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Áreas verdes urbanas em Curitiba/PR: discussão sobre localização, valor da terra e renda da população Sessão Temática 4: Convergências entre Urbanização e natureza Resumo. Em um cenário em que as áreas verdes urbanas desempenham importantes funções sociais, surge o questionamento se a quantidade destes espaços e o acesso à estas áreas verdes urbanas é possível para toda a população. Este artigo analisa a distribuição espacial das áreas verdes urbanas de Curitiba, comparando com o preço da terra e com a renda, para compreender se moradores de todas as classes econômicas têm igual acesso às mesmas. Para isso, a pesquisa se vale de pesquisa bibliográfica e análise qualitativa, a partir dos mapas de localização de parques urbanos de Curitiba e também de mapa do preço do m². Os resultados apontaram que a maior concentração de áreas verdes urbanas está na região norte da cidade, cujos compartimentos contam com melhor infraestrutura. Ao relacionar tal distribuição com o valor da terra, constata-se que esta é a região com um dos metros quadrados mais caros. Concluiu-se que, com base nos fatores elencados para esta pesquisa, de que há uma relação entre a localização das áreas verdes urbanas e o preço da terra, demonstrando que a possibilidade de acesso é facilitada aos moradores de classes econômicas mais elevadas. Palavras-chave. Parques; Curitiba/PR; Espacialidade; Áreas verdes urbanas.. Spatial distribution of urban green areas in Curitiba/PR: a discussion on location, land value and population income Abstract. In a scenario where urban green areas perform important social functions, the question the main question concerns the necessary quantity and size of these spaces and their faccilitated – or not - access to them for the entire population. In this way, the article seeks to analyze the spatial distribution of urban green areas in Curitiba, comparing with the price of land, to understand whether residents of all economic classes have equal access to them. For this, the research used bibliographical research and qualitative analysis, based on location maps of urban parks in Curitiba and also on a m² price map. The results showed that the highest concentration of urban green areas is in the northern region of the city, in addition, it is the location where these areas have the best structure. When related to land value, it appears that this is the region with one of the most expensive square meters. It was concluded that, based on the factors listed for this research, there is a relationship between the location of urban green areas and the price of land, demonstrating that the possibility of access is facilitated for residents of higher economic classes. Keywords: Parks; Curitiba/PR; Spatiality; Urban green areas. Distribución espacial de las áreas verdes urbanas en Curitiba/PR: una discusión sobre ubicación, valor de la tierra y ingreso de la población Resumen. En un escenario donde las áreas verdes urbanas cumplen importantes funciones sociales, surge la pregunta de si, debido a la gran cantidad de estos espacios, el acceso a las áreas verdes urbanas es posible para toda la población. De esta forma, el artículo busca analizar la distribución espacial de las áreas verdes urbanas en Curitiba, comparándolas con el precio del suelo, para comprender si los residentes de todas las clases económicas tienen igual acceso a ellas. Para ello, la investigación utilizó pesquisa bibliográfica y análisis cualitativo, a partir de mapas de ubicación de parques urbanos de Curitiba y también de un mapa de precios del m². Los resultados mostraron que la mayor concentración de áreas verdes urbanas se encuentra en la región norte de la ciudad, además, es el lugar donde estas áreas tienen mejor estructura. Cuando se relaciona con el valor de la tierra, parece que esta es la región con uno de los metros cuadrados más caros. Se concluyó que, con base en los factores enumerados para esta investigación, existe una relación entre la ubicación de las áreas verdes urbanas y el precio del suelo, demostrando que se facilita la posibilidad de acceso a los residentes de clases económicas más altas. Palabras clave: Parques; Curitiba/PR; Espacialidad; Zonas verdes urbanas. XX ENANPUR 2023 – BELÉM 23 A 26 DE MAIO 1. Introdução Frente a um contexto mundial em que as discussões sobre os espaços urbanos são cada vez mais indissociáveis daquelas relacionadas às grandes mudanças climáticas e ambientais, é necessária a investigação dos fenômenos urbanos a partir de uma lente que busque compreender não apenas a relação entre sociedade e natureza, mas também os processos que atuam na articulação entre os diferentes agentes constituintes das cidades contemporâneas. Bai et al (2018), ao sintetizar em seis pontos as novas formas de se compreender a cidade frente a tais mudanças, ou, ao contrário, como pensar novas formas de a cidade contribuir para o enfrentamento dessas mesmas mudanças, reitera esse entendimento de uma necessária visão múltipla dos fenómenos que ora estudamos. O paradigma das cidades sustentáveis evidenciou, nas últimas décadas, a estreita relação entre sociedade e natureza e, consequentemente, entre espaço urbano e espaço natural. A noção de que as áreas verdes urbanas desempenham apenas um papel de mitigação dos ônus ambientais deixados pelo intenso processo de urbanização pós-industrialização se expandiu. Ademais, pode- se constatar, na produção científica acerca do espaço urbano e das relações sociais, que a função social delas é importância precípua para a população urbana contemporânea em diversos âmbitos, como lazer, convívio, descanso e espiritualidade. No cenário brasileiro, ao se falar de áreas verdes urbanas, tem destaque o Município de Curitiba, com população estimada em 1.963.726 pessoas no ano de 2021 e área territorial de 435 mil km² (IBGE, 2021). Conhecida, mas recorrentemente questionada, como a “Capital Ecológica”, a cidade possui atualmente cobertura florestal de 51,5 m² de área verde por habitante, que em valores absolutos representa, atualmente 17,97% da superfície do município recoberta por vegetação de porte arbóreo (CURITIBA, 2007). Se, por um lado, é constatado o benefício das áreas verdes urbanas em termos quantitativos em Curitiba; por outro, vale a pergunta sobre se nos seus contextos intraurbanos, revelam proximidades a terras de custo mais elevado, privilegiando potencialmente um recorte específico da população. Para responder a essas perguntas, analisa-se a distribuição dos espaços verdes na auto-intitulada Capital Ecológica, tendo como parâmetro o preço da terra e a renda média anual. Para tal, foi necessário: a) definir o que são áreas verdes urbanas; b) compreender o contexto de Curitiba enquanto Capital Ecológica; c) buscar e sistematizar dados de localização das áreas verdes urbanas de Curitiba; d) comparar a localização das áreas verdes urbanas com o preço do m² da terra e com a renda anual média da população nas regiões em que se inserem. 2. Áreas verdes urbanas: das funções ao paradigma da sustentabilidade A definição de áreas verdes urbanas pode se dar por suas características e também por suas funções. Na primeira abordagem, Lima et al. (1994) esclarecem que área verde é aquela em que há o predomínio de árvores, como as praças, jardins públicos, parques e canteiros centrais. Para os autores, as áreas verdes dividem-se em: parque urbano, praça e arborização urbana. Considerando as suas funções, diferentes são as abordagens encontradas na literatura. Para Mazzei el al. (2007), as áreas verdes precisam ter estrutura e equipamentos básicos para que sirvam para o lazer de diferentes faixas etárias, e devem estar a pequenas distâncias das moradias, para que a população possa ir até elas a pé. Jesus e Braga (2005) expandem as funções das áreas verdes urbanas. Para os autores, além de resgatar a relação entre o espaço urbano e a natureza, elas atuam sobre a função social-lazer,ecológica, estética-integração e econômica. Enquanto função social de lazer, as áreas verdes urbanas promovem essa função urbana para diferentes faixas etárias, além de permitir a realização de atividades de educação ambiental. No que diz respeito à função ecológica, suas principais contribuições estão na estabilização do solo, XX ENANPUR 2023 – BELÉM 23 A 26 DE MAIO mitigação de efeitos da erosão, promoção de sombra e manutenção da temperatura, influência nos microclimas e absorção de dióxido de carbono. Já à função estética-integração, relaciona-se com a diversificação da paisagem e a conservação de tipologias. Por fim, na função econômica, estão abarcadas as atividades turísticas, de produção agrária e silvicultura (JESUS E BRAGA, 2005). Se, para Jesus e Braga (2005) são quatro as funções principais das áreas verdes urbanas, para Guzzo (1999), além das mesmas, destacam-se também as funções educativas e psicológicas da manutenção destes espaços. Para o autor, os benefícios gerados pelas áreas verdes estão intimamente ligados com a qualidade de vida que pode ser proporcionada para a população através do contato com a natureza, proporcionado por estes espaços localizados dentro das cidades. Ao se compreender que as funções das áreas verdes urbanas ultrapassam aquelas investigadas e defendidas nas ciências naturais e que se relacionam intimamente com o bem estar social e a qualidade de vida da população, Panasolo, Peters e Nunes (2022) destacam, no cenário Brasileiro, a necessidade da atuação conjunta de diversos atores, chamando atenção ao fato de que o direito ao meio ambiente ecológicamente equilibrado (neste incluído aspecto urbano) é direito fundamental da pessoa humana, e a busca por cidades mais sustentáveis e inclusivas passa necessáriamente pela manutenção das áreas verdes urbanas, a serem preservadas e usufruídas pelas presentes e futuras gerações (PANASOLO, PETERS E NUNES, p. 289, 2022) Se de um lado existe o comprovado benefício social da manutenção das áreas verdes urbanas, por outro, há o questionamento sobre acesso e condições de uso distintos para cada um dos perfis socioeconômicos e locacionais da população. O panorama no qual este questionamento se encontra, é o de um mundo onde a sustentabilidade, segundo Limonad (2013), surge como um sinônimo da ideia de mundo melhor, colocando-se a frente das discussões globais e sendo adotada na adjetivação de propostas, práticas e tentativas de legitimação e reforço positivo em diversas escalas. Na escala urbana, o paradigma das cidades sustentáveis permeia os discursos do desenvolvimento e vem ocupando um lugar cada vez mais central nos debates da urbanização e sua relação com o meio ambiente. Neste sentido, Neto (2020) explora o conceito de Ecotopia Urbana, que consiste no fundamento referencial de espaços como as áreas verdes urbanas, que corroboram consciente ou inconscientemente para concretização de ideais utópicos, cujas raízes são essencialmente ecológicas ou ambientalistas. Segundo o autor, é inegável a importância das áreas verdes na promoção do convívio social, da espiritualidade, e de demais funções necessárias para o cenário contemporâneo, contudo, questiona como evitar que estes pressupostos se esvaziem, uma vez que, o processo de planejamento urbano acabou incorporando elementos do City Marketing que, por muitas vezes, utiliza-se do próprio paradigma da sustentabilidade para a construção de imagens de cidades sustentáveis ou ecológicas. Na investigação entre a imagem de cidades consideradas sustentáveis ou ecológicas e o real acesso da população às áreas verdes urbanas e aos benefícios delas, Curitiba se apresenta como um rico laboratório investigativo. O item a seguir trata deste tema. 3. Curitiba, a capital ecológica: do planejamento à sua materialização Curitiba oficializou as relações entre sociedade e natureza, com um modelo de planejamento urbano como instrumento contínuo e efetivo de gestão desde a década de 40, através do Plano Diretor de Urbanismo - o Plano Agache, de 1943, que foi o primeiro esforço, por parte do poder público, de utilizar o planejamento urbano como instrumento disciplinador da ocupação do solo XX ENANPUR 2023 – BELÉM 23 A 26 DE MAIO (Curitiba, 2007). Já nessa época, o município iniciava sua lógica de preço do solo e oferta centralizada de infraestrutura. Os interstícios entre as quatro avenidas perimetrais demarcariam quatro grandes zonas, com uma diminuição progressiva no valor dos impostos cobrados e no tamanho dos edifícios permitidos, como se a área urbana de Curitiba se dissolvesse num degradê progressivo que se extinguiria [...] (DUDEQUE, 2010, p. 48). Na década de 1960, com o agravamento dos problemas urbanos, constatando-se o aparecimento de loteamentos e ocupações irregulares e inadequações no sistema viário, torna-se evidente a necessidade de um novo plano. Em 1966, com o novo Plano Diretor, Curitiba teve o seu crescimento direcionado segundo parâmetros que integravam a tríplice: uso do solo, transporte coletivo e sistema viário (que visava a mudança da conformação radial do crescimento da cidade para um sistema linear). Em relação aos cuidados com as áreas verdes, o plano previa a distribuição de equipamentos de recreação por toda a cidade e implantação de parques ao longo dos cursos d’água mais significativos, protegendo o sistema natural de drenagem, minimizando o problema das enchentes e protegendo fundos de vale (CURITIBA, 2007). Este intuito era, pois, o objetivo principal da criação dos parques num primeiro momento: o de resolver o risco em áreas inundáveis, retirando-as de qualquer tentativa, formal ou informal, de ocupação. Confirmam esse objetivo, a criação dos primeiros grandes parques curitibanos: Barigui, São Lourenço e Barreirinha, em 1972, e Iguaçu, em 1978 (SMMA, 2008). Tal propósito deve, portanto, ser considerado nas considerações aqui feitas sobre localização versus acesso democrático e renda da população. A Lei de Zoneamento e Uso do Solo, de 1975 estabelece duas grandes tipologias de ocupação: os locais onde esperava-se um processo de ocupação lento e contínuo, chamou-se de Zonas Urbanas e para elas foram especificados parâmetros a serem obedecidos. Nos Setores Especiais pretendia-se uma ocupação rápida e neles induziu-se o adensamento. Já aqueles onde as condições de uso, meio ambiente ou topográficas requeriam cuidados especiais, foram regulamentados por decretos do Executivo, mediante proposta técnica do órgão de planejamento municipal, IPPUC. Essa mesma lei acumulou ajustes e, em 2000, contou com uma revisão mais determinante. Proposta para viabilizar uma ocupação territorial tida como ambientalmente responsável, foi alvo de ampla discussão pela literatura produzida acerca do planejamento curitibano. Em 2004, com necessidade de adequação do Plano Diretor em vigor às novas diretrizes nacionais, especialmente após aprovação do Estatuto das Cidades, foram determinados prazos para aprovação de planos setoriais, entre eles o de Meio Ambiente. Embora tenha um um arcabouço legislativo que objetivou um modelo de uso e ocupação do solo adequado a toda a população, Curitiba apresentou um modelo de urbanização típico das grandes metrópoles nacionais, com destaque para a precarização e periferização da moradia das classes de menor renda que, após intenso crescimento da metrópole, foram absorvidas pela capital e sua região metropolitana, em extensas áreas periféricas impróprias para a urbanização (CURITIBA, 2007). De fato, entre o desejado ou prometido pelo planejamento e pela legislação municipal, e para aquilo que interessa neste artigo mais diretamente, a criação de parques subsequentes seguiu uma lógica de mercado, de sobras de recursos e de acomodações territoriais. O processo de parcelamento por agentes privados, por exemplo, segue segundo diretriz federal, atendendo ao mínimo por ela imposto. Com isso, a literatura científica é recorrenteem atestar uma clara distinção entre uma imagem homogeneizadora da cidade e outras, determinadas por vivências pontuais ou de grandes compartimentos periféricos. Tal qual em outras metrópoles brasileiras, as periferias de Curitiba tornaram-se carentes de serviços básicos essenciais, elevando os custos sociais da urbanização, além de tornar mais complexo o modelo de gestão pública. No âmbito mundial, XX ENANPUR 2023 – BELÉM 23 A 26 DE MAIO juntamente com outros fatores, esse modelo de crescimento resultou, no início do século XXI, em uma crise urbana ambiental, que ganhou foco nas discussões científicas e que, segundo Acselrad (2001), é consequência do modo obsoleto e irracional da ocupação do espaço urbano agregada à acumulação de riquezas e benefícios sociais desiguais, uma vez que diferentes atores sociais estão expostos a riscos distintos, com desigualdade na distribuição de saneamento básico e solo. Nesse contexto, quanto mais periférica é a localização, mais precários são os recursos e maiores os riscos. Para se avançar nesta discussão, o presente artigo se vale de abordagem qualitativa, inicialmente, a partir de pesquisa bibliográfica para a construção da fundamentação acerca das áreas verdes urbanas e para a caracterização do Município de Curitiba, caso proposto para a investigação. Posteriormente, as abordagens metodológicas adotadas foram quantitativas, por meio da sobreposição dos dados sobre áreas verdes de lazer, sua distribuição espacial e relação com dados de renda e preço da terra. Cabe salientar que os dados mais atuais disponibilizados pelo Município de Curitiba para sua Planta de valores genéricos são de 2017, portanto foi estabelecido essa data como recorte temporal para a pesquisa. 4. Resultados e análises Seguindo uma lógica de descentralização, Curitiba adotou um modelo de administração pública por meio de regionais destinadas à operacionalização, integração e controle de atividades. Os 75 bairros da capital estão distribuídos em 10 regionais de administração onde, segundo a Prefeitura Municipal (PMC), estão contidas 46 áreas verdes de lazer inauguradas antes de 2017. Esse conceito de cidade respeitaria o interesse de se bem distribuir seus serviços, considerando centralidades e visando acesso facilitado à infraestrutura, reduzindo deslocamentos passivos e poucos sustentáveis, conforme atestam, dentre tantos, Carlos (2001), Leite (2012) e Andrade e Linke (2017). As áreas públicas municipais dividem-se em 15 bosques, 29 parques, incluindo parques lineares, um Jardim Zoológico e um Jardim Botânico (Figura 1). XX ENANPUR 2023 – BELÉM 23 A 26 DE MAIO Figura 1. Mapa das áreas verdes de lazer em Curitiba (fonte: IPPUC, 2021) A espacialização desses equipamentos demonstra uma concentração maior na porção norte da cidade com 23 espaços (50% do total) distribuídos em apenas três regionais (Santa Felicidade, Matriz e Boa Vista), que juntas concentram 643.755 habitantes (40% da população total de Curitiba, segundo dados do IBGE de 2010), com destaque para a Regional do Boa Vista, que possui 15 equipamentos. Quadro 1. distribuição das áreas verdes e de lazer por regionais de administração de Curitiba (fonte: elaborado pelos autores com dados de IPPUC, 2021). REGIONAL NÚMERO DE EQUIPAMENTOS ÁREA VERDE (1000 m²) POPULAÇÃO (Nº DE HABITANTES) m² DE ÁREA VERDE / HABITANTE Bairro Novo 2 154 163651 0,94 Boa Vista 15 1.818 268556 6,76 Boqueirão 3 2.967 205248 14,45 Cajuru 4 625 232563 2,69 XX ENANPUR 2023 – BELÉM 23 A 26 DE MAIO CIC 9 945 200271 4,72 Fazendinha/ Portão 4 304851 184437 1,652873339 Matriz 5 418635 208674 2,006167515 Pinheirinho 0 0 151202 0 Santa Felicidade 3 1518186 166525 9,116865336 Tatuquara 1 238105 112873 2,109494742 Total 46 8.990.756 1.894.000 4,74 A Regional do Pinheirinho (no sul do município), embora possua 151.202 habitantes, não possui nenhuma área verde municipal de lazer. A Regional do Boqueirão (igualmente no sul do município) possui um total de área verde de 2.967.000m², o maior valor dentre todas, mas que está distribuída em apenas três equipamentos, sendo que dois deles são o Setor Náutico do Parque Iguaçu, com 2.300.000m² e o Zoológico Municipal com 589.000m². Ambos fazem parte do mesmo complexo na margem do Rio Iguaçu, mas possuem parte importante de sua área contida dentro de Área de Preservação Permanente (APP), que possui restrição para o uso pela população, ou seja, ainda que extensas, estas áreas cumprem mais uma função ecológica/ambiental do que recreativa. Esses dados colocam a Regional do Boqueirão como o local onde há maior oferta de área verde bruta por habitante (14,46m²/ hab), seguida pela Regional de Santa Felicidade com 9,12m²/ hab, e finalmente a Regional Boa Vista com 6,77m²/ hab. Em situação oposta estão as regionais do Portão, com 1,65m²/ hab, Bairro Novo, com 0,94m²/ hab e, finalmente, a Regional do Pinheirinho que não possui nenhum equipamento dessa tipologia. Considerando a oferta desses espaços por classe renda, a Figura 2 demonstra que nas regionais da porção norte (Santa Felicidade, Matriz e Boa Vista), onde está concentrada a metade do total de áreas verdes de lazer de Curitiba, a renda anual média da população é superior ao restante do município. Outro destaque no mapa é para a Regional do Boqueirão, que também apresenta valores superiores ao restante. Considerou-se o rendimento familiar anual um indicador relevante, na medida em que auxilia na medição da capacidade de compra e aluguel de imóveis próximos à infraestrutura, ou, no caso de estarem distantes, na maior facilidade para custear os deslocamentos até ela. A porção sul do município, especialmente as Regionais Bairro Novo e Tatuquara, possuem juntas 276.524 habitantes (14,6% do total de Curitiba) e apenas 3 espaços verdes de lazer (6,5% do total). No entanto, o destaque principal está no fato de que nessa região concentra-se a população de mais baixa renda da capital, que por consequência possui mais carência por equipamentos públicos e mais dificuldade de deslocamento para ter acesso a eles. XX ENANPUR 2023 – BELÉM 23 A 26 DE MAIO Figura 2. Renda média anual em Curitiba (fonte: PEDROZO, 2019) Uma das consequências da distribuição espacial concentrada das benesses urbanas é a valorização do solo nessas áreas, tornando-as centrais (não necessariamente no sentido geográfico, mas de polo de uma região) e contribuindo para o crescimento das periferias sem infraestrutura, com um custo mais baixo de terra, habitada por pessoas menos especializadas e de mais baixa renda. Na Figura 3 é possível perceber a espacialização do preço da terra em Curitiba, a partir de sua planta de valores genéricos. O mapa foi elaborado por Pedrozo (2019), a partir do banco de dados dos valores utilizado para cobrança do IPTU em 2016, e “demonstra as diferenças de valor que resultam, entre outras variáveis, da relação entre o histórico de investimentos públicos, o potencial construtivo permitido em lei e a demanda (a quantidade e capacidade econômica de quem pretende comprar um imóvel), (PEDROZO, 2019, p. 74)”. XX ENANPUR 2023 – BELÉM 23 A 26 DE MAIO Figura 3. Planta genérica de valores em Curitiba em 2016 (fonte: PEDROZO, 2019) A população periférica usualmente habita regiões ambientalmente mais frágeis, que têm pouco valor para o mercado imobiliário e que têm maior tendência a se tornarem alvo das externalidades ambientais (consequências negativas), e que são denominadas “zonas de sacrifício” por Acselrad, Mello e Bezerra (2009). Os autores defendem ainda que os danos ambientais estão reservados para quem está longe do poder, uma vez que a lógica da desigualdade está presente nas políticas econômicas e nos governos. Acselrad (2010) defende o conceito de que as cidades usam o meio ambiente para promover um “urbanismo de resultados”, ideia que pode ser comparada ao valor de uso de solo atribuído àsáreas verdes em Curitiba, que fomentam as estratégias de competição e acumulação de capital. XX ENANPUR 2023 – BELÉM 23 A 26 DE MAIO 5. Conclusões O artigo buscou identificar a relação entre a distribuição espacial das áreas verdes urbanas de Curitiba com o valor da terra e a renda média da população, buscando compreender se o acesso a estes espaços é possibilitado de maneira igualitária a todos os moradores. Delimitou-se o seguinte problema de pesquisa: as áreas verdes urbanas de Curitiba atendem à toda a população, ou estes espaços estão relacionados à espacialização do preço da terra? Para respondê-lo, a primeira abordagem metodológica utilizada foi a pesquisa bibliográfica, que evidenciou que as áreas verdes urbanas possuem um importante papel social, impactando diretamente a vida da população em questões como lazer, descanso, espiritualidade e socialização. Por outro lado, o paradigma da sustentabilidade e a incorporação de elementos do city marketing pelas cidades, pode levar à um esvaziamento dos fundamentos que permeiam as áreas verdes urbanas, principalmente em seus aspectos sociais. Ao se comparar a distribuição das áreas verdes urbanas de Curitiba, da renda média anual da população e do preço médio do m², possibilitando relacionar as três variáveis de análise, foi possível constatar que: onde a renda média anual da população é maior que o restante do município, concentra metade de todos os equipamentos classificados como áreas verdes de lazer, na contramão da situação ideal que seria ofertar uma quantidade maior de espaços como esses próximos à população mais carente. Como agravante, os equipamentos mais bem estruturados e com maior oferta de serviços para a população também se concentram nas três regiões mais privilegiadas. Entende-se que o modelo atual de produção da cidade dificulta, e até inviabiliza, o acesso à infraestrutura para as classes de renda mais baixa. Como agravante, a oferta de equipamentos públicos nem sempre ocorre de forma democrática, uma vez que se concentra em polos já estruturados, com custo mais alto da terra, média elevada de renda e demoram a chegar nas periferias precárias. Entender as especificidades de Curitiba, certificando-se sobre aquilo que resulta de políticas estriatamente locais e sobre aquilo que resulta de um grande contexto da cidade brasileira ou neo-liberal deve fazer parte da continuidade do presente estudo. Nessa conjuntura, notando que Curitiba possui um arcabouço legal que, desde a década de 1960, defende a distribuição mais igualitária desses espaços, percebe-se que a materialização desses planos apenas aprofundou um modelo desigual de ocupação urbana. Por fim, à luz desse contexto, uma vez que o acesso aos espaços urbanos de qualidade é fundamental para reduzir as desigualdades, entende-se necessário e primordial uma distribuição espacial mais igualitária das áreas verdes de lazer, para contribuir com o acesso à terra urbanizada para a população de baixa renda e, principalmente, para fazer justiça ao título de capital ecológica. 6. Referências ACSELRAD, Henri. Duração das cidades: sustentabilidade e risco nas políticas urbanas. Rio de Janeiro: Ed. DP&A, 2001. ACSELRAD, Henri. Mapeamentos, identidades e territórios. In: Cartografia social e dinâmicas territoriais: marcos para o debate. Rio de Janeiro: IPPUR/UFRJ, 2010. ACSELRAD, Henri; MELLO, Cecília Campelo Amaral; BEZERRA, Gustavo Neves. O que é injustiça ambiental. Rio de Janeiro: Garamon, 2009. p. 7-133 ALBUQUERQUE, A. F. A questão habitacional em Curitiba e o enigma da cidade modelo. 227f. 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