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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS UNIDADE ACADÊMICA ESPECIAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS CURSO DE BACHARELADO EM DIREITO DISCIPLINA: SOCIOLOGIA JURÍDICA DOCENTE: EDMA JOSÉ REIS GABRIELLE BORBA SILVA O SUJEITO COLETIVO DE DIREITO E A RECONFIGURAÇÃO DO ESTADO: do pluralismo jurídico à crítica da violência e do autoritarismo no Brasil Cidade de Goiás 2025 2 Atividade não presencial Gabrielle Borba Silva1 – UFG Introdução; O presente trabalho acadêmico, inserido no campo da Sociologia Jurídica, tem por objetivo analisar a crise do paradigma individualista do Direito moderno e a emergência de novas categorias jurídicas e sociais. A discussão central fundamenta-se na articulação entre a teoria do “Sujeito Coletivo de Direito”, proposta por José Geraldo de Souza Júnior, e a análise da reconfiguração do Estado-nação frente à globalização, desenvolvida por André-Jean Arnaud e Wanda Capeller. Inicialmente, o estudo examina como os movimentos sociais, a partir de suas práticas cotidianas e lutas por reconhecimento, rompem com a abstração do sujeito de direito clássico — de raiz burguesa e excludente — para constituir uma identidade coletiva capaz de criar direitos extralegais e instituir um pluralismo jurídico. Em contrapartida, investiga- se o paradoxo do Estado contemporâneo que, embora desafiado pela ordem global, reforça seus mecanismos de controle e segurança, adaptando o Direito estatal para proteger os interesses do capital transnacional em detrimento do bem-estar social. Por fim, a análise expande-se para o contexto específico da América Latina e do Brasil, incorporando as perspectivas de Florestan Fernandes, José de Souza Martins e José Eduardo Faria. Busca-se, assim, compreender as tensões entre a busca emancipatória dos novos sujeitos coletivos e as estruturas de violência, linchamentos e autoritarismo que historicamente permeiam o sistema de justiça e a sociedade brasileira. 3 Entendimento geral dos textos: No texto de José Geraldo, intitulado “Movimentos Sociais- Emergência de Novos Sujeitos: O Sujeito Coletivo de Direito”, há uma articulação regida pelos principais argumentos, tais como: I. Contexto Social e a Emergência de Novos Atores O argumento inicial é que a literatura sociológica registrou, a partir de 1977/1978, o surgimento de práticas sociais populares inéditas na sociedade civil brasileira, apesar da repressão autoritária. • Práticas Inovadoras: Esses movimentos instauraram práticas políticas novas, abrindo espaços sociais inéditos e revelando atores capazes de se autoorganizarem e se autodeterminarem à margem ou em contraposição aos espaços tradicionais de expressão. • Novidade Sociológica: Isso levou à busca de alternativas teóricas, pois o arcabouço teórico vigente (apto a explicar a classe operária no âmbito da produção) era insuficiente para refletir as contradições expressas no âmbito da reprodução social. • O Novo Sindicalismo e Movimentos de Bairro: O surgimento do "novo sindicalismo" e dos "novos movimentos de bairro" marcou a emergência de novos sujeitos coletivos, caracterizados pela autonomia e contestação à ordem estabelecida. II. A Construção da Categoria "Sujeito Coletivo" A principal novidade temática é a emergência do sujeito coletivo, por suas implicações paradigmáticas em relação à teoria clássica (marxista e burguesa). 4 • Definição: O sujeito coletivo é uma coletividade onde se elabora uma identidade e se organizam práticas para defender interesses e expressar vontades, constituindo-se nessas lutas. • Fundamento da Ação: O movimento não é um reflexo automático de "condições objetivas", mas passa por formas de solidariedade e sociabilidade coladas na vida cotidiana. O relevante é a conjugação entre o processo de identidades coletivas e a consciência de um projeto coletivo de mudança social a partir das próprias experiências. • Reconhecimento Institucional: A Igreja Católica (CNBB) chegou a designar o povo organizado como o "sujeito coletivo da transformação social", percebendo sua condição de "sujeito da história" para o efetivo exercício da cidadania. • Criação de Direitos: Ao se constituir na própria experiência de suas lutas, o povo descobre sua capacidade de auto-organização e de autodeterminação, o que lhe permite conquistar lugares novos e, em suma, criar direitos. III. A Crítica ao Sujeito de Direito Tradicional O autor utiliza essa base sociológica para fundamentar a crítica ao conceito tradicional de sujeito de direito, que sustenta o paradigma da modernidade. • Abstração e Racionalidade: O sujeito de direito reflete uma visão de mundo iluminista, dominada pela racionalidade e pela autotransparência do "pensar em si mesmo". • Individualidade Burguesa: O conceito é despojado das marcas da concepção burguesa: a individualidade solipsista ou monádica (centro de ações livres) e o sujeito como consciência individual soberana. • Exclusão Prática: A abstração dessa noção, historicamente, resultou na alienação de categorias inteiras, como o escravo, o índio ou os "comunistas". • O Novo Sujeito (Antítese): O novo sujeito, por ser coletivo e descentralizado, é despojado das marcas da subjetividade burguesa (individualidade solipsista e consciência soberana). Ele é social, e não se apresenta como portador da 5 universalidade definida a partir de uma organização determinada (como o sindicato ou o partido clássico). IV. O Sujeito Coletivo de Direito e o Pluralismo Jurídico A emergência sociológica da categoria sustenta a hipótese de uma categoria jurídica: Sujeito Coletivo de Direito. • Pluralismo Jurídico: O novo sujeito se emancipa como sujeito de direito em um novo modo de produção do jurídico, valorizando o pluralismo. O pluralismo jurídico existe sempre que mais de uma ordem jurídica vigora no mesmo espaço geopolítico, podendo ter fundamentação econômica, étnica, ou resultar da conformação específica do conflito de classes. • Desafio ao Monopólio Estatal: O trabalho questiona o monopólio estatal de produção do direito, que repousa predominantemente na retórica de uma hipótese nunca empiricamente comprovada (exceto como exacerbação voluntarista da dinâmica do poder). • Projeto "O Direito Achado na Rua": O projeto busca compreender a atuação jurídica desses sujeitos coletivos, definir sua natureza jurídica e estabelecer novas categorias jurídicas para estruturar as relações solidárias de uma sociedade alternativa, superando as condições de espoliação e opressão. O direito de morar é citado como exemplo de direito constituído extralegalmente. O panorama geral é que os movimentos sociais, ao se constituírem como Sujeitos Coletivos a partir de suas lutas, criam direitos e desafiam a estrutura individualista e monista do Direito estatal, apontando para a necessidade de um Direito Pluralista que reconheça as novas formas de organização social da liberdade. Já no texto “A Força do Estado em Face da Globalização”, de André-Jean Arnaud e de Wanda Capeller, ocorre uma análise sociológica e jurídica detalhada sobre a força e a reconfiguração do Estado-nação e de seu Direito frente aos processos de globalização, especialmente na área de controle e repressão. 6 O entendimento geral e panorâmico é que, contrariamente à tese de seu enfraquecimento total, o Estado-nação se adapta, transforma e até reforça sua função de controle em um cenário global, mantendo o Direito estatal como um instrumento central, porém complexo e permeado por contradições (pluralismos). I. O Paradoxo do Estado: Adaptação e Reforço O argumento central questiona a visão de que o Estado está moribundo. Em vez disso, o Estado-nação demonstra uma espantosa permanênciae retorna ao cenário político, adaptando-se para: • Estado-Cidadela e Guardião: O Estado surge como o único agente capaz de resistir à nova ordem global e é o "último ator" capaz de assumir o papel de guardião contra a "invasão do global". • Estado Estratégico e Gendarme: O Estado se transforma em Estado- estratégico, desengajando-se de sua função de Estado-de-bem-estar social, mas, ao mesmo tempo, reforçando seu apoio às corporações e ao capital transnacional. Ele é instigado a desenvolver seu poder tradicional de coerção e atua como gendarme de uma ordem internacional. • Reforço Interno: Os Direitos nacionais se adaptam, sim, sempre que podem reforçar-se no âmbito interno, especialmente nas esferas de controle. II. A Reconfiguração do Direito e do Controle (O "Outro Lado da Moeda") O impacto da globalização se manifesta no Direito estatal, principalmente na área de controle e segurança, impulsionado pelos "efeitos perversos" da globalização, como a criminalidade transnacional. • Globalização do Controle: Ocorre a emergência de "mercados ilegítimos" e "trânsitos ilegais", o que exige uma redefinição da problemática do crime em escala mundial. O controle, antes instância exclusivamente estatal nacional, também se globaliza. 7 • Segurança Supranacional: Há uma mudança da lógica de segurança nacional para uma lógica de segurança supranacional, com a construção de uma "Europa da segurança interna". Novas instâncias, como o Grupo TREVI e a Europol, são criadas para fortalecer a cooperação policial e reprimir o terrorismo e a "grande criminalidade". • Conflito de Valores: Os novos mecanismos de controle, como o "espaço Schengen", buscam a abolição do controle interno das fronteiras (promovendo a liberdade), mas, paradoxalmente, reforçam os mecanismos de controle externo. Isso revela uma tendência autoritária mesmo em países de tradição democrática liberal. III. As Contradições e o Pluralismo Interno O Estado não é um bloco monolítico, e a tensão entre o global e o local gera contradições que o texto classifica como manifestações de pluralismo. • Pluralismo Interno do Estado: Existem divergências dentro do próprio Estadonação, com ordens e contra-ordens do Ministério do Interior italiano, por exemplo, prejudicando operações repressivas, caracterizando um "pluralismo interno do Estado". • Pluralismo Supra-estatal: Ocorre também divergências entre as várias legislações nacionais e no interior de acordos supranacionais como o Schengen, dando mostras da força dos Estados-nações frente aos sistemas normativos supra-estatais. O exemplo da França sobre o direito de asilo ilustra a força dos valores constitucionais nacionais contra as orientações de Schengen/Dublin. IV. . A Governança (Governance) vs. Governo (Government) O texto introduz a distinção anglo-saxã entre "governo" e "governança" para analisar a mudança na ação política. • Governo: É o exercício do poder, ligado à soberania do Estado. 8 • Governança: É definida como a soma das diversas vias através das quais indivíduos e instituições conduzem seus negócios comuns. É uma gestão coletiva/compartilhada que não está atrelada à onipotência da soberania estatal. • Regulação: A ação do Estado é vista cada vez mais como uma função reguladora, buscando a harmonia dos interesses e a coesão social, o que lhe restitui legitimidade. No entanto, o neoliberalismo também atribui uma função reguladora ao mercado, mais eficaz que o Estado, solicitando políticas de desregulação. Em suma, o Estado contemporâneo é um ator complexo, adaptável e contraditório, que mantém suas prerrogativas fundamentais e utiliza o Direito para responder aos desafios da globalização, especialmente pelo reforço do controle e da segurança. Aspectos específicos dos textos relacionados ao texto de N1; No texto de José Geraldo a teoria que propõe a categoria do Sujeito Coletivo de Direito emerge de uma profunda crítica à concepção clássica do sujeito de direito, estabelecida historicamente e consolidada pelo pensamento moderno. Esta crítica se articula em torno de dois eixos principais: a abstração conceitual do sujeito moderno e o caráter intrinsecamente excludente de suas raízes históricas. I. As Raízes Históricas da Exclusão O sistema jurídico ocidental, notadamente o romano, que serve de base para o direito contemporâneo, apesar de sua estrutura formal e racional , operava em um contexto de profunda desigualdade. • Direito Romano: A sofisticação conceitual do Direito Romano, com seu legado de conceitos lógicos e universais, conviveu com um conteúdo socialmente opressor. • O sistema era marcado por uma hierarquia rígida, na qual escravos eram legalmente tratados como coisas (propriedade) e não possuíam direitos. 9 • As mulheres eram consideradas legalmente incapazes, vivendo sob a tutela perpétua do pater familias , sem autonomia patrimonial ou política. • O pater familias detinha poder absoluto sobre a vida dos filhos e da esposa, incluindo o direito de vida ou morte. • A cidadania era restrita, e a justiça beneficiava os mais poderosos, sendo inacessível aos mais fracos. • Direito Grego: Mesmo a democracia em Atenas era limitada a uma parcela específica da população. • A maior parte da população – mulheres, escravos e estrangeiros – era excluída da participação política e jurídica, não sendo considerada sujeito de direito. • O requisito da oratória e retórica como fator preponderante nas decisões criava uma barreira prática que limitava o acesso à justiça. Esses exemplos demonstram que, historicamente, a lei serviu como um instrumento para manter desigualdades e privilégios , sendo a democracia e a inclusão ideais limitados. I. A Crítica ao Sujeito na Modernidade A noção fundamental de "sujeito de direito" no paradigma da modernidade, que se desenvolve a partir dessas raízes históricas, é marcada pela abstração e pelo individualismo. • Origem Iluminista: O conceito de sujeito de direito reflete uma visão de mundo dominada pela racionalidade, coincidindo com a noção filosófica do indivíduo como legislador de si próprio e centro de onde irradiam ações livres. • Individualidade Solipsista: O sujeito burguês é caracterizado pela individualidade solipsista ou monádica (isolada), onde a consciência individual soberana se torna o centro do intelecto. • Alienação: A abstração dessa noção não impediu que, ao longo da história, a pessoa humana que a representa fosse alienada em relação a categorias inteiras, 10 como o escravo ou os oprimidos, evidenciando o perigo da exacerbação voluntarista do poder. II. A Necessidade de um Novo Sujeito (O Coletivo) O surgimento dos movimentos sociais revelou novos atores que atuam de forma autônoma e descentralizada, o que exige um rompimento com a tradição para a criação de um sujeito novo. • Os novos sujeitos são coletivos e descentralizados, despidos da marca da individualidade. • Eles se constituem no interior dos movimentos sociais, onde indivíduos dispersos passam a se reconhecer mutuamente, agir em conjunto e definir-se a partir de suas próprias práticas. • A luta social, ao transformar carências em negações de direitos, constitui esses movimentos como criadores de direitos, que se opõem ao clientelismo e buscam uma nova organização social da liberdade. A proposta do Sujeito Coletivo de Direito é, portanto, uma resposta teórica e política à falência histórica e conceitual do sujeito individual moderno e suas raízes excludentes. Contudo, na obra de André-Jean Arnaud e de Wanda Capeller, desenvolve um argumento central sobre a emergência de novos sujeitos sociais e a necessidade de reformulação das categorias jurídicas tradicionais, culminando na proposição do Sujeito Coletivo de Direito. Os conceitos e argumentos desenvolvidospelo autor são: I. A Emergência dos Novos Sujeitos Sociais e a Crise da Teoria Clássica O autor parte do registro sociológico sobre a emergência dos movimentos sociais no Brasil a partir de 1977/1978, em um contexto de despolitização repressiva. 11 • Novas Práticas Políticas: Os movimentos instauraram práticas políticas novas, capazes de abrir espaços sociais inéditos e de revelar novos atores que se autoorganizam e se autodeterminam. Isso transformou a sociedade civil em um "espaço de liberdade". • Crise da Teoria Tradicional: O surgimento desses movimentos obrigou a uma revisão das referências acadêmicas, pois o arcabouço teórico vigente era apto a explicar apenas as contradições da classe operária no âmbito da produção, mas não as novas contradições expressas na reprodução social. • O Novo Sujeito Coletivo: A principal novidade temática é a emergência de novos sujeitos coletivos. Essa categoria se distingue da concepção clássica do proletariado (sujeito da transformação social na visão marxista). O sujeito coletivo é uma coletividade que elabora uma identidade e organiza práticas para defender interesses e expressar vontades, constituindo-se nessas lutas. II. O Fundamento Epistemológico do Sujeito Coletivo de Direito O autor articula a emergência sociológica do sujeito coletivo com a proposição de uma nova categoria jurídica. • Conjugação de Fatores: A noção de sujeito coletivo é sustentada pela conjugação entre o processo de identidades coletivas (exercício de autonomia) e a consciência de um projeto coletivo de mudança social a partir das próprias experiências. • Processo de Conquista de Direitos: O sujeito coletivo opera em um processo no qual a carência social é percebida como negação de um direito, o que provoca uma luta para conquistá-lo. Essa luta, ao valorizar a participação coletiva, constitui um movimento social contraposto ao clientelismo. • Criação de Direitos: Ao se constituir na própria experiência de suas lutas, o povo consciente descobre sua capacidade de auto-organização e autodeterminação, que lhes permite conquistar novos lugares, desenvolver uma linguagem comum, e, em suma, criar direitos. 12 • Proposição da Categoria Jurídica: A emergência sociológica da categoria sustenta a hipótese de uma categoria jurídica: Sujeito Coletivo de Direito. III. A Crítica ao Sujeito de Direito Tradicional Para legitimar o novo sujeito coletivo, o autor tece uma crítica à noção fundamental de "sujeito de direito" no paradigma da modernidade. • Individualismo Abstrato: O sujeito de direito moderno é aquele a partir do qual a pessoa humana se individualiza na estrutura abstrata da relação jurídica. Filosoficamente, reflete a visão iluminista da racionalidade e da autotransparência do "pensar em si mesmo" (Kant/Descartes). • O Sujeito Burguês: O conceito é despojado das marcas que caracterizam o advento da concepção burguesa: a individualidade solipsista ou monádica (o indivíduo isolado como centro de ações livres) e o sujeito como consciência individual soberana. • Exclusão Histórica: A abstração dessa noção historicamente alienou categorias inteiras, como o escravo, o índio, ou os "comunistas", evidenciando o perigo do voluntarismo do poder. IV. Pluralismo Jurídico e o Projeto “O Direito Achado na Rua” O autor associa o Sujeito Coletivo de Direito à teoria do pluralismo jurídico, propondo uma nova abordagem para o Direito. • Crise da Fonte Estatal: A coerência da fonte estatal do direito repousa predominantemente na retórica de uma hipótese nunca empiricamente comprovada, exceto como "exacerbação voluntarista da dinâmica do poder". • Concepção Pluralista: O pluralismo jurídico existe sempre que, no mesmo espaço geopolítico, vigoram, oficialmente ou não, mais de uma ordem jurídica. Essa pluralidade pode ter fundamentação econômica, étnica ou resultar da conformação específica do conflito de classes. 13 • O Direito Achado na Rua: O projeto busca compreender a atuação jurídica dos novos sujeitos coletivos, em uma opção teórica e política de questionamento do monopólio estatal de produção do direito. • Objetivos: O projeto visa determinar o espaço político que enuncia direitos extralegais, definir a natureza jurídica do sujeito coletivo de direito e estabelecer novas categorias jurídicas que superem as condições de espoliação e opressão. Os argumentos e conceitos centrais desenvolvidos pelos autores: Os argumentos e conceitos centrais desenvolvidos ao analisar as implicações do Neoliberalismo e da Globalização para o Direito e para os novos sujeitos sociais se concentram em um paradoxo do poder estatal e na reconfiguração do sujeito de direito. I. A Ação Estratégica do Estado-Nação no Contexto Globalizado O texto questiona a tese do enfraquecimento total do Estado-nação diante da globalização, propondo uma reconfiguração do seu papel e de sua força. • O Paradoxo do Reforço Estatal: Contrariamente a alguns teóricos, o Estado aumenta sua força quando confrontado com ataques à sua soberania, reorganizando-se como Estado-cidadela (guardião contra a invasão do global) e Estado-estratégico. o O Estado desengaja-se da função de Estado-de-bem-estar social , mas, paradoxalmente, reforça seu apoio às corporações e ao capital transnacional. • A Ideologia Neoliberal: A tese do Estado mínimo (neoliberalismo) condena toda medida protecionista como imoral e injusta, defendendo a restauração do mercado como ordem espontânea, eficaz e garantidora da liberdade. o O Neoliberalismo busca uma hegemonia cultural, difundindo a ideia de que "não há alternativa" fora do mercado. o O plano político neoliberal busca enfraquecer os sindicatos e as políticas sociais, mantendo uma força estatal forte para reprimir e fraco para proteger. 14 • Direito como Ferramenta de Controle: O Estado intensifica as políticas criminais e de controle em escala supranacional (como o Grupo TREVI na Europa), combatendo a criminalidade transnacional, mas, sobretudo, agindo para proteger o espaço da "invasão dos bárbaros". o Os Direitos nacionais se adaptam, sim, sempre que podem reforçar-se no âmbito interno. O Direito estatal não está morto. II. O Novo Sujeito na Lógica do Mercado e a Crise da Cidadania A implantação da lógica neoliberal e a reconfiguração estatal têm consequências diretas na forma como o sujeito de direito é concebido. • Transformação do Sujeito: O cidadão é transformado em consumidor e empreendedor , responsável individualmente por seu sucesso ou fracasso. o O ideal de direitos sociais universais é substituído pela ideia de autogestão e meritocracia. o O "sujeito de direitos" se converte em sujeito de deveres econômicos, pressionado pela competitividade e pelo endividamento. • Consequências Sociais e Jurídicas: Ocorre o esvaziamento dos direitos sociais previstos na Constituição e o aumento da vulnerabilidade das classes trabalhadoras, das mulheres e dos grupos subalternizados. o A desigualdade, vista como "motor natural" da economia, é legitimada. o As mães solo de baixa renda, por exemplo, sofrem com a superficialidade do Artigo 5º da Constituição, que assegura a igualdade e a dignidade apenas teoricamente, excluindo esse grupo na prática. o O crescimento da informalidade, da terceirização e da instabilidade contratual caracterizam a precarização do "novo sujeito". • A "Batalha pelas Ideias": A implantação do neoliberalismo foi um projeto deliberado e financiado para ativamente desmantelar as estruturas de proteção 15 social , mostrando a força ideológica de apresentar-se como a "única alternativa". III. A Resposta: Pluralismo Jurídico e o Conflito Estrutural Diante de um Estado que se reconfigura para proteger o capital e reforçar o controle, a Sociologia Jurídica aponta para o pluralismo.• Choque Estrutural: O problema dos "novos sujeitos" não é pontual, mas resulta de um choque estrutural: eles são esmagados por uma ordem jurídica que se pretende única e universal, mas que é particularista e serve à manutenção do status quo. • Governança e Participação: No contexto de crise, o Estado regula através de políticas públicas e garante a participação da sociedade civil (movimentos sociais) na produção da regulação jurídica. A governança (gestão compartilhada) designa a condução dos negócios que não está ligada à onipotência da soberania estatal. • O Direito da Luta: A luta desses sujeitos é a expressão viva do pluralismo jurídico, que desafia o monopólio estatal e busca a construção de um direito que seja verdadeiramente eficaz e justo. O panorama mostra, portanto, que a luta dos novos sujeitos pelo Sujeito Coletivo de Direito é a resposta social à reconfiguração do Estado como guardião do capital globalizado, um Estado que utiliza o Direito (formalista e tecnicista) para legitimar a desigualdade neoliberal e o controle social. Conclusão; A análise conjugada dos textos de José Geraldo de Souza Junior e de André-Jean Arnaud e Wanda Capeller revela o cenário de uma profunda crise paradigmática no Direito contemporâneo, centrada na inadequação do conceito tradicional de sujeito de direito. A crítica demonstra que esse sujeito, idealizado pela Modernidade como abstrato e individualista, e com raízes históricas excludentes (Direito Romano e Grego), resultou na alienação de categorias inteiras. Em resposta a essa falência conceitual e histórica 4, emerge dos movimentos sociais brasileiros (pós-1977/1978) a categoria do Sujeito Coletivo de Direito. Este é um sujeito social, coletivo e descentralizado, que se 16 constitui na própria experiência de suas lutas, elaborando identidades coletivas e criando direitos extralegalmente, como o direito de morar. Essa emergência sociológica se traduz na hipótese de uma categoria jurídica que sustenta o Pluralismo Jurídico. O Pluralismo Jurídico, que reconhece a vigência de mais de uma ordem jurídica no mesmo espaço, questiona o monopólio estatal de produção do direito e busca, através de projetos como "O Direito Achado na Rua," novas categorias jurídicas que superem a espoliação e opressão. Em paralelo, a análise da globalização revela um paradoxo do poder estatal: o Estadonação não se enfraquece totalmente, mas se reconfigura em Estado-cidadela e Estratégico, desengajando-se do bem-estar social para reforçar o apoio ao capital transnacional e intensificar o controle e a segurança supranacional. O Direito estatal é instrumentalizado para legitimar a ideologia neoliberal, que converte o cidadão em consumidor e empreendedor, aumentando a vulnerabilidade das classes trabalhadoras e legitimando a desigualdade como motor da economia. O panorama final é de um choque estrutural entre um Direito estatal formalista e tecnicista -que ignora a realidade de grupos subalternizados, como as mães solo de baixa renda- e a luta viva dos novos sujeitos pela autonomia, autodeterminação e por um Direito Pluralista. A proposição do Sujeito Coletivo de Direito é, portanto, a resposta social e teórica à reconfiguração do Estado como guardião do capital globalizado, visando a construção de uma nova organização social da liberdade. Aprofundamento: O Direito em Face da Violência e do Autoritarismo na América Latina 1. Análise Crítica e Expansão dos Conceitos: O Direito entre a Emancipação e a Barbárie A partir da compreensão da emergência do Sujeito Coletivo de Direito e da reconfiguração do Estado frente à globalização, torna-se necessário analisar como o Direito e a Justiça se manifestam concretamente nas tensões sociais brasileiras e latino-americanas. Para isso, incorporam-se as perspectivas de Florestan Fernandes, José de Souza Martins e José Eduardo Faria, culminando em uma análise comparativa sobre o fascismo. 2.1. O Direito e a Justiça na Ótica dos Movimentos Guerrilheiros e Socialistas (Florestan Fernandes) Enquanto a teoria do Sujeito Coletivo de Direito busca a emancipação e a criação de direitos dentro ou nas margens da sociedade civil, Florestan Fernandes, em Poder e Contrapoder na América Latina, analisa a perspectiva daqueles que viram no Estado burguês uma barreira intransponível pelas vias pacíficas. 17 • O Direito como Instrumento de Classe: Para Fernandes, a ordem legal na América Latina, sob o capitalismo dependente, funciona como uma “ditadura legal” das minorias privilegiadas. A lei e a ordem constitucional não são neutras; são mecanismos de preservação do status quo que bloqueiam a revolução democrática e nacional. • A Justiça dos Movimentos Guerrilheiros: Diante de um Estado que utiliza a violência institucionalizada para impedir a ascensão das massas, os movimentos guerrilheiros e partidos socialistas propõem uma “contraviolência”. A justiça, nesta ótica, não é a aplicação dos códigos vigentes, mas a destruição da ordem que gera a iniquidade. A guerrilha surge como uma “necessidade histórica dolorosa”, uma resposta à violência vinda de cima, visando a quebra da estagnação política e a instauração de uma nova ordem social baseada no socialismo revolucionário. • Conexão com o Sujeito Coletivo: Diferente do Sujeito Coletivo de Direito que busca instituir novos direitos (como o direito de morar), a perspectiva analisada por Florestan mostra o sujeito que, diante do fechamento total do sistema (fascistização do Estado), opta pela ruptura total como única forma de justiça possível. 2.2. Linchamentos: A Face Sombria da Justiça Popular (José de Souza Martins) Se por um lado temos o sujeito coletivo organizado politicamente, por outro, José de Souza Martins, em Linchamentos: a justiça popular no Brasil, revela a existência de um sujeito coletivo anômico e conservador: a multidão que lincha. • Justiça ou Vingança?: Martins argumenta que o linchamento no Brasil não é apenas desordem, mas uma tentativa paradoxal de “restabelecer a ordem” diante de um Estado ineficaz e de instituições (Polícia e Judiciário) sem legitimidade. Não se trata de uma justiça revolucionária, mas de uma justiça vingativa e supressiva. • O Justiçamento Sumário: Ao contrário do Direito estatal (que é restitutivo e visa a recuperação), a “justiça de rua” é punitiva e busca a eliminação do “outro” que rompeu o pacto social (o criminoso, o estuprador, o desviante). O linchamento é um ritual de exclusão onde a população, sentindo-se desprotegida, assume o papel de juiz e carrasco, aplicando a pena de morte que a lei oficial proíbe. • Crítica ao Sujeito de Direito: O fenômeno dos linchamentos demonstra a fragilidade da cidadania no Brasil. O sujeito que lincha não age como cidadão (sujeito de direitos e deveres), mas como membro de uma massa que nega a humanidade da vítima, suspendendo a validade dos direitos humanos em nome de uma moralidade tradicional e conservadora. 2.3. O Judiciário em Xeque: Juízes e Movimentos Sociais (José Eduardo Faria) José Eduardo Faria, em Justiça e Conflito, analisa o ponto de contato entre as demandas dos novos sujeitos coletivos e a estrutura do Poder Judiciário. 18 • O Dilema do Juiz: O Judiciário brasileiro, formado sob uma lógica liberal- individualista e dogmática, enfrenta uma crise de racionalidade ao lidar com conflitos coletivos (ocupações de terra, greves, demandas ambientais). O juiz se vê diante de um impasse: aplicar friamente a lei (muitas vezes injusta e desconectada da realidade social) ou interpretar a lei de forma criativa para atender às demandas sociais, correndo o risco de politizar a justiça. • A Resposta do Judiciário: Faria aponta que a resposta do Judiciário tem sido ambivalente. Enquanto a cúpula e a estrutura burocrática tendem ao conservadorismo e à defesa da propriedade privada individual, surgem juízes e correntes (como a MagistraturaDemocrática) que tentam usar o direito como instrumento de transformação social. No entanto, a estrutura processual arcaica e a mentalidade formalista muitas vezes resultam em uma resposta negativa às demandas dos sujeitos coletivos, tratando questões sociais complexas como meros casos de polícia ou esbulho possessório. 2.4. Análise Comparativa: O Ur-Fascismo e a Realidade Brasileira Retomando a interpretação do “Ur-Fascismo” (Fascismo Eterno) de Umberto Eco e comparando-a com a análise de Florestan Fernandes sobre o fascismo na América Latina, é possível verificar congruências alarmantes que afetam diretamente os novos sujeitos de direito. 1. Pontos de Convergência: • Medo da Diferença e do Dissenso: Eco aponta que o Ur-Fascismo cresce e busca o consenso explorando o medo natural da diferença. Florestan Fernandes descreve o fascismo latino-americano como uma “contrarrevolução preventiva” que visa aniquilar qualquer dissidência (movimentos socialistas, populares) que ameace a ordem estabelecida e os privilégios de classe. • Apelo às Classes Médias Frustradas: Eco identifica a base do fascismo em uma classe média frustrada. No Brasil, tanto nos linchamentos descritos por Martins (muitas vezes incitados por um desejo de ordem conservadora) quanto na base de apoio às ditaduras descritas por Florestan, há um apelo à “ordem” e à “segurança” contra a “ameaça comunista” ou a “ameaça da criminalidade”. • O Povo como Ficção Teatral: Para o Ur-Fascismo, o povo é uma entidade monolítica que expressa uma Vontade Comum, negando os direitos individuais. Isso se alinha à crítica de Florestan sobre como as oligarquias usam o Estado para impor uma “democracia restrita”, onde o povo real é excluído e o Estado age em nome de uma “Nação” que representa apenas os interesses da elite. 2. Implicações para os Novos Sujeitos de Direito: A congruência entre o “Fascismo Eterno” e o “Totalitarismo de Classe” brasileiro traz implicações diretas para os sujeitos estudados (movimentos sociais, sem-terra, sem- teto): 19 • Criminalização da Luta: A lógica fascista trata a reivindicação de direitos (como a função social da propriedade) não como uma disputa democrática, mas como uma ameaça à Nação. Isso legitima a repressão estatal e a violência para-estatal (jagunços, milícias). • A Negação do Pluralismo: O reconhecimento do Sujeito Coletivo de Direito exige uma sociedade pluralista. O fascismo (seja o tipo brasileiro descrito por Florestan ou o Ur-Fascismo de Eco) é anti-pluralista por natureza. Portanto, a existência plena desses novos sujeitos depende da superação das estruturas autoritárias que permeiam tanto o Estado (Judiciário conservador) quanto a sociedade (cultura do linchamento). • Conclusão da Análise Integrada: A articulação desses autores revela que a emergência do Sujeito Coletivo de Direito no Brasil ocorre em um campo minado. Ele luta contra um Estado que se reconfigura para proteger o capital global (Arnaud), enfrenta um Judiciário despreparado para conflitos coletivos (Faria), sobrevive em uma sociedade que recorre à barbárie do linchamento quando o Estado falha (Martins) e deve resistir a um autoritarismo estrutural (fascismo dependente) que historicamente impede a revolução democrática (Fernandes). Referências: SOUZA JÚNIOR, José Geraldo. Movimentos sociais – Emergência de novos sujeitos: o sujeito coletivo de direito. Pp. 255-263. In SOUTO, Cláudio. Teoria sociológica do direito e prática forense. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 1978. ARNAUD, André-Jean; CAPELLER, Wanda. A força do Estado em face da globalização. Pp. 229-246. FARIA, José Eduardo. Justiça e conflito: os juízes em face dos novos movimentos sociais. 2. Ed. Ver. E ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1992. FERNANDES, Florestan. Poder e contrapoder na América Latina. 2. Ed. São Paulo: Expressão Popular, 2015. MARTINS, José de Souza. Linchamentos: a justiça popular no Brasil. São Paulo: Contexto, 2015. 20