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24 Experiências contratransferenciais de estudantes Juliana Yurgel Valente Marília Rodrigues dos Santos Thais Galvani Todo psicoterapeuta tem diante de si desafio tempo, se sua ansiedade não for demasiada, 0 de lidar com a contratransferência. Para es- aprendizado vai se processando. tudantes que estão se iniciando no trabalho A condição de estudante (ou estagiário, psicoterápico, esta tarefa torna-se ainda mais que não será discriminado neste capítulo), de desafiadora, já que os poucos conhecimentos certo modo O protege, pois seu contato com acerca das psicopatologias e a inexperiência em pacientes ocorre sob a orientação de um lidar com esses pacientes são a regra. Neste supervisor. Porém, apesar de isso facilitar a capítulo serão abordadas as primeiras vivências aprendizagem, tal contato acaba por gerar, contratransferenciais do estudante de gradua- novamente, ansiedade e insegurança (que po- ção de psicologia e medicina, principalmen- dem ter várias causas, como medo ao desco- te no contato com pacientes nas instituições nhecido, baixa auto-estima, etc.), fazendo com psiquiátricas voltadas à internação. Tratam-se, que estudante sinta-se vulnerável pelo pou- portanto, de pacientes com doenças graves preparo que percebe em si mesmo para li- psicoses e transtornos severos de personalida- dar com pacientes internados e ambulatoriais, de -, que despertam reações intensas e varia- com variadas psicopatologias. das nos membros da equipe de atendimento. Geralmente, OS primeiros estágios de psi- Além disso, somam-se aos conflitos que cologia e medicina na área da psicopatologia estudante já possui, por sua condição de uni- ocorrem em instituições psiquiátricas. Tais insti- versitário e jovem, aqueles que a instituição tuições, de modo geral, vêem como útil traba- lhe coloca: um ambiente ansiogênico, seja pe- lho do estagiário, pois, além do interesse das los pacientes severamente comprometidos, seja equipes institucionais em promover ensino, pelas tensões grupais inevitáveis dentro da ins- existe sempre a possibilidade de estagiário tituição onde geralmente são realizados OS es- proporcionar uma nova visão, tanto da institui- tágios curriculares. ção quanto do paciente um olhar não-insti- O estudante vai aprendendo lentamente tucionalizado. Assim, questionamentos do a conhecer funcionamento do paciente e estudante a respeito do funcionamento do hos- tipo de manejo a ser utilizado com este. No pital e do tipo de manejo com pacientes são início, soa uma tarefa difícil associar que vem esclarecidos, mas também tomados como re- sendo aprendido no curso de formação com flexões pela própria instituição. Dessa manei- que é visto na prática, mas, com passar do ra, estudantes aprendem e, por outro lado,CONTRATRANSFERÊNCIA: TEORIA E PRÁTICA CLÍNICA 325 ajudam OS profissionais da instituição a repen- ção, identificação projetiva, comunicação na sar funcionamento desta. O "olhar de princi- ação, repetição de relações objetais primitivas piante" do estagiário faz questionar situações e uso da transferência e contratransferência da dinâmica institucional, que O leva, por um (Krieger e Cataldo Neto, 2005). lado, a aprender com OS profissionais e, por Este é um desafio a ser enfrentado pelo outro, a possibilitar que aprendam com ele. estagiário: iniciar sua prática em um hospital Tal olhar se estende para a contratrans- psiquiátrico é um trabalho permeado por fe- ferência: o estagiário, devido ao caráter ape- nômenos psíquicos ainda pouco compreendi- nas observador de suas práticas iniciais e à sua dos pelo aluno. Até então, todos estes fenôme- inexperiência, funciona como um "campo nos eram apenas conceitos estanques e distan- transferencial" privilegiado, pois ele está ali, tes, aprendidos na teoria. O estudante agora diante dos pacientes e da instituição, sem ne- se depara na prática com todos estes conceitos nhuma idéia preconcebida, embora isso não dinamizados e explicitados no ambiente hos- implique a ausência de fantasias. Além disso, pitalar, que pode gerar significativa ansieda- tem a possibilidade de estar junto ao paciente de (notadamente, aquela de cunho paranóide). em um ambiente um pouco mais informal, Além disso, lidar com psicóticos, drogaditos e como 0 dia-a-dia da unidade ou pátio do hos- transtornos severos de personalidade exige pital, em interação com OS outros pacientes e muito mais do que lidar com paciente neu- com a equipe hospitalar. Dessa maneira, pode rótico "padrão", que funciona de modo bem observar paciente desprovido das defesas de mais integrado. que faz uso em consulta, buscando um contro- Hinshelwood (2003, p.81) afirma que le do setting, ou seja, tal contato facilita que quando paciente chega na internação pode estudante tenha uma visão ampliada do pa- ter a fantasia "de que perdeu, ou está prestes a ciente, com mais oportunidade para que este perder, a parte boa de sua vida. Traumatizado, seja compreendido em seus processos transfe- parece não contar com nada nem ninguém bom Sua entrada a quem recorrer e procura algum objeto exter- possibilita uma nova vivência, um olhar de no compreensivo que ajude a aliviar a expe- principiante, que vai aos poucos, com O auxí- riência (...) Esta é a expectativa que um novo lio, dentre outros, da compreensão de sua paciente traz consigo quando atravessa a por- contratransferência nas supervisões, desenvol- ta da instituição psiquiátrica. O membro da ver os meios adequados para a compreensão e equipe confronta-se com estas expectativas e manejo dos pacientes. O estagiário fica res- percebe que é nele mesmo que elas serão de- trito, em um primeiro momento, apenas ao ma- positadas". Assim, toda a equipe ou um indiví- nejo da transferência, não estando ainda apto duo tornam-se objetos de transferência. para reconhecê-la e interpretá-la ao paciente, De acordo com Gabbard (1998), a apli- através de uma intervenção psicoterápica. A cação dos princípios psicanalíticos ao tratamen- supervisão, com freqüência, ultrapassa seu pa- to hospitalar fez com que a unidade psiquiátri- pel de ensino para funcionar como um conti- ca como tal deixasse de ser um mero depósito nente às ansiedades iniciais do aluno. de pacientes, transformando atendimento em um modelo por meio do qual é enfatizada a compreensão sistemática dos fenômenos dinâ- A CONTRATRANSFERÊNCIA NA micos interacionais, como os da transferência/ INSTITUIÇÃO PSIQUIÁTRICA contratransferência. Os pacientes internados em um hospital tendem a externalizar, naque- 0 início da formação dentro de uma unidade le ambiente, seu mundo interno de relações de internação psiquiátrica implica dificuldades objetais, repetindo com a equipe OS mesmos significativas, pois atendimento ao paciente padrões de relacionamento que vivenciaram no internado exige a compreensão dos mais di- meio familiar, notadamente por meio de me- versos princípios dinâmicos, como a dissocia- canismos mais primitivos, como a dissociação326 ZASLAVSKY, SANTOS & COLS. e a identificação projetiva, gerando reações contratranferenciais muito intensas na equipe. possível conter as projeções, ao invés de iden- tificar-se com elas, proporcionando, assim, a Isso torna vários membros da equipe recep- quebra do ciclo vicioso e a internalização de tores dos objetos internos neles projetados pe- relações objetais menos patológicas. los pacientes, sentindo-se coagidos a atuar Conter as projeções exige muito da equi- como se fossem tais figuras internalizadas, po- pe, nela incluído O estagiário no início de sua rém, muitas vezes, em um nível psicótico de fun- formação, O que se configura em uma situação cionamento. Particularmente, pacientes com difícil, mas necessária, de aprendizagem. Por transtornos graves de personalidade (a perso- outro lado, a equipe se oferece como modelo nalidade borderline é exemplo clássico) ten- para 0 estagiário, mostrando a melhor forma dem a se utilizar com freqüência da dissociação possível de manejar paciente e as ansieda- e da identificação projetiva para expelir 0 que des inerentes ao contato com O estagiário. Aos não podem tolerar em si mesmos. A equipe poucos, por meio de tais trocas (pelas quais assistencial é objeto de escolha mais imedia- também tem espaço a supervisão), estudan- to para tais projeções, 0 que pode levar a rea- te vai aprendendo a conter suas projeções, por ções contratransferenciais intensas e caóticas, mais difícil que essa tarefa possa parecer, reco- com as mesmas características confusionais que nhecendo e processando sua contratransferên- cia. Por meio da discussão dos casos, esta- aquelas observadas nos pacientes. É devido a essa mobilização de sentimen- giário aprende a buscar descriminar, em seus tos contratransferenciais que, segundo Krieger sentimentos, que é inicialmente seu (com ori- e Cataldo Neto (2005), independentemente da gem em seus processos inconscientes) daquilo qualidade e/ou da maturidade do funciona- que foi projetado pelo paciente. Cabe referir as conseqüências que ma- mento da unidade psiquiátrica, costumam sur- gir períodos em que ambiente terapêutico nejo inadequado da contratransferência por fica sobrecarregado. A sobrecarga no funcio- parte da equipe hospitalar pode trazer para 0 funcionamento da instituição, comprometen- namento do aparelho psíquico do terapeuta e da equipe, como, por exemplo, durante a pre- do processo de ensino-aprendizagem em que sença de um número muito grande de pacien- estagiário está envolvido. O trabalho com tes gravemente perturbados em um curto pe- pacientes regressivos, como costumam ser OS ríodo de tempo, cria dificuldades para a equi- psicóticos de modo geral, pode, às vezes, bor- rar 0 limite existente entre uma estrutura insti- pe, devido às projeções maciças, agora mais tucional organizada, que possibilita ao pacien- freqüentes. De acordo com OS autores, quanto mais disfuncional se torna a equipe de atendi- te a contenção de seus aspectos primitivos pro- mento como um todo, menos espaço interno jetados, e um ambiente contaminado pela existe para conter as projeções dos pacientes e doença mental, que estimula a dissociação. para compreender seu funcionamento. A lou- Logo, faz-se necessária a atenção constante cura do påciente como que contamina a insti- ao interjogo projetivo/introjetivo dos pacien- tes com a equipe, sem que tal esforço se trans- tuição e esta contamina a equipe e/ou vice- forme em uma forma paranóide de relação versa. Não podendo conter, a equipe atua a con- com OS pacientes, resultante, aí sim, dos as- tratransferência, criando um ciclo vicioso no qual a atuação gera menos contenção, que, por pectos projetados. sua vez, dará origem a novas atuações. No outro pólo, de acordo com Gabbard (1998), A CONTRATRANSFERÊNCIA COM PACIENTES ambiente hospitalar e relacionamento com a equipe, ao serem capazes de mostrar ao pacien- GRAVEMENTE PERTURBADOS te formas diferentes de relacionamentos inter- No início, ficam claras para estagiário ape- pessoais, oferecem novos objetos e novos mo- nas as sensações que determinados pacientes delos de identificação menos fragmentados e provocam, como tristeza, pena, impotência, dissociados. É através da compreensão dos sen- rechaço, afeição, simpatia, fraqueza, desampa- timentos contratransferenciais que se tornaCONTRATRANSFERÊNCIA: TEORIA E PRÁTICA CLÍNICA 327 raiva, etc. Frente a isso, ele fica ansioso para se sente de tal maneira equipe de que a paciente estava correndo ris- um paciente e de modo dis- Na reunião de equipe, a estagiária deu-se com com outro. Tenta manejar 0 paciente da conta de que estava sentindo-se irritada com tinto mais adequada e sabe que para isto é B., pois vinha se mantendo à distância, evi- forma necessário compreender seu funcionamento e tando contato com aquela. Percebeu, então, que sua irritação tinha a ver com sentir-se patologia. Neste contato com paciente e enganada pela paciente, "preocupando-se à sua instituição, ainda falta ao estagiário apren- toa". Seu afastamento, pela irritação que sen- a a utilizar tais sensações e sentimentos como tia, acentuara comportamento da paciente, instrumentos der para a compreensão do outro e levando-a a freqüentes ameaças de suicídio. A estagiária, compreendendo que se passa- de si mesmo diante do outro. va, pôde reaproximar-se da paciente; esta, por No contato com pacientes mais regressi- sua vez, com a reaproximação, tranqüilizou- vos, como é caso dos pacientes psicóticos, é se, diminuindo a ideação suicida. muito comum surgimento, no estudante, de Uma reação contratransferencial muito reações contratransferenciais de impotência comum no estagiário é referente a sentimen- pela difícil tarefa de lidar com pacientes com tos de ordem paternal. Money-Kyrle (1956/ distúrbios severos e fixações em fases primiti- 1996) refere-se a esse tema ao introduzir vas do desenvolvimento. Para muitos pacien- conceito de contratransferência normal, discor- tes, período da internação acaba não sendo rendo a respeito do papel paternal assumido suficiente para que seu mundo interno seja naturalmente pelo terapeuta na relação analí- reorganizado, resultando em reinternação em tica, decorrente da reativação dos conflitos in- um curto período após a alta. Os pacientes de- fantis do paciente, própria do processo psico- pendentes químicos, por exemplo, possuem a terápico. Apesar de a relação paciente-esta- característica de despertar nos que OS rodeiam giário não se desenvolver no setting analítico sentimentos de impotência: muitos deles já se tradicional, é possível, por meio da contratrans- trataram diversas vezes, mas não conseguem ferência, observar desenvolvimento de sen- abandonar a dependência. Tais situações des- timentos paternais no estagiário. A fragilidade pertam no estudante vivências repetitivas de em que se encontra paciente naquele mo- impotência e frustração, já que, em maior ou mento, pela vivência de uma internação psi- menor medida, ele investiu no processo de quiátrica, assim como pela própria caracterís- melhora daquele paciente. A frustração pode tica regressiva da patologia, faz com que trans- levar à raiva, e esta, à culpa, criando no estu- fira ao estagiário padrões de relacionamento dante uma paralisia na relação com pacien- mais primitivos. Logo, em resposta à transfe- te. Sem examinar seus próprios sentimentos rência do paciente, estagiário vivencia senti- será impossível ao estagiário sair desse verda- mentos da ordem da necessidade de cuidado, deiro "nó Neste caso, proteção e preocupação, característicos das fi- uma supervisão adequada, voltada para a com- guras materna e paterna. preensão tanto do paciente quanto do estudan- Kernberg (1995), em seu trabalho a res- te, será fundamental. O seguinte exemplo clí- peito de pacientes com transtornos de perso- nalidade (população freqüente no meio hospi- nico mostra que acabamos de afirmar: talar psiquiátrico), refere-se a essa regressão. B. era uma paciente com transtorno da perso- Para autor, quanto maior grau de regres- nalidade borderline, internada por dependên- são apresentado pelo paciente, mais ele força cia química. Inicialmente, provocava muita analista, por meio de ataques agressivos de pena na estagiária, pois se queixava bastante caráter muito primitivo, a reativar contratrans- de sua vida e dizia "ter vontade de morrer", ferencialmente seus próprios aspectos regres- afirmando que pretendia "dar um jeito nisso sivos, levando a situações de difícil manejo, já de alguma forma". Quando via a estagiária por muitas vezes, tais ataques se dão com perto, a paciente demonstrava desespero e ba- tia levemente a cabeça contra a parede, fa- ativando suas defesas narcísicas. É útil para objetivo que, de denegrir a imagem do terapeuta, zendo a estagiária avisar freqüentemente a328 ZASLAVSKY, SANTOS & COLS. terapeuta tolerar tais ataques, mantendo sua trasse na unidade para atacá-lo. Todas as confiança e segurança pessoais, mas sem ne- soas que se aproximavam eram recebidas pes- gar ódio contido na transferência do pacien- desconfiança (familiares, médicos, terapeuta com te. Winnicott (1947/1993), em O Ódio na con- ocupacional), levando Sr. F. a correr para tratransferência, comenta que, no manejo de estagiária e perguntar se não seria a pacientes psicóticos, uma grande pressão é estagiária sentia-se sobrecarregada. "mãe" A exercida sobre terapeuta, sendo importante paciente, pois tinha que tranqüilizá-lo a do que se compreenda a maneira através da qual hora, explicando quem eram tais pessoas e toda a ansiedade, de qualidade psicótica, assim que estavam ali. Quando todos pacientes por como o ódio, são produzidos naqueles que tra- iam para pátio, Sr. F. negava-se a ir, medo de ser agredido. Tais sintomas fóbico- por balham com tais pacientes. Assim, 0 trabalho paranóides ocorreram na primeira semana com pacientes psicóticos fica comprometido se internação e foram diminuindo gradualmen- de ódio despertado não for conscientizado. Aqui, te, com a ajuda da medicação. Na terceira novamente, estudante pode ser objeto de tais mana, paciente sentia-se menos ansioso se- conflitos, mesmo fora do setting tradicional, ao aceitava ir ao pátio, dependendo menos e da já lidar com pacientes com um nível de funcio- estagiária, que, sentindo-se menos sobrecar- namento psicótico: pode ocorrer a ativação de regada e exigida, passou a ver paciente de forma menos regressiva, mais madura, aspectos primitivos de sua personalidade, por se refletiu na sua forma de tratá-lo, facilitando que meio dos ataques agressivos à sua figura. Es- que o Sr. F. se comportasse de forma a contar ses ataques podem ser observados de forma mais consigo mesmo, em positivo. explícita quando paciente denigre a imagem do estagiário e a sua condição dentro da equi- Se psicoterapeuta (e, por decorrência, pe hospitalar (ao desqualificá-lo por ser estu- estudante) se mostra capaz de suportar o im- dante, por exemplo) ou de uma forma mais pacto provocado pela regressão na transferên- implícita através da negação em estabelecer um cia, tal sentimento pode transformar-se em em- vínculo ou em realizar alguma atividade pro- patia para como aspectos que paciente não posta. O estagiário deve procurar manter uma tolera em si mesmo (Kernberg, 1995). O mes- abertura interna uma capacidade de conti- mo se verifica com O estudante, que, ao longo nência voltada ao paciente, tolerá-lo em sua do contato com pacientes psicóticos, vai per- agressividade e criar um vínculo com ele. A cebendo que tolerar a regressão pode ajudar compreensão de seus sentimentos contratrans- paciente a compreender que não provocou ferenciais, seja em supervisão, seja por auto- danos na equipe, não a "enlouqueceu" e, caso reflexão, pode aliviá-lo, por um lado, e fazê-lo esteja impossibilitado de se controlar, poderá entender melhor paciente, por outro. ser contido e receberá limites necessários Muitas vezes, a mudança no tipo de vín- para estruturar-se novamente. Além disso, a culo entre estagiário e O paciente significa tolerância do estagiário ao impacto da regres- uma evolução no processo de melhora deste. são permite que ambos estabeleçam uma rela- Tal situação evidencia um progresso, que é ção positiva, na qual é oferecido ao paciente percebido estagiário por meio da mudan- um modelo de identificação mais saudável. ça de sentimentos contratransferenciais no no- tipo de relação que se estabelece entre am- bos, como podemos ver no exemplo clínico a DECODIFICANDO OS SENTIMENTOS seguir: CONTRATRANSFERENCIAIS O Sr. com fortes traços paranóides e, por isso, com dificuldades de sair de casa, foi in- Como anteriormente já havíamos afirmado, a ternado por crises de intensa ansiedade. Ime- instituição psiquiátrica é um ambiente ansiogê- diatamente, estabeleceu uma relação de de- nico por natureza, mobilizando obrigatoria- pendência com a estagiária de psicologia e com mente sentimentos e ansiedades no estudante alguns auxiliares de enfermagem: tinha que que nela estagia. Isto é observado nas supervi- ficar perto deles, pois temia que alguém en- sões comumente realizadas, tanto na institui-CONTRATRANSFERÊNCIA: TEORIA E PRÁTICA CLÍNICA 329 do estágio quanto na universidade. A su- A paciente L., de 17 anos, internada por de- pervisão ção torna-se um momento de elaboração, pendência química e com grave transtorno de só da angústia dos pacientes, projetadas conduta, comportava-se, durante a internação, não equipe e/ou no estagiário, mas também da de forma exigente e provocadora, tentando na angústia de cada um em particular, gerada a sempre quebrar as regras da unidade. Um dia, conversando com a estagiária, L. reclamou partir da mobilização de conflitos prévios acio- enfaticamente sobre a impossibilidade de des- nados pelo contato com a patologia dos pa- cer ao pátio. A estagiária, naquele momento, cientes. "esqueceu" que não deveria deixar a paciente As dificuldades na vinculação/desvincu- descer antes do previsto e acompanhou a lação de alguns pacientes, a angústia pela per- paciente até lá. Lá chegando, percebeu que da de um deles (por alta, fuga ou suicídio), fora envolvida pela paciente, sendo aparente- mente "boa" com ela, tentando evitar ser "mal- entusiasmo com algumas atividades, manejo vista", e atuando, portanto, OS aspectos de ora adequado ora inadequado, a pouca infor- conduta nela projetados (rompendo, como a mação teórica, etc., tudo contribui para tornar paciente costumava fazer, com as regras da 0 período de estágio um momento pleno de instituição). emoções diversificadas. Com a ajuda do su- pervisor, estudante consegue organizá-las de Os sentimentos despertados pelo pacien- forma a transformá-las em um efetivo apren- te acabam por fornecer informações sobre seu dizado. Na supervisão, estudante aprende, mundo interno que, como diz Kernberg (apud em paralelo com a aplicação prática do que Zaslavsky, 2005), podem ser usadas como im- antes era apenas teoria, a "decodificar" seus portante instrumento diagnóstico e terapêuti- sentimentos contratransferenciais, percebendo fornecendo informações sobre grau de que muitas das reações despertadas tinham regressão do paciente. uma origem no mundo interno do paciente, Com um paciente paranóide, muitas ve- eram projeções de sentimentos que estagiá- zes estagiário se depara com situações em rio, por meio do mecanismo de identificação que sente necessidade de dar explicações de- projetiva e introjetiva, sentiu como seus. talhadas a respeito de algo para que este não Durante as supervisões podem ocorrer desconfie dele. Porém, ao perceber que pa- processos paralelos que, de acordo com ciente continua a sentir-se perseguido e/ou Zaslavsky e Britto (2005), caracterizam-se por ameaçado, e que essa sensação de "dever" algo quebrar 0 enquadre da supervisão. Para estes a ele se repete mais vezes, inclusive com ou- autores, 0 padrão de relacionamento entre su- tros membros da equipe, aprende que tal sen- pervisionando e supervisor pode ser influen- timento contratransferencial é um indicativo ciado por variáveis do campo transferencial dos de diagnóstico. Por isso, é importante ter co- pacientes supervisionados. Conflitivas incons- nhecimento do diagnóstico de cada patologia, cientes não-elaboradas podem ser atuadas atra- para entendermos que tais reações são comuns vés do aluno com 0 supervisor, como uma for- em determinados quadros patológicos. A se- ma de comunicação inconsciente. guinte vinheta procura demonstrar que aca- Para estudante, as manifestações pa- bamos de descrever. recem ser por vezes muito sutis, e geralmente são apontadas pelo supervisor. São exemplos disso atrasos, faltas, narrações excessiva- A paciente M. tinha de que conhe- cia a estagiária desde a infância e eram ami- mente detalhadas ou muito sucintas e desâni- gas. A estagiária preocupava-se, inicialmen- mo, entre outras situações que ocorrem no es- te, em esclarecer para M. que não era assim, paço de Fontoura e colaboradores que ela estava enganada, por pensar ainda de (1983) mo afirmam que sentimentos de desâni- forma confusa, em função de sua doença. e mau desempenho do estudante podem Diante da inabalável de M., a esta- apontar para uma identificação deste com giária percebeu estar mais ansiosa com aspectos ilustra do paciente psicótico, como pectos psicóticos da paciente do que a os as- exemplo clínico a seguir: pria, buscando esclarecimento do pró- Pôde, então, aceitar M. com sua "engano". Pas-330 ZASLAVSKY, SANTOS & COLS. sou a manejar a paciente de forma mais obje- timentos provenientes de uma contratransfe- tiva, dizendo, por exemplo: "Bem, se você quer acreditar que é assim, tudo bem; já lhe expli- rência em que aspectos da história do terapeu- quei que eu acho". ta estão sendo repetidos no presente, dos sen- timentos despertados no terapeuta por uma A condição de estagiário com freqüência contratransferência reativa à transferência de faz o estudante sentir-se inseguro em relação conteúdos inconscientes do paciente, reações ao paciente, como se fosse insuficiente que que possivelmente são despertadas, em boa medida, em todos com OS quais ele estabelece tem para oferecer, pela sua posição, freqüente- contato (Gabbard, 1998). A partir de tal dife- mente limitada a pouco mais que observação. O estagiário não apresenta ainda conhecimen- renciação, quando esta for possível, estagiá- to suficiente para fazer intervenções, O que rio se encontrará mais apto para a sua tarefa de compreensão do paciente. acaba restringindo suas ações e despertando nele sentimentos de impotência e autodesvalia. Outro recurso útil para a compreensão da contratransferência é mecanismo de identi- Sentimentos como esses são muito comuns ficação projetiva, como uma reação do tera- quando se acompanham pacientes com fun- cionamento depressivo; sentimos-nos impoten- peuta à transferência do paciente, já que tes, incapazes e vazios em relação ao outro, tal terapeuta passa a sentir-se como uma repre- sentação projetada a partir do mundo interno como eles se sentem. São projeções do pacien- do paciente e da forma como ele estabelece te, que faz do estagiário O receptor de tais sen- suas relações com objetos, sentindo-se coa- timentos, buscando, com isso, livrar-se de suas gido a desempenhar O papel atribuído a ele. partes depressivas, sentidas como mortas. Des- Assim, a identificação projetiva pode ser reco- sa forma, deve-se estar atento para os senti- nhecida quando terapeuta observa em si sen- mentos de maneira a compreendê-los, por um timentos ou reações estranhas, diferentes das lado, como pessoais, mas, por outro, como re- que habitualmente tem com os outros pacien- sultantes também da interação com aspectos tes. A compreensão dessas emoções é de ex- do paciente. trema importância, pois coloca terapeuta em De acordo com Hartke (1989), ao final maior contato com mundo interno do pa- de progressivos movimentos de elaboração no ciente (Gabbard, 1998). No caso do estagiá- seu próprio mundo interno e depois da repro- rio, devido à pouca experiência, torna-se inviá- jeção desses sentimentos para paciente, vel a utilização desse método de análise das terapeuta experimenta uma sensação prazerosa reações estranhas ou diferenciadas das habi- de labor produtivo e paciente sente-se en- tualmente vivenciadas pelo psicoterapeuta no tendido e tratado. Na tentativa de transpor essa contato com seus diversos pacientes. Logo, dinâmica para as vivências do estagiário, na estagiário deve se servir dos recursos que se decodificação dos sentimentos contratransfe- encontram disponíveis para ele, como, no caso renciais, podemos dizer que essa sensação de da internação psiquiátrica, a comparação dos labor produtivo, descrita pelo autor, ocorre sentimentos despertados contratransferencial- quando se dá a compreensão de que muitas mente no contato com diversos pacientes lá das reações que experimenta na relação com internados. Essa análise comparativa, emba- paciente são frutos da transferência/contra- sada em um processo de supervisão, se consti- transferência. tui como um importante instrumento na bus- Bion (citado por Zaslavsky, Nunes e ca do estagiário por identificar e compreender Eizirik, 2005) considera aprender a partir da as diferentes patologias psíquicas e, com isso, experiência na supervisão como essencial no as pequenas nuances existentes entre alguns desenvolvimento de uma experiência emocio- transtornos psíquicos. nal capaz de produzir mudanças comportamen- Assim, quando um paciente está interna- tais também no supervisionando. do, 0 estudante pode conhecê-lo, não só pela Neste contexto, deve-se ressaltar a impor- forma como ele interage, como também pelo tância de tentar diferenciar as reações e os sen- relacionamento que estabelece com os outrosCONTRATRANSFERÊNCIA: TEORIA E PRÁTICA CLÍNICA 331 unidade e da a equipe equipe de e pelo atendimen- que OS O estudante sente-se impotente frente aos pacientes da do relato sentimentos que paciente desperta nele e não to. pacientes trazem espontaneamente ao pode evitá-los. Por essa razão, exame de seus outros estudante a respeito do paciente, torna-se per- conflitos e fantasias é tão importante, pois, uma se a contratransferência do estudan- vez identificados e compreendidos os sentimen- ceptível relação ao paciente é similar à dos de- tos contratransferenciais, torna-se mais fácil te em Assim, este "trabalho mental de elabo- perceber paciente em seu funcionamento, o do estagiário, de compreender 0 pa- que possibilita evitar a atuação do estudante. ração" através da contratransferência, torna- ciente uma auto-reflexão extremamente importan- se seu aprendizado, no momento em que CONSIDERAÇÕES FINAIS te ele para compreende a psicopatologia e a psicodi- nâmica do paciente em questão. Os primeiros contatos com pacientes severa- instrumento de trabalho do terapeuta é mente comprometidos em um hospital, no iní- sua própria pessoa, portanto a supervisão tem cio da formação, são geralmente muito signifi- a papel fundamental no aprimoramento da cativos para 0 estudante. Tais pacientes, ape- técnica um terapêutica, representando uma impor- sar da sua regressão, marcam de maneira tante experiência de aprendizagem e crescimen- afetiva nossas memórias com seus aspectos ca- to. Além de se caracterizar como um momento racterológicos e 0 jeito singular de cada um. de aprendizagem, a supervisão também se cons- São primeiras experiências que serão levadas titui em um espaço para a elaboração de senti- para a formação profissional, fornecendo mentos dolorosos que acompanham este apren- suporte para lidarmos com outros pacientes dizado. Fontoura, Zaslavsky e colaboradores mais tarde. (1983) acrescentam que a fantasia inicial dos Somos muito mais semelhantes do que estudantes é de encontrar no supervisor um diferentes dos nossos pacientes, já que 0 funcio- modelo idealizado e estereotipado de terapeuta, namento psicopatológico se constitui como como se ele detivesse uma "fórmula mágica" de ampliações ou distorções dos mecanismos en- como lidar com paciente. Isto se dá devido à volvidos no funcionamento normal de todos inexperiência no manejo com paciente psiquiá- indivíduos (Gabbard, 1998). São esses as- trico por parte do estudante. pectos similares que possibilitam que es- Segundo Eizirik e Zaslavsky (1989), é tudante se identifique e empatize com deter- importante que se tenha clara a noção de um minados pacientes, como também deles se limite, de que não cabe ao supervisor investi- diferencie. gar a origem desses sentimentos, e sim utilizá- No início, estagiário vivencia um con- los tendo em vista a compreensão do paciente, junto indistinto de sentimentos em relação ao como já foi amplamente discutido nos Capítu- paciente, que, aos poucos, vão sendo elabora- los 21 e 22. Nesse sentido, destaca-se a impor- dos e utilizados para a compreensão deste. tância de supervisionando poder fazer trata- paciente repete com estagiário seu mundo mento pessoal, para que, quando, na supervi- de relações objetais internas, que deve buscar são, forem identificados aspectos pessoais, eles compreender, sendo OS fenômenos de transfe- possam ser levados para um local mais apro- rência/contratransferênci uma das formas mais úteis para alcance dessa compreensão. priado ao processo de compreensão. O supervisor ocupa um papel central nesse pro- Portanto, além da supervisão, tratamen- to pessoal se torna de extrema importância para cesso, já que é ele que, no início, decodifica aquele que começa a trabalhar com sofrimen- para O estagiário seus sentimentos contratrans- ferenciais. Além disso, a escuta dos membros to psíquico do outro, podendo encontrar na psicoterapia ou análise um local adequado para da equipe enriquece a compreensão dos casos, tratar das ansiedades decorrentes do contato facilitando a aprendizagem do estagiário. O olhar de principiante à contratransfe- com pacientes e uma situação privilegiada para trabalhar sua contratransferência. rência é um olhar inexperiente, porém livre de332 ZASLAVSKY, SANTOS & COLS. de orientação analítica: Teoria e prática. Porto Ale- idéias pré-formuladas, que coopera para que tenha uma visão não-institucionalizada do gre: Artmed. Hinshelwood, R. D. (2003). O que acontece nos gru- entendimento do outro envolto em um olhar paciente se e do hospital. O estudante busca pos: Psicanálise, O indivíduo e a comunidade. São Paulo: Via Lettera. de curiosidade, de desejo para compreender e Kernberg, O. (1995). Transtornos graves de persona- saber mais e, assim, aprende a utilizar seus lidade: Estratégias psicoterapêuticas. 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