Prévia do material em texto
PONTIFÍCIO ATENEU SANTO ANSELMO Faculdade de Teologia INSTITUTO SÃO PAULO DE ESTUDOS SUPERIORES 49 Congresso Brasileiro de Teologia Moral. DEAFIOS ETICOS COMTEMPLAÇAÕ E A MISSÃO DA TEOLOGIA: A PROPOSTA MORAL NA COMPLEXIDADE. Mesa redonda: Exigências de uma moral missionaria em um mundo cada vez mais virtual. SOUZA MUNIZ, Helberth Introdução à Moral Prof. Krzysztof Mamala São Paulo, 2026 Mesa redonda: Exigências de uma moral missionaria em um mundo cada vez mais virtual. Palestrantes: Professor Cesar Kuzma, PUC-PR Introdução A tarefa histórica concedida a cada geração humana reside na responsabilidade de dar forma ao seu próprio tempo, permitindo que a história amadureça como um espaço habitável de sentido. No cenário contemporâneo, esse mandato depara-se com a incontornável emergência do mundo digital, onde o real e o virtual se interpenetram de tal maneira que a clássica barreira entre estar conectado ou desconectado se dissolveu. Vivenciamos, portanto, a consolidação da realidade onlife e a inserção definitiva da humanidade na infosfera, considerada o novo habitat da nossa existência. Esse estado de hiperconexão ininterrupta redesenha a nossa estrutura de vida, gerando as marcas do que se convenciona denominar sociedade do cansaço, caracterizada pelo fluxo maciço e veloz de informações que cansa e satura o cotidiano. Diante deste novo habitat, a teologia moral e a missão eclesial não podem se omitir. O Dicastério para a Comunicação, em seu documento de 2023 sobre a presença digital, assume essa nova realidade como o padrão antropológico a partir do qual devemos avaliar o nosso agir, com o objetivo de salvaguardar a inviolabilidade e a integridade da vida humana. Todavia, a infosfera está longe de ser um território neutro; ela constitui um espaço dominado por estruturas de poder econômico e político premeditadamente desenhadas para a captação e o manuseio estratégico de dados. Diante de rodovias digitais repletas de riscos e perigos iminentes, a própria identidade humana é convertida em imagem mercantilizada, seduzindo os sujeitos com os novos frutos da serpente que prometem uma liberdade sem limites em troca da alienação de sua essência ontológica. Compreender essa engrenagem e propor caminhos de libertação constitui a urgência desta síntese. Desenvolvimento Para estruturar um discernimento ético rigoroso, é fundamental revelar o valor comercial que sustenta a virtualidade contemporânea. A verdadeira revolução das redes sociais ocorreu quando grandes corporações e instituições compreenderam o potencial estratégico dessas plataformas para consolidar linguagens e práticas voltadas ao consumo. Nesse modelo econômico, os sujeitos são reduzidos à dupla condição de consumidores e produtos, de modo que suas escolhas são monitoradas e seus dados comercializados, cumprindo o conhecido ditado de que, se não pagamos pelo produto, nós somos o produto. O preço existencial dessa transação é o próprio tempo de vida, o tempo que deveria ser dedicado à convivência familiar, à contemplação da natureza e ao descanso autêntico. Essa mercantilização da atenção reflete o predomínio do paradigma tecnocrático denunciado pelo Papa Francisco na encíclica “Laudato Si”, que esvazia a capacidade do ser humano de ser o sujeito de sua própria história e gera uma massa de indivíduos excluídos, tidos como sobras do sistema. As consequências desse modelo de dominação tecnocrática e algorítmica aterrissam de maneira violenta na realidade concreta da história. Cezar elenca males profundos gerados por essa engrenagem, que vão desde a dependência tecnológica em adultos, jovens e crianças até o enfraquecimento de regimes democráticos através da proliferação sistêmica de notícias falsas e pós-verdades manipuladas com interesses eleitorais. Além disso, as redes sociais tornam-se palcos de agressões e exploração de diversas ordens, englobando abusos sexuais contra crianças, adolescentes e mulheres, a radicalização do racismo, a xenofobia e o colonialismo digital que espolia os dados das populações do Sul Global. Aqueles que já são historicamente invisibilizados pela exclusão social sofrem uma dupla marginalização e uma precarização que culminam em uma morte física e real, em nada virtual, patrocinada pela indiferença das estruturas dominantes. Frente a esse cenário desumanizador, a teologia moral e a Doutrina Social da Igreja são convocadas a intervir criticamente. Baseando-se no ensinamento do Papa Leão XIV, especialmente na encíclica Magnifica Humanitas, Cezar afirmar categoricamente que a pessoa humana é imensamente superior a qualquer inteligência artificial ou algoritmo. Há um limite ético e ontológico intransponível na técnica: os algoritmos podem classificar comportamentos em previsibilidades estatísticas, mas são estruturalmente incapazes de amar, abraçar ou converter-se. A reflexão teológica não propõe o desprezo cego aos avanços tecnológicos, cujos benefícios para a medicina, a saúde e a educação são reais e dignos de gratidão. Contudo, a crítica ética torna-se indispensável quando a humanidade se torna refém da própria tecnologia criada. Conforme o número 96 do documento Magnifica Humanitas, é imperativo verificar se o poder das infraestruturas e algoritmos favorece de fato a participação social, protege os mais frágeis, garante igualdade de oportunidades e permanece orientado para o bem comum. Como resposta prática a essas fraturas existenciais, Cezar propõe uma moral missionária da presença e da proximidade, inspirada pedagogicamente na parábola do Bom Samaritano. A presença cristã no ambiente digital não deve ser pautada por um projeto de conquista ou colonização ideológica, mas em estabelecer uma presença libertadora e humanizadora que responda com audácia à pergunta evangélica sobre quem é o meu próximo. Superando a indiferença do sacerdote e do lenda que passam ao longe diante dos caídos nas rodovias digitais, o crente é chamado a assumir a própria prática de Jesus. Isso implica recusar a dinâmica binária do curtir ou odiar, que destrói a capacidade de diálogo e cria novas Torres de Babel, para propor o confronto maduro de ideias e a construção coletiva do bem comum. Essa práxis samaritana exige, outrossim, atenção aos riscos e perigos do caminho digital sem que se fuja deles, mas oferecendo um testemunho pacífico e inovador que denuncie as desigualdades sociais e digitais. A compaixão autêntica exige dar o salto de colocar-se no lugar de quem está caído, devolvendo identidade, nome e rosto àqueles que foram desfigurados pelo sistema. Para que isso ocorra, o crente deve cultivar a cultura do encontro e aprender a desligar seus dispositivos eletrônicos, compreendendo que o tempo com o outro é sagrado e não pode ser mediado ou dividido continuamente pela técnica. Adicionalmente, Cezar adverte sobre a necessidade de purificar a própria presença religiosa nas redes, que muitas vezes dissemina agressão e ódio em vez de refletir o estilo acolhedor de Deus, para empenhar-se na reconstrução de um mundo fragmentado e na formação de comunidades reais de proximidade. Afinal, não existe uma igreja digital ou híbrida; a Igreja é real e encarnada, embora deva estar missionariamente presente nesses espaços virtuais para ouvir e curar as feridas da humanidade. Conclusão A reflexão teológica desenvolvida por Cezar demonstra que a maior crítica a ser feita ao sistema tecnológico contemporâneo reside na sua capacidade de fragmentar as relações sociais e promover a desumanização sistêmica dos sujeitos. Diante do avanço vertiginoso da inteligência artificial e das mídias digitais, torna-se imperativo resgatar o valor do humano integral em todas as suas dimensões, sentimentos, anseios e esperanças concretas. O ser humano não é um dado abstrato ou uma mercadoria estatística, mas uma pessoa que necessita de relações históricas autênticas com a criação, com os outros e com Deus. Conforme assevera o ensinamento final da conferência, fundamentado na encíclica Magnifica Humanitas, embora a cultura digital multiplique indefinidamenteas conexões técnicas e as possibilidades de interação virtual, o coração humano preserva uma necessidade inalienável de proximidade física, toque e presença real. É esse horizonte humanizador, centrado na primazia do encontro corpóreo e na inviolabilidade da dignidade humana, que deve guiar de forma intransigente a ação e a reflexão da teologia moral e da ação missão eclesial.