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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL INSTITUTO DE CIÊNCIAS BÁSICAS DA SAÚDE (ICBS) ESPECIALIZAÇÃO EM ENSINO DE CIÊNCIAS NOS ANOS FINAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL - CIÊNCIA É 10! Greice Daniele Diemer Brehm ENGAJAMENTO DE ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL II COMO MULTIPLICADORES DE HÁBITOS SUSTENTÁVEIS NA COMUNIDADE: Conhecimento com foco no combate às mudanças climáticas Porto Alegre 2025 Greice Daniele Diemer Brehm ENGAJAMENTO DE ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL II COMO MULTIPLICADORES DE HÁBITOS SUSTENTÁVEIS NA COMUNIDADE: Conhecimento com foco no combate às mudanças climáticas Trabalho de Conclusão do Curso da Especialização Ciência é 10!, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, como requisito parcial para a obtenção do Título de Especialista em Ensino de Ciências nos Anos Finais do Ensino Fundamental. Orientadora: Profa. Dra. Lenir Orlandi Pereira Silva Co-orientadora: Profa. Dra. Cristiane Matté Porto Alegre 2025 3 RESUMO A educação para a sustentabilidade no ambiente escolar é garantida pela legislação brasileira, mas a sua prática ainda carece de metodologias dinâmicas que motivem os estudantes e sejam incorporadas ao seu cotidiano para a transformação socioambiental. Cada vez mais frequentes e intensas, as calamidades ambientais que acompanham as mudanças climáticas estão nos compelindo a rever a nossa relação com a natureza, sobretudo, a gerenciar o consumo de recursos naturais de forma mais consciente e responsável. Para apoiar a Educação Ambiental, este projeto objetiva desenvolver uma ferramenta didática ativa, o Diário Sustentável, e avaliar o seu potencial no engajamento de alunos multiplicadores ambientais com seus familiares para incremento de ações sustentáveis do cotidiano. A aplicação da atividade investigativa contou com a participação de 24 alunos do sétimo ano do Ensino Fundamental da Escola Estadual de Ensino Médio Jacob Hoff, localizada no Município de Harmonia, Rio Grande do Sul. A coleta de dados do diário se deu ao longo de quatro semanas entre novembro e dezembro de 2024. Os dados revelaram que no perfil das famílias envolvidas várias ações sustentáveis já estão incorporadas ao cotidiano como por exemplo a coleta seletiva básica dos resíduos sólidos, declarada constantemente por pelo menos 95% da amostra. Por outro lado, ficaram evidentes algumas ações que demandam mais esforço e investidas como tomar banhos curtos, evitar veículos à combustão nos percursos, etc. A análise qualitativa indicou que a vivência pedagógica demonstrou-se significativa e foi efetiva no sentido de ampliar e difundir conhecimentos coletivos em sustentabilidade. O experimento proporcionou a recriação de percepções pessoais sobre hábitos degradantes automatizados e sua substituição por práticas mais sustentáveis. O instrumento didático pode ser adaptado e replicado em outros projetos semelhantes, pois favorece a formação de multiplicadores ambientais que almejam agilizar a transição sustentável da humanidade, através da consciência, respeito e responsabilidade ambiental, também pela própria qualidade de vida e manutenção da nossa sobrevivência no planeta. Palavras-chave: Educação Ambiental; Hábitos Sustentáveis; Multiplicadores Ambientais. 4 ABSTRACT Education for sustainability in the school environment is guaranteed by Brazilian legislation, but its practice still lacks dynamic methodologies that motivate students and are incorporated into their daily lives for socio-environmental transformation. Increasingly frequent and intense, the environmental calamities accompanying climate change are compelling us to reconsider our relationship with nature, especially in managing the consumption of natural resources in a more conscious and responsible manner. To support Environmental Education, this project aims to develop an active didactic tool, the Sustainable Diary, and evaluate its potential in engaging students as environmental multipliers with their families to enhance sustainable actions in daily life. The application of the investigative activity involved the participation of 24 seventh- grade students from the Jacob Hoff State High School, located in the Municipality of Harmonia, Rio Grande do Sul. The data collection from the diary took place over four weeks between November and December 2024. The data revealed that in the profile of the involved families, several sustainable actions are already incorporated into their daily lives, such as basic selective waste collection, consistently reported by at least 95% of the sample. On the other hand, some actions that require more effort and investment became evident, such as taking short showers, avoiding combustion vehicles for trips, etc. The qualitative analysis indicated that the pedagogical experience proved to be significant and effective in expanding and disseminating collective knowledge on sustainability. The experiment provided the recreation of personal perceptions about automated degrading habits and their replacement with more sustainable practices. The didactic instrument can be adapted and replicated in other similar projects, as it promotes the formation of environmental multipliers who aim to expedite humanity's sustainable transition through awareness, respect, and environmental responsibility, also for the sake of our quality of life and the maintenance of our survival on the planet. Keywords: Environmental Education; Sustainable Habits; Environmental Multipliers. 5 1 INTRODUÇÃO Desastres climáticos cada vez mais frequentes e intensos por toda a parte do mundo estão voltando os olhos da população para a necessidade urgente de transformação de atividades degradantes ao longo de décadas por hábitos mais sustentáveis. Analisando especificamente a região gaúcha do Vale do Rio Caí, onde este estudo foi realizado, viveu-se recentemente diversos cataclismos, dentre eles vendavais atípicos, chuvas torrenciais, inundações urbanas e enchentes descomunais. Em 2023, a Escola Estadual de Ensino Médio Jacob Hoff em questão, situada no Município de Harmonia, enfrentou a perda do seu ginásio de esportes durante uma micro-explosão atmosférica. Aproximadamente um mês depois, ocorreu outra situação relatada inédita pelos harmonienses, uma chuva torrencial de 156 mm em menos de uma hora alagou o centro urbano. As notícias globais que veiculam tragédias climáticas deixam evidente a vulnerabilidade humana perante a crise ambiental em progresso, disparando o assunto nas pautas políticas em todas as esferas e inquietação das comunidades. Naturalmente, o debate chega às salas de aula. Ao longo da atuação docente na educação básica, para o componente de Ciências da Natureza, percebe-se que os estudos das temáticas ciclos biogeoquímicos e poluição atmosférica por ação antrópica, previstos para abordagem no sétimo ano do ensino fundamental, levantam um desconforto desejável para a gravidade dos fatos. É comum que a curto prazo, o aluno que conclui a educação básica, mesmo ambientalmente consciente, mergulhe em um sistema engrenado e distante da sustentabilidade, com estilo de vida consumista e gerador de montantes de resíduos. Sua atuação na causa ambiental é pouco expressiva, constituindo-se em apenas mais um sujeito do “sistema”. Identifica-se o momento escolar como o cerne para a criação de hábitos sustentáveis perpetuados à posteridade na vida adulta, pois é a fase em que o jovem é questionador e está formando convicções. Com a motivação assertiva, ele pode ansiar e ficar determinado a fazer parte das soluções ambientais. A educação ambiental nas escolas é assegurada por lei e precisa auxiliar na resolução de problemas da sociedadedo Sul. 2012. 105 f. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento Regional) - Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional, Universidade de Santa Cruz do Sul, Santa Cruz do Sul, 2012. SILVA E DUTRA, Fabiana Caetano Martins; ROBERTO, Williane Martinho; COELHO, Bruna Lopes; ALMEIDA Ricardo. Envolvimento em ocupações sustentáveis: mudanças nos hábitos de vida a partir de espaços de práticas educativas. Cad. Bras. Ter. Ocup., São Carlos, v. 26, n. 2, p. 345-355, 2018. SOUZA FILHO, Daniel Bastos; SUDÉRIO, Fabrício Bonfim. Os impactos do CO2 em plantas: cultivando a consciência ambiental em estudantes por meio de uma atividade investigativa. Dialogia, São Paulo, n. 50, p. 1-13, 2024. SPENCER, Matthew. Climate Action “Needs Devolution”, 2007. Disponível em: . Acesso em: 19 jan. 2024. SULAIMAN, Samia Nascimento; RIBAS, Maria Aparecida Pimentel Toloza; de TOLEDO, Renata Ferraz; dos ANJOS, Ana Cristina Chagas. Diálogos da universidade com a comunidade escolar sobre educação para a sustentabilidade. Revista de Cultura e Extensão Universitária da USP, São Paulo, v. 12, p. 95-107, 2014. UNFPA, United Nations Population Fund / ONU - United Nations. À Medida que a População Mundial Atinge 8 Bilhões de Pessoas, ONU Pede Solidariedade no Avanço do Desenvolvimento Sustentável para Todos, 2022. Disponível em: . Acesso em: 19 jan. 2024. YARROW, Joanna. Como Combater o Aquecimento Global: Informações Completas para Você Reduzir a Sua Pegada de Carbono. São Paulo: Publifolha, 2008. 36 APÊNDICE A - Capa do Diário Sustentável na versão impressa 37 APÊNDICE B - Página subsequente com orientações às famílias sobre a atividade e o preenchimento do Diário Sustentável 38 APÊNDICE C - Modelo das páginas de preenchimento das ações sustentáveis, enumeradas até a Semana 4 39 APÊNDICE D - Última página do Diário Sustentável para relato final da família sobre as suas percepções 40 APÊNDICE E - Contracapa do Diário Sustentável com ímã de geladeira aderidohumana perante o meio ambiente. É evidente 6 a observação de que crianças e adolescentes têm maior facilidade em transformar boas práticas em hábitos, frequentemente corrigindo os adultos em seus deslizes. A exemplo disto, podemos analisar os hábitos cotidianos nas últimas décadas quanto à adesão na separação de resíduos sólidos em reciclável e orgânico. Uma geração mais antiga, com menos acesso à escola básica não a fazia, misturando todos os resíduos. Seus filhos assimilaram na escola a importância da reciclagem e começaram a praticar a separação na casa onde residiam com seus pais. Atualmente, para seus netos, a separação de resíduos sólidos é uma ação automatizada, configurando um hábito e inclusive repreendendo os avós quando falham na classificação. Esse processo foi impulsionado pelo papel da escola e tornou os alunos agentes ativos e influenciadores de boas práticas ambientais. Dessa forma, uma hipótese para a superação de comportamentos automatizados que degradam a natureza por habitualização de ações pró-ambiente na comunidade é que esse processo pode ser agilizado através da escola, aproveitando o potencial de alunos do ensino fundamental como multiplicadores delas. Neste contexto, diante da baixa celeridade na transformação por uma sociedade mais sustentável, a questão-problema norteadora do presente estudo se torna uma conjectura eminente. O objetivo geral deste estudo é verificar se através da criação e implementação de uma ferramenta didática ativa - um Diário Sustentável - desperta-se o engajamento de alunos como multiplicadores ambientais para substituir comportamentos depreciativos à natureza e consolidados na rotina familiar por hábitos mais sustentáveis no combate às mudanças climáticas. A pesquisa se desdobrará a partir da elaboração coletiva entre professora/estudantes/familiares de um checklist de ações sustentáveis para compor o diário, que servirá de monitoramento da realização das mesmas em suas casas e posterior análise da atividade investigativa como potencial para alcançar o objetivo principal. Adicionalmente, como objetivos específicos espera-se também avaliar, nos estudantes, os possíveis benefícios psicoemocionais em fazer parte das soluções ambientais e influenciar o seu meio de convívio; ampliar os conhecimentos dos participantes em sustentabilidade; compreender melhor a resistência ao processo e quais as dificuldades das famílias na adesão de hábitos sustentáveis para guiar melhor campanhas e incentivos; inspirar outros projetos a utilizarem ferramentas práticas semelhantes em apoio à Educação Ambiental. 7 2 REFERENCIAL TEÓRICO / TRABALHOS RELACIONADOS No presente, em toda a parte do planeta vivemos a ocorrência de múltiplos desastres climáticos, enquanto que ainda há discussão sobre suas causas serem antropogênicas ou não, de modo retardatário. Na comunidade científica, Cook et al. (2013), após revisão de literatura na área de estudos do clima, no período de 1991 a 2011, concluíram que dentro das publicações que expressam uma posição sobre o assunto, há uma porcentagem majoritária de 97,2% que endossa o consenso no aquecimento global antropogênico. O homem vem modificando radicalmente o meio ambiente natural ao seu redor motivado pelo desenvolvimento da civilização, mais energicamente desde a Revolução Industrial (meados do século XVIII). O processo foi inflamando conforme o aumento populacional e demanda por recursos naturais, excepcionalmente pelos combustíveis fósseis e resultou na elevação rápida dos níveis de gases de efeito estufa da Terra até a atualidade: uma crise climática derivada do aquecimento global. O potencial humano de transformação do meio ambiente é tanto, que há até um debate sobre a reclassificação do atual período geológico. Considerando os crescentes impactos das atividades humanas na Terra e atmosfera, Crutzen (2002) propõe a adição de um novo período geológico após o Holoceno que havia iniciado com a deglaciação e chama essa nova era de Antropoceno. O autor explica que essa transição teria começado na última parte do século XVIII, quando análises de ar preso no gelo polar mostraram o início do crescimento global das concentrações de dióxido de carbono e metano. Dados da National Oceanic and Atmospheric Administration - NOAA (2023) registraram que na última era glacial, os níveis de CO2 estavam abaixo de 200ppm e se mantiveram menores que 280ppm nos últimos 800 mil anos. Em 1950, subiram para 300ppm e na época da primeira grande conferência internacional sobre questões ambientais em Estocolmo, 1972, passaram dos 327ppm. Alcançamos o nível sugerido como seguro pelos cientistas para evitar um aquecimento global catastrófico em 1987, com 350ppm. No mesmo ano do Acordo de Paris, 2015, a 8 concentração de CO2 já havia ultrapassado 400ppm e inesperadamente em maio de 2023, alcançamos o novo recorde global de 424ppm. Crutzen destaca para o crescimento exponencial de um rol de atividades humanas bem conhecidas por pressionar a natureza acompanhando o aumento populacional e alerta ainda que a humanidade continuará a ser uma grande força de pressão ambiental por muitos milênios. Blanc (2012) afirma que a visão de que o desenvolvimento econômico é limitado começou pelos anos 70 e 80, quando ocorreram os primeiros movimentos sociais ambientais, a criação das primeiras conferências mundiais e os fóruns de debate ecológico, ou seja, desde então há consciência de que a poluição industrial da atmosfera, água e solo e a pressão do crescimento demográfico sobre os recursos naturais, deixam um passivo com potencial de afetar a qualidade de vida. Oficialmente, o primeiro grande encontro internacional com representantes de diversas nações (113 países), para discutir os problemas ambientais, ocorreu em 1972 em Estocolmo, a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento e Meio Ambiente Humano. Mais tarde, em 1988, ocorreu a 1ª Conferência Climatológica Mundial, em Toronto, resultando no consenso de que as emissões de gases do efeito estufa deveriam ser neutralizadas consideravelmente. Foi criado, então, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – IPCC. Observa-se que fenômenos atmosférico-oceânicos como “el niño” e “la niña” são ainda mais acentuados pelo aquecimento global. Climatologistas e meteorologistas da NOAA, da OMM (Organização Meteorológica Mundial) e do C3S (Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus), da União Europeia, concordam que 2023 foi o ano mais quente em 174 anos de medições científicas e o ano mais quente dos últimos 125 mil anos, de acordo com as projeções de especialistas para o passado da Terra. Somente para contextualizar, a partir do Projeto Colabora (2023) relembra-se algumas das tragédias mais marcantes noticiadas em 2023: janeiro começou o ano com nevascas rigorosas nos Estados Unidos e a passagem de um ciclone extratropical histórico que ocasionou 106 mortes em todo o país; no Brasil, em fevereiro, uma chuva torrencial no litoral de São Paulo resultou na morte de 60 pessoas; na Somália, em março, mais de 43 mil pessoas morreram como resultado de uma seca extrema; Índia e China experimentaram o abril mais quente da história 9 da Ásia, ondas de calor marcando até 45°C; a América do Norte e América do Sul tiveram o maio mais quente já registrado; em junho, incêndios florestais canadenses espalharam nuvens alaranjadas de fumaça até Nova York e Washington. Foi a pior temporada de queimadas do Canadá, a fumaça chegou a atravessar o Atlântico e alcançar a Europa. Na segunda metade do ano, o mês de julho foi marcado por ondas de calor simultâneas em partes da Ásia, inclusive o Oriente Médio, na América do Norte, na Europa Mediterrânea e no norte da África. Mais de 10 países registraram temperaturas acima dos 50°C. No México, mais de100 pessoas morreram vítimas do calor; no Havaí, em agosto, um intenso incêndio florestal causou mais de 100 vítimas fatais e foi considerado o mais mortal da história dos EUA em pelo menos 100 anos; em nosso país, o Rio Grande do Sul enfrentou a passagem de um ciclone que provocou uma enchente devastadora no Vale do Taquari, arrasando cidades e deixando, pelo menos, 50 mortos; em novembro, novos temporais voltaram a atingir o Sul do país causando mais mortes numa inundação recorde, jamais imaginada no Vale do Rio Caí; setembro também foi marcado pelo ciclone mais forte e mais mortífero no Mar Mediterrâneo. Grécia, Bulgária, Turquia e Egito tiveram mortes. Na Costa Africana, a Líbia anunciou mais de 10 mil mortes; a partir de outubro, a seca extrema na Amazônia surpreendeu o mundo com os rios que secaram, barcos que encalharam, comunidades ribeirinhas e indígenas que ficaram isoladas, e queimadas que se multiplicaram cobrindo Manaus e outras cidades com nuvens de fumaça. Repercutiu grande comoção pelas dezenas de botos-cor-de-rosa e milhares de peixes que morreram pelo aquecimento da água; mais de 1.600 municípios em 15 estados brasileiros sofreram com as ondas de calor de novembro. O Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, registrou a maior temperatura já verificada no Brasil pelo Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), com 44,8°C. O calor recorde também alcançou municípios do Pantanal, onde o bioma registrou mais de 3 mil focos de incêndio, número cinco vezes maior que a média histórica para o mês; no Hemisfério Sul, o verão já chegou com ondas de calor, passando dos 40°C no Peru, no Chile e no Paraguai, neste último com até 44°C na véspera do Natal. A Austrália passou o Natal sob alertas de onda de calor, incêndios florestais e tempestades de verão. Com foco no Rio Grande do Sul, especialistas analisam que em um ano, desde 2023, o Estado enfrentou dez episódios de chuvas extremas. No município gaúcho de 10 Harmonia, onde o presente projeto é realizado, distante 65 quilômetros da capital Porto Alegre, registramos uma sequência de calamidades climáticas nunca antes vistas segundo relatos de moradores. Em 28 de janeiro de 2023, um violento vendaval espalhou destruição pela cidade causando diversos destelhamentos, além da queda de muitas árvores nas ruas centrais. O fenômeno causado por conta do excessivo calor, é denominado downburst ou micro-explosão atmosférica, com ventos severos e causou rajadas superiores aos 100 km/h (METSUL, 2023). No episódio, a Escola Estadual de Ensino Médio Jacob Hoff foi atingida, perdendo quase 100% da estrutura do ginásio de esportes, o qual não pôde ser utilizado durante todo o ano letivo. Pouco tempo depois, em 4 de março, outro evento sem precedentes: o centro da cidade foi alagado por uma chuva torrencial de 156 mm em 1 hora, o que transbordou a drenagem urbana, interrompeu o trânsito, estragou e isolou casas (HARMONIA, 2023). Já em 2024, em meio ao andamento deste projeto, um novo marco na história das inundações no Rio Grande do Sul aconteceu. As chuvas torrenciais que ocorreram no início de maio, elevaram o nível da água do Lago Guaíba, na Estação do Cais Mauá, na capital aos inéditos 5,35 metros, superando a histórica enchente de 1941, quando a cota máxima foi de 4,76 metros (AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS, 2024). De acordo com a Defesa Civil (RIO GRANDE DO SUL, 2024), a calamidade afetou 478 dos 497 municípios gaúchos, ou seja 90% deles. O maior impacto foi nas regiões metropolitanas de Porto Alegre, da Serra, do Sul e dos Vales. No total, foram 178 mortes, 34 desaparecidos e 388.781 desalojados. Em meio à tragédia, 790 escolas foram afetadas, 388 sofreram danos e 52 serviram de abrigo. A crise deixou o Estado numa situação calamitosa. Inúmeras regiões tiveram os serviços de fornecimento de energia elétrica, água e telefonia suspensos por semanas, pessoas passaram dias submersas na água ou sobre os telhados aguardando o resgate. As projeções para o cenário num futuro próximo, se não houver mudança de comportamento são pessimistas. Mora et al. (2018) declaram que pela metade deste século, a humanidade poderá estar enfrentando até seis crises relacionadas ao clima ao mesmo tempo, dentre as quais ondas de calor, incêndios florestais, elevação do nível do mar, inundações, secas, etc. Os impactos são desastrosos e estão se encaminhando para afetar cada vez mais a humanidade, através dos eventos climáticos extremos, insegurança alimentar ou hídrica, ou através de surtos de doenças como dengue, leishmaniose, malária, entre outras (IPCC AR6, 2021). As 11 conclusões dos autores apontam que “as alterações climáticas em curso representarão uma ameaça acrescida para a humanidade que será grandemente agravada se medidas substanciais e oportunas às reduções das emissões de gases de efeito estufa não forem alcançadas”. Os autores destacam ainda que tamanhos impactos na sociedade necessitarão de uma carga de investimentos econômicos para garantir uma diversidade de adaptações necessárias e que os políticos brasileiros precisam direcionar investimentos pesados na área de contenção de riscos e desastres. A gestão pública brasileira nas diferentes esferas, está desenvolvendo Planos de Mitigação e Adaptação às Mudanças do Clima com base na Portaria MMA nº 150, de 10 de maio de 2016 (BRASIL, 2016). Tais documentos reúnem medidas emergenciais de gerenciamento dos fenômenos climáticos e remediação em casos de calamidade pública, mas basta observar o que foi vivenciado pela população gaúcha na tragédia supracitada para concluir que ainda não há preparo para o atendimento necessário destas emergências climáticas. Dado o nível de apatia ambiental ao qual a população humana se encontra, Lewandowski, Freeman & Mann (2017) defendem que os planejadores sociais devem tomar dentre as medidas, a de colocar um preço no carbono advertindo que o custo da inação supera em muito o custo de agir. Anualmente, através das COP (Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, derivada do Acordo de Paris de 2015, que objetiva frear o aquecimento global em até 1,5°C acima dos níveis pré-industriais até 2030, sendo que o patamar atual já está em 1,2°C) verifica-se a complexidade da cooperação entre os países nas políticas de gestão ambiental. Na edição da COP 28, que aconteceu em novembro de 2023 (Dubai - Emirados Árabes Unidos), reunindo líderes mundiais de 195 países, foi celebrada uma decisão considerada histórica. Apenas então, pela primeira vez, tratou-se de forma explícita o abandono dos combustíveis fósseis, estabelecendo objetivos globais para a transformação de sistemas energéticos rumo à neutralidade climática das emissões de carbono até 2050 (BRASIL, 2023). Relembra-se que a intensificação do efeito estufa pelo aumento da concentração de CO2 e gases equivalentes na atmosfera resultantes das atividades humanas que podem levar ao aquecimento excessivo do planeta, vem sendo debatida há mais de 50 anos. Contudo, ainda de acordo com Blanc (2012), as lideranças políticas permanecem paralisadas, assumindo uma posição pragmática quanto à 12 crise, preocupando-se mais em garantir o crescimento econômico de seus países. Além da busca de soluções possíveis para reduzir o aquecimento global em nível político, o autor apresenta mudanças necessárias no âmbito energético e de transportes, com o uso de fontes de energia limpa como os biocombustíveis, além de medidas para conter o desmatamento, através do desenvolvimento sustentável, por exemplo. Para ele, a resposta não se constitui de uma única solução isolada, mas de um conjunto de soluções sincronizadas, as quais, ao longo do tempo, poderão reverter o quadro inseguro que nos aguarda segundo as previsões atuais. O progresso da civilização visando melhorias na qualidade de vida ainda deve fazer parteda solução, mas incorporando a Ciência e a Tecnologia no direcionamento do desenvolvimento sustentável. É preciso transcender a palavra sustentabilidade, que por definição da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas (BRUNDTLAND, 1987) significa o “desenvolvimento capaz de garantir as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de também atenderem às suas”. Se parece difícil imaginar esse ideal, basta observar como uma criança tem facilidade em descrever o mundo em que ela quer viver, muito diferente da poluição que a humanidade acumulou e continua gerando. Nosso horizonte deve ansiar por um planeta onde usufruamos das modernidades e do conforto, mas condicionados ao reconhecimento do valor intrínseco dos serviços ecossistêmicos para a qualidade de vida. Dependendo das percepções individuais sobre proporção, o planeta Terra pode ser considerado grande ou pequeno, mas de fato, é um só para 8 bilhões de pessoas (UNFPA/ONU, 2022). De acordo com a ONU – Organização das Nações Unidas, esse marco é indicativo de que houve muitas melhorias na saúde pública que reduziram o risco de morte e aumentaram a expectativa de vida. Com este quadro populacional crescente, a organização pede solidariedade no avanço do desenvolvimento sustentável para todos. A promoção da sustentabilidade por ações governamentais é imprescindível e urgente, mas na prática tem sido complexa e morosa. De acordo com Spencer (2007) há poucos sinais de que as comunidades estejam recebendo poder político para combater o aquecimento global. Este é o fardo das nações: políticas pouco ativas no desenvolvimento de incentivos e adoção de tecnologias limpas e fontes de energia renovável. Então, neste “mar de gente”, cada pessoa precisa fazer a sua parte para melhorar o todo, como incita o filósofo alemão Ulrich Beck: “pensar 13 globalmente, agir localmente”. Segundo Blanc, essa frase virou lema de campanhas que visam a estimular o comprometimento individual para minorar os estragos provocados pela sociedade industrial. Também para Spencer, a única forma de reverter a mudança climática que testemunhamos é transformando-a em um problema local. Os níveis da emissão global de carbono refletem bilhões de pequenas decisões tomadas diariamente sobre o uso de energia em cada vila, cidade e metrópole no mundo todo (SPENCER apud BLANC, 2012). Quando compreendemos a complexidade e urgência da crise climática, precisamos assumir que cada um tem um papel no desenvolvimento da comunidade e do planeta, e que faz parte da solução também. Basta uma busca simples e rápida pela internet para encontrar inúmeras sugestões de ações sustentáveis individuais e coletivas. Contudo, a pergunta que fica é: por que elas ainda não são realidade? Neste desafio, a escola pode acelerar a mudança de mentalidade e melhorar as relações entre os homens e o meio ambiente. A escola é um importante setor da comunidade, onde bem cedo na vida do cidadão acontece a prática das reflexões e ações voltadas à conservação ambiental, sendo parte do processo educativo. Para Roos & Becker (2012, p. 861), A escola é o espaço social e o local onde poderá haver sequência ao processo de socialização. O que nela se faz se diz e se valoriza representa um exemplo daquilo que a sociedade deseja e aprova. Comportamentos ambientalmente corretos devem ser aprendidos na prática, no cotidiano da vida escolar, contribuindo para a formação de cidadãos responsáveis. Assim a Educação Ambiental é uma maneira de estabelecer tais processos na mentalidade de cada criança, formando cidadãos conscientes e preocupados com a temática ambiental. A Educação Ambiental é um direito de todos e deve ser desenvolvida de forma integrada, contínua e permanente em todos os níveis e modalidades do ensino, conforme dispõe a Política Nacional de Educação Ambiental (BRASIL, 1999). Está previsto na mesma lei a construção de atitudes para a conservação do meio ambiente, identificando-a como necessária à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade. Também fica determinado na PNEA que a temática faça parte das matrizes curriculares permeando todas as áreas de forma interdisciplinar. Dentre as Matrizes de Referência para o Ano Letivo de 2024 no Rio Grande do Sul, que seguem a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e o Referencial 14 Curricular Gaúcho (RCG), o tema aquecimento global não possui habilidade exclusiva, mas permeando várias habilidades da Área do Conhecimento Ciências da Natureza (Figura 1), onde compete ao professor realizar o enquadramento e a abordagem em sala de aula. Figura 1: Habilidades curriculares envolvendo a abordagem do aquecimento global para o sétimo ano do Ensino Fundamental - Anos Finais - Área do Conhecimento: Ciências da Natureza - Componente Curricular: Ciências, de acordo com as Matrizes de Referência para o Ano Letivo de 2024 Fonte: RIO GRANDE DO SUL, 2024. Nas matrizes referenciais, as habilidades que constam na Figura 1 não são sequenciais, estão aleatorizadas entre outras ao longo de todo o ano letivo. Após a conclusão do seu estudo, espera-se que os estudantes compreendam que as alterações da atmosfera pelas atividades antrópicas resultam na intensificação do efeito estufa e elevação da temperatura média global, e consequentemente, nas 15 catástrofes decorrentes das mudanças climáticas. Todavia, ainda que os objetivos de ensino aprendizagem sejam alcançados, em uma janela de tempo, os jovens que adquirem uma consciência crítica e estão motivados, deparam-se frequentemente com a mesma inquietação: o que podemos fazer para mudar a situação e por que a transformação necessária não está se concretizando? Hábitos sustentáveis parecem distantes da realidade, eles compreendem por alguns momentos a sua importância, mas não os incorporam à vida cotidiana. Ou seja, colocar em prática os conhecimentos adquiridos não está se perpetuando de forma contínua nem na escola, nem na vida extra-classe. Para auxiliar a resolver esse desafio, Fenner (2015, p. 13) demonstra estar convicta de que a escola, com o apoio da comunidade e do poder público, deve inserir seus alunos em projetos ambientais, transformando a escola numa instituição sustentável quando afirma que: O importante não são os benefícios diretos com os projetos ambientais, o importante é dar exemplo e educar a comunidade, pois os alunos têm o poder de envolver a todos com suas ações. Assim, o que for aprendido na escola, farão em casa e consequentemente incentivarão seus familiares a realizarem o mesmo. Alguns exemplos de ações importantes são a coleta seletiva do lixo, a separação de objetos para a reciclagem e a captação da água de chuva para posterior utilização na limpeza da escola, são ideias simples, de fácil realização, sendo que essas ações provavelmente serão incorporadas ao cotidiano dos alunos, que se tornarão cidadãos conscientes, fator que para o resto da vida terão como base esse exemplo positivo. Também é fato que a escola, apesar desse papel imprescindível no desenvolvimento de convicções dos jovens, configura uma fase passageira em sua vida. Então conforme objetiva-se a incorporação de atitudes sustentáveis vitalícias, é com o apoio da organização da família que podemos formar uma base resiliente, onde estes valores e princípios tão importantes para a qualidade de vida possam ser perpetuados. Bernardes (2018, p. 193) ressalta o quanto o poder público e a sociedade devem proteger a educação familiar, fornecendo à função social da família, elementos suficientes para propiciar a educação para a sustentabilidade ambiental, econômica e social. O estudo indica que a família é classificada como o núcleo fundamental da sociedade e unidade primária de aprendizado, sendo o aporte inicial no processo de aprendizado e educaçãode crianças: 16 Pais, irmãos e demais integrantes da mesma família colaboram no desenvolvimento da personalidade e crescimento cognitivo da criança, por meio de um processo diuturno, continuado e muitas vezes imperceptível. A família repassa valores, costumes, hábitos, conhecimentos, que podem ser positivos ou negativos à formação da criança e do adolescente. O autor defende que somente será possível a mudança de consciência dos habitantes do planeta, a partir da adoção de incentivos e projetos do poder público e da sociedade para fortalecimento da família e de sua função como protagonista da educação familiar. Assim, aliar a escola à família representa grande potencial para alcançarmos a transformação socioambiental de que tanto precisamos. Ferraz (2008), em seu trabalho sobre a sustentabilidade escolar, corrobora com o que também pensam as diretoras escolares, enquanto peças fundamentais na orientação da gestão ambiental da escola, vislumbrando o papel de exemplo da escola para os alunos e suas famílias. Um caso de sucesso dessa aliança é relatado por Schneider (2012), onde foi possível inaugurar a Escola Família Agrícola de Santa Cruz do Sul - EFASC, para a formação de jovens, em alternância entre teoria e prática. A construção social da escola rural foi movida pela preocupação dos estudantes em melhorar a qualidade de vida da comunidade que há muito tempo têm sua economia baseada na monocultura do tabaco. Buscou-se implantar o conhecimento de técnicas alternativas para a preservação ambiental e diversificação da produção agrícola. A autora conclui que a escola conta com uma crescente participação e responsabilidade das famílias, contribuindo para o fortalecimento e o desenvolvimento sustentável das comunidades nas quais os jovens estão inseridos. Yarrow (2008) argumenta que embora o fato de que quase todas as áreas de atividade humana contribuem para a nossa pegada de carbono e isso pareça um problema devastador, temos a oportunidade de reduzi-la em quase todos os aspectos da vida. A autora, que propõe em seu manual “Como combater o aquecimento global” sugestões para minimizar o impacto que causamos no meio ambiente através de mudanças possíveis no nosso estilo de vida, como otimizar a eficiência de eletrodomésticos, utilizar bicicletas para deslocamentos curtos, aderir a moda “slowfashion”, reduzir o consumo de carne, realizar a compostagem de resíduos orgânicos, etc. São ações simples e acessíveis que podemos aderir em casa, na escola e no trabalho para diminuir a poluição e o lixo. Ela também enfatiza que uma 17 vida ecologicamente correta é boa não apenas para o planeta, mas, principalmente, para a saúde e bem-estar. Uma prática docente mais significativa e eficaz, apoia-se na literatura científica e no uso de diferentes abordagens didáticas, como práticas investigativas. Segundo Rosito (2008, p.196), para o ensino de Ciências, nas atividades práticas e interativas, os alunos se envolvem ativamente: Focalizando nossa atenção para o ensino de Ciências, as atividades práticas, incluindo a experimentação, desempenham um papel fundamental, pois possibilitam ao aluno uma aproximação do trabalho científico e melhor compreensão dos processos de ação das Ciências. Explanar a sustentabilidade em sala de aula pode se tornar mais enriquecedor se for acompanhado de vivências pedagógicas. Seguindo os preceitos de Ausubel (1982), desenvolver atividades práticas por meio da descoberta pode distanciar o aluno da aprendizagem meramente mecânica e promover a aprendizagem significativa. Esta ocorre quando a partir daquilo que já conhece, o aprendiz aplica o seu filtro pessoal sobre o novo conteúdo, faz conexões significativas entre essa bagagem e as novas informações e considera o que tem significado ou não para si próprio. Nesse contexto, para Leão (2013) é urgente educar a população para que estabeleça relações harmoniosas com a natureza e essa conscientização se materializa quando ocorre a substituição de hábitos automatizados por novos hábitos sustentáveis, que buscam reduzir o consumismo irresponsável, o desperdício dos recursos naturais, a geração de resíduos e a poluição ambiental. 3 METODOLOGIA O presente estudo consiste em um trabalho investigativo em sala de aula cuja natureza é a prática dirigida à solução do problema específico: a urgência para mudanças de hábitos perante a crise climática. A realização se deu por meio de uma pesquisa exploratória (GIL, 2008) com abordagem qualitativa através da criação coletiva de um instrumento de coleta de dados no formato de um diário de campo para registros dos estudantes e suas famílias. 18 Inicialmente, por envolver aplicação da prática com alunos, o presente projeto passou por aprovação da Comissão de Pesquisa do Instituto de Ciências Básicas da Saúde (COMPESQ/ICBS) e do Comitê de Ética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (CEP/UFRGS) via Plataforma Brasil (https://plataformabrasil.saude.gov.br/login.jsf). Para o desenvolvimento do estudo, foi definida a turma de sétimo ano - 71 do Ensino Fundamental da Escola Estadual de Ensino Médio Jacob Hoff, situada no Município de Harmonia, região central do Rio Grande do Sul. Essa escolha se deu baseada pela composição da grade curricular de habilidades discriminadas anteriormente na Figura 1: poluição atmosférica por ações antrópicas, efeito estufa e aquecimento global. Esse critério não quer dizer que a aplicação do trabalho se restringe ao sétimo ano, mas sim que é desejável uma pré-compreensão dos assuntos para a vivência se tornar mais plena. A amostra total engloba 24 estudantes e seus respectivos familiares. A dinâmica seguiu com os seguintes procedimentos em ordem cronológica: 1. Apresentação do projeto: o primeiro contato sobre a pesquisa com os alunos ocorreu após a aprovação pelo CEP/UFRGS. Então, o convite para participar do estudo foi apresentado aos responsáveis pelos estudantes da turma 71, que consentindo, assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Anexo A), por serem menores. Os estudantes participantes também assinaram o Termo de Assentimento Livre e Esclarecimento (Anexo B). 2. Elaboração do Instrumento de Ações e Coleta de Dados em Sala de Aula: os alunos juntamente com a professora pesquisadora deste projeto, começaram a construção coletiva do protótipo de um Diário Sustentável listando ações e práticas sustentáveis possíveis de serem executadas pelas famílias, através de buscas virtuais e também literárias. A ideia do formato em diário surgiu a partir de livre criação, não se baseando em estudos e modelos pré-existentes. 3. Participação dos familiares na elaboração do Instrumento de Ações e Coleta de Dados: cada aluno levou uma cópia do esboço inicial do diário feito na escola para a sua casa buscando a apreciação e colaboração da família a fim de analisar a viabilidade de execução das ações. Esses apontamentos e sugestões foram considerados para a edição da versão final do Diário Sustentável, caracterizando portanto uma construção criativa, participativa e coletiva. 19 4. Instrumento de Ações e Coleta de Dados: a formatação digital do diário foi finalizada e posteriormente procedeu-se à impressão de uma cópia para cada aluno participante em folhas de papel reciclado conforme Apêndice A. Adicionou-se um ímã de geladeira na contracapa para evitar o esquecimento dos registros das ações cumpridas. 5. Coleta de Dados: os diários foram entregues aos estudantes que semanalmente ao longo de um mês, juntamente com sua família se empenharam em cumprir as ações da lista e marcar objetivamente no diário quais conseguiram executar. Ao longo do monitoramento, para reforçar a lembrança dos registros da atividade, o preenchimento de cada semana foi supervisionado durante as aulas de Ciênciascom um visto e mensagens instantâneas de motivação foram enviadas semanalmente ao grupo de familiares da turma. Ao final do período, na última página reservou-se espaço de escrita para relatos pessoais e voluntários dos alunos e familiares sobre as percepções da prática. 6. Devolutiva final do diário de campo: os diários preenchidos foram recolhidos em aula e o encontro foi dedicado a reflexões e avaliação coletiva da prática. Organizados em pequenos grupos, compartilharam com os colegas suas vivências, dificuldades e percepções, analisando também a sua atuação e dos familiares na atividade. Os grupos reuniram alguns relatos em painéis criativos e para desfecho, fizeram uma exposição oral de suas reflexões à turma. Este encontro teve a gravação em áudio pela professora pesquisadora para análise posterior. 7. Análise dos Dados do Instrumento: para avaliação do engajamento dos alunos e suas famílias, esta etapa contemplou a interpretação dos resultados dos registros no diário, bem como a apreciação do áudio gravado em aula, contendo relatos e reflexões. Dados quantitativos não foram processados em estatística e portanto procedeu-se considerando a orientação de Nóbrega Bernardino & Santos (2023) para que na ocorrência de dados não-numéricos como neste caso, uma análise qualitativa dos dados seja realizada. 20 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO Desde o primeiro contato com os alunos para a apresentação do projeto em sala de aula, percebeu-se boa receptividade e predisposição deles. Seguiu-se com a construção coletiva entre a professora, alunos e famílias, da listagem de ações sustentáveis adaptadas à realidade da comunidade, que resultou na configuração final da Tabela 1 com o seu respectivo monitoramento prévio e semanal de execução ao longo de um mês. Tabela 1 – Lista de ações sustentáveis definidas para o Diário Sustentável, com aplicação do diagnóstico prévio e monitoramento semanal das 24 famílias. Ações sustentáveis Marco zero Semana 1 Semana 2 Semana 3 Semana 4 Separar o lixo Orgânico do Reciclável e seguir o cronograma municipal de coleta; 23 23 23 23 22 Realizar a compostagem do lixo Orgânico em composteira para horta ou jardim; 13 14 18 16 18 Armazenar o óleo de cozinha em garrafas pet para posterior destinação correta; 16 15 17 18 14 Descartar corretamente eletrônicos; 18 13 14 10 13 Entregar resíduos da logística reversa em pontos de coleta: lâmpadas, pilhas e medicamentos; 14 11 13 13 14 Plantar mudas novas, cultivar jardim ou horta; 21 19 19 21 18 Gerenciar a quantidade de comida servida no prato evitando o desperdício de alimentos; 19 20 19 19 21 Reduzir o consumo semanal de carne (recomendações sugerem aprox. 500g por 14 13 12 13 14 21 pessoa/semana. O apelo é reduzir, não eliminar); Tomar banhos curtos de no máximo 5 minutos; 7 8 12 10 11 Lavar roupas com a capacidade da máquina cheia; 20 21 22 18 22 Coletar água da chuva para utilizar em alguma atividade de limpeza, rega, etc; 2 6 7 5 6 Levar ecobags ou caixas de papelão nas compras ao invés de adquirir sacolas plásticas; 5 6 6 7 7 Recusar copos, canudos plásticos e outros afins, utilizando materiais retornáveis; 8 13 10 11 14 Reutilizar embalagens descartáveis para outra finalidade; 19 16 19 17 16 Desligar luzes e eletrônicos nos cômodos onde não há pessoas. Otimizar o ar condicionado fechando os ambientes e regulando a temperatura em torno de 23oC; 23 22 20 20 22 Utilizar luz natural, abrindo a casa, ao invés de acender lâmpadas para atividades; 22 21 24 20 20 Substituir carros e outros veículos à combustão por percurso a pé ou bicicleta; 4 6 6 8 5 Utilizar folhas de papel reciclado; 5 3 4 4 3 Nos banheiros e lavatórios públicos que têm toalhas de papel, reduzir a quantidade necessária (recomendações sugerem duas folhas por pessoa); 18 17 18 16 18 22 Realizar compras de produtos fabricados e comercializados no município ou localidades próximas (LOCAVORISMO); 21 16 15 14 15 Comprar roupas e calçados slow fashion (peças atemporais, que não são de moda passageira); 15 7 10 8 8 Comprar produtos ecologicamente conscientes como os veganos, cruelty free, biodegradáveis ou reciclados; 9 8 9 10 6 Adquirir produtos de segunda mão como eletrodomésticos, roupas de brechó, etc. 8 2 6 5 5 Fonte: participantes da pesquisa, 2024. Engajamento dos alunos e famílias nas ações sustentáveis Quanto ao aspecto geral, considera-se o envolvimento dos estudantes e suas famílias no presente projeto bastante satisfatório. Foram muito participativos, atentos ao preenchimento, zelosos com o material e cordiais nas devolutivas. As famílias empreenderam-se em detalhar suas percepções através de relatos no espaço de escrita reservado ao final do diário. Neste sentido, este trabalho corrobora o estudo de Santiago et al. (2021), que defende a ideia de que é necessário o trabalho de escola em conjunto com a família/sociedade para que os hábitos sustentáveis sejam praticados em todos os ambientes. Sobre os dados gerais dos registros de realização das ações sustentáveis, percebe-se que algumas destas obtiveram maior destaque. A separação dos resíduos sólidos sobressaiu, sendo realizada por 95% dos participantes. Este valor indica que embora o aproveitamento reciclado dos resíduos sólidos coletados no município esteja na casa dos 20% do montante mensal coletado de 99.900Kg de acordo com a terceirizada contratada para 2025, os munícipes estão cumprindo o seu dever na coleta seletiva básica e que há outros aspectos aquém a serem revistos. 23 Possivelmente, este resultado é uma evidência de que se trata de uma ação já pertencente às tarefas diárias do cotidiano familiar. Mais de 80% do grupo também indicou certas práticas de forma quase constante desde o início do monitoramento até o final como no cuidado para evitar o desperdício de alimentos; no desligamento de luzes e aparelhos elétricos ociosos e na utilização de luminosidade natural para os ambientes. Ainda com valores satisfatórios, 70 e 80% dos participantes se mantiveram engajados em cultivar plantas, jardins ou hortas e lavar as roupas somente com a capacidade da máquina cheia. A observação de que tais ações já vêm sendo regularmente realizadas na rotina familiar é constatada através da narração de alguns alunos (A) e familiares (F) ao longo da convivência na atividade: A01: Várias dessas coisas a gente já fazia. A02: Me senti bem, mas também curiosa ao perceber que fazia várias ações sustentáveis sem perceber. F01: …vimos que já praticávamos bastante a sustentabilidade, já utilizávamos ecobags, também separávamos os resíduos para ir à horta. Outras ações propostas como realizar a compostagem do resíduo orgânico, armazenar o óleo de cozinha usado, reutilizar embalagens, praticar o locavorismo, reduzir o consumo de carne e usar menos toalhas de papel em banheiros e lavatórios públicos são menos realizadas, indicadas por apenas um pouco mais da metade dos participantes. O descarte correto de eletrônicos e logística reversa de lâmpadas, pilhas e medicamentos foi apontado por no mínimo 40% dos participantes em cada semana monitorada. Esses dados precisam de análise mais aprofundada e não recomenda- se avaliação isolada por se tratar de bens de consumo duráveis ou esporádicos, ou seja, não é desejável que assinalem o descarte toda a semana. A porção registrada reflete cuidados com esse descarte, salientando-se que atualmente tais resíduos não caracterizam problema no município, pois este dispõe mensalmente de coleta específica para eletrônicos e pontos fixos em comércios que recebem ainda pilhas usadas. No que tange aos resíduos medicamentosos, estes podem ser entregues nos postos municipais de saúde e farmácias.Por outro lado, a entrega de lâmpadas usadas no ato da compra de novas ainda não ocorre de maneira eficiente nos comércios locais. Mesmo sendo prevista na legislação brasileira da política reversa, 24 não é uma prática estabelecida. Estes e alguns outros pontos de coleta ainda precisam ser facilitados para acompanhar a rotina agitada das pessoas, é o que fica declarado por um familiar: F02: …os dias às vezes são tão corridos que nem sempre fazemos corretamente tudo, mas estamos cientes da importância de cada um em fazer sua parte para viver melhor. A ação que contempla o conceito de moda slow fashion, que valoriza a qualidade e a durabilidade das roupas em detrimento da quantidade, mostrou que ainda é popularmente pouco difundida, mas muito importante na sua intenção. A frequência de consumo depende também do poder aquisitivo da população, mas a preocupação pela versatilidade e durabilidade das peças slow fashion foi manifestada e se manteve por pelo menos 33% da amostra observada. Todas as demais ações propostas poderiam ser rotineiras, mas estão abaixo da expectativa pois são realizadas por menos da metade do grupo: tomar banhos curtos de no máximo 5 minutos, coletar água da chuva, levar ecobags às compras, substituir veículos a combustão por ciclismo ou caminhada em trajetos curtos, utilizar folhas de papel reciclado, adquirir produtos ecologicamente conscientes ou produtos de segunda mão como eletrodomésticos, roupas e calçados de brechós. Observa-se aqui um ponto crucial a ser explorado. Quanto ao nível de análise crítico-reflexiva do panorama geral dos dados, a atividade mostra que ao longo de quatro semanas, a realização das ações sustentáveis mantém valores praticamente constantes. Esse padrão não vai ao encontro da expectativa inicial de crescimento progressivo do engajamento ao longo do período monitorado, mas permite traçar um perfil das famílias com relação aos seus comportamentos sustentáveis, refletindo hábitos já incorporados na rotina familiar e outros que demandam mais esforços. Pode-se então considerar como positivo o fato de que não há um aumento nas ações pois a sustentabilidade já é algo, de certa forma, incorporada neste meio. 25 Percepções sobre transformação de hábitos e o papel dos alunos como multiplicadores de ações sustentáveis Um aspecto que se mostrou bastante positivo no uso de um diário sustentável como ferramenta, é o de proporcionar o bem estar a quem participa das ações que promovem soluções ambientais. Cabe recordar que anteriormente a essa prática, os alunos vêm de uma pré-discussão carregada sobre a problemática da poluição antrópica e de toda a culpabilidade humana na crise climática em que vivemos. Os benefícios foram relatados diversas vezes por alunos e famílias: A08: Nos sentimos bem que ajudamos o meio ambiente e não prejudicando mais tanto. A11: Eu me senti ajudando o nosso planeta. F03: Foi muito legal a prática, sabendo que estamos fazendo algo muito importante para ajudar para que o nosso meio ambiente seja bem cuidado… sentimos alegria, por fazer o que é certo. F04: Ficamos muito felizes e honrados com a nossa participação nesse projeto, pois sabemos que estamos no caminho certo. F06: Gostamos muito… obrigada por compartilhar essa experiência. F10: Continue com o belo trabalho para que algum dia possamos nos orgulhar de ter feito parte da preservação do planeta que há anos vem “chorando” devido aos impactos negativos que o ser humano lhe causa. Silva e Dutra et al. (2018) analisam como a participação de universitários em espaços de práticas sustentáveis muda os hábitos cotidianos e o envolvimento em ocupações. Dos relatos deste estudo, os autores destacam a importância e benefícios do bem-estar do indivíduo, percebidos durante o seu envolvimento em hábitos mais sustentáveis. Eles entendem a perspectiva ocupacional como uma força propulsora de mudanças ambientais ao encontro de soluções para crises ecológicas em nível local e global. Uma vez tomados por sentimentos de euforia em fazer parte das soluções ambientais, os estudantes contagiam outras pessoas de seu convívio, como familiares, colegas, amigos, vizinhos, enfim, da comunidade local, influenciando-os a exercer o seu papel de corresponsável pela proteção dos recursos naturais. 26 Examinando como os estudantes interagiram com os seus familiares, pode-se considerá-los agentes multiplicadores de educação ambiental conforme também por Evangelista, Ruffino e Silva (2018). Tal inferência é baseada nas seguintes afirmações: A06: A gente se sentiu muito comovido a ajudar meio ambiente e influenciando as outras pessoas com esse projeto a também fazer parte… a nossa preocupação com o meio ambiente é muito grande já que algumas pessoas não se importam. A04: Eu achei este trabalho de grande importância pois conscientizou as pessoas a parar de poluir e começar a jogar menos lixo nas ruas. F05: Foi muito interessante participar deste projeto, pois influenciará outras pessoas a fazerem o mesmo. O Diário Sustentável como ferramenta de apoio à Educação Ambiental Com base na análise dos relatos dos participantes, o diário se mostrou uma ferramenta bem aceita e eficiente, substancialmente pelo fato da participação no projeto oportunizar a ampliação dos conhecimentos em sustentabilidade e incorporação ao cotidiano: F03: As crianças aprenderam um pouco mais sobre sustentabilidade e a importância da sua prática para uma melhora na recuperação do planeta. F09: Com esse trabalho conseguimos melhorar nossa desenvoltura em relação à sustentabilidade… percebemos que não é difícil fazer o básico. F4: O diário sustentável nos fez refletir a importância dos pequenos atos, que tem o poder de transformar o mundo. A percepção dos atos ruins nos faz transformá- los em hábitos extraordinários para a criação de um mundo sustentável. F23: É uma experiência muito útil. Foi difícil se acostumar no início, mas conseguimos por em prática. Foi um grande aprendizado para nossa família e pretendemos continuar fazendo para construir um mundo melhor e mais sustentável com menos poluição. F06: Ao longo dessas semanas notamos que podemos sim mudar hábitos e pensamentos. F15: Com essa pesquisa aprendemos que temos que ter consciência para deixar um legado a nossa futura geração. 27 O artigo de Hennemamm e Gonzalez (2023) também verifica o impacto positivo que tem a atividade prática para a formação dos alunos. Ao fazerem uma compostagem na escola, percebeu-se que os educandos ficaram mais engajados e informados sobre a importância de práticas sustentáveis. Através da realização de uma atividade investigativa - um experimento sobre fotossíntese - Souza Filho e Sudério (2024), afirmam que levaram os seus alunos a considerarem mudanças em seus próprios hábitos para reduzir as emissões de CO2. Barreiras para a implementação de práticas sustentáveis A essência dos resultados mostrou que várias ações sustentáveis já encontram-se permeadas à rotina familiar e que práticas como a desta pesquisa têm importância no reforço positivo das mesmas. O incremento de ações ainda alheias ao costume ou que requerem maior esforço como a substituição de veículos por percurso a pé ou bicicleta, coletar água da chuva, aderir às ecobags, entre outras, poderia ser mais facilitado se tivessem mais campanhas e políticas ambientais de incentivo através de projetos dinâmicos de iniciativas públicas e privadas. Participantes relatam outros empecilhos na infraestrutura e materiais disponíveis no cotidiano das pessoas que limitam a execução de práticas sustentáveis: F03: …devia ter mais pontos de coleta. Devia ter mais segurança nas estradas para poder fazer percursos a pé ou de bicicleta. Em paralelo, a mudança cultural é um processo complexo e lentoque demanda tempo e repetição, especialmente porque exige uma luta contra o comodismo e hábitos degradantes de consumo. Roysen (2018) analisou as dificuldades de membros de uma ecovila durante o processo de mudança cultural e afirma que o maior desafio que essas pessoas encontram é o de vivenciar esses novos valores em sua vida cotidiana. Ele reafirma a necessidade da transformação de hábitos e automatismos criados pela repetição de práticas insustentáveis através da ressignificação de nossas percepções em adaptação ao ambiente, criando novas conexões. Arbitrariamente, a prática da sustentabilidade ainda é algumas vezes interpretada como um estilo distante da realidade, de difícil execução ou inviabilizada por falta de recursos financeiros da população em geral para aquisição de tecnologias 28 sustentáveis conceituadas como veículos elétricos, energia solar, alimentos orgânicos, etc. O projeto contribuiu na superação de alguns preconceitos conforme pode ser constatado pela fala: F05: …não mudávamos nenhum de nossos hábitos sustentáveis pois pensamos que seria muito trabalhoso e que não valeria a pena, porém pode ser um trabalho muito criativo e divertido para quem quiser mudar seus hábitos. Ademais, cabe ressaltar que as ponderações levantadas são baseadas em observações de curto período e que mereceriam ser investigadas em prazo e amostragem maior. Para Cristo & Günther (2015), os hábitos são comportamentos feitos repetidamente e ocorrem sem pensarmos tanto em tomadas de decisões o tempo todo, por isso, estes automatismos nos ajudam a lidar com as demandas do dia a dia, mas é difícil saber quantas repetições são necessárias para que o comportamento se torne, enfim, habitual, o que depende também da sua complexidade. Conquanto, os autores consideram que o hábito pode ser uma ferramenta para enfrentarmos os desafios relativos à promoção de comportamentos ambientais relevantes. Tem-se conhecimento de que resolver o problema é um desafio de grande escala que envolve mais do que a intensificação de ações sustentáveis na rotina familiar, mas não se pode deixar de agir por achar que faz pouco. Para Crutzen (2002), a tarefa assustadora está à frente dos cientistas e engenheiros para orientar a sociedade em direção à gestão do meio ambiente sustentável durante a era do Antropoceno. Isso exige comportamento humano apropriado em todas as escalas, e pode muito bem envolver internacionalmente programas de geoengenharia aceitos e em grande escala projetos, por exemplo, para otimizar o clima. Outrossim, a presente atividade permite inferir que para reverter o quadro atual conta-se com o somatório de pequenas ações sustentáveis locais, para atingir escala global. Percebe-se a difusão desta ideia nas reflexões: A04: …uma experiência importante e que todos devem fazer, mas nem sempre lembram. Se todos fizerem a sua parte, com certeza seremos um mundo melhor. F08: Se todos fizessem sua parte, teríamos um meio ambiente bem cuidado. A maioria das pessoas sabe o que fazer para preservar o meio ambiente, mas não pratica. 29 F17: …cada um fazendo sua parte teremos um meio ambiente melhor e com menos poluição. F21: …a gente faz o possível para colaborar e cuidar do meio ambiente. O que me entristece é quando passo nas ruas de Harmonia e vejo lixo na calçada, disposto antes do tempo da coleta. Se cada um fizesse sua parte certamente teríamos melhores resultados. Perspectivas futuras Espera-se que a prática do Diário Sustentável perpetue ações contínuas no tempo e possa servir de inspiração a outros projetos de diferentes segmentos da comunidade, com possíveis lançamentos de campanhas de educação ambiental, confecção de materiais publicitários sobre sustentabilidade, promoção de eventos de conscientização e visitas a outras instituições interessadas. Seria fascinante se o projeto resultasse em publicações populares de circulação local, enaltecendo a importância da educação em processos de transformação social. Alguns testemunhos fazem surgir essa expectativa naturalmente: A09: Sem dúvida, vamos praticar mais desses hábitos e nos esforçar, nos comprometendo com o nosso futuro no planeta. F14: …agradecemos pelo seu esforço e também por ter nos apresentado esses hábitos sustentáveis. Com certeza iremos continuar fazendo essas ações sustentáveis. Comparando o desfecho com outro projeto desenvolvido através de vivências pedagógicas em oficinas semanais chamado Multiplicadores Ambientais, do Centro de Educação Ambiental Ernest Salet (bastante ativo em escolas e comunidades regionais de Novo Hamburgo-RS), Buss e Melo (2020) destacam como aspecto positivo as devolutivas dos estudantes aos seus colegas após a realização das atividades do projeto, evidenciando como experiências pedagógicas significativas favorecem a continuidade de práticas ambientais. 30 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Através da convivência durante a prática, foram constatadas evidências nas devolutivas dos estudantes e familiares de que ocorreram avanços no conhecimento e aprendizado sobre sustentabilidade, bem como a revisão de valores e atitudes pró- ambientais no cotidiano familiar. O Diário Sustentável se mostrou uma metodologia alternativa aliada à Educação Ambiental, podendo ser replicada no cotidiano escolar por proporcionar vivências significativas, reforço positivo de ações sustentáveis e potencial na formação de multiplicadores de conhecimentos e ações na comunidade, em prol de cidadãos mais sustentáveis e responsáveis em seus hábitos. Para replicações futuras, sugere-se levar em consideração as ponderações em literatura sobre mudanças de hábitos requererem tempo e repetição. Os principais empecilhos são o comodismo, a automatização de hábitos degradantes de consumo já configurados e a insuficiência em infraestrutura e logística que viabilizam ações sustentáveis. Além da consciência ambiental, a transformação sobretudo demanda o desejo explícito e determinado de mudança. Em contrapartida, o estudo revelou que no perfil das famílias participantes certas ações sustentáveis já estão presentes em detrimento de outras. Assim, foi possível diagnosticar quais ações carecem de projetos e incentivos facilitadores dentro da rotina agitada das pessoas. A realidade provou que as ações exercidas com mais engajamento são aquelas que não fogem do cotidiano, enquanto que a resistência foi percebida toda vez que exigia mais esforço. A falta de infraestrutura foi apontada como fator limitante. A separação básica de resíduos sólidos é feita nas residências, mas ainda assim, não basta já que o volume de rejeitos nas centrais de triagem é descomunal. Ser reciclável claramente não significa ser reciclado. O presente estudo é um retrato do cotidiano de vida das famílias, mostrando que a Educação Ambiental para o consumo consciente e responsável é primordial, mas não soluciona o problema por si só. Presume-se pela necessidade de diligências na eficiência do processo de reciclagem, possivelmente através de legislações na fonte geradora de resíduos, conduzindo a indústria a rever suas embalagens. Fica o convite para uma reflexão crítica: se toneladas de rejeitos atualmente acumulam embalagens 31 não selecionadas nas esteiras de triagem devido ao baixo valor de matéria-prima agregado, por que continuam sendo permitidas a sua fabricação e utilização? Integrar a Educação Ambiental de forma multidisciplinar e em caráter permanente instiga o indivíduo a ser reflexivo, crítico e atuante sobre as questões socioambientais e é urgente uma vez que os recursos naturais do planeta estão a esgotar-se e as calamidades climáticas estão tornando-se o novo normal. Assim, vivências práticas em sustentabilidade são também aliadas para agregar significado ao processo de aprendizagem. O desenvolvimentode mais ferramentas e metodologias criativas nas práticas pedagógicas em combate às mudanças climáticas, certamente acelera a transição para a sustentabilidade, a fim de que assumamos de vez a responsabilidade coletiva pelo mundo que habitamos. REFERÊNCIAS ANA, Agência Nacional das Águas. 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