Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

Áreas verdes urbanas em Curitiba/PR: discussão sobre localização, 
valor da terra e renda da população 
 
Sessão Temática 4: Convergências entre Urbanização e natureza 
Resumo. Em um cenário em que as áreas verdes urbanas desempenham importantes funções sociais, surge o 
questionamento se a quantidade destes espaços e o acesso à estas áreas verdes urbanas é possível para toda a 
população. Este artigo analisa a distribuição espacial das áreas verdes urbanas de Curitiba, comparando com o preço 
da terra e com a renda, para compreender se moradores de todas as classes econômicas têm igual acesso às 
mesmas. Para isso, a pesquisa se vale de pesquisa bibliográfica e análise qualitativa, a partir dos mapas de 
localização de parques urbanos de Curitiba e também de mapa do preço do m². Os resultados apontaram que a maior 
concentração de áreas verdes urbanas está na região norte da cidade, cujos compartimentos contam com melhor 
infraestrutura. Ao relacionar tal distribuição com o valor da terra, constata-se que esta é a região com um dos metros 
quadrados mais caros. Concluiu-se que, com base nos fatores elencados para esta pesquisa, de que há uma relação 
entre a localização das áreas verdes urbanas e o preço da terra, demonstrando que a possibilidade de acesso é 
facilitada aos moradores de classes econômicas mais elevadas. 
Palavras-chave. Parques; Curitiba/PR; Espacialidade; Áreas verdes urbanas.. 
Spatial distribution of urban green areas in Curitiba/PR: a discussion on location, land value 
and population income 
Abstract. In a scenario where urban green areas perform important social functions, the question the main question 
concerns the necessary quantity and size of these spaces and their faccilitated – or not - access to them for the entire 
population. In this way, the article seeks to analyze the spatial distribution of urban green areas in Curitiba, comparing 
with the price of land, to understand whether residents of all economic classes have equal access to them. For this, 
the research used bibliographical research and qualitative analysis, based on location maps of urban parks in Curitiba 
and also on a m² price map. The results showed that the highest concentration of urban green areas is in the northern 
region of the city, in addition, it is the location where these areas have the best structure. When related to land value, 
it appears that this is the region with one of the most expensive square meters. It was concluded that, based on the 
factors listed for this research, there is a relationship between the location of urban green areas and the price of land, 
demonstrating that the possibility of access is facilitated for residents of higher economic classes. 
Keywords: Parks; Curitiba/PR; Spatiality; Urban green areas. 
Distribución espacial de las áreas verdes urbanas en Curitiba/PR: una discusión sobre 
ubicación, valor de la tierra y ingreso de la población 
Resumen. En un escenario donde las áreas verdes urbanas cumplen importantes funciones sociales, surge la 
pregunta de si, debido a la gran cantidad de estos espacios, el acceso a las áreas verdes urbanas es posible para 
toda la población. De esta forma, el artículo busca analizar la distribución espacial de las áreas verdes urbanas en 
Curitiba, comparándolas con el precio del suelo, para comprender si los residentes de todas las clases económicas 
tienen igual acceso a ellas. Para ello, la investigación utilizó pesquisa bibliográfica y análisis cualitativo, a partir de 
mapas de ubicación de parques urbanos de Curitiba y también de un mapa de precios del m². Los resultados 
mostraron que la mayor concentración de áreas verdes urbanas se encuentra en la región norte de la ciudad, además, 
es el lugar donde estas áreas tienen mejor estructura. Cuando se relaciona con el valor de la tierra, parece que esta 
es la región con uno de los metros cuadrados más caros. Se concluyó que, con base en los factores enumerados 
para esta investigación, existe una relación entre la ubicación de las áreas verdes urbanas y el precio del suelo, 
demostrando que se facilita la posibilidad de acceso a los residentes de clases económicas más altas. 
Palabras clave: Parques; Curitiba/PR; Espacialidad; Zonas verdes urbanas. 
XX ENANPUR 2023 – BELÉM 23 A 26 DE MAIO 
1. Introdução 
Frente a um contexto mundial em que as discussões sobre os espaços urbanos são cada vez mais 
indissociáveis daquelas relacionadas às grandes mudanças climáticas e ambientais, é necessária 
a investigação dos fenômenos urbanos a partir de uma lente que busque compreender não apenas 
a relação entre sociedade e natureza, mas também os processos que atuam na articulação entre 
os diferentes agentes constituintes das cidades contemporâneas. Bai et al (2018), ao sintetizar em 
seis pontos as novas formas de se compreender a cidade frente a tais mudanças, ou, ao contrário, 
como pensar novas formas de a cidade contribuir para o enfrentamento dessas mesmas 
mudanças, reitera esse entendimento de uma necessária visão múltipla dos fenómenos que ora 
estudamos. 
O paradigma das cidades sustentáveis evidenciou, nas últimas décadas, a estreita relação entre 
sociedade e natureza e, consequentemente, entre espaço urbano e espaço natural. A noção de 
que as áreas verdes urbanas desempenham apenas um papel de mitigação dos ônus ambientais 
deixados pelo intenso processo de urbanização pós-industrialização se expandiu. Ademais, pode-
se constatar, na produção científica acerca do espaço urbano e das relações sociais, que a função 
social delas é importância precípua para a população urbana contemporânea em diversos âmbitos, 
como lazer, convívio, descanso e espiritualidade. 
No cenário brasileiro, ao se falar de áreas verdes urbanas, tem destaque o Município de Curitiba, 
com população estimada em 1.963.726 pessoas no ano de 2021 e área territorial de 435 mil km² 
(IBGE, 2021). Conhecida, mas recorrentemente questionada, como a “Capital Ecológica”, a cidade 
possui atualmente cobertura florestal de 51,5 m² de área verde por habitante, que em valores 
absolutos representa, atualmente 17,97% da superfície do município recoberta por vegetação de 
porte arbóreo (CURITIBA, 2007). 
Se, por um lado, é constatado o benefício das áreas verdes urbanas em termos quantitativos em 
Curitiba; por outro, vale a pergunta sobre se nos seus contextos intraurbanos, revelam 
proximidades a terras de custo mais elevado, privilegiando potencialmente um recorte específico 
da população. 
Para responder a essas perguntas, analisa-se a distribuição dos espaços verdes na auto-intitulada 
Capital Ecológica, tendo como parâmetro o preço da terra e a renda média anual. Para tal, foi 
necessário: a) definir o que são áreas verdes urbanas; b) compreender o contexto de Curitiba 
enquanto Capital Ecológica; c) buscar e sistematizar dados de localização das áreas verdes 
urbanas de Curitiba; d) comparar a localização das áreas verdes urbanas com o preço do m² da 
terra e com a renda anual média da população nas regiões em que se inserem. 
2. Áreas verdes urbanas: das funções ao paradigma da sustentabilidade 
A definição de áreas verdes urbanas pode se dar por suas características e também por suas 
funções. Na primeira abordagem, Lima et al. (1994) esclarecem que área verde é aquela em que 
há o predomínio de árvores, como as praças, jardins públicos, parques e canteiros centrais. Para 
os autores, as áreas verdes dividem-se em: parque urbano, praça e arborização urbana. 
Considerando as suas funções, diferentes são as abordagens encontradas na literatura. Para 
Mazzei el al. (2007), as áreas verdes precisam ter estrutura e equipamentos básicos para que 
sirvam para o lazer de diferentes faixas etárias, e devem estar a pequenas distâncias das 
moradias, para que a população possa ir até elas a pé. 
Jesus e Braga (2005) expandem as funções das áreas verdes urbanas. Para os autores, além de 
resgatar a relação entre o espaço urbano e a natureza, elas atuam sobre a função social-lazer,ecológica, estética-integração e econômica. 
Enquanto função social de lazer, as áreas verdes urbanas promovem essa função urbana para 
diferentes faixas etárias, além de permitir a realização de atividades de educação ambiental. No 
que diz respeito à função ecológica, suas principais contribuições estão na estabilização do solo, 
XX ENANPUR 2023 – BELÉM 23 A 26 DE MAIO 
mitigação de efeitos da erosão, promoção de sombra e manutenção da temperatura, influência 
nos microclimas e absorção de dióxido de carbono. Já à função estética-integração, relaciona-se 
com a diversificação da paisagem e a conservação de tipologias. Por fim, na função econômica, 
estão abarcadas as atividades turísticas, de produção agrária e silvicultura (JESUS E BRAGA, 
2005). 
Se, para Jesus e Braga (2005) são quatro as funções principais das áreas verdes urbanas, para 
Guzzo (1999), além das mesmas, destacam-se também as funções educativas e psicológicas da 
manutenção destes espaços. Para o autor, os benefícios gerados pelas áreas verdes estão 
intimamente ligados com a qualidade de vida que pode ser proporcionada para a população 
através do contato com a natureza, proporcionado por estes espaços localizados dentro das 
cidades. 
Ao se compreender que as funções das áreas verdes urbanas ultrapassam aquelas investigadas 
e defendidas nas ciências naturais e que se relacionam intimamente com o bem estar social e a 
qualidade de vida da população, Panasolo, Peters e Nunes (2022) destacam, no cenário Brasileiro, 
a necessidade da atuação conjunta de diversos atores, chamando atenção ao fato de que 
 
o direito ao meio ambiente ecológicamente equilibrado (neste incluído aspecto urbano) 
é direito fundamental da pessoa humana, e a busca por cidades mais sustentáveis e 
inclusivas passa necessáriamente pela manutenção das áreas verdes urbanas, a 
serem preservadas e usufruídas pelas presentes e futuras gerações (PANASOLO, 
PETERS E NUNES, p. 289, 2022) 
 
Se de um lado existe o comprovado benefício social da manutenção das áreas verdes urbanas, 
por outro, há o questionamento sobre acesso e condições de uso distintos para cada um dos perfis 
socioeconômicos e locacionais da população. O panorama no qual este questionamento se 
encontra, é o de um mundo onde a sustentabilidade, segundo Limonad (2013), surge como um 
sinônimo da ideia de mundo melhor, colocando-se a frente das discussões globais e sendo 
adotada na adjetivação de propostas, práticas e tentativas de legitimação e reforço positivo em 
diversas escalas. 
Na escala urbana, o paradigma das cidades sustentáveis permeia os discursos do 
desenvolvimento e vem ocupando um lugar cada vez mais central nos debates da urbanização e 
sua relação com o meio ambiente. Neste sentido, Neto (2020) explora o conceito de Ecotopia 
Urbana, que consiste no fundamento referencial de espaços como as áreas verdes urbanas, que 
corroboram consciente ou inconscientemente para concretização de ideais utópicos, cujas raízes 
são essencialmente ecológicas ou ambientalistas. 
Segundo o autor, é inegável a importância das áreas verdes na promoção do convívio social, da 
espiritualidade, e de demais funções necessárias para o cenário contemporâneo, contudo, 
questiona como evitar que estes pressupostos se esvaziem, uma vez que, o processo de 
planejamento urbano acabou incorporando elementos do City Marketing que, por muitas vezes, 
utiliza-se do próprio paradigma da sustentabilidade para a construção de imagens de cidades 
sustentáveis ou ecológicas. Na investigação entre a imagem de cidades consideradas 
sustentáveis ou ecológicas e o real acesso da população às áreas verdes urbanas e aos benefícios 
delas, Curitiba se apresenta como um rico laboratório investigativo. O item a seguir trata deste 
tema. 
3. Curitiba, a capital ecológica: do planejamento à sua materialização 
Curitiba oficializou as relações entre sociedade e natureza, com um modelo de planejamento 
urbano como instrumento contínuo e efetivo de gestão desde a década de 40, através do Plano 
Diretor de Urbanismo - o Plano Agache, de 1943, que foi o primeiro esforço, por parte do poder 
público, de utilizar o planejamento urbano como instrumento disciplinador da ocupação do solo 
XX ENANPUR 2023 – BELÉM 23 A 26 DE MAIO 
(Curitiba, 2007). Já nessa época, o município iniciava sua lógica de preço do solo e oferta 
centralizada de infraestrutura. 
 
Os interstícios entre as quatro avenidas perimetrais demarcariam quatro grandes 
zonas, com uma diminuição progressiva no valor dos impostos cobrados e no tamanho 
dos edifícios permitidos, como se a área urbana de Curitiba se dissolvesse num 
degradê progressivo que se extinguiria [...] (DUDEQUE, 2010, p. 48). 
 
Na década de 1960, com o agravamento dos problemas urbanos, constatando-se o aparecimento 
de loteamentos e ocupações irregulares e inadequações no sistema viário, torna-se evidente a 
necessidade de um novo plano. Em 1966, com o novo Plano Diretor, Curitiba teve o seu 
crescimento direcionado segundo parâmetros que integravam a tríplice: uso do solo, transporte 
coletivo e sistema viário (que visava a mudança da conformação radial do crescimento da cidade 
para um sistema linear). Em relação aos cuidados com as áreas verdes, o plano previa a 
distribuição de equipamentos de recreação por toda a cidade e implantação de parques ao longo 
dos cursos d’água mais significativos, protegendo o sistema natural de drenagem, minimizando o 
problema das enchentes e protegendo fundos de vale (CURITIBA, 2007). Este intuito era, pois, o 
objetivo principal da criação dos parques num primeiro momento: o de resolver o risco em áreas 
inundáveis, retirando-as de qualquer tentativa, formal ou informal, de ocupação. Confirmam esse 
objetivo, a criação dos primeiros grandes parques curitibanos: Barigui, São Lourenço e Barreirinha, 
em 1972, e Iguaçu, em 1978 (SMMA, 2008). Tal propósito deve, portanto, ser considerado nas 
considerações aqui feitas sobre localização versus acesso democrático e renda da população. A 
Lei de Zoneamento e Uso do Solo, de 1975 estabelece duas grandes tipologias de ocupação: os 
locais onde esperava-se um processo de ocupação lento e contínuo, chamou-se de Zonas 
Urbanas e para elas foram especificados parâmetros a serem obedecidos. Nos Setores Especiais 
pretendia-se uma ocupação rápida e neles induziu-se o adensamento. Já aqueles onde as 
condições de uso, meio ambiente ou topográficas requeriam cuidados especiais, foram 
regulamentados por decretos do Executivo, mediante proposta técnica do órgão de planejamento 
municipal, IPPUC. Essa mesma lei acumulou ajustes e, em 2000, contou com uma revisão mais 
determinante. Proposta para viabilizar uma ocupação territorial tida como ambientalmente 
responsável, foi alvo de ampla discussão pela literatura produzida acerca do planejamento 
curitibano. 
Em 2004, com necessidade de adequação do Plano Diretor em vigor às novas diretrizes nacionais, 
especialmente após aprovação do Estatuto das Cidades, foram determinados prazos para 
aprovação de planos setoriais, entre eles o de Meio Ambiente. 
Embora tenha um um arcabouço legislativo que objetivou um modelo de uso e ocupação do solo 
adequado a toda a população, Curitiba apresentou um modelo de urbanização típico das grandes 
metrópoles nacionais, com destaque para a precarização e periferização da moradia das classes 
de menor renda que, após intenso crescimento da metrópole, foram absorvidas pela capital e sua 
região metropolitana, em extensas áreas periféricas impróprias para a urbanização (CURITIBA, 
2007). 
De fato, entre o desejado ou prometido pelo planejamento e pela legislação municipal, e para 
aquilo que interessa neste artigo mais diretamente, a criação de parques subsequentes seguiu 
uma lógica de mercado, de sobras de recursos e de acomodações territoriais. O processo de 
parcelamento por agentes privados, por exemplo, segue segundo diretriz federal, atendendo ao 
mínimo por ela imposto. Com isso, a literatura científica é recorrenteem atestar uma clara distinção 
entre uma imagem homogeneizadora da cidade e outras, determinadas por vivências pontuais ou 
de grandes compartimentos periféricos. Tal qual em outras metrópoles brasileiras, as periferias de 
Curitiba tornaram-se carentes de serviços básicos essenciais, elevando os custos sociais da 
urbanização, além de tornar mais complexo o modelo de gestão pública. No âmbito mundial, 
XX ENANPUR 2023 – BELÉM 23 A 26 DE MAIO 
juntamente com outros fatores, esse modelo de crescimento resultou, no início do século XXI, em 
uma crise urbana ambiental, que ganhou foco nas discussões científicas e que, segundo Acselrad 
(2001), é consequência do modo obsoleto e irracional da ocupação do espaço urbano agregada à 
acumulação de riquezas e benefícios sociais desiguais, uma vez que diferentes atores sociais 
estão expostos a riscos distintos, com desigualdade na distribuição de saneamento básico e solo. 
Nesse contexto, quanto mais periférica é a localização, mais precários são os recursos e maiores 
os riscos. 
Para se avançar nesta discussão, o presente artigo se vale de abordagem qualitativa, inicialmente, 
a partir de pesquisa bibliográfica para a construção da fundamentação acerca das áreas verdes 
urbanas e para a caracterização do Município de Curitiba, caso proposto para a investigação. 
Posteriormente, as abordagens metodológicas adotadas foram quantitativas, por meio da 
sobreposição dos dados sobre áreas verdes de lazer, sua distribuição espacial e relação com 
dados de renda e preço da terra. 
Cabe salientar que os dados mais atuais disponibilizados pelo Município de Curitiba para sua 
Planta de valores genéricos são de 2017, portanto foi estabelecido essa data como recorte 
temporal para a pesquisa. 
4. Resultados e análises 
Seguindo uma lógica de descentralização, Curitiba adotou um modelo de administração pública 
por meio de regionais destinadas à operacionalização, integração e controle de atividades. Os 75 
bairros da capital estão distribuídos em 10 regionais de administração onde, segundo a Prefeitura 
Municipal (PMC), estão contidas 46 áreas verdes de lazer inauguradas antes de 2017. Esse 
conceito de cidade respeitaria o interesse de se bem distribuir seus serviços, considerando 
centralidades e visando acesso facilitado à infraestrutura, reduzindo deslocamentos passivos e 
poucos sustentáveis, conforme atestam, dentre tantos, Carlos (2001), Leite (2012) e Andrade e 
Linke (2017). 
As áreas públicas municipais dividem-se em 15 bosques, 29 parques, incluindo parques lineares, 
um Jardim Zoológico e um Jardim Botânico (Figura 1). 
XX ENANPUR 2023 – BELÉM 23 A 26 DE MAIO 
 
 
Figura 1. Mapa das áreas verdes de lazer em Curitiba (fonte: IPPUC, 2021) 
 
A espacialização desses equipamentos demonstra uma concentração maior na porção norte da 
cidade com 23 espaços (50% do total) distribuídos em apenas três regionais (Santa Felicidade, 
Matriz e Boa Vista), que juntas concentram 643.755 habitantes (40% da população total de 
Curitiba, segundo dados do IBGE de 2010), com destaque para a Regional do Boa Vista, que 
possui 15 equipamentos. 
Quadro 1. distribuição das áreas verdes e de lazer por regionais de administração de Curitiba 
(fonte: elaborado pelos autores com dados de IPPUC, 2021). 
REGIONAL NÚMERO DE 
EQUIPAMENTOS 
ÁREA VERDE 
(1000 m²) 
POPULAÇÃO (Nº DE 
HABITANTES) 
m² DE ÁREA VERDE 
/ HABITANTE 
Bairro Novo 2 154 163651 0,94 
 
Boa Vista 15 1.818 268556 6,76 
 
Boqueirão 3 2.967 205248 14,45 
 
Cajuru 4 625 232563 2,69 
 
XX ENANPUR 2023 – BELÉM 23 A 26 DE MAIO 
CIC 9 945 200271 4,72 
 
Fazendinha/ 
Portão 4 304851 184437 1,652873339 
 
Matriz 5 418635 208674 2,006167515 
 
Pinheirinho 0 0 151202 0 
 
Santa Felicidade 3 1518186 166525 9,116865336 
 
Tatuquara 1 238105 112873 2,109494742 
 
Total 46 8.990.756 1.894.000 4,74 
 
 
A Regional do Pinheirinho (no sul do município), embora possua 151.202 habitantes, não possui 
nenhuma área verde municipal de lazer. 
A Regional do Boqueirão (igualmente no sul do município) possui um total de área verde de 
2.967.000m², o maior valor dentre todas, mas que está distribuída em apenas três equipamentos, 
sendo que dois deles são o Setor Náutico do Parque Iguaçu, com 2.300.000m² e o Zoológico 
Municipal com 589.000m². Ambos fazem parte do mesmo complexo na margem do Rio Iguaçu, 
mas possuem parte importante de sua área contida dentro de Área de Preservação Permanente 
(APP), que possui restrição para o uso pela população, ou seja, ainda que extensas, estas áreas 
cumprem mais uma função ecológica/ambiental do que recreativa. 
Esses dados colocam a Regional do Boqueirão como o local onde há maior oferta de área verde 
bruta por habitante (14,46m²/ hab), seguida pela Regional de Santa Felicidade com 9,12m²/ hab, 
e finalmente a Regional Boa Vista com 6,77m²/ hab. Em situação oposta estão as regionais do 
Portão, com 1,65m²/ hab, Bairro Novo, com 0,94m²/ hab e, finalmente, a Regional do Pinheirinho 
que não possui nenhum equipamento dessa tipologia. 
Considerando a oferta desses espaços por classe renda, a Figura 2 demonstra que nas regionais 
da porção norte (Santa Felicidade, Matriz e Boa Vista), onde está concentrada a metade do total 
de áreas verdes de lazer de Curitiba, a renda anual média da população é superior ao restante do 
município. Outro destaque no mapa é para a Regional do Boqueirão, que também apresenta 
valores superiores ao restante. 
Considerou-se o rendimento familiar anual um indicador relevante, na medida em que auxilia na 
medição da capacidade de compra e aluguel de imóveis próximos à infraestrutura, ou, no caso de 
estarem distantes, na maior facilidade para custear os deslocamentos até ela. 
A porção sul do município, especialmente as Regionais Bairro Novo e Tatuquara, possuem juntas 
276.524 habitantes (14,6% do total de Curitiba) e apenas 3 espaços verdes de lazer (6,5% do 
total). No entanto, o destaque principal está no fato de que nessa região concentra-se a população 
de mais baixa renda da capital, que por consequência possui mais carência por equipamentos 
públicos e mais dificuldade de deslocamento para ter acesso a eles. 
 
XX ENANPUR 2023 – BELÉM 23 A 26 DE MAIO 
 
Figura 2. Renda média anual em Curitiba (fonte: PEDROZO, 2019) 
Uma das consequências da distribuição espacial concentrada das benesses urbanas é a 
valorização do solo nessas áreas, tornando-as centrais (não necessariamente no sentido 
geográfico, mas de polo de uma região) e contribuindo para o crescimento das periferias sem 
infraestrutura, com um custo mais baixo de terra, habitada por pessoas menos especializadas e 
de mais baixa renda. 
Na Figura 3 é possível perceber a espacialização do preço da terra em Curitiba, a partir de sua 
planta de valores genéricos. O mapa foi elaborado por Pedrozo (2019), a partir do banco de dados 
dos valores utilizado para cobrança do IPTU em 2016, e “demonstra as diferenças de valor que 
resultam, entre outras variáveis, da relação entre o histórico de investimentos públicos, o potencial 
construtivo permitido em lei e a demanda (a quantidade e capacidade econômica de quem 
pretende comprar um imóvel), (PEDROZO, 2019, p. 74)”. 
XX ENANPUR 2023 – BELÉM 23 A 26 DE MAIO 
 
Figura 3. Planta genérica de valores em Curitiba em 2016 (fonte: PEDROZO, 2019) 
 
A população periférica usualmente habita regiões ambientalmente mais frágeis, que têm pouco 
valor para o mercado imobiliário e que têm maior tendência a se tornarem alvo das externalidades 
ambientais (consequências negativas), e que são denominadas “zonas de sacrifício” por Acselrad, 
Mello e Bezerra (2009). Os autores defendem ainda que os danos ambientais estão reservados 
para quem está longe do poder, uma vez que a lógica da desigualdade está presente nas políticas 
econômicas e nos governos. 
Acselrad (2010) defende o conceito de que as cidades usam o meio ambiente para promover um 
“urbanismo de resultados”, ideia que pode ser comparada ao valor de uso de solo atribuído àsáreas verdes em Curitiba, que fomentam as estratégias de competição e acumulação de capital. 
 
XX ENANPUR 2023 – BELÉM 23 A 26 DE MAIO 
5. Conclusões 
O artigo buscou identificar a relação entre a distribuição espacial das áreas verdes urbanas de 
Curitiba com o valor da terra e a renda média da população, buscando compreender se o acesso 
a estes espaços é possibilitado de maneira igualitária a todos os moradores. 
Delimitou-se o seguinte problema de pesquisa: as áreas verdes urbanas de Curitiba atendem à 
toda a população, ou estes espaços estão relacionados à espacialização do preço da terra? Para 
respondê-lo, a primeira abordagem metodológica utilizada foi a pesquisa bibliográfica, que 
evidenciou que as áreas verdes urbanas possuem um importante papel social, impactando 
diretamente a vida da população em questões como lazer, descanso, espiritualidade e 
socialização. Por outro lado, o paradigma da sustentabilidade e a incorporação de elementos do 
city marketing pelas cidades, pode levar à um esvaziamento dos fundamentos que permeiam as 
áreas verdes urbanas, principalmente em seus aspectos sociais. 
Ao se comparar a distribuição das áreas verdes urbanas de Curitiba, da renda média anual da 
população e do preço médio do m², possibilitando relacionar as três variáveis de análise, foi 
possível constatar que: onde a renda média anual da população é maior que o restante do 
município, concentra metade de todos os equipamentos classificados como áreas verdes de lazer, 
na contramão da situação ideal que seria ofertar uma quantidade maior de espaços como esses 
próximos à população mais carente. Como agravante, os equipamentos mais bem estruturados e 
com maior oferta de serviços para a população também se concentram nas três regiões mais 
privilegiadas. 
Entende-se que o modelo atual de produção da cidade dificulta, e até inviabiliza, o acesso à 
infraestrutura para as classes de renda mais baixa. Como agravante, a oferta de equipamentos 
públicos nem sempre ocorre de forma democrática, uma vez que se concentra em polos já 
estruturados, com custo mais alto da terra, média elevada de renda e demoram a chegar nas 
periferias precárias. Entender as especificidades de Curitiba, certificando-se sobre aquilo que 
resulta de políticas estriatamente locais e sobre aquilo que resulta de um grande contexto da 
cidade brasileira ou neo-liberal deve fazer parte da continuidade do presente estudo. 
Nessa conjuntura, notando que Curitiba possui um arcabouço legal que, desde a década de 1960, 
defende a distribuição mais igualitária desses espaços, percebe-se que a materialização desses 
planos apenas aprofundou um modelo desigual de ocupação urbana. 
Por fim, à luz desse contexto, uma vez que o acesso aos espaços urbanos de qualidade é 
fundamental para reduzir as desigualdades, entende-se necessário e primordial uma distribuição 
espacial mais igualitária das áreas verdes de lazer, para contribuir com o acesso à terra urbanizada 
para a população de baixa renda e, principalmente, para fazer justiça ao título de capital ecológica. 
6. Referências 
ACSELRAD, Henri. Duração das cidades: sustentabilidade e risco nas políticas urbanas. Rio de 
Janeiro: Ed. DP&A, 2001. 
ACSELRAD, Henri. Mapeamentos, identidades e territórios. In: Cartografia social e dinâmicas 
territoriais: marcos para o debate. Rio de Janeiro: IPPUR/UFRJ, 2010. 
ACSELRAD, Henri; MELLO, Cecília Campelo Amaral; BEZERRA, Gustavo Neves. O que é 
injustiça ambiental. Rio de Janeiro: Garamon, 2009. p. 7-133 
ALBUQUERQUE, A. F. A questão habitacional em Curitiba e o enigma da cidade modelo. 227f. 
Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) - Universidade de São Paulo, São Paulo, 
2007. 
ANDRADE, Victor; LINKE, Clarisse Cunha (Org.). Cidade de Pedestres. Rio de Janeiro. 
Babilônia, 2017. 
XX ENANPUR 2023 – BELÉM 23 A 26 DE MAIO 
BAI, Xuemei et al. Six research priorities for cities and climate change. Nature. Nature 555, 23-25 
(2018). doi: https://doi.org/10.1038/d41586-018-02409-z 
CARLOS, Ana Fani Alessandri. Espaço-tempo na metrópole: a fragmentação da vida cotidiana. 
São Paulo: Contexto, 2001. 
CURITIBA. Plano Municipal de regularização fundiária em áreas de preservação permanente. 
Curitiba, 2007. 202 p. 
DUDEQUE, Irã Taborda. Nenhum Dia sem Uma Linha: uma História do Urbanismo em Curitiba. 
São Paulo. Editora Studio Nobel, 2010. 
GUZZO, Perci. Estudo dos espaços livres de uso público e da cobertura vegetal em área urbana 
da cidade de Ribeirão Preto SP. 199. 106f. Dissertação (Mest5rado em Geociências) - Instituto 
de Geociências e Ciências Exatas, Universidade Estadual Paulista, Rio Claro, São Paulo, 1999. 
IBGE Cidades. Curitiba. 2021. Disponível em: . Acesso em: 20 nov. 2022. 
JESUS, Silvia Cristina de; BRAGA, Roberto. Análise Espacial das Áreas Verdes urbanas da 
Estância de Águas de São Pedro – SP. Caminhos da Geografia, v. 18, n. 16, p. 217-224, 2005. 
LEITE, Carlos. Cidades Sustentáveis, Cidades Inteligentes: Desenvolvimento Sustentável num 
Planeta Urbano. Porto Alegre: Bookman, 2012. 
LIMA, Ana Maria Liner Pereira. CAVALHEIRO, Felisberto; NUCCI, João Carlos; SOUSA, Maria 
Alice de Lourdes Bueno; FIALHO; Nilva de Oliveira; DEL PICCHIA, Paulo Celso Dornelles. 
Problemas de utilização na conceituação de termos como espaços livres, áreas verdes e 
correlatos. In: II Congresso Brasileiro de Arborização Urbana. Anais... São Luís, 1994, 
LIMONAD, Ester. A insustentável natureza da sustentabilidade. Cadernos Metrópole (PUCSP) 
v.15, p. 123-142, 2013. 
MAZZEI, Katia.; COLSESANTI, Marlene Muno; SANTOS, Douglas Gomes. Áreas verdes 
urbanas, espaços livres para o lazer. Sociedade & Natureza, Uberlândia - MG, 19 (1), p 33-43, 
jun.. 2007. 
NETO, Antonio Manoel Nunes Castelnou. Ecotopias Urbanas: imagens e consumo dos parques 
curitibanos. In.: MENDONÇA, Francisco; LIMA, Myrian Del Vecchio (Orgs.). A cidade e os 
problemas socioambientais urbanos: uma perspectiva interdisciplinar. Curitiba: Editora UFPR, 
2020. 
PANASOLO, Alessandro; PETERS, Edson Luiz; NUNES, Melina Samma. Áreas verder urbanas: 
proteção, intervenção, hipóteses de uso e regularização fundiária. Curitiba: Ambiente Juris, 2022. 
PEDROZO, Alexandre do Nascimento. O Imposto Predial e Territorial Urbano em Curitiba: 
possibilidades e limites para progressividade e justiça social. 137 p. Dissertação (Mestrado em 
Planejamento Urbano). Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2019. 
SANCHEZ GARCIA, Fernanda Ester. Curitiba imagem e mito: reflexão acerca da construção 
social de uma imagem hegemônica. Dissertação (Mestrado em Planejamento Urbano e 
Regional). Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1993. 
SMMA - SECRETARIA MUNICIPAL DE MEIO AMBIENTE (2008). Plano municipal de controle 
ambiental e desenvolvimento sustentável. Curitiba: Prefeitura Municipal de Curitiba. URL: 
http://multimidia.curitiba.pr.gov. br/2010/00085327.pdf

Mais conteúdos dessa disciplina