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Psicologia Escolar e Educacional — 10º Semestre RESENHA ACADÊMICA Nome do(a) Estagiário(a): Generated by Gemini Notebook (Espaço para preenchimento) Data de Entrega: 17 de agosto de 2026 Referência Bibliográfica (ABNT): LIBÂNEO, José Carlos. O dualismo perverso da escola pública brasileira: escola do conhecimento para os ricos, escola do acolhimento social para os pobres. Educação & Pesquisa, São Paulo, v. 38, n. 1, p. 13-28, jan./mar. 2012. 1. Introdução O artigo científico intitulado "O dualismo perverso da escola pública brasileira: escola do conhecimento para os ricos, escola do acolhimento social para os pobres", de autoria do renomado educador brasileiro José Carlos Libâneo, doutor em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), foi publicado no ano de 2012 na revista Educação e Pesquisa (v. 38, n. 1, p. 13-28). O trabalho situa-se metodologicamente no campo das análises crítico-pedagógicas da escola pública de ensino fundamental no Brasil. O contexto histórico abordado compreende o período de aproximadamente vinte anos decorridos desde a realização da Conferência Mundial sobre Educação para Todos em Jomtien, na Tailândia, em 1990. Libâneo investiga como os planos e diretrizes governamentais das gestões federais de Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva incorporaram as premissas e os acordos de organismos internacionais, demonstrando o impacto direto dessa assimilação no declínio e na estruturação da dualidade perversa da rede de ensino público nacional. 2. Resumo da Obra A tese central defendida por Libâneo é de que as reformas educativas implementadas no Brasil nas últimas três décadas institucionalizaram uma escola de "duas velocidades". Por um lado, há uma escola voltada ao desenvolvimento cognitivo de alto nível, assentada no domínio conceitual do conhecimento científico, na tecnologia e na aprendizagem avançada, destinada essencialmente aos filhos das classes ricas e dominantes. Por outro lado, para os setores populares menos favorecidos economicamente, instituiu-se uma escola esvaziada de conteúdo intelectual, convertida em um mero espaço de convivência, acolhimento socioassistencial, integração social e transmissão de competências mínimas para a sobrevivência. Na análise do autor, essa divisão constitui um dualismo perverso por atuar na reprodução direta e permanente das desigualdades sociais de classes. A gênese desse dualismo é traçada a partir da Conferência Mundial sobre Educação para Todos de Jomtien (1990). Libâneo aponta que os documentos originais, embora cobertos por uma atraente retórica humanista de democratização e atendimento a necessidades básicas de aprendizagem, passaram por um profundo processo de "encolhimento" pelas agências de fomento, lideradas pelo Banco Mundial. Sob a égide de uma racionalidade puramente econômica e de ajuste estrutural, a visão ampla original foi reduzida para converter a "educação para todos" em "educação para os mais pobres" e a "satisfação de necessidades básicas de aprendizagem" no ensino de habilidades mínimas e instrumentais de sobrevivência imediata. Consequentemente, a educação deixa de ser compreendida como um fenômeno cultural e histórico ligado ao desenvolvimento da inteligência e do pensamento conceitual para ser tratada como um serviço elementar e naturalizado. No cenário brasileiro, essa agenda foi primeiramente absorvida no Plano Decenal de Educação para Todos (1993-2003) durante o governo de Itamar Franco e continuada com vigor nas gestões de FHC e de Lula, resultando na implantação de medidas como os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), o Fundef/Fundeb, ciclos escolares fundamentados no princípio da "socialidade" (onde a convivência substitui o foco no saber) e avaliações em larga escala que priorizam o rendimento quantitativo em detrimento dos processos efetivos de aprendizagem. Sob o pretexto humanitário de promover a "educação inclusiva" e o acolhimento da diversidade cultural, esvaziou-se o papel do ensino e enfraqueceu-se a formação acadêmica geral. Paralelamente, promoveu-se a precarização salarial e o aligeiramento da formação de professores — reduzidos a profissionais tarefeiros treinados com manuais e pacotes de "kits" pedagógicos básicos. 3. Análise Crítica A principal contribuição e originalidade do artigo residem na proposição de uma análise predominantemente pedagógica da qualidade da escola pública. Libâneo ultrapassa o diagnóstico sociológico ou macroeconômico puramente externo ao discutir minuciosamente os fatores intraescolares da aprendizagem escolar e a didática. Dessa forma, ele expõe de maneira lúcida como as orientações dos organismos de financiamento neoliberal alteraram diretamente as engrenagens da sala de aula, forçando o "transbordamento de objetivos" assistenciais e reduzindo o papel central do professor na mediação cognitiva de alto nível. Essa denúncia de que as políticas neoliberais promovem uma "socialidade capitalista" é fundamental para que profissionais da educação e da psicologia de orientação crítica possam identificar o caráter ideológico de propostas que, sob termos bonitos de "equidade" e "gestão descentralizada", barateiam a instrução dos pobres. O texto se destaca também pela robustez teórica na fundamentação de seus argumentos. Libâneo utiliza-se da teoria histórico-cultural fundada por Lev Vygotsky para restabelecer a centralidade do ensino na formação do pensamento conceitual. Ele demonstra cientificamente que o desenvolvimento intelectual não é espontâneo ou biológico, mas decorre da apropriação consciente do patrimônio científico, artístico e cultural da humanidade, um processo que depende da linguagem e da mediação pedagógica intencional. Ao defender uma escolarização igualitária e de alto nível para sujeitos culturalmente diversos, amparado em intelectuais como Bernard Charlot e Gimeno Sacristán, o autor desconstrói a farsa de uma inclusão que não ensina e que, portanto, condena as vítimas do fracasso escolar a uma exclusão futura mascarada por certificados escolares vazios. Ainda que o texto possua extrema lucidez analítica, pode-se registrar como limitação certa dificuldade de traduzir em estratégias políticas de curto prazo a complexa conciliação proposta em suas considerações finais. A articulação entre um currículo de forte base conceitual comum e o acolhimento das práticas socioculturais e da diversidade regional exige uma superação estrutural do "pensamento único" hegemônico dos formuladores de políticas governamentais. No entanto, esta limitação não retira o mérito heurístico da obra. Trata-se de uma análise escrita com prosa fluida, de altíssima qualidade teórica e excelente organização, cuja leitura permanece extremamente atual diante do avanço contínuo do desmonte das redes de ensino público. 4. Conclusão Em suma, "O dualismo perverso da escola pública brasileira" é um artigo de valor científico indiscutível, cuja leitura é indispensável e altamente recomendada para estudantes, professores e pesquisadores da área de educação, assim como para psicólogos escolares em formação crítica. A obra se afirma como uma ferramenta fundamental para desconstruir as lógicas de exclusão interna que vigoram na escola brasileira contemporânea. Libâneo cumpre com louvor seu propósito de fundamentar um posicionamento ético e político inabalável na luta pela educação: o de que não pode haver verdadeira justiça social ou exercício efetivo de cidadania sem que todas as crianças, independentemente de sua classe de origem, tenham garantido o pleno direito ao conhecimento universal sistematizado. Página