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REVISTA OBSERVATORIO DE LA ECONOMIA LATINOAMERICANA ISSN: 1696-8352 Page 1 REVISTA OBSERVATORIO DE LA ECONOMIA LATINOAMERICANA, Curitiba, v.22, n.6, p. 01-19. 2024. Cryptococcus neoformans: um fungo patogênico oportunista Cryptococcus neoformans: an opportunistic fungal pathogen Cryptococcus neoformans: hongo oportunista patógeno DOI: 10.55905/oelv22n6-161 Receipt of originals: 05/17/2024 Acceptance for publication: 06/07/2024 Anna Alyce do Amaral Levino Técnica em Química Instituição: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia (IFRO) – campus Porto Velho Calama Endereço: Porto Velho, Rondônia, Brasil E-mail: alycelevino13@gmail.com Maria Clara Camilo da Silva Graduanda em Engenharia Química Instituição: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia (IFRO) – campus Porto Velho Calama Endereço: Porto Velho, Rondônia, Brasil E-mail: mclaracamilo.s@gmail.com Sophia Nunes Alves Graduanda Engenharia Química Instituição: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia (IFRO) – campus Porto Velho Calama Endereço: Porto Velho, Rondônia, Brasil E-mail: sophianunes175@gmail.com Nathália Kelly de Araújo Doutora em Biotecnologia Instituição: Laboratório de Microbiologia e Biotecnologia do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia (IFRO) – campus Porto Velho Calama Endereço: Porto Velho, Rondônia, Brasil E-mail: araujo.nathalia@ifro.edu.br mailto:alycelevino13@gmail.com mailto:mclaracamilo.s@gmail.com mailto:sophianunes175@gmail.com mailto:araujo.nathalia@ifro.edu.br REVISTA OBSERVATORIO DE LA ECONOMIA LATINOAMERICANA ISSN: 1696-8352 Page 2 REVISTA OBSERVATORIO DE LA ECONOMIA LATINOAMERICANA, Curitiba, v.22, n.6, p. 01-19. 2024. Jeane do Nascimento Moraes Doutra em Biologia Experimental Instituição: Centro de Estudos de Biomoléculas Aplicadas à Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (CEBIO - FIOCRUZ) Endereço: Porto Velho, Rondônia, Brasil E-mail: jeanemoraes2009@gmail.com Leonardo de Azevedo Calderon Doutor em Ciências Biológicas área de concentração em Biologia Molecular Instituição: Centro de Estudos de Biomoléculas Aplicadas à Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (CEBIO - FIOCRUZ) Endereço: Porto Velho, Rondônia, Brasil E-mail: leonardo.calderon@fiocruz.br Edailson de Alcântara Corrêa Doutor em Biodiversidade e Biotecnologia Instituição: Laboratório de Microbiologia e Biotecnologia do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia (IFRO) – campus Porto Velho Calama Endereço: Porto Velho, Rondônia, Brasil E-mail: edailson.correa@ifro.edu.br RESUMO Cryptococcus neoformans é um fungo patogênico encapsulado que desempenha um papel significativo em infecções oportunistas, em especial a criptococose, em indivíduos imunocomprometidos, devido às suas propriedades antifagocíticas. Mais de 130 anos de pesquisa sobre o gênero Cryptococcus spp. levaram à identificação bioquímica de duas variantes de C. neoformans, conhecidas como neoformans e grubii, com sorotipos D, A e AD. Estas variantes são notáveis por seus fatores de virulência, como a cápsula polissacarídica e a produção de melanina e urease. A análise e caracterização das cepas de C. neoformans são essenciais para acumular dados que auxiliem na compreensão de sua bioquímica e mecanismos de patogenicidade, contribuindo assim para avanços significativos na medicina Palavras-chave: Tremellaceae, Cryptococcus, Levedura, Imunodeficiência, Criptococose. ABSTRACT Cryptococcus neoformans is an encapsulated pathogenic fungus that plays a significant role in opportunistic infections, particularly cryptococcosis, in immunocompromised individuals due to its antiphagocytic properties. Over 130 years of research on the Cryptococcus spp. genus have led to the biochemical identification of two variants of C. neoformans, known as neoformans and grubii, with serotypes D, A, and AD. These variants are notable for their virulence factors, such as the polysaccharide capsule and the production of melanin and urease. The analysis and characterization of C. neoformans mailto:jeanemoraes2009@gmail.com mailto:leonardo.calderon@fiocruz.br mailto:edailson.correa@ifro.edu.br REVISTA OBSERVATORIO DE LA ECONOMIA LATINOAMERICANA ISSN: 1696-8352 Page 3 REVISTA OBSERVATORIO DE LA ECONOMIA LATINOAMERICANA, Curitiba, v.22, n.6, p. 01-19. 2024. strains are essential for accumulating data that assist in understanding its biochemistry and pathogenic mechanisms, thus contributing to significant advances in medicine. Keywords: Tremellaceae, Cryptococcus, Yeast, Immunodeficiency, Cryptococcosis. RESUMEN Cryptococcus neoformans es un hongo patógeno encapsulado que desempeña un papel significativo en infecciones oportunistas, especialmente criptococosis, en individuos inmunocomprometidos debido a sus propiedades antifagocíticas. Más de 130 años de investigación sobre el género Cryptococcus spp. han permitido la identificación bioquímica de dos variantes de C. neoformans, conocidas como neoformans y grubii, con los serotipos D, A y AD. Estas variantes son notables por sus factores de virulencia, como la cápsula de polisacáridos y la producción de melanina y ureasa. El análisis y la caracterización de las cepas de C. neoformans son esenciales para acumular datos que ayuden a comprender sus mecanismos bioquímicos y de patogenicidad, contribuyendo así a avances significativos en medicina Palabras clave: Tremellaceae, Cryptococcus, Levadura, Inmunodeficiencia, Criptococosis. 1 INTRODUÇÃO O Cryptococcus neoformans é um fungo leveduriforme encapsulado, predominantemente haploide, o qual apresenta um ciclo reprodutivo definido (Nielsen et al., 2005; Zhao & Lin, 2021) e apresentando como fase teleomórfica o basidiomiceto Filobasidiella neoformans. Representa um patógeno importante na área médica por ser o causador da criptococose, um patógeno fúngico oportunista (Filiú et al., 2002; Yamamura et al., 2013). Inicialmente, o Cryptococcus neoformans era classificado em 3 variedades e quatro sorotipos, os quais eram: C. neoformans var. neoformans (D), C. neoformans var. grubbi (A) (Franzot, Salkin, Casadevall, 1999; Boekhout et al., 2001) e C. neoformans var. gattii (B e C), a partir de análises da genética molecular, as leveduras foram reclassificadas nas espécies C. neoformans e C. gattii, aderindo assim à nomenclatura revisada por Kwon-Chung e colaboradores em 2002 (Yamamura, et al., 2013). Dessa forma, em conjunto com outras pesquisas e, para o período, o agente oportunista C. REVISTA OBSERVATORIO DE LA ECONOMIA LATINOAMERICANA ISSN: 1696-8352 Page 4 REVISTA OBSERVATORIO DE LA ECONOMIA LATINOAMERICANA, Curitiba, v.22, n.6, p. 01-19. 2024. neoformans foi fracionado em duas variedades: var. neoformans (D), var. grubbi (A) e o sorotipo híbrido AD, enquanto a espécie Cryptococcus gattii continua com seus sorotipos anteriores, além dos híbridos AB e BD (Franzot, Salkin, Casadevall, 1999; Boekhout et al., 2001; Nielsen et al., 2005; Bovers, Hagen, Boekhout, 2008; Colombo et al., 2015). Em relação à taxonomia, o gênero Cryptococcus é um eucarioto do Reino Fungi, pertencente à classe Tremellomicetes, família Tremellaceae (Aguiar, 2016). Quanto aos aspectos morfológicos, a variedade C. neoformans caracteriza-se por apresentar formato esférico ou ovalado, medindo de 2 a 8 µm de diâmetro, apresentando uma cápsula mucopolissacarídica, composta majoritariamente (90%) pela glucuronoxilomanana - GXM, medindo entre 5 a 30 µm (Zaragoza, Fries, Casadevall, 2003; Leal, 2006; Aguiar, 2016; Moretti, 2023). Além de sua cápsula, entre seus principais fatores de virulência estão a atividade urease, a produção de melanina e o desenvolvimento a 37 °C (Gomes et al., 2010; Kwon-Chung et al., 2014). Cresce, normalmente,em cultura de ágar Sabourad à temperatura de 25 a 37 ºC, formando colônias de cor creme, brilhosas e mucoides (Reolon, Perez, Mezzari, 2004). Seu principal meio de contágio em humanos são os excrementos de pombos (Columba spp.). Com a potencialidade de colonizar a mucosa dos pombos sem lhes transmitir a doença, é um hospedeiro natural dessas aves (Reolon, Perez, Mezzari, 2004). Além das excretas, essa estirpe pode ser observada nas madeiras em decomposição, e até mesmo nas árvores, associadas ao contato dos pombos em seus troncos e galhos, propondo um novo habitat natural (Ribeiro, 2017). Quanto ao processo de contágio em humanos, o C. neoformans isolado deve crescer, normalmente a 37 ºC, em uma atmosfera com aproximadamente 5% de CO2 e com um pH de 7,3 a 7,4 (Buchanan & Murphy, 1998). Naturalmente, o contágio por C. neoformans é ocasionado através da inalação de propágulos, caracterizados por leveduras desidratadas ou basidiósporos de diâmetro menor que 2 µm. Esse agente, classificado como oportunista, infecta o Sistema Nervoso Central - SNC podendo causar meningoencefalite, a qual é fatal se não tratada (Buchanan & Murphy, 1998; Nielsen et al., 2005; Leal, 2006). Adicionalmente, acomete em maior proporção hospedeiros imunocomprometidos (Perfect, 2015; Ribeiro, 2017), indivíduos com imunodepressão, REVISTA OBSERVATORIO DE LA ECONOMIA LATINOAMERICANA ISSN: 1696-8352 Page 5 REVISTA OBSERVATORIO DE LA ECONOMIA LATINOAMERICANA, Curitiba, v.22, n.6, p. 01-19. 2024. portadores de câncer ou HIV, transplantados (Filiú, 2002) ou até mesmo pessoas com imunossupressão que tem como a causa o uso de medicamentos (Ribeiro, 2017). Diante da relevância para a saúde humana, este estudo objetivou realizar o levantamento e caracterização de cepas do fungo C. neoformans por meio de uma revisão integrativa. Assim, este artigo apresenta recentes discussões acerca de características da cápsula de C. neoformans, bem como são discutidos aspectos epidemiológicos. 2 REVISÃO DE LITERATURA 2.1 HISTÓRICO O Cryptococcus neoformans foi isolado inicialmente por Francesco Sanfelice em 1894, por meio de um extrato de pêssego na Itália, e foi nomeado como Saccharomyces neoformans, devido ao seu aspecto de colônia única. No mesmo ano, Otto Busse e Abraham Buschek descreveram esse fungo como um patógeno humano, relatando o qual seria o primeiro caso de criptococose, em que foi isolado um fungo parecido com Saccharomyces da infecção óssea de uma mulher jovem. Por fim, em 1901, Vuillemin reclassificou as leveduras encontradas como C. neoformans, uma vez que estas não possuíam a fermentação de açúcar e a criação de ascósporos que são características do gênero Saccharomyces (Kwon-Chung et al., 2014; Srikanta, Santiago‐Tirado, Doering, 2014). Por meio dos estudos relacionados à cápsula polissacarídica do fungo, o cientista Evans, em 1950, a partir de antissoros de coelho, definiu 3 sorotipos do fungo (A, B e C). O sorotipo D foi descoberto mais tarde, em 1968. Diversas outras observações e pesquisas foram realizadas desde então, resultando no descobrimento de sua fonte ambiental, ciclo de vida, características bioquímicas como a produção de urease e melanina, sua tipagem molecular e até uma reclassificação, separando-o em duas espécies e duas variações, sucedendo a classificação atual como: C. neoformans var. neoformans: Sorotipo D; C. neoformans var. grubii: Sorotipo A; e a segunda espécie descoberta em 1986 por Curtis, de nomenclatura Cryptococcus gattii sugerido por Kwon-Chung et al. (2002): Sorotipo REVISTA OBSERVATORIO DE LA ECONOMIA LATINOAMERICANA ISSN: 1696-8352 Page 6 REVISTA OBSERVATORIO DE LA ECONOMIA LATINOAMERICANA, Curitiba, v.22, n.6, p. 01-19. 2024. B e C (Kwon-Chung et al., 2014; Srikanta, Santiago‐Tirado, Doering, 2014; Colombo et al., 2015; Wirth, Azevedo, Goldani, 2018). 2.2 ASPECTOS MORFOLÓGICOS E QUÍMICOS As leveduras isoladas do gênero C. neoformans apresentam-se de forma esférica ou ovalada, medindo geralmente 2 a 8 µm de diâmetro e possuindo brotamento múltiplo ou único (Figura 1). No crescimento in vitro, em um meio de cultivo o qual não contenha antifúngicos (ex: cicloheximida), como no caso do meio Ágar Sabourad, demonstra colônias de coloração branca a creme, textura mucoide com aspecto brilhoso e uma margem inteira e lisa, seu processo de incubação leva 48 a 72 horas, crescendo a temperaturas de 25 a 37 °C. As leveduras obtêm um crescimento melhor a 30 °C, enquanto sua termotolerância máxima é de 40 °C (Silva, 2020; Moretti, 2023). Figura 1: Representação macro das características estruturais do Cryptococcus neoformans Fonte: Modificado de Fernandes (2010). Banco de Imagens dos autores (2023). Imagem produzida utilizando o aplicativo Krita versão 5.2.2. REVISTA OBSERVATORIO DE LA ECONOMIA LATINOAMERICANA ISSN: 1696-8352 Page 7 REVISTA OBSERVATORIO DE LA ECONOMIA LATINOAMERICANA, Curitiba, v.22, n.6, p. 01-19. 2024. Dados de sua biologia citam que o Cryptococcus pode manifestar dois modos de reprodução em seu ciclo de vida, a reprodução assexuada, realizada pelo brotamento de células haploides, representa a fase anamórfica a qual geralmente é isolada de pacientes e do meio ambiente, e a reprodução sexuada, a qual a autora não encontrou registro da observação na natureza. No entanto, historicamente, já fora demonstrada em condições laboratoriais por Kwon-Chung & Bennet em 1992, a fase teleomórfica do fungo como Filobasidiella neoformans (condizente a C. neoformans) e F. bacillispora (condizente a C. gattii). Para esse meio de reprodução, é necessária a compatibilidade bipolar, desse modo, apresenta os alelos MAT - α e MAT- a e, ao se tratar de uma transição dimórfica, segue por duas vias distintas: Mating e Frutificação monocariótica (Idnurm, 2005; Furtado, 2012; Aguiar, 2016). Entre suas características mais evidentes, as quais também são classificadas como os principais fatores de virulência, estão a cápsula polissacarídica, o crescimento a 37 °C, a produção de melanina e a atividade de urease (Gomes et al., 2010). Adicionalmente, quanto a um dos mecanismos de patogenicidade, a termotolerância torna-se crucial, pois permite o crescimento do patógeno em tecidos de mamíferos (Silva, 2020). Entretanto, esse crescimento só é possível na presença da calcineurina, uma proteína fosfatase (regulada pela calmodulina Ca2 +) a qual desfosforila um conjunto de proteínas, permitindo a proliferação do C. neoformans nessa temperatura (Olszewski, Zhang, Huffnagle, 2010). 2.3 CARACTERÍSTICAS DA CÁPSULA Embora seja difícil realizar estudos sobre a cápsula criptocócica, dados revelam que ela é composta principalmente de água (Maxson et al., 2007; Casadevall et al., 2019). Além disso, o envoltório capsular é uma estrutura constituída por 90% - 95% de glucuronoxilomanana (GXM), 5% de galactoxilomanana (GalXM) e manoproteínas (Thammasit et al., 2018; Mukaremera, 2023). No que se refere ao mecanismo de crescimento da cápsula, este permanece indefinido. No entanto, os tamanhos podem REVISTA OBSERVATORIO DE LA ECONOMIA LATINOAMERICANA ISSN: 1696-8352 Page 8 REVISTA OBSERVATORIO DE LA ECONOMIA LATINOAMERICANA, Curitiba, v.22, n.6, p. 01-19. 2024. variar dentro das populações clonais e entre as espécies criptocócicas, bem como podem ser afetados pelas condições de cultura (Zaragoza & Casadevall, 2004). Dentre as funções, pode ser utilizada na defesa contra amebas (Casadevall et al., 2019), e também protege o fungo contra fatores de estresse, como a desidratação e radicais livres. Referente à interação do fungo com o hospedeiro, a infecção do paciente, os polissacarídeos da cápsula desempenham diversas funções como: impedir a fagocitose, a migração de neutrófilos, a apresentação de antígenos, a produção de anticorpos, a saída de leucócitos (atravésde propriedades quimioatrativas); diminuir a expressão de receptores de quimiocinas, além de induzir a apoptose das células (Zaragoza, 2019). Ademais, de acordo com McClelland, Bernhardt, Casadevall (2006) e Mukaremera (2023), a cápsula representa um dos fatores de virulência mais importante de C. neoformans, contribuindo com, aproximadamente, 25% do composto de virulência total. Dos componentes moleculares constituintes nos C. neoformans, associados a adesão, estão as manoproteínas – MPs as quais correspondem a menos de 1% do peso da cápsula criptocócica e são relacionadas como antígenos imunogênicos de hospedeiros (Rodrigues & Nimrichter, 2012). Dados associados a interação do C. neoformans, que são inalados e aderidos as células epiteliais pulmonares hospedeiras, registram um aumento a partir de moléculas relacionadas à adesão, como a fosfolipase B1 e a manoproteína (MP) 84 (Teixeira et al., 2014; Evans et al., 2015; Lee et al., 2023; Mukaremera, 2023). 2.4 PRODUÇÃO DE MELANINA Dados presentes na literatura científica revelam que a produção da melanina está relacionada ao mecanismo de evasão ao sistema imunológico do paciente, dificultando a fagocitose dos fungos, além de agravar a infecção, promovendo o neurotropismo (Gomes et al., 2010; Baker et al., 2022). A melanina tem sido reportada na proteção das células do C. neoformans de vários componentes como a radiação eletromagnética, estresse por temperatura no meio ambiente, também protege do engolfamento e morte pelos macrófagos do hospedeiro durante a infecção, além de oxidantes e a anfotericina B. É REVISTA OBSERVATORIO DE LA ECONOMIA LATINOAMERICANA ISSN: 1696-8352 Page 9 REVISTA OBSERVATORIO DE LA ECONOMIA LATINOAMERICANA, Curitiba, v.22, n.6, p. 01-19. 2024. produzida a partir da biossíntese da lacase na presença de compostos fenólicos como L- dihidroxifenilalanina (L-DOPA) e catecolaminas residentes no corpo do paciente, as quais podem promover o aumento da virulência, além da disseminação cerebral, destacando-se a dopamina, a principal responsável pela contaminação no cérebro. (Nosanchuk et al., 1999; Olszewski, Zhang, Huffnagle, 2010; Baker et al., 2022). 2.5 ATIVIDADE DA UREASE No teste de urease, a reação possibilita transformar a ureia não assimilada em uma fonte útil de nitrogênio para o metabolismo celular desse fungo, além disso, facilita a invasão cerebral e pulmonar do C. neoformans e induz respostas Th2 (Silva, 2020; Chen et al., 2022). Além das características da cápsula, a produção de melanina, e a atividade da urease, há outras enzimas apontadas pela literatura que participam ativamente da patogenicidade do C. neoformans, como a lacase que regula a oxocitose não-lítica do fungo nos macrófagos, além de distorcer as respostas das células T helper, Th1 e Th17 para o Th2; A quitina (fragmentos de quitina) que é responsável por promover respostas Th2 e inibir o influxo de neutrófilos; a enzima PLB1 (Fosfolipase B1) que promove a disseminação e inibe a morte dos macrófagos e, por fim, a CPL1 (C-terminal domain phosphatase-like 1) que promove a produção da arginase-1 e molda a polarização M2 (Chen et al., 2022). A atuação dos fatores de virulência, entre outras enzimas do Cryptococcus neoformans, pode ser vista na Figura 2, a seguir. REVISTA OBSERVATORIO DE LA ECONOMIA LATINOAMERICANA ISSN: 1696-8352 Page 10 REVISTA OBSERVATORIO DE LA ECONOMIA LATINOAMERICANA, Curitiba, v.22, n.6, p. 01-19. 2024. Figura 2: Representação micro da estrutura do C. neoformans e seus fatores de virulência Fonte: Modificado de Chen et al., (2022). Banco de Imagens dos autores (2023). Imagem produzida utilizando o aplicativo Krita versão 5.2.2. *GXM: glucuronoxilomanana; L-DOPA: L-dihidroxifenilalanina; PBL1: Fosfolipase B; CPL1: C- terminal domain phosphatase-like 1. 2.6 AVALIAÇÃO BIOQUÍMICA E SOROTIPOS Nos protocolos convencionais, a identificação e caracterização bioquímica das leveduras de C. neoformans dá-se pela produção de fenol-oxidase, que é realizada em meio ágar Níger (Guizotia abyssinica) com incubação por 5 dias a 35 °C, responsável por determinar a produção de melanina através da coloração da colônia (Andrade-Silva et al., 2010). A detecção de urease é executada no meio ureia-ágar-base de Christensen, entre 25 °C a 35 °C por no máximo 5 dias, a tonalidade rosa intenso no meio indica a presença do patógeno. Visto que ambas as espécies de Cryptococcus (gattii e neoformans) sobrevivem nessas condições, a diferenciação de ambas pode ser realizada por meio do cultivo em meio CGB (canavanina-glicina-azul de bromotimol) a 25 – 35 °C por até 5 dias, a permanência da coloração do meio indica a presença de Cryptococcus neoformans (Araújo Júnior et al., 2015; Janeck-Araujo, 2020). REVISTA OBSERVATORIO DE LA ECONOMIA LATINOAMERICANA ISSN: 1696-8352 Page 11 REVISTA OBSERVATORIO DE LA ECONOMIA LATINOAMERICANA, Curitiba, v.22, n.6, p. 01-19. 2024. Com base em análises moleculares como PCR – fingerprinting [primers M13, (GACA)4 e (GTG)5], RFLP (genes CAP59, CAP10, PLB1, URA5 e GEF1), AFLP, além de estudos sorológicos que utilizam anticorpos contra a cápsula fúngica, entre outros testes, o complexo C. neoformans e C.gattii podem ser divididos em 4 sorotipos, 9 genótipos e 4 híbridos (Bovers, Hagen, Boekhout, 2008; Da Silva et al., 2012; Hagen et al., 2015; Silva, 2020; Moretti, 2023), assim passando por uma nova classificação, como demonstrado na Quadro 1, a seguir. Quadro 1: Classificação atual do complexo C. neoformans / C. gattii Nomenclatura atual Sorotipos1 AFLP PCR-fingerprinting / RFLP Nomenclatura proposta C. neoformans var. grubii A AFLP1 VNI C. neoformans AFLP1A VNII/VNB2 AFLP1B VNII C. neoformans var. neoformans D AFLP2 VNIV C. deneoformans C. neoformans híbrido3 AD AFLP3 VNIII C. neoformans x C. deneo- formans híbrido C. gattii B AFLP4 VGI C. gattii C AFLP5 VGIII C. bacillisporus B AFLP6 VGII C. deuterogattii C AFLP7 VGIV C. tetragattii B AFLP10 VGIV/ VGIIIc C. decagattii C. neoformans var. neoformans x C. gat- tii AFLP4/VGI híbrido BD AFLP8 - C. deneoformans x C. gat- tii híbrido C. neoformans var. grubii x C. gattii AFLP4/VGI híbrido AB AFLP9 - C. neoformans x C. gattii híbrido C. neoformans var. grubii x C. gattii AFLP6/VGII híbrido AB AFLP11 - C. neoformans x C. deute- rogattii híbrido 1Baseado nos artigos de Bovers, Hagen, Boekhout, (2008); Da Silva et al. (2012) e Hagen et al. (2015). 2 Baseado nos artigos de Moretti (2023) e Hagen et al. (2015). 3 Origem a partir de duas espécies diferentes. Fonte: Modificado de Hagen et al. (2015). 2.7 ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS DE IMPORTÂNCIA À SAÚDE De acordo com o levantamento bibliográfico, o C. neoformans é encontrado mundialmente, consistindo em seu sorotipo A (VNI), a predominância nos isolamentos clínicos e ambientais. Na América Latina este sorotipo corresponde a 76,01% em pacientes de HIV, e 68,60% no meio ambiente, além disso, já foram relatados 4560 casos de criptococose na América Latina, dos quais 2038 foram só no Brasil. A taxa de REVISTA OBSERVATORIO DE LA ECONOMIA LATINOAMERICANA ISSN: 1696-8352 Page 12 REVISTA OBSERVATORIO DE LA ECONOMIA LATINOAMERICANA, Curitiba, v.22, n.6, p. 01-19. 2024. mortalidade da criptococose, no mundo, é de 41% - 61%, sendo de 30% – 60% na América Latina e chegando a 73% no Brasil (Firacative, Meyer, Casteñeda, 2021; Lizarazo & Casteñeda, 2022; Zhao et al., 2023). Apresenta como seu principal meio de propagação os excrementos de pombos (Columba livia), além de áreas como o solo e árvores frequentados por pombos, galinhas, perus, canários entre outras espécies de pássaros, não há uma relação definida entre o fungo e seu transmissor, além de que os pombos, por apresentarem uma temperatura corporal de 42 °C, são raramente infectados pelopatógeno (Buchanan & Murphy, 1998; Kwon-Chung et al., 2014; Aguiar, 2016; Rathore et al., 2022). O contágio por C. neoformans, como mencionado, afeta prioritariamente pessoas imunocomprometidas, dentre elas transplantados, pacientes com câncer ou imunossupressão e, especialmente, pacientes com HIV/AIDS, sendo o principal grupo afetado homens imunocomprometidos com infecção por HIV como principal fator de risco (Firacative, Meyer, Casteñeda, 2021). Causa o acometimento através da inalação de propágulos com diâmetros aproximados de 1 – 10 µm dispersos no ambiente, infectando o pulmão, e ficando nele alojado até que por um desequilíbrio na relação agente- hospedeiro, possa evoluir para o caso clínico de criptococose pulmonar, ou infecte o SNC, ocasionando a meningite criptococócica, o modo de infecção mais comum, que pode ser fatal se não tratado corretamente. Além disso, o C. neoformans também pode causar a criptococose cutânea (Filiú, 2002; Nielsen et al., 2005; Marques & Camargo, 2010; Rathore et al., 2022). 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS Os dados presentes na literatura científica revelam que desde a descoberta em 1894 do fungo Cryptococcus neoformans, diversas pesquisas e testes foram realizados a fim de caracterizar melhor essa estirpe, incluída a descoberta de 2 sorotipos, 4 genótipos e 1 híbrido dentro da espécie, além da identificação de suas características fundamentais, como seus aspectos morfológicos, bioquímicos e de seus principais fatores de virulência como, a produção de melanina e urease, o crescimento a 37 °C e envoltório capsular REVISTA OBSERVATORIO DE LA ECONOMIA LATINOAMERICANA ISSN: 1696-8352 Page 13 REVISTA OBSERVATORIO DE LA ECONOMIA LATINOAMERICANA, Curitiba, v.22, n.6, p. 01-19. 2024. polissacarídico, os quais são considerados relevantes para a sobrevivência e contágio do fungo. Os dados levantados são relevantes e abordam as características do C. neoformans e dos sorotipos, visto que suas propriedades específicas são de grande influência para a bioquímica, microbiologia, além da medicina, dado que esse patógeno causa infecções que podem resultar na meningite criptococócica, a qual pode ser fatal e atinge principalmente pessoas imunocomprometidas. AGRADECIMENTOS Ao Instituto Federal de Rondônia –IFRO, Campus Porto Velho Calama, aos membros do Laboratório de Microbiologia e Biotecnologia –Microbiotec e ao Centro de Estudo de Biomoléculas - CEBio/ Fiocruz, pelo apoio e colaboração. REVISTA OBSERVATORIO DE LA ECONOMIA LATINOAMERICANA ISSN: 1696-8352 Page 14 REVISTA OBSERVATORIO DE LA ECONOMIA LATINOAMERICANA, Curitiba, v.22, n.6, p. 01-19. 2024. REFERÊNCIAS AGUIAR, P. A. D. F. Caracterização de amostras de Cryptococcus neoformans e aspectos clínicos e epidemiológicos da criptococose de pacientes do Hospital de Clínicas de Uberlândia. 2016. 90 f. 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