Prévia do material em texto
1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE CAMPINA GRANDE CENTRO DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES CAMPUS DE CAJAZEIRAS/PB UNIDADE ACADÊMICA DE ENFERMAGEM (UAENF) CURSO DE BACHARELADO EM ENFERMAGEM SEMESTRE: 2026.1 ANTHONY RODRIGUES DA SILVA ERIANE GONÇALVES MONTEIRO MARIA VITÓRIA ALVES DE SOUZA TOXOPLASMOSE: Uma abordagem sobre sua relevância em saúde pública CAJAZEIRAS-PB 2026 2 ANTHONY RODRIGUES DA SILVA ERIANE GONÇALVES MONTEIRO MARIA VITÓRIA ALVES DE SOUZA TOXOPLASMOSE: Uma abordagem sobre sua relevância em saúde pública Trabalho apresentado à disciplina de Parasitologia, da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) – Campus de Cajazeiras/PB, do Curso Bacharelado em Enfermagem, como exigência parcial para obtenção de nota e conclusão da disciplina do semestre 2026.1. Ministrante: Prof. Geofabio Sucupira Casimiro. CAJAZEIRAS-PB 2026 3 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 4 2 OBJETIVOS ........................................................................................................................ 5 2.1 Objetivos Gerais ............................................................................................................. 5 2.2 Objetivos Específicos ..................................................................................................... 5 3 REFERENCIAL TEÓRICO .............................................................................................. 6 3.1 Contexto histórico da Toxoplasmose ............................................................................. 6 3.2 Morfologia ...................................................................................................................... 8 3.3 Habitat .......................................................................................................................... 10 3.4 Ciclo Biológico ............................................................................................................ 11 3.5 Transmissão .................................................................................................................. 12 3.6 Patogenia ...................................................................................................................... 13 3.7 Diagnóstico Clínico e Laboratorial .............................................................................. 16 3.8 Imunidade ..................................................................................................................... 21 3.9 Epidemiologia .............................................................................................................. 22 3.10 Exames Laboratoriais ................................................................................................. 25 3.11 Medidas Profiláticas ................................................................................................... 28 3.12 Tratamentos ................................................................................................................ 29 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................ 31 REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 33 4 1 INTRODUÇÃO A toxoplasmose é uma zoonose de importância médica e epidemiológica causada pelo protozoário intracelular obrigatório Toxoplasma gondii, de distribuição mundial e alta prevalência sorológica em humanos e animais. Embora a maioria das infecções em indivíduos imunocompetentes seja assintomática, a doença apresenta risco elevado para gestantes, recém- nascidos e pessoas imunodeficientes, podendo levar a manifestações graves como encefalite, retinite, lesões neurológicas e, em casos extremos, morte (NEVES, 2022). Esse perfil clínico reforça a relevância do conhecimento detalhado sobre o parasito, seu ciclo de vida e suas formas de transmissão. A relevância do estudo da toxoplasmose vai além do indivíduo infectado, abrangendo aspectos de saúde pública, vigilância epidemiológica e controle ambiental. A identificação precoce de gestantes soronegativas, a análise de hábitos alimentares e o manejo de felídeos domésticos são fatores cruciais para reduzir a transmissão e prevenir complicações graves. 5 2 OBJETIVOS 2.1 Objetivo Geral Analisar a toxoplasmose causada por Toxoplasma gondii, abrangendo seus aspectos históricos, morfológicos, biológicos, clínicos, imunológicos, epidemiológicos, diagnósticos, profiláticos e terapêuticos, com base no capítulo do livro Parasitologia Humana, 14ª edição, de David Pereira Neves. 2.2 Objetivos Específicos • Compreender o conceito histórico da toxoplasmose e a descoberta do T. gondii. • Descrever detalhadamente as formas morfológicas e os habitats do parasito. • Explicar o ciclo biológico completo, incluindo fases sexuada e assexuada. • Identificar as principais vias de transmissão da infecção em humanos. • Analisar a patogenia e manifestações clínicas em diferentes grupos de risco. • Apresentar métodos de diagnóstico clínico e laboratorial, incluindo sorologia e PCR. • Discutir os mecanismos imunológicos e respostas do hospedeiro. • Revisar a epidemiologia global e brasileira da toxoplasmose. • Indicar medidas profiláticas e terapêuticas para os diferentes quadros clínicos. 6 3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 3.1 Conceito Histórico da Toxoplasmose A história da toxoplasmose inicia-se no início do século XX, quando o parasito Toxoplasma gondii foi descrito de forma independente por diferentes pesquisadores em 1908. Charles Nicolle e seu assistente Louis Manceaux, apresentados na Figura 1, identificaram o protozoário em roedores na Tunísia. Esse achado inicial foi fundamental para estabelecer o reconhecimento de um novo protozoário intracelular, posteriormente nomeado oficialmente em 1909 como Toxoplasma gondii (NEVES, 2024). Figura 1: Charles Nicolle e Louis Manceaux, responsáveis pela descrição inicial do Toxoplasma gondii. Fonte: adaptado de Wikimedia Commons. Durante as primeiras décadas após sua descrição, o parasito recebeu pouca atenção científica, em grande parte devido à dificuldade de estudo de organismos intracelulares obrigatórios. Apenas na década de 1930 começaram a surgir evidências mais consistentes sobre sua importância clínica e biológica. Estudos experimentais demonstraram que o parasito podia ser transmitido entre animais de laboratório por inoculação de tecidos infectados, consolidando a hipótese de sua natureza sistêmica e infecciosa. Um marco importante ocorreu em 1937, quando foram descritas formas clínicas humanas associadas ao parasito, especialmente em casos neurológicos e congênitos. Esse período também marcou o início da compreensão de que o T. gondii era capaz de infectar uma ampla variedade de hospedeiros vertebrados. Segundo autores clássicos da parasitologia, como Rey (2008), esse foi o ponto de transição em que a toxoplasmose passou de curiosidade laboratorial para problema de saúde pública. Na década de 1940, o desenvolvimento do teste de Sabin e Feldman representou um avanço decisivo para a parasitologia médica. Esse método permitiu a detecção de anticorpos específicos e revelou a alta prevalência da infecção em humanos e animais. A partir desse 7 momento, a toxoplasmose passou a ser reconhecida como uma das zoonoses mais disseminadas globalmente, com impacto significativo na medicinahumana e veterinária. No contexto brasileiro, a toxoplasmose também passou a ser estudada de forma mais aprofundada ao longo do desenvolvimento da parasitologia médica no país. As primeiras observações do parasito em território nacional estão associadas às descrições de Alfonso Splendore, visto na Figura 2, que identificou estruturas compatíveis com Toxoplasma gondii em coelhos, reforçando a simultaneidade dos achados científicos em diferentes regiões do mundo. Esse fato contribuiu para consolidar o Brasil como um dos locais importantes na história inicial do conhecimento sobre o parasito. Figura 2: Alfonso Splendore. Fonte: adaptado de FAMILYSEARCH (s.d.). Posteriormente, a toxoplasmose ganhou maior destaque no cenário científico brasileiro a partir da contribuição de pesquisadores nacionais no estudo da transmissão e dos aspectos clínicos da infecção. Entre esses estudos, destacam-se as pesquisas realizadas em instituições de referência, como universidades públicas e centros de pesquisa em saúde, que passaram a demonstrar a ampla disseminação do Toxoplasma gondii na população brasileira. Segundo Neves (2024), o reconhecimento da toxoplasmose como problema de saúde pública no Brasil está diretamente associado à elevada soroprevalência observada em diferentes regiões do país. Além disso, a literatura descreve que a consolidação do conhecimento sobre toxoplasmose no Brasil também foi impulsionada pela identificação de casos congênitos e surtos relacionados a fatores ambientais, especialmente contaminação hídrica e alimentar. Esses eventos reforçaram a importância da vigilância epidemiológica e da investigação de fontes de infecção, contribuindo para o fortalecimento das políticas de controle da doença no país. A partir dessas evidências, a toxoplasmose passou a ser reconhecida não apenas como uma infecção parasitária comum, mas como um importante problema de saúde coletiva. Atualmente, o Brasil é considerado uma das regiões de maior relevância epidemiológica para a toxoplasmose, devido à elevada prevalência da infecção e à diversidade de fatores de risco presentes na população. Esse cenário reforça a importância dos estudos nacionais na 8 compreensão da dinâmica de transmissão do Toxoplasma gondii, especialmente em contextos de desigualdade social e sanitária. Dessa forma, o desenvolvimento histórico da toxoplasmose no Brasil está diretamente ligado à evolução da parasitologia médica e ao fortalecimento da pesquisa científica em saúde pública (REY, 2008; NEVES, 2024). 3.2 Morfologia O Toxoplasma gondii apresenta uma morfologia complexa e altamente adaptada ao parasitismo intracelular, variando de acordo com seu estágio evolutivo. As principais formas são os taquizoítos, bradizoítos e oocistos, cada uma com características estruturais e funcionais específicas. Essas formas pertencem ao filo Apicomplexa, caracterizado pela presença de organelas especializadas no processo de invasão celular. Os oocistos (Figura 3) são formas de resistência eliminadas nas fezes dos felídeos. Inicialmente são liberados imaturos, mas após esporulação no ambiente tornam-se infectantes. Cada oocisto contém dois esporocistos com quatro esporozoítos cada, sendo altamente resistentes às condições ambientais. Figura 3: Ooscisto de Toxoplasma gondii (microscópia). Fonte: adaptado de ResearchGate. Os taquizoítos, apresentados na Figura 4 e Figura 5, têm a forma de multiplicação rápida e são predominantes na fase aguda da infecção. Apresentam formato de meia-lua, com extremidade anterior afilada e posterior mais arredondada, medindo aproximadamente 2 por 6 micrômetros. Possuem núcleo central e organelas típicas do complexo apical, responsáveis pela invasão ativa das células hospedeiras. Essa forma é altamente sensível às condições ambientais e ao suco gástrico. 9 Figura 4: Taquizoítos de Toxoplasma gondii. Fonte: adaptado de ResearchGate. Figura 5: Esquema estrutural do Toxoplasma gondii (forma taquizoíto). Fonte: adaptado de Dreamstime. Os bradizoítos, por outro lado, são formas de multiplicação lenta presentes em cistos teciduais (Figura 6). Estão localizados principalmente em tecidos como cérebro, músculos esqueléticos e retina, podendo permanecer viáveis por longos períodos. Esses cistos possuem parede resistente e atuam como importante mecanismo de manutenção da infecção crônica no hospedeiro, sendo resistentes à resposta imunológica e a alguns fármacos. Figura 6: Bradizoítos de Toxoplasma gondii em tecido do Sistema Nervoso. Fonte: adaptado de UNICAMP (Anatomia Patológica). Do ponto de vista ultraestrutural, o parasito apresenta o complexo apical, composto por estruturas como conoide, micronemas e roptrias, que atuam na adesão e invasão celular. Além disso, destaca-se o apicoplasto, organela derivada de endossimbiose, envolvida na síntese de ácidos graxos e aminoácidos essenciais à sobrevivência do parasito. Segundo Neves (2024), essas estruturas são fundamentais para o sucesso do parasitismo intracelular. A formação do vacúolo parasitóforo é outro elemento central da morfologia funcional do parasito. Após a invasão celular, o T. gondii modifica a membrana da célula hospedeira, 10 criando um ambiente protegido contra a fusão com lisossomos. Esse mecanismo garante a sobrevivência e multiplicação intracelular, sendo uma das principais estratégias de evasão imunológica do parasito. 3.3 Habitat O habitat do Toxoplasma gondii é extremamente amplo, podendo ser encontrado em diferentes ambientes e hospedeiros, apresentando ampla distribuição ecológica, conforme ilustrado na Figura 7. Nos hospedeiros intermediários, como seres humanos e outros mamíferos, o parasito pode ser encontrado em praticamente todos os tecidos nucleados, incluindo sistema nervoso central, músculos, fígado, pulmões e linfonodos. Essa ampla distribuição reflete sua capacidade de disseminação sistêmica. Figura 7: Representação esquemática do habitat do Toxoplasma gondii em diferentes ambientes e hospedeiros. Fonte: elaborada pelo autor com auxílio de inteligência artificial (ChatGPT, OpenAI, 2026). Nos tecidos do hospedeiro intermediário, os taquizoítos predominam na fase aguda da infecção, enquanto os bradizoítos permanecem encapsulados em cistos durante a fase crônica. Esses cistos são particularmente frequentes em tecidos musculares e nervosos, onde podem permanecer inativos por longos períodos, sem provocar sintomas clínicos evidentes. Nos hospedeiros definitivos, especialmente felídeos, o habitat do parasito inclui as células epiteliais do intestino delgado, onde ocorre a fase sexuada do ciclo biológico. Após essa fase, o parasito é eliminado na forma de oocistos nas fezes, que contaminam o ambiente e podem permanecer viáveis por longos períodos, dependendo das condições ambientais. O ambiente externo também representa um importante habitat temporário do parasito. 11 Os oocistos esporulados podem ser encontrados no solo, água e alimentos contaminados, especialmente em locais com presença de felídeos. Além disso, animais de produção como suínos, ovinos e caprinos funcionam como importantes reservatórios intermediários, mantendo cistos teciduais em suas musculaturas. Esses animais, quando utilizados na alimentação humana sem preparo adequado, tornam-se importantes fontes de infecção. Dessa forma, o habitat do parasito envolve uma complexa interação entre ambiente, hospedeiros animais e seres humanos. 3.4 Ciclo Biológico O ciclo biológico do Toxoplasma gondii, , apresentado na Figura 8, é complexo e envolve dois tipos de hospedeiros, sendo classificado como heteroxeno. Os felídeos, especialmente gatos domésticos e silvestres, atuam como hospedeiros definitivos, pois são os únicos nos quais ocorre a fase sexuada do parasito. Já os seres humanos, aves e outros mamíferos funcionam comohospedeiros intermediários, nos quais ocorre exclusivamente a fase assexuada do ciclo (NEVES, 2024). Essa distinção é fundamental para compreender a dinâmica de transmissão e manutenção do parasito na natureza. Figura 8: Ciclo biológico do Toxoplasma gondii em hospedeiros definitivos, intermediários e ambiente. Fonte: elaborada pelo autor com auxílio de inteligência artificial (ChatGPT, OpenAI, 2026). Nos hospedeiros intermediários, a infecção inicia-se pela ingestão de oocistos esporulados ou cistos teciduais presentes em alimentos contaminados. Após a liberação no trato 12 digestório, ocorre invasão celular e diferenciação em taquizoítos, que representam a forma de multiplicação rápida. Esses parasitos disseminam-se pelo organismo através da circulação sanguínea e linfática, alcançando múltiplos tecidos e órgãos. Durante a fase aguda, os taquizoítos multiplicam-se intensamente no interior do vacúolo parasitóforo, levando à ruptura celular e reinfecção de novas células. Esse processo resulta em disseminação sistêmica e inflamação tecidual. Com a resposta imunológica do hospedeiro, ocorre redução da parasitemia e início da diferenciação em bradizoítos. Os bradizoítos formam cistos teciduais que se localizam principalmente no sistema nervoso central, musculatura esquelética e retina. Esses cistos são altamente resistentes à resposta imune e podem permanecer viáveis por toda a vida do hospedeiro. Essa fase caracteriza a infecção crônica e é responsável pela persistência do parasito no organismo. Nos felídeos, após ingestão de formas infectantes, ocorre inicialmente a multiplicação assexuada no epitélio intestinal, seguida da fase sexuada. Nesse processo, formam-se gametas masculinos e femininos, que após fecundação originam o zigoto. Este evolui para oocisto, que é eliminado nas fezes ainda imaturo. No ambiente externo, os oocistos sofrem esporulação, tornando-se infectantes. Cada oocisto contém esporocistos com esporozoítos, capazes de iniciar nova infecção em hospedeiros intermediários. Esse mecanismo garante a continuidade do ciclo e a ampla disseminação do parasito em diferentes ecossistemas. 3.5 Transmissão A transmissão da toxoplasmose ocorre por diferentes vias, apresentado na Figura 9, o que explica sua elevada prevalência mundial. A principal forma é a ingestão de oocistos esporulados presentes em água, solo ou alimentos contaminados por fezes de felídeos infectados. Esses oocistos apresentam alta resistência ambiental e podem permanecer viáveis por longos períodos. 13 Figura 9: Principais vias de transmissão do Toxoplasma gondii em humanos. Fonte: elaborada pelo autor com auxílio de inteligência artificial (ChatGPT, OpenAI, 2026). Outra via extremamente importante é a ingestão de cistos teciduais presentes em carnes cruas ou mal cozidas de animais infectados, como suínos, ovinos e caprinos. Após ingestão, os bradizoítos são liberados no trato digestório e iniciam nova infecção. Essa forma de transmissão está diretamente relacionada aos hábitos alimentares da população. A transmissão vertical, ou transplacentária, ocorre quando a gestante adquire infecção primária durante a gravidez. Nesse caso, os taquizoítos podem atravessar a placenta e infectar o feto, causando toxoplasmose congênita. A gravidade das lesões depende do período gestacional e da resposta imunológica materna. Formas menos frequentes incluem transfusão sanguínea, transplante de órgãos e ingestão de leite cru contaminado. Também podem ocorrer infecções laboratoriais acidentais. Embora raras, essas vias demonstram a capacidade do parasito de utilizar múltiplos mecanismos para alcançar novos hospedeiros. Fatores ambientais e comportamentais influenciam diretamente a transmissão. O contato com solo contaminado, a falta de higiene alimentar e a presença de gatos em ambientes domésticos aumentam o risco de infecção. Segundo Neves (2024), esses fatores explicam a distribuição heterogênea da toxoplasmose em diferentes regiões. 3.6 Patogenia A patogenia da toxoplasmose está relacionada à capacidade do Toxoplasma gondii de invadir células nucleadas e se multiplicar intracelularmente na forma de taquizoítos, 14 promovendo disseminação sistêmica do parasito. Esse processo resulta em destruição celular e resposta inflamatória local em diferentes tecidos, especialmente em órgãos como sistema nervoso central, musculatura, retina e órgãos linfáticos. Conforme ilustrado na Figura 10, o ciclo celular do parasito dentro do hospedeiro é determinante para o padrão de lesões observadas clinicamente. Figura 10: Representação do ciclo intracelular e patogênese do Toxoplasma gondii. Fonte: elaborado pelo autor com auxílio de inteligência artificial (ChatGPT, OpenAI, 2026). A gravidade das manifestações clínicas depende de fatores como virulência da cepa, carga parasitária e, principalmente, o estado imunológico do hospedeiro. Em indivíduos imunocompetentes, a infecção tende a ser autolimitada ou assintomática, devido ao controle da resposta imune celular mediada por linfócitos T e citocinas como IFN-γ. Já em indivíduos imunodeprimidos, há maior risco de disseminação parasitária e desenvolvimento de formas clínicas graves. Na fase aguda da infecção, ocorre intensa replicação de taquizoítos e disseminação hematogênica, levando ao comprometimento de múltiplos órgãos. Clinicamente, essa fase pode se manifestar por febre, linfadenopatia e sintomas inespecíficos semelhantes a quadros virais. A progressão da resposta imune resulta na contenção parcial da infecção e transformação dos taquizoítos em bradizoítos, que permanecem encistados nos tecidos. Na toxoplasmose ocular, a principal manifestação é a retinocoroidite, decorrente da inflamação da retina causada pela presença do parasito. Essa forma pode ocorrer tanto em infecções primárias quanto em reativações, sendo uma importante causa de perda visual em indivíduos jovens. Conforme apresentado na Figura 11, as lesões oculares são caracterizadas por áreas de inflamação e cicatrização retiniana, que podem levar a comprometimento visual permanente em casos recorrentes. 15 Figura 11: Retinocoroidite associada à toxoplasmose ocular. Fonte: adaptado de Saúde Bem Estar (2024). A toxoplasmose congênita ocorre quando há infecção materna durante a gestação, com passagem transplacentária dos taquizoítos para o feto. A gravidade depende do período gestacional da infecção, podendo variar desde formas assintomáticas até manifestações graves. As principais alterações incluem hidrocefalia, calcificações intracranianas e coriorretinite, compondo o conjunto clássico de lesões fetais. Conforme ilustrado na Figura 12, essas alterações refletem o comprometimento do desenvolvimento neurológico e ocular fetal. Figura 12: Representação das manifestações da toxoplasmose congênita. Fonte: adaptado de UNISANGIL (2024). Em indivíduos imunocomprometidos, especialmente pacientes com HIV/AIDS ou em uso de terapia imunossupressora, ocorre reativação da infecção latente, com conversão de bradizoítos em taquizoítos. Essa reativação pode levar à disseminação sistêmica do parasito, sendo o sistema nervoso central o principal alvo. Esse quadro é denominado neurotoxoplasmose, caracterizado por encefalite toxoplásmica, com formação de lesões cerebrais focais, convulsões e déficits neurológicos progressivos. A neurotoxoplasmose representa uma das formas mais graves da infecção, sendo uma das principais causas de lesões cerebrais oportunistas em pacientes com imunossupressão avançada. Conforme apresentado na Figura 13, observa-se o comprometimento do tecido cerebral com áreas de necrose e inflamação, decorrentes da replicação ativa do parasito. 16 Segundo Dubey (2010), essa forma clínica está diretamente associada à reativação de cistos teciduais em condições de imunidade celularcomprometida. Figura 13: Alterações cerebrais compatíveis com neurotoxoplasmose, evidenciando lesões focais e áreas de necrose no sistema nervoso central. Fonte: adaptado de Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP, 2024). Além disso, a toxoplasmose crônica caracteriza-se pela persistência dos cistos teciduais contendo bradizoítos, principalmente em músculos e sistema nervoso central. Essa fase geralmente é assintomática, mas pode servir como fonte de reativação em situações de imunossupressão. A interação entre parasito e sistema imune do hospedeiro determina o equilíbrio entre latência e reativação da infecção. 3.7 Diagnóstico Clínico e Laboratorial O O diagnóstico da toxoplasmose é considerado um dos mais desafiadores dentro da parasitologia médica, principalmente devido à grande diversidade de manifestações clínicas e à ausência de sinais na maioria dos pacientes. Em indivíduos imunocompetentes, a infecção pelo Toxoplasma gondii pode ser totalmente assintomática ou se manifestar de forma inespecífica, com sintomas semelhantes aos de infecções virais sistêmicas, como a mononucleose infecciosa. Dessa forma, o diagnóstico definitivo não pode ser baseado apenas na clínica, sendo necessária a associação entre avaliação epidemiológica e métodos laboratoriais específicos para confirmação da infecção. Os métodos diagnósticos podem ser divididos em diretos e indiretos. Os métodos diretos são aqueles que permitem a identificação do próprio parasita ou de seu material genético em amostras biológicas. Em situações clínicas mais graves, como toxoplasmose congênita, reativação em imunossuprimidos ou infecção neurológica, é possível observar diretamente os 17 taquizoítos em tecidos ou fluidos corporais, como placenta, líquido amniótico, LCR ou fragmentos de biópsia. Essa identificação morfológica pode ser realizada por microscopia, coloração histológica ou técnicas de imunohistoquímica, permitindo a visualização direta do agente etiológico, como representado na Figura 14. Figura 14: Toxoplasmose em bugio-ruivo (Alouatta guariba), evidenciando infiltrado histiocitário e taquizoítos de Toxoplasma gondii no citoplasma de macrófagos (coloração HE, 100x). Fonte: adaptado de Pesquisa Veterinária Brasileira (SciELO, 2024). Dentro dos métodos diretos, destaca-se também a reação em cadeia da polimerase (PCR), Figura 15, considerada atualmente uma das técnicas mais sensíveis e específicas para detecção do DNA do T. gondii. Esse método funciona por meio da amplificação de pequenas sequências genéticas do parasita, permitindo sua identificação mesmo em amostras com baixa carga parasitária, o que é comum em infecções congênitas ou em pacientes imunossuprimidos. A PCR é especialmente importante por possibilitar diagnóstico precoce antes mesmo da soroconversão, sendo amplamente utilizada em amostras como líquido amniótico e LCR. Figura 15: Detecção de Toxoplasma gondii por reação em cadeia da polimerase (PCR), evidenciando amplificação gênica em gel de agarose por eletroforese. Fonte: adaptado de Jornal Brasileiro de Patologia e Medicina Laboratorial (SciELO). Os métodos indiretos são baseados na detecção da resposta imunológica do hospedeiro contra o Toxoplasma gondii e constituem a principal ferramenta diagnóstica na prática clínica. Entre eles, o ensaio imunoenzimático, o ELISA (Enzyme-Linked Immunosorbent Assay), 18 representado na Figurav 16; sendo amplamente utilizado por sua alta sensibilidade e capacidade de identificar diferentes classes de anticorpos, como IgM, IgG e IgA. O método ELISA pode ser classificado em diferentes formatos, incluindo o ELISA indireto, utilizado principalmente para detecção de anticorpos no soro do paciente; o ELISA direto, aplicado na detecção de antígenos parasitários; e o ELISA de competição, utilizado em situações específicas para avaliação da presença de anticorpos por competição entre antígenos e anticorpos marcados. Esses diferentes formatos ampliam a aplicabilidade do teste no diagnóstico da toxoplasmose. Figura 16: Kit diagnóstico ELISA para detecção de Toxoplasma gondii. Fonte: adapatado de Vircell – Toxoplasma ELISA. Outro método indireto importante é a imunofluorescência indireta (IFI), que utiliza antígenos parasitários fixados em lâminas para reagirem com anticorpos do paciente. Em seguida, um anticorpo secundário marcado com substância fluorescente se liga ao complexo antígeno-anticorpo, permitindo a visualização da reação em microscópio de fluorescência. Esse método é altamente específico e bastante utilizado em laboratórios de referência, sendo sua reação ilustrada na Figura 17. Figura 17: Reação de imunofluorescência indireta (RIFI) para detecção de anticorpos contra Toxoplasma gondii, evidenciando marcação fluorescente em estruturas parasitárias. Fonte: adaptado de ResearchGate – Reação de imunofluorescência indireta (RIFI). A hemaglutinação indireta também é amplamente empregada como método sorológico, baseando-se na capacidade dos anticorpos do paciente de aglutinar hemácias previamente sensibilizadas com antígenos do parasita. Quando ocorre a ligação antígeno-anticorpo, há 19 formação de agregados visíveis, indicando resultado positivo. Esse teste é considerado simples e útil principalmente em triagens sorológicas, como representado na Figura 18 e Figura 19. Figura 18: Representação esquemática da reação de hemaglutinação indireta (HAI), demonstrando a interação entre anticorpos e hemácias sensibilizadas com antígenos parasitários. Fonte: adaptado de Gold Analisa. Figura 19: Esquema de visualização da reatividade das amostras na hemaglutinação indireta (HAI), demonstrando padrões reagente, não reagente e indeterminado. Fonte: adaptado de Gold Analisa. Outro método confirmatório de grande relevância é o Western Blot (imunotransferência), utilizado principalmente em casos de resultados sorológicos inconclusivos ou discordantes. Essa técnica permite a separação de proteínas do parasita por peso molecular, que posteriormente são transferidas para uma membrana e reagidas com o soro do paciente, revelando padrões específicos de bandas proteicas. Esse perfil permite confirmação mais precisa da infecção, sendo ilustrado na Figura 20. 20 Figura 20: Perfil imunológico por Western Blot (imunotransferência) para detecção de IgG e IgM anti- Toxoplasma gondii, evidenciando bandas proteicas em amostras negativas e positivas. Fonte: adaptado de LDBio Diagnostics – Toxoplasma Western Blot IgG/IgM. A interpretação dos resultados sorológicos depende da análise do comportamento das imunoglobulinas ao longo do tempo. A presença de IgM geralmente indica infecção recente ou fase aguda, enquanto IgG sugere infecção antiga ou contato prévio com o parasita. Entretanto, em alguns casos a IgM pode persistir por longos períodos, dificultando a interpretação clínica. Por isso, a avaliação da avidez da IgG é fundamental, pois permite diferenciar infecção recente de infecção crônica, sendo especialmente importante em gestantes, reduzindo erros diagnósticos e orientando a conduta clínica (NEVES, 2024). Em situações específicas como toxoplasmose ocular e toxoplasmose cerebral, o diagnóstico deve ser complementar e integrado. O exame oftalmológico detalhado permite identificar lesões características de retinocoroidite, enquanto exames de imagem como tomografia computadorizada e ressonância magnética são fundamentais para detecção de lesões encefálicas, especialmente em pacientes imunossuprimidos. Esses métodos auxiliam na correlação clínico-laboratorial e aumentam a precisão diagnóstica. Além disso, métodos como ultrassonografia fetal desempenham papel importante no acompanhamento da toxoplasmose congênita, permitindo identificar alterações estruturais durante o desenvolvimento intrauterino. Dessa forma, o diagnósticoda toxoplasmose deve ser entendido como um processo multifatorial e integrado, envolvendo métodos diretos, moleculares, sorológicos e de imagem, sendo essencial para garantir precisão diagnóstica e conduta clínica adequada. 21 3.8 Imunidade A resposta imunológica contra Toxoplasma gondii envolve uma interação complexa entre mecanismos da imunidade inata e adaptativa, sendo a imunidade celular o principal eixo de controle da infecção. Logo após a entrada do parasito no organismo, células da imunidade inata, como macrófagos, neutrófilos e células dendríticas, são ativadas e reconhecem antígenos parasitários, desencadeando uma intensa resposta inflamatória inicial. Esse processo é fundamental para conter a disseminação precoce dos taquizoítos e reduzir a carga parasitária inicial (NEVES, 2024). Entre os mediadores iniciais mais importantes destaca-se a interleucina-12 (IL-12), produzida principalmente por células apresentadoras de antígeno. Essa citocina exerce papel central na ativação de células natural killer (NK) e linfócitos T, induzindo a produção de interferon-gama (IFN-γ), considerado o principal fator efetor contra o T. gondii. O IFN-γ é essencial para o controle da fase aguda da infecção, sendo responsável por ativar mecanismos microbicidas intracelulares e limitar a replicação do parasito. O IFN-γ atua diretamente na ativação de macrófagos, aumentando a produção de espécies reativas de oxigênio e nitrogênio, o que dificulta a sobrevivência intracelular do parasita. Além disso, esse mediador contribui para a pressão imunológica que induz a transformação dos taquizoítos em bradizoítos, favorecendo a formação de cistos teciduais e o estabelecimento da fase crônica da infecção. Esse mecanismo representa um ponto central na persistência do parasito no organismo hospedeiro (REY, 2008). A imunidade adaptativa celular desempenha papel decisivo no controle da toxoplasmose. Os linfócitos T CD4+, especialmente do perfil Th1, são responsáveis pela produção contínua de IFN-γ e pela coordenação da resposta imunológica. Já os linfócitos T CD8+ atuam diretamente na destruição de células infectadas, contribuindo para a eliminação de focos ativos da infecção e para o controle da disseminação do parasito nos tecidos (DUBEY, 2010). Embora a resposta humoral também esteja presente, com produção de anticorpos das classes IgM, IgG, IgA e IgE, sua atuação é considerada secundária no controle da infecção. Os anticorpos têm maior eficácia contra formas extracelulares, como os taquizoítos livres, mas apresentam limitada ação contra formas intracelulares e cistos teciduais. Por essa razão, a imunidade contra T. gondii é predominantemente mediada por células. Outro aspecto fundamental da imunidade na toxoplasmose é o equilíbrio entre respostas 22 pró-inflamatórias e regulatórias. Citocinas como a interleucina-10 (IL-10) exercem papel modulador, reduzindo o excesso de inflamação e prevenindo danos teciduais associados à resposta imune exacerbada. Esse equilíbrio é essencial para evitar lesões no hospedeiro enquanto mantém o controle da infecção, caracterizando uma resposta imune eficiente, porém regulada (NEVES, 2024). 3.9 Epidemiologia A toxoplasmose congênita, por exemplo, apresenta distribuição mundial e é reconhecida como uma das infecções parasitárias mais relevantes na saúde pública, devido à sua ampla disseminação e potencial de causar sequelas irreversíveis no sistema nervoso central e na visão. Sua ocorrência está relacionada à interação entre fatores biológicos do Toxoplasma gondii, condições ambientais favoráveis à manutenção dos oocistos e hábitos alimentares das populações humanas. Esses elementos explicam por que a infecção permanece endêmica em diversas regiões do mundo, com variações significativas de prevalência entre países e continentes. Nesse contexto, a distribuição nacional da doença evidencia padrões heterogêneos de ocorrência, conforme apresentada na Figura 21, que ilustra a variação da incidência em diferentes regiões e sua relação com fatores ambientais e socioeconômicos. Figura 21: Distribuição de casos de toxoplasmose congênita na população masculina no Nordeste do Brasil (2019–2023). Fonte: Melo et al. (2024), adaptado do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN/DATASUS). No Brasil, a distribuição da toxoplasmose congênita apresenta forte heterogeneidade regional, sendo mais expressiva em áreas com maiores desigualdades socioeconômicas e menor 23 cobertura de saneamento básico. A exposição ao parasito está associada ao consumo de água contaminada, alimentos mal higienizados e carnes cruas ou mal cozidas, além do contato indireto com fezes de felídeos. Essas condições tornam determinadas populações mais vulneráveis, especialmente aquelas com menor acesso a serviços de saúde preventiva e acompanhamento gestacional adequado. A Figura 22 representa a variação geográfica dos casos notificados em mulheres, por exemplo. Figura 22: Distribuição de casos de toxoplasmose congênita na população feminina no Nordeste do Brasil (2019–2023). Fonte: Melo et al. (2024), adaptado do SINAN/DATASUS. Na região Nordeste, estudos epidemiológicos recentes evidenciam a relevância da toxoplasmose congênita como problema de saúde pública persistente. Entre os anos de 2019 e 2023, foram registrados 4.391 casos da doença na região, demonstrando manutenção da transmissão ao longo do tempo e reforçando a necessidade de intensificação das estratégias de vigilância epidemiológica (MELO et al., 2024). Essa persistência temporal indica que a doença não apresenta redução significativa ao longo dos anos analisados, o que pode ser observado na tendência de crescimento e manutenção dos casos, conforme representado na Figura 23, que evidencia a evolução temporal da incidência por raça e etnia. Figura 23: Distribuição de casos de toxoplasmose congênita por estado no Nordeste do Brasil (2019–2023). Fonte: Melo et al. (2024), adaptado do SINAN/DATASUS. 24 A análise da distribuição por estados do Nordeste mostra variação significativa entre as unidades federativas, com maior concentração de casos em determinados estados, como Ceará e Pernambuco. Essa diferença pode estar relacionada tanto à incidência real da doença quanto à capacidade de notificação e organização dos sistemas de vigilância locais. Além disso, fatores estruturais, como desigualdade no acesso ao pré-natal e exames laboratoriais, também influenciam diretamente na detecção dos casos. Essa heterogeneidade entre estados reforça a necessidade de estratégias regionais diferenciadas de vigilância, conforme ilustrado na distribuição comparativa entre unidades federativas na Figura 24. Figura 24: Distribuição de casos de toxoplasmose congênita por raça no Nordeste do Brasil (2019–2023). Fonte: Melo et al. (2024), adaptado do SINAN/DATASUS. Do ponto de vista sociodemográfico, observa-se predominância de casos em populações pertencentes a grupos socialmente vulneráveis, o que reflete não apenas a composição populacional da região, mas também desigualdades históricas no acesso à saúde. Condições de moradia, educação em saúde e disponibilidade de serviços diagnósticos desempenham papel importante na dinâmica de transmissão e detecção da toxoplasmose congênita, reforçando seu caráter multifatorial. Esses determinantes sociais aparecem de forma evidente quando se observa a distribuição dos casos segundo indicadores populacionais, o que pode ser associado aos padrões mostrados anteriormente nas figuras epidemiológicas. Em relação à distribuição por sexo, não há diferença epidemiológica significativa entre indivíduos do sexo masculino e feminino, uma vez que a infecção congênita depende exclusivamente da transmissão vertical durante a gestação. Dessa forma, o fator determinante não é o sexo do recém-nascido, mas sim a infecçãomaterna adquirida durante o período gestacional e a ausência de diagnóstico e tratamento adequados. Esse padrão de equivalência entre sexos reforça o caráter biológico da transmissão vertical, sem influência de fatores sexuais na ocorrência da infecção. 25 Outro aspecto relevante da epidemiologia da toxoplasmose no Nordeste é o impacto da subnotificação e das limitações estruturais dos sistemas de saúde. A ausência de rastreamento universal em gestantes, associada à dificuldade de acesso a exames sorológicos e moleculares em determinadas regiões, contribui para a subestimação da real magnitude da doença. Esses fatores comprometem a precisão dos dados epidemiológicos e dificultam o planejamento de políticas públicas mais eficazes, sugerindo que os números apresentados nas figuras podem ainda representar uma estimativa inferior à real incidência. Então, a epidemiologia da toxoplasmose congênita deve ser compreendida dentro de um contexto integrado que envolve determinantes biológicos, ambientais e sociais. A persistência da infecção na população está diretamente relacionada à circulação do Toxoplasma gondii no ambiente e à manutenção de hábitos de risco. Conforme descrito na literatura especializada, a vigilância epidemiológica associada à melhoria das condições sanitárias e ao fortalecimento do pré-natal é essencial para reduzir a incidência da doença e suas complicações (NEVES, 2024; MELO et al., 2024). 3.10 Exames Laboratoriais Os exames laboratoriais complementares desempenham papel essencial no diagnóstico da toxoplasmose, especialmente em situações nas quais a sorologia isolada não é suficiente para determinar o estágio da infecção. Embora os testes sorológicos sejam a principal ferramenta diagnóstica, métodos adicionais são necessários em casos de infecção congênita, imunossupressão e manifestações oculares ou neurológicas, sendo a interpretação conjunta entre métodos diretos e indiretos fundamental para maior precisão diagnóstica. A detecção direta do parasito pode ser realizada em amostras clínicas específicas, como líquido amniótico, líquido cefalorraquidiano, placenta e tecidos obtidos por biópsia. Nesses casos, a identificação de taquizoítos pode ser feita por microscopia após coloração apropriada ou por técnicas de imunohistoquímica, embora sua aplicação seja restrita devido à baixa sensibilidade em alguns cenários clínicos. A reação em cadeia da polimerase (PCR) representa um dos métodos moleculares mais sensíveis para detecção do Toxoplasma gondii, permitindo identificar o material genético do parasito mesmo em baixíssima carga parasitária. Sua utilização é especialmente relevante em 26 toxoplasmose congênita e em pacientes imunossuprimidos, onde o diagnóstico precoce é determinante para o prognóstico. Dentro desse contexto diagnóstico mais amplo, os testes sorológicos representam a base da investigação laboratorial da toxoplasmose, destacando-se a imunofluorescência indireta (RIFI), hemaglutinação indireta (HAI) e, principalmente, o ELISA. É justamente neste ponto que o ELISA se torna uma ferramenta central, pois ele permite a detecção de anticorpos IgM, IgG e IgA com elevada sensibilidade, sendo amplamente utilizado tanto na triagem quanto no acompanhamento clínico da infecção. Nesse método, o ELISA direto representa a forma mais simples de aplicação, onde o antígeno ou anticorpo presente na amostra é detectado diretamente por um conjugado enzimático, gerando uma reação colorimétrica proporcional à presença do analito. Esse mecanismo inicial de reconhecimento está representado na Figura 25, permitindo visualizar o princípio básico de ligação direta entre molécula-alvo e sistema enzimático. Figura 25: Representação esquemática dos princípios básicos do método ELISA (etapas do ensaio imunenzimático direto). Fonte: adaptado de 3tres3 (2024). Ainda dentro da mesma lógica metodológica, o ELISA Sanduíche surge como uma evolução em termos de sensibilidade e especificidade, pois utiliza um anticorpo de captura fixado na placa para reter o antígeno da amostra, seguido pela ligação de um segundo anticorpo conjugado a enzima, formando um complexo estrutural em “sanduíche”. Esse arranjo aumenta significativamente a precisão do teste e está ilustrado na Figura 26, evidenciando a sequência de captura e detecção. 27 Figura 26: Representação esquemática do método ELISA sanduíche. Fonte: adaptado de 3tres3 (2024). Por sua vez, o ELISA Competitivo introduz um princípio diferente dentro da mesma plataforma metodológica, no qual o antígeno da amostra compete com um antígeno marcado pelo conjugado enzimático pelos mesmos sítios de ligação do anticorpo imobilizado. Nesse caso, a intensidade da reação é inversamente proporcional à concentração do analito, sendo este mecanismo representado na Figura 27, que demonstra o princípio de competição molecular. Figura 27: Representação esquemática do método ELISA competitivo para detecção de antígenos/anticorpos. Fonte: : adaptado de 3tres3 (2024). A avaliação da avidez da IgG é uma ferramenta importante, especialmente em gestantes. Anticorpos de baixa avidez indicam infecção recente, enquanto alta avidez sugere infecção antiga. Esse recurso reduz erros diagnósticos e auxilia na definição de risco fetal, sendo amplamente utilizado em programas de pré-natal (NEVES, 2024). Em casos específicos, como toxoplasmose ocular, pode ser realizada a análise do humor aquoso para detecção de anticorpos intraoculares. Já em pacientes com suspeita de encefalite, exames de imagem como tomografia computadorizada e ressonância magnética são fundamentais para identificação de lesões compatíveis com a infecção. 28 3.11 Medidas Profiláticas A profilaxia da toxoplasmose baseia-se principalmente na interrupção das principais vias de transmissão do parasito. Como se trata de uma infecção amplamente distribuída e de difícil eliminação ambiental, as medidas preventivas são fundamentais para reduzir sua incidência na população. Essas estratégias incluem ações individuais, alimentares, ambientais e de educação em saúde, que em conjunto compõem o principal eixo de controle da doença. O conjunto dessas medidas pode ser observado de forma sintetizada na Figura 28, que ilustra os principais cuidados preventivos relacionados à infecção pelo Toxoplasma gondii. Figura 28: Representação ilustrada das principais medidas profiláticas para prevenção da toxoplasmose. Fonte: adaptado de Revista Clínica Veterinária (2024). Uma das principais medidas consiste na adequada higienização de alimentos. Frutas, verduras e legumes devem ser bem lavados antes do consumo, pois podem estar contaminados por oocistos presentes no solo ou na água. Além disso, o consumo de água tratada ou filtrada é essencial para evitar infecção por via hídrica, especialmente em regiões com saneamento básico inadequado. Outra medida importante é o consumo seguro de carnes. Carnes de origem animal, como suínos, ovinos e caprinos, devem ser sempre bem cozidas, evitando ingestão de cistos teciduais viáveis. O congelamento e o cozimento adequado são capazes de inativar o parasito, reduzindo significativamente o risco de transmissão alimentar. O controle da população de gatos e o manejo adequado desses animais também são fundamentais. Recomenda-se evitar que gatos tenham acesso a carne crua, além da limpeza diária de caixas de areia para impedir a esporulação dos oocistos. Essas medidas reduzem a 29 contaminação ambiental e a disseminação do parasito, interrompendo o ciclo biológico no ambiente doméstico. Em gestantes, a prevenção assume caráter prioritário. O acompanhamento sorológico durante o pré-natal permite identificar mulheres suscetíveis e detectar infecções recentes. A educação em saúde também é essencial, orientando sobre higiene alimentar, cuidados com animaisdomésticos e prevenção da infecção congênita, que representa uma das formas mais graves da toxoplasmose (MINEO; VITOR, 2024). Programas de saúde pública também desempenham papel relevante na prevenção da toxoplasmose. Ações educativas, vigilância epidemiológica e controle sanitário de alimentos contribuem para reduzir a exposição da população ao parasito, especialmente em regiões com alta prevalência. Essas intervenções coletivas são fundamentais para reduzir a transmissão sustentada e diminuir a carga da doença na população. 3.12 Tratamento O tratamento da toxoplasmose é indicado apenas em situações específicas, uma vez que muitos indivíduos imunocompetentes não apresentam sintomas e não necessitam de intervenção terapêutica. Além disso, os medicamentos disponíveis possuem ação principalmente sobre as formas taquizoítas, não sendo capazes de eliminar completamente os cistos teciduais, o que explica a natureza de infecção crônica do Toxoplasma gondii. O esquema terapêutico pode variar conforme o perfil do paciente, idade gestacional e forma clínica da doença, sendo os principais fármacos representados de forma resumida na Figura 29, que reúne as principais abordagens medicamentosas utilizadas na prática clínica. Figura 29: Representação dos principais farmacos utilizados no tratamento da toxoplasmose. Fonte: elaborada pelo autor com auxílio de inteligência artificial (ChatGPT, OpenAI, 2026). 30 O esquema terapêutico mais utilizado na toxoplasmose aguda consiste na associação de pirimetamina e sulfadiazina, frequentemente acompanhada de ácido folínico para reduzir efeitos adversos hematológicos, especialmente a supressão da medula óssea. Essa combinação atua inibindo etapas essenciais da síntese de ácido fólico do parasito, reduzindo sua multiplicação intracelular e controlando a fase ativa da infecção. Na representação da Figura 29, observa-se essa associação como base do tratamento padrão da toxoplasmose adquirida e congênita após confirmação diagnóstica. Em gestantes, o tratamento depende do estágio da infecção materna e da possível transmissão fetal. A espiramicina é frequentemente utilizada na fase inicial da gestação por apresentar maior segurança e menor passagem transplacentária, atuando principalmente na redução do risco de transmissão vertical. Quando há confirmação de infecção fetal, pode-se optar pela associação de pirimetamina e sulfadiazina com ácido folínico, sob rigoroso acompanhamento médico, estratégia também sintetizada na Figura 29, que evidencia a divisão entre esquemas utilizados na gestação e na infecção estabelecida. A toxoplasmose ocular também requer abordagem terapêutica específica, geralmente envolvendo a combinação de antiparasitários e anti-inflamatórios, como corticosteroides (ex: prednisona), com o objetivo de reduzir a inflamação intraocular e limitar danos estruturais à retina e à coroide. Em alguns casos, podem ser utilizadas alternativas como clindamicina ou azitromicina, especialmente em situações de intolerância medicamentosa ou refratariedade ao esquema padrão. Em pacientes imunodeficientes, especialmente aqueles com encefalite toxoplásmica, o tratamento deve ser iniciado rapidamente devido ao elevado risco de complicações neurológicas graves. A combinação de pirimetamina e sulfadiazina permanece como padrão terapêutico, podendo ser substituída em casos de intolerância. Nessas situações, o controle da infecção é essencial para reduzir mortalidade e sequelas neurológicas, sendo frequentemente necessário tratamento prolongado e manutenção secundária (NEVES, 2024). O acompanhamento clínico e laboratorial durante o tratamento é fundamental para avaliar a resposta terapêutica, ajustar doses e monitorar possíveis efeitos adversos, especialmente hematológicos. A persistência dos cistos teciduais no organismo impede a cura parasitológica completa, tornando o tratamento essencialmente direcionado ao controle da fase ativa da doença e à prevenção de reativações. 31 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS A toxoplasmose é uma parasitose de grande importância médica e epidemiológica, devido à sua ampla distribuição mundial e à capacidade do Toxoplasma gondii de infectar diferentes espécies de animais e seres humanos. Embora muitas infecções sejam assintomáticas, a doença pode apresentar formas graves em grupos de risco específicos, como gestantes, recém- nascidos e indivíduos imunossuprimidos, o que reforça sua relevância clínica e em saúde pública. O entendimento do ciclo biológico do parasito é fundamental para compreender sua persistência no ambiente e suas formas de transmissão. A participação dos felídeos como hospedeiros definitivos e a resistência dos oocistos no meio externo explicam a alta capacidade de disseminação da infecção, especialmente em ambientes com condições sanitárias inadequadas e maior exposição a fontes de contaminação alimentar e hídrica. Os avanços no diagnóstico laboratorial, especialmente nas técnicas sorológicas e moleculares, têm contribuído significativamente para a identificação precoce da infecção e melhor manejo clínico dos pacientes. A interpretação correta dos marcadores imunológicos é essencial para definição do estágio da doença, permitindo intervenções terapêuticas mais adequadas e reduzindo complicações, principalmente na toxoplasmose congênita. As medidas profiláticas representam a principal estratégia de controle da toxoplasmose, uma vez que a eliminação completa do parasito não é possível na prática clínica. Assim, a prevenção baseada em hábitos alimentares adequados, higiene das mãos, consumo de água tratada, cocção correta de carnes e controle do contato com fezes de felinos torna-se indispensável para redução da incidência da infecção na população. Nesse contexto, destaca-se também a atuação da enfermagem e da educação em saúde como ferramentas essenciais na prevenção da toxoplasmose. O enfermeiro desempenha papel fundamental no acompanhamento pré-natal, na orientação de gestantes quanto às medidas preventivas e na identificação precoce de fatores de risco. A educação em saúde, por sua vez, contribui para a disseminação de informações corretas sobre formas de transmissão e cuidados diários, fortalecendo a autonomia do paciente e reduzindo comportamentos de risco. Dessa forma, a toxoplasmose permanece como um importante desafio para a saúde pública, exigindo uma abordagem integrada entre vigilância epidemiológica, educação em saúde, diagnóstico precoce, atuação multiprofissional e tratamento adequado. A redução da carga da doença depende diretamente da articulação entre estratégias clínicas e preventivas, 32 reforçando a importância de políticas públicas voltadas para saneamento básico, educação sanitária e fortalecimento da atenção primária à saúde. 33 5 REFERÊNCIAS 3TRES3. ELISA como ferramenta de diagnóstico: princípios básicos. 2024. Disponível em: https://www.3tres3.com/pt/artigos/elisa-como-ferramenta-de-diagnostico-1-2-principios- basicos_15452. Acesso em: 30 jun. 2026. CASAGRANDE, R. A. et al. Toxoplasmose em primatas neotropicais: estudo retrospectivo de sete casos. Pesquisa Veterinária Brasileira, v. 33, n. 1, p. 94–98, 2013. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pvb/a/LP4sjHkgZYMqkKPVM5JyjRB/. Acesso em: 30 jun. 2026. DREAMSTIME. Ilustração do Toxoplasma gondii. Disponível em: https://pt.dreamstime.com/ilustra%C3%A7%C3%A3o-stock-gondii-do-toxoplasma- image77625302. Acesso em: 27 jun. 2026. FAMILYSEARCH. Alfonso Splendore (1871–1953). Disponível em: https://ancestors.familysearch.org/en/KH1Y-WYD/alfonso-splendore-1871-1953. Acesso em: 27 jun. 2026. HADD, Trevor T. Toxoplasma gondii. BulbApp. Disponível em: https://www.bulbapp.com/u/trevor-tj-hadd-toxoplasma-gondii. Acesso em:27 jun. 2026. LDBIO DIAGNOSTICS. Toxoplasma Western Blot IgG/IgM. Lyon: LDBio Diagnostics, s.d. Disponível em: https://ldbiodiagnostics.com/en/our-products/immunoblots/toxoplasma- western-blot-igg-igm. Acesso em: 30 jun. 2026. MELO, L. E. S. C. et al. Estudo epidemiológico de toxoplasmose congênita no Nordeste brasileiro. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, v. 6, n. 5, p. 876–886, 2024. DOI: https://doi.org/10.36557/2674-8169.2024v6n5p876-886. Acesso em: 25 jun. 2026. NEVES, David Pereira. Parasitologia Humana. 14. ed. Rio de Janeiro: Atheneu, 2024. OPENAI. ChatGPT (modelo de inteligência artificial). Disponível em: https://chat.openai.com (https://chat.openai.com/). Acesso em: 27 jun. 2026. RESEARCHGATE. – Imagens das formas evolutivas do Toxoplasma gondii. Disponível em: https://www.researchgate.net/figure/Figura-32-Imagens-das-formas-evolutivas-do- Toxoplasma-gondii-1-Oocisto-1000x-2_fig8_259532883. Acesso em: 27 jun. 2026. REVISTA CLÍNICA VETERINÁRIA. Oficina sobre toxoplasmose para gestantes em unidade básica de saúde da família. 2024. Disponível em: https://www.revistaclinicaveterinaria.com.br/opiniao/saude-publica/oficina-sobre- toxoplasmose-para-gestantes-em-unidade-basica-de-saude-da-familia. Acesso em: 30 jun. 2026. REY, Luís. Parasitologia: parasitos e doenças parasitárias do homem. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008. SPALDING, S. M. et al. Otimização da reação de polimerase em cadeia para detecção de 34 Toxoplasma gondii em sangue venoso e placenta de gestantes. Jornal Brasileiro de Patologia e Medicina Laboratorial, v. 38, n. 2, p. 105–110, 2002. Disponível em: https://www.scielo.br/j/jbpml/a/6bFLbt7vNJbYRDHLbv7NwFm/. Acesso em: 30 jun. 2026. UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS (UNICAMP). Atlas de anatomia patológica – lesões do sistema nervoso central (neurotoxoplasmose). Disponível em: https://anatpat.unicamp.br/nptsida1a.html. Acesso em: 30 jun. 2026. UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS (UNICAMP). Protozoários e estruturas parasitárias – Toxoplasma gondii. Disponível em: https://anatpat.unicamp.br/nptsida1a.html. Acesso em: 27 jun. 2026. VIRCELL. Toxoplasma ELISA. Granada: Vircell Microbiologists, s.d. Disponível em: https://www.vircell.com/en/products/toxoplasma-elisa. Acesso em: 30 jun. 2026. WIKIMEDIA COMMONS. Charles Nicolle at microscope. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Charles_Nicolle_at_microscope_(cropped).jpg. Acesso em: 27 jun. 2026.