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Diarréia Viral Bovina (BVD) Etiologia ara entender a BVD, precisamos primeiro olhar para o vírus. Assim como a IBR, o nome 'Diarreia Viral Bovina' surgiu porque o primeiro sinal identificado foi a diarreia, mas hoje sabemos que o maior impacto econômico está nos problemas reprodutivos, como abortos e malformações. 1. Características do Vírus: O agente é um Pestivirus da família Flaviviridae. Ele é um vírus envelopado de RNA fita simples positiva. O que isso significa na prática? Que ele se replica muito rápido e sofre mutações com facilidade, o que explica a grande variedade de cepas que encontramos. 2. Os Genótipos (O 'RG' do Vírus): Nós dividimos o vírus em dois genótipos principais: ● BVDV-1: É o mais comum no mundo todo e o principal responsável pelos surtos de diarreia e perdas reprodutivas. Por ser o mais prevalente, é a base da maioria das vacinas. ● BVDV-2: É mais agressivo (maior virulência) e causa quadros hemorrágicos severos. Ele é muito forte na América do Norte, mas já é monitorado globalmente. 3. Os Biótipos (O Comportamento na Célula): Aqui está o ponto mais importante: a diferença entre o biótipo Citopático e o Não Citopático. Essa diferença é definida pela expressão da proteína NS3. ● Não Citopático (NCP): É o biótipo que encontramos na natureza na maioria das vezes. Ele não mata a célula onde se replica, o que permite que ele 'se esconda' do sistema imune e crie os animais P.I. Por isso, dizemos que ele tem uma maior virulência biológica no rebanho, pois consegue persistir. ● Citopático (CP): Esse biótipo surge de mutações ou recombinações do vírus NCP dentro do animal. Ele expressa a proteína NS3, que causa a destruição (lise) das células. O grande perigo: Um vírus que começa como Não Citopático (subclínico, sem sinais) pode sofrer uma mutação e gerar uma progênie Citopática. Quando isso acontece, o curso da doença muda completamente: o que era uma infecção 'silenciosa' se transforma em uma forma clínica grave, como a Doença das Mucosas que veremos adiante. Sobre a Proteína NS3: No seu texto, você escreveu que o NCP não expressa a NS3. Na verdade, o NCP expressa a poliproteína de forma que a NS3 fica "grudada" em outra proteína (NS2), formando a NS2/3. No biótipo Citopático (CP), ocorre uma clivagem (corte) que libera a NS3 sozinha. É essa NS3 "solta" que é o marcador de citopatogenicidade. Virulência vs. Citopatogenicidade: Cuidado para não dizer que o Citopático é sempre "mais forte". O Não Citopático é mais perigoso para o rebanho porque ele é quem causa a infecção persistente (P.I.). O Citopático só é "pior" para o indivíduo porque ele mata a célula rapidamente. Epidemiologia Na epidemiologia, o grande desafio da BVD é o animal P.I. (Persistentemente Infectado). Como ele não desenvolve resposta imune, ele se torna um reservatório que dissemina o vírus por toda a vida. O perigo aumenta porque ele gera resultados falso-negativos em testes de anticorpos, já que ele é soronegativo mesmo estando infectado. 1. Vias de Disseminação e Tempo O vírus é liberado em secreções como saliva, secreção nasal, leite e sêmen. O tempo de disseminação varia: ● Infecções Agudas: O vírus é liberado por um período curto, de 3 a 10 dias. ● Animais P.I. e Doença das Mucosas: A disseminação é vitalícia. No caso do biótipo não citopático, o vírus permanece circulando no rebanho por muito mais tempo. 2. Transmissão Horizontal (Entre animais) ● Contato Direto: Ocorre pelo contato focinho-focinho ou entre mucosas. ● Contato Indireto: Restos placentários e fetos abortados carregam uma carga viral altíssima, contaminando pastos, água e cochos. ● Iatrogênica: Ocorre pelo manejo humano, através de agulhas, luvas de palpação, tatuadores e sêmen de touros infectados usados na I.A.. ● Resistência Ambiental: Embora o vírus seja sensível e não dure muito no ambiente, a grande quantidade liberada compensa essa baixa resistência, garantindo a infecção de novos animais. 3. Transmissão Vertical (Mãe para Filho) É a transmissão transplacentária, que ocorre com frequência tanto na fase embrionária quanto na fetal. Se a vaca for infectada, o bezerro nascerá infectado, resultando geralmente em abortos, malformações ou no nascimento de um novo animal P.I.. Conclusão: Um animal P.I. mantém o vírus no rebanho sem dar sinais, até que ocorra a mudança para o tipo citopático, levando à Doença das Mucosas, que é fatal. Patogenia A via oro-nasal é a principal porta de entrada do vírus da BVD, ocorrendo por contato direto entre animais ou indireto, via secreções e excreções contaminadas. Após o ingresso, o vírus atinge o trato respiratório superior e a região da orofaringe. Nestes locais, ocorre a replicação primária em células da mucosa e do tecido linfoide regional. A disseminação sistêmica inicia-se quando células fagocíticas transportam o vírus até os tecidos linfoides secundários (principalmente linfonodos), onde se estabelece a resposta imune. O vírus apresenta tropismo tanto por células epiteliais da mucosa quanto por células linfoides. Consequentemente, o quadro clínico inicial depende do biótipo viral: ● Biótipo Citopático: Tende a causar inflamação evidente e lesões degenerativas nas mucosas. ● Biótipo Não-Citopático: Geralmente não apresenta sinais clínicos imediatos, apesar de ser a forma mais comum envolvida em infecções persistentes. Embora a replicação inicial ocorra na orofaringe, o principal agravante é o aumento da carga viral sistêmica, que permite a disseminação do vírus para diversos órgãos. A manifestação clínica será determinada, primordialmente, pelo biótipo viral: ● Biotipo Citopático: Provoca lesões diretas nos tecidos, gerando formas clínicas variáveis de acordo com o órgão afetado. ● Biotipo Não-Citopático: Geralmente resulta em manifestações brandas ou ausentes, caracterizando-se como uma infecção subclínica. O status imunológico do hospedeiro é um fator determinante: animais imunocomprometidos apresentam períodos de incubação reduzidos e quadros clínicos severos, enquanto animais com boa resposta imune tendem a apresentar sinais mais brandos e incubação prolongada. Além disso, o vírus possui um forte caráter imunossupressor, o que predispõe o animal a infecções secundárias. Por fim, o impacto da doença varia conforme a fase reprodutiva: 1. Fêmeas Prenhas: O foco clínico recai sobre as perdas reprodutivas, com consequências que variam conforme o terço gestacional. 2. Fêmeas "Vazias" e Outras Categorias: Os danos concentram-se nos tratos respiratório e digestório (o qual dá nome à enfermidade). Nesta etapa, abordaremos a patogenia focando na situação reprodutiva. Embora o foco recaia sobre as fêmeas, é importante notar que os machos seguem a mesma lógica patogênica, apresentando sinais clínicos leves, predominantemente associados ao trato digestório. a) Animais não-prenhes: Nessa parte, a gente divide a patogenia de acordo com a situação reprodutiva do animal. Vou focar aqui nos animais não-prenhes. É importante dizer que os machos entram nesse grupo também, já que neles a doença não tem sinais específicos; o que vamos ver são sinais leves, principalmente no trato digestório. Geralmente, o que acontece aqui é uma infecção aguda. O animal vira um grande disseminador do vírus no rebanho, mas, apesar disso, a mortalidade costuma ser baixa. E como a doença age? O vírus atinge células que se multiplicam muito rápido. No intestino, ele destrói essas células e o animal perde a capacidade de absorver nutrientes e água. É exatamente por isso que acontece a diarreia, que é o sinal mais clássico. Além disso, o animal pode ter secreção nasal e muita salivação. A doença vai ser passageira ou não? Isso depende do sistema imune: ● Se o animal for imunocompetente (saudável), a doença é autolimitante. Ou seja, ele vai ter sinais leves, mas o próprio corpo consegue combater e eliminar o vírus. ● O problema é quando o animal está coma imunidade baixa. Nesses casos, a doença pode virar algo crônico, com o animal melhorando e piorando o tempo todo (as recidivas). Dois pontos importantes para fechar: 1. A BVD causa muita imunossupressão. Isso abre as portas para outras doenças, como a IBR. Por isso, é muito comum uma vaca com BVD apresentar também lesões na vulva (vulvovaginite) por causa da IBR que aproveitou a 'baixa' no sistema imune. 2. Não esqueçam do BVDV-2. Ele é um genótipo mais agressivo, e quando ele aparece, a mortalidade pode ser bem maior. Agora o cenário muda quando falamos de animais prenhes. O grande problema aqui é que, além da infecção aguda que a vaca sofre (com aqueles sinais respiratórios e diarreia que já vimos), o vírus encontra um organismo com a fisiologia toda alterada pela gestação. Por que o útero vira o alvo principal? Nessa fase, o trato reprodutivo está muito mais vascularizado e os órgãos linfoides estão mais ativos. Isso facilita a viremia (o vírus circulando no sangue) e faz com que ele chegue com muita força ao útero. Lá, ele encontra muitas células prontas para recebê-lo, o que chamamos de células permissivas, onde ele se replica intensamente. O impacto no feto: Não existe uma barreira que segure o vírus; a transmissão transplacentária acontece livremente. O que vai acontecer com o bezerro depende de quando essa vaca foi infectada: ● No início da gestação: Pode ocorrer a reabsorção embrionária, que muitas vezes o produtor nem percebe; a vaca simplesmente 'vazia' e volta ao cio. ● Ao longo da gestação: Podem ocorrer abortos, mumificação fetal (quando o feto morre e 'seca' dentro do útero) ou o nascimento de natimortos. ● Bezerros fracos: Alguns chegam a nascer, mas são inviáveis. São aqueles bezerros que não têm nem reflexo de sucção, não conseguem mamar o colostro e acabam morrendo logo depois. ● Animais P.I. (Persistentemente Infectados): Esse é o maior perigo para o rebanho. Se a infecção ocorrer em um período específico (geralmente entre os dias 40 e 120), o bezerro nasce parecendo saudável, mas carrega e espalha o vírus pelo resto da vida. Em resumo: a gravidade depende do biótipo do vírus e do momento da gestação, mas o prejuízo reprodutivo é quase sempre certo. Este gráfico mostra as três rotas possíveis quando uma vaca prenhe é infectada. O desfecho depende basicamente de duas coisas: quem é o vírus (o biótipo) e quando a vaca foi infectada. 1. O Bezerro P.I. (Persistentemente Infectado): Isso acontece quando a infecção é por um vírus Não Citopático (NCP) na fase inicial da gestação (até uns 120 dias). Nessa fase, o feto ainda não tem o sistema imune formado. O vírus entra no feto e o corpo dele entende que aquele vírus faz parte do próprio organismo. Por isso, ele não combate o invasor. O bezerro nasce parecendo saudável, mas é uma 'fábrica' de vírus para o resto da vida. 2. O Bezerro Soropositivo (Livre do Vírus): Se a infecção (seja por vírus citopático ou não) ocorrer mais para o final da gestação, o feto já é imunocompetente. Ele já consegue se defender! Então, ele combate o vírus ainda dentro do útero e nasce livre da infecção, mas já com seus próprios anticorpos (soropositivo). 3. Abortos e Malformações: Dependendo da agressividade da estirpe e do momento, o feto pode não resistir, levando a abortos, mumificação ou malformações congênitas. O desafio do diagnóstico: Um ponto que a gente precisa ter muito cuidado é que nem todo bezerro com anticorpo é P.I. Ele pode ter anticorpos porque combateu o vírus no útero ou porque mamou o colostro de uma mãe vacinada ou infectada. Isso pode 'enganar' o teste sorológico se não soubermos o histórico. Em resumo: um animal de mãe infectada pode nascer saudável e livre do vírus se o sistema imune dele tiver tido tempo de reagir antes do nascimento. Para facilitar o entendimento, vamos dividir a gestação de 9 meses em três terços. 1. Terço Inicial (Infertibilidade e Aborto): Logo no comecinho, antes do primeiro mês, as alterações são mais ligadas à infertilidade. A partir dos 40 dias, se a vaca for infectada por um vírus citopático, o desfecho comum é o aborto. Vale lembrar que, se a vaca estiver muito imunossuprimida, até o vírus não citopático pode causar esse aborto. 2. A Janela do P.I. (40 a 120 dias): Esse é o intervalo mais crítico. O feto está 'treinando' o sistema imune e eliminando células que reagiriam contra o próprio corpo. Se o vírus não citopático entra aqui, o feto sofre um erro de reconhecimento: ele acha que o vírus é parte do seu corpo. ● O resultado é o animal P.I. (Persistentemente Infectado). ● Esse animal é soronegativo: ele não produz anticorpos porque não vê o vírus como inimigo. Isso engana muito o produtor e os testes laboratoriais! 3. Terço Médio e Final (Desenvolvimento e Defesa): Entre 80 e 160 dias, o feto já é maior, mas o vírus ainda consegue causar estragos no desenvolvimento, como a hipoplasia cerebelar. Já no terço final (após os 125-150 dias), o feto já é imunocompetente. Independente do biótipo do vírus, o bezerro já consegue se defender, produz seus próprios anticorpos e nasce soropositivo, geralmente livre do vírus. Na infecção persistente, que ocorre aproximadamente entre 40 e 120 dias de gestação, o 4. O Perigo do P.I. e a Doença das Mucosas: O grande problema do animal P.I. é que ele é uma 'bomba relógio'. Ele espalha o vírus no rebanho o tempo todo sem ninguém perceber. ● O quadro piora quando esse animal P.I. (que já tem o vírus não citopático) sofre uma mutação ou encontra o vírus citopático no campo. ● Como o sistema imune dele é tolerante ao vírus, ele não consegue montar uma defesa. É nesse momento que surge a Doença das Mucosas, uma forma gravíssima e fatal da BVD, que é quando o produtor finalmente percebe que algo está errado." A Janela do P.I. (40 a 120 dias): O feto ainda não tem sistema imune formado e desenvolve imunotolerância. Ele aceita o vírus como parte de si, não produz anticorpos e nasce soronegativo. Esse é o animal P.I., que espalha o vírus no rebanho a vida toda sem ser detectado pela sorologia. A fase Imunocompetente (Após 125 dias): Aqui o feto já consegue se defender. Ele reconhece o vírus, combate a infecção e nasce soropositivo. Ele nasce com anticorpos e, geralmente, livre do vírus. Quando o bezerro nasce como um P.I. (Persistentemente Infectado), ele pode se apresentar de três formas: 1. Aparência Normal: O maior perigo. Ele nasce com peso e tamanho normais, parecendo saudável, mas é um 'cavalo de Troia' espalhando o vírus por todo o rebanho. 2. Crescimento Retardado: São aqueles bezerros 'refugos', que não se desenvolvem, não ganham peso e estão sempre atrasados em relação ao lote. 3. Malformações Congênitas: Como vimos no gráfico, dependendo do dia exato da infecção, ele pode nascer com cegueira ou com a hipoplasia cerebelar (aquela falta de equilíbrio que a foto do bezerro tentando levantar ilustra bem). que define um animal P.I.? ● Mantenedores e Reservatórios: Eles são a fonte número um do vírus. Como o corpo deles não combate a doença, eles eliminam trilhões de partículas virais 24 horas por dia por todas as secreções. ● Sobrevida: Antigamente achava-se que eles morriam rápido, mas muitos podem viver 2 anos ou mais, chegando à idade reprodutiva, o que é um perigo enorme. O perigo na reprodução: ● Transmissão à progênie: Se tivermos um touro P.I., ele vai transmitir o vírus pelo sêmen. Já uma fêmea P.I. adulta, terá 100% de chance de parir um bezerro que também será P.I. É um ciclo que não para sozinho. Em resumo: O animal P.I. é o coração do problema da BVD. Se você não identificar e retirar esses reservatórios, o vírus vai continuar circulando, causando abortos, malformações e derrubando a imunidade do seu rebanho o tempo todo. Para finalizar a patogenia, chegamos à Doença das Mucosas, que é o desfecho mais grave e fatal da BVD. Como ela acontece? Tudo começa com aquele BezerroP.I. que explicamos anteriormente. Lembra que ele carrega o vírus Não Citopático (NCP) e o corpo dele acha que o vírus é 'parte da casa'? O problema surge quando esse animal sofre uma superinfecção por um vírus do biótipo Citopático (CP). Isso pode acontecer de duas formas: 1. O vírus que já está dentro dele sofre uma mutação e vira citopático; 2. Ele entra em contato com um vírus citopático vindo de outro animal no campo. Por que o animal não se defende? Como os dois vírus (o que ele já tinha e o novo) são antigenicamente semelhantes, o sistema imune do P.I. continua sendo enganado. Ele olha para o vírus agressivo (CP) e pensa: 'esse cara eu já conheço, ele é meu amigo'. Por isso, não há resposta imune significativa. O Resultado: Diferente do vírus 'quietinho' (NCP), o biótipo Citopático começa a destruir as células de forma agressiva. Isso causa feridas e úlceras por todo o trato digestivo — por isso o nome 'Doença das Mucosas'. É uma enfermidade gastroentérica fatal; o animal geralmente não resiste e morre entre os 6 meses e 2 anos de idade. Em resumo: A Doença das Mucosas é o preço que o animal P.I. paga por ser imunotolerante. Ele deixa o inimigo entrar e destruir o seu organismo sem apresentar nenhuma resistência. Imagens do sinais clínicos Sinais tanto clínicos quanto erosões, problemas de lesões erosivas. Observamos o dano tecidual em toda mucosa, mucosa bucal… palato mole e palato duro todo com lesão erosiva, é vírus replicando na mucosa. Região de orofaringe, olha a quantidade de infiltrado linfocitário, olha o grau de lesão, de necrose. É uma doença gastroentérica, então todo o trato digestivo também é afetado. Intestino também sendo totalmente destruído, resultado o animal vai ficando apáticom, vai ficando anoréxico, ele não vai tendo qualquer estímulo para a alimentação, sendo que todo o trato digestivo dele está praticamente sendo condenado e você tem a morte deste animal, que pode variar desde algumas semanas e a meses dependendo da patogenicidade deste vírus. Diarréia Viral Bovina (BVD) Etiologia Epidemiologia Patogenia