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Aspectos Teóricos e Metodológicos da Gestalt-Terapia Fundamentos da Psicologia Humanista Diretor Executivo DAVID LIRA STEPHEN BARROS Gerente Editorial CRISTIANE SILVEIRA CESAR DE OLIVEIRA Projeto Gráfico TIAGO DA ROCHA Autoria SHEILA MARIA PRADO SOMA JÉSSICA DE ASSIS SILVA FABIO PEREIRA SOMA AUTORIA Sheila Maria Prado Soma Olá! Sou psicóloga há 22 anos, com Mestrado e Doutorado pela Universidade Federal de São Carlos. Tenho experiência em Psicologia Clínica e docência no ensino superior, trabalhando durante todo esse tempo com a formação de profissionais nessa área e com produção de conteúdos e pesquisas. Psicologia é a minha paixão e, transmitir minha experiência profissional e de vida àqueles que estão em formação é um dos focos do meu trabalho. Por esse motivo, fui convidada pela Editora Telesapiens a integrar seu elenco de autores independentes. Estou muito feliz em estar com você nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte comigo! Vamos juntos! Jéssica de Assis Silva Olá! Sou formada em Psicologia pela Universidade Federal do Pará, com mestrado em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos e Doutorado em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (USP). Adicionalmente, sou especialista em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP sendo docente em cursos de graduação e especialização. Desse modo, gostaria de dividir um pouco dessa experiência com você! Eu e a Editora Telesapiens estamos empenhados em te acompanhar nesta jornada! Conte conosco! Fabio Pereira Soma Olá. Sou formado em Filosofia e Pedagogia e Mestre em Filosofia pela UNESP, com experiência técnico-profissional na área de Educação há mais de 12 anos. Sou apaixonado pelo que faço e adoro transmitir minha experiência de vida àqueles que estão iniciando em suas profissões. Por isso, fui convidado pela Editora Telesapiens a integrar seu elenco de autores independentes. Estou muito feliz em poder ajudar você nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte comigo! ICONOGRÁFICOS Olá. Esses ícones irão aparecer em sua trilha de aprendizagem toda vez que: OBJETIVO: para o início do desenvolvimento de uma nova compe- tência; DEFINIÇÃO: houver necessidade de se apresentar um novo conceito; NOTA: quando forem necessários obser- vações ou comple- mentações para o seu conhecimento; IMPORTANTE: as observações escritas tiveram que ser priorizadas para você; EXPLICANDO MELHOR: algo precisa ser melhor explicado ou detalhado; VOCÊ SABIA? curiosidades e indagações lúdicas sobre o tema em estudo, se forem necessárias; SAIBA MAIS: textos, referências bibliográficas e links para aprofundamen- to do seu conheci- mento; REFLITA: se houver a neces- sidade de chamar a atenção sobre algo a ser refletido ou dis- cutido sobre; ACESSE: se for preciso aces- sar um ou mais sites para fazer download, assistir vídeos, ler textos, ouvir podcast; RESUMINDO: quando for preciso se fazer um resumo acumulativo das últi- mas abordagens; ATIVIDADES: quando alguma atividade de au- toaprendizagem for aplicada; TESTANDO: quando o desen- volvimento de uma competência for concluído e questões forem explicadas; SUMÁRIO História da Gestalt-terapia ......................................................................10 Pano de Fundo da Gestalt-terapia .................................................................................... 10 Influência da Filosofia na Gestalt-terapia ..................................................................... 12 Influência da Psicanálise na Gestalt-terapia .............................................................. 17 Origem da Gestalt-terapia ........................................................................................................ 18 O Conceito do Todo ...................................................................................................................... 20 Concepção de Homem e Mundo sob a Perspectiva Gestáltica ... 23 Compreendendo o Conceito da Gestalt-terapia .....................................................23 Influências na Construção da Visão de Homem ......................................................27 Principais Conceitos da Gestalt-terapia ............................................35 A Gestalt-terapia, Considerações Gerais .......................................................................35 A Questão da Figura e Fundo ............................................................................................... 36 A Questão da Conscientização ............................................................................................ 39 A Questão da Responsabilidade ......................................................................................... 40 A Técnica da Cadeira Vazia ...................................................................................................... 41 A Relação Terapêutica .................................................................................................................42 Críticas e Limitações .....................................................................................................................43 Principais Representantes da Gestalt-terapia .............................. 46 Introdução ao Capítulo ............................................................................................................... 46 Fritz Perls ...............................................................................................................................................47 Contribuição para a Psicologia ......................................................................... 49 Laura Perls............................................................................................................................................ 51 Paul Goodman ...................................................................................................................................53 7 UNIDADE 04 Fundamentos da Psicologia Humanista 8 INTRODUÇÃO Você sabia que a Gestalt-terapia é uma Psicologia Humanista? E que o Humanismo, a Fenomenologia e o Existencialismo constituem suas bases filosóficas? Imagina só uma teoria que engloba tudo isso e que ainda teve influências das artes, budismo, psicodrama e Psicanálise? Pois então, neste capítulo nós vamos ver tudo isso e compreender tudo sobre a Gestalt-terapia por meio do seu percurso histórico. Nós também vamos contar para você qual é a concepção de homem dessa importante teoria e te ajudar a identificar os principais conceitos dela, e por fim, vamos conhecer quem são seus fundadores, saber um pouco sobre cada um deles. Então? Motivado? Mas você vai entender tudinho ao longo desta unidade. Vamos? Fundamentos da Psicologia Humanista 9 OBJETIVOS Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 4. Nosso objetivo é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes competências profissionais até o término desta etapa de estudos: 1. Descrever o percurso histórico da Gestalt-terapia. 2. Explicar a concepção de homem para a Gestalt-terapia. 3. Identificar os conceitos básicos da Gestalt-terapia. 4. Identificar os principais representantes da Gestalt-terapia. Fundamentos da Psicologia Humanista 10 História da Gestalt-terapia OBJETIVO: Ao final deste capítulo, você será capaz de descrever o percurso histórico da Gestalt-terapia. Compreender toda a linha do tempo dessa importante abordagem da Psicologia, suas bases históricas e filosóficas vão ajudar você a ser um profissional da Psicologia com maior habilidade teórica e técnica. Motivados? Vamos juntos desenvolver essa competência! Pano de Fundo da Gestalt-terapia A teoria da Gestalt-terapia tem como fundadores: Fritz Perls, Laura Perls e Paul Goodman. O pano de fundo da Gestalt é composto por conceitos e elementos de diferentes corpos de conhecimento e disciplinas. Vamos iniciar dando a você uma ideia da situação cultural e histórica que prevaleceu durante a vidados fundadores da Gestalt- terapia, o Zeitgeist (espírito da época), o pano de fundo: o campo mais amplo, uma visão geral do Zeitgeist (WULF, 1996). O início do século XX foi caracterizado por um desenvolvimento explosivo da Ciência e da tecnologia. A era da automação e da cibernética havia começado. A ascensão da Física Nuclear e da Quântica levou a uma mudança revolucionária radical. Biologia, Química e Medicina também começaram a progredir rapidamente. Elementos revolucionários surgiram no pensamento político. O socialismo, o marxismo e também o anarquismo se tornaram movimentos consideráveis (WULF, 1996). Fundamentos da Psicologia Humanista 11 Figura 1 - Desenvolvimento e revoluções Fonte: Freepik À semelhança das mudanças na Ciência, também se iniciou uma busca nas Artes e na Literatura por novas formas de expressão. O Expressionismo nessa época representou uma reação às normas e crenças da burguesia. As catástrofes provocadas pela Primeira Guerra Mundial e a destruição da humanidade eram muito evidentes e muito recentes. Expressionistas (por exemplo, os pintores/artistas Van Gogh, Toulouse- Lautrec, Munch e Otto Dix, que aliás pintaram um retrato de Fritz Perls) estavam tentando criar uma nova visão do ser humano, determinada pela responsabilidade social e pela compaixão pelos outros. A arte criativa era vista como uma evolução da experiência interior imediata e da dinâmica emocional. Os temas básicos do Expressionismo foram sentimento, intuição, subjetividade, fantasia - temas que vivem na Gestalt-terapia (WULF, 1996). Fundamentos da Psicologia Humanista 12 Figura 2 - Explosão das artes Fonte: Freepik Influência da Filosofia na Gestalt-terapia Na Filosofia, seguiu o idealismo alemão do século XIX. As ideias revolucionárias foram desenvolvidas por Marx. Os fenômenos de autoalienação e autorrealização foram discutidos. O ser humano não era mais visto como um ser abstrato, mas dentro de seu ambiente social concreto, Marx via o indivíduo acima de tudo como um ser que trabalha, uma parte do ambiente de trabalho ou força de trabalho. O século XX também viu o surgimento de novas tendências nas humanidades e na Filosofia. Não apenas as Ciências Naturais individuais tiveram uma forte influência; as Artes e a Literatura também fizeram impacto distinto na Filosofia. Houve uma influência mútua característica entre as diferentes disciplinas, às vezes manifestando-se dentro de uma mesma pessoa, ou seja, o filósofo e o escritor (Sartre e Ortega Y Gasset), filósofo e matemático (Bertrand Russel e Alfred N. Whitehead). Outro exemplo é a revolução provocada pela descoberta do inconsciente por Freud, e sua prova empírica do que Schopenhauer e Nietzsche já haviam apreendido intuitivamente (GRANZOTTO, 2005; WULF, 1996). Fundamentos da Psicologia Humanista 13 Figura 3 - Descoberta do inconsciente Fonte: Freepik A linguagem tornou-se um tópico de importância central dentro da Filosofia, conhecido como o “linguístico” (Wittgenstein). Os filósofos da vida, os Lebensphilosophie, dos quais o mais influente foi o francês Henri Bergson, viam a realidade como um devir. Para eles, existe de fato apenas o devir, atuação e ação (élan vital) (WULF, 1996). O terreno para a mais conhecida Filosofia Existencialista foi preparado por Franz Brentano. Edmund Husserl, um estudante de Brentano, fundou a Fenomenologia, tornando-se assim também um filósofo influente da época. Seu objetivo era dominar a consciência que contém e compreende todo o horizonte do mundo e o significado de todos objetos conhecidos. A Filosofia Existencial, que começou com Kirkegaard e foi posteriormente desenvolvida por Gabriel Marcel e Merleau-Ponty, enfoca a existência como «existência humana individual» e questões relacionadas ao significado da existência humana, liberdade, destino e a existência de Deus (WULF, 1996). Fundamentos da Psicologia Humanista 14 Figura 4 - Despertar da Filosofia Fonte: Freepik Os filósofos existenciais enfocam o indivíduo e são em sua metodologia mais ou menos fenomenologistas. A sua principal preocupação é a apreensão imediata do ser (o que é), para o encontro do ser humano na sua respectiva situação, onde está ligado ao mundo e aos demais seres humanos. Existência é “ser potencialmente” (Sein- können), ser constantemente confrontado com escolhas, ter que tomar decisões constantemente. A existência é livre e se realiza apenas no fazer. Portanto, o básico da experiência humana é ansiedade (M. Heidegger), a existência (Dasein) é finita, é Sein zum Tode (vivemos para morrer). O sentido essencial da vida surge com o encontro com a morte. A morte nos desafia a viver nossas próprias vidas em liberdade e responsabilidade própria (GRANZOTTO, 2005; WULF, 1996). Fritz Perls trabalhou como ator e conheceu Max Reinhard no Deutsches Theater. Ele descreveu Max Reinhard em sua autobiografia como “o primeiro gênio que ele conheceu”. Sua ênfase na comunicação não verbal influenciou fortemente Perls. Ao mesmo tempo, Moreno, o fundador do psicodrama, encenava experimentos expressionistas no teatro. Perls, que mais tarde conheceu Moreno em 1947 nos EUA, adotou Fundamentos da Psicologia Humanista 15 elementos essenciais de sua abordagem como a encenação e a técnica da “cadeira vazia”, que o próprio Moreno tirou do drama e modificou para uso como técnicas terapêuticas. Os impulsos expressionistas dessa época são ainda discerníveis no psicodrama e na terapia da Gestalt. As teorias de ambas as escolas de terapia referem-se a noções como espontaneidade, criatividade e intuição (WULF, 1996). Figura 5 - Psicodrama Fonte: Freepik Em Berlim, Fritz Perls frequentou círculos intelectuais de esquerda e também se mudou para os círculos da Bauhaus, onde conheceu o filósofo expressionista Salomon Friedlander, cujo motivo filosófico central deu orientação a Perls nesses tempos de confusão. Perls enfatizou que a Psicanálise de Freud e a Filosofia de Friedlander com o conceito de “indiferença criativa” foram suas principais fontes espirituais. O ponto de indiferença criativa ou vazio, ou ponto de equilíbrio é um ponto a partir do qual a diferenciação em opostos ocorre uma vez que todas as coisas existentes são determinadas por polaridades (WULF, 1996). O pressuposto básico é que a divisão que o homem cria no mundo por meio de sua consciência, que ele experimenta como inevitável e dolorosa, ou seja, a separação entre eu e o mundo, entre sujeito e objeto, é apenas uma ilusão. Isso só pode ser abolido compreendendo o mundo de um ponto zero, o nada do mundo, o absoluto, o criador, a origem (WULF, 1996). Fundamentos da Psicologia Humanista 16 SAIBA MAIS: O ponto zero é a condição de possibilidade de diferença. Em termos modernos: eu faço a diferença que faz a diferença. O mundo é uma ação do eu (“o moleiro só ouve seu moinho parado” ou “só sentimos o que contrasta de alguma forma”). Perls considerou a Filosofia de Friedlander como o equivalente ocidental dos ensinamentos de Lao-tse. Na Psicologia da Gestalt e na teoria organísmica de Goldstein, Perls encontrou uma terminologia que corresponde às teses básicas de Friedlander: o conceito de homeostase, superior e inferior, contato e retraimento, figura e fundo (GRANZOTTO, 2005; WULF, 1996). Figura 6 - Forças opostas Fonte: Freepik Fundamentos da Psicologia Humanista 17 Influência da Psicanálise na Gestalt-terapia Fritz e Laura Perls haviam passado por treinamento psicanalítico primeiro em Berlim e depois em Frankfurt e Viena. Fritz começou com Karen Horney e depois foi para Wilhelm Reich, enquanto Frieda Fromm Reichmann era uma das analistas de treinamento de Laura. Apesar das críticas de Freud e da revisão posterior da Psicanálise, vemos sua influência na teoria da Gestalt-terapia. Ainda que Freud não tenha reconhecido o trabalho de Perls, o próprio Perls considerou as descobertas de Freudextremamente valiosas (GRANZOTTO, 2005; WULF, 1996). De Karen Horney e Wilhelm Reich, Perls adotou uma postura terapêutica menos independente e mais ativa, bem como sua visão orientada para o ambiente da gênese da neurose. Perls compartilhou com Karen Horney as raízes mútuas da área boêmia de Berlim, bem como uma paixão pelo teatro e uma visão holística na terapia que os levou a trabalhar com o paciente como uma pessoa inteira, e ao estudo do Zen-Budismo com Reich, em que ele experimenta uma abordagem orientada para a respiração e o corpo e um método diferenciado de trabalhar a resistência (GRANZOTTO, 2005; WULF, 1996). Atenção é dada aos componentes estilísticos da comunicação (mímica, gestos, linguagem corporal) como elucidadores das resistências do paciente. O foco em “como” em vez de “por quê” no processo terapêutico também é uma ênfase reichiana. Muitas semelhanças também podem ser encontradas em suas tendências sociopolíticas. Entre os psicanalistas que tiveram uma forte influência na Gestalt-terapia, Otto Rank merece menção especial. Otto Rank foi um dos primeiros alunos de Freud. Ele começou uma nova linha na Psicanálise com sua obra O trauma do nascimento. Nesse livro, ele questionou a teoria de Édipo e apresentou o trauma do nascimento como o paradigma do processo psicológico de individuação. A terapia de Rank é centrada na vontade e nas funções do ego como uma força organizadora autônoma dentro do indivíduo (WULF, 1996). Fundamentos da Psicologia Humanista 18 Figura 7 - Psicoterapia Fonte: Freepik Ele exige uma nova experiência e repetição em vez de lembrança, o que inevitavelmente implica um papel ativo do terapeuta. Para Rank, a terapia é o restabelecimento do significado no “aqui e agora”. Aqui encontramos muitos elementos que mais tarde foram incluídos na Gestalt-terapia (WULF, 1996). Origem da Gestalt-terapia O termo Gestalt foi originalmente cunhado pelo vienense Graf Christian von Ehrenfels. DEFINIÇÃO: Gestalt era um todo psíquico formado pela estruturação do campo perceptivo. Para o pensamento científico, o potencial revolucionário reside na afirmação de que não é a análise dos elementos subjacentes que torna possível obter conhecimento. Uma análise mais detalhada ou dissecação em elementos, não apenas falha em trazer um aumento no conhecimento, mas até mesmo o torna impossível. Em vez disso, nossa consciência forma as unidades de todos, Gestalten (WULF, 1996).. Fundamentos da Psicologia Humanista 19 A afirmação de Ehrenfels de que percebemos todos e que o todo é diferente da soma de suas partes foi trabalhada, e posteriormente, diferenciada pela escola de Psicologia da Gestalt de Berlim no dito da Gestalt: o todo precede as partes, e a formação da Gestalt é um elemento primário característica do funcionamento organísmico e também do movimento individual em direção ao fechamento/satisfação para retornar a um estado de equilíbrio (GRANZOTTO, 2005; WULF, 1996). Figura 8 - O todo e as partes Fonte: Freepik As principais figuras foram Wertheimer, Koffka e Kohler. A questão importante, se é o próprio interesse do sujeito ou outro impulso subjetivo (necessidade), ou um critério no ambiente que organiza formas específicas fora do campo, não foi respondida até Kurt Lewin formular este conceito. Lewin tirou o modelo Gestalt do laboratório e o transferiu para o complexo reino das situações cotidianas. Sua tese era que a necessidade organiza a percepção do campo e a atuação no campo. Ele considerava a atividade humana interativa e, pelo menos em parte, uma reação às condições percebidas do campo (GRANZOTTO, 2005; WULF, 1996). Fundamentos da Psicologia Humanista 20 Ele enfatizou a inter-relação dinâmica dos elementos em um campo. Mais aspectos do trabalho de Lewin e de sua assistente Bluma Zeigarnik devem mais tarde ser importantes para a Gestalt-terapia, que é o conceito de negócios inacabados. Bluma Zeigarnik descobriu que ações ou situações inacabadas são melhor memorizadas do que aquelas concluídas no pano de fundo do sistema de tensão psíquica interna (conhecido como efeito Zeigarnik). A Gestalt-terapia foi posteriormente nomeada em homenagem à Psicologia da Gestalt para chamar a atenção para indicar as ligações significativas entre ambas (WULF, 1996). O Conceito do Todo Enquanto Fritz Perls estava em Frankfurt, ele trabalhou com Goldstein, que conduzia pesquisas sobre soldados com danos cerebrais. Além de trabalhar como médico, Goldstein deu palestras sobre temas filosóficos, aplicou os estudos acadêmicos dos psicólogos da Gestalt a seres humanos vivos e considerou o ser humano como um organismo completo, além de expandir a Psicologia da Gestalt como um estudo da percepção, como um estudo da pessoa inteira (GRANZOTTO, 2005; WULF, 1996). Figura 9 - Ser humano como um todo Fonte: Freepik Fundamentos da Psicologia Humanista 21 O conceito de todo também foi adotado por Jan Smuts em Holism and Evolution. Seu livro foi lido com entusiasmo pelos assistentes de Goldstein. Smuts considera o organismo uma autorregulação entidade: o organismo holístico contém seu passado e muito de seu futuro em seu presente. Além disso: como o metabolismo e a assimilação são funções fundamentais de todos os todos orgânicos. Aqui encontramos a premissa básica sobre a qual se baseia a Gestalt-terapia: holismo (GRANZOTTO, 2005; WULF, 1996). Isso é citado quase que palavra para palavra no primeiro livro de Perls, Ego, hunger and aggression. A Gestalt-terapia tornou-se, então, uma Filosofia de vida baseada nessa epistemologia holística. Enquanto em Frankfurt, Laura Perls (née Lore Posner) desenvolveu um forte interesse pelos filósofos existenciais. Ela conheceu pessoalmente Martin Buber e Paul Tillich, gostando muito de suas palestras. As mensagens e conceitos básicos da Filosofia Existencial e seu método fenomenológico tornaram- se a base filosófica da Gestalt-terapia (WULF, 1996). Figura 10 - Budismo Fonte: Freepik Fundamentos da Psicologia Humanista 22 Quase todos os antepassados do conceito da Gestalt estudaram a Filosofia oriental ou o misticismo, especialmente o taoísmo e o zen- budismo. O conceito de conscientização se baseou em vários aspectos do pensamento oriental (WULF, 1996). RESUMINDO: E então? Gostou do que mostramos? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo desse capítulo, vamos relembrar aqui um pouco do que estudamos. Nesse capítulo, compreendemos todo o percurso histórico da Gestalt-terapia. Vimos que Perls foi seu principal fundador. Ele buscou fundamentar sua teoria com base na Filosofia, especialmente, no Existencialismo e na Fenomenologia, bem como nas Artes e Teatro. Também buscou inspiração na Psicanálise de Freud, Otto Rank e, especialmente, em Reich, construindo o conceito da experiência do corpo e da percepção. Mais adiante, com inspiração nas teorias espirituais orientais, a saber o budismo, desenvolveu o conceito de todo e do ser humano holístico, que atualmente é a base da Teoria da Gestalt. E então? Já está preparado para compreender um pouco mais sobre essa importante teoria psicológica? Nos vemos nos próximos capítulos. Até lá! Fundamentos da Psicologia Humanista 23 Concepção de Homem e Mundo sob a Perspectiva Gestáltica OBJETIVO: Ao final deste capítulo, você será capaz de explicar a concepção de homem e de mundo para a construção da metodologia da abordagem gestáltica. Motivados? Vamos juntos desenvolver essa competência! Compreendendo o Conceito da Gestalt- terapia Gestalt é uma palavra alemã, ainda sem tradução para a língua portuguesa, mas seu significado está relacionado a forma, a estrutura, a configuração de um todo (WULF, 1996). EXEMPLO: É como um bolo. Quando vemos um bolo sabemos que ele é composto por diversos ingredientes, como ovos, leite, farinha, açúcar e fermento. Todos esses ingredientes formam o bolo e quando ocomemos temos a chance de reconhecer seu cheiro, textura e sabor, contudo, o bolo (soma dos ingredientes) não se resume as partes (os ingredientes em si). Fundamentos da Psicologia Humanista 24 Figura 11 - Bolo e seus ingredientes Fonte: Freepik Cabe aqui destacar, como aponta Freitas (2016), que a Gestalt e a Gestalt-terapia são distintas, ainda que muitas vezes sejam usadas como sinônimos. Figura 12 - Diferença entre Gestalt e Gestalt-terapia Fonte: Adaptado de Freitas (2016). Fundamentos da Psicologia Humanista 25 SAIBA MAIS: A psicóloga Laís Nadal Tavares, Mestre em Psicologia pela Universidade Estadual de Maringá, é especialista em Gestalt-terapia. Ela produziu um vídeo em seu canal Gestalt Paraná falando sobre a diferença entre a Gestalt-terapia e a Psicologia da Gestalt. Vale a pena conferir o vídeo clicando no link aqui. Para começar a compreender a concepção da Gestalt em Psicologia, inicialmente deve-se observar que o termo “Gestalt” realmente representa: um movimento intelectual, em vez de uma ideia ou doutrina psicológica específica. Além disso, é importante notar que esse movimento consiste em pelo menos três fases distintas que devem ser cuidadosamente distinguidas e avaliadas separadamente (KANTOR, 1925). Figura 13 - As três fases da Gestalt Fonte: Adaptado de Kantor (1925). • Em primeiro lugar, o termo “Gestalt” representa uma ideia distinta pertencente a um grupo particular de psicólogos e a um programa de experimentação. • Em segundo lugar, o termo denota uma ideia ou teoria que é geralmente aplicável como um modo distinto de interpretação do trabalho psicológico. • Em terceiro lugar, a doutrina da Gestalt representa uma nova atitude científica ou metodológica geral. Fundamentos da Psicologia Humanista 26 Consideremos, a concepção da Gestalt como um princípio psicológico fomentado por uma escola distinta de psicólogos. Esse princípio é, a saber, que os fenômenos psíquicos são estruturas que não podem ser pensadas como agregações de estados mentais mais simples, mas como existências únicas. Na verdade, é a estrutura total que dá caráter e significado aos elementos que a constituem (KANTOR, 1925). O conceito central da Gestalt-terapia é o self como um sistema de contatos. Aqui, o self no modo intermediário, ativo e passivo, é consistente com o entendimento que enfatizaram a autonomia, liberdade, endereço e resposta, constituindo o diálogo genuíno. A relação paciente-terapeuta como é vista na Gestalt-terapia baseia-se fortemente em uma mudança da transferência para contato e diálogo. Figura 14 - Self Fonte: Freepik Fundamentos da Psicologia Humanista 27 Influências na Construção da Visão de Homem A Gestalt-terapia é uma mistura única de abordagens existenciais, fenomenológicas (focadas no presente) e experienciais de processo desenvolvidas pelo Dr. Fritz Perls e pela Dra. Laura Perls. A Gestalt-terapia é uma forma popular e influente de terapia que teve um impacto na cultura e na sociedade globais. É um amálgama de diferentes teorias e técnicas, compiladas e refinadas ao longo dos anos por muitas pessoas (KANTOR, 1925). Figura 15 - Caminhos que formam a Gestalt Fonte: Freepik Fundamentos da Psicologia Humanista 28 Suas bases englobam o Humanismo, a Fenomenologia e o Existencialismo. Observe o Quadro 1. Quadro 1 - Base da Gestalt HUMANISMO FENOMENOLOGIA EXISTENCIALISMO Homem é o centro do mundo e da existência Descrição do fenômeno Foco na existência humana Humanismo O Humanismo, que defende a ideia de que o homem é considerado o centro do mundo e da existência, surgiu como a terceira força da Psicologia, quando já existiam a Psicanálise e o Behaviorismo, considerados a primeira e a segunda, respectivamente (FREITAS, 2016, p. 90). Existencialismo A Gestalt-terapia tem uma visão de homem baseada no existencialismo, que valoriza a subjetividade, a singularidade, a responsabilidade e a vivência e tem como foco principal a existência humana (FREITAS, 2016, p. 91). Fenomenologia A atitude terapêutica adotada na Gestalt-terapia é baseada na Fenomenologia, sendo seu método focado na descrição do fenômeno. Ou seja, os fenômenos da situação terapêutica são vistos isentos de qualquer a priori e o terapeuta apenas acompanha o fluxo de consciência do cliente, buscando compreender o que está sendo revelado, a fim de captar seu sentido para fazer o cliente perceber o que está sentindo (FREITAS, 2016, p. 90). Fonte: Adaptado de Kantor (1925). O método Gestalt leva em consideração todo o indivíduo e o contexto ambiental como indissociáveis no tratamento do desconforto humano. Ele se concentra na consciência momento a momento, vivendo no presente e na posse de nossas respostas internas e externas ao ambiente. É uma abordagem relacional e orientada para o crescimento, para auxiliar as pessoas no desenvolvimento da autoconsciência (SCHULTZ, 2020). Fundamentos da Psicologia Humanista 29 SAIBA MAIS: O Instituto carioca de Gestalt-terapia tem um vídeo interessante sobre o holismo. Clique aqui e aprenda um pouco mais sobre o assunto. Figura 16 - Perspectiva holística Fonte: Adaptado de Schultz (2020). A Gestalt-terapia incorpora uma perspectiva holística, abrangendo a experiência física, psicológica, intelectual, emocional, interpessoal e espiritual de uma pessoa. O objetivo é estar presente no aqui e agora, para atingir plena expressão energética ao lidar com a vida diária e ser totalmente quem somos em corpo, mente e espírito (SCHULTZ, 2020). Fundamentos da Psicologia Humanista 30 DEFINIÇÃO: Smuts (1996) define o holismo como uma tendência sintética do universo em evoluir por meio da formação de todos (wholes). A evolução não é nada além do que o desenvolvimento gradual em todos compostos por séries progressivas. Essa formação de todos se dá desde a estratificação dos princípios inorgânicos até o nível da criação espiritual. Smuts destaca que a formação da personalidade seria então mais um caso representativo dessa tendência da natureza em evoluir na direção da composição de todos (LIMA, 2008, p. 3). Figura 17 - Equilíbrio Fonte: Freepik Uma maior consciência do contato com os outros e o meio ambiente oferece oportunidades mais claras para os indivíduos melhorarem a qualidade de seus relacionamentos, e serem capazes de descobrir soluções novas e criativas para o seu bem-estar. A Gestalt-terapia foi além da aplicação exclusivamente individual para incluir casais, famílias, grupos, organizações, comunidades e considerações ecológicas. Como um método relacional, muitos terapeutas Gestalt contemporâneos estão preocupados em desenvolver uma comunidade sustentável e promover relacionamentos responsáveis com os outros e com o planeta (SCHULTZ, 2020). Fundamentos da Psicologia Humanista 31 DEFINIÇÃO: Gestalt-terapia é uma psicoterapia de processo com o objetivo de melhorar o contato com a comunidade e com o meio ambiente em geral. Uma psicoterapia de processo é aquela que se concentra no processo em vez de eventos distintos. Isso significa que os Gestalt terapeutas estão mais interessados no processo como um todo, em vez de eventos ou experiências individuais (SCHULTZ, 2020).. Esse objetivo é alcançado por meio do diálogo consciente, espontâneo e autêntico entre o cliente e o terapeuta. Os psicoterapeutas da Gestalt usam uma estrutura relacional, aqui e agora, o que significa que eles priorizam as interações atuais com o cliente ao longo da história e experiência passada. A Gestalt-terapia baseia-se no pensamento dialético e na polarização para ajudar o cliente a alcançar equilíbrio, contato e saúde (SCHULTZ, 2020). Figura 18 - Dualismo, polaridade Fonte: Freepik Fundamentos da Psicologia Humanista 32 A Gestalt-terapia baseia-se na Psicanálise, Psicologia gestáltica, Filosofia Existencial, budismo zen, taoísmo e muito mais. É um amálgama de diferentesideias teóricas, embaladas para entrega a pacientes usando a situação de terapia psicanalítica tradicional. Também inclui elementos mais periféricos da Psicologia, como psicodrama e dramatização (SCHULTZ, 2020). SAIBA MAIS: Pensando nas origens da Gestalt-terapia e a sua relação com outros campos da Psicologia, separamos um artigo que traz um pouco das origens e da trajetória da Gestalt. o texto vai complementar seus estudos até aqui, trazendo uma importante linha do tempo dessa importante área da Psicologia. Vamos ler? Basta clicar aqui. Nesse ponto, nos cabe lembrar que mesmo sendo considerada uma mistura de várias áreas, a Gestalt é um reflexo dos estudos de Perls, um reflexo de sua experiência de vida. Figura 19 - Mistura de ingredientes Fonte: Freepik Fundamentos da Psicologia Humanista 33 De acordo com Freitas (2016), a Gestalt se diferencia da maioria das abordagens psicológicas, pois elas defendem uma posição neutra do terapeuta, com pouco ou nenhum envolvimento dele no processo. Ao passo que a Gestalt propõe que o terapeuta possa construir uma relação como ferramenta no processo, com o objetivo de ampliar a consciência do paciente sobre si e sobre os outros, proporcionando a ele maior autonomia. Com base na Associação Americana de Psicologia, o sistema de terapia Gestalt é baseado em um modelo para compreender como nós, seres humanos, reunimos nossas experiências. Essa visão é fundada na ideia de que nossa experiência - ou nossa compreensão de nossa experiência - não nos é dada como um todo completo (WHEELER, 2002). Em vez disso, cada indivíduo constrói sua compreensão da vida como a vive, peça por peça. Nesse sentido, o ponto de vista da Gestalt- terapia é semelhante ao da terapia construtivista. Por meio desse processo de construção de experiência, as pessoas desenvolvem um padrão profundamente enraizado de como “fazem contato” com o mundo. O objetivo principal do Gestalt terapeuta é entender como um cliente faz contato com o mundo (WHEELER, 2002). SAIBA MAIS: A psicoterapia é uma importante intervenção de autoconhecimento para superação de problemas emocionais e a relação terapêutica é de suma importância nesse processo. O artigo que estamos disponibilizando a você fala sobre uma pesquisa a respeito da relação terapêutica na abordagem gestáltica. Vamos saber mais sobre isso? Para ler, basta clicar aqui. Fundamentos da Psicologia Humanista 34 RESUMINDO: Veja só, chegamos ao final de mais uma unidade! Que bom! Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo desse capítulo, vamos relembrar aqui um pouco do que estudamos. Nesse capítulo, compreendemos um pouco mais sobre a visão de homem da Gestalt, mais especificamente sobre as diversas influências que contribuíram para que Perls pudesse desenvolver sua teoria. Foi possível compreender de forma mais clara que o Humanismo, a Fenomenologia e o Existencialismo são as principais bases teóricas da Gestalt, que também sofreu influência da Psicanálise e psicodrama, além de influências das religiões orientais, como o budismo, por exemplo. Nesse capítulo, também apresentamos claramente a evolução e os componentes essenciais para a compreensão da visão de homem dessa abordagem, que é central para a prática clínica contemporânea. Que bom que chegamos juntos até aqui. Te esperamos nas próximas unidades. Fundamentos da Psicologia Humanista 35 Principais Conceitos da Gestalt-terapia OBJETIVO: Ao final deste capítulo, esperamos que você possa identificar os principais conceitos básicos da Gestalt- terapia. Conhecer os conceitos é de suma importância para compreender o funcionamento da abordagem. E então? Preparado? Vamos juntos? A Gestalt-terapia, Considerações Gerais A palavra alemã “gestalt” não tem uma tradução perfeita para o inglês, mas uma boa aproximação é “todo”. A Gestalt-terapia é baseada na Psicologia da Gestalt, uma disciplina da Psicologia experimental fundada na Alemanha em 1912. Os psicólogos da Gestalt argumentaram que os seres humanos percebem padrões ou configurações inteiras, não apenas componentes individuais (SCHULTZ, 2020). EXEMPLO: Figura 20 - Triângulo Fonte: Elaborado pelos autores (2021). Quando vemos um grupo de pontos dispostos como um triângulo, vemos um triângulo em vez de pontos aleatórios. Nossos cérebros organizam as informações em configurações completas, ou gestalt. Fundamentos da Psicologia Humanista 36 Além disso, o indivíduo é pensado como estando envolvido em uma construção constante de gestalt, organizando e reorganizando sua experiência, em busca de padrões e um sentimento de integralidade. A Gestalt-terapia associa o sentimento de integridade com a sensação de estar vivo e conectado à própria experiência única de existência. Os terapeutas Gestalt aplicam essa Filosofia de totalidade a seus clientes. Eles acreditam que um ser humano não pode ser compreendido generalizando uma parte de si mesmo para compreender a pessoa inteira (SCHULTZ, 2020). EXEMPLO: O cliente não pode ser compreendido apenas por seu diagnóstico, ou por uma interação, mas deve ser considerado o total de tudo o que ele é. A Questão da Figura e Fundo Para compreender o significado da Gestalt vamos começar pela questão da figura e fundo. Para ilustrar, vamos usar uma imagem chamada Vaso Rubin. Figura 21 - Vaso Rubin Fonte: Rubin (1915). Há um contorno preto de um vaso na tela e, a princípio, isso é tudo que o visualizador percebe, mas depois de um momento, a atenção do visualizador muda e eles percebem as duas faces delineadas na parte Fundamentos da Psicologia Humanista 37 branca da tela, uma em cada lado do vaso. Na primeira percepção, o vaso preto é chamado de figura e as faces brancas são chamadas de fundo. Mas o observador pode desviar sua atenção e, por meio desse ato, a figura e o fundo mudam, com os rostos brancos tornando-se a figura, e o vaso preto, o fundo (SCHULTZ, 2020). Os terapeutas Gestalt aplicam esse fenômeno perceptivo à experiência humana. Percorrendo o mundo, estamos em um constante processo de diferenciação de figuras e motivos. A figura é tudo o que estamos prestando atenção, enquanto o fundo é tudo o que está acontecendo ao fundo. O funcionamento saudável é a capacidade de atender com flexibilidade à figura que é mais importante no momento (SCHULTZ, 2020). Figura 22 - Ver em perspectiva de figura e fundo Fonte: Freepik A Gestalt-terapia vê uma vida saudável como uma série de ajustes criativos. Isso significa ajustar o comportamento de uma pessoa, de forma natural e flexível, à figura em consciência. Fundamentos da Psicologia Humanista 38 EXEMPLO: Aqui está outro exemplo desse processo: enquanto escrevo, percebo que meus lábios estão secos e minha boca, ressecada. Eu me levanto, sirvo um copo d’água e volto a escrever. Em resposta à minha sensação de sede, mudo meu quadro de consciência de minha escrita para beber água e, em seguida, de volta para minha escrita. O ato de beber água, saciando a minha sede, completa a gestalt e estou livre para voltar ao meu trabalho (SCHULTZ, 2020). Em contraste, uma vida pouco saudável é quando a atenção de uma pessoa voa de uma figura para a outra sem nunca atingir a integridade. Um exemplo fácil disso pode ser visto em nosso relacionamento com nossos telefones. Se estivermos trabalhando em algo importante e nosso telefone tocar, podemos tomar a decisão de ignorá-lo por enquanto, terminar nosso trabalho e ligar para a pessoa mais tarde. Se houver um prazo para o nosso projeto, essa pode ser a escolha saudável. Mas se permitirmos que nossa atenção seja dividida cada vez que nosso telefone tocar, talvez nunca concluamos nosso projeto (SCHULTZ, 2020). Figura 23 - Atenção dividida Fonte: Freepik Uma vida saudável exige que o indivíduo atenda de forma flexível e intencional à figura mais importante em sua consciência. Fundamentos da PsicologiaHumanista 39 A Questão da Conscientização Embora não possamos deixar de viver no presente, é claro para qualquer pessoa viva que podemos desviar nossa atenção dele. Envolve focar totalmente no presente e vê-lo separado do que vai acontecer no futuro ou do que aconteceu no passado. Os Gestalt terapeutas priorizam a consciência do momento presente e a noção de que prestar atenção aos eventos que se desenrolam no aqui e agora é o caminho para alcançar uma vida saudável. A consciência permite que o processo de diferenciação figura/fundo funcione naturalmente, ajudando-nos a formar gestalt, satisfazer nossas necessidades e dar sentido à nossa experiência. Conscientização é tanto o objetivo quanto a metodologia da Gestalt- terapia (SCHULTZ, 2020). Os terapeutas usam o que está presente no aqui e agora, incluindo ações, postura, gesticulações, tom de voz e como o cliente se relaciona com eles, para informar seu trabalho. O passado é considerado significativo à medida que existe no presente (SCHULTZ, 2020). Figura 24 - Linha do tempo Fonte: Elaborado pelos autores (2021). Gestalt terapeutas se concentram em ajudar seus clientes a restaurar sua consciência natural do momento presente, concentrando- se no aqui e agora na sala de terapia. Experiências e sentimentos que não foram totalmente processados no passado são revisitados e trabalhados no presente, como com a técnica da cadeira vazia (SCHULTZ, 2020). Fundamentos da Psicologia Humanista 40 A Questão da Responsabilidade Na Gestalt-terapia, existem duas maneiras de pensar sobre responsabilidade. Somos responsáveis quando estamos “cientes do que está acontecendo conosco” e quando “confessamos nossos atos, impulsos e sentimentos”. Os terapeutas Gestalt ajudam seus clientes a assumir ambos os tipos de responsabilidade pessoal. Quando a terapia começa, os clientes não internalizam sentimentos, emoções ou problemas, muitas vezes externalizando e transferindo a responsabilidade por suas ações como culpa ou consequência de outros. Eles podem estar presos ao passado, ruminando sobre os erros ou arrependimentos sobre suas ações. Quando os clientes são mais capazes de assumir a responsabilidade por suas ações, eles percebem o quanto podem fazer por si mesmos. Para fazer isso, os clientes devem ter consciência do que está acontecendo com eles no momento presente, bem como de sua parte na interação (SCHULTZ, 2020). Figura 25 - Autorresponsabilidade Fonte: Freepik Aumentar esse tipo de consciência, completar experiências passadas e encorajar comportamentos novos e flexíveis são algumas das maneiras pelas quais os Gestalt terapeutas ajudam seus clientes a assumir responsabilidade pessoal. Fundamentos da Psicologia Humanista 41 A Técnica da Cadeira Vazia A Gestalt-terapia concentra-se em trabalhar o passado no presente. Coisas que estão em nossa consciência, mas incompletas, são chamadas de “negócios inacabados”. Por causa de nossa tendência natural de fazer gestalt, negócios inacabados podem ser um dreno significativo de energia, bem como um bloqueio para o desenvolvimento futuro (GRANZOTTO, 2005; SCHULTZ, 2020). A técnica mais popular e bem conhecida na Gestalt-terapia, a técnica da cadeira vazia ou diálogo da cadeira vazia (ECH), é um método de resolver negócios inacabados na sala de terapia. Negócios inacabados são muitas vezes o resultado de emoções não expressas, como não lamentar uma perda e/ou necessidades não atendidas, ou ainda como queixas injustificadas em um relacionamento. O cliente pode ter optado por evitar o negócio inacabado no momento, decidindo não balançar o barco ou preservar o relacionamento. Depois do fato, esses sentimentos não expressos podem não ter uma saída adequada ou podem continuar a ser evitados por causa da vergonha ou do medo de serem vulneráveis. A maioria das pessoas tende a evitar esses sentimentos dolorosos em vez de fazer o que é necessário para mudar (GRANZOTTO, 2005; SCHULTZ, 2020). Figura 26 - Cadeira vazia Fonte: Freepik Fundamentos da Psicologia Humanista 42 A técnica da cadeira vazia é uma forma de trazer emoções não expressas e necessidades não satisfeitas para o aqui e agora. No ECH, o terapeuta prepara duas cadeiras para o cliente, uma delas fica vazia. O cliente se senta em uma cadeira e imagina a outra pessoa significativa com quem tem negócios pendentes na cadeira vazia. O cliente é então instruído e ajudado a dizer o que não foi dito ao outro imaginário. Às vezes, o cliente troca de cadeira e fala consigo mesmo como se fosse o outro. Por meio desse diálogo, as emoções passadas do cliente são trazidas para o presente. Eles são então processados e trabalhados com o terapeuta (GRANZOTTO, 2005; SCHULTZ, 2020). Essa técnica pode ser feita com um relacionamento contínuo ou um relacionamento que terminou. A resolução do trabalho é ajudar o cliente a mudar sua autopercepção. Os clientes submetidos à ECH podem mudar de se verem como fracos e vitimizados para uma posição de maior autocapacitação. Eles podem ver o outro significativo com maior compreensão ou responsabilizá-los pelos danos (GRANZOTTO, 2005; SCHULTZ, 2020). A Relação Terapêutica A abordagem Gestalt é muito orientada para o tempo presente. Ao longo da terapia, um terapeuta Gestalt sempre verifica com o cliente para ver como ele se sente aqui e agora. O terapeuta discerne a auto- organização do cliente verificando constantemente como o que o cliente está discutindo faz o cliente se sentir, tanto emocional quanto fisicamente, como onde essas emoções são encontradas no corpo. À medida que o terapeuta se sintoniza com a forma como o cliente está se sentindo, o cliente começa a se sentir seguro com o terapeuta e um relacionamento se forma entre eles. O relacionamento permite que o cliente se abra ainda mais e aprofunde o processo terapêutico (WHEELER, 2002). Depois que um relacionamento terapeuta-cliente se forma, o terapeuta pode começar a fase de desconstrução da terapia, na qual o terapeuta procura ajudar o cliente a resolver quaisquer problemas, entendendo como o cliente se organizou. A desconstrução começa pela compreensão e análise dessa auto-organização e pela apresentação dessas observações ao cliente (WHEELER, 2002). Fundamentos da Psicologia Humanista 43 Figura 27 - Relação terapêutica Fonte: Freepik Embora os terapeutas Gestalt tradicionalmente usem técnicas dramáticas, como o diálogo da cadeira vazia, para desconstruir os problemas do cliente, a própria abordagem do Dr. Wheeler envolve o terapeuta usando seus próprios pensamentos, sentimentos e observações como vias para compreender o cliente. Desse modo, a experiência da terapia aqui e agora do terapeuta é tão importante quanto a do cliente e pode ajudar o processo da terapia, provocando diálogo e instigações no cliente (WHEELER, 2002). Críticas e Limitações Muitas das críticas na literatura se concentram em Fritz Perls, o grande fundador da Gestalt-terapia. Perls tinha uma personalidade poderosa e deixou uma marca pessoal profunda na terapia que desenvolveu. Na verdade, suas próprias limitações podem ter restrito a terapia. Perls lutou com relacionamentos interpessoais ao longo de sua vida. Por sua vez, a terapia que ele ajudou a criar concentrava-se nas ideias de separação, responsabilidade pessoal e autossustento como formas ideais de ser (SCHULTZ, 2020). Fundamentos da Psicologia Humanista 44 Figura 28 - Feedback Fonte: Freepik Uma crítica ao trabalho de Perls de espalhar a Gestalt-terapia para o público leigo é que ele se concentrou em técnicas específicas que poderiam demonstrar em filmes ou em demonstrações ao vivo. Essas demonstrações elevaram Perls ao status de guru e também encorajaram os praticantes a aplicar suas técnicas à parte, sem compreender a teoria subjacente da Gestalt-terapia. Isso teve o efeito geral de diluir o método como um todo (SCHULTZ, 2020). Outracrítica é que a Gestalt-terapia de Perls se concentrava em ajudar os clientes a ter “interações honestas” com os outros. Em contraste, ele manteve um foco estrito na experiência do cliente, deixando-se fora da sala evitando perguntas pessoais, voltando-as para o cliente. Perls também enfatizou a experiência total, mas não enfatizou o passado do cliente e manteve o foco do trabalho estritamente no presente. Ele também enfatizou “viver como se realmente é”, mas na sala, ele confiava na encenação e na dramatização, que ele controlava estritamente (SCHULTZ, 2020). Fundamentos da Psicologia Humanista 45 Por fim, Gestalt terapeutas passaram muito tempo vivendo na sombra de Perls. Novos terapeutas têm buscado aprender a teoria e praticando sem tentar imitar o estilo de Perls, avançando e alterando a terapia para torná-la mais adequada para seus métodos e as necessidades de seus clientes. RESUMINDO: Olha só, chegamos ao fim do capítulo. Espero que você tenha gostado e tenha aprendido tudinho. Agora, vamos fazer um breve apanhado geral de tudo o que aprendemos? Nesse capítulo, você aprendeu que a Gestalt terapia é uma terapia emocionante e versátil que evoluiu ao longo dos anos. Há uma história dinâmica por trás dessa terapia e ela não deve ser desconsiderada. Aprendeu os principais conceitos que norteiam essa terapia. Ao aprender sobre a Gestalt-terapia, é essencial manter o foco na teoria, indo além do carisma de seu fundador, Fritz Perls. O trabalho de Perls é instrutivo e vital para compreender a ascensão da Gestalt-terapia, mas carecem de novos estudos e atualizações. Bem, tudo o que você aprendeu até aqui te ajudará a aprimorar sua concepção de homem e dar suporte para sua atuação como psicólogo. Fundamentos da Psicologia Humanista 46 Principais Representantes da Gestalt- terapia OBJETIVO: Ao final deste capítulo, você saberá identificar os principais representantes da Gestalt-terapia. Vamos aprender um pouco mais sobre cada um dos teóricos dessa abordagem a fim de melhor compreender a Gestalt-terapia. E então? Vamos juntos? Introdução ao Capítulo Fritz Perls é considerado o criador da Gestalt-terapia, porém é importante destacar que existia um grupo chamado “grupo dos sete” que é considerado por muitos estudiosos como o grupo que criou essa importante abordagem psicológica. Fazem parte desse grupo: Isadore From, Paul Goodman, Paul Weisz, Sylvester Eastman e Elliot Shapiro, Laura e de Fritz Perls, e posteriormente, Ralph Hefferline. Porém, neste capítulo vamos falar sobre três estudiosos desse grupo: Laura e Fritz Perls e Paul Goodman. Vamos lá? (FRAZÃO, 1997). Figura 29 - Grupo criando Fonte: Freepik Fundamentos da Psicologia Humanista 47 Fritz Perls Fritz Perls (1893-1970) foi um psiquiatra do século XX que fundou a Gestalt-terapia em colaboração com sua esposa, Laura Perls. Ele nasceu em Berlim e serviu no exército durante a Primeira Guerra Mundial. Após a guerra, Perls estudou Medicina e começou a tratar soldados com lesões cerebrais. Ele foi atraído pelo trabalho de Sigmund Freud quando adolescente, e suas experiências no tratamento de pacientes o puxaram ainda mais para o caminho da Psicanálise freudiana. Ele estudou no Instituto de Psicanálise de Berlim e em Viena (FRAZÃO, 1997). Figura 30 - Soldado na guerra Fonte: Freepik SAIBA MAIS: Pearls foi um leitor das obras de Freud, e muito da teoria psicanalítica está presente também na Gestalt-terapia. O texto que disponibilizamos traz uma releitura da teoria freudiana como importante corrente teórica na formulação da Gestalt-terapia. Para ler o texto, basta clicar aqui. Fundamentos da Psicologia Humanista 48 Em 1930, Perls casou-se com Lore Posner, mais tarde conhecida como Laura Perls; o casal teve dois filhos e fugiu do regime de Hitler mudando-se para Joanesburgo, na África do Sul, em 1933. Lá, Perls fundou um Instituto de treinamento para servir à comunidade psicanalítica. Durante a Segunda Guerra Mundial, Perls alistou-se novamente no exército e tornou-se psiquiatra do exército sul-africano (BOWMAN; NEVIS 2005; FRAZÃO, 1997). Em 1946, a família Perls mudou-se para Nova York, onde Perls trabalhou brevemente com Wilhelm Reich e Karen Horney. Perls acabou se estabelecendo em Manhattan e começou a trabalhar com o intelectual Paul Goodman. Em 1951, em colaboração com Ralph Hefferline, Goodman e Perls produziram o livro Gestalt Therapy: excitement and hrowth in the human personality, baseado principalmente nas próprias pesquisas e notas clínicas de Perls. Logo após a publicação em 1951, os Perls fundaram o New York Institute for Gestalt Therapy e começaram a ministrar treinamentos em seu apartamento em Manhattan. Perls começou a compartilhar suas teorias com toda a América do Norte e a viajar extensivamente para conduzir seminários e workshops de treinamento (FRAZÃO, 1997). Figura 31 - Cursos e seminários pelo mundo Fonte: Freepik Fundamentos da Psicologia Humanista 49 Mais tarde, Perls mudou-se para a Califórnia e tornou-se afiliado ao Instituto Esalen, em 1964, onde ministrou workshops e continuou a praticar e a desenvolver a Gestalt-terapia. Em 1969, Perls mudou-se para a Ilha de Vancouver, Canadá, para estabelecer uma comunidade de treinamento para terapeutas. Ele morreu no ano seguinte em Chicago (BOWMAN; NEVIS, 2005). Contribuição para a Psicologia Desenvolvida por Fritz e Laura Perls, a Gestalt-terapia deriva muitas de suas teorias da Psicologia da Gestalt, embora a abordagem da terapia não espelhe completamente a Psicologia da Gestalt. A Psicologia da Gestalt enfatiza que o cérebro é uma unidade holística auto-organizada que é maior do que a soma de suas partes, enquanto a Gestalt-terapia enfatiza o momento presente e a responsabilidade pessoal. A Gestalt- terapia também incorpora aspectos da Psicologia freudiana e reichiana (BOWMAN; NEVIS 2005) A Gestalt-terapia é considerada uma psicoterapia existencial humanística e enfatiza o momento presente. A prática usa uma visão cognitiva das experiências atuais e enfatiza a atenção plena, encorajando o cliente a explorar a criatividade para obter satisfação em áreas da vida que de outra forma poderiam estar bloqueadas. A base dessa abordagem à terapia é a própria consciência do cliente quanto ao comportamento, emoção, sentimentos, percepção e sensação (BOWMAN; NEVIS, 2005). Figura 32 - Homem Holístico Fonte: Freepik Fundamentos da Psicologia Humanista 50 O foco da Gestalt-terapia são os relacionamentos - relacionamentos com o mundo, com outras pessoas e consigo mesmo. Os principais componentes da abordagem incluem uma forte ênfase no relacionamento terapeuta-cliente como uma ferramenta de cura (BOWMAN; NEVIS, 2005). EXEMPLO: O terapeuta não diz ao cliente o que fazer ou age como o líder da terapia. Em vez disso, os terapeutas enfatizam o poder de ensino do diálogo, com o terapeuta e o cliente visando aumentar a autenticidade. Em vez de priorizar uma fonte de informação em detrimento de outra, os terapeutas enfatizam a utilidade de todos os tipos de informação, uma prática às vezes chamada de consciência fenomenológica (BOWMAN; NEVIS, 2005). Uma pessoa é mais do que a soma de suas experiências. Como a teoria que lhe deu o nome, a Gestalt-terapia vê o cliente como mais do que uma coleção de experiências ou sintomas, tratando o cliente como um organismo dinâmico em constante estado de mudança e evolução. Figura 33 - Homem em evolução Fonte: Freepik Os terapeutas baseiam-se em teorias existenciais ao ver os clientes como uma reação perpétua a novas circunstâncias e desenvolvendo seu repertório comportamental (BOWMAN; NEVIS, 2005). Fundamentos da Psicologia Humanista 51 Laura Perls Laura Perls (1905-1990) foi casada com Frederick “Fritz” Perls e cofundou a escola Gestalt de psicoterapia. Ela nasceu em Lore Posner em 15 de agosto de 1905 em Pforzheim, Alemanha. Foi uma notável psicólogapor seus próprios méritos e independente de seu marido, e ela mesma administrou o primeiro Instituto Gestalt, o Instituto de Gestalt Terapia de Nova York (SERLIN, 1999). Figura 34 - Laura Perls Fonte: Serlin (1999). Como seu marido, ela foi inicialmente atraída pelo trabalho e ensino de Sigmund Freud depois que seu interesse pela Psicologia foi despertado em 1916. Foi A Interpretação dos Sonhos de Freud, publicado em 1899, que primeiro atraiu sua atenção (SERLIN, 1999). Ela conheceu Fritz Perls em Frankfurt e, em 1930, o casal se casou, e mais tarde tiveram dois filhos. Os Perls deixaram a Alemanha quando os nazistas chegaram ao poder e se estabeleceram na África do Sul, onde continuaram seu trabalho no desenvolvimento da teoria da Gestalt (SERLIN, 1999). Fundamentos da Psicologia Humanista 52 Figura 35 - Holocausto Fonte: Freepik Após dez anos na África do Sul, o casal mudou-se para o Canadá, mas rapidamente mudou-se para os Estados Unidos e estabeleceu-se em Nova York. Fritz Perls escreveu seu livro, Ego, Hunger and Aggression (1942) enquanto estava na África do Sul, com a ajuda de Laura (SERLIN, 1999). Gestalt Therapy: excitement and growth in human personality foi uma obra de coautoria entre os Perls, Ralph Hefferline e Paul Goodman, publicada em 1951, mas com pouco interesse inicial. Com o tempo, entretanto, o interesse cresceu pelo movimento Gestalt e, em 1952, o Instituto de Gestalt Terapia de Nova York foi inaugurado, com Laura administrando as instalações (SERLIN, 1999). O casal acabou se separando e se divorciando, com Fritz se mudando para a Califórnia no início dos anos 1960. Laura ficou em Nova York para continuar supervisionando o Instituto Gestalt. Laura Perls morreu em 1990, aos 85 anos (SERLIN, 1999). Fundamentos da Psicologia Humanista 53 Paul Goodman Paul Goodman (1911-1972) nasceu na cidade de Nova York em 9 de setembro de 1911. Ele nunca conheceu seu pai, que abandonou a família quando Paul era criança. Isso fez com que sua mãe deixasse de ser boêmia e se tornasse uma mãe solteira e trabalhadora. Ele foi criado sem muita supervisão pelas irmãs de sua mãe e sua irmã mais velha, Alice, na rica atmosfera da comunidade intelectual judaica urbana do início do século. Figura 36 - Comunidade judaica Fonte: Freepik Ele era uma criança estudiosa e curiosa que vagava livremente pelas ruas, parques, museus e bibliotecas da cidade de Nova York, absorvendo uma educação verdadeiramente gratuita. Ele se formou no City College no ano da depressão de 1931 e entrou nas aulas de Columbia e Harvard (PHILIPPSON, 2013). Por meio de um professor da Universidade de Columbia, ele foi convidado a lecionar na Universidade de Chicago enquanto fazia seu doutorado em Literatura, mas foi demitido de seu emprego (assim como foi demitido de todos os empregos de professor em sua vida) porque insistiu em seu direito de se apaixonar por seus alunos. Ele nunca escondeu sua bissexualidade e mesmo em face dos problemas que isso lhe causou naquela época menos permissiva (PHILIPPSON, 2013). Fundamentos da Psicologia Humanista 54 Nos 25 anos seguintes, ele morou com sua esposa Sally. Goodman teve duas filhas, Susan (cuja mãe era Virginia Miller, a primeira esposa de Goodman) e Daisy, e um filho, Matthew Ready. Durante esse tempo, eles viveram em pobreza. Ele conseguiu pequenos empregos, incluindo um contrato de 5 dólares por história com o Departamento de histórias da MGM em Nova York para fazer sinopses de novelas francesas. Durante esse tempo, ele escreveu vertiginosamente e se considerava um artista, produzia, principalmente, poemas, peças e contos. Ele se promoveu, mas encontrou pouca aceitação de seu estilo predominantemente vanguardista. Ele se envolveu com pequenas revistas literárias, grupos de teatro e atividades políticas centradas no Salão Anarquista Espanhol (Solidaridad International Anti-Fascista) (PHILIPPSON, 2013). Figura 37- Escritor vigoroso Fonte: Freepik A meia-idade encontrou Paul Goodman esgotado e temeroso em face de seu status de artista de segunda linha com filhos para criar. Foi nessa época que ele conheceu Fritz Perls, um judeu alemão que passou os anos de Hitler na África do Sul e fugiu para os Estados Unidos quando o regime do apartheid lá surgia. Perls havia estudado com a geração fundadora de freudianos, mas logo desenvolveu uma prática terapêutica pouco convencional. As ideias de Perls combinaram bem com as de Goodman e eles logo se envolveram em uma rica colaboração, fundando o Gestalt Therapy Institute e escrevendo a Gestalt Therapy (PHILIPPSON, 2013). Fundamentos da Psicologia Humanista 55 Figura 38 - Colaboração Fonte: Freepik Essa exposição mudou a carreira de Goodman de artista/escritor para crítico social. Ele não escreveu mais histórias ou peças e nem poemas. Seu livro inovador, Growing Up Absurd, foi rejeitado por uma dúzia de editoras antes de finalmente ser impresso em 1960 e se tornar um grande sucesso. Logo, o resto da sociedade começou a apreciá-lo, à medida que os jovens começaram a se rebelar contra o excessivo convencionalismo dos anos 1950. Ele estava bem colocado para lidar com a crítica anti- institucional que emergiu nessa época e levou a mudanças massivas nos anos que viriam. Em meados dos anos 1960, ele foi adotado como uma espécie de tio do movimento jovem/estudantil, escrevia um livro por ano e fazia aparições quase constantes no campus. Sua contribuição foi acadêmica, pessoal, clássica, mas revolucionária, e totalmente natural e anti-institucional (PHILIPPSON, 2013). Em 1967, seu filho Mathew morreu tragicamente em um acidente de alpinismo. Amigos dizem que ele nunca se recuperou da dor que isso lhe causou. Logo, sua saúde começou a se deteriorar e a sua escrita tornou- se o reflexo de um velho guerreiro. Ele morreu de ataque cardíaco em 2 de agosto de 1972, pouco antes de completar 61 anos (PHILIPPSON, 2013). Fundamentos da Psicologia Humanista 56 RESUMINDO: E então? Gostou do viu até aqui? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu, vamos relembrar o que aprendemos. Nesse capítulo, vimos um pouco sobre a biografia de três dos principais nomes da Gestalt-terapia: Fritz e Laura Perls e Paul Goodman. Vimos também que a Gestalt terapia é o resultado da contribuição de muitas pessoas. As ideias dos Perls diferiam das de Freud tão radicalmente que eles se separaram e formaram sua própria disciplina. Fritz Perls foi um líder carismático da Gestalt- terapia e a espalhou amplamente por toda a América na década de 1950. Por sua vez, Laura Perls foi uma psicóloga alemã que trouxe muitas contribuições relevantes para a Gestalt-terapia. Adicionalmente, Paul Goodman teve uma vida difícil até encontrar os Perls, porém sempre teve uma atitude revolucionária que foi reflexo também em sua contribuição para a teoria da Gestalt-terapia. Enfim, esperamos que você possa ter compreendido um pouco mais da história da Gestalt-terapia, por meio das biografias dos seus principais fundadores. Esperamos nos encontrar nas próximas unidades. Até lá. Fundamentos da Psicologia Humanista 57 REFERÊNCIAS BOWMAN, C. E.; NEVIS, E. C. The history and development of Gestalt therapy. In: WOLDT, A. L.; TOMAN, S. M. Gestalt therapy: history, theory, and practice. Thousand Oaks: Sage Publications, 2005. FRAZÃO, L. M. Apresentação à edição brasileira. In: PERLS, F. et al. Gestalt-terapia. São Paulo: Sumus, 1997. FREITAS, J. R. C. B. A relação terapeuta-cliente na abordagem gestáltica. IGT rede, Rio de Janeiro, v. 13, n. 24, p. 85-104, 2016. GRANZOTTO, R. L. Gênese e construção de uma filosofia da Gestalt na Gestalt-terapia. Orientador: Marco Antônio Frangiotti. 2005. 131 f. Dissertação (Mestrado em Filosofia) - Faculdade de Filosofia. UFSC. Florianópolis. 2005. Versões impressa eletrônica. KANTOR, J. R. The Significance of the Gestalt Conception in Psychology. The Journalof Philosophy, v. 22, n. 9, p. 234-241, abr., 1925. LIMA, P. V. A. O holismo em Jan Smuts e a Gestalt-terapia. Revista da Abordagem Gestáltica, Goiânia, v. 14, n. 1, p. 3-8, jun., 2008. PHILIPPSON, P. Paul Goodman and the Gestalt theory of self. Self & Society, v. 44, n. 4, p. 327-352, 2016. RUBIN, E. Syncopleoede figurer. Kobenhavn: Gyldendalske Boghandel. 1925. SCHULTZ, J. Gestalt Therapy Explained: history, definition and examples. Positive Psychology, [s. l.], p. 1-5, out., 2020. SERLIN, I. A. Laura Perls and Gestalt Therapy: her life and values. In: MOSS, D. Humanistic and Transpersonal Psychology: a historical and biographical sourcebook. [S. l.: s. n.], 1999. p. 375-384. WHEELER, G. 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