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Fundamentos da Psicologia Humanista Unidade 1 Introdução às Correntes Filosóficas da Fenomenologia e do ExistencialismoDiretor Executivo DAVID LIRA STEPHEN BARROS Gerente Editorial CRISTIANE SILVEIRA CESAR DE OLIVEIRA Projeto Gráfico TIAGO DA ROCHA Autoria SHEILA MARIA PRADO SOMA JÉSSICA DE ASSIS SILVA FABIO PEREIRA SOMAAUTORIA Sheila Maria Prado Soma Sou psicóloga há 22 anos, com mestrado e doutorado pela Universidade Federal de São Carlos. Tenho experiência em Psicologia Clínica e docência no ensino superior, além disso, venho trabalhando durante todo esse tempo com a formação de profissionais nessa área e também com produção de conteúdos e pesquisas. Psicologia é a minha paixão e, transmitir minha experiência profissional e de vida àqueles que estão em formação é um dos focos do meu trabalho. Por esse motivo, fui convidada pela Editora Telesapiens a integrar seu elenco de autores independentes. Estou muito feliz em estar com você nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte comigo! Vamos juntos! Jéssica de Assis Silva Sou formada em Psicologia pela Universidade Federal do Pará, com mestrado em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos e doutorado em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (USP). Adicionalmente, sou especialista em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP sendo docente em cursos de graduação e especialização. Desse modo, gostaria de dividir um pouco dessa experiência com você! Estou muito feliz em poder fornecer suporte a você nesta etapa de sua formação! Fabio Pereira Soma Sou formado em Filosofia e Pedagogia e também mestre em Filosofia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Conto com uma experiência técnico-profissional na área de Educação de mais de 12 anos. Sou apaixonado pelo que faço e adoro transmitir minha experiência de vida àqueles que estão iniciando em suas profissões. Estou muito feliz em poder ajudar você nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte comigo!ICONOGRÁFICOS Olá. Esses ícones irão aparecer em sua trilha de aprendizagem toda vez que: OBJETIVO: DEFINIÇÃO: para o início do houver necessidade desenvolvimento de de se apresentar um uma nova compe- novo conceito; tência; NOTA: IMPORTANTE: quando forem as observações necessários obser- escritas tiveram que vações ou comple- ser priorizadas para mentações para o você; seu conhecimento; EXPLICANDO VOCÊ SABIA? MELHOR: curiosidades e algo precisa ser indagações lúdicas melhor explicado ou sobre o tema em detalhado; estudo, se forem necessárias; SAIBA MAIS: REFLITA: textos, referências se houver a neces- bibliográficas e links sidade de chamar a para aprofundamen- atenção sobre algo to do seu conheci- a ser refletido ou dis- mento; cutido sobre; ACESSE: RESUMINDO: se for preciso aces- quando for preciso sar um ou mais sites se fazer um resumo para fazer download, acumulativo das últi- assistir vídeos, ler mas abordagens; textos, ouvir podcast; ATIVIDADES: TESTANDO: quando alguma quando desen- atividade de au- volvimento de uma toaprendizagem for competência for aplicada; concluído e questões forem explicadas;SUMÁRIO Contribuições de Husserl: "pai da Fenomenologia" 12 Fenomenologia: desvendando conceito 12 Epoché 15 A questão do transcender para Husserl 17 A Fenomenologia e sua importância para a Psicologia 21 Fenomenologia de Martim Heidegger 23 Compreendendo o pensamento de Heidegger 23 sentido do ser 26 Dasein: Ser-aí 28 A Fenomenologia para Heidegger 30 pensamento existencialista 33 Raízes do Existencialismo 33 A visão de Homem no Existencialismo 34 A questão dá ética no Existencialismo 36 Principais nomes do Existencialismo 38 Søren Kierkegaard (1813-1855) 38 Friedrich Nietzsche (1844-1900) 39 Jean-Paul Sartre (1905-1980) 40 Simone de Beauvoir (1908-1986) 41 Albert Camus (1913-1960) 42Existencialismo de Merleau-Ponty e Sartre 44 Quem foi Sartre? 44 Biografia 44 Existencialismo em Sartre 46 Quem foi Merleau-Ponty? 50 Existencialismo em Ponty 52Fundamentos da Psicologia Humanista 9 UNIDADE10 Fundamentos da Psicologia Humanista INTRODUÇÃO Você sabia que a Fenomenologia e Existencialismo constituem em base filosófica da Psicologia Humanista? E que Humanismo é uma das correntes mais importantes da Psicologia? Os humanistas compreendem indivíduos como um todo, sem deixar de considerar a sua singularidade. Seu desenvolvimento se deu a partir de psicólogos e estudiosos que encontravam limitações nas teorias psicanalítica e behaviorista, rejeitando seus pressupostos (considerados por eles como deterministas). Chamada de "terceira força" da Psicologia, Humanismo surgiu na década de 1950 e tem suas bases ancoradas na teoria de Edmund Husserl: a Fenomenologia e, posteriormente, abarcando também os conceitos do Existencialismo. Parece complexo não é mesmo? Mas você vai entender tudinho ao longo desta unidade. Vamos?Fundamentos da Psicologia Humanista 11 OBJETIVOS Olá. Seja muito bem-vinda Nosso propósito é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes objetivos de aprendizagem até término desta etapa de estudos: 1. Definir as contribuições de Husserl para desenvolvimento da Fenomenologia e sua importância para estudo das ciências humanas; 2. Definir as contribuições da fenomenologia de Martin Heidgegger para a compreensão do ser aí; 3. Definir pensamento existencialista para a compreensão do ser humano em seu todo; 4. Identificar existencialismo em Ponty e Sartre. Então? Preparado para uma viagem sem volta rumo ao conhecimento? Ao trabalho!12 Fundamentos da Psicologia Humanista Contribuições de Husserl: "pai da Fenomenologia" OBJETIVO: Ao término deste capítulo, você será capaz de entender como a Fenomenologia de Husserl contribuiu de forma importante para desenvolvimento da Ciência da Psicologia, em especial a Humanista. Compreender as bases teóricas da Psicologia Humanista é de fundamental importância para no futuro como psicólogos, para não incorrermos em erros conceituais na aplicação das teorias aos diversos contextos em que a Psicologia atua. Motivados? Vamos juntos desenvolver essa competência! Fenomenologia: desvendando conceito A Fenomenologia estuda a experiência dos homens e a forma como mundo se apresenta a todo ser humano por meio da experiência. Para entender o conceito de Fenomenologia, é preciso inicialmente distinguir duas questões importantes: a atitude natural e a atitude fenomenológica. A atitude natural é a nossa postura original, ou seja, aquilo que é padrão para nós. A atitude fenomenológica é quando fazemos uma reflexão sobre nossos padrões, sobre a atitude natural. É somente pela atitude fenomenológica que realizamos análises filosóficas. A Fenomenologia é uma Ciência que estuda a verdade sobre o mundo e as coisas, nos afastando do nosso envolvimento racional e nos levando em direção à compreensão do mundo que nos cerca (SILVA et al., 2006). Pensando na etimologia da palavra, de maneira geral, Fenomeno- logia significa estudo dos fenômenos, isto é, como eles são percebidos, pensados e falados, ela vai mostrar que O mundo é fenômeno que pre- cisa ser descortinado para ser compreendido (SILVA et al., 2006). Pode ser definida também como estudo da experiência ou consciência. De forma literal, a Fenomenologia estuda fenômenos: como as coisas aparentam ser ou como surgem em nossa experiência ou as maneiras como as ex-Fundamentos da Psicologia Humanista 13 perimentamos. Sendo assim, os significados que as coisas têm para nós, para a nossa experiência individual (SILVA et al., 2006). A Fenomenologia de Husserl Surgida na Alemanha, a Fenomenologia recebeu influências da Filosofia, especialmente de Platão, de Descartes e de Brentano. Os fenomenologistas clássicos mais famosos foram Husserl, Heidegger, Sartre e Merleau-Ponty. Nesses quatro pensadores, podemos encontrar diferentes compreensões de Fenomenologia, métodos e resultados. Figura 1 Edmund Husserl, principal nome da Fenomenologia 24/12/12 Fonte: Creative Commons A figura 1 apresenta uma imagem de Edmund Husserl (1859-1938). Nascido em Prossnitz (na República Tcheca). Husserl estudou Matemática nas Universidades de Leipzig e de Berlim, e na Universidade de Viena foi influenciado pelo psicólogo Franz Brentano. Em seu primeiro trabalho, Philosophie der Arithmetik (1891), procurou derivar conceitos aritméticos a partir de princípios psicológicos afirmando que as Leis lógicas, eram necessárias e, portanto, não podiam ser vistas como generalizações14 Fundamentos da Psicologia Humanista empíricas. Assim, tentou construir uma lógica "pura" lidando com conceitos comuns a todas as Ciências, propondo, dessa maneira, uma abordagem fenomenológica. Para Husserl a Fenomenologia influencia campo das Ciências até mesmo atualmente, contudo, compreender sua extensão e profundidade é um desafio. Sua obra teve seu ponto alto na década de 20, porém, começou a ser divulgada antes da Primeira Guerra Mundial e foi inspiração para outras teorias, como a Ontologia Existencial e a Ética de Valores (ZILES, 2007). Husserl pensou e estruturou um sistema complexo de Filosofia, partindo da Lógica para a Filosofia da Linguagem, Ontologia (teoria dos universais e partes do todo), posteriormente, para a teoria Fenomenológica da Intencionalidade, culminando na teoria Fenomenológica de Conhecimento, e, por fim, se concentrou na própria Fenomenologia (SILVA et al., 2006). Husserl definiu a Fenomenologia como "a Ciência da essência da cujo centro seria a intencionalidade, na primeira pessoa. Dessa forma, pode-se dizer que a Fenomenologia é estudo da consciência, isto é, a experiência consciente vivenciada do ponto de vista da primeira pessoa (SILVA et al., 2006; SMITH, 2018; ZILES, 2007). Para Husserl, a fenomenologia é uma descrição da estrutura específica do fenômeno (fluxo imanente de vivências que constitui a consciência) e, como estrutura da consciência enquanto consciência, ou seja, como condição de possibilidade do conhecimento, é na medida em que ela, enquanto consciência transcendental, constitui as significações e na medida em que conhecer é pura e simplesmente apreender (no plano empírico) ou constituir (no plano transcendental) os significados naturais e espirituais. (ZILES, 2007, p. 218) Na Fenomenologia, estuda-se diferentes maneiras da vivência na forma como a vivenciamos, partindo da perspectiva do sujeito que a vive ou a realiza. Assim, é possível caracterizar experiências como ver, ouvir, imaginar, pensar, sentir, desejar e agir. Analisar um determinado tipo de experiência por meio da Fenomenologia vai demonstrar as maneiras pelas quais cada pessoa pode experimentar essa forma de atividade consciente, ou seja, nossos tipos individuais de experiência é a sua intencionalidade,Fundamentos da Psicologia Humanista 15 a consciência de ou sobre algo que é experimentado. A maneira como vejo, conceituo ou entendo objeto com qual estou lidando define significado desse objeto em minha experiência atual. Da mesma forma, a Fenomenologia apresenta um estudo do significado em um sentido mais amplo que inclui mais do que que possível se expressar (SMITH, 2018). Epoché Husserl apresentou a Fenomenologia com uma virada transcendental, isto é, estudioso assumiu ponto de vista kantiano de "idealismo transcendental", ou seja, aquele que procura condições de possibilidade de conhecimento ou de consciência em geral, se afastando de qualquer realidade para além dos fenômenos. Mas a virada transcendental de Husserl também envolveu sua descoberta do método da Epoché (da noção dos céticos gregos de se abster de acreditar), como representado a seguir (SMITH, 2018). Figura 2 Epoché, Fenomenologia Husserliana EPOCHÉ FENOMENOLOGIA CONSCIÊNCIA EXPERIÊNCIA Fonte: Elaborado pelos autores (2021).16 Fundamentos da Psicologia Humanista A figura 2 apresenta um esquema do que seria Epoché de acordo com a Filosofia Husserliana. Segundo seu posicionamento, devemos praticar a Fenomenologia, ou seja, colocar entre parênteses a questão da existência do mundo natural ao qual estamos inseridos. Assim, é importante voltar nossos olhos para a estrutura de nossa própria experiência consciente. Nosso primeiro resultado é a observação de que cada ato consciente é uma consciência de algo, isto é, intencional ou direcionado a algo (SMITH, 2018). primeiro passo do método fenomenológico consiste em abster-se da atitude natural, colocando mundo entre parênteses (epoqué). Isso não significa negar sua existência, mas metodicamente renunciar ao seu uso. Ao analisar, após essa redução fenomenológica, a corrente de vivências puras que permanecem, constata que a consciência é consciência de algo. Esse algo chama de fenômeno. (ZILES, 2007, p. 218) Para compreender esse complexo conceito observe a figura 3 e exemplo a seguir. Figura 3 Pessoa observando a árvore Fonte: Creative CommonsFundamentos da Psicologia Humanista 17 EXEMPLO: na figura 3, uma pessoa observa uma árvore. Considere sua experiência visual em que ela vê uma árvore do outro lado da cerca. Na reflexão fenomenológica, ela não precisa se preocupar se a árvore existe: sua experiência é de uma árvore. No entanto, precisamos nos preocupar com significado ou a intenção do objeto. Ela vê uma árvore comum, não uma árvore de maçãs. Vê aquele objeto como uma árvore comum, com uma determinada forma, com folhas, tronco etc. Assim, entre parênteses a própria árvore, voltemos nossa atenção para a sua experiência da árvore e, especificamente, para o conteúdo ou significado da sua experiência. Husserl denomina essa árvore como percebida de noema ou sentido noemático da experiência (SMITH, 2018). A ideia é que, uma vez que você desapegue de se perguntar que algo realmente é, você terá a liberdade necessária para estudar como sua aparência está relacionada com que você pensa que é. Trata-se de uma mudança de atenção. Isso é relevante para a introspecção na medida em que há uma distinção crucial entre que está acontecendo na consciência, e que notamos a respeito. A Epoché Husserliana é um meio de tomar consciência de processos conscientes que costumam passar despercebidos. Portanto, se você praticar Epoché, não significa que você genuinamente cria aspectos da consciência dos quais se torna consciente, mas sim que você desloca sua atenção em direção a eles (SMITH, 2018). A questão do transcender para Husserl De acordo com Husserl, quando você pratica Epoché, pode perceber que experimenta as coisas tridimensionalmente Tomemos como exemplo a famosa estátua de Tom Jobim no Rio de Janeiro, observe a figura 4 para compreender a questão do transcender para Husserl conforme escreve Smith (2018).18 Fundamentos da Psicologia Humanista Figura 4 Estátua de Tom Jobim na praia de Ipanema no Rio de Janeiro Fonte: Creative Commons Ao observar a estátua, a qualquer momento, apenas um dos muitos lados dela aparecem para você. Para onde quer que você se mova, sempre haverá um lado invisível, bem como em outras distâncias das quais você pode experimentar a estátua de Tom. Se você já a viu anteriormente, terá uma expectativa mais definida e detalhada de sua aparência. Mas, mesmo assim, uma impressão real do lado de trás atual está faltando. Sem que você saiba, alguém pode ter passado tinta vermelha na parte de trás, de modo que sua memória dela seria diferente de seu estado atual. Essa possível diferença entre a sua expectativa do lado de trás da estátua e a do seu lado de trás real é um indicativo de outra diferença. Na consciência, você obviamente tem uma maneira de lembrar e antecipar características da estátua de Tom mas a estátua real pode ser diferente. A maneira como você aprende sobre a estátua real ser diferente da sua expectativa é através do lado que realmente aparece. Portanto, três "componentes" estão envolvidos na percepção da estátua: (1) ladoFundamentos da Psicologia Humanista 19 que aparece atualmente, (2) como você pensa que é e (3) a estátua real (SMITH, 2018). Em princípio, que você pensa que a estátua é pode estar em plena correspondência com a estátua real. Experimentar a estátua de todos lados e distâncias simultaneamente, no entanto, é impossível. Você SÓ pode experimentar um lado, e esse lado nunca abrange tudo que há para experimentar sobre a estátua de Tom naquele momento. Nesse sentido, uma experiência completa da estátua de Tom é impossível, enquanto uma parcial é possível. A impossibilidade de experimentar uma coisa de todos lados é um dos motivos pelos quais Husserl disse que uma coisa sempre transcende (excede) que dela é dado em uma experiência real. Pensando no significado geral da palavra "transcendente", podemos observar de acordo com a figura 5. Figura 5 Etimologia da palavra transcendente Trans = através Do Latim + TRANSCENDERE, "subir sobre, cruzar por cima" scandere = subir Fonte: Elaborado pelos autores (2021). Para a Filosofia, "transcendente" significa ultrapassar limites, nesse caso, do conhecimento. Para Husserl são dois significados para "transcendente". primeiro significado se refere ao fato de que a experiência real de uma coisa sempre carece de impressões dela. Essas impressões ausentes, no entanto, podem, em princípio, tornar-se conscientes (embora não todas segundo significado se refere a características das quais temos consciência, mas que em si não são características da consciência. A causalidade mecânica, por exemplo, é aplicável a uma pedra, mas não à percepção da pedra. É necessário,20 Fundamentos da Psicologia Humanista portanto, distinguir entre a "percepção de uma pedra" como objeto consciente e a "pedra real" como entidade física, que é transcendente no segundo sentido (SMITH, 2018). Husserl chama objeto consciente que experimentamos quando percebemos objetos transcendentes como uma pedra de "noema". Ele escolhe uma árvore para ilustrar isso. A árvore como objeto transcendente ou coisa física pertencente à natureza pode queimar-se, ser decomposta em seus elementos químicos. A árvore como noema não pode queimar, não possui elementos químicos, forças, propriedades reais (SILVA et al., 2006; SMITH, 2018; ZILES, 2007). A noese são atos pelos quais a consciência visa um certo objeto de uma certa maneira, e conteúdo ou significado desses objetos visados é noema. No nível transcendental, as noeses são os atos do sujeito constituinte que criam noemas enquanto puras idealidades ou significações. As noeses empíricas são passivas, porque visam uma significação preexistente; a noese transcendental é ativa, porque constitui as próprias significações ideais (ZILES, 2007, p. 217). Os dois significados de "transcendente" implicam que também existem dois significados de "imanente". sentido de "imanente" já introduzido refere-se ao fato de que em um dado momento no tempo, apenas algumas das características de um objeto se dão em experiência. No entanto, de certa forma, essas características ausentes são vividas, mesmo que não se entreguem à experiência. Pois, você assume que objeto tem essas características, embora elas estejam ausentes no que diz respeito às impressões atuais (SMITH, 2018). Você pode, por exemplo, tomar consciência da cor que acha que a parte de trás de um objeto tem e descrevê-la como espera que seja. Na verdade, sem tais suposições sobre aspectos ausentes de um objeto físico, ele não poderia ser experimentado de forma alguma. Por que se você gira um objeto, você se torna ciente de novos aspectos do mesmo objeto, mas esses aspectos precisam de uma concepção desse objeto que antecipe ou pelo menos deixe espaço para eles.Fundamentos da Psicologia Humanista 21 A Fenomenologia e sua importância para a Psicologia Como vimos até momento, a Fenomenologia Husserliana trouxe um status de Ciência para estudo dos fenômenos. Sua intenção era tornar a Filosofia uma Ciência com base sólida e rigor científico, uma Ciência positiva. Na construção de sua teoria, Husserl apresenta a Fenomenologia como rigorosa, por vez difícil de entender, porém, sua teoria buscou uma noção precisa e aprofundada dos fenômenos. Husserl, em suas obras, fez várias referências à Psicologia, buscando um estudo da consciência psíquica a partir do método da Fenomenologia Transcendental. A intenção de Husserl era descrever e compreender como fenômenos se apresentam, e as várias formas de apresentação dos mesmos, como um método de pesquisa dos fenômenos psicológicos, uma ponte entre a Filosofia e a prática clínica em Psicologia, ele buscava uma maneira de descrever, de uma forma mais rigorosa as experiências psíquicas, uma Ciência da subjetividade psíquica (ORENGO et al., 2020). Husserl e, posteriormente, outros teóricos (ORENGO et al., 2020), buscaram na Fenomenologia, toda a base para desenvolver a chamada Psicologia Fenomenológica. Porém, a Fenomenologia Husserliana, como já abordado anteriormente, foi muito criticada por seu excesso de rigidez, e a Psicologia Fenomenológica foi dando espaço para outras formas de compreender a Fenomenologia, constituindo assim, novas abordagens psicológicas, as chamadas abordagens humanistas fenomenológicas- existencial tal qual conhecemos atualmente.22 Fundamentos da Psicologia Humanista RESUMINDO: E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu tudinho mesmo? Agora, SÓ para termos certeza de que você realmente entendeu tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo que vimos. Você deve ter aprendido que maior nome da Fenomenologia é Edmund Husserl. Para ele, a Fenomenologia é um método científico rigoroso que propõe a compreensão dos fenômenos de forma completa e transcendental, ou seja, compreender fenômenos como eles aparecem, como pensamos que eles são e como eles realmente são. Ele propõe que nos desapeguemos das coisas como elas realmente são e que tenhamos a liberdade necessária para nos perguntarmos como fenômenos estão relacionados com que pensamos sobre eles, uma mudança no nosso foco de atenção sobre as coisas que vivenciamos. Tal mudança de foco foi um fator determinante para a relação da Fenomenologia com a Psicologia, contribuindo de forma essencial para desenvolvimento da Ciência Psicológica Humanista. E agora que você já aprendeu que a Fenomenologia é a base para a Psicologia Humanista, tenho certeza de que deu mais um passo importante para aprimorar sua formação em Psicologia.Fundamentos da Psicologia Humanista 23 Fenomenologia de Martim Heidegger OBJETIVO: Ao término deste capítulo, você será capaz de entender como a Fenomenologia de Husserl contribuiu de forma importante para desenvolvimento da Ciência da Psicologia, em especial a Humanista. Compreender as bases teóricas da Psicologia Humanista é de fundamental relevância para no futuro, como psicólogos, não incorrermos em erros conceituais na aplicação das teorias aos diversos contextos em que a Psicologia atua. Motivados? Vamos juntos desenvolver essa competência! Compreendendo pensamento de Heidegger Martin Heidegger (1889-1976) (figura 6) foi um filósofo alemão cujo trabalho é associado à Fenomenologia e ao Existencialismo. Suas ideias exerceram influência no desenvolvimento da Filosofia europeia contemporânea e tiveram um impacto muito além da Filosofia, por exemplo, nas teorias da Arquitetura, da Crítica Literária, da Teologia, da Psicoterapia e das Ciências Cognitivas. As obras de Heidegger são consideradas contribuições críticas para a história da Filosofia. Seu trabalho está consistentemente a serviço de uma formulação de "como" pensar, isto é, o método rigoroso e poderoso da Fenomenologia.24 Fundamentos da Psicologia Humanista Figura 6 Heidegger Fonte: Creative Commons A Filosofia de Heidegger começou quando ele leu Brentano e Aristóteles com objetivo de compreender que une todos modos possíveis de Ser. Estudou também Kant, Kierkegaard, Nietzsche e, talvez o mais importante de todos os pensadores para seus estudos subsequentes: Husserl (WHEELER, 2020). Em 1915, Husserl assumiu um cargo em Freiburg e em 1919 Heidegger tornou-se seu assistente, posteriormente, quando Husserl se aposentou, Heidegger assumiu seu cargo, nessa época ele escreveu a sua principal obra intitulada Ser e Tempo (1927). Tal obra foi marcante para estudos de Heidegger, o marco inicial da Filosofia contemporânea na Europa que deu a ele visibilidade intelectual e status de filósofo (ANTISSERI; REALE 2003).Fundamentos da Psicologia Humanista 25 SAIBA MAIS: Franz Bretano foi a grande inspiração de Heidegger para a Filosofia científica. Ele foi um fiel discípulo ortodoxo de Bretano, porém em um determinado momento começou a ter dúvidas sobre conceitos do mestre, que foi descrito em sua obra A Logische Untersuchungen. Essa obra foi considerada um marco, pois convenceu Heidegger a seguir uma direção divergente de Bretano, questionando e repensando as noções de intencionalidade propostas por ele, propondo um novo princípio de consciência. Quer saber um pouco mais sobre as contribuições de Bretano para a Psicologia? Basta acessar texto clicando aqui. Em 1933, Heidegger ingressou no Partido Nazista e também foi eleito reitor da Universidade de Freiburg. Nessa época ele alinhou a Educação universitária com programa político de Hitler. Até sua renúncia como reitor em 1934, Heidegger fez discursos públicos em que as imagens e símbolos nazistas, bem como as declarações de apoio a Hitler, eram pano de fundo para suas falas. É possível também observar tal apoio na linguagem filosófica em sua obra Ser e Tempo (ANTISSERI; REALE 2003; WHEELER, 2020). Figura 7 Nazismo Fonte: Creative Commons26 Fundamentos da Psicologia Humanista SAIBA MAIS: Nazismo (figura 7) foi um movimento político totalitário liderado por Adolf Hitler, ele era O chefe do Partido Nazista na Alemanha. Caracterizado pelo extremo nacionalismo e pelo governo ditatorial, nazismo compartilhava ainda elementos do fascismo italiano. nazismo não era exclusivamente extremo em suas ideias, mas também, e principalmente, em sua prática. Foi um movimento anti- intelectual e ateórico, que enfatizava a vontade do ditador Hitler que era tido como a única fonte de inspiração de uma nação, assim como ressaltava uma visão de aniquilação a todos aqueles que eram considerados inimigos do "Ariano", esse era único objetivo da política nazista (FAUSTO, 1998). Para saber mais, acesse o link clicando aqui. Heidegger, a partir de 1934, se distanciou cada vez mais da política nazista, mas não deixou partido. Depois da guerra, no entanto, um comitê contra nazismo em uma Universidade em Freiburg passou a investigar Heidegger e ele foi proibido de lecionar, voltando a essa atividade apenas em 1949. Um ano depois foi nomeado professor emérito (ANTISSERI; REALE 2003; WHEELER, 2020). Depois de Ser e Tempo, pode-se perceber uma mudança na Filosofia de Heidegger, conhecida como "a virada" (die Kehre) 2020). Caracterizada não como uma virada em seu próprio pensamento, mas principalmente como uma virada no ser, cujos elementos centrais são indicados por muitos comentaristas como a segunda maior obra de Heidegger, Contributions to Philosophy (From Enowning) (WHEELER, 2020). sentido do ser Ser e tempo (figura 8) é um livro longo e complexo, tema central nessa obra é a relação de Heidegger com a Fenomenologia Transcendental de Husserl: a noção Husserliana de Ontologia Formal estudo das categorias que descrevem objetos de qualquer espécie, por meio de nossos julgamentos e percepções), terá se transformado em OntologiaFundamentos da Psicologia Humanista 27 Fundamental (uma busca neo-aristotélica do que une e possibilita nossos variados e diversos sentidos do que é para ser); a Consciência Transcendental de Husserl ego pensante irredutível ou sujeito que torna possível a investigação objetiva), terá sido transfigurada no Dasein ser inerentemente social que já opera com uma compreensão pré- teórica das estruturas que tornam possíveis modos particulares de ser); e a Intencionalidade Husserliana (uma consciência de objetos) substituída pelo conceito de Cuidado ou Ser-aí (WHEELER, 2020). Figura 8 Livro mais importante de Heidegger: Ser e Tempo Fonte: Creative Commons Uma das preocupações de Heidegger foi com a questão do significado do "ser". Sua primeira formulação dessa questão aos dezessete anos era: se que é predicado em significados múltiplos, então qual é seu significado fundamental? que significa ser? A questão do ser, sem resposta naquela época, tornou-se a principal questão de sua obra Ser e Tempo vinte anos depois. Examinando a longa história do significado atribuído a "ser", Heidegger observou que na tradição filosófica geralmente se pressupõe que ser é ao mesmo tempo conceito mais universal, conceito indefinível em termos de outros conceitos e conceito autoevidente. Em suma, é um conceito que é quase sempre dado como certo. No entanto, Heidegger afirma que, embora pareçamos compreender ser, ainda precisamos reafirmar a questão do significado do ser (WHEELER, 2020).28 Fundamentos da Psicologia Humanista De acordo com método de Filosofia que ele emprega em seu tratado fundamental, antes de tentar dar uma resposta à questão do ser em geral, Heidegger se propõe a responder a questão do ser de um tipo particular de entidade, que é ser humano, "ser aí", que ele chama de Dasein. As descrições fenomenológicas do estar-no-mundo do Dasein, especialmente a cotidianidade do Dasein e a sua determinação em relação à morte, atraíram muitos leitores com interesses relacionados à Filosofia Existencial, Teologia e Literatura. Os conceitos básicos como temporalidade, compreensão, historicidade, repetição e existência autêntica ou inautêntica foram transportados e explorados em suas obras posteriores (WHEELER, 2020). Dasein: Ser-aí Em alemão, a palavra "Dasein" significa vida, existência. É um substantivo frequentemente usado para demonstrar a existência de qualquer entidade. Contudo, Heidegger divide a palavra em seus componentes "Da"e "Sein" e confere a ela um significado único relacionando à sua resposta à pergunta "quem é ser humano?", relacionando-a com a questão do ser. Conforme mostra a figura 9, a palavra Dasein foi desmembrada por Heidegger em que "Da" significa lugar (aí) e "Sein", significa ser (CERBONE, 2013). Figura 9 Nomenclatura da palavra Dasein Da + sein Ser-aí Fonte: Elaborado pelos autores (2021). Dasein é quem nós somos, que nos difere de todos os outros seres porque surge de seu próprio ser. homem, portanto, é ente que se propõe a pergunta sobre sentido do ser. Por isso, a proposição correta do problema do sentido do ser requer explicitação preliminar daquele ente que se propõe a pergunta sobre sentido do ser: e esse ente que nós mesmos já somos sempre e que tem, entre outras possibilidades de ser, a de buscar,Fundamentos da Psicologia Humanista 29 nós O indicamos com O termo Ser-aí (Dasein). (ANTISSERI; REALE 2003, p. 583) Para Heidegger Dasein de Ser e Tempo tem uma característica temporal, ou seja, apresenta uma estrutura ontológica tripla: existência, lançamento e queda, pela qual ser do Dasein é definido, conforme aponta a figura 10. Figura 10 Estrutura temporal do Dasein Existência Lançamento Queda Potencialidade Sempre em Encontro dos para ser. movimento. seres. Ser sob várias Lançado em Existe no meio possibilidades. ambiente dos seres. Futuro. espiritual e Presente. material. Passado. Fonte: Elaborado pelos autores (2021). A questão da temporalidade do Dasein tem relação com futuro, passado e presente, como apontado na figura 10, porém não se trata de um tempo cronológico, é uma temporalidade de movimento. EXEMPLO: o "voltar" às possibilidades que foram é passado, no momento do lançamento, e a sua projeção no movimento "vir para" seria futuro no momento da existência, em que ambos se dão no "estar com outros", ou seja, presente no momento da queda, proporcionando a unidade original do futuro, do passado e do presente que constitui a temporalidade autêntica. Assim, ele se encaminha para o futuro sempre voltando ao seu passado; o passado que não é apenas passado, mas que ainda existe como tendo sido. (SOUBA, 2014). Dessa forma, a repetição das possibilidades da existência, daquilo que já foi, constitui fenômeno da história original, aquela que tem suas raízes na temporalidade. Para Heidegger, não é a consciência pura que constitui originalmente cada um de nós, mas ponto de partida da Filosofia para ele não é a consciência, mas sim Dasein (SOUBA, 2014).30 Fundamentos da Psicologia Humanista A Fenomenologia para Heidegger A Fenomenologia em Heidegger recebe um novo significado. Ele concebe de forma mais ampla e etimológica do que Husserl, que aplica termo "fenomenologia" a toda uma Filosofia, e Heidegger utiliza para designar um método. Visto que em Ser e Tempo a Filosofia é descrita como "ontologia" e tem ser como seu tema, ela não pode adotar seu método de nenhuma das Ciências atuais. Para Heidegger, método da Ontologia é a Fenomenologia (WHEELER, 2020). Cabe aqui trazer uma definição de Ontologia. Conforme aponta a figura 11, Ontologia significa a Ciência que estuda ser. Ponto importante na Fenomenologia de Heidegger. Figura 11 Origem da palavra ontologia Óntos = ser lógos = + saber ou vivo ciência Fonte: Elaborado pelos autores (2021). A Fenomenologia seria a forma de acesso que se tornará o tema da Ontologia. ser deve ser compreendido por meio do método fenomenológico, portanto, para Heidegger a "redução fenomenológica" é necessária (WHEELER, 2020). Deve-se dirigir a si mesmo para uma entidade, mas de tal forma que seu ser seja trazido à tona, assim, é Dasein que Heidegger entende como a entidade particular para acessar ser. Consequentemente, como componente básico de sua Fenomenologia, Heidegger adota a redução fenomenológica Husserliana, mas lhe dá um significado completamente diferente (WHEELER, 2020). Isto posto, Heidegger não baseia sua Filosofia na consciência tal como Husserl. Para ele, a atitude fenomenológica ou teórica da consciência, é apenas um modo possível daquilo que é mais fundamental, a saber, ser do Dasein. Embora concorde com HusserlFundamentos da Psicologia Humanista 31 que a constituição transcendental do mundo não pode ser desvelada por explicações naturalísticas ou físicas, a seu ver não é uma análise descritiva da consciência que leva a esse fim, mas a análise do Dasein. Figura 12 Resumindo Dasein Dasein Mundo com suas possibilidades Fonte: Elaborado pelos autores (2021). De acordo com ao figura 12, Dasein seria ser impulsionado para o mundo para construir sua existência, o ser no mundo. Por fim, a Fenomenologia para Heidegger não é uma análise descritiva e independente da consciência. É um método de acesso ao ser, a Filosofia é uma Ontologia fenomenológica que parte da análise do Dasein (WHEELER, 2020).32 Fundamentos da Psicologia Humanista RESUMINDO: Ufa! Chegamos ao fim de mais um capítulo. E para ter certeza que você conseguiu aprender tudo que vimos até aqui, vou fazer um resumo. Você deve ter aprendido que Martin Heidegger foi discípulo de Husserl, um filósofo Alemão que é considerado pai da Fenomenologia. Assim como seu mestre, Heidegger acredita que a Fenomenologia é um método científico rigoroso, porém diverge dele no que diz respeito à compreensão do ser. cerne da Fenomenologia de Heidegger é a compreensão do ser, mas não qualquer ser, ou Dasein. Esse importante filósofo entendia o Dasein como sendo nós mesmos, cada um de nós em sua essência, um diferente do outro, seres em constante movimento, passado, presente e futuro constituindo uma história real. Sua Fenomenologia tem Ser como seu tema central, e forma junto com Husserl, uma importante base para a Ciência da Psicologia. Bom, agora você já sabe tudo sobre a Fenomenologia de Heidegger, então está mais preparado para seguir com seus estudos rumo à sua formação em Psicologia.Fundamentos da Psicologia Humanista 33 pensamento existencialista OBJETIVO: Ao final deste capítulo esperamos que você possa definir pensamento existencialista para a compreensão do ser humano em seu todo, bem como as contribuições do Existencialismo no desenvolvimento das abordagens psicológicas com base humanista, além de poder aplicar seus conceitos em sua prática E então? Vamos? Raízes do Existencialismo Existencialismo tornou-se um movimento cultural que floresceu na Europa nas décadas de 1940 e 1950 com Soren Kierkegaard e Friedrich Nietzsche como precursores do movimento. Existencialismo foi tanto um fenômeno literário quanto filosófico, que sugere que é apenas esse movimento cultural passado, em vez de uma posição filosófica identificável. Contudo, Existencialismo é a teoria ética de que devemos tratar a liberdade no âmago da existência humana como intrinsecamente valiosa e a base de todos os outros valores. Se seguirmos essa definição, podemos reconhecer as fissuras dentro do que é chamado de "existencialismo" no sentido expansivo e também ver como Existencialismo pode fundamentar contribuições para a Psicologia Social, Filosofia da mente, Filosofia moral, Teoria Cultural e Psicoterapia. Existencialismo é um padrão de influência intergeracional, no qual figuras posteriores leram e se apropriaram do trabalho de figuras anteriores. que anima essa tradição (exemplificada aqui por Kierkegaard, Heidegger e Sartre) é a sua luta contra a religião e fato de que a escrita de existencialistas, mesmo os chamados "ateus", "parece religiosa para seus leitores". Curiosamente, qualquer uma das posições leva ao mesmo lugar: a ideia de autenticidade pessoal está no centro do pensamento existencial (CROWELL, 2020).34 Fundamentos da Psicologia Humanista A abordagem fenomenológica deu forma filosófica ao insight existencial básico de que pensar sobre a existência humana requer novas categorias não encontradas no repertório conceitual do pensamento antigo ou moderno; os seres humanos não podem ser entendidos nem como substâncias com propriedades fixas, nem como sujeitos interagindo com um mundo de objetos (CROWELL, 2020). Crowell (2020) afirma ainda que do ponto de vista existencial, para entender que é um ser humano, não basta saber todas as verdades que a Ciência natural incluindo a Ciência da Psicologia poderia nos dizer. dualista que sustenta que seres humanos são compostos de substâncias independentes "mente" e "corpo" não está em melhor situação a esse respeito do que fisicalista que sustenta que a existência humana pode ser adequadamente explicada em termos dos constituintes físicos fundamentais do universo. Existencialismo não nega a validade das categorias básicas da Física, Biologia, Psicologia e outras Ciências. Afirma apenas que seres humanos não podem ser totalmente compreendidos em termos deles. Tampouco se pode obter tal entendimento complementando nosso quadro científico com um quadro moral. Categorias de teoria moral, como intenção, culpa, responsabilidade, caráter, dever, virtude e semelhantes capturam aspectos importantes da condição humana, mas nem pensamento moral (regido pelas normas do bom e do certo), nem o pensamento científico (regido pela norma da verdade) é suficiente (CROWELL, 2020). A visão de Homem Existencialismo Existencialismo é a Filosofia da existência que surgiu na Europa após a Primeira Guerra Mundial, expandindo-se nas duas décadas subsequentes à Segunda Guerra, sendo um reflexo da Europa do Pós- guerra: uma Europa dilacerada por regimes totalitários. Um tempo de crise do romantismo, idealismo, positivismo e marxismo. Sua visão de homem é de um homem dilacerado, porém singular (ANTISSERI; REALE 2003). Dessa forma, "a existência é indedutível e a realidade não se identifica com, nem se reduz à racionalidade" (ANTISSERI; REALE 2003, p. 594).Fundamentos da Psicologia Humanista 35 Existem três outros pontos básicos do pensamento existencialista (além da não identificação com a realidade): Centralidade da existência, Transcendência do ser e a possibilidade como descrito na figura 13. Figura 13 Pontos básicos do pensamento Existencialista Centralidade da Modo de ser daquele ente existência finito que é homem. Transcendência Mundo ou Deus (com quem a do ser existência se relaciona). Modo de ser constitutivo da Possibilidade existência. Fonte: Elaborado pelos autores com base em Antisseri e Reale (2003). Mas então, como podemos definir conceito de existência? A primeira coisa a ser considerara é que a existência é constitutiva do sujeito que filosofa e, consequentemente, único sujeito que filosofa é homem: sendo assim, a existência é exclusividade do homem, já que homem é único sujeito a filosofar. Adicionalmente a existência é modo de ser finito e é possibilidade, isto é, um poder ser (ANTISSERI; REALE 2003). Para entender melhor conceito de existência descrito anteriormente, vamos considerar a figura 14 e exemplo logo em seguida: Figura 14 Ser ou não ser SER? OU NÃO SER? EIS A QUESTÃO Fonte: Creative Commons36 Fundamentos da Psicologia Humanista EXEMPLO: a figura 14 apresenta uma releitura da famosa frase de Hamlet (Shakespeare), muito usada para trazer uma reflexão filosófica sobre o sentido do ser, e é pano de fundo para ilustrar pensamento existencialista de que uma pedra vai ser sempre uma pedra, assim como um cachorro vai ser sempre um cachorro ou uma cadeira será sempre uma cadeira. As coisas e os animais são que são e vão continuar sendo assim. Contudo, somente homem pode ser que ele decidir ser, sua existência é poder ser o que quiser (CROWELL, 2020). A questão dá ética Existencialismo Por várias razões, a questão da Ética no Existencialismo é um tanto problemática. Na verdade, muitos filósofos descartariam a própria noção de uma Ética Existencialista. Como escola, Existencialismo é geralmente avesso à todas as formas de moralidade tradicional e sistemas éticos abstratos. Se alguém entende a ética como referindo-se a um conjunto sistemático de máximas universais, leis ou princípios que se destinam a governar a ação, então Existencialismo não tem ética porque todos pensadores existencialistas negam expressamente a possibilidade de justificar adequadamente a ação com base em princípios racionais ou discursivos argumentos (STEWART, 2012). Por essa razão, não é de surpreender que alguns dos principais teóricos do movimento existencialista, como Heidegger e Merleau-Ponty, apesar de seus trabalhos prolíficos e, na verdade, variados, nunca tenham escrito uma ética existencialista. Para Stewart (2012), o principal problema envolvido em explicar ou reconstruir uma Ética do Existencialismo está no foco crítico ou negativo dos principais pensadores existencialistas. Por que moralidades sistemáticas e religiões organizadas são vistas pelos existencialistas como obstáculos no caminho de uma realização autêntica da liberdade humana, a última coisa que os existencialistas desejam fazer é inventar outro sistema moral no sentido tradicional. Por esse motivo, os pensadores existencialistas costumam descrever suas posições em termos negativos ou privativos.Fundamentos da Psicologia Humanista 37 Os existencialistas negam caracteristicamente a validade de estruturas supostamente abrangentes, objetivas ou pré-existentes que podem emprestar significado antecedente à experiência humana. Em si mesma, a experiência humana é radicalmente sem sentido, e adquire significado e valor apenas por meio de atos subjetivistas de escolha e de decisão. À primeira vista, isso não pareceria deixar muito material para trabalhar na construção de uma ética positiva (STEWART, 2012). Discussões existencialistas de ética podem ser consideradas metaéticas porque, em vez de oferecer uma doutrina ética positiva, fornecem reflexões gerais sobre a própria natureza da ética e a situação moral do indivíduo no mundo. Stewart (2012) afirma, que assim como existencialistas rejeitaram conteúdo da teorização ética abstrata, também rejeitaram a sua forma discursiva. Por essa razão, muitos dos insights dos existencialistas sobre a ética não são encontrados em tratados filosóficos abstratos, mas sim em romances, peças e contos. As obras literárias de Dostoiévski, Camus e Sartre são ricas em situações de importância ética e personagens presos em dilemas éticos ilustrativos. Na medida em que se possa falar com sentido de uma Ética do Existencialismo, então esse empreendimento compreenderia dois momentos relacionados, um negativo e outro positivo como mostra quadro 1. Quadro 1 Comparativo entre os momentos negativos e positivos da ética existencialista Negativo Positivo Desmascarar dogmas religiosos, Valor moral positivo resulta do verdades objetivas e ordens ato resoluto da escolha. pré-ordenadas. Fonte: Elaborado pelos autores (2021). Assim, conforme aponta Stewart (2012), a vida autêntica seria reservada apenas para herói existencial, aquela criatura quase mítica que pode de alguma forma afirmar a falta de sentido da existência humana, e deleitar-se com a liberdade que lhe foi concedida pela "morte de Deus" ou pelo colapso de todas as fundações ou pontos estáveis de referência.38 Fundamentos da Psicologia Humanista Existencialismo é frequentemente associado a questões fundamentais da finitude da existência humana, como morte, alienação, sofrimento e ansiedade. As rápidas mudanças na vida humana desde século acompanhadas pelas ações violentas em nossa própria época, tornaram necessárias as reflexões sobre esses assuntos (STEWART, 2012). Podemos destacar mudanças importantes e radicais acontecidas nos últimos dois séculos: a. Recessão da igreja e da religião. b. Avanço das Ciências naturais. C. Avanços da Ciência e da Tecnologia. Tais mudanças vieram atestar a veracidade da Ciência e simultaneamente atestar a falsidade da crença religiosa, que método científico crítico e autocorretivo reduz a mera superstição, característica de épocas passadas e indigna de consideração posterior (STEWART, 2012). Existencialismo também se caracteriza por um retorno ao indivíduo, que pode ser visto como uma reação natural ao surgimento da cultura de massa e ao anonimato da sociedade moderna. A transferência das formas tradicionais de vida comunitária para a moderna sociedade de massas relegou, de inúmeras maneiras, indivíduo a uma posição marginal. Fora dessa situação, Existencialismo aparece como uma tentativa de falar pelo indivíduo e por seu poder de autodeterminação livre, quando tudo em seu mundo parece negar até mesmo essa possibilidade (STEWART, 2012). Isso deve ser suficiente como uma caracterização geral do Existencialismo e do conjunto de questões éticas que pretende abordar. Devemos agora nos voltar para os pensadores individuais e para o papel do Existencialismo na tradição do pensamento ético em geral. Principais nomes do Existencialismo Søren Kierkegaard (1813-1855) Kierkegaard jamais ocupou um cargo acadêmico, porém era uma pessoa que estudava e escrevia muito. Foi considerado fundador doFundamentos da Psicologia Humanista 39 Existencialismo, especialmente Existencialismo Cristão (ANTISSERI; REALE 2003). Figura 15 - Søren Kierkegaard Fonte: Creative Commons Suas principais contribuições para Existencialismo foram a análise da experiência religiosa e a primeira análise desenvolvida sobre muitos conceitos existenciais, por exemplo: absurdo, angústia, autenticidade, e a responsabilidade que você carrega quando faz as suas escolhas, bem como a importância do irracional para a vida dos seres humanos (ANTISSERI; REALE 2003). Friedrich Nietzsche (1844-1900) Nietzsche era filho de um ministro luterano, porém acabou rompendo com a igreja, tornando-se um dos seus mais atuantes críticos. É, juntamente com Kierkegaard, considerado uns dos pais do Existencialismo (ANTISSERI; REALE 2003).40 Fundamentos da Psicologia Humanista Figura 16 Friedrich Nietzsche Fonte: Creative Commons Sua principal contribuição foi anunciar a morte de Deus, e mudar projeto dos homens de buscar valor e significado para criar valor e significado, retornando assim, a filosofia para suas raízes gregas (ANTISSERI; REALE 2003). Jean-Paul Sartre (1905-1980) Sartre foi aluno mais célebre de Heidegger e principal existencialista francês. Filósofo, romancista, dramaturgo e ativista político, Sartre viveu o engajamento no mundo e a liberdade de ser (ANTISSERI; REALE 2003).Fundamentos da Psicologia Humanista 41 Figura 17 - Jean-Paul Sartre Fonte: Creative Commons Suas principais contribuições foram: popularizar o Existencialismo, em que a existência precede a essência, além de desenvolver o Existencialismo como uma Filosofia de liberdade (ANTISSERI; REALE 2003). Simone de Beauvoir (1908-1986) Simone de Beauvoir era tida por alguns como um mero porta-voz de Sartre, porém, foi uma pensadora brilhante por seus próprios méritos e fez contribuições significativas para a Literatura, feminismo e Existencialismo (ANTISSERI; REALE 2003). Entre suas principais contribuições para Existencialismo estão ainda desenvolvimento de uma sofisticada ética existencial e fundamentação do feminismo moderno (ANTISSERI; REALE 2003).42 Fundamentos da Psicologia Humanista Figura 18 - Simone de Beauvoir Beauvoir Écrits de écrivains Simone Beauvoir Livraria Bertrand Fonte: Creative Commons Albert Camus (1913-1960) Albert Camus é considerado como a consciência do Existencialismo. Um homem compassivo, calmo, sua Filosofia era centrada no que ele considerava a maior injustiça do universo, ou seja, a morte. Ironicamente, ele morreu relativamente jovem (ANTISSERI: REALE 2003). Figura 19 - Albert Camus Fonte: Creative CommonsFundamentos da Psicologia Humanista 43 Entre suas principais contribuições para Existencialismo estão: escrever maior e mais acessível de todos romances existenciais, Estranho; desenvolver Existencialismo como uma Filosofia do absurdo; infundir a Filosofia existencial com compaixão e humanidade genuína (ANTISSERI; REALE 2003). RESUMINDO: Vejam terminamos este capítulo. Espero que você tenha gostado e tenha aprendido tudinho. Agora, SÓ para termos certeza de que você realmente entendeu tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo que vimos. Você aprendeu sobre Existencialismo, que é uma importante corrente filosófica e também uma relevante teoria que sustenta a Psicologia, especialmente, as de base humanista. Surgida na Europa no século Existencialismo é entendido como a humanidade, ser homem, aquele que pode ser o que ele quiser em sua existência. Tal teoria também marca distanciamento da religião e a proximidade com a Ciência. Teve como seu fundador filósofo Kierkegaard. Há também outros nomes importantes que contribuíram para a sua expansão, como Heidegger, Sartre e Simone de Beauvoir. Agora que já passamos por todo capítulo e você aprendeu muitas coisas sobre Existencialismo, deve saber que ele é uma base relevante para as Psicologias Humanistas tal qual conhecemos hoje, portanto, tudo que você aprendeu até aqui te ajudará a aprimorar sua concepção de homem, muito importante para a profissão do psicólogo.44 Fundamentos da Psicologia Humanista Existencialismo de Merleau-Ponty e Sartre OBJETIVO: objetivo deste capítulo é que você seja capaz de identificar Existencialismo em Ponty e Sartre, importantes teóricos que formam uma das bases da Psicologia Humanista. Motivados? Vamos juntos aprender sobre Existencialismo? Quem foi Sartre? Biografia Jean-Paul Sartre (1905-1980) era filho único de Jean-Baptiste Sartre e Anne-Marie Schweitzer, nasceu em Paris no ano de 1905. Seu pai, um oficial da marinha, morreu quando Sartre era bebê, e esse foi um marco importante em sua vida. Seu pai morreu no ano de 1906, quando então, mudou-se com a mãe para a casa dos avós maternos. Estudou em renomadas escolas e se interessou pela Filosofia na juventude, após ler ensaio de Henri Bergson Tempo e Livre Arbítrio. Fez doutorado em Filosofia em Paris pela École Normale Supérieure, onde estudou as ideias de Kant, Hegel, Kierkegaard, Husserl e Heidegger, sendo principalmente influenciado pelos estudos de Heidegger (ANTISSERI; REALE 2003; FLYNN, 2013). Na década de 1930, conheceu Simone de Beauvoir, uma então estudante da renomada Sorbonne, que mais tarde tornara-se uma importante escritora feminista.Fundamentos da Psicologia Humanista 45 Figura 20 Sartre e Simone de Beauvoir Fonte: Creative Commons Sartre e Simone foram companheiros durante toda a vida, e juntos foram responsáveis por desafiar costumes e expectativas culturais de sua época, bem como suas origens burguesas. Seus conflitos e desafios foram fio condutor de suas carreiras na Filosofia. Nessa mesma década, Sartre serviu o exército francês e esteve prisioneiro das tropas alemãs, sendo libertado em 1941. Sartre era um intelectual politizado, foi ativista e politicamente engajado, um grande defensor da esquerda francesa (ANTISSERI; REALE 2003; FLYNN, 2013). Quadro 2 Linha do tempo da atividade filosófica e política de Sartre ANO ACONTECIMENTO Lecionou em Le Havre e escreveu A Transcendência 1933 do Ego. Sua investigação fenomenológica sobre a imaginação 1936 foi publicada. 1943 Publicou Ser e Nada, sua obra existencialista. 1946 Publicou Existencialismo e humanismo. 1947 Publicou Baudelaire. 1952 Publicou Jean Genet. Anos 1930 e Teve uma produção literária abundante com 1940 romances.46 Fundamentos da Psicologia Humanista 1960 Publicou a Crítica da razão dialética. Anos Esteve envolvido na promoção de ideias marxistas. 1960 1964 Recusou prêmio Nobel de Literatura. Esteve ativamente envolvido no levante de maio de 1968 1968. Seu estudo sobre Flaubert, L'Idiot de la Famille foi 1971 publicado. 1977 Alegou não ser mais um marxista 1980 Morre Sartre. Fonte: Elaborado pelos autores (2021). Sartre viveu com poucas posses, um modo de vida simples, sempre engajado em causas humanitárias e políticas. Seu estado de saúde piorou muito a partir da década de 1970 quando ficou praticamente cego. Morreu em Paris em 15 de abril de 1980 de edema pulmonar, já Simone morreu seis anos depois e foi enterrada na mesma sepultura de Sartre (ANTISSERI; REALE 2003; FLYNN, 2013). SAIBA MAIS: Que tal aprender um pouco mais sobre as contribuições de Sartre para a Psicologia Clínica? texto de Scheider (2008) traz uma importante reflexão sobre a Fenomenologia de Sartre e sobre método biográfico criado por ele como uma contribuição para a Psicologia Clínica. Para saber mais clique aqui. Existencialismo em Sartre tema central em todos escritos de Sartre, bem como em suas visões éticas, é a liberdade humana. Como Kierkegaard, Sartre dá ênfase a escolha do indivíduo, desde que ela seja independente de argumentosFundamentos da Psicologia Humanista 47 racionais ou da razão discursiva. Com seu famoso slogan, "a existência precede a essência", ele nega as afirmações tradicionais de que existe algum tipo de natureza humana que poderia determinar indivíduo. Ao contrário, para Sartre, os seres humanos não têm essência predeterminada; em vez disso, eles simplesmente existem (STEWART, 2012). Como apontou Stewart (2012), é responsabilidade do indivíduo criar sua própria essência por meio de suas ações. Os seres humanos são essencialmente definidos por seus atos, ou, como diz Sartre, homem é a soma total de suas ações, ou seja, a virtude ética central é aceitar essa liberdade e levar a vida estando ciente de suas escolhas livres, assim como assumindo a responsabilidade por suas consequências. fato ontológico da liberdade radical que Sartre anuncia é libertador e aterrorizante (STEWART, 2012). EXEMPLO: sartre diz: " O homem está condenado a ser livre mas ele quer dizer que a liberdade não é algo que podemos saudar com alegria irrestrita, mas é quase como uma sentença de prisão, quando estamos condenados a algo nós enfrentamos com incerteza e angústia, isto é, a responsabilidade de ser livre torna-se algo aterrorizante porque cada indivíduo sozinho deve suportar todo o peso da responsabilidade por sua própria vida (STEWART, 2012). Os seres humanos criam muitos mecanismos por meio dos quais tentam negar fato da liberdade a si mesmos e, assim, fogem da responsabilidade de sua escolha moral. Sartre chama essa negação de "má-fé" e explica duas formas que essa negação assume.48 Fundamentos da Psicologia Humanista Quadro 3 A questão da má-fé para Sartre Má-fé Fuga para a facticidade Fuga para a transcendência Uma tentativa de escapar da "Não pude ir porque estava responsabilidade e das escolhas muito ocupado". livres do passado, apelando para um futuro indeterminado. Tenta-se retratar estar Sempre adia julgamento com base em ações passadas, e se ocupado como um fato do refere a um futuro indefinido universo, independente de sua escolha ou vontade individual. em que se acredita que sua verdadeira essência esteja. Fonte: Elaborado pelos autores com base em Stewart (2012). Na questão da fuga para a facticidade esquece-se que já fez certas escolhas e já definiu certas prioridades, de modo que fazer uma coisa é mais importante do que fazer outra. Isso é de má-fé porque que era originalmente uma escolha é mais tarde retratado como um fato fixo fora do controle do indivíduo. De acordo com esta versão de má-fé, alguém tenta escapar de sua liberdade tornando-se um fato ou uma coisa (STEWART, 2012). Na fuga para a transcendência indivíduo se retrata não como agindo de má-fé, mas sim como um herói, porque no futuro, ele afirma, realizará atos heroicos. Para Sartre, essa é uma tentativa de escapar da responsabilidade e das escolhas livres do passado apelando para um futuro indeterminado. Nessa versão de má-fé, a pessoa escapa da liberdade fugindo para futuro transcendente (STEWART, 2012). A teoria da responsabilidade de Sartre é muitas vezes considerada radical, que levou a muitos mal-entendidos e críticas de seus pontos de vista. Ele diz, por exemplo, em referência à sua própria experiência na Segunda Guerra Mundial, que não há vítimas inocentes na guerra, mas, ao contrário, que todos são, em certo sentido, responsáveis por ela.Fundamentos da Psicologia Humanista 49 Figura 21 Aparatos usados na Segunda Guerra Mundial Fonte: Creative Commons que ele quer dizer que "todos são um pouco responsáveis pela guerra"? Para Sartre, as lideranças das nações são responsáveis por ela, contudo, ele afirma que cada um pode escolher viver a guerra como membro da resistência ou como informante do inimigo, mas de qualquer forma a pessoa está livre. É com essa liberdade que escolhemos que a guerra significará para nós como indivíduos, e como iremos vivê- la e experimentá-la. Por esse motivo, suas posições são tidas como controversas e radicais, porém foram revistas e abandonadas por ele posteriormente (STEWART, 2012). SAIBA MAIS: A questão da responsabilidade para Sartre permeia toda a sua obra e seus estudos, contudo ele jamais escreveu um livro ou aprofundou especificamente sobre assunto. Porém, compreender essa questão é um ponto fundamental para entender sua teoria. Então que tal aprofundar um pouco assunto clicando aqui?50 Fundamentos da Psicologia Humanista Quem foi Merleau-Ponty? Maurice Merleau-Ponty nasceu em 14 de março de 1908. Estudou Filosofia na Ecole Normale Supérieure em 1930, e rapidamente se tornou um dos principais franceses filósofos do período durante e, imediatamente, após a Segunda Guerra Mundial, onde também serviu na infantaria. Além de ser catedrático de Psicologia linfantil na Sorbonne em 1949, ele foi mais jovem catedrático de Filosofia no College de France quando recebeu essa posição em 1952. Ele continuou a cumprir essa função até sua morte prematura em 1961, e antes disso foi também um importante contribuidor para a influente revista política, literária e filosófica que foi Les Temps Modernes (ANTISSERI; REALE 2003). Figura 22 Merleau-Ponty Fonte: Creative Commons O quadro 4 apresenta uma linha do tempo das principais publicações de Merleau-Ponty.Fundamentos da Psicologia Humanista 51 Quadro 4 Principais publicações de Ponty ANO ACONTECIMENTO Publicou uma série de ensaios de revisão sobre 1935 Ressentiment de Max Scheler. 1936 Being and Having de Gabriel Marcel. Conscience et comportement [Consciousness 1938 and Behavior]. La structure du comportement [The Structure of 1942 Behavior, SC]. 1940- Envolvimento no grupo de resistência Socialisme 1941 et Liberté. Fundou com Sartre a Les Temps Modernes, uma 1945 revista dedicada à "littérature engagée". 1943- Concluiu sua tese principal, Phénoménologie de 1944 la percepcion (Fenomenologia da Percepção). Publicou seu primeiro livro de Filosofia política, 1947 Humanisme et terreur, essai sur le problems communiste. Professor da Cátedra de Psicologia na 1948 Universidade de Lyon. Fonte: Elaborado pelos autores (2021). Junto com Sartre, ele foi frequentemente associado ao Existencialismo do movimento filosófico, embora nunca tenha proposto exatamente os mesmos relatos extremos de liberdade, responsabilidade angustiada e relações conflitantes com os outros, pelos quais Existencialismo se tornou famoso e notório. Na verdade, ele passou grande parte de sua carreira contestando e reformulando muitas das posições de Sartre, incluindo uma crítica sustentada do que ele via como a Ontologia Dualista e Cartesiana de Sartre (ANTISSERI; REALE 2003).52 Fundamentos da Psicologia Humanista Existencialismo em Ponty Sua Filosofia recebeu influências pela obra de Husserl, sua Fenomenologia estava preocupada em refutar que ele via como as tendências gêmeas da Filosofia Ocidental, a relação entre sujeito e objeto, self e mundo, entre vários outros dualismos (ANTISSERI; REALE 2003). Ele argumenta ainda que significado do corpo, ou do corpo- sujeito, é muitas vezes subestimado pela tradição filosófica que tem uma tendência a considerar o corpo simplesmente como um objeto que uma mente transcendente ordena para desempenhar funções variadas (ANTISSERI; REALE 2003). Figura 23 Papa João Paulo Fonte: Creative Commons EXEMPLO: a figura 23 mostra papa João Paulo II, vamos usar sua figura para compreendermos melhor a questão do corpo em Ponty. Quando questionado se pensava em se aposentar por motivo de doença e/ou pelo avanço da idade, papa João Paulo confirmou que sim e lamentou o fato de seu corpo não ser mais um instrumento dócil, mas sim uma gaiola. trabalho de Ponty é frequentemente associado à ideia da "primazia da percepção", embora, em vez de rejeitar as formas científicas e analíticas de conhecer mundo, Merleau-Ponty simplesmente quis argumentar que tal conhecimento é sempre derivado em relação às

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