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Educação, Movimentos Populares e Transformação Educação, Movimentos Sociais e Transformação Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Profª. Ms Wanderli Cunha de Lima Revisão Técnica: Prof.ª Me. Denise Jarcovis Pianheri Revisão Textual: Profª. Dra Patricia Silvestre Leite V1. 1 5 • A Educação e a Crise Educacional • Educação, Conhecimento e Cultura • Movimentos, Lutas Sociais e a Consequente Transformação O tema central é a Educação e as transformações ocorridas na sociedade. Você terá oportunidade de realizar um breve estudo sobre as crises da Educação e a relação assimétrica entre educação e sociedade. Se atente para essa relação “da mesma forma que a educação pode reproduzir a sociedade, também pode transformá-la, contrapondo-se” e para a função do educador dentro do contexto sócio-político-educacional. Observe que as crises na Educação são decorrentes de raízes históricas. E ainda nesta unidade você irá conhecer um pouco sobre a luta pela conquista da cidadania. Na organização dessa unidade, buscamos resgatar de modo bem sucinto a história da democratização do ensino e suas consequências. Apontamos a neutralidade como uma problemática para a educação procurando destacar a importância da consciência crítica do educador e, mostramos a relação existente entre trabalho, conhecimento e cultura. A seguir situamos o Homem como um ser social e discorremos sobre a concepção de cidadania e sua construção ao longo da história. Nesta unidade, faremos um breve estudo sobre as crises da educação e veremos as transformações decorrentes da apropriação da cultura e do conhecimento pela humanidade. As indicações de leitura darão subsídio para a realização das atividades propostas nesta unidade. Educação, Movimentos Sociais e Transformação 6 Unidade: Educação, Movimentos Sociais e Transformação Contextualização Nesta unidade procuramos apontar as concordâncias e as discordâncias existentes na construção da sociedade e sua importância para que se atinja uma sociedade justa e democrática. Dentro deste contexto, revelamos a função da Educação e da ação do educador para que as transformações ocorram. Como vocês puderam perceber, não há educação sem transformação, e nem transformação sem confl itos. Portanto, quando a educação visa à cidadania ela não deve esconder os confl itos, antes afrontá-los. Explore Para ilustrar nossos argumentos, sugerimos que assistam ao vídeo apresentado na calourada da USP de 2007, feito por um militante do movimento estudantil, e a partir dele refl ita sobre a assi- metria existente entre Educação e Sociedade e, a não neutralidade necessária dentro do contexto educacional. https://youtu.be/1eSSAV6vKAQ 7 A Educação e a Crise Educacional É comum ouvirmos a todo instante, nos dias de hoje, que a educação em nosso país está em crise. Contudo, a crise educacional sempre fez parte da história da educação nacional, visto que ainda não atingimos os patamares mínimos de justiça social frente à riqueza produzida em nosso país. (cf. CORTELLA, 2011). É possível referenciar vários fatores que conduzem à crise educacional. Na atualidade, os mais comuns encontram-se na democratização do ensino, na progressão continuada X promoção automática, na desvalorização profi ssional dos docentes, na qualidade do ensino X quantidade de alunos por sala de aula, no despreparo dos educadores, na evasão e retenção escolar, no planejamento curricular. Mas, como ressalta Cortella (2011), esses e outros fatores têm raízes estruturais históricas. Historicamente, o acelerado processo de urbanização – vivenciado a partir da Revolução Industrial – trouxe consequências indubitáveis para a sociedade que, em diferentes tempos marcou a exclusão e a dominação social. A produção capitalista industrial resultante do poder político central atendia a interesses das elites dominadoras. Assim, na década de 60 a escolarização dos trabalhadores, em nosso país, não era foco de atenções. (CORTELLA, 2011). A acelerada industrialização ocasionou o inchaço da urbanização, que aconteceu de forma desorganizada causando um verdadeiro colapso nos serviços públicos, em especial na educação e na saúde. Isto aponta que “crise” faz parte de todos os setores sociais e não somente da Educação. (CORTELLA, 2011). Apesar de todas as mudanças sociais e políticas ocorridas ao longo dos séculos em nosso país, vemos que a escola não acompanhou, com o mesmo ritmo, essa evolução. Para Gadotti (2010), as sociedades primitivas (assim chamadas impropriamente) apresentavam certa estabilidade social e nelas a educação exercia papel conservador “reproduzindo valores, cultura e estágio do seu progresso técnico e científi co” (GADOTTI, 2010, p.82). Mas, hoje, as transformações fazem parte das sociedades, não existindo sociedade que não esteja neste contexto. A mudança e a transitoriedade são essenciais na dinâmica das sociedades atuais. Não há sociedades estáveis ou estáticas. Contudo, a educação e, em particular, os sistemas educacionais não tem acompanhado esse ritmo de transformação. (GADOTTI, 2010, p.79). Segundo Teixeira (1953), saímos de um período de grande lentidão das mudanças, e adentramos um novo período, de expansão do sistema escolar, o qual trouxe grandes problemas e preocupações devido à falta de estrutura do sistema escolar. Com a abolição e a república, entramos, porém, no período de mudanças sociais, que a escola teria de acompanhar. O modesto equilíbrio dos períodos monárquicos, obtido em grande parte às custas da lentidão do nosso progresso e do número reduzido de escolas, em que se buscava conservar a todo transe os melhores padrões, rompe-se defi nitivamente, e começamos a expandir o sistema escolar sem maior refl exão nem prudência.(TEIXEIRA, Anísio, 1953, p. 23). 8 Unidade: Educação, Movimentos Sociais e Transformação Na verdade, no Brasil naqueles tempos, a escola não era exigida ou imposta como instituição da cultura, apenas procurava-se copiar padrões transplantados de padrões europeus, ou seja, um sistema educacional aristocrático e feito para preparar os homens intelectualmente, estava sendo usado para preparação de homens comuns, tornando a escola como algo irreal. A falta de estrutura nos sistemas de educação, ainda hoje se acrescenta aos fatores que conduzem à crise educacional. Esta falta de estrutura no atendimento da demanda cria diferentes formas de se conceber a educação, iniciando a segregação de acordo com os interesses dominantes. A educação antes pensada somente para a formação de intelectuais passa a ter agora, com a ”universalização do ensino”, um cunho mais voltado para a formação técnica, a fi m de servir esses interesses. Na nova escola o objetivo da educação detinha-se em preparar o homem comum para o trabalho ou o ofício, tornando-o sufi cientemente técnico, utilizando da tradição e dos métodos das antigas escolas. (TEIXEIRA, 1953). É fato que a democratização do ensino trouxe em seu bojo a queda da qualidade de ensino, ocasionada por diversos fatores já citados (salas de aula superlotada, falta de preparo do docente, desvalorização do magistério, burocracia educacional, entre outros) o que mostra uma insufi ciência na execução dos paradigmas pedagógicos relegando esse direito social e democrático às classes trabalhadoras. Pense “A qualidade na educação passa, necessaria- mente, pela quantidade. Em uma democracia plena, quantidade é sinal de qualidade social e, se não tem a quantidade total atendida, não se pode falar em qualidade.” (CORTELLA, 2011, p. 14-15). Onde está o antagonismo entre esta “fala” de Mario Sérgio Cortella (o texto da citação) e a charge? É possível afi rmar que a neutralidade da ação pedagógica ocorre quando o educador acredita que estas mensagens sejam analógicas. Partindo do princípio que educar é transformar, esse ato não pode ser considerado neutro. E os educadores devem posicionar-se de maneira crítica frente às diferentes discussõesverifi car quais pontos dessa unidade ainda merecem sua atenção, benefi cie-se da autocorreção! Aproveite as indicações de sites e leituras para a ampliação do conhecimento, afi nal, elas são ferramentas imprescindíveis na apropriação do conteúdo em estudo! · Saber os princípios éticos da política exercida pelo cidadão político representante da sociedade civil. · Nessa unidade, serão discutidas questões acerca de como os princípios éticos e políticos estão presentes nos movimentos sociais. Aproveitem as indicações de leitura a fi m de contribuir com seus estudos. Os Princípios Éticos e Políticos nos Movimentos Sociais 6 Unidade: Os Princípios Éticos e Políticos nos Movimentos Sociais Contextualização Nesta unidade, procuramos contribuir para a elucidação das semelhanças e diferenças existentes entre ética e moral, a fi m favorecer a compreensão referente aos princípios éticos nos movimentos sociais. Também perpassamos pela história dos regimes políticos no Brasil, para ilustrar como a ética se faz, ou não, presente. A esse propósito, adentramos nos movimentos sociais, mostrando como eles participam das transformações em nossa sociedade e, como podem agir a partir da participação de diferentes classes e camadas sociais. Visando fazê-los refl etir sobre o conteúdo estudado, propomos que assistam ao vídeo “Movimento Novos Líderes – O Brasil do Futuro é Agora”, o qual aponta questões presentes na sociedade atual e nos convida a participar das mudanças. Explore https://youtu.be/Ls3IoSUQKko 7 1. Os Princípios Éticos Antes de promovermos uma introdução ao tema desta unidade, vamos relembrar o que já foi visto nas unidades anteriores. Assim, Iniciamos nossa conversa acerca da educação, apontando seu papel fundamental na transformação social, depois discorremos sobre as lutas pela conquista da cidadania e expusemos os movimentos populares no Brasil. Também pontuaremos sobre a desigualdade e a injustiça social, ainda existentes em nosso país, mesmo frente todas as conquistas já ocorridas, e, por conseguinte, traçaremos uma linha do tempo dos movimentos mais “importantes”1 na luta pela igualdade, pela liberdade, e pela democracia, culminando no movimento que levou ao o impeachment do ex-presidente Collor, intitulado “Movimento pela Ética na Política”. Desta maneira, fi nalizaremos a Unidade II, mostrando que houve um deslocamento das questões econômicas para as questões relativas à ética, as quais adentraram os novos movimentos sociais, pensando na revalorização da vida humana. Destarte, a partir dos anos de 1990, passou a haver um novo olhar dos movimentos sociais transferindo as reivindicações de questões econômicas para as de questões de moral. Mas, o que são princípios éticos? Poderíamos afi rmar que é a base para que haja uma convivência social dentro de um ambiente harmonioso pautado pelo respeito mútuo. É possível observar a existência de princípios éticos em diferentes circunstâncias e relacionados a diferentes atividades profi ssionais como: ética política, ética religiosa, ética médica, ética profi ssional, entre outras. Referindo-se, nesses casos, às normas de conduta de um determinado segmento, ou seja, aquilo que deve ser feito dentro da área em que está inserido. De qualquer forma, quando nos referimos à ética, estamos nos pautando em um conjunto de princípios pré-determinados, para reger as ações do “bom” comportamento humano. 1.1 A Ética e a Moral Muitas vezes, os termos ética e moral parecem ser usados como sinônimos, por isso faremos um pequeno resgate da origem desses termos. Etimologicamente, os termos ética e moral possuem origens distintas. A palavra ética vem do grego “Ethos” que signifi ca o “modo de ser” ou “caráter”. E a palavra moral vem do latim “Mores” que signifi ca “relativo aos costumes” ou “lugar onde mora”. Alguns autores apontam a distinção entre ambas, atribuindo à ética a busca de valores universais, e a moral, como código de valores específi cos. Segundo Cortella (2011), até o século VI a.C., a palavra “Ethos” em grego “signifi cava ‘morada do humano’, no sentido de caráter ou modo de vida habitual, ou seja, nosso lugar.” Portanto, é aquilo que nos abriga e nos dá identidade. Para o autor, essa noção original da palavra “Ethos” não se perdeu com a tradução da expressão “more” para o latim, com o 1 Não desmerecendo os demais movimentos e lutas ocorridos ao longo de nossa história, buscamos apontar aqueles que tiveram maior repercussão nas mudanças sociais. 8 Unidade: Os Princípios Éticos e Políticos nos Movimentos Sociais signifi cado de “o lugar onde você morava, que era o teu habitus.” (CORTELLA, 2011, p. 138). Diante dessa interpretação, os dois termos: ética e moral assumem o mesmo signifi cado, o de estar relacionado aos costumes e hábitos sociais. Onde a ética é o princípio, e a moral é a prática de uma ética. Dentro do campo fi losófi co, ética é diferente de moral, pois ela busca fundamentar teoricamente o modo de viver a fi m de se encontrar o melhor estilo de vida, abrangendo, dessa forma, diversos campos do conhecimento, como: a antropologia, a psicologia, a sociologia, a pedagogia, etc.. Já a moral é fundamentada na obediência a normas e regras, costumes e mandamentos culturais. Segundo Boff (2003), ética é um conjunto de valores e princípios, de inspirações e indicações que nos orientam e valem para todos, pois estão ancorados na nossa própria humanidade. E moral é a concretização de como a ética é vivida dependendo da cultura de cada povo. Então, ética é uma só e moral são várias. Outros autores pontuam a questão da moral como um conjunto de regras e crenças que determinam o comportamento das pessoas e, a ética como sendo a reflexão crítica sobre a moral. Boff (2008) aponta algumas fontes que estimulam a existência da ética. Segundo o autor, as religiões são fontes permanentes, que dão signifi cado à vida da humanidade a partir dos valores e comportamentos ditados. Mas, atenta para o fato de não se fundar em um consenso ético, visto que, devido às muitas e diferentes religiões, as normas éticas podem apresentar variações. Ainda para o autor, a razão, o desejo e o cuidado também são fontes de ética, e encontram-se presentes em todos os seres humanos. Essa inclusão do desejo e do cuidado como também sendo fontes de ética são fundamentadas no fato de que para Boff (2003), a essência da existência não reside na razão – como foi proposta pelos fi lósofos –, mas antes na paixão. “A ética, para ganhar o mínimo de consenso, deve nascer da base última da existência humana. Esta não reside na razão, como sempre se pretendeu no Ocidente. A razão não é o primeiro nem o último momento da existência. Por isso não explica tudo nem abarca tudo. Ela se abre para baixo de onde emerge, de algo mais elementar e ancestral: a afetividade. Abre-se para cima, para o espírito, que é o momento em que a consciência se sente parte de um todo e que culmina na contemplação. Portanto, a experiência de base não é “penso, logo existo”, mas “sinto, logo existo”. Na raiz de tudo não está a razão (“logos”), mas a paixão (“pathos”).” (BOFF, 2003). É fato que vivendo em sociedade, faz-se necessário elaborar certos consensos, restringir certas ações e desenvolver projetos que visem à coletividade a fi m de dar sentido e rumo à 9 história. Pois, não há sociedade seja no presente ou no passado que consiga coexistir sem uma ética. (BOFF, 2008). Mas, há de se concordar que ambas: ética e moral apresentam objetivos muito semelhantes, pois irão alicerçar a conduta dos seres humanos, defi nindo o caráter, favorecendo o sentimento de solidariedade e fraternidade dentro de uma vida em sociedade. 1.2 A Ética e a Liberdade Como vimos, a ética está baseada em valores morais, que estão a serviço de “dirigir” o comportamento humano para a vida em sociedade. A respeito da ética, Cortella (2011) afi rma que ela é uma questão incondicionalmente humana, visto que pressupõe a possibilidadeda escolha, da decisão, da opção. Então, a partir da racionalidade, somos o único animal capaz de realizar esta ação conscientemente – por isso, somos considerados: animais racionais. Nessa perspectiva de sermos capazes, Cortella (2011) reforça a impossibilidade de se falar em ética sem falar em liberdade. Logo, o livre arbítrio é imprescindível para que o ser humano possa tomar para si o poder de decisão. Então, para Cortella (2011), todos nós – inicialmente – temos a ética. Assim, para o autor só pode ser considerado “aético”, ou seja, uma pessoa que não tem a ética, aquele que não é capaz de exercer a plena liberdade de escolha – “como crianças até certa idade e idosos a partir de determinada idade, ou ainda pessoas que tenham distúrbios mentais” – ou seja, não a possui, devido à sua incapacidade de decidir, julgar e avaliar. Portanto, se a ética está ligada aos princípios que regem a sociedade, aqueles que não seguem esses princípios, podem ser considerados antiéticos. (CORTELLA, 2011, p.135). Para o autor, ética é o modo como as pessoas compreendem as três grandes questões da vida: eu devo, eu posso, eu quero? “Tem coisa que eu devo, mas não quero, tem coisa que eu quero, mas não posso, tem coisa que eu posso, mas não devo. Aqui, nestas questões, vivem aquilo que a gente chama de dilemas éticos; todas e todos sem exceção temos dilemas éticos, sempre, o tempo todo: devo, posso, quero?” (CORTELLA, 2011, p. 136). Explore Para melhor entendimento dessas três grandes questões, assista ao vídeo “Filosofi a explica o que é a ética” que apresenta uma entrevista com Mario Sérgio Cortella no programa do Jô Soares. https://youtu.be/3CjH9nRhV58?si=Ls7COspSRNuL3bLp Logo, a questão de liberdade de escolha está atrelada à ética, ou diretamente relacionada à ética. Mas, observe que essa liberdade está condicionada ao bem-estar coletivo, já que vivemos em sociedade. Como afi rma Boff (2003): “Faz-se mister uma ética comum, um consenso mínimo no qual todos possam se encontrar. E, ao mesmo tempo, respeitar as maneiras diferentes como os povos organizam a ética. [...]. A ética e as morais devem servir à vida, à convivência humana...” (BOFF, 2003, p. 13,14). 10 Unidade: Os Princípios Éticos e Políticos nos Movimentos Sociais E, ainda, a ética e a moral estão relacionadas aos tempos históricos, por isso, algo que possa ser considerado antiético ou imoral em um determinado momento histórico, pode não o ser em outro. Desde a colonização até os dias atuais, o Brasil passou por diferentes regimes políticos. Na época do Brasil Colônia, o regime político estava baseado na Monarquia, isto porque a forma de governar visava à realeza – um só para todos. No Brasil Império, a forma de governar passou a ser de alguns para todos – aristocracia. E no Brasil República, a forma de governo tornou-se constitucional – de todos para todos, portanto, regime democrático. Mas, será que podemos afi rmar o Brasil passou a viver em plena democracia após a proclamação da República em 1889? A palavra democracia vem do grego: “demo = povo”, “kracia = governo”. Então, um sistema político do povo para o povo, ou seja, o povo tem soberania sobre o poder legislativo e executivo do país. Aristóteles já alertava para o fato de que muitos modos de governar não tinham em vista o bem comum. É fato que o regime democrático no Brasil passou por vários momentos históricos e em muitos deles ainda se via envolto das infl uências do poder econômico, apresentando inclusive fraudes eleitorais. Desde a proclamação da República até os dias de hoje, foi possível ver avanços e retrocessos no regime democrático. Atenção Não podemos esquecer que na época do Regime Militar, a democracia foi substituída pela autocracia instituída durante esse regime político Contudo, o movimento das “Diretas-Já” – apesar da derrota da emenda das “Diretas-Já” em 1984, na Câmara dos Deputados, fazendo com que as eleições para presidente fossem mais uma vez realizadas pelo colégio eleitoral – resgata o real sentido do regime democrático, com o início da “Nova República” e a promulgação da Carta Magna em 1988. Como se deu a questão da ética nos diferentes regimes? Como já pontuamos anteriormente, os princípios éticos modifi cam-se com o passar do tempo, de acordo com as mudanças econômicas, sociais e tecnológicas. (VÁZQUEZ, 2000). 2. Os Regimes Políticos e a Questão da Ética 11 Na Unidade I, ressaltamos a mudança da luta pela sobrevivência (Homem X Mundo) pela luta de interesses (Homem X Homem), ou seja, o “poder político”. Analisando o termo “política”, temos sua origem na Grécia Antiga com a organização das cidades-estados em “polis”, fazendo referência à organização da vida urbana. O dicionário Aurélio defi ne “política” como: a arte e ciência de bem governar, de cuidar dos negócios públicos. Dessa maneira, podemos dizer que a busca pelo bem estar coletivo é algo que se encontra no princípio tanto ético, quanto político. Entretanto, há que se convir a contradição existente entre política e ética. Pois o que vemos na política – desde os tempos da colonização do Brasil – não é a prática do bem comum, mas o bem próprio dos detentores do poder. Inclusive, muitas vezes, daquele que elegemos como nossos representantes. Para Pensar Ora, se no regime monárquico a forma de governo era de um só para todos, onde se concentrava o principio ético? É fato que desde os tempos da colonização de nosso país, assistimos a política de privilégios, se nessa época esta se dava com a divisão das capitanias hereditárias aos nobres indicados pelo próprio Rei português aqui no Brasil. No período Imperial, o favorecimento continuou e a vontade da maioria da população não foi levada em conta. No período Republicano, desde o início, o que se viu foi a elite governando para a elite. Além do “coronelismo” que garantiu durante muito tempo a dominação social através da alienação, mantendo o poder econômico nas mãos de poucos. Foram anos da política “café com leite” até que se conseguiu colocar um civil para governar nosso país. E, infelizmente, ainda hoje, vemos essa política de apadrinhamento e de coronelismo acontecer em nosso país, garantindo um poder elitista e antiético. Daí, há de se concluir que a marginalização e a divisão da sociedade em classes faz parte desse processo político que deixou à margem os princípios éticos e morais. E, onde, reside a mudança dessa realidade senão na educação? A escola tem como grande desafi o, nos dias de hoje, resgatar valores morais e éticos na luta por uma sociedade igualitária e justa, recuperando, ou seria melhor dizer, inserindo a junção entre política e ética. Não será, nessa expectativa, a afi rmação de Mario Sérgio Cortella? “...qualidade tem a ver com quantidade total, qualidade é uma noção social, qualidade social só é representada por quantidade total, qualidade sem quantidade não é qualidade, é privilégio.” (CORTELLA, 2011, p. 139). Carta Magna: No texto representa a Constituição da República Federativa do Brasil. República Federativa do 12 Unidade: Os Princípios Éticos e Políticos nos Movimentos Sociais 3. Os Movimentos Sociais Os movimentos sociais partem do princípio do compromisso ético e de propostas que tenham como base a participação social como parte integrante do desenvolvimento da sociedade. Antigamente, os movimentos contrapunham as opressões e a exploração dos governos, lutando por melhorias. Na atualidade, os movimentos apresentam-se como forma de denunciar as contradições existentes na sociedade capitalista. Os movimentos sociais “possuem identidade, têm opositor e articulam-se ou fundamentam- se em um projeto de vida e de sociedade” (GOHN, 2011, p. 336), apresentam-se como formas de reivindicações sociopolíticas na busca por reformas que visem à qualidade das relações sociais. Essas são representadas por interesses comuns e projetos sociais. “A educação de um povo consiste no processo absorção, elaboraçãoe transformação da cultura existente, gerando a cultura política de uma nação. [...]... vários elementos da cultura política brasileira do fi nal do século XX foram gerados no período colonial e constituem, atualmente, obstáculos para a modernização das relações sociais no país.” (GOHN, 2012, p. 174). Os movimentos sociais podem ter uma organização formal ou informal. Muitos, inicialmente, ocorrem de maneira informal e à medida que vão se tornando mais consistente torna-se, também, necessária maior formalização das ações dentro desses movimentos. Nessa estruturação dos movimentos sociais, é possível observar que eles não se realizam no vácuo, ao contrário, são iniciados a partir de projetos, possuem ideologia e apresentam certa organização. Porém, não queremos com isso fazer uma generalização, visto que há singularidades na constituição de cada movimento social e como já estudamos nas unidades anteriores, muitos apresentavam problemas em sua organização. Gohn (1997) atenta para o fato de haver movimentos de diferentes classes e camadas sociais, sendo que o caráter do movimento será indicado pelo tipo de ação envolvida podendo- se assim, separá-los em categorias. Assim, a autora realiza a seguinte categorização: • Os movimentos sociais que são construídos a partir da origem social da instituição (a igreja, o partido, o sindicato, a escola, etc.). • Os movimentos sociais construídos a partir das características presentes na natureza humana: sexo, idade, raça e cor. • Os movimentos sociais construídos a partir de determinados problemas sociais (saúde, transportes, habitação, etc.). • Os movimentos sociais construídos em função de questões da conjuntura das políticas de uma nação sejam elas socioeconômica, cultural, etc. (insurreições, revoltas, motins, revoluções, etc.). • Os movimentos sociais construídos a partir de ideologias. (o anarquismo, o marxismo, o cristianismo, etc.). Coronel i smo : Forma de poder político consiste na fi gura de uma liderança local – o Coronel - que defi ne as escolhas dos eleitores em candidatos por ele indicados. ocorrem de maneira informal e à medida que vão se tornando mais consistente torna-se, também, : Forma de poder político consiste 13 As formas de ação dos movimentos sociais podem variar de uma simples denuncia passando pela pressão direta com mobilizações, concentrações, passeatas e etc., e podem chegar até a pressão indireta. Na atualidade, as lutas estão relacionadas a um ideário civilizatório contra a exclusão e por novas culturas de política de inclusão. Eles possuem grande poder de controle social, pois tematizam e redefi nem a esfera pública, além de realizar parcerias com outras entidades da sociedade civil e política, construindo modelos de inovação social. (GOHN, 2011). Surgem outras formas de organização popular, a partir dos anos de 1990, como os Fóruns – nos quais se defi nem metas e objetivos para solucionar problemas sociais, a partir dos grandes diagnósticos – com encontros nacionais em larga escala; outra forma de organização popular são as parcerias entre sociedade civil organizada e poder público – atuando nas questões relacionadas à gestão dos negócios públicos com a participação dos cidadãos. (GOHN, 2011). Essas mudanças organizacionais vêm crescendo nas ultimas décadas. Segundo Gohn (2012), na primeira década do século XXI a estrutura dos principais movimentos sociais apresenta-se em três formatos organizativos: • os movimentos identitários; • os movimentos de luta por melhores condições de vida e de trabalho; • os movimentos globais ou globalizantes. Optamos por fazer uma sucinta exposição desses formatos – de acordo com os estudos da autora –, isto porque os mesmos serão revistos de forma mais intensa na próxima Unidade. Segundo a autora, nos movimentos identitários – chamados de “Novos Movimentos Sociais” (NMS) – a luta é por direitos sociais, econômicos, políticos e, mais recentemente, culturais. São compostos pelos segmentos sociais excluídos, os quais podem, ou não, pertencer às camadas populares. Incluem-se “nesse formato as lutas das mulheres, dos afrodescendentes, dos índios”, entre outros. (GOHN, 2012, p. 226). O segundo formato diz respeito à luta demanda do acesso às condições de moradia, por terra, alimentação, emprego, salário, educação, entre outros. Também se enquadram no movimento de luta por melhores condições de vida, os movimentos e organizações sociais contra a violência e em favor da paz. E, ainda, “os movimentos sociais, criados a partir da conjuntura atual, articulados com ONGs e voltados para as questões relativas à democratização do Estado ou das políticas públicas.” (GOHN, 2012, p. 230). Os movimentos globais ou globalizantes são pertencentes ao novo milênio e foram estruturados ao longo dos anos de 1990, com a internacionalização de muitas lutas sociais. Esses movimentos atuam virtualmente em “redes sociopolíticas e culturais por intermédio de fóruns, plenários, colegiados e conselhos”, extrapolando as fronteiras nacionais e apropriando- se das transformações tecnológicas. (GOHN, 2012, p. 231). Portanto, os movimentos sociais abarcam uma série de questões sociais através das lutas, denotando o compromisso com que adentram na sociedade trazendo consigo um inalienável caráter ético e político. Isto porque, carrega em seu cerne o princípio do “bem comum”. Fonte site: http://www.anticapitalistes.net/ spip.php?article2872 14 Unidade: Os Princípios Éticos e Políticos nos Movimentos Sociais 15 Material Complementar Para complementar seu estudo, visite o site abaixo e leia o artigo sobre a importância dos movimentos sociais para o fortalecimento da democracia. https://www.ipea.gov.br/desafi os/index.php?option=com_ content&view=article&id=2830:catid=28&Itemid=23 Explore Explore um pouco mais sobre a ética e a política no Brasil, a partir do texto de Ludmila Coelho Loiola, visitando o site: http://www.periodicos.ufc.br/revcienso/article/view/33958 Para conhecer um pouco mais sobre a ética e a moral, acesse: https://youtu.be/1E89IgrsPc4?si=Qqrm74we44yuN_hP Ética Aristotélica (Brasil Escola Ofi cial/2019) Venha entender a ética aristotélica com a nossa videoaula! Um dos mais importantes sistemas éticos da Antiguidade é o de Aristóteles, que baseou a sua fi losofi a moral na Eudaimonia. https://youtu.be/YhzPLGuiYAc?si=AHHs6XvuLW_0Xw1i 16 Unidade: Os Princípios Éticos e Políticos nos Movimentos Sociais Referências BOOF, Leonardo. Ética e moral: a busca dos fundamentos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003. _________. Como fundar a ética hoje? – Folha de São Paulo –UOL. Disponível em: www1. folha.uol.com.br/fsp/opinião/fz1506200309.htm. Acesso em: 09 fev. 2013. _________. Saber cuidar: ética do humano: compaixão pela Terra. 14 ed. Petrópolis: Vozes, 2008. CORTELLA, Mario Sérgio. A escola e o conhecimento: fundamentos epistemológicos e políticos. 14. ed. – São Paulo: Cortez, 2011. VÁZQUEZ, Adolfo Sanchez. Ética. 20. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. GOHN, Maria da Glória. História dos movimentos e lutas sociais: a construção da cidadania dos brasileiros. – 7. ed. – São Paulo: Edições Loyola, 2012. ___________. Movimentos sociais na contemporaneidade. Revista Brasileira de Educação. v. 16 n. 47 maio-ago. 2011. p. 333-361. ___________. Teoria dos movimentos sociais, paradigmas clássicos e contemporâneos. São Paulo: Edições Loyola, 1997. 17 Anotações www.cruzeirodosulvirtual.com.br Campus Liberdade Rua Galvão Bueno, 868 CEP 01506-000 São Paulo SP Brasil Tel: (55 11) 3385-3000 Educação, Movimentos Populares e Transformação O protagonismo da sociedade civil Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Profª. Ms. Wanderli Cunha de Lima Revisão Técnica: Prof.ª Me. Denise Jarcovis Pianheri Revisão Textual: Profª. Dra. Maria Isabel Andrade Sousa Moniz V1. 1 5 • Os movimentos populares e sociais no Brasil: ontem e hoje • A institucionalização no Brasil• As ONGs e o Terceiro setor Aproveite para consolidar suas aprendizagens, pois nesta unidade retomaremos alguns estudos já realizados nas unidades anteriores, a fi m de favorecer a compreensão do protagonismo, bem como as mudanças decorrentes da conjuntura sociopolítica do nosso país. Bom estudo! Serão apontadas algumas alterações ocorridas nos movimentos sociais e populares. Você terá a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre os novos movimentos sociais e o novo associativismo civil. Iremos conhecer um pouco mais sobre as singularidades existentes na institucionalização das práticas civis ocorridas no Brasil nas últimas décadas. E os ideais dos movimentos sociais e populares durante os séculos XVIII, XIX e XX. Destacamos as mudanças ocorridas nos movimentos decorrentes do contexto político ao longo da década de 1990 e partir do início do século XXI. Finalizamos a unidade mostrando como o terceiro setor vem despontando no cenário social brasileiro e concluímos apontando a importância da educação dentro de todo esse contexto. O protagonismo da sociedade civil 6 Unidade: O protagonismo da sociedade civil Contextualização Nesta unidade, procuramos “amarrar” os conteúdos das quatro unidades, trazendo para a discussão questões que revelassem o protagonismo da sociedade civil. Dentro deste contexto, apontamos as alterações ocorridas de acordo com as mudanças sociopolíticas do nosso país. É claro, muito mais há que se falar e estudar sobre o assunto, mas acreditamos que esta unidade servirá de incentivo para futuros aprofundamentos, não só de estudos sobre o tema, mas que seja também uma sementinha e favoreça sua participação na sociedade civil. Afi nal, como educadores, não podemos nos situar na neutralidade, não é?! Explore Com o propósito de ilustrar a possibilidade do que estamos argumentando, sugerimos que assistam ao vídeo “Por uma Barcarena justa, democrática e sustentável”. O vídeo mostra a proposta de implantação de um Fórum de diálogo na busca de mudanças socio- ambientais no município de Barcarena, na região do Amazonas. Esta proposta foi motivada pelas disparidades entre a riqueza gerada no município pela industrialização e a negação dos direitos básicos, vivida pela população local. Servindo de exemplo, ele mostra como a sociedade civil pode se tornar protagonista frente aos problemas sociais. Assista e refl ita sobre a possibilidade de fazer a diferença na sociedade civil. http://www.youtube.com/watch?v=SblCTOofbVo 7 1. Os movimentos populares e sociais no Brasil: ontem e hoje Iniciaremos esta unidade discorrendo sobre o conceito de sociedade civil a partir dos estudos de Gohn (2005) e faremos pontuações sobre algumas diferenças entre os movimentos populares e movimentos sociais. Assim como outros conceitos, também o conceito de sociedade civil vem se alterando ao longo do tempo. Segundo Gohn (2005), esse conceito passou por muitas reformulações, adquirindo maior destaque no fi nal dos anos de 1970. Nesse período, havia a crença de que a sociedade civil deveria se mobilizar e organizar, com a fi nalidade de alterar o regime militar vigente. O eixo articulador era a noção de autonomia. Nos anos de 1970 e 1980 houve destaque dos movimentos que surgiram para reivindicação de bens e serviços, de terra e moradia, tendo por identidade a exigência de mais liberdade e justiça social (GOHN, 2005). Ideias Chave Os movimentos formados por grupos e organizações da sociedade civil que atuavam em busca de mudanças pela coletividade foram denominados “movimentos populares”. Nesses, lutava-se por garantias de direitos, os quais poderiam se transformar em políticas públicas permanentes e de uso coletivo. Ideologicamente, atuavam contra as classes dominantes. Já os movimentos sociais tinham como característica a mobilização de massa. Sua atuação representava uma dimensão mais ampla a partir de lutas por garantia de direitos em várias frentes. Desta forma, pode-se afi rmar que não existe simplesmente um posicionamento ideológico, mas, principalmente, um posicionamento político, no que diz respeito aos movimentos sociais. Nos séculos XVIII, XIX e XX, a maioria dos movimentos sociais foi marcada pelas lutas contra o governo, seja pela contrariedade às arbitrariedades do governo, seja pela conquista de direitos, pela democratização, ou outras. Esses movimentos eram compostos – em sua maioria – pela população mais pobre, que tinha maior privação de direitos (e/ou “benefícios”) sociais. Como já apresentamos na unidade II, as lutas na primeira metade do século XIX eram oriundas de outras, que as antecederam, no século XVIII. Na primeira metade do século XIX, houve várias lutas, movimentos e rebeliões nativistas que contribuíram para a construção da cidadania do nosso país. Foram movimentos voltados para questões relativas à luta pela mudança do regime político ou dos governos locais. Nesse período, o sistema escravocrata não era contestado. Na segunda metade do século XIX, muda-se o olhar e se inicia a luta em prol da liberdade humana, tendo as questões dos escravos como eixo central de muitas lutas. Também se podem agencia B rasil 8 Unidade: O protagonismo da sociedade civil observar movimentos de auxílio mútuo e contra o fi sco. Gohn (2012) afi rma que, no geral, foram os ideais democráticos liberais que impulsionaram os movimentos até o século XIX. Mas a autora pontua que também houve movimentos conservadores nessa época (os movimentos conservadores fundamentavam-se em ideologias antidemocráticas ou elitistas). Importante É importante atentarmos para o fato de que as lutas e os movimentos situavam-se nas questões sociais de cada época. Assim, temos na história do nosso país, nas décadas e séculos anteriores, movimentos organizados para combater ou conquistar o Estado. O Brasil passou por um longo tempo de lutas e movimentos e “durante os primeiros séculos objetivavam a inclusão dos excluídos”, sendo estes os pobres que, em geral, estavam excluídos do “sistema socioeconômico mais amplo, dos deserdados e dos sem-direitos ao sistema legal-jurídico existente”. (GOHN, 2012, p. 160). Conforme já foi observado por alguns autores, os movimentos são a forma que as pessoas (ou cidadãos) utilizam para reivindicar, quando desejam que seus interesses e anseios sejam vistos e reconhecidos. Pode ser considerada a forma mais legítima de manifestação popular. É interessante observar que, no âmbito das conquistas sociais, os movimentos se fazem presentes em vários acontecimentos históricos. Essas ações decorrentes dos movimentos históricos contribuem para a modifi cação de comportamentos e de regras existentes no sistema político. Com isto, podemos afi rmar que a infl uência exercida pelos movimentos ultrapassa os efeitos políticos que os mesmos produzem, ou seja, contribuem para as transformações sociais em nosso país. Nos anos de 1960 e 1970 foram muitos os movimentos sociais e populares no Brasil, os quais tinham por objetivo a mobilização de defesa, a conquista e a ampliação dos direitos civis, políticos, sociais e trabalhistas. (DURIGUETTO, 2005). Num plano mais diretivo, podemos afi rmar que foi a partir dos anos de 1970 que se acentuou a luta pela redemocratização do Brasil. Podemos citar ainda os movimentos estudantis e sindicais na década de 1970, marcados, especialmente, por greves dos metalúrgicos nas indústrias de São Paulo. A partir dos anos de 1980, vemos a aparição dos movimentos sociais voltados para outras questões, como as ambientais (Movimentos ecológicos) e de defesa do consumidor (Movimento em defesa dos direitos do consumidor), incluindo parcelas mais amplas da sociedade civil. Portanto, o protagonismo dos movimentos sociais foi muito forte e agencia Brasil 9 presente até a década de 1980. Nos anos de 1980, as lutas se articulavam num panorama de busca de mudanças político-sociais, de ordem estrutural. Havia um projeto político implícito. Existiamoutros referenciais e o modelo socialista era o grande inspirador. (GOHN, 2012, p. 205). Com a saída dos militares, em 1985, há uma ressignifi cação do conceito de sociedade civil e os movimentos começam a perder a centralidade. Desse modo, observa-se que o “sujeito social histórico”, até então, protagonista dentro do processo de transformação social, começa a sofrer uma fragmentação (GOHN, 2005). Observa-se que ao fi nal dos anos de 1980 – coincidentemente ou não, com a conquista da nova Constituição de 1988 – e ao longo dos anos de 1990, com as transformações do contexto político, os movimentos sociais começam a apresentar mudanças no perfi l das lutas, apresentando um declínio das manifestações de rua, que proporcionavam visibilidade aos movimentos populares. Houve uma rearticulação interna e externa no papel que eles desempenhavam na sociedade, entrando em cena outros atores sociais, como as ONGs e outras entidades do terceiro setor (GOHN, 2012). Gohn (2012) faz referência a alguns fatores, tanto de ordem interna como de ordem externa, que levaram ao enfraquecimento dos movimentos sociais. A queda do muro de Berlim, as mudanças políticas na ex-Rússia, a descrença nas utopias, a crise do modelo cubano, etc., levaram ao enfraquecimento, e abandono pela maioria, daquele projeto político. Causas internas, presentes no interior dos movimentos sociais também devem ser consideradas. Elas dizem respeito ao clima de competição e de disputas internas, de divergências político-ideológicas, da adoção de modelos centralizadores, tidos como verdadeiros, que são “aplicados” no trabalho junto às bases, sem respeitar a diversidade cultural destas mesmas. (GOHN, 2012, p. 205-206). Essas considerações da autora conduzem ao entendimento das mudanças tendo por base a modifi cação do modelo referencial nos anos de 1990, com ênfase nos valores éticos e morais, visto que a sociedade passou “a desacreditar da política, dos políticos e das ações do Estado em geral.” (GOHN, 2012, p. 206). [...]. o saldo disto tudo apresenta um resultado paradoxal: o que foi ganho na década de 1980, a organização da sociedade brasileira em vários níveis e instâncias, pois este mesmo período foi considerado como perdido do ponto de vista econômico, passou a ser o grande complicador nos anos de 1990. Isto porque houve alterações na hierarquização dos valores sociais no conjunto da sociedade. (GOHN, 2012, p.206). 10 Unidade: O protagonismo da sociedade civil Desta forma, os grupos da sociedade civil – impulsionados pelo desejo de alterações pontuais, como os de liberdade e de autodeterminação para expressar as individualidades, contrapondo-se à política nacional, devido a sua descrença – passa a acreditar cada vez mais em sua capacidade de atuação independente. Neste modelo “o plano da moral e da cultura ganham lugar central nas ações coletivas”. (GOHN, 2012, p. 207). Esses novos atores sociais aparecem com uma forma de organização mais institucionalizada e apresentavam iniciativas de parcerias entre a sociedade civil organizada e o poder público (GOHN, 2004). Com a democracia, altera-se o eixo estruturante – antes representado pela autonomia dos membros da sociedade civil –, conferindo ao conceito de cidadania lugar de relevância. Assim, há um descentramento do sujeito social, emergindo uma pluralidade de atores sociais. A partir dos anos de 1990, o termo cidadania passa a fazer parte dos discursos ofi ciais, tendo seu signifi cado voltado para a ideia de participação civil. Vemos, pois, que os movimentos sociais nos séculos XIX e XX desempenharam papel fundamental no processo democrático de nosso país, levando-o a transformações sociais a partir de suas mobilizações reivindicativas dos direitos dos cidadãos. Nesse sentido, vemos a capacidade de conscientização, mobilização e participação política existente nos movimentos sociais dos quais a sociedade civil se apresenta como protagonista. 2. A institucionalização no Brasil As conquistas realizadas nos últimos séculos tiveram como protagonista a sociedade civil. Esta se organizou nos decorrer dos tempos em busca de seus direitos à cidadania e à democracia. Neste cenário, a Constituição de 1988 apresenta-se como um marco histórico e se revela como uma vitória no que tange ao combate a um regime autoritário e repressivo, assegurando o direito à participação social. Explore Foram várias lutas até que o povo brasileiro chegasse à conquista da democracia. Mesmo esta não sendo plena, apresentando desvios, há que se convir que a conquista foi grande. Para ilustrar os avanços conquistados com os movimentos sociais, sugerimos que você assista a este vídeo, que faz um breve resgate da ditadura e da luta pela democracia. http://www.youtube.com/watch?v=F61-9JuzVR4 11 Presenciou-se, nas duas últimas décadas, a institucionalização de práticas civis em espaços públicos. No Brasil, muitas foram as inovações democráticas conduzindo a uma reorganização da participação civil. A partir dos anos de 1990, os movimentos sociais começam a enfraquecer e perdem um pouco de sua autonomia, desta forma precisam alterar suas práticas deixando o caráter crítico e reivindicativo para tornarem-se mais propositivos. Com isso, vê-se uma inversão da relação entre os movimentos sociais e as ONGs. Também nesta época, desponta no cenário do associativismo nacional outro ator social: as fundações e organizações do Terceiro Setor (GOHN, 2011). Destarte, “os projetos sociais passam a ser eixos de mobilização e articulação de demandas e pessoas, articulados/gerenciados por ONGs e entidades do terceiro setor” (GOHN, 2011, p. 228). Assim, no Brasil, a institucionalização foi construída, histórica e concomitantemente, com o processo de democratização da nossa sociedade. Gohn (2011) divide esse processo em dois momentos, sendo o primeiro resultado das trajetórias de lutas para implantar as conquistas constitucionais, ainda nos anos de 1990. Deste momento, destacam-se os Conselhos Gestores e outros espaços institucionais. No plano institucional do cenário do associativismo na sociedade política governamental, as principais novidades desse período foram: a criação dos Orçamentos Participativos (OPs) em prefeituras administradas pela oposição ao governo federal da época, tendo Porto Alegre e o Partido dos Trabalhadores (PT) como exemplos principais; e a implementação de conselhos gestores setoriais, com a participação da sociedade civil. (GOHN, 2012, p. 218) No início, os conselhos foram vistos como instrumentos com potencial de transformação política, porque seriam uma forma de expressão, representação e participação de segmentos sociais na formulação de políticas públicas. Davam à população acesso a esses espaços de decisão, possibilitando a ela exercer controle social sobre o estado (GOHN, 2011). Conforme observou a autora, se esses conselhos fossem efetivamente representativos, eles realmente poderiam imprimir um novo formato às políticas públicas. Entretanto, vários pareceres ofi ciais notabilizaram apenas o caráter consultivo dos conselhos, desta forma, suas ações fi cavam restritas ao campo da opinião, da consulta e do aconselhamento, descaracterizando sua função deliberativa e paritária. Importante É importante atentarmos para o fato de que mesmo quando há a paridade nos conselhos, muitas vezes as reuniões destes são articuladas de modo que não proporcionam condições verdadeiras para que se efetive a participação da sociedade civil. Isto ocorre, muitas vezes, por essas reuniões acontecerem em horário comercial – horário em que os cidadãos participantes podem encontrar-se no trabalho – inviabilizando sua participação nos conselhos. Outras vezes, a ausência dessa parcela de representante – a sociedade civil – se dá devido à falta de condições fi nanceiras, visto que estes muitas vezes não têm sequer o dinheiro da passagem do ônibus para chegar ao local da reunião (que na maioria das vezes sãorealizadas nas dependências de órgãos públicos, em locais da área central das cidades, difi cultando a participação dos moradores da periferia). 12 Unidade: O protagonismo da sociedade civil Nos municípios sem tradição organizativa-associativa, os conselhos passaram a ser apenas uma realidade jurídico-formal, e muitas vezes um instrumento a mais nas mãos dos prefeitos e das elites, falando em nome da comunidade, como seus representantes ofi ciais, não atendendo minimamente aos objetivos de serem mecanismos de controle e fi scalização dos negócios públicos. (GOHN, 2011, p. 231). O segundo momento na institucionalização das políticas públicas se deu a partir do ano 2000, com a ampliação das formas de gestão deliberativa inovando no campo da participação popular democrática. Nesse período se redesenhou o formato de várias políticas sociais, com a generalização de fóruns e conferências nacionais. Nesse contexto, incorporou-se o uso das novas tecnologias. Com isso “o campo do social passou a ser dominado por comunidades organizadas em projetos sociais” (GOHN, 2011, p. 233). Neste formato, o poder da comunidade é visto como uma parcela da sociedade civil organizada, que diferentemente dos anos de 1980, não se encontra contra o Estado, mas agora participa e interage com os poderes constituídos, e segundo Gohn (2011), parte da força das comunidades advém dessa interação. Desta forma, a participação da sociedade civil torna-se de suma importância para a democratização da gestão pública. 3. As ONGs e o Terceiro setor Os sujeitos coletivos, antes existentes nos movimentos sociais, com as mudanças sociais, convergem para uma parceria entre a sociedade civil e o Estado, e assim há uma fragmentação de sua força coletiva em vários campos isolados. É justamente a partir dessas mudanças – como já sinalizamos anteriormente – que surge a institucionalização das ações coletivas, passando de processos de mobilização de massas para o processo de mobilizações pontuais. É nesse contexto que emerge o novo universo das ONGs no terceiro setor. A caracterização das ONGs se altera na última década do século XX. Durante a luta contra o regime militar e pela democratização do país, nos anos de 1970 e 1980, as ONGs eram apenas instituições de apoio aos movimentos sociais e populares. Nessa fase, elas se posicionavam por detrás deles, com a preocupação de fortalecer a representatividade das organizações populares. Eram ONGs cidadãs, movimentalistas, militantes, que ajudavam a própria organização popular a estruturar-se, muitas vezes trabalhando na conscientização dos grupos organizados (GOHN, 2004). Com a diversifi cação e ampliação da organização da sociedade civil, no início dos anos de 1990, surgem entidades autodenominadas de “Terceiro Setor”, com ideologia e projetos Deliberativo: Capaz de deliberar; resolver após discussão, ponderação. Paritário: Em que os elementos com direito a voto pertencem a dois grupos igualmente representados. 13 políticos defi nidos. Dentro deste cenário, as ONGs “saem da sombra e colocam-se à frente e até mesmo na dianteira dos movimentos, tornando-se, em alguns casos, instituições autônomas e desvinculadas dos movimentos” (GOHN, 2004, p. 146). Essas organizações, articuladas por empresas, bancos, redes de indústria e comércio, ou por artistas famosos, passaram a realizar projetos em parceria com o Estado, atuando junto às populações tidas como mais vulneráveis. Os projetos realizados contavam com apoio de recursos fi nanceiros públicos (oriundos de inúmeros fundos públicos que foram criados) e privados, tendo em sua composição uma equipe de profi ssionais capacitados, selecionados por suas competências de trabalho e não por suas ideologias (GOHN, 2004, 2010, 2012). A conjuntura econômica, a partir de 1995, contribuiu para a mudança da dinâmica dos movimentos sociais e das ONGs. Muitos movimentos incorporaram-se às ONGs que os apoiavam ou então transformaram-se em ONGs. Na segunda metade da década de 1990, [...], novos ingredientes foram acrescentados alterando ainda mais a dinâmica dos movimentos sociais, em geral, e dos populares, em particular. Começo citando as crises internas, em movimentos populares e ONGs cidadãs, que os levaram a repensar seus planos, planejamentos de ação, estratégias e forma de atuar. [...]. Algumas entidades de apoio aos movimentos até fecharam suas portas; outras fi zeram enxugamentos, em termos de regiões de atuação, fundiram-se a outras ou, ainda, deslocaram suas áreas de atuação para setores específi cos, dentro do leque dos programas sociais institucionalizados, governamentais ou de apoio advindo da cooperação internacional. Com isso, uma das mudanças observadas foi a introdução de novas pautas orientadas por agências internacionais de fomento para as políticas sociais. Essas agências indicavam o trabalho com “os setores tidos como excluídos e em situação de vulnerabilidade socioeconômica, subdivididos segundo as questões de gênero, etnia, idade, etc.” (GOHN, 2012, p. 219). Devido às difi culdades relativas a estruturas mínimas e às novas demandas e regras da cooperação internacional, não havia mais disponibilidade de tempo para articulações com a população. Outros fatores, como o desemprego, o aumento da violência urbana, ou ainda os poderes paralelos do narcotráfi co nas regiões pobres, desmotivaram a participação da população pobre nos movimentos (GOHN, 2012). Importante É importante ressaltar que a atuação do terceiro setor tem apresentado um dualismo, pois de um lado reforça as políticas sociais compensatórias – visto que assume um papel de intermediário das ações assistenciais do governo – e de outro lado, atua como espaços associativos, imprimindo a solidariedade e também a conscientização da população acerca dos problemas sociais e políticos da realidade, atuando dentro de um campo educativo da população. 14 Unidade: O protagonismo da sociedade civil Relembrando o estudo da unidade anterior, temos que na primeira década do século XXI os movimentos sociais passaram a se estruturar de diferentes formas. Gohn (2012) separa em três categorias distintas: 1) a categoria dos movimentos identitários, 2) a categoria dos movimentos por melhores condições de vida e de trabalho e 3) a categoria dos movimentos globais ou globalizantes. A autora ainda acrescenta as ações e as redes cidadãs, que também se apresentam como movimentos sociais. Contudo, segundo ela, “são na realidade organizações civis que atuam em fóruns, conselhos, câmaras, consócios, em escala local, regional, nacional, etc.”, fazendo parte do que vem sendo chamado de participação social institucionalizada (GOHN, 2012, p. 232). Esses “Novos Movimentos Sociais” (NMS) trazem à tona novas formas de participação social. “Conselhos, conferências nacionais e assembleias organizadas por esferas do poder público são outras arenas de participação no novo associativismo civil deste novo milênio” (GOHN, 2012, 232). Mas, como já foi pontuado, ainda há muitas lacunas referentes à participação da sociedade civil nesses NMS. Para Gohn (2012), os conselhos, conferências e assembleias, enquanto participação social institucionalizada, devem ser espaços políticos de formação e não apenas um local para repasse de informações. Por exemplo, eles devem ser dotados de recursos, ter cursos voltados para a formação, e não ser mero repasse de informações (lembrando que o exercício em si já é um processo formativo; há um caráter educativo nele); eles são espaços políticos de formação, visibilidade das demandas, clarifi cação dos cidadãos organizados que atuam como atores políticos, interagem com os poderes instituídos, não são apenas usuários (muitas vezes seus participantes são vistos como usuários), devem ter direito a falar, e não só a ouvir. Uma interlocução pública, que se supõe transparente, pressupõe também que os conselhos sejam qualifi cados; eles têm de ter legitimidade, autoridade moralpara ter representatividade. (GOHN, 2012, p. 232-233). Há que se ressaltar que o que se propõe nada mais é do que o caráter deliberativo e paritário, onde os representantes da sociedade civil possam exercer o controle social democrático partindo de uma gestão compartilhada. Essa nova formação sugerida por Gohn deve estender-se não somente ao representante da sociedade civil, mas também ao funcionário do Estado, visto que se trata de uma nova cultura: de gestão compartilhada. Portanto, de um novo processo de aprendizagem. Este deve ser discutido por ambos os lados, para que se construa uma cultura de compartilhamento. Em uma gestão compartilhada não basta incluir a participação, é preciso que seu sentido e signifi cado sejam discutidos a fi m de que se alcance a qualifi cação (GOHN, 2012). Gohn (2012), em seus trabalhos, destaca a importância da educação não-formal, apoiada em Paulo Freire no que tange às suas críticas à educação bancária, que muitas vezes não capacita, não habilita, porque não gerou de fato a construção de novos saberes e, dessa forma, não propiciou novas práticas. 15 Encerramos esta unidade deixando alguns questionamentos que julgamos ser pertinentes ao nosso estudo sobre Educação, Movimentos Populares e Transformação: e a nós educadores, o que nos cabe? Qual a nossa função frente a essas novas demandas sociais? Como operacionalizar o aprendizado? Será que isso é possível? Qual caminho seguir?! 16 Unidade: O protagonismo da sociedade civil Material Complementar Movimentos sociais contemporâneos: um balanço da produção de teses e dissertações em antropologia (2008-2018) - Paula Alegria/ Lucas Bulgarelli/ Rosana Pinheiro-Machado https://bibanpocs.emnuvens.com.br/revista/article/view/512/596 Assista ao vídeo abaixo e refl ita sobre a importância da redemocratização. As imagens ilustram os avanços e retrocessos vividos e a música que as acompanha serve de referencial em nossa profi ssão de educador. https://youtu.be/beqBvhSPySw?si=D01emLUcPhx-rY96 E que tal uma sugestão de fi lme para contextualizar o que estudamos nesta unidade?! Minha sugestão é: “Escritores em liberdade”, um fi lme que retrata a crença de uma professora na mudança do ser humano através da educação. Apesar de ser um exemplo de poder transformador a partir da literatura, o que chama a atenção e serve de “inspiração” para nós é o fato de que o educador tem na educação ferramentas para a transformação social. Vale a pena conferir! 17 Referências CORTELLA, Mario Sérgio. A escola e o conhecimento: fundamentos epistemológicos e políticos. 14.ed. São Paulo: Cortez, 2011. DURIGUETTO, M. L. Sociedade civil, esfera pública, terceiro setor: a dança dos conceitos. Serviço Social & Sociedade. Juiz de Fora: Cortez, n. 81, mar. 2005. Disponível em: Acesso em: 28 dez 2012. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1997. GADOTTI, Moacir. Pedagogia da práxis. 5. Ed. São Paulo: Cortez, 2010. GOHN, Maria da Glória. História dos movimentos e lutas sociais: a construção da cidadania dos brasileiros. 7. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2012. Disponível em: Acesso em 15 fev. 2013. ________. Participação de representantes da sociedade civil na esfera pública na América Latina. Política & Sociedade. Santa Catarina. Vol. 10 – nº 18 – abri 2011. P. 223-244. _______. Sociedade civil no Brasil: movimentos sociais e ONGs. Colombia: Nómadas. Universidad Central. (COL), nº 20, 2004, p.140-150. Disponível em Acesso em 16 fev. 2013. 18 Unidade: O protagonismo da sociedade civil Anotações www.cruzeirodosulvirtual.com.br Campus Liberdade Rua Galvão Bueno, 868 CEP 01506-000 São Paulo SP Brasil Tel: (55 11) 3385-3000 Rua Galvão Bueno, 868 Tel: (55 11) 3385-3000sobre teorias do conhecimento, para não cair nas amarras ou armadilhas ocultas nos sistemas político-educacional. Nesta unidade não iremos nos ater a todas as teorias, apenas revisitaremos um pouco da teoria do diálogo para ajudar na sistematização da função social da escola na perspectiva de transformação social. 9 As teorias vêm ao longo dos anos tentando dar respostas a várias questões da educação. É certo que todos os educadores têm sua interpretação acerca do que é o conhecimento, contudo nem sempre essa interpretação se apresenta de modo consciente e refl exivo. Muitas vezes, o educador adota a interpretação do que seja o conhecimento sem perceber claramente qual é a sua fonte e as quais consequências essa interpretação pode levar. Mas é certo que todos têm uma “teoria do conhecimento”, a qual ele toma para si. Para verdadeiramente entendê-las seria necessário revisitar as raízes históricas. Com o fracasso da educação, surge a teoria do diálogo, representada principalmente por Paulo Freire que nos oferece melhor compreensão dessa teoria, dando um caráter eminentemente político ao diálogo. As teorias dialógicas contribuem para o desenvolvimento da escola pública e das ciências da educação trazendo uma nova compreensão do educando e da relação entre a educação e a sociedade. (Gadotti, 2010). Sócrates situava o diálogo como uma relação de privilégio entre duas pessoas em igualdade de condições e reciprocidade. Mas a teoria do diálogo assevera quanto à importância do confl ito a fi m de que não seja somente um diálogo ingênuo. Se educar é transformar, temos que nos atentar para o fato de que não há transformação que possa ser considerada pacífi ca, isto porque envolve a ruptura de uma situação estável. Na história da educação brasileira vimos em diferentes momentos – ainda hoje o vemos em alguns educadores – a tentativa da neutralidade da ação educativa, como se a escola não fi zesse parte da sociedade e de seus confl itos, e isto, segundo os defensores da escola nova, torna-se uma problemática para a educação. O diálogo é uma postura do educador comprometido com a transformação social, contrapondo-se à neutralidade da escola tradicional. Para Cortella (2011), faz-se necessário a democratização do saber como objetivo último da Escola Pública, dando acessibilidade ao conhecimento universal acumulado, sem tornar esse acesso impositivo e/ou restrito a uma formação erudita. Então, a proposta de uma Escola Pública na qual, não somente, seja valorizado o saber vivencial dos educandos, mas também, proporcione conteúdos selecionados de modo a favorecer a compreensão da própria realidade e o fortalecimento como cidadão, capaz de realizar transformações que atendam aos interesses da maioria social. Explore Para se ter uma ideia global sobre a educação no Brasil, os avanços e as faltas, e o que se espera dos alunos e dos professores no contexto educacional, assista ao vídeo onde os Senadores da Co- missão Senado do Futuro (CSF) se reúnem para debater os desafi os da educação no período pós- -pandemia de Covid-19. Entre os convidados, a diretora-geral do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da FGV, Claudia Maria Costin; o secretário da Educação do Piauí, Ellen Gera de Brito Moura; e o presidente da Undime, Luiz Miguel Martins Garcia. Comissão Senado do Futuro debate desafi os da educação após a pandemia de Covid-19 – 5/11/2021 (TV Senado): https://www.youtube.com/live/BZIv8z5is1k?si=G5wx3vsdLavKscr0 10 Unidade: Educação, Movimentos Sociais e Transformação Educação, Conhecimento e Cultura A educação escolar nos transporta ao objetivo principal da atividade docente, ou seja, o trabalho com o conhecimento. Porém, o mesmo não pode ser reduzido à sua modalidade científi ca, visto que outras modalidades (conhecimento religioso, estético, afetivo, etc.) também se fazem presente nas ações profi ssionais cotidianas. E é certo que o resultado da ação científi ca não atinge a todos da mesma forma. (CORTELLA, 2011). Sabemos que o conhecimento se faz a partir da informação e da formação e este é constituído pelo ser humano dentro de suas realidades. Mas quem é esse ser humano? Podemos afi rmar que é um ser que na sua fragilidade buscou adaptar-se e tornou-se superior às demais espécie animal a partir de sua capacidade de raciocinar criando o próprio ambiente. Logo, é o único animal capaz de realizar ações transformadoras conscientes. Segundo Cortella (2011), é a consequência de um agir intencional que chamamos de trabalho. O trabalho é a ação intencional que realizamos sobre as coisas e as ideias e por meio dele produzimos o meio humano. “Esse meio humano, por nós produzido e no qual somos produzidos, é a cultura.” (CORTELLA, 2011, p. 35). Ou seja, o que fazemos resulta no conhecimento e está repleto da cultura que por nós foi produzida no decorrer dos tempos. É o nosso caminhar histórico que constrói a cultura e a modifi ca ao passar do tempo – um movimento ininterrupto de transformação – dentro da relação Homem-Mundo. Isto signifi ca que o Homem tem a necessidade de lutar com mundo por sua sobrevivência, dessa forma ele (o Homem) altera o mundo e é alterado por ele (o Mundo). Essa foi a principal luta da história da humanidade durante muito tempo. Sendo a cultura o resultado da intervenção do trabalho humano sobre o mundo, podemos afi rmar que somos então, um produto cultural. “... o Homem não nasce humano, e sim, torna- se humano na vida social e histórica no interior da Cultura.” (CORTELLA, 2011, p. 37). A cultura não é estática, mas permanece em constante movimento de criação e recriação através dos tempos, de acordo com a necessidade de cada geração através do conhecimento, utilizando a cultura já existente, porém não se limitando a ela. “A escola não é o único local de apropriação da cultura.” (GADOTTI, 2010, p. 239). A cultura pode ser apropriada pelo humano através da experimentação direta, ou seja, pelo foto de Ricardo André Frantz 11 contato realizado diretamente com a sociedade em que vive. Explore A construção do conhecimento não se faz em um passe de mágica, mas vivenciando na prática, e a partir da refl exão das produções históricas da humanidade. Convido você ler e refl etir sobre a importância do conhecimento não ser entendido dentro de uma visão estática e extática. * extática (Extática: posto em êxtase, enlevado). https://portalintercom.org.br/anais/nacional2016/resumos/R11-2355-1.pdf As instituições sociais: família, igreja, escola, mídia etc. surgem como fonte de preservação e inovação dos valores e conhecimentos por meio de processos educativos. Neste contexto, aparece a escola como cerne da educação, carregada de valores, conhecimentos e preconceitos mutáveis. Estes são elaborados pelos humanos que lhes dão signifi cados. Portanto, em sociedade, a produção de valores e conhecimentos não é neutra, mas encontra-se envolvida do poder sócio-político-econômico. ...a vida social é, também vida política, isto é, confi gura-se como espaço de conquista e manutenção de poder sobre os bens e pessoas, não havendo ainda, sociedades complexas de composição igualitária. (CORTELLA, 2011, p. 41). O conhecimento além de não ser neutro, ainda tem um caráter político, isto porque está envolto de interesses, sobretudo na luta pelo poder. Então, se a cultura não é neutra, o conhecimento não é neutro, não há como o educador permanecer na neutralidade da ação pedagógica. Ele tem que assumir a “tarefa de partido: ou educa a favor dos privilégios ou contra eles, ou a favor das classes dominadas ou contra elas.” (GADOTTI, 2010, p. 87). Portanto, o poder se encontra no centro da ação pedagógica, essa questão foi ignorada por muito tempo, e é por isso que deve haver uma revisão crítica do papel do educador. O educador mede-se, portanto, pelo grau de consciência crítica que tiver, pois, por educador, no seu sentido amplo, entendo o intelectualcapaz de transmitir uma ideologia que organize e cimente os homens entre si, um grupo, uma pequena comunidade, uma categoria social, etc. (GADOTTI, 2010, p. 87). A tarefa do educador supera os limites da escola, sua ação educativa também conduz à organização da sociedade através de uma visão macroeducacional. Assim, a educação apresenta-se com a expectativa de transformação social. Na perspectiva de uma educação visando a transformação, a escola tem um papel estratégico, na medida em que pode ser o lugar onde as forças emergentes da nova sociedade, muitas vezes chamadas de 12 Unidade: Educação, Movimentos Sociais e Transformação classes populares, podem elaborar a sua cultura, adquirir a consciência necessária à sua organização. (GADOTTI, 2010, p. 24-25). Alteridade: Caráter do que é outro; diversidade, diferença. A educação escolar como veículo de formação e “transformação”, sendo não neutra (como já foi dito), devido ao seu processo pedagógico estar imerso em intencionalidade, conduz a necessidade de uma visão de alteridade por parte dos educadores. Freire (1997) ressalta a necessidade do educador se perceber criticamente: No exercício crítico de minha resistência ao poder manhoso da ideologia, vou gerando certas qualidades que vão virando sabedoria indispensável à minha prática docente. A necessidade desta resistência crítica, por exemplo, me predispõe, de um lado, a uma atitude aberta aos demais, aos dados da realidade; de outro, a uma desconfi ança metódica que me defende de tornar-me absolutamente certo das certezas. Para me resguardar das artimanhas da ideologia, não posso nem devo fechar aos outros, nem tampouco me enclausurar no ciclo da minha verdade. Pelo contrário, o melhor caminho para guardar viva e desperta a minha capacidade de pensar certo, de ver com acuidade, de ouvir com respeito, por isso de forma exigente, é me deixar exposto às diferenças, é recusar posições dogmáticas, em que me admita como proprietário da verdade. (FREIRE, 1997, p. 151). A prática educativa deve instituir o conhecimento como inacabado, mutante e resultante da produção histórica. Há a necessidade dos educadores reforçar que os valores e conhecimentos são resultados de uma sucessão de ocorrências existenciais, e não algo imóvel da natureza humana. Explore indicação do vídeo: O Sorriso de Monalisa, com Julia Roberts. Contextualização do fi lme: Este fi lme mostra uma jovem professora criativa, meiga, inteligente, revolucionária, cáustica. Convivendo com os ditames da rígida educação para moças, nos anos 50; que entra em confl ito com as alunas e a instituição e decide deixar a escola, mas não antes de dar um novo olhar, outra expectativa de vida às alunas. Ótimo para refl etir sobre a ação educativa! Há uma relação assimétrica entre educação e sociedade, sendo que da mesma forma que a educação pode reproduzir a sociedade, também pode transformá-la contrapondo-se a ela. O sistema escolar não é apenas um subsistema do sistema social. Há uma contradição interna na educação, própria da sua natureza, entre a necessidade de transmissão de uma cultura existente – que é a tarefa conservadora da educação – e a necessidade de criação de uma nova cultura, sua tarefa revolucionaria. (GADOTTI, 2010, p. 74). 13 Portanto, vê-se tarefas contraditórias: conservadora e revolucionária. Uma se contrapõe a outra em diferentes momentos históricos da humanidade, ou se reproduz a sociedade, ou se contraria e confl ita-se com ela. No Brasil, as diferentes concepções da relação Sociedade-Escola, encontram-se presentes e são adotadas pelo educador de acordo com sua compreensão política. A educação se apresenta como um fator importante de transformação social a partir das estratégias político-pedagógicas da formação e do trabalho do educador. Movimentos, Lutas Sociais e a Consequente Transformação No início, a relação entre Homem e Mundo envolvia uma questão de sobrevivência. Lutar com o mundo signifi cava alterá- lo e ser alterado por ele. Contudo, a relação do Homem com o Mundo não se dá individualmente, mas coletivamente, por isso a denominação ser social. O Homem em sociedade realiza a construção cultural, a qual pode ser entendida como verdade em certo momento histórico e não o ser em outro. Cabe enfatizar: o conhecimento e, nele, a verdade, são construções históricas, sociais e culturais. São resultantes do esforço de um grupo determinado de homens e mulheres (com os demais elementos disponíveis na sua cultura e no tempo em que vivem) para construir referências que orientem o sentido da ação humana e o sentido da existência. (CORTELLA, 2011, p.79). Mas é a luta pelo poder que levou a humanidade a mudar seu foco. Se antes a luta se dava pela sobrevivência no e com o mundo, agindo nele e sobre ele, transformando-o e se transformando. Afi nal, o Homem é um ser criador de sua própria história, a qual vai se transformando na medida em que ele (o Homem) transforma o mundo. Entretanto, essa luta no decorrer do tempo passa a ser substituída pela luta de interesses, revelando a relação de confronto: Homem-Homem. Nessa relação Homem X Homem, o conhecimento tem relevância, porque sendo construída a partir de interesses de uma determinada camada da sociedade, essa irá atuar na submissão de outra exercendo o poder. Com isso a sociedade passa a ser regida por regras de controle social através da política. E o que é o poder senão “a capacidade, a potência, a virtualidade de realizar algum ato, mesmo que nunca venha a se realizar.” (GADOTTI, 2010, p. 23). A relação entre educação e poder é muito complexa. “Se educar é conscientizar, a educação é ato essencialmente político. Portanto, ninguém educa ninguém sem uma proposta política.” (GADOTTI, 2010, p. 88). Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr 14 Unidade: Educação, Movimentos Sociais e Transformação O século XX é marcado pela descoberta de como o poder é tramado. E foi justamente neste século que a sociedade vivenciou com maior intensidade o poder de dominação, e neste cenário, vendo seus direitos sendo desrespeitados. Foi um século de descoberta do caráter negativo do poder, porém, também da descoberta da possibilidade de mudança a partir da organização. Na busca de corrigir as diferenças sociais surge a concepção de cidadania. O termo cidadania nos remete – em uma de suas várias dimensões – aos direitos e deveres dos indivíduos, denominada cidadania individual, em que a liberdade e a autonomia são pressupostas destacando-se a dimensão civil. E dos grupos, cuja denominação é cidadania coletiva e pressupõe tanto a dimensão cívica, quanto a dimensão sociocultural. (GOHN, 2012). No Brasil, a cidadania foi construída ao longo de sua história. Contudo, até mesmo a conquista do direito de ser cidadão em nosso país exigiu lutas, pois ela (a cidadania) não era um direito de todos. Caracterizando-se num processo não linear. No período Imperial, eram considerados cidadãos somente os homens de posse e/ou nobreza. Ou seja, somente os grandes proprietários – sejam pelos números de escravos, ou por possuírem muitas propriedades – e os que detinham título de nobreza podiam exercer o direito da cidadania. Desta forma, excluíam-se os pobres e escravos, sendo vistos como não cidadãos. Na fase da República, a cidadania era cerceada no direito do voto, assim se restringia o perfi l dos indivíduos aptos a exercê-la. Excluía-se da cidadania política as mulheres, os mendigos, os analfabetos, os soldados e os religiosos, ou seja, a maioria da população existente no Brasil naquela época, caracterizando a ausência de participação popular. Amorfo: sem forma defi nida, informe. “A marginalização do povo do debate público levou à construção de uma cultura política em que a sociedade é vista como amorfo e difuso, e o Estado como provedor e o organizador da ordem necessária.” (GONH,2012,p.200). A luta pela cidadania cresceu no século XX devido a novas demandas que incorporaram noções de direitos políticos, buscando alterar a ordem conservadora do momento. Surge assim a luta por eleições “limpas”, pelo voto das mulheres e de outras categorias que não possuíam propriedades e, fundamentalmente a luta pelos direitos sociais dos trabalhadores. Introduzidos no país nos anos de 1930, por meio de legislação trabalhista que se apresentava como uma concessão as elites esclarecidas, baseadas em modernos contratos de relações de trabalho na Europa. Os novos direitos regulamentados passam a compor um novo cenário na cidadania brasileira. Trata-se da construção da fi gura do brasileiro enquanto trabalhador, com direitos e deveres legitimados. (GOHN, 2012, p. 200). É importante ressaltar que a conquista das leis se deu a partir da luta de várias décadas, dos trabalhadores pertencentes 15 às camadas populares ou médias da população, originárias de movimentos de diversas organizações. Essa cidadania conquistada nos anos de 1930 – mesmo não sendo completa, pois ainda excluía os analfabetos – propiciou o reconhecimento dos novos cidadãos pelo lugar que estes ocupavam no processo de produção. (GOHN, 2012). A cidadania exercida pelo voto (direito civil) no período populista (de 1945 a 1964) favorecia ao exercício dos direitos sociais. Esses conduziram a uma melhoria coletiva necessária para a sobrevivência das camadas populares, especialmente as que viviam na área urbana. A partir das conquistas abriu-se espaço para que a população se organizasse em Sociedades Amigos de Bairro (hoje denominadas Associações Amigos de Bairro) o que levou à politização dos envolvidos. Explore Para conhecer um pouco mais sobre a mudança na denominação de Sociedade Amigos de Bairro, para, Associação Amigos de Bairro acesse o site abaixo: https://escoladeativismo.org.br/saiba-como-abrir-uma-associacao-comunitaria-de-bairro/ E as lutas sociais continuaram nos anos de 1980, após duas décadas de repressão social – anos de 1960 e 1970 com Ditadura Militar. Vários militantes de lutas sociais no Brasil, antes acuados pela conjuntura politica do país, aliaram-se a novos parceiros, e com isso novas bandeiras foram construídas, visto que a insatisfação da população brasileira era geral. Várias lutas sociais surgiram. Gohn (2012) aponta que a conjuntura internacional contribuiu com essas lutas sociais, as quais conduziram a conquistas que desagradaram a elite do nosso país: Fortalecida pela conjuntura internacional, que também destacava a questão dos direitos humanos como básicos, a cidadania tornou-se o móvel e o articulador das lutas ocorridas. O saldo confi gurado foi a inscrição, em leis, de diversos direitos sociais demandados pelos movimentos sociais daquelas décadas. O referendum popular, a iniciativa popular, o plebiscito foram mecanismos de participação popular conquistados pelos cidadãos brasileiros, por meio das pressões populares. Num país de tradição autoritária, eles signifi caram verdadeiros atos heroicos. Por isto incomodaram vários setores das elites, que logo se articularam para eliminá-los ou muda-los. (GOHN, 2012, p. 202). Essas lutas e movimentos ansiavam pela redemocratização do país com a participação popular, em busca de uma sociedade sem discriminações, exclusões ou segmentações. Nos anos de 1990, as camadas médias da população começam a dar apoio aos pluriclassistas que passam a participar dos movimentos sociais, isso gera uma mudança no perfi l dessas lutas, com maior participação dos pluriclassistas, havendo alterações na hierarquização dos valores sociais, enfatizando a ética e a moral, já que a corrupção, a burocracia e a inefi ciência das ações do governo geraram descrença. “A sociedade civil passou, nos anos de 1990, a desacreditar da política, dos políticos e das ações do Estado em geral.” (GOHN, 2012, p. 206). Acredita-se que os movimentos sociais junto às camadas populares continuarão a ocorrer, mais isso ainda é uma incógnita. 16 Unidade: Educação, Movimentos Sociais e Transformação Material Complementar Explore Explore um pouco mais sobre a relação existente entre Educação e Sociedade e os fatores que intervém no processo educativo, através do artigo: “A relação educação e sociedade.” De Alberto Noé, visitando o site: http://educa.fcc.org.br/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S1414-40772000000400004&lng=pt&nrm=iso Para conhecer um pouco mais sobre a sociedade capitalista e a educação acesse: https://www.fe.unicamp.br/pf-fe/publicacao/5403/art10_32.pdf Mário Sérgio Cortella fala sobre educação, vida e melhorias para o Brasil I Identidade Geral (Revista Novo Tempo / 2019) O fi lósofo Mário Sérgio Cortella dedicou mais de 30 anos da vida dele para atuar como educador, fi lósofo e professor. Nesta entrevista, ele fala da importância da família, sobre a vida pessoal dele e também, dá dicas de como melhorar as condições do nosso país. Todos assuntos complexos, mas abordados de maneira muito simples. https://youtu.be/WjLL-Jb_PSI?si=upwHOkQwYpyIlJO2 O que são os movimentos sociais? (TV Unicamp/ 2023) Neste episódio, a professora Ana Claudia Teixeira, do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Unicamp, apresenta a defi nição de movimentos sociais com base nas ideias do sociólogo Mario Diani, professor do Departamento de Sociologia da Universidade de Trento (Itália). De acordo com ela, os movimentos sociais são abordados de uma perspectiva identitária e mostram-se profundamente engajados em uma disputa político-cultural. Eles surgem a partir da identifi cação e exposição de problemas. Os movimentos sociais são construídos e organizam-se em torno de questões do tipo. https://youtu.be/0YCyp6r7Y5E?si=NJnJX2kD_8Gwiidf 17 Referências CORTELLA, Mario Sérgio. A escola e o conhecimento: fundamentos epistemológicos e políticos. 14. Ed. São Paulo: Cortez, 2011. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1997. GADOTTI, Moacir. Pedagogia da práxis. 5. ed. – São Paulo: Cortez, 2010. GOHN, Maria da Glória. História dos movimentos e lutas sociais: a construção da cidadania dos brasileiros. 7. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2012. TEIXEIRA, Anísio. A crise educacional brasileira. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. Rio de Janeiro, v.19, n.50, abr./jun. 1953. p. 20-43. Disponível em: . Acesso em 20 dez 2012. 18 Unidade: Educação, Movimentos Sociais e Transformação Anotações www.cruzeirodosulvirtual.com.br Campus Liberdade Rua Galvão Bueno, 868 CEP 01506-000 São Paulo SP Brasil Tel: (55 11) 3385-3000 Rua Galvão Bueno, 868 Tel: (55 11) 3385-3000 Educação, Movimentos Populares e Transformação História dos Movimentos Sociais Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Profª. Ms. Wanderli Cunha de Lima Revisão Técnica: Prof.ª Me. Denise Jarcovis Pianheri Revisão Textual: Profª. Esp. Vera Lidia de Sá Cicaroni V1. 1 5 • Movimentos Sociais e Associações Civis • Movimentos Identitários e Culturais • Movimentos e Lutas Sociais no Brasil nos séculos XIX Esta unidade tem como tema principal os Movimentos Sociais no Brasil. O texto foi organizado em fases históricas. Essa cronologia – baseada nos estudos de Gohn (2012) – contribui para a percepção das ações coletivas, do ponto de vista não só da ordem de sucessão dos acontecimentos, mas também das razões que levaram um acontecimento a outro. A organização desta unidade apresenta o retorno a alguns assuntos já discutidos na unidade anterior. Iniciamos situando as questões relativas à historicidade das divisões em classes sociais. Também abordamos os movimentos identitários e culturais e, em seguida, pontuamos os movimentos e as lutas sociais (como já citado) de acordo com a cronologia. Fique atento a essa correlação de acontecimentos e observe a participação sociopolítica da sociedadecivil. Para realizarmos aprofundamento da discussão acerca do tema, faremos uma atividade refl exiva, com a escrita de um texto argumentativo. Participe dessa atividade, colocando em prática o que foi estudado na unidade. Como você já sabe, é muito importante aproveitar as indicações feitas no material teórico e no material complementar. Elas favorecem a compreensão e completam o conteúdo estudado, auxiliando-o no momento da realização das atividades tanto de sistematização do conhecimento como de aprofundamento do tema. Nesta unidade, vamos, a partir de um breve mapeamento, conhecer as lutas e movimentos sociais que fazem parte da construção da cidadania de classes sociais no Brasil e observar a participação da educação nesse processo. História dos Movimentos Sociais • Movimentos, Lutas Sociais no Brasil no Século XX 6 Unidade: História dos Movimentos Sociais Contextualização “Como pode o educador assumir o papel dirigente na sociedade se na sua formação o todo social resume-se a uns poucos conhecimentos de métodos e técnicas pedagógicas ou a uma história da educação que se perdeu no passado e nunca chega aos nossos dias? Como pode uma nação esperar que as novas gerações sejam educadas para o progresso, o desenvolvimento econômico e social, para a construção do bem-estar para todos, sem uma sólida formação política?” (GADOTTI, 2010, p. 89). Explore https://youtu.be/JGxi6BaHyio?si=eZ7cMggcT9j12nSA Assista ao vídeo: “A História dos Movimentos Sociais”. Observe as várias manifestações populares em diferentes tempos e lugares, autoquestionando-se sobre: • Por que é importante conhecer essas lutas e movimentos? • Como esse conhecimento irá contribuir para a minha formação enquanto pessoa? • E, na minha formação e atuação profi ssional, o que implicam esses conhecimentos? 7 1. Movimentos Sociais e Associações Civis A conquista da cidadania, em nosso país, não se deu de modo linear e tranquilo, mas, ao contrário, dependeu de várias lutas sociais. Entretanto, apesar de ter sido uma grande conquista, ainda não se pode dizer que vivemos em uma sociedade justa e igualitária. A esse respeito Cortella (2011) afi rma: “[...] a vida social é, também, uma vida política, isto é, confi gura-se como espaço de conquista e manutenção de poder sobre os bens e pessoas, não havendo, ainda, sociedades complexas de composição igualitárias.” (CORTELLA, 2011, p. 41). É fato que as divisões de classe datam de muito tempo. Já no período clássico grego (V e IV a.C.), pode-se observar a revelação de bases fundadoras da divisão de classes. Isso aparece com maior evidência no Período Arcaico1, com a ocorrência de inúmeros confl itos sociais. Seja em qual tempo for, as lutas e os movimentos sociais sempre são vistos como disfunções da ordem social em vigor. Segundo Gohn (2012), na história do nosso país, essas lutas pela conquista dos direitos ou ações contra as injustiças que foram realizadas por diferentes classes e categorias aparecem nos registros e estudos históricos como acontecimentos marginais. A respeito dessas manifestações, a autora ainda ressalta que “várias transformaram-se em movimentos, lutas prolongadas ou até guerras. Outras se institucionalizaram e foram incorporadas ou absorvidas pela sociedade civil e política brasileira.” (GOHN, 2012, P. 7). Na formação de classes sociais o poder econômico, ideológico e político é elemento constituinte fundamental. E os “indivíduos dos grupos” são determinados pelo lugar que ocupam nessa luta – dominados ou dominadores; subordinados ou mandantes; burgueses ou trabalhadores. Portanto ser pertencente a uma classe implica a existência de problemas ou interesses comuns. Mas a consciência de ser pertencente a uma determinada classe social não signifi ca estar satisfeito com essa condição; por isso muitas lutas foram desbravadas contra a dominação. Para Gadotti (2010): “Consciência de classe não signifi ca apenas uma tomada de consciência da realidade, acima de qualquer ato de transformação da sociedade. [...]. A libertação não se opera no interior da consciência dos homens, mas na história que eles fazem.” (GADOTTI, 2010, p. 190). Daí a manifestação se dá por essa consciência de classe dentro de um determinado contexto, passando a ser denominada como luta de classes. Para conhecer um pouco mais sobre lutas de classes, leia o texto escrito por Carlos Gomes sobre os antecedentes do capitalismo no site: https://fbes.org.br/2008/12/05/antecedentes-do-capitalismo/ 1 - Período após o período homérico, marcado pela consolidação de Cidades-Estado, principalmente as de Esparta, Tebas, Corinto e Atenas. 8 Unidade: História dos Movimentos Sociais 2. Movimentos Identitários e Culturais Os movimentos sociais apresentam diferentes correntes teóricas. Entre elas a histórico-estrutural e a culturalista- identitária. Esta tem como base o idealismo kantiano, o romantismo rousseauniano, as teorias utópicas e libertárias do século XIX, e aquela, baseada nas abordagens de Marx, Gramsci, Lefevre, Rosa de Luxemburgo, Trotsky, Lênin, Mao Tse Tung. (GOHN, 2008). O movimento histórico-estrutural constituiu-se de eventos ocorridos ao longo dos tempos, os quais favoreceram ou fortaleceram outros já existentes, possuindo um caráter de movimento de classe. Entretanto esse caráter de movimento de classe pode não ocorrer nos “novos movimentos sociais”. Gohn (2006) entende o culturalista-identitário como integrante dos “novos movimentos sociais organizados”, que envolvem sujeitos de diferentes classes sociais, unidos por algum traço identitário ou alguma causa e não pela classe social pertencente. Ainda a autora reforça que esses novos movimentos sociais colocam como horizonte a construção de uma sociedade democrática, lutam pela inclusão, atuam pelo reconhecimento da diversidade cultural e fazem parcerias com outras entidades da sociedade civil e política. […] é sempre expressão de uma ação coletiva e decorrente de uma luta sociopolítica, econômica ou cultural. Usualmente ele tem os seguintes elementos constituintes: demandas que confi guram sua identidade; adversários e aliados; bases, lideranças e assessorias – que se organizam em articuladores e articulações e formam redes de mobilizações; práticas comunicativas diversas que vão da oralidade direta aos modernos recursos tecnológicos; projetos ou visões de mundo que dão suporte a suas demandas; e culturas próprias nas formas como sustentam e encaminham suas reivindicações (GOHN, 2008, p. 14). Explore Leia o artigo de Joziane M. Fialho, no qual ela faz breves considerações sobre os Movimentos So- ciais no Brasil. Acesse: https://goo.gl/Uz2EJj Esses novos movimentos podem ter sua identidade confi gurada pelo gênero, pela etnia, ou pela geração (geração: em defesa dos idosos, jovens, etc.). Os novos movimentos sociais foram fortalecidos e impulsionados pela promulgação, em 1948, da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Constituindo ponto de referência na luta contra a discriminação e a favor do reconhecimento dos direitos. John Leach - Flickr.com 9 3. Movimentos e Lutas Sociais no Brasil nos séculos XIX Na história do Brasil, nos períodos do Império e Colônia, os confl itos existentes eram similares em diferentes regiões, apesar da vasta extensão territorial e da falta de comunicação existente em nosso país. Segundo Gohn (2012), no século XIX, as lutas tinham como herança as lutas sociais do século XVIII, por isso vamos relembrar algumas delas. No século XVIII, a luta social era movida pelo desejo de libertação da Metrópole; seus líderes eram “liberais radicais” inspirados nos modelos da Revolução Francesa e Revolução Norte-americana (GOHN, 2012). Começaremos pela Inconfi dência Mineira (1789). Participaram desse movimento as elites intelectuais, mineradores ricos ou proprietários rurais, clérigos e militares. Este foi o primeiro movimento a determinar claramente as intenções de separação da Metrópole.Ele se deu a partir de três dimensões: a dimensão econômica, pois havia uma insatisfação com a cobrança abusiva de impostos; dimensão política, que surgia de uma ordem interna, devido às inúmeras arbitrariedades do, então, governador da Capitania de Minas Gerais; e a dimensão ideológica, pois o liberalismo inglês e os fi lósofos da época, com suas ideias e produções, infl uenciaram os inconfi dentes. O desenrolar desse movimento foi conhecido por todos. Com a delação de um dos participantes, Tiradentes – principal líder do movimento – foi enforcado e esquartejado e os demais participantes sofreram a pena do degredo. Em 1794/1795, surgiu o movimento conhecido como “Conjuração do Rio de Janeiro”, em que congregados da Academia Científi ca do Rio de Janeiro – fundada, em 1771, por escritores – começaram a discutir questões científi cas e políticas e a demonstrar simpatia pelas ideias republicanas. Houve delação e o grupo sofreu processo de devassa, mas foi absolvido por faltas de provas (GOHN, 2012). No ano de 1797, houve a “Revolta de Mulatos e Negros” e, no ano seguinte (1798), a ”Conspiração dos Alfaiates”, também conhecida por “Conjuração dos Alfaiates”, ambas na Bahia. Esta composta por membros de duas categorias sociais: baianos brancos, pertencentes às elites; e baianos pobres, brancos e negros – artesãos, soldados, ofi ciais e escravos. Daí a segunda denominação, devido à participação predominante de alfaiates no grupo dos artesãos. E foi exatamente a diferenciação de classes que se tornou um complicador quando as ações cresceram, pois o desejo de liberdade dos escravos chocou-se com a posição dos senhores brancos da elite. Esta também foi delatada. A punição resumiu-se à morte ou degredo das lideranças populares – somente os pertencentes à classe popular foram punidos. A primeira metade do século XIX (1800 a 1850) foi marcada por lutas, movimentos e rebeliões nativistas. Esses foram eventos importantes para a construção da cidadania em nosso país, apesar de muitos deles não terem tido força sufi ciente para alcançar o objetivo. quadro A resposta de Tiradentes, de Leopoldino de Faria Degredo: Pena de desterro imposta a criminosos. Devassa: sindicância, inquérito. 10 Unidade: História dos Movimentos Sociais Os movimentos tinham difi culdades de se estabelecer ou de permanecer no poder, sendo em maior ou menor tempo massacrados, nas várias regiões do país, pelas forças da legalidade colonial ou imperial. As alianças de classe existentes eram tênues e contraditórias. (GOHN, 2012, p. 23). Isso acontecia porque, muitas vezes, era o calor da luta e a revolta que os motivava, faltando estruturação racional que fundamentasse as ações e “a falta de unidade criava espaço também para delações e traições.” (GOHN, 2012, p. 24). Essa falta de unidade, neste período, facilitava, para as elites dominantes, a desarticulação das lutas, assinalando-as como ações de barbáries. A seguir, apresentamos um quadro com todos os Movimentos e Lutas Sociais da primeira metade do século XIX, mapeados por Gohn (2012), em seus estudos, registrando o nome, o local e o ano em que aconteceu. Depois faremos uma breve pontuação sobre alguns deles. Movimentos e Lutas Ano Local Conspiração dos Suassunas 1801 Pernambuco Luta Sete Povos das Missões 1801 Movimento dos Maçons 1801-17 Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro Atos de Insubordinação de Clérigos 1806 Rio Grande do Norte Revolta de Escravos 1807-1835 Bahia Revolta de Escravos 1814 Alagoas Ajuntamento de Pretos 1815 Pernambuco Revolução Pernambucana 1817 Pernambuco Movimento de Monte Rodeador 1817-20 Pernambuco Atos de Adesões à Revolução no Porto 1820 Rio de Janeiro e São Paulo Agitações políticas de rua em torno da partida de D. João VI 1821 Rio de Janeiro Bernarda 1822 São Paulo e Rio de Janeiro Movimentos de Goiana 1822 Recife Proclamação da Independência do Brasil 1822 Rebeliões contra as Juntas Constitucionais e Infantarias Lusas 1822-23 Bahia, Pará, Piauí e Paraíba Motins de Pedroso 1823 Recife, Pernambuco Confederação de Equador 1824 Recife A batalha do Passo do Rosário (Ituzaingo) José Wasth Rodrigues (1937) 11 Constituição de 1824 1824 Guerra Cisplatina 1825-31 Região do Rio da Prata Revolta dos Roma 1827 Pernambuco Revolta Popular em Afogados 1829 Recife, Pernambuco Confl itos entre brasileiros e portugueses 1829-31 Atos de Protesto 1830 Minas Gerais A Balaiada 1830-41 Maranhão Setembrizada 1831 Pernambuco A Novembrada 1831 Pernambuco Revolta dos “Exaltados” 1832 Rio, Minas, São Paulo, etc. Caramurus 1832 Rio de Janeiro Os Chimagos 1831-35 Movimento Cabanada 1832 Pernambuco, Maranhão, Alagoas e Piauí A Abrilada 1832 Recife Noite das Garrafadas 1831 Rio de Janeiro As Carneiradas 1834-35 Pernambuco Movimento Cabanagem 1835 Belém do Pará A Revolta dos Malês 1835 Bahia A Guerra dos Farrapos 1835-45 Rio Grande do Sul Movimento Messiânico Sebastianista 1836-38 Bahia A Sabinada 1837 Bahia Revoltas Escravas 1838 Maranhão e Minas Gerais Criação do Falenstério de Saí e do Palmital 1841 Santa Catarina Rebelião Liberal 1842 São Paulo Rebelião Liberal 1842-44 Minas Gerais Revolução Praieira 1847-49 Pernambuco Quadro 1 – Lutas e Movimentos Sociais na primeira metade do século XIX Como podemos observar, foram várias as resistências e os combates nesse período. Alguns, inclusive, de caráter internacional, como a Luta Sete Povos das Missões e a Guerra Cisplatina. Esta, marcada por um confl ito bélico entre Brasil e Argentina, resultando em muitas perdas, tanto de vidas humanas quanto materiais, culminando na “perda da região de Cisplatina pelo Brasil, dando origem à República do Uruguai.” (GOHN, 2012, p. 31.). 12 Unidade: História dos Movimentos Sociais Ainda é possível verifi car que algumas lutas e movimentos colocavam-se contra o governo e outras a favor, como “Caramurus (1832)”, que objetivava a volta de D. Pedro I e a restauração do absolutismo; o “Movimento Cabanada (1832)” e “A Abrilada (1832)”, ambos de caráter conservador, que também aspiravam à volta de D. Pedro I. Mas a maioria revelava-se contrária às arbitrariedades do governo e caminhava em busca de um governo Republicano. Com essa pretensão, encontramos a “Revolução Pernambucana”, em 1817, – também conhecida como Revolução dos Padres, por ser composta por comerciantes brasileiros e vários padres, destacando-se Frei Caneca – a qual chegou a tomar o poder em Recife, mas que também culminou na derrota. Eles chegaram a tomar o poder em Recife e implantar um Governo Provisório, elaborando uma Lei Orgânica para orientar o novo regime até a promulgação de uma nova Constituição para o país, a qual deveria ser elaborada por uma Assembleia Constituinte. Assim como outros movimentos da época, a Revolução de 1817 foi esmagada e vários de seus líderes presos e mortos. (GOHN, 2012,p. 27). Também com caráter liberal e constitucionalista, em 1820, a Revolução do Porto fermentou- se a partir das notícias da Revolução em Portugal. A Proclamação da Independência, em 1822, também apareceu, no cenário histórico, como um movimento social, mas, segundo historiadores, seu ato, propriamente dito, deu-se a partir de um fi gurante, D. Pedro I. A partir do crescimento do sentimento de “lusofobia” e do agravamento da crise nas relações com a corte, o príncipe D. Pedro I chefi a um processo político do qual era fi gurante, aliás um fi gurante de oposição. O povo discutiu, segundo o registro de historiadores do período, nas ruas, os acontecimentos, sem ter participado diretamente do ato. (GOHN, 2012, p. 29). Após a Independência, continuaram as lutas pela Constituição e pela inserção do povo na participação do governo (direito de representação). A “Confederação do Equador”, em 1824, – liderada por Frei Caneca e por Cipriano Barata – deu-se pela oposição ao processo Constituinte pós-Independência. Esse movimento buscava aglutinar as províncias da região norte do país, de forma federativa, comum governo representativo e republicano. Realizou ações como a formação de uma Assembleia Constituinte, o preparo de um projeto de Constituição, a suspensão do tráfi co de escravos e a criação de uma nova bandeira, representando, assim, uma reação contrária ao absolutismo de D. Pedro I. Essa revolta contou com intensa participação popular – “população livre: mulatos, pretos, forros, e militares de baixa patente”, constituía as brigadas armadas, embora também houvesse as milícias, batalhões armados. Mas essa revolta também foi massacrada e dezenas de seus líderes mortos (GOHN, 2012, p. 30). Nossa primeira Constituição (1824) consignava poder absoluto ao Imperador e altos poderes aos parlamentares. Os poderes políticos eram hierárquicos, e era excluída a nacionalidade dos escravos, não sendo estes, dessa forma, considerados brasileiros. 13 Outras revoltas surgiram com sentido republicano e por reformas na Constituição. Podemos citar a “Revolta dos Roma” (1829) e a “Revolta Popular, em Afogados” (1829- 31), com sentido republicano; e “Os Chimagos” (1831-35), com a perspectiva de reformas na Constituição, a fi m de “reforçar os poderes locais de representação nos municípios e evitar o excessivo domínio do governo central” (GOHN, 2012, p.33). Essa revolta tinha em sua composição liberais moderados. Queremos ainda ressaltar três movimentos que ocorreram no primeiro período de século XIX, devido à sua importância para a história dos movimentos sociais no Brasil. São eles: a “Guerra dos Farrapos” (1835-45), “A Sabinada” (1837) e a “Revolução Praieira” (1847-49). A mais longa revolta armada da nossa história, no século XIX, foi a Guerra dos Farrapos, liderada pelos gaúchos que se organizavam em companhias de guerrilha, as quais “varreram as tropas imperiais da região dos pampas”, mas foram “obrigados a se render diante dos ataques das forças imperiais comandadas por Caxias e atacados ao sul pelos uruguaios” (Gohn, 2012, p. 35-36). Era composta por uma grande quantidade de homens livres, não proprietários e pobres. Eles foram subjugados, porém foram lhes concedidas várias condições nunca dadas, antes, a grupos revoltosos (GOHN, 2012). A Sabinada foi uma revolta urbana na província da Bahia. Ela foi precedida de ampla campanha de opinião, através da imprensa da época – essa é a grande diferenciação deste movimento. Grupos maçons participavam dos movimentos. Chegaram a conseguir a adesão de tropas do governo e proclamar a república na província, mas, a exemplo da “Cabanagem” e dos “Farroupilhas”, também foi esmagada com grande brutalidade (GOHN, 2012). A Revolta Praieira contou com participação marcante de elites intelectuais e políticas (a exemplo da maioria dos movimentos dessa época), porém teve uma grande participação popular – dois mil homens e armas. A marca dessa revolta foi a “perspectiva de mudança social diferente da do projeto das oligarquias rurais latifundiárias” (GOHN, 2012, p.38). Defendiam a Reforma Agrária e a abolição do latifúndio. Foi um movimento de defesa das camadas médias urbanas: brancos, mulatos e negros livres. Em 1849 resolveram defl agrar a Revolução, a qual durou dois meses, mas foram dominados pelas forças armadas legais e os seus líderes mortos ou deportados (GOHN, 2012). Explore Para exercitar o seu pensamento crítico, assista ao vídeo, atentando para a letra da música e con- duzindo sua refl exão para o conteúdo desta unidade. https://youtu.be/qbUo0wdEd4k Refl ita: “É possível se fortalecer frente às derrotas?” Por esse recorte, é possível observar a fragilidade dos movimentos da época na sua concepção, devido à falta de clareza nos projetos e de politização e à ambiguidade das alianças que foram fatores contribuintes para sua derrota. E devemos assinalar que esses fatores “fi zeram com que subjugado: submetido pela força das armas, dominado, reprimido. 14 Unidade: História dos Movimentos Sociais as camadas populares fossem sempre as mais reprimidas.” (GOHN, 2012, p. 25). Segunda Metade do Século XIX Na segunda metade do século XIX, as lutas sociais, em grande parte, giraram em torno da questão dos escravos e também de movimentos de auxílio mútuo e das lutas contra o fi sco. Esses movimentos “envolviam aspectos da luta pela cidadania, identidade, liberdade humana, assim como a luta por questões que interferiam no cotidiano dos meios coletivos urbanos, como o transporte.” (GOHN, 2012, p. 40). Gohn (2012) aponta setenta movimentos sociais ocorridos na segunda metade do século, incluindo as guerras contra os países vizinhos ao sul, entretanto nossa atenção estará voltada para os movimentos que tiveram maior infl uência na vida política e social em nosso país. Iniciaremos pelas lutas em torno da questão dos escravos. Gohn (2012) aponta que a luta contra o escravismo foi uma luta dos próprios escravos, com avanços e recuos devido à resistência dos fazendeiros à abolição. Mas eles – os escravos – tiveram o apoio, em vários momentos, de intelectuais e políticos. Foi uma luta longa e árdua. Nos anos de 1850, foi promulgada a Lei Eusébio de Queiroz, que abolia o tráfi co negreiro no Brasil. Vale ressaltar que houve pressões externas, mas a própria pressão interna dos escravos contribuiu, visto que as revoltas eram constantes, “vindo a se transformar nas décadas seguintes na principal questão social do país.” (GOHN, 2012, p. 42). Entre os vários movimentos, podemos mencionar: a “Luta da Associação Tipográfi ca Fluminense” (1853), para libertar escravos; a “Primeira Greve de Escravos-Operários do Brasil” (1857); a “Lei do Ventre Livre” (1871), que foi mais uma concessão que as elites dominantes tiveram que fazer: tornar os fi lhos de escravos nascidos no Brasil livres (isso, devido ao movimento escravista); o “Movimento Antiescravista Caifazes” (1880), que apoiava a fuga de escravos; e a “Sociedade Abolicionista Ouropretana” (1881) e “Clube do Cupim” (1884), as quais organizavam e promoviam fugas de escravos. “Nos anos de 1880 a Campanha Abolicionista difundiu-se por todo país e teve apoio popular. [...]. A abolição da escravatura surgiu, assim como as conquistas anteriores, via projeto legislativo, assinado pela princesa regente, D. Isabel, consagrada posteriormente pela mídia como a “libertadora dos escravos”. A lei que acabou com o cativeiro de negros africanos no Brasil teve o nome de Lei Áurea.” (GOHN, 2012, P. 51). O Movimento Abolicionista durou dez anos (de 1878 a 1888), mas, como vimos, as lutas antiescravagistas que precederam esse movimento foram de fundamental importância. Os Movimentos de Auxílio Mútuo confi guraram-se numa forma peculiar de associação das classes populares. Esses Movimentos visavam ao cuidado tanto das necessidades econômicas, quanto dos aspectos culturais, como bibliotecas, festas, jogos, etc. Também representavam um forte componente social, partindo da solidariedade para com os doentes, os idosos, as viúvas, os inválidos, etc., e dedicando-se, ainda, à construção de casas, creches, abrigos, hospitais e orfanatos. Para a camada assalariada, o Movimento Mutualista, no Brasil, desempenhou o papel de uma Previdência Social (GOHN, 2012). 1870. Foto de autor desconhecido. 15 Alguns desses movimentos foram: “Sociedade Artística Benefi cente” (1859); “Sociedade Humanitária dos Empregados no Comércio de Santos” (1879); “Sociedade Suíça de Benefi cência Helvétia” (1880); “Sociedade Protetora dos Portugueses Desvalidos” (1885); “Associação Benefi cente dos Funcionários Públicos” (1888); “Sociedade Humanitária dos Empregados no Comércio” (1888); “Associação de Socorros Mútuos Artes e Ofícios” (1889); “Sociedade Benefi cente dos Alfaiates de São Paulo” (1891); entre outros. Também foi na segunda metade do século XIX que aconteceram a Revolta de Canudos (1874 -1897) e o Movimento Republicano (1880 -1889). A Revolta de Canudos tinha um cunho religioso; fi gurava-se, no início, como uma revolta contra a cobrança de impostos. Após alguns anos,Canudos tornou-se um espaço geopolítico totalmente distinto do território nacional, sendo procurado por milhares de pessoas. Foi caracterizado pelos historiadores tradicionais como um movimento de fanatismo religioso e pelos historiadores contemporâneos como um movimento de resistência e de caráter social- libertário. (GOHN, 2012). Canudos tornou-se questão de política nacional, por lhe ter sido atribuído um caráter antirrepublicano, o novo regime político brasileiro; a República decretada em 1889, necessitava de “vítimas” para perseguir, quanto às supostas conspirações monarquistas. [...]. Em 1887, após quatro expedições militares, onze meses de luta sangrenta, com a morte de mais de oito mil pessoas, Canudos foi esmagado pelas forças militares (GOHN, 2012, p. 49). O Movimento Republicano representava a luta pela queda da Monarquia e a implantação da República. Esta luta constituía-se em um fato político extremamente ligado à luta abolicionista e à questão militar. Essa questão do escravismo deu à causa um caráter muito mais social do que político. Foi um movimento predominantemente militar, apesar de contar com apoio popular. O Movimento Republicano foi precedido de outro movimento chamado de “Questão Militar”. “A chamada Questão Militar foi um dos fatos que levaram à proclamação da República em 1889. Entretanto suas origens datam de 1866, quando o Duque de Caxias assumiu o comando total das operações na guerra contra o Paraguai.” (GOHN, 2012, p.45). Em 1891 foi promulgada a Nova Constituição, inspirada no modelo americano e com pouca participação do povo em sua elaboração. Ao contrário da Constituição de 1842, que trazia a obrigatoriedade da escolarização, a Nova foi omissa quanto às questões da educação e do ensino. Além disso, vetou o direito de voto aos analfabetos. Não assegurou o direito de greve, mas garantiu o direito de reuniões, liberdade de pensamento e expressão (imprensa sem censura). 16 Unidade: História dos Movimentos Sociais 4. Movimentos, Lutas Sociais no Brasil no Século XX A partir do século XX, as lutas sociais passaram a ter caráter urbano, com o que surgem novas categorias de lutas. Essas categorias são diversas e vão desde lutas da classe operária até lutas cívicas e movimentos por questões ambientais. De acordo com a conjuntura sociopolítica do país, cada uma dessas lutas teve maior ou menor importância, fazendo parte da História do Brasil. Durante Primeira República (1900-1930), devido ao avanço da urbanização em razão da economia do café na região centro-sul do país, as lutas centraram-se na questão do trabalhador imigrante, que reivindicavam melhores salários, rebaixamento do preço dos gêneros alimentícios, redução da jornada de trabalho e congelamento dos aluguéis, formando organizações anarco- sindicalistas. Foram criados vários sindicatos de categorias e, a partir desses, fi zeram-se inúmeras greves. Os anarco-sindicalistas combatiam toda forma de organização burocratizada e rígida – Estado, Igreja –; eles “deram grande ênfase à cultura, à educação das massas e à igualdade entre os sexos.” (GOHN, 2012, p. 62). A questão social nessa época era tratada como “caso” de polícia. Na área da Previdência, as políticas eram tímidas e pontuais, confi gurando-se como política nacional somente nos anos de 1930, continuando, assim, a cargo das Associações de Mútuo Auxílio realizar esse papel. Foi uma fase marcada, de um lado, pela pobreza, agravada pelas epidemias: febre amarela, varíola, peste bubônica, surtos de gripe; e, de outro lado, pelas elites dominantes, priorizando construções de estradas voltadas aos interesses dos donos de cafezais. Por isso deram-se várias revoltas, algumas voltadas para as questões da saúde, como a “Revolta contra a Desinfecção Sanitária” (1900) e “Revolta das Vacinas” (1904); outras de cunho político, como o “Movimento Político Contra o Regime Republicano (1902); a “Revolta da Escola Militar” (1904), que visava à derrubada do presidente e à instauração de uma “nova República” e que abrangeu a jovem ofi cialidade, sendo esmagada pelo poder central; “Liga Republicana” (1906); “Campanha Civilista” (1910), que visava ao lançamento de uma candidatura civil para a Presidência da República, movimento que foi derrotado nas urnas com a eleição do militar Hermes da Fonseca; “Movimento de Criação do Partido Comunista do Brasil”(1922); a “Revolução em São Paulo” (1924), que articulou a Coluna Prestes; a “Coluna Prestes” (1925-27), que trazia, em sua plataforma, entre outras coisas, a reivindicação do direito ao voto secreto, ao voto das mulheres, à liberdade de imprensa, entre outros; além dos movimentos grevistas e ainda a criação de outras associações mútuas. Explore Para saber, mais leia o capítulo 1, páginas 61-81, de: GOHN, Maria da Glória. História dos movimentos e lutas sociais: a construção da cidadania dos brasileiros. – 7. ed. – São Paulo: Edições Loyola, 2012. Explore 17 A “Revolução Política” (1930) que levou Getúlio Vargas ao poder dá início a uma nova fase na história brasileira. Trata-se da vitória de um projeto liberal industrializante, que em oposição às elites conservadoras rurais, delineará com muita vagarosidade um novo cenário para a nação: o urbano passa gradativamente a ser objeto de atenção das políticas públicas, visando-se criar condições para o adensamento da mão de obra, as indústrias crescem paulatinamente na região sul do país, as correntes de imigração estrangeiras são defi nitivamente substituídas pelas migrações nacionais, criam-se legislações e ordenamentos jurídicos novos, o Estado passa a organizar e a interferir na economia e na sociedade com mais vigor. Ainda que as elites conservadoras tenham mantido suas infl uências junto ao poder público, dada a redefi nição das alianças políticas que estabelecem no cenário do país, o caráter da luta social adquire novos contornos. (GOHN, 2012, p. 82) É nessa fase que vemos as camadas populares emergirem como atores históricos dentro de um novo prisma, deixando de ser caso de polícia para transformarem-se em cidadãos com alguns direitos, como os trabalhistas. Nessa fase (1930 -1945), houve várias lutas e movimentos, entre eles, a “Marcha da Fome” (1931); o “Movimento dos Pioneiros da Educação” (1931), a “Revolução Constitucionalista” (1932); a “Nova Constituição” (1934) e os “Movimentos de Associações de Bairros”. Os anos de 1945 a 1964 marcaram um período conhecido como populista ou nacional- desenvolvimentista, devido às formas de participação social, pois, a partir do processo de redemocratização, houve a retomada das disputas político-partidárias no país. Nessa fase os movimentos reivindicaram várias questões. Esse período também corresponde à fase de grande intervenção do Estado na economia, com o objetivo de criar condições básicas para a nova etapa de acumulação do capital. Iniciou-se a intervenção do Estado na sociedade por meio de políticas públicas de cunho clientelístico. Também se pode dizer que foi uma fase muito fértil culturalmente (GOHN, 2012). Agora adentramos um período de grande repressão na sociedade brasileira, a ditatura militar (1964- 1974), um período de grande efervescência do movimento de esquerda no país. Ocorreram várias lutas de resistência e protestos, resultando em prisões, torturas e perseguições. Corresponde também à fase do milagre econômico, no qual as massas populares, em geral, sofreram com o arrocho salarial, mas mantiveram-se caladas devido à necessidade do emprego (GOHN, 2012). As lutas pela redemocratização correspondem ao período de resistência e enfrentamento ao regime militar, ocorrido nos anos de 1975 a 1982, sendo este um dos mais ricos “da História do Brasil, no que diz respeito às lutas, movimentos e, sobretudo, projetos para o país.” (GOHN, 2012). Ele corresponde a uma fase de resistência e de enfrentamento ao regime militar, que já perdera sua base de legitimidade junto à sociedade devidoà crise econômica que se esboçava desde 1973 com a chamada crise do petróleo, a retomada vagarosa da infl ação, o desmonte das facilidades do paraíso do consumo das classes médias. As eleições de 1974 signifi caram um vigoroso “não” da população ao regime político vigente, fazendo do partido de oposição, o MDB, o vitorioso das urnas (GOHN, 2012, p.114). 18 Unidade: História dos Movimentos Sociais Foi uma fase de crença na volta pela democracia em nosso país e na possibilidade de mudanças históricas, não conseguidas no passado, a partir da força do povo, das camadas populares organizadas. Gohn (2012) fala dessa esperança, apontando o desejo “dos excluídos” da sociedade de serem os novos atores históricos: Os moradores das periferias, das favelas, cortiços e outros submundos saem da penumbra e das páginas policiais para se tornarem os depositários das esperanças de serem novos atores históricos, sujeitos de processos de libertação e de transformação social (GOHN, 2012, p.114). A Nova República e a Restauração Democrática são apontadas por Gohn (2012) como uma fase marcada pela negociação: a era dos direitos (1982-1995). Essa compreende a sexta fase do mapeamento feito pela autora. Ela afi rma que, apesar de ser o período mais curto, ele é repleto de movimentos e lutas. É um período de intensa movimentação social devido à característica da conjuntura política e à dimensão dos problemas sociais, resultantes do aumento da população no país e também da facilidade de divulgação e reprodução das ações coletivas através dos meios de comunicação de massas. (GOHN, 2012). Após quase duas décadas de indicações de governadores dos estados brasileiros pelo regime militar, o povo conquista o poder do voto e de eleger seus representantes ao governo do estado por meio de eleições diretas. A década de 1980 foi marcada por muitas experiências político-sociais, como a “luta pelas diretas já”, trazendo a implantação de um calendário político que trouxesse de volta as eleições presidenciais e a redução do mandato do presidente. Houve, também, o surgimento das Centrais Sindicais e a criação de entidades organizativas e de inúmeros movimentos sociais (GOHN, 2012). Contudo, junto com a volta do jogo democrático, veio a crise econômica, com altos índices de infl ação e o altíssimo número desemprego. Muitas greves foram defl agradas e houve tumulto das massas, chegando ao extremo de saquearem mercados, fazerem linchamentos populares na ânsia de fazer justiça com as próprias mãos, revelando um desespero social. “Os anos de 1980 são fundamentais para a compreensão da construção da cidadania dos pobres no Brasil, em novos parâmetros.” (GOHN, 2012, p. 126). Apesar das perdas em termos econômicos, foi uma década muito positiva em termos políticos e culturais. Todavia foi uma década que fi ndou com a desmobilização e a descrença em massa (GOHN, 2012). Nos ano de 1990, uma pequena luz de esperança voltou a fazer parte da história social do Brasil, com o “Movimento pela Ética na Política”, culminando no impeachment do ex- presidente Collor. Assim, as lutas sociais foram redefi nidas, os movimentos sociais alteraram- se substancialmente, chegando até, em alguns casos, a entrar em crise. “Surgem novos movimentos sociais, centrados mais em questões éticas ou de revalorização da vida humana.” (GOHN, 2012, p. 127). Dessa forma deslocou-se o eixo das reivindicações das questões econômicas para as questões de moral, e retomou-se a questão dos direitos sociais tradicionais. 19 Nesse cenário cresceu o número de “Organizações Não-Governamentais” (ONGs) e de políticas de parcerias implementadas pelo poder público. Trata-se das novas orientações voltadas para a desregulamentação do papel do Estado na economia e na sociedade como um todo, transferindo as responsabilidades do Estado para as “comunidades” organizadas, com a intermediação das ONGs, em trabalhos de parceria entre o público estatal e o público não estatal e, às vezes, com a iniciativa privada também. (GOHN, 2012, p. 128-129). Com a volta das eleições gerais, em 1994, alterou-se o cenário sociopolítico. “Um novo plano econômico, uma nova moeda e um novo candidato, surgido de um pacto político entre as elites, possibilitaram a ascensão de novos quadros ao poder central.” (GOHN, 2012, p. 129). Procuramos delinear, em poucas linhas, um pouco da história das lutas e dos movimentos sociais ocorridos no Brasil nos séculos XIX e XX. Mas, nas próximas unidades, retomaremos alguns pontos desses estudos. 20 Unidade: História dos Movimentos Sociais Material Complementar Explore Para conhecer um pouco mais sobre os Movimentos Sociais, acesse o site abaixo e leia a resenha do livro: Novas Teorias dos Movimentos Sociais, de Maria da Glória Marcondes Gohn. São Paulo: Edições Loyla, 2008. https://goo.gl/1QmJJ2 Explore Explore Para complementar seus estudos, acesse o link: https://goo.gl/dseiex E assista a uma entrevista com o fi lósofo Mario Sérgio Cortella falando sobre politizar-se. Entrevista concedida ao programa “Mais Você”, da Rede Globo. Movimentos sociais e resistências – acesse também: https://eaulas.usp.br/portal/video.action?idItem=13854 Explore O artigo “Movimentos identitários e a formação de professores” é fruto de uma pesquisa, realizada por Vera Maria Nigro de Souza Placco et.al., que buscou compreender como os movimentos iden- titários ocorrem durante a formação continuada de professores. Veja acessando o site: https://goo.gl/Bjqbgn 21 Referências CORTELLA, Mario Sérgio. A escola e o conhecimento: fundamentos epistemológicos e políticos. 14. ed. – São Paulo: Cortez, 2011. GADOTTI, Moacir. Pedagogia da práxis. 5. ed. – São Paulo: Cortez, 2010. GOHN, Maria da Glória. História dos movimentos e lutas sociais: a construção da cidadania dos brasileiros. – 7. ed. – São Paulo: Edições Loyola, 2012. ______. Teorias dos movimentos sociais. 5.ed. São Paulo: Loyola, 2006. ______. Novas teorias dos movimentos sociais. São Paulo: Edições Loyola, 2008. 22 Unidade: História dos Movimentos Sociais Anotações www.cruzeirodosulvirtual.com.br Campus Liberdade Rua Galvão Bueno, 868 CEP 01506-000 São Paulo SP Brasil Tel: (55 11) 3385-3000 www.cruzeirodosulvirtual.com.br Rua Galvão Bueno, 868 Tel: (55 11) 3385-3000 Educação Movimentos Populares e Transformação Os Princípios Éticos e Políticos nos Movimentos Sociais Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Profa. Ms. Wanderli Cunha de Lima Revisão Técnica: Prof.ª Me. Denise Jarcovis Pianheri Revisão Textual: Profa. Esp. Márcia Ota V1. 1 5 • Os Princípios Éticos • Os Regimes Políticos e a Questão da Ética • Os Movimentos Sociais Nesta unidade, a questão fundamental é a compreensão de como a ética interfere na política e como atua nos movimentos sociais. Você também poderá conhecer um pouco mais sobre o processo organizativo dos movimentos sociais e as mudanças por eles sofridas. Faça relações entre o conteúdo dessa unidade e a função da educação (como meio de garantir a formação do cidadão crítico e participativo na sociedade). Daremos a introdução de como vem sendo a organização dos movimentos, mostrando as categorizações feitas por Gohn (1997, 2011, 2012) a partir de seus estudos, para que na próxima unidade possamos aprofundar nossos conhecimentos sobre o protagonismo da sociedade civil. Organizamos essa unidade de modo a favorecer a compreensão dos conceitos procedentes da política exercida pelo cidadão que representa a sociedade civil. Novamente, realizaremos um fórum de discussão na atividade de aprofundamento. Lembre- se que sua participação além de fazer parte da avaliação da disciplina, ainda pode contribuir com o aprendizado dos demais colegas. A interação é a “grande chave” para abrir as portas neste século! Participe! Não se esqueça de ser claro e objetivo nas suas colocações. Aproveite a atividade de sistematização do conhecimento, para