorizar as crianças em um conjunto pré-determinado de expectativas ou normas. Por meio da prática da observação, registro, documentação e aplicação de estratégias apropriadas, os professores têm a capacidade de perceber que cada indivíduo trilha um caminho singular e o acompanhamento das aprendizagens é a única maneira de não valorizar apenas os resultados, mas também reconhecer e dar visibilidade a todo o percurso construído ao longo do processo de aprendizagem da criança. Nesse sentido, "[...] a avaliação deve primordialmente servir como uma ferramenta para intervir, adaptar e aprimorar nossa abordagem, o desenvolvimento e a aprendizagem dos alunos" (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007, p. 174). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABUCHAIM, B. O. Panorama das políticas de educação infantil no Brasil. Brasília: UNESCO, 2018. Disponível em: Acesso em: set. 2023. AZEVEDO, Jociane Modesto de; et al. O cuidar e educar na educação infantil. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação. São Paulo, v. 8. n. 07. Jul. 2022. Disponível em: Acesso em: set. 2023. BARBOSA, Analedy Amorim. MAGALHÃES, Maria das Graças S. Dias. A concepção de infância na visão Philippe Ariès e sua relação com as políticas públicas para a infância. 2008. Disponível em: Acesso em: set. 2023. BARBOSA, M. C. S. Práticas cotidianas na educação infantil: bases para a reflexão sobre as orientações curriculares. Brasília: MEC, 2009. BASSEDAS, E.; HUGUET, T.; SOLÉ, I. Aprender e ensinar na educação infantil. Porto Alegre: Artmed, 1999. BASSEDAS, E.; HUGUET, T.; SOLÉ, I. Aprender e ensinar na educação infantil. Porto Alegre: Artmed, 2007. BRASIL. Câmara dos deputados. Plano Nacional de Educação 2014-2024: Lei nº 13.005, de 25 de junho de 2014, que aprova o Plano Nacional de Educação (PNE) e dá outras providências. Brasília: Câmara dos Deputados, 2014. BRASIL. Congresso Nacional. Emenda Constitucional nº 59, de 11 de novembro de 2009. Diário Oficial da União, Brasília, 12 nov. 2009. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, 1988. Disponível em: Acesso em: set. 2023. BRASIL. Lei n° 10.172, de 9 de janeiro de 2001. Aprova o Plano Nacional de Educação e dá outras providências. Disponível em: Acesso em: set. 2023. BRASIL. Lei n° 11.494, de 20 de junho de 2007. Regulamenta o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação - FUNDEB, de que trata o art. 60 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias; altera a Lei n° 10.195, de 14 de fevereiro de 2001; revoga dispositivos das Leis nos 9.424, de 24 de dezembro de 1996, 10.880, de 9 de junho de 2004, e 10.845, de 5 de março de 2004. Brasília, 2007. Disponível em: Acesso em: set. 2023. BRASIL. Lei n° 12.796, de 4 de abril de 2013. Altera a Lei n° 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para dispor sobre a formação dos profissionais da educação. Brasília, 2013. Disponível em: Acesso em: set. 2023. BRASIL. Lei n° 5.692, de 11 de agosto de 1971. Fixa Diretrizes e Bases para o ensino de 1° e 2° graus. Brasília, 1971. Disponível em: Acesso em: set. 2023. BRASIL. Lei n° 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. 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O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) surgiu consoante o Artigo 227 da Constituição de 1988, introduzindo as crianças ao contexto dos seus direitos e responsabilidades, principalmente dentro do âmbito dos direitos humanos (BRASIL, 1988). Conforme já mencionado, o ECA trouxe o reconhecimento das crianças e dos adolescentes como cidadãos em processo de desenvolvimento, sem que fossem comparados diretamente aos adultos, mas sim assegurando-lhes proteção por meio dessa legislação específica. Isso resultou na transformação do enfoque punitivo e de exclusão social que prevalecia até então, restringindo o poder do judiciário em relação aos indivíduos com menos de 18 anos. Uma das mudanças fundamentais implementadas com a promulgação do ECA foi a ênfase na escola como um local onde os direitos das crianças são efetivados. Em 1996, ficou estabelecido de forma clara o direito à educação das crianças de 0 a 6 anos, reconhecendo-as como a primeira etapa da Educação Básica. É relevante ressaltar que, a partir de 2013, houve uma revisão do Artigo 29: Art. 29. A educação infantil, que constitui a primeira etapa da educação básica, visa promover o desenvolvimento integral da criança de até 5 (cinco) anos, abrangendo seus aspectos físicos, psicológicos, intelectuais e sociais, em complemento às ações da família e da comunidade [...] (BRASIL, 2013, Art. 29). Na Lei de Diretrizes e Bases (LDB), também se nota a preocupação em garantir o "direito ao pleno desenvolvimento" de crianças e adolescentes (BRASIL, 1996, Art. 3º), além do direito à educação como um complemento desse desenvolvimento (BRASIL, 1996, Art. 53). Este documento estabelece que o acesso à educação é um direito subjetivo, ou seja, obrigatório, e determina que qualquer cidadão, grupo de cidadãos, associações, sindicatos e outros têm o direito de exigir esse acesso das autoridades públicas (BRASIL, 1996, Art. 54). Também especifica que a educação infantil deve ser oferecida em duas etapas: "I – em creches ou instituições equivalentes, para crianças de até três anos de idade; II – em pré-escolas, para crianças de quatro a cinco anos de idade" (BRASIL, 1996, Art. 29). Posteriormente, com a Emenda Constitucional nº 59 de 2009, que modificou o Artigo 208 da Constituição Federal (BRASIL, 1988) para tornar a Educação Básica obrigatória e gratuita dos quatro aos 17 anos de idade, houve uma alteração no texto referente à oferta da educação infantil. A Lei 12.796 (BRASIL, 2013) modificou o artigo para que a educação infantil fosse oferecida em "I – creches ou instituições equivalentes, para crianças de até três anos de idade; II – pré-escolas, para crianças de 4 (quatro) a 5 (cinco) anos de idade." Portanto, a educação infantil é um direito legalmente assegurado para crianças de 0 a 5 anos de idade, com a obrigatoriedade de matrícula de crianças de quatro anos nas escolas desde 2016, pois corresponde à primeira etapa da Educação Básica. Existe uma lacuna na educação pública gratuita para crianças de 0 a 4 anos, levando algumas famílias a buscar esse direito por meio de processos judiciais. Embora a legislação brasileira, como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a Constituição de 1988, enfatize a importância da educação infantil como um direito garantido pelo Poder Público, ela não especifica completamente como essa educação deve ser implementada nas instituições escolares. Somente em 2007, com a criação do FUNDEB, houve uma destinação específica de recursos para a educação infantil. Organizações internacionais, como o Banco Mundial, também influenciaram as políticas de educação infantil no Brasil, especialmente devido ao modelo de desenvolvimento humano adotado pelo país. Para preencher essa lacuna, o Ministério da Educação e da Cultura (MEC) começou a desenvolver uma política nacional de educação infantil a partir de 1994, introduzindo documentos como os Referenciais Curriculares e as Diretrizes Curriculares Nacionais para a educação infantil. 2 FORMULAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS E FINANCIAMENTO PARA A EDUCAÇÃO INFANTIL A partir dos anos 1990, certos organismos internacionais, por meio de suas entidades, promoveram políticas tanto internas quanto externas de suporte para estimular o desenvolvimento econômico e a integração de nações em desenvolvimento no mercado global. Para Moleta, Bierwagen e Toledo (2018), é importante notar que o Brasil faz parte desse grupo de nações. Esses organismos exerceram influência sobre as estratégias governamentais de educação e financiamento ao longo desse período e em anos subsequentes. Como exemplos notáveis dessas entidades, podemos citar o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e a Comissão Econômica para a América Latina. Consoante as pesquisas de Moreira e Lara (2012), entidades como o Banco Mundial, que respaldavam iniciativas e programas educacionais por meio de suas instituições, difundiram a ideia de que o investimento em capital humano era crucial para o progresso das nações em desenvolvimento. Esse investimento deveria se concentrar principalmente na educação básica, visando, dessa forma, alcançar um crescimento econômico sustentável e um aumento na produtividade. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) empenhou-se na promoção do progresso na América Latina e no Caribe, canalizando recursos para iniciativas voltadas primordialmente para a mitigação da pobreza e a promoção da justiça social. Conforme as observações de Moreira e Lara (2012), uma mensagem que permeava as diretrizes políticas do BID era a de que os investimentos direcionados à infância contribuíam significativamente para atenuar ou erradicar a pobreza nos países em desenvolvimento. Por outro lado, a Comissão Econômica para a América Latina, uma entidade criada com o propósito de fomentar o desenvolvimento econômico nas nações latino- americanas, orquestrou ações de colaboração entre os países da região e o resto do mundo. Ela propôs programas e projetos que visavam ao aprimoramento produtivo com equidade (MOREIRA e LARA, 2012). Em decorrência da influência exercida por essas entidades na formulação de políticas governamentais e no financiamento, chegamos à Constituição Federal do Brasil de 1988, que estipulou a destinação de, no mínimo, 25% das receitas provenientes de impostos estaduais, municipais e do Distrito Federal, bem como de 18% dos impostos federais para a área da educação (BRASIL, 1988, art. 212). Os recursos atribuídos aos municípios são direcionados para as fases que se encontram sob sua responsabilidade, ou seja, a educação infantil e os primeiros anos do ensino fundamental. Os estados concentram suas despesas nas etapas posteriores do ensino fundamental e no ensino médio. Por sua vez, a União se encarrega da prestação, supervisão e regulamentação do ensino superior. A Constituição estabelece o salário-educação como uma fonte adicional de financiamento para a educação. Esse recurso social é direcionado para programas destinados à educação básica e é obtido por meio de contribuições das empresas com base nos salários de seus funcionários. O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) é responsável por arrecadar esse valor, e uma taxa de administração de 1% é retida. Em seguida, asdespesas relacionadas ao sistema de manutenção do ensino são deduzidas. Do montante restante, 90% são distribuídos da seguinte forma: 1 – ao Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), que investe esses recursos em programas federais para a educação básica; e 2 – aos estados e municípios, que utilizam os fundos para melhorar a educação básica em suas regiões. Os 10% restantes da arrecadação do salário-educação também são direcionados ao FNDE. A Lei nº 12.858/2013, popularmente conhecida como Lei dos Royalties, determinou que 75% das receitas provenientes de royalties e participações na exploração de petróleo e gás natural em campos da plataforma continental, do mar territorial e das áreas do pré-sal fossem destinados à educação, enquanto os 25% restantes fossem alocados para a saúde (BRASIL, 2013). Além disso, em 1996, o Ministério da Educação instituiu o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (FUNDEF) com o propósito de fornecer recursos para o ensino fundamental e apoiar os profissionais dessa fase educacional. Posteriormente, em 2007, o FUNDEF foi substituído pelo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (FUNDEB), cujas diretrizes estão estabelecidas na Lei nº 11.494/2007. Esse novo fundo passou a beneficiar todas as etapas da educação básica. O FUNDEB opera como um fundo estadual no qual cada estado e seus respectivos municípios contribuem com 20% da arrecadação de impostos e transferências determinados por lei. A distribuição dos recursos é calculada com base no número de estudantes matriculados em cada etapa da educação básica, levando em conta as diversas modalidades e tipos de instituições de ensino. Os valores atribuídos a esses critérios são definidos em colaboração entre representantes do Ministério da Educação, gestores municipais de educação e secretários de educação. O FUNDEB possuía validade no período de 2007 a 2020 (ABUCHAIM, 2018). Como se pode perceber, esse fundo desempenha um papel crucial na redução da disparidade entre as redes de ensino. Além disso, ele auxilia os sistemas educacionais a planejar de maneira mais eficaz o atendimento escolar em todas as etapas da educação básica, assegurando estabilidade financeira aos municípios e estados para ampliar o número de matrículas e orientando-os no cumprimento de suas obrigações no campo educacional. Vale ressaltar, que a nova Lei do FUNDEB, instituída pela Lei n.º 14.113/2020, representa um marco importante para a educação no Brasil. Com sua aprovação, o FUNDEB tornou-se permanente, garantindo a continuidade do financiamento da educação básica em todo o país. A nova legislação também traz avanços significativos, como o aumento gradual da participação da União no fundo, ou seja, crescerá sua contribuição financeira, passando para 10% em 2021 e 23% no ano de 2026, o que contribuirá para fortalecer o financiamento da educação em Estados e municípios que possuem menos recursos. Além disso, a lei estabeleceu critérios mais transparentes e equitativos para a distribuição dos recursos, levando em consideração fatores como a vulnerabilidade socioeconômica dos alunos e a qualidade da educação. Essas medidas visam promover uma educação de qualidade e reduzir as desigualdades educacionais no país, consolidando o FUNDEB como uma peça fundamental na busca por um sistema educacional mais justo e inclusivo (BRASIL, 2020). No ano de 2007, com o intuito de estabelecer uma conexão entre o financiamento e a excelência no atendimento educacional, foi lançado um estudo conhecido como Custo Aluno Qualidade Inicial (CAQi). Esse instrumento incorpora em sua metodologia de cálculo diversos elementos essenciais, como a prestação de ensino de alta qualidade, a adequada remuneração dos professores e da equipe técnica, a infraestrutura escolar, a relação entre o número de alunos por turma e a quantidade de docentes disponíveis. A tarefa de determinar o valor mínimo anual por aluno é de responsabilidade do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Em situações em que esse valor não é alcançado, a União assume a responsabilidade de repassar um valor adicional aos municípios e estados, garantindo, desse modo, que os recursos necessários estejam disponíveis para a promoção de uma educação de qualidade (MOLETA, BIERWAGEN E TOLEDO, 2018). O investimento na educação infantil pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) é um crucial para o fortalecimento do ensino nas etapas iniciais da educação no Brasil. O FNDE direciona recursos significativos para apoiar esta etapa da educação básica, visando à melhoria da qualidade e ao acesso igualitário a essa fase crucial do desenvolvimento educacional. Esses investimentos abrangem a construção e reforma de creches e pré-escolas, aquisição de materiais pedagógicos, capacitação de profissionais da educação e programas de incentivo à qualidade na educação infantil. A alocação adequada de recursos por parte do FNDE garante a promoção da equidade e um ambiente educacional enriquecedor para as crianças em idade pré-escolar em todo o país. Há um grande impasse, pois os investimentos destinados à educação infantil são inferiores quando comparados aos aportes direcionados ao ensino fundamental, médio e superior. Além disso, verifica-se uma notável disparidade nos recursos investidos por aluno nas diferentes regiões do país. Questões relacionadas à infraestrutura das instituições, abordagens pedagógicas, capacitação de profissionais e remuneração também constituem desafios a serem enfrentados nesse contexto. Diante dessa realidade, o Governo Federal implementou diversos programas voltados para o aprimoramento da educação infantil, os quais serão apresentados no tópico a seguir (ABUCHAIM, 2018). 2.1 Iniciativas do Governo Federal para o Desenvolvimento da Educação Infantil O governo federal possui fundos destinados à educação das crianças da educação infantil, executados por iniciativas promovidas pelo orçamento do Ministério da Educação (MOLETA, BIERWAGEN E TOLEDO, 2018). Vejamos: Proinfância Proinfância é um programa estabelecido pelo Governo Federal e formalizado por meio da Resolução nº 06, datada de 24 de abril de 2007. Seu propósito principal é a expansão da rede de ensino infantil, oferecendo apoio técnico e recursos financeiros para a construção de novas unidades educacionais, bem como para a aquisição de equipamentos e materiais necessários para o pleno funcionamento dessas instituições. De forma geral, as construções seguem os planos arquitetônicos fornecidos pelo FNDE como diretrizes. As escolas que são erguidas seguem um padrão de ambientes que incluem instalações sanitárias, espaços para fraldários, salas de aula, áreas multiuso, espaços para recreação cobertos, parques e refeitórios. O intuito é que esses locais possibilitem uma variedade de atividades, abrangendo tanto as pedagógicas quanto as recreativas, esportivas e de alimentação. Adicionalmente, são previstos espaços para funções administrativas e serviços diversos. O programa também oferece assistência para a aquisição de mobiliário e equipamentos, como geladeiras, fogões, bebedouros, cadeiras e berços (FLORES; MELLO, 2012). Para pleitear os recursos do Proinfância, os municípios devem realizar um cadastramento durante um período estipulado, utilizando o Sistema Integrado de Planejamento, Orçamento e Finanças do Ministério da Educação no Brasil (SIMEC). Os critérios para que um município possa se inscrever no programa incluem: a disponibilidade de um terreno em localização adequada; as condições de acesso e as características técnicas do terreno que atendam aos requisitos dos projetos padronizados oferecidos pelo FNDE (categorias A, B e C); um compromisso com a administração, operação e manutenção das unidades construídas;e a existência de uma demanda mínima por vagas na educação infantil (FUNDO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO DA EDUCAÇÃO, 2018). Programa Brasil Carinhoso O programa tem como principal objetivo abordar a situação de extrema pobreza, bem como aprimorar e expandir o acesso aos serviços de creche, pré-escola e cuidados com a saúde. Ele opera por meio de duas vertentes distintas. A primeira delas implica na transferência automática de recursos financeiros para os municípios, com base no número de crianças com idades entre 0 e 48 meses pertencentes a famílias que recebem o Bolsa Família. A segunda frente envolve a antecipação de recursos pelo Ministério da Educação (MEC) para custear a admissão de novos alunos na educação infantil que ainda não são beneficiados pelo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (MOLETA, BIERWAGEN E TOLEDO, 2018). Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) é uma iniciativa que, com caráter suplementar desde os anos 1950, viabiliza o financiamento da alimentação nas escolas. O FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) realiza a transferência de recursos de forma direta aos estados e municípios, levando em consideração o quantitativo de alunos registrado no censo escolar referente ao ano anterior ao período de atendimento (MOLETA, BIERWAGEN E TOLEDO, 2018). Programa Nacional de Transporte Escolar (PNATE) Envolve a transferência automática de fundos monetários, dispensando a formalização de convênios, para cobrir despesas associadas à conservação do veículo ou da embarcação empregada no transporte de estudantes da educação básica pública que residem em regiões rurais. No contexto educacional brasileiro, o programa ao assegurar o acesso dos estudantes a estabelecimentos de ensino, especialmente em áreas rurais e de difícil acesso, tem garantido um direito constitucional. Como destacado pelo Ministério da Educação (MEC, 2023), o PNATE é essencial para garantir que os alunos tenham acesso à educação de qualidade, fornecendo recursos financeiros que viabilizam o transporte seguro e adequado. Este programa reforça o compromisso do governo em promover a igualdade de oportunidades educacionais em todo o país, permitindo que os estudantes alcancem seus objetivos educacionais, independentemente de sua localização geográfica (MOLETA, BIERWAGEN E TOLEDO, 2018). Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) e PNBE Professor O Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) é uma iniciativa do Ministério da Educação que visa fornecer às escolas públicas materiais didáticos e literários para enriquecer o acervo das bibliotecas escolares. Por meio do PNBE, as escolas recebem uma seleção de obras literárias e materiais de apoio à prática pedagógica, contribuindo para o incentivo à leitura e o aprimoramento do ensino. Além disso, o PNBE Professor é uma vertente desse programa que se concentra em atender especificamente os educadores, oferecendo obras de cunho pedagógico que auxiliam no planejamento e na execução das atividades educacionais. Esses programas desempenham um papel na promoção da educação de qualidade e na formação de leitores críticos no contexto escolar brasileiro. A partir de 2008, o Programa expandiu sua abrangência, incorporando a distribuição de materiais especialmente direcionados para a educação infantil, consolidando seu compromisso em atender diversas etapas da educação básica. Essa ampliação do programa representa um avanço significativo no apoio à formação literária e educacional das crianças em idade pré-escolar. Segundo dados do Ministério da Educação (MEC), essa iniciativa tem contribuído para enriquecer o ambiente educacional das escolas públicas, fornecendo recursos pedagógicos e literários que estimulam o desenvolvimento cognitivo e social das crianças desde os primeiros anos de vida (MOLETA, BIERWAGEN E TOLEDO, 2018). 2.2 Plano Nacional de Educação, os objetivos e metas para a educação infantil O Plano Nacional de Educação (PNE) orienta as políticas educacionais no Brasil, definindo diretrizes, metas e estratégias para o setor. Aprovado pela Lei nº 13.005/2014, para 2014 a 2024, o PNE estabeleceu uma série de objetivos e metas voltados para a Educação Infantil, reconhecendo a importância dessa etapa no desenvolvimento das crianças. Segundo Abuchaim (2018), pode-se destacar: Meta 1: universalizar, até 2016, a educação infantil na pré-escola para as crianças de 4 (quatro) a 5 (cinco) anos e ampliar a oferta de educação infantil em creches, para atender, no mínimo, 50% (cinquenta por cento) das crianças de até 3 (três) anos até o final da vigência deste PNE. Meta 4: universalizar, para a população de 4 (quatro) a 17 (dezessete) anos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, o acesso à educação básica e ao atendimento educacional especializado, preferencialmente na rede regular de ensino, com a garantia de sistema educacional inclusivo, de salas de recursos multifuncionais, classes, escolas ou serviços especializados, públicos ou conveniados (ABUCHAIM, 2018, p. 141). Uma das metas mais emblemáticas do PNE para a Educação Infantil é a universalização da pré-escola para crianças de 4 a 5 anos, que deveria ter sido alcançada até 2016. Essa meta reflete o compromisso em garantir o acesso a essa etapa da educação para todas as crianças brasileiras, contribuindo para o seu desenvolvimento cognitivo, emocional e social. Além da universalização, o PNE também estabeleceu metas relacionadas à melhoria da qualidade da Educação Infantil, enfatizando a formação e valorização dos profissionais da área. A formação continuada de professores e a promoção de práticas pedagógicas de qualidade são pontos para o desenvolvimento das crianças nessa fase. No entanto, é importante reconhecer que, embora o PNE seja um marco importante, sua implementação enfrenta desafios significativos. A Lei nº 14.113/2020, que trouxe mudanças no financiamento da Educação Básica e do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (FUNDEB), também impacta diretamente a Educação Infantil, com reflexos nas metas. Dados e pesquisas recentes, como a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – Educação 2019, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), destacam avanços, mas também desafios persistentes na Educação Infantil brasileira. Esses desafios incluem a necessidade de mais investimentos, infraestrutura adequada, formação de professores e a promoção da educação inclusiva. Portanto, é importante que o PNE seja acompanhado de políticas consistentes, monitoramento efetivo e ação coordenada entre os diferentes níveis de governo e a sociedade civil para que as metas estabelecidas se tornem uma realidade e contribuam para a construção de uma Educação Infantil de qualidade e inclusiva no Brasil. 3 A IMPORTÂNCIA DA BNCC PARA A EDUCAÇÃO INFANTIL Visando regular e estruturar a educação infantil, o Ministério da Educação (MEC) tem promulgado diversos documentos ao longo dos anos. Entre esses documentos, destacam-se os Referenciais Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, publicados em três volumes (BRASIL, 1998a, 1998b, 1998c), que estabelecem diretrizes fundamentais para o currículo da educação infantil. Além disso, foram elaborados dois Planos Nacionais de Educação (BRASIL, 2001, 2014), que contemplam metas e estratégias para a melhoria da qualidade da educação, incluindo a educação infantil. Os Parâmetros de Qualidade para a Educação Infantil (BRASIL, 2006), também desempenharam um papel importante, estabelecendo critérios de qualidade para as instituições que atendem crianças na primeira infância. As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (BRASIL, 2010), forneceram orientaçõesespecíficas sobre os conteúdos e práticas pedagógicas adequadas a essa fase da educação. Recentemente, a Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2017), trouxe um novo marco, definindo as aprendizagens essenciais que todas as crianças devem desenvolver na educação infantil, alinhando-se com os demais níveis de ensino. Esses documentos refletem o compromisso do MEC em estabelecer diretrizes e padrões para promover a qualidade e a efetividade da educação infantil no Brasil. A Base é, de fato, um documento de caráter normativo que desempenha um papel substancial na educação brasileira. Ela estabelece um conjunto de aprendizagens progressivas e orgânicas que todos os alunos devem desenvolver ao longo das diferentes etapas da educação básica, como previsto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (BRASIL, 1996). A BNCC serve como um guia que orienta os currículos dos sistemas de ensino ao nível municipal, estadual e federal, além de influenciar as propostas pedagógicas das escolas públicas e privadas de educação básica (BRASIL, 2017). Um aspecto importante da BNCC é a sua natureza plural, pois é elaborada por especialistas de diversas áreas, buscando uma abordagem abrangente e integrada. Seu propósito vai além da simples definição de conteúdos; ela procura superar a fragmentação das políticas educacionais, promovendo uma colaboração eficaz entre as esferas de governo. Além disso, a BNCC pretende sinalizar e elevar a qualidade da educação no país. O papel do Governo Federal na implementação da Base inclui a revisão da formação inicial e continuada de professores, garantindo que estejam alinhados com as diretrizes estabelecidas no documento. Por outro lado, as redes de ensino públicas de educação básica e as escolas particulares têm a responsabilidade de construir seus currículos com base nas aprendizagens essenciais definidas no referido documento (BRASIL, 2017). Na perspectiva pedagógica da BNCC, a competência é um conceito central, e seu desenvolvimento é uma das metas fundamentais do documento, refletindo a ênfase na formação integral dos alunos e na capacidade de aplicar o conhecimento de forma contextualizada e significativa para a vida. Nos fundamentos pedagógicos da BNCC define competência como: [...] a mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho [...] (BRASIL, 2017, p. 8). Nesse sentido, este texto almeja garantir o direito à aquisição de conhecimento para todos os alunos da educação básica, destacando seu comprometimento com a educação integral e levando em consideração o contexto e os desafios da sociedade brasileira. A BNCC lista 10 competências gerais para a educação básica, que estabelecem "[...] o engajamento da educação brasileira na formação completa do ser humano e na construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva [...]" (BRASIL, 2017, p. 7). No que concerne à educação infantil, a BNCC introduz os direitos de aprendizado e desenvolvimento, bem como os campos de experiência, os quais se subdividem em diferentes faixas etárias: bebês (0 a 1 ano e 6 meses), crianças de bem pequenas (1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses) e crianças pequenas (4 anos a 5 anos e 11 meses). Além disso, o documento apresenta os objetivos relativos à aprendizagem e ao desenvolvimento na educação infantil (BRASIL, 2017). Assim adota uma perspectiva centrada na criança, enfocando "[...] a integralidade de suas habilidades e predisposições [...]" (SARMENTO, 2008, p. 22). Em outras palavras, ela rompe com a visão "adultocêntrica" da educação que suprime as potencialidades das crianças, reconhecendo-as como protagonistas. Afinal, as crianças interagem com seus colegas e adultos, atribuindo significados às suas ações. Elas absorvem uma cultura construída pela sociedade, mas, ao participarem de atividades em uma instituição de educação infantil e serem encorajadas a fazê-lo, podem reconfigurar essa cultura, interpretando-a e incorporando-a por meio de suas práticas (SARMENTO, 2013). A seguir, vamos destacar a importância de garantir os direitos de aprendizado das crianças nas instituições de educação infantil, conforme estabelecido na Base Nacional Comum Curricular. 3.1 Direitos de aprendizagem A criança é um indivíduo completo, com uma história e plenos direitos, capaz de forjar sua identidade pessoal, adquirir conhecimento e contribuir para a cultura. Nos últimos anos, tem se fortalecido na educação infantil a concepção que associa o ato de educar ao de cuidar, reconhecendo que essas duas dimensões são intrínsecas ao processo educativo (SARMENTO, 2013). Considerando os princípios éticos, estéticos e políticos destacados na DCNEI (Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil) que fundamentam os direitos das crianças, a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) propõe seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se. Esses direitos garantem, na educação infantil, as condições para que as crianças aprendam, cresçam e interajam em contextos que favoreçam suas experimentações. A ideia central é que elas tenham a oportunidade de construir e assimilar conhecimento por meio de suas interações e atividades com colegas e adultos (BRASIL, 2017). Conforme estabelecido na BNCC (BRASIL, 2017) os direitos de aprendizagem e desenvolvimento para as crianças são: Conviver – com outras crianças e adultos, em pequenos e grandes grupos, utilizando diferentes linguagens, ampliando o conhecimento de si e do outro, o respeito em relação à cultura e às diferenças entre as pessoas. Brincar – cotidianamente de diversas formas, em diferentes espaços e tempos, com diferentes parceiros (crianças e adultos), ampliando e diversificando seu acesso a produções culturais, seus conhecimentos, sua imaginação, sua criatividade, suas experiências emocionais, corporais, sensoriais, expressivas, cognitivas, sociais e relacionais. Participar – ativamente, com adultos e outras crianças, tanto do planejamento da gestão da escola e das atividades propostas pelo educador quanto da realização das atividades da vida cotidiana, tais como a escolha das brincadeiras, dos materiais e dos ambientes, desenvolvendo diferentes linguagens e elaborando conhecimentos, decidindo e se posicionando. Explorar – movimentos, gestos, sons, formas, texturas, cores, palavras, emoções, transformações, relacionamentos, histórias, objetos, elementos da natureza, na escola e fora dela, ampliando seus saberes sobre a cultura, em suas diversas modalidades: as artes, a escrita, a ciência e a tecnologia. Expressar – como sujeito dialógico, criativo e sensível, suas necessidades, emoções, sentimentos, dúvidas, hipóteses, descobertas, opiniões, questionamentos, por meio de diferentes linguagens. Conhecer-se – e construir sua identidade pessoal, social e cultural, constituindo uma imagem positiva de si e de seus grupos de pertencimento, nas diversas experiências de cuidados, interações, brincadeiras e linguagens vivenciadas na instituição escolar e em seu contexto familiar e comunitário (BRASIL, 2017, p. 38). A BNCC concebe a criança como um indivíduo que, segundo o documento oficial, possui a capacidade de observar, questionar, formular hipóteses, tirar conclusões, fazer julgamentos e assimilar valores. Nesse processo, ela constrói conhecimento e se apropria do conhecimento sistematizado por meio de ações e interações com o ambiente físico e social que a cerca. Essas aprendizagens, entretanto, não devem ocorrer de forma espontânea, mas sim ser orientadas por uma intencionalidade educativa, que é uma responsabilidade fundamental da etapa da educação infantil, compreendendo creche e pré-escola(BRASIL, 2017). Dentro desse contexto, é relevante indagar quais são as metas e objetivos dessa intencionalidade educativa. O educador deve propor experiências que permitam à criança: [...] conhecer a si e ao outro e [...] conhecer e compreender as relações com a natureza, com a cultura e com a produção científica, que se traduzem nas práticas de cuidados pessoais (alimentar-se, vestir-se, higienizar-se), nas brincadeiras, nas experimentações com materiais variados, na aproximação com a literatura e no encontro com as pessoas [...] (BRASIL, 2017, p. 37). Como é viável documentar esse percurso e a evolução das aprendizagens infantis? A BNCC sugere que se utilizem diversos métodos de registro, tais como relatórios, portfólios, fotografias, desenhos e textos, tanto por parte dos educadores quanto pelos próprios alunos. O propósito desse registro não reside na avaliação, promoção ou categorização das crianças como "aptas" ou "inaptas", "prontas" ou "não prontas", "maduras" ou "não maduras", mas sim na garantia de seus direitos à aprendizagem (BRASIL, 2017, p. 39). Como observado, na educação infantil, as aprendizagens e o progresso das crianças têm como pilares centrais as interações e o ato de brincar, garantindo-lhes os direitos de aprender a conviver, brincar, participar, explorar, expressar-se e conhecer a si. O currículo da educação infantil, estabelecido pela BNCC, é organizado em torno de cinco campos de experiências, nos quais são delineados os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento, como será apresentado a seguir. 3.2 Campos de experiências Qual é a natureza dos campos de experiências? Inicialmente, a conceituação e a identificação dos campos de experiências derivam das orientações das Diretrizes Curriculares Nacionais de Educação Infantil no que diz respeito aos conhecimentos e saberes fundamentais que devem ser assegurados às crianças e conectados às suas vivências. Assim, os campos de experiências constituem um plano curricular que incorpora as situações e as vivências do cotidiano das crianças e suas compreensões, entrelaçando-as com os saberes integrantes do patrimônio cultural (BRASIL, 2017). A BNCC está estruturada em cinco áreas de vivências, a saber: 1) O eu, o outro e o nós; 2) Corpo, gestos e movimentos; 3) Traços, sons, cores e formas; 4) Escuta, fala, pensamento e imaginação; e 5) Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações. A seguir, aprofundaremos o entendimento de cada uma delas consoante as diretrizes da BNCC: O eu, o outro e o nós Reconhece que as crianças desenvolvem suas capacidades por meio das interações com seus colegas e adultos, seja dentro da família, na escola ou na comunidade. Essas interações moldam como as crianças agem, sentem, pensam, fazem descobertas, questionam a si e aos outros, bem como contribuem para a construção de sua autonomia, do seu senso de autocuidado e da compreensão sobre a reciprocidade e a interdependência do ambiente ao seu redor. Portanto, na etapa da educação infantil: [...] é preciso criar oportunidades para que as crianças entrem em contato com outros grupos sociais e culturais, outros modos de vida, diferentes atitudes, técnicas e rituais de cuidados pessoais e do grupo, costumes, celebrações e narrativas. Nessas experiências, elas podem ampliar o modo de perceber a si mesmas e ao outro, valorizar sua identidade, respeitar os outros e reconhecer as diferenças que nos constituem como seres humanos [...] (BRASIL, 2017, p. 38). Corpo, gestos e movimentos As crianças desde seus primeiros anos de vida devem ser incentivadas a realizar experimentações utilizando o próprio corpo, explorando os sentidos, gestos, movimentos impulsivos ou propositais, coordenados ou espontâneos. Por meio dessas atividades, elas investigam o mundo ao seu redor, interagem com o ambiente e objetos, estabelecem conexões, expressam-se, brincam e adquirem conhecimento sobre si mesmas, sobre os outros e sobre o contexto social e cultural que as cerca, gradualmente desenvolvendo uma consciência de sua corporeidade. Várias formas de expressão, como a música, a dança, o teatro e as brincadeiras de faz de conta. Isso as permite se comunicarem e se expressarem de maneira intrincada, fundindo corpo, emoção e linguagem (BRASIL, 2017). Portanto, na educação infantil, destaca-se que o corpo das crianças assume um papel central, já que ele desempenha um papel nas práticas educativas, voltadas para promover o bem-estar físico, a autonomia e a liberdade, ao invés de submissão (BRASIL, 2017). As instituições educacionais devem oferecer às crianças oportunidades enriquecedoras, permeadas pelo elemento lúdico e pela interação com seus colegas, permitindo-lhes explorar e experimentar uma ampla variedade de atividades, como: [...] movimentos, gestos, olhares, sons e mímicas com o corpo, para descobrir variados modos de ocupação e uso do espaço com o corpo (tais como sentar com apoio, rastejar, engatinhar, escorregar, caminhar apoiando-se em berços, mesas e cordas, saltar, escalar, equilibrar-se, correr, dar cambalhotas, alongar-se, etc.) (BRASIL, 2017, p. 40). Traços, sons, cores e formas Oferecer às crianças a oportunidade de conviver com diversas expressões artísticas, culturais e científicas, tanto locais quanto globais, no ambiente escolar cotidiano, possibilita a elas uma ampla gama de experiências. Isso lhes permite explorar diversas formas de expressão e linguagem, incluindo artes visuais (como pintura, modelagem, colagem e fotografia), música, teatro, dança e mídia audiovisual, entre outras. Através dessas experiências variadas, as crianças têm a oportunidade de se expressar por meio de várias linguagens, criando suas próprias produções artísticas ou culturais. Elas exercitam a autoria, seja individualmente ou de forma coletiva, utilizando sons, traços, gestos, danças, mímicas, encenações, canções, desenhos, modelagens e a manipulação de diversos materiais, incluindo recursos tecnológicos. Essas vivências contribuem para o desenvolvimento das crianças, mesmo desde tenra idade, ajudando-as a desenvolver um senso estético e crítico. Além disso, elas adquirem conhecimento sobre si, sobre os outros e sobre o mundo ao seu redor. Portanto, a Educação Infantil deve promover ativamente a participação das crianças em atividades que envolvam a criação, manifestação e apreciação artística. Isso é fundamental para estimular o desenvolvimento da sensibilidade, criatividade e expressão pessoal das crianças, permitindo que elas se apropriem e reinterpretem continuamente a cultura que as cerca e explorem suas singularidades. Ao fazer isso, elas enriquecem seus repertórios e interpretam suas experiências e vivências artísticas de forma significativa (BRASIL, 2017). Escuta, fala, pensamento e imaginação Desde o momento de seu nascimento, as crianças se envolvem em situações comunicativas diárias com as pessoas com as quais interagem. Os primeiros meios de comunicação do bebê incluem os movimentos de seu corpo, o olhar, sua postura, sorrisos, o choro e outros recursos vocais, os quais adquirem significado por meio da interpretação dos outros. Conforme crescem, as crianças gradualmente expandem e enriquecem seu vocabulário e demais habilidades de expressão e compreensão, à medida que internalizam a língua materna – que progressivamente se torna o principal meio pelo qual se comunicam. Na Educação Infantil, é de suma importância fomentar experiências nas quais as crianças possam expressar-se e ouvir, promovendo assim sua participação ativa na cultura oral. Isso ocorre através da audição de histórias, participação em conversas, descrições, criação de narrativas individualmente ou em grupo e envolvimento com diversas formas de linguagem. É por meio dessas interações que a criança se constitui como sujeito singular e se integra a um grupo social.Desde cedo, a criança demonstra interesse pela cultura escrita: ao escutar e acompanhar a leitura de textos, ao observar a presença constante de textos no ambiente familiar, comunitário e escolar, ela gradualmente forma sua concepção da linguagem escrita. Isso inclui o reconhecimento dos diversos propósitos sociais da escrita, dos variados tipos de textos, dos suportes e dos veículos utilizados. Na Educação Infantil, a introdução à cultura escrita deve ser baseada no conhecimento prévio das crianças e nas curiosidades que elas naturalmente demonstram. As experiências envolvendo literatura infantil, propostas pelo educador como mediador entre os textos e as crianças, desempenham um papel fundamental no desenvolvimento do gosto pela leitura. Elas também estimulam a imaginação e ampliam o conhecimento sobre o mundo. Além disso, o contato com histórias, contos, fábulas, poemas, literatura de cordel e outros gêneros literários promove a familiaridade com livros, a distinção entre ilustrações e texto escrito, o aprendizado da direção da escrita e as técnicas adequadas de manipulação de livros. Conforme as crianças convivem com textos escritos, elas gradualmente formam hipóteses sobre a escrita. Inicialmente, isso se manifesta em rabiscos e garatujas, e à medida que começam a aprender sobre letras, elas experimentam a escrita espontânea, que, embora não convencional, já indica uma compreensão da escrita como um sistema de representação da linguagem (BRASIL, 2017). Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações As crianças se encontram imersas em diferentes contextos de espaço e tempo, em um universo que engloba fenômenos naturais e socioculturais. Mesmo em tenra idade, elas buscam compreender sua localização em diversos espaços, como a rua, o bairro e a cidade, bem como em diferentes momentos, como o dia e a noite, o hoje, o ontem e o amanhã. Manifestam, igualmente, interesse pelo mundo físico, que inclui seu próprio corpo, fenômenos atmosféricos, animais, plantas, mudanças na natureza, uma variedade de materiais e suas possibilidades de manipulação, entre outros aspectos. Adicionalmente, elas exploram o mundo sociocultural, investigando relações de parentesco e sociais entre as pessoas que conhecem, suas profissões, tradições, costumes e a diversidade que as caracteriza. Nesse processo e em diversas outras experiências, as crianças frequentemente se deparam com conceitos matemáticos, tais como contagem, ordenação, relações entre quantidades, dimensões, medidas, comparação de pesos e comprimentos, avaliação de distâncias, identificação de formas geométricas, conhecimento e reconhecimento de numerais cardinais e ordinais, que também despertam sua curiosidade. Portanto, é imprescindível que a Educação Infantil proporcione vivências nas quais as crianças possam observar, manipular objetos, investigar e explorar seu ambiente, formular hipóteses e recorrer a fontes de informação para buscar respostas a suas perguntas e indagações. Dessa forma, a instituição escolar oferece oportunidades para que as crianças expandam seus conhecimentos sobre o mundo físico e sociocultural, capacitando-as a aplicar esses saberes em sua vida cotidiana (BRASIL, 2017). 4 EDUCAÇÃO EM CRECHE: OS BEBÊS DE 0 A 1 ANO E 6 MESES Para Moletta, Bierwagen e Toledo (2018), e a Base Nacional Comum Curricular (2017), o bebê é definido como um indivíduo que possui uma idade entre 0 e 18 meses, o que equivale a um ano e meio de vida. Na atualidade, entendemos o bebê como um ser que possui dimensões sociais, históricas e competências, embora isso nem sempre tenha sido o caso. Como é sabido, nos primeiros anos de vida, as crianças necessitam do cuidado e da atenção dos adultos para garantir sua sobrevivência. No entanto, essa dependência inicial não deve ser interpretada como uma incapacidade do bebê de expressar-se ou de demonstrar interesse pelas coisas e pelas pessoas ao seu redor. Durante muito tempo, a concepção predominante considerava o bebê como um ser imaturo, incompleto e desprovido de habilidades, mas estudos recentes em várias áreas do conhecimento têm evidenciado a competência inata dos bebês. Desse modo, como se dá o processo de aprendizado do bebê? A crença predominante é que a criança é um agente ativo que possui a capacidade de construir seu próprio conhecimento. No entanto, você pode facilmente compreender, o papel que o professor desempenha na promoção do crescimento e desenvolvimento infantil, ao estimular a autonomia da criança (FOCHI, 2015). Portanto, na educação de bebês, as estratégias e abordagens adotadas pelas instituições escolares devem priorizar os seguintes princípios: • O progresso da criança é um processo colaborativo e mútuo, o que implica que as crianças devem ter amplas oportunidades para compartilhar experiências com seus colegas, professores e educadores da instituição. • A dimensão educativa e a dimensão de cuidado são inseparáveis em qualquer ação educacional. Isso quer dizer que cuidar da criança envolve atender às suas necessidades físicas, mas não se limita a isso. Cuidar engloba o ato de receber, proporcionar segurança e estimular a expressão infantil. Nesse contexto, cuidar é sinônimo de educar, oferecendo às crianças as condições necessárias para que elas explorem o ambiente e construam significados pessoais. • Incluir crianças com necessidades educacionais especiais. Isso significa proporcionar diversas experiências que promovam a aprendizagem e o desenvolvimento dessas crianças nesta etapa. • O estabelecimento de parcerias com as famílias deve ser assegurado. • O papel do professor mediador é de destaque. O professor deve planejar e liderar as situações de aprendizado das crianças, interagindo com elas e orientando seu processo de aprendizagem (BRASIL, 2010, 2017; FOCHI, 2015). Você tem conhecimento das práticas pedagógicas viáveis para serem implementadas em berçários? Para abordar essa indagação, é importante ter em mente que cuidar e educar são componentes independentes, porém inseparáveis (KRAMER, 2005). Além disso, deve-se reconhecer a relevância da interação e do ato de brincar na fase inicial da vida (BRASIL, 2010, 2017). Os documentos que fornecem diretrizes para o currículo na educação infantil estipulam que bebês devem ser expostos a experiências que promovam o entendimento e o autocuidado, bem como a compreensão dos outros e do ambiente. Além disso, é imprescindível terem a oportunidade de brincar e usar a imaginação, explorar a comunicação corporal e verbal, investigar tanto a natureza quanto a cultura, e também se envolver em atividades que incentivem a expressão por meio das linguagens artísticas. É preciso oferecer experiências que envolvam recursos tecnológicos e linguagens midiáticas (BRASIL, 1998a, 1998b, 1998c, 2010, 2012, 2017). Como podemos realizar isso com bebês nas instituições de ensino? Bebês têm a capacidade de identificar as pessoas que cuidam deles e de se situar no ambiente ao seu redor. Isso acontece por meio de uma compreensão inicial das sensações, como o toque e o movimento, bem como dos sons e odores que os cercam. Enquanto interagem com seus cuidadores, eles começam a desenvolver a habilidade de compreender e reagir a variações na entonação vocal, expressões faciais e corporais, bem como a gestos, sorrisos e choros. Além disso, eles aprendem com as respostas dos adultos que os cercam. Momentos como esses oferecem oportunidades para que os bebês expressem seus sentimentos e internalizem a importância das relações interpessoais. É evidente a importância de proporcionar experiências de brincadeira e imaginação para os bebês. Desde cedo, eles demonstram entusiasmo ao participar de brincadeiras de esconde-esconde com suas mães ou com pessoas com quem desenvolvem laços afetivos. Essa atividade interativa possibilitaque os bebês desempenhem diferentes papéis em jogos, como o de procurar alguém ou de serem procurados. Isso resulta em satisfação tanto para o bebê quanto para seu parceiro de brincadeira. Assim sendo, as crianças podem se envolver em atividades com seus educadores, como esconder e revelar seus rostos, seguir objetos com os olhos, buscar e encontrar itens que foram ocultados, bem como imitar gestos e vocalizações (BRASIL, 1998a, 1998b, 1998c, 2010, 2017; FOCHI, 2015). Para desempenhar efetivamente o trabalho com bebês, é relevante que os educadores estejam familiarizados com brinquedos e atividades lúdicas que atendam às necessidades específicas de cada criança, de acordo com manual de orientação pedagógica (BRASIL, 2012): • Brinquedos e materiais para bebês que ficam deitados; • Brinquedos e materiais para bebês que se sentam; • Brinquedos e materiais para bebês que engatinham; • Brinquedos e materiais para bebês que andam Sugestões de brinquedos e materiais para bebês que ficam deitados (BRASIL, 2012): • Móbiles coloridos e sonoros que se movimentam, criam cintilações e envolvem os bebês, que podem movimentar braços e pernas; • Morros criados por almofadas, ou seja, o bebê pode ser desafiado a pegar um brinquedo do outro lado de uma almofada, com desníveis criados para explorações motoras; • Estruturas de exploração em que se penduram objetos coloridos que emitem sons quando movidos e podem encantar a criança quando ela tenta alcançá- los com as mãos e os pés; • Chocalhos que produzem sons ao balançar (podem ser produzidos pelas professoras) e podem ser manuseados pelas crianças; • Brinquedos musicais, que podem ser rádios, toca-discos, brinquedos em forma de animais que emitem sons. A seguir apresentamos alternativas de brinquedos e materiais adequados para bebês que já podem se sentar, de acordo com manual de orientação pedagógica (BRASIL, 2012): • Mordedores com texturas leves e diferentes formatos e cores, que podem oferecer algum conforto e exploração; • Experimentações mais complexas, como pegar dois objetos ao mesmo tempo, ou interagir com dois objetos iguais (especialmente a partir do sétimo mês); • Tapetes sensoriais contendo argolas, objetos que produzem sons, tecidos com diferentes texturas, aberturas para fechar e abrir; • Brinquedos de encaixar que formam torres, carros e outros objetos, que podem desafiar a lógica; • Brinquedos e materiais de pôr e tirar, como pregadores de roupa e bolas de tênis; • Brinquedos de bater, tampas de panelas e pequenos instrumentos musicais; • Brincadeiras com água, como na banheira ou bacia; • Cesto do tesouro ou de objetos. Sugestões de brinquedos e materiais para bebês que engatinham de acordo com manual de orientação pedagógica (BRASIL, 2012): • Cadeiras, mesas, caixas de papelão com furos; • Brinquedos estruturados de espuma, que podem criar cenários desafiadores e diversas explorações para as crianças; • Túnel com cadeira, mesa ou caixa para que os bebês possam atravessá-lo engatinhando. Sugestões de brinquedos e materiais para bebês que andam de acordo com manual de orientação pedagógica (BRASIL, 2012): • Brinquedos de empilhar; • Brinquedos de empurrar; • Brinquedos de puxar; • Brinquedos de encaixar; • Bolas; • Brincadeiras de exploração; • Brincadeiras de imitação. Quando se trata de linguagem corporal, é viável encorajar os bebês a explorarem os espaços disponíveis para eles além do berço com um grau razoável de independência. Isso pode ser facilitado mediante movimentos elementares e simples, tais como levantar a cabeça, rolar, sentar, rastejar e engatinhar. É possível também incentivá-los a aprender a manusear diversos objetos, praticando movimentos básicos como agarrar, soltar, arremessar de maneiras diferentes, empilhar e encaixar. Além disso, é benéfico ajudar os bebês a se familiarizarem com suas próprias imagens corporais, explorando diferentes partes do corpo através do toque e da utilização de um espelho. Outra abordagem eficaz é sentar-se à mesa com o bebê no colo, permitindo que ele explore a superfície ou alcance objetos que estejam sobre a mesa. No contexto da linguagem verbal, dentro do ambiente escolar, os bebês têm a oportunidade de observar os professores se comunicando. Eles podem se expressar usando gestos e balbucios como formas iniciais de comunicação. Além disso, os bebês podem ser incentivados a participar em atividades que envolvem música, como cantigas, parlendas e brincadeiras cantadas, permitindo-lhes expressar-se por meio de movimentos corporais e vocalizações, com o suporte do professor, entre outras formas. Quando se trata da exploração da natureza e cultura, os professores podem criar oportunidades para que os bebês brinquem com elementos como água, areia, terra e outros materiais, permitindo-lhes explorar diferentes texturas e propriedades, como temperatura e consistência. Além disso, atividades que estimulam as crianças a perceber variações de sons, como altura e localização, também podem ser incorporadas ao ambiente de aprendizado. Para enriquecer as experiências relacionadas à expressividade das linguagens artísticas, como a musical, é possível oferecer apoio aos bebês para compreenderem os sons presentes em seu ambiente e reajam a eles. Eles também podem desenvolver a capacidade de identificar suas músicas favoritas, expressando-se mediante movimentos corporais que acompanham a melodia. Além disso, uma abordagem carinhosa pode envolver o canto dos nomes dos bebês. No aspecto visual, os bebês podem ser expostos a diversas formas de expressão artística, como desenhos, pinturas, fotografias e artesanatos, possibilitando que manifestem suas preferências por meio do olhar, sorrisos, gestos e interjeições, entre outras formas de comunicação não verbal. Adicionalmente, os bebês podem experimentar a exploração visual das distintas relações entre luz e sombra, tanto na natureza quanto em contextos artificiais, como a pintura, fotografia e cinema, ampliando assim sua compreensão do mundo visual que os cerca (BRASIL, 1998a, 1998b, 1998c, 2010, 2012, 2017; FOCHI, 2015). 4.1 Papel do professor em uma turma de berçário Desde o momento do nascimento, as crianças estão imersas em interações que são fundamentais na formação de sua compreensão do mundo e de si. Nas instituições de educação infantil, um dos parceiros mais essenciais nesse processo é o professor, que atua como um mediador especial e uma fonte valiosa de aprendizado para as crianças. No ambiente do berçário, o professor assume o papel de uma figura de referência essencial para a criança, acompanhando seus movimentos e proporcionando apoio e segurança, além de reagir ao seu afastamento. Conforme o bebê se torna mais familiarizado com o ambiente da escola, ele começa a lidar de maneira mais confortável com a separação das pessoas com quem mantém vínculos afetivos, passando a agir com mais segurança ao compreender que alguém que se afasta pode eventualmente retornar (FOCHI, 2015; GONZALEZ- MENA; EYER, 2014). Moletta, Bierwagen e Toledo (2018), quando consideramos o papel do professor de referência em uma creche, é fundamental adotar a perspectiva da criança como ponto de partida. Conforme as autoras, os bebês frequentemente não possuem as habilidades linguísticas necessárias para comunicar seus pensamentos e experiências de maneira eficaz. Portanto, é essencial terem um educador que estabeleça uma relação próxima com elas. Nas instituições de educação infantil, o educador desempenha um papel de referência e compartilhado, atendendo às necessidades de várias crianças. Nesta perspectiva, para aprimorar a sua prática educativa, é recomendável fazer uso dos Referenciais Nacionais Curriculares da Educação Infantil, das Diretrizes Nacionais Curriculares e da Base Nacional Comum Curricular.