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Autores: Profa. Priscilla Silva Silvestrin Prof. Robson Ferreira Prof. Ygor Pierry Piemonte Ditão Colaboradoras: Profa. Sandra Castilho Profa. Angélica Carlini Instituições de Direito Professores conteudistas: Priscilla Silva Silvestrin / Robson Ferreira / Ygor Pierry Piemonte Ditão Priscilla Silva Silvestrin Mestra em Ciências Contábeis pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) com bolsa Capes. Especialista em Direito Público pelo Instituto Damásio de Jesus. Graduada em Ciências Contábeis pela PUC-SP e em Direito pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI). Atualmente, é advogada e contadora. Foi professora da Universidade Salvador (Unifacs) e das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU). Atua como professora na área de concursos, na Logga Cursos Preparatórios, na Universidade Paulista (UNIP) e no Centro Universitário Senac, sendo membro do Núcleo Docente Estruturante (NDE) em ambas as instituições. É autora na Editora Saraiva e na Sol Editora e pesquisadora na área da docência no Ensino Superior, nas áreas do direito e da ciência contábil. Robson Ferreira Doutor em Direito pela Faculdade Autônoma de Direito (Fadisp) e mestre em Direitos Fundamentais pelo Centro Universitário Fieo (Unifieo). É bacharel em Direito pelo Unifieo e possui pós-graduação lato sensu em Direito Societário pelo Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper). Também é especialista em Direito Processual Penal pelo Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU). Possui MBA Executivo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pós-graduação em Mercado de Capitais pela Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV-EPGE) e em Sistemas de Informações pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Advogado inscrito na OAB/SP, atua na área empresarial consultiva, com 30 anos de experiência profissional em empresas de grande porte. Ygor Pierry Piemonte Ditão Doutor e mestre em Direito da Integração pela Universidade de São Paulo (USP). Especialista em Processo Civil pela Escola Superior de Advocacia e em Direito Civil pela Universidade Paulista (UNIP). Membro do Comitê Científico da Associação Brasileira de Direito Internacional e do Comitê Científico da Sociedade Brasileira de Direito Internacional. Parecista ad hoc da revista Direito Internacional e Globalização Econômica e da revista MISES: Interdisciplinary Journal of Philosophy, Law and Economics. Editor-assistente da revista Cadernos Prolam/USP. É professor de Direito Internacional Público, Direito Privado, Processo Civil e Filosofia na UNIP. Advogado e autor de diversos livros e artigos científicos publicados em revistas e coletâneas. © Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Universidade Paulista. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) S587i Silvestrin, Priscilla Silva. Instituições de Direito / Priscilla Silva Silvestrin, Robson Ferreira, Ygor Pierry Piemonte Ditão. – São Paulo: Editora Sol, 2026. 196 p., il. Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e Pesquisas da UNIP, Série Didática, ISSN 1517-9230. 1. Constituição Federal. 2. Direito Civil. 3. Noções Introdutórias. I. Ferreira, Robson. II. Ditão, Ygor Pierry Piemonte. III. Título. CDU 340.11 U524.18 – 25 Prof. João Carlos Di Genio Fundador Profa. Sandra Rejane Gomes Miessa Reitora Profa. Dra. Marilia Ancona Lopez Vice-Reitora de Graduação Profa. Dra. Marina Ancona Lopez Soligo Vice-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa Profa. Dra. Claudia Meucci Andreatini Vice-Reitora de Administração e Finanças Profa. M. Marisa Regina Paixão Vice-Reitora de Extensão Prof. Fábio Romeu de Carvalho Vice-Reitor de Planejamento Prof. Marcus Vinícius Mathias Vice-Reitor das Unidades Universitárias Profa. Silvia Renata Gomes Miessa Vice-Reitora de Recursos Humanos e de Pessoal Profa. Laura Ancona Lee Vice-Reitora de Relações Internacionais Profa. Melânia Dalla Torre Vice-Reitora de Assuntos da Comunidade Universitária UNIP EaD Profa. Elisabete Brihy Profa. M. Isabel Cristina Satie Yoshida Tonetto Material Didático Comissão editorial: Profa. Dra. Christiane Mazur Doi Profa. Dra. Ronilda Ribeiro Apoio: Profa. Cláudia Regina Baptista Profa. M. Deise Alcantara Carreiro Profa. Ana Paula Tôrres de Novaes Menezes Projeto gráfico: Revisão: Prof. Alexandre Ponzetto Bruna Baldez Ingrid Lourenço Fernanda Felix Instituições de Direito APRESENTAÇÃO ......................................................................................................................................................9 INTRODUÇÃO ........................................................................................................................................................ 10 Unidade I 1 NOÇÕES INTRODUTÓRIAS DE DIREITO ................................................................................................... 11 1.1 Conceito de direito .............................................................................................................................. 12 1.2 Origem e finalidade do direito ........................................................................................................ 14 1.3 Direito objetivo e direito subjetivo ................................................................................................ 20 1.4 Direito e moral ....................................................................................................................................... 22 2 CLASSIFICAÇÕES DO DIREITO ..................................................................................................................... 24 2.1 Ramos do direito .................................................................................................................................. 24 2.2 Fontes do direito ................................................................................................................................... 27 2.2.1 Fontes materiais ...................................................................................................................................... 29 2.3 A lei ............................................................................................................................................................ 34 2.3.1 Elementos e hierarquia da legislação ............................................................................................. 34 2.3.2 Vigência, cessação da obrigatoriedade, retroatividade ........................................................... 35 2.3.3 Processo legislativo ................................................................................................................................ 38 3 DIREITO CONSTITUCIONAL........................................................................................................................... 48 3.1 Noções introdutórias de direito constitucional ....................................................................... 48 3.2 Conceito e classificação ..................................................................................................................... 49 3.3 A Constituição ....................................................................................................................................... 51 3.4 O poder constituinte ........................................................................................................................... 53 3.5 Espécies de constituição .................................................................................................................... 54 3.6 Controle de constitucionalidade .................................................................................................... 57 3.7 Da organização nacional ...................................................................................................................de Competência, edição de Súmulas e julgamento de Recursos Especiais e Extraordinário Repetitivos –, os precedentes, apesar de fontes secundárias ou indiretas, encontram-se, doravante, em hierarquia superior às demais fontes por ser fundada em leis anteriores (EC 45/2004 e CPC 15 – Lei n. 13.105/2015) que impõem aos juízes futuros a observação da decisão anterior. A lei é soberana dentro de um Estado e, nesse sentido, sempre valerá como fonte do direito, ainda que conflite com a doutrina, com a jurisprudência e, em alguma medida, com os princípios e os costumes. Dizemos “em alguma medida” justamente porque, a nosso ver, alguns costumes, ainda que contra a lei, se mantêm, sob pena de ser injusta a aplicação da lei. Nesse caso, pode-se dizer que a lei cai em desuso. 29 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Alguns princípios também têm valor para além das leis, geralmente aqueles constitucionais, os quais podem e devem ser especificados pelo legislador, mas não podem por este ser afrontados. É o caso do princípio constitucional da legalidade. Pode o legislador legislar acerca de conteúdo antes não legislado, tornando punível o que antes era permitido; o que não pode é legislar no sentido de permitir que seja considerado ilícito aquilo que ainda não tenha sido assim declarado por lei. 2.2.1 Fontes materiais O direito deve obrigatoriamente refletir os anseios de determinada sociedade; caso contrário, não será representativo para aquelas pessoas. Nesse sentido, é valiosa a lição de Martins (2018, p. 34): “Fontes materiais são o complexo de fatores que ocasionam o surgimento de normas, envolvendo fatos e valores. São analisados fatores sociais, psicológicos, econômicos, históricos etc. São fatores reais que irão influenciar na criação da norma jurídica”. Somente nos regimes autoritários, como nas ditaduras, a lei é imposta pela força, pois busca legitimar um poder que não emana da vontade popular. Já nas sociedades democráticas, como na brasileira, a incumbência de elaborar as leis é dos representantes legislativos eleitos diretamente pelo povo para esse fim, que devem entender e fazer refletir nas leis os valores que são importantes para a sociedade ou, pelo menos, para alguns segmentos dela. Você já deve ter lido ou ouvido a notícia em algum meio de comunicação de que hoje, no Brasil, a sociedade discute temas importantes que precisam ser retratados através de novas leis ou modificações das leis já existentes. Podemos exemplificar: em relação à maioridade penal (idade a partir da qual uma pessoa pode ser responsabilizada penalmente), que hoje é de 18 anos, uma parcela da sociedade brasileira defende que seja reduzida para 16 anos. Como fazer para mudar? O poder legislativo é um dos três poderes do Estado, cuja função é legislar, ou seja, criar as leis que regulam o Estado. Mais adiante, será acentuado com detalhes como se dá o processo de elaboração das leis. É essencial entender que o poder legislativo é a principal via pela qual as leis são criadas e, portanto, a principal fonte do direito material. É bem verdade que o poder judiciário tem um papel vital, pois suas decisões – chamadas de jurisprudência – também se constituem numa valiosa fonte material de direito. Através da jurisprudência, que pode ser resumida de forma simples como o conjunto de decisões e interpretações feitas pelos tribunais dos textos legais, vale dizer, das leis, forma-se o entendimento do sentido das normas jurídicas em relação às situações de fato. Quando se trata das fontes formais do direito, o foco são as formas de criação do direito. Depois, entende-se as maneiras como esse direito se manifesta e os mecanismos para sua aplicação. É o que Campos (2018, p. 20) denomina “formas de expressão do direito” ou, também, “modos de manifestação da vontade social na expressão do direito”. 30 Unidade I A figura 5 destaca as fontes do direito, indicando sua origem e dando uma brevíssima explicação. Sã o as n or m as ju ríd ica s p ro du zid as p elo Es ta do , a tr av és d o Po de r L eg isl at iv o (F ed er al , E st ad ua l e M un ic ip al ) Sã o os re su lta do s d e es tu do s e pe sq ui sa s d os ju ris ta s, qu e sã o pu bl ic ad os p ar a au xi lia r a c ria çã o e in te rp re ta çã o da s l ei s É o es ta be le ci m en to d e um en te nd im en to p el os tr ib un ai s e se us ju íze s a tr av és d e re ite ra da s in te rc ep ta çõ es a ce rc a de u m a de te rm in ad a m at ér ia Fu nc io na m c om o le is en tr e as p ar te s, po is fo ra m p ac tu ad as li vr em en te , de sd e qu e de nt ro d os li m ite s l eg ai s Qu an do se a pl ic a pa ra u m c as o co nc re to o ut ra n or m a ju ríd ic a pr ev ist a pa ra o ut ra si tu aç ão , p or ém se m el ha nt e àq ue la Sã o ce rt as si tu aç õe s, há bi to s, co m po rt am en to s, pr át ic as e ex er cí ci os re ite ra da m en te pr at ic ad os p el o gr up o so ci al Sã o as g ra nd es id ei as q ue su st en ta m o di re ito , o u se ja , d ão b as e, co er ên ci a e co es ão a o di re ito p os iti vo (i) Leis (ii) Doutrina (iii) Jurisprudência (iv) Contratos Fontes formais do direito (v) Analogia (vi) Costumes (vii) Princípios gerais de direito Poder Legislativo Juristas Tribunais e juízes As partes (particulares) Fontes subsidiárias do direito em caso de omissões na lei Figura 5 – Fontes do direito Prosseguindo a análise, vamos detalhar as fontes do direito apresentadas para que você possa fixar melhor esse conteúdo. As leis, que são as normas jurídicas produzidas pelo Estado, são a principal fonte do direito, sem nenhuma dúvida. Vejamos as características das leis: • Abstração: dizemos que as leis são abstratas, ou seja, são geradoras de efeitos para o futuro. • Generalidade: as leis são dirigidas a todos e apresentam as consequências jurídicas relacionadas aos fatos por elas retratados de modo geral, ao contrário de uma sentença, que vincula as partes de forma objetiva e particular. • Estatalidade: significa dizer que as leis são elaboradas pelos órgãos do Estado e diferenciam-se dos costumes com fonte material do direito, posto que estes são forjados dentro da sociedade, ou seja, estão fora da órbita normativa do Estado. • Escrita: as leis são escritas e publicadas com a presunção de que serão conhecidas por todos os cidadãos. Também aqui temos uma diferença em relação aos costumes. • Novidade: as leis criam sempre direitos novos, mesmo nas hipóteses em que modificam direitos já existentes. 31 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Quanto à doutrina, destaca-se o seguinte: os juristas são estudiosos do direito que colaboram com seus estudos e pesquisas na definição e criação dos conceitos jurídicos, construção de teorias jurídicas e estruturação dos institutos jurídicos. Os resultados dos seus estudos são publicados e recebem a denominação de doutrina. A doutrina é, portanto, o conjunto do conhecimento criado, formulado e organizado pelos juristas e que serve como fonte do direito para intepretação das leis. Um jurista é um intérprete da lei, também conhecido como jurisconsulto, jurisperito e, ainda, jurisprudente. Atribui-se a origem desses termos ao sistema jurídico romano, que por volta do século IV a.C., ao tornar públicas as normas, teve a necessidade de interpretá-las. A função do jurista era estudar a lei e responder às consultas públicas, solucionando os casos que lhe eram apresentados. Saiba mais Um importante jurista brasileiro foi Augusto Teixeira de Freitas, cujos estudos tornaram-se veículo de expansão e consolidação do direito romano em regiões sul-americanas. Sua obra ultrapassou os limites de nosso país, repercutindo em outras nações e servindo a outros povos.Quer saber mais sobre a obra de Teixeira de Freitas e a sua importância no ordenamento jurídico brasileiro? Leia o artigo de Silvio Meira: MEIRA, S. O jurisconsulto Augusto Teixeira de Freitas em face do direito universal. Revista de Ciência Política, v. 31, n. 4, p. 1-10, 1988. Disponível em: https://cutt.ly/Ewk1tFOu. Acesso em: 12 nov. 2025. A sistematização e a categorização feitas pela doutrina, isto é, pelos juristas, dão origem ao agrupamento de todos os conceitos, institutos e teorias em forma de disciplinas jurídicas ou ramos de direito. A jurisprudência é o estabelecimento de um entendimento pelos tribunais e seus juízes através de reiteradas interpretações acerca de uma determinada matéria. Dizendo de forma simples: passa a ser obrigatório reconhecer que o mesmo entendimento será produzido para uma nova causa na justiça que aborde a mesma matéria em juízo, porque já foi várias vezes analisada para a mesma situação em outros processos e decidida da mesma maneira. Vale acentuar um exemplo: é uma exigência do Código Nacional de Trânsito (Brasil, 1997) que os motoristas guardem uma distância segura do veículo da frente. Ocorrendo uma colisão na traseira de um carro, na maioria dos casos, salvo raríssimas exceções, a culpa é do motorista que bateu na traseira. Portanto, podemos dizer que a jurisprudência – o entendimento reiterado dos tribunais nas inúmeras causas que chegam até o judiciário no qual os motoristas do carro da frente pedem indenização – é de que a culpa realmente é do motorista de trás. 32 Unidade I Os contratos são as leis entre as partes. Portanto, estando os contratos dentro dos limites fixados pela lei, constituem-se num conjunto de direito e obrigações a serem exigidos dos contratantes, haja vista que tais condições, inclusive as cláusulas que estipularam multas pelo inadimplemento de certas cláusulas, foram pactuadas livremente. Nada mais justo que tenham força de lei, entre as partes, tornando-se por isso legítimas fontes do direito. A analogia é outro termo que deve ser acentuado, pois nem todas as situações estão previstas na lei. É impossível que os legisladores prevejam todos os casos que possam ocorrer na sociedade e registrem tudo em leis absolutas. Se você concorda com essa afirmação, entende que existem situações que precisam ser julgadas e que não há na lei a previsão daquela hipótese. Você deve estar se perguntando: e quando não há previsão na lei, como é que o juiz decide? Bem, estamos diante de uma lacuna na lei, quando o juiz está autorizado pelo art. 4º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB) a utilizar a analogia como uma das possibilidades para superar a omissão da lei. Veja a seguir o texto legal em questão: “Art. 4º Quando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais de direito” (Brasil, 1942). Ao lado dela vemos, também, a disposição do art. 140, parágrafo único do CPC 15, que adverte que o juiz, mesmo quando essas fontes lhe faltarem, poderá socorrer-se da chamada equidade, pois “o juiz não se exime de decidir sob a alegação de lacuna ou obscuridade do ordenamento jurídico” (Brasil, 2015), de modo que é defesa ao Poder Judiciário a chamada decisão non liquet, ou seja, a decisão “não decido” por ausência de lei ou outras fontes. O juiz aplicará ao caso concreto que estiver julgando uma outra norma jurídica prevista para outra situação, porém semelhante, análoga àquela que se apresenta esquecida ou omitida pela legislação. O emprego da analogia no direito é bastante fácil de ser entendido. Observe o exemplo dado pelo professor Damásio de Jesus (1998, p. 4, apud Carride, 2004, p. 160): A analogia consiste em aplicar uma hipótese não prevista em lei a disposição relativa a um caso semelhante. O legislador, por meio da lei A, regulou o fato B. O julgador precisa decidir o fato C. Procura e não encontra no direito positivo uma lei adequada a este fato. Percebe, porém, que há pontos de semelhança entre o fato B (regulado) e o fato C (não regulado). Então, por analogia, aplica ao fato C a lei A. Assim, nota-se que, quando um julgador emprega a analogia, ele está fazendo uma análise por semelhança, o que ficou bem claro com o exemplo anterior. Entretanto, existem restrições para o emprego da analogia no direito penal. Admite-se empregá-la desde que seja para beneficiar o acusado; não existe analogia de norma penal incriminadora, ou seja, nunca para agravar a pena do acusado. Os costumes surgem da vontade social exteriorizada pela prática reiterada (repetidas vezes) de certas situações, hábitos, comportamentos, práticas e exercícios. Tenha em mente que os costumes não são mais importantes que a lei, pois, caso surja um conflito entre uma lei e um costume, é certo que prevalecerá a lei. 33 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Para que você possa avaliar melhor esse ponto, daremos dois exemplos de previsões legais que incluem os costumes como fonte do direito: uma no Código Civil e outra no Código de Defesa do Consumidor. No Código Civil, em seu artigo 1.638, estão previstas as hipóteses em que o pai ou a mãe poderá perder o poder de família, que é a capacidade atribuída aos pais de gerir a vida e os bens dos filhos menores. Veja pelo texto da lei transcrito a seguir que no inciso III existe a previsão para os casos de violação dos bons costumes: Art. 1.638. Perderá por ato judicial o poder familiar o pai ou a mãe que: I – castigar imoderadamente o filho; II – deixar o filho em abandono; III – praticar atos contrários à moral e aos bons costumes; IV – incidir, reiteradamente, nas faltas previstas no artigo antecedente; V – entregar de forma irregular o filho a terceiros para fins de adoção (Brasil, 2002a, grifo nosso). No artigo 7º do Código de Defesa do Consumidor, excerto a seguir, faz-se explicitamente a menção dos costumes como forma de direito. Art. 7º Os direitos previstos neste código não excluem outros decorrentes de tratados ou convenções internacionais de que o Brasil seja signatário, da legislação interna ordinária, de regulamentos expedidos pelas autoridades administrativas competentes, bem como dos que derivem dos princípios gerais do direito, analogia, costumes e equidade (Brasil, 1990b). Pela leitura do artigo 7º, observa-se que a própria lei autoriza a utilização dos costumes sociais como uma fonte do direito para além das condições previstas no próprio Código de Defesa do Consumidor. Assim, a lei está informando textualmente que as práticas, os hábitos e as condutas costumeiras da sociedade também estão protegidos por essa lei, apesar de não estarem escritos em lugar algum. Por fim, é preciso ilustrar os princípios gerais de direito, que são as grandes ideias que sustentam o direito, ou seja, que dão base, coerência e coesão ao direito positivo, apoiados pelo ideário de justiça, de igualdade, de liberdade, de dignidade, da democracia etc. Portanto, são conceitos fundamentais e de caráter geral que se ramificam para todas as áreas do direito. 34 Unidade I 2.3 A lei O conceito de lei é uma norma escrita elaborada por órgão competente, com forma estabelecida, pela qual as regras jurídicas são criadas, modificadas ou extintas. Há uma organização para compreender melhor os seus aspectos e as suas diretrizes. Observação Você sabia que na França é crime desdenhar da experiência histórica? Trata-se do conceito de lei memorial (Loi mémorielle), que, na França, presta-se a fazer uma declaração histórica de qualificação jurídica de determinado fato relevante. Devido à reprobabilidade da conduta e à importância de reconhecer esses crimes para as futuras gerações é que a lei memorial se faz presente. O objetivo é fazer uma reflexão sobre os acontecimentos históricos, como o genocídio e a escravatura, para que esses crimes contra a humanidade jamais voltem a ocorrer. No Brasil, há uma lei geral que organiza e sistematiza o direito brasileiro. Trata-se da LINDB, que é a Lei n. 12.376/2010(Brasil, 2010). Contudo, nem sempre houve uma lei específica para organizar e sistematizar o direito; era a antiga Lei de Introdução ao Código Civil de 1916 que se aplicava a todas as leis. Ocorre que o Código Civil de 1916 foi substituído pelo Código Civil de 2002, e, com a revogação do Código, foi necessário elaborar uma nova norma de orientação legal. Assim nasceu a LINDB, que engloba normas aplicáveis não só ao campo civil, mas ao direito privado e ao direito público, além de inovar em vários campos da aplicação do direito, como o princípio da lei domiciliar como reguladora da capacidade civil, dos direitos de família, da relação entre os cônjuges e da sucessão legítima ou testamentária. 2.3.1 Elementos e hierarquia da legislação Para Kelsen (1998), o ordenamento jurídico forma uma verdadeira unidade, que tem sua validez na constituição estatal. A figura 6 mostra uma visão geral de todas as normas que compõem o ordenamento jurídico brasileiro. De forma geral, as leis não têm a mesma força, pois, apesar de formarem um todo coeso, coerente e harmonioso, algumas são mais importantes que outras, como é o caso da CF. É certo afirmar que a CF é a lei mais importante do Brasil. Ela estabelece todos os princípios e mecanismos necessários para a organização e o funcionamento do Estado brasileiro. A CF é a principal lei do país, e todas as demais leis devem estar em conformidade com todas as suas disposições; caso contrário, essa lei será considerada inconstitucional. 35 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Constituição Federal e suas emendas Leis Exemplos: leis complementares; leis ordinárias (federais, estaduais, municipais etc.) Medidas provisórias Decretos Força da lei Figura 6 – Hierarquia das leis: modelo simplificado É comum observar no noticiário que será julgada no Supremo Tribunal Federal (STF) a constitucionalidade de uma lei. Portanto, quando a sociedade tem dúvidas se uma determinada lei ou parte dela está ou não obedecendo à Constituição, cabe ao STF decidir essa questão. O STF é, portanto, o único órgão do poder judiciário com poderes para declarar a lei ou um dos seus dispositivos constitucional ou inconstitucional, isto é, se está em conformidade ou inconformidade com a CF, respectivamente. Observação A Constituição diz que compete ao STF, precipuamente, a guarda da Constituição. Assim, o STF ganhou o apelido de guardião da Constituição. 2.3.2 Vigência, cessação da obrigatoriedade, retroatividade O significado da palavra “vigência” é derivado do latim, vigens, de vigere (estar em voga, vigorar), e é empregado no mesmo sentido de vigor, força, eficácia. A vigência revela a qualidade ou o estado do que está em vigor, que permanece efetivo, exerce toda a sua força. A vigência da lei é a que ainda se mantém em voga, para ser efetivamente aplicada aos casos sob seu regime (Silva, 2003). Com essas definições em mente, podemos dizer que, juridicamente, a vigência de uma lei é o período de tempo de sua validade; de outra forma, o período de tempo que produz efeitos, que tem eficácia. Geralmente, a lei traz no seu próprio texto a data estabelecida para que comece a valer, que pode ser na data da sua publicação ou outra data qualquer futura. 36 Unidade I É preciosa a lição do saudoso professor Caio Mário da Silva Pereira, que explica essas duas hipóteses: A fixação do início da vigência de uma lei deve ser buscada primeiramente nela própria, quando em disposição especial o estipula: ora estatui que entra em vigor na sua mesma data de publicação, caso em que não ocorre qualquer tempo intermédio, produzindo seus efeitos no mesmo dia em que é estampada no Diário Oficial, e a partir de então sujeitando todos os indivíduos ao seu império; ora estabelece uma data especialmente designada como momento inicial da sua eficácia, caso em que não há cogitar de nenhuma regra abstrata ou teórica, senão de aguardar a chegada do dies a quo. A escolha de uma ou de outra determinação é puramente arbitrária para o legislador, que se deixa naturalmente levar por motivos de conveniência. Faz coincidir a data da publicação e a entrada em vigor quando entende desaconselhável ao interesse público a existência de um tempo de espera. Ao contrário, estipula uma data precisa, e mais remota, para aquelas leis que, pela importância, pela alteração sobre o direito anterior, pela necessidade de maior estudo e mais ampla divulgação, reclamam se estenda no tempo a data de início da eficácia [...] (Pereira, 1976, p. 110-111). Nessa segunda hipótese, quando o texto da própria lei estabelece uma data futura à sua publicação para começar a valer, haverá um lapso temporal entre a data de publicação e a data de início da vigência da lei. Esse período é chamado de vacância da lei. Observação Vacatio legis é a expressão em latim usada no mundo jurídico para dizer que a lei ainda não está em vigor, ou seja, está vaga. Caso o texto da lei não traga nenhuma previsão sobre sua vigência, ou seja, o prazo para sua entrada em vigor, aplica-se a previsão do artigo 1º da LINDB, que diz textualmente: “Salvo disposição contrária, a lei começa a vigorar em todo o país 45 (quarenta e cinco) dias depois de oficialmente publicada” (Brasil, 1942). Concluímos facilmente que, não havendo previsão expressa no texto da lei, ela passará a valer decorridos 45 dias da sua publicação. É fundamental entender quando uma lei entra em vigência. O quadro 4 resume o que foi tratado. 37 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Quadro 4 – Vigência da lei no tempo O que diz o texto da lei Data da vigência da lei Observação Quando o texto da lei especifica que entrará em vigor na data de sua publicação Vigência imediata na data da sua publicação A publicação deve ser oficial, ou seja, no Diário Oficial. Não bastam notícias nos meios de comunicação Quando o texto da lei estabelece uma data futura à sua publicação Na data ou decorrido o prazo estabelecido para sua vigência após a data da sua publicação O período de tempo entre a data da publicação da lei e a sua efetiva entrada em vigor é denominado vacância da lei (vacatio legis) Quando o texto da lei se omite e não traz nenhuma disposição acerca da sua vigência 45 dias após a data da publicação no Diário Oficial Conforme previsão do artigo 1º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB) Exemplo de aplicação Pense em uma lei que proíba o comércio de cigarros em um raio de um quilômetro de qualquer escola. Estando válida, a lei estará vigente tão logo possa produzir efeitos. Pode ser que o próprio legislador indique o tempo necessário para que a lei entre em vigência ou pode ser que se siga a regra geral de 45 dias a partir de sua promulgação (conforme art. 1º da LINDB). De qualquer modo, imaginando que o legislador faça a lei vigorar a partir de sua publicação, então estará apta a produzir efeitos. Entretanto, no Brasil, há muitos anos ninguém comercializa cigarros perto da escola. Nesse caso, a lei continuará vigente, mas não produzirá efeitos – apenas estará apta a produzi-los. Se for o caso de amanhã alguém tentar vender cigarros em um raio inferior a um quilômetro de uma escola, deverá lhe ser aplicada sanção prevista nessa suposta lei. Cessa a obrigatoriedade da lei, ou seja, cessa sua vigência, quando revogada implícita ou explicitamente por outra lei. Pode se dar, portanto, duas hipóteses: ou uma lei posterior contradiz uma anterior, revogando-a implicitamente, ou uma lei revoga expressamente outra lei, fazendo menção a ela. É o caso do Código Civil de 2002, que em seu corpo revoga as disposições do Código Civil de 1916. A regra acerca da temporalidade das leis é a de irretroatividade. Assim, uma lei vigente a partir de hoje não estende seus efeitos ao passado para atingir fatos ocorridos anteriormente à sua vigência; exceção feita à lei penal, quando em benefício do réu (conforme art. 5º, inciso XL, da Constituição Federal de 1988). A irretroatividade da lei decorre da necessidade de segurançajurídica, sob pena de todas as condutas humanas estarem sujeitas ao arbítrio do legislador. Se a lei retroagisse, seria o caso de se anular, invalidar ou desconstituir todo e qualquer ato anterior à nova lei que com ela conflitasse. Para evitar a produção dessa teratologia jurídica, optou-se por tornar irretroativa a lei. De uma forma simples, pode-se concluir que a vigência de uma lei é o seu prazo de validade, que se inicia na data da sua publicação, ou decorrido o prazo de vacância da lei, quando houver, e passa a vigorar por tempo indeterminado, até que em data futura desconhecida seja revogada por outra lei, que passa a vigorar em seu lugar; nessa data, terá chegado ao fim a sua validade e eficácia. 38 Unidade I 2.3.3 Processo legislativo O processo legislativo brasileiro está contemplado dentro da CF, iniciando no art. 59 e terminando no art. 69. Como você já sabe, existem diversas espécies de lei, e cada uma tem sua função no direito, sendo utilizada para regulamentar as condutas de grupos de pessoas. O nosso processo legislativo compreende a elaboração das seguintes espécies normativas: • Emendas à Constituição. • Leis complementares. • Leis ordinárias. • Leis delegadas. • Medidas provisórias. • Decretos legislativos. • Resoluções. Você pode estar se perguntando: e o decreto-lei? Em resposta, é importante informar que atualmente o nosso ordenamento jurídico não permite mais a criação dos chamados decretos-leis. Os que existem hoje são os decretos-leis que já existiam e que não afrontam de nenhum modo a CF. Essa situação se refere ao processo de recepção das normas. Diz-se que a legislação foi recepcionada pela CF, ou seja, não a afronta. Observação As únicas espécies normativas que dependem de sanção presidencial são a lei ordinária e a lei complementar. As demais dispensam sanção presidencial para começar a vigorar. Emenda constitucional As legislações devem refletir a sociedade na qual elas estão inseridas. Há, por óbvio, evolução na sociedade, e, portanto, é necessário mudar as legislações, para adequá-las às necessidades sociais. Assim, existem formas de mudar as legislações, e é essa a função da emenda constitucional. As emendas à Constituição estão relacionadas ao poder constituinte derivado reformador, o qual está sujeito a uma série de limites para preservar a segurança jurídica. Esses limites podem ser limites expressos, quando a própria lei limita, ou limites implícitos, ou seja, que dependem de interpretação. 39 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Observe a figura 7. Expressos Implícitos Circunstâncias Materiais – cláusulas pétreas Formais Iniciativa Promulgação Estado de defesa Quórum Intervenção federal Estado de sítio Figura 7 Os limites expressos para a criação de uma emenda constitucional são classificados em formais, circunstanciais e materiais. Vamos iniciar nossos estudos pelos limites formais, que se dividem em iniciativa, quórum e promulgação. A iniciativa é dada nos termos do art. 60, I, II e III da Constituição (Brasil, 1988), que determina que a Constituição poderá ser emendada mediante proposta dos seguintes membros: • de um terço, no mínimo, dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal; • do presidente da República; • de mais da metade das assembleias legislativas das unidades da Federação, manifestando-se, cada uma delas, pela maioria relativa de seus membros. Depois de proposta a emenda constitucional, ela será discutida e votada em cada casa do Congresso Nacional, em dois turnos, considerando-se aprovada se obtiver, em ambos, três quintos dos votos dos respectivos membros. Nessa fase de discussão e votação, é necessário que a maioria decida aprovar a emenda constitucional. Ela exige aquilo que chamamos de maioria absoluta. Maioria absoluta é o primeiro número inteiro acima da metade dos membros da casa legislativa, mas se trata da metade dos membros; ou seja, mesmo quem não for, conta. Para ficar claro, temos como exemplo a Câmara dos Deputados Federais, que tem 513 membros. Sua maioria absoluta será sempre de 257 votos, enquanto a maioria simples pode variar de acordo com os presentes. 40 Unidade I A promulgação é o instrumento que declara a existência da lei e ordena sua execução. Emendas constitucionais são promulgadas pelas mesas da Câmara e do Senado, em sessão solene do Congresso. A promulgação das leis complementares e ordinárias é feita pelo presidente da República e ocorre simultaneamente à sanção. Assim, a emenda à Constituição será promulgada pelas mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, com o respectivo número de ordem, e não pelo presidente. Confira na figura a seguir o trâmite da emenda constitucional: As PECs iniciadas e aprovadas na SF vão para a CD como Casa Revisora As PECs iniciadas e aprovadas na CD vão para a SF como Casa Revisora Câmara dos Deputados (CD) Senado Federal (SF) (1.1) Análise da Comissão de Constituição e Justiça (1.2) Análise da Comissão Especial e Temporária criada pela CCJ (1.3) Discussão e votação no Plenário (2.2) Discussão e votação no Plenário (2.1) Análise da Comissão de Constituição e Justiça (1.4) Aprovada? (3.1) Passou pela Casa Revisora? (3.2) Foi modificada? (2.3) Aprovada? Modificada pelo SF volta para reanálise da CD (1.5) PEC arquivada (2.4) PEC arquivada (3.3) Promulgação e publicação da PEC Apresentação da PEC Modificada pelo CD volta para reanálise da SF Sim Sim SimSim Sim Não Não Não Não Vo ta çã o em 2 tu rn os Votação em 2 turnos Figura 8 – Fluxograma de tramitação da PEC 41 INSTITUIÇÕES DE DIREITO A CF (Brasil, 1988), no art. 60, § 5º, determina que a matéria constante de proposta de emenda rejeitada ou havida por prejudicada não pode ser objeto de nova proposta na mesma sessão legislativa. Mas você sabe o que é sessão legislativa? Segundo o Glossário de termos legislativos (Senado Federal, 2018), a sessão legislativa ordinária é o período de atividade normal do Congresso a cada ano, de 2 de fevereiro a 17 de julho e de 1º de agosto a 22 de dezembro. Cada quatro sessões legislativas, a contar do ano seguinte ao das eleições parlamentares, compõem uma legislatura. Já a sessão legislativa extraordinária compreende o trabalho realizado durante o recesso parlamentar, mediante convocação. Cada período de convocação constitui uma sessão legislativa extraordinária. Os limites expressos circunstanciais para a criação de uma emenda constitucional são situações em que a CF torna-se imutável, ou seja, não pode ser alterada. As hipóteses em que a Constituição não pode ser emendada são durante a vigência de excepcionalidades circunstanciais, que exige do governo algumas medidas que busquem restabelecer ou garantir a continuidade da normalidade constitucional que está ameaçada. As medidas são as seguintes: • A intervenção federal representa uma situação de anormalidade, quando é permitida a suspensão temporária da autonomia de um estado da Federação. Sendo um estado de exceção, a intervenção federal só pode ser acionada em casos específicos e quando não houver outra medida capaz de solucionar a questão. • O estado de defesa busca, nos termos da Constituição, preservar ou prontamente restabelecer a ordem pública ou a paz social. Nesse sentido, a Constituição prevê duas hipóteses de ameaça: a grave e iminente instabilidade institucional ou calamidades de grandes proporções na natureza. • O estado de sítio pode ser acionado em três hipóteses, com aplicações diferentes (Brasil, 1988): comoção grave de repercussão nacional (inciso I, primeira parte); fatos que comprovem a ineficácia de medida tomada durante o estado de defesa (inciso I, parte final); e declaração de estado de guerra ou resposta à agressão armada estrangeira (inciso II). São limites expressos materiais para a criação de uma emenda constitucional aquilo que chamamos de cláusulas pétreas, que são: • A forma federativa de Estado: o Brasil possui uma organizaçãocomposta por diversas entidades territoriais autônomas dotadas de governo próprio, que são os Estados. • O voto direto, secreto, universal e periódico: chamado de sufrágio universal. • A separação dos poderes: executivo, legislativo e judiciário, independentes e harmônicos entre si. • Os direitos e as garantias individuais: são direitos garantidos, hoje, a todos os seres humanos, enquanto indivíduos de direito, intimamente ligados às concepções de direitos humanos. 42 Unidade I São limites implícitos aqueles que não podem ser alterados, ainda que não escritos expressamente dentro da constituição; ou seja, decorrem da interpretação. O exemplo é que não pode ser alterado o titular do poder constituinte, que é sempre o povo. Outro limite implícito é que os limites expressos, ou explícitos, não podem ser modificados. Leis complementares Existem alguns assuntos que só podem ser tratadas por lei complementar. Por isso, alguns doutrinadores entendem que há uma hierarquia entre as leis complementares e as leis ordinárias. Contudo, não se trata propriamente de uma hierarquia, mas de uma reserva legislativa. Assim, cada espécie normativa trata de um assunto. Uma lei complementar serve como um complemento a uma norma constitucional que a exija e também se presta a fixar a cooperação entre os entes federados, sendo eles União, Estados, Distrito Federal e Municípios. Um exemplo de lei complementar é o Código Tributário Nacional (CTN), que é a Lei n. 5.172/1966. O CTN trata de diversos assuntos relativos ao direito tributário, o qual regula a arrecadação tributária nacional, nos termos do art. 146 da CF (Brasil, 1988): Art. 146. Cabe à lei complementar: I – dispor sobre conflitos de competência, em matéria tributária, entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios; II – regular as limitações constitucionais ao poder de tributar; III – estabelecer normas gerais em matéria de legislação tributária, especialmente sobre: a) definição de tributos e de suas espécies, bem como, em relação aos impostos discriminados nesta Constituição, a dos respectivos fatos geradores, bases de cálculo e contribuintes; b) obrigação, lançamento, crédito, prescrição e decadência tributários; c) adequado tratamento tributário ao ato cooperativo praticado pelas sociedades cooperativas; d) definição de tratamento diferenciado e favorecido para as microempresas e para as empresas de pequeno porte, inclusive regimes especiais ou simplificados no caso do imposto previsto no art. 155, II, das contribuições previstas no art. 195, I e §§ 12 e 13, e da contribuição a que se refere o art. 239. 43 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Para que a Câmara dos Deputados ou o Senado Federal vote leis complementares e leis ordinárias, é necessária a presença da maioria absoluta dos membros no local onde o projeto de lei está sendo votando. Quando a quantidade de membros presentes for verificada, é importante analisar a quantidade de votos, pois as leis complementares necessitam de uma maioria absoluta de votos, enquanto as leis ordinárias necessitam de uma maioria simples ou relativa de votos. Lembrete Maioria simples é a metade da maioria dos presentes. Maioria absoluta é a metade do quórum máximo. A nossa constituição determina que, exceto alguma disposição constitucional em contrário, as deliberações de cada casa e de suas comissões serão tomadas por maioria dos votos, presente a maioria absoluta de seus membros. Leis ordinárias A lei ordinária é uma espécie normativa mais comum e, por isso, leva o nome de ordinária. A lei ordinária está prevista na CF, que, como você já sabe, edita normas de forma geral e abstrata. A competência material, ou seja, do que tratam as leis ordinárias, é residual, pois podem elas dispor sob qualquer matéria, com exceção das que estão reservadas às leis complementares e aos assuntos internos do Congresso Nacional, que devem ser regulados por decretos e resoluções. As leis ordinárias são consideradas atos normativos primários, ou seja, criam, modificam e extinguem direitos, seguindo um processo legislativo e preceitos expressos diretamente na CF. Segundo o STF, não existe hierarquia entre leis complementares e leis ordinárias; todas devem ser obedecidas. No entanto, a reserva de matéria tem as seguintes consequências: uma lei materialmente complementar não pode ser revogada por lei ordinária (considerando que esta não pode legislar sobre aqueles assuntos), mas uma lei complementar sempre pode revogar uma lei ordinária. Para que uma lei complementar seja aprovada, é necessário que a maioria absoluta, ou seja, mais da metade dos membros do Congresso Nacional, seja favorável ao projeto. O projeto de lei ordinária é o documento que inicia o processo legislativo para que uma lei ordinária seja criada ou alterada. Processo legislativo é o conjunto de todas as fases que são necessárias para que um projeto de lei seja aprovado, desde a proposta até a fase de votação. 44 Unidade I Segundo o artigo 61 da CF (Brasil, 1988), a iniciativa das leis ordinárias cabe: • a qualquer membro ou comissão da Câmara dos Deputados; • a qualquer membro do Senado Federal ou do Congresso Nacional; • ao presidente da República; • ao STF; • aos Tribunais Superiores; • ao procurador-geral da República. Ainda, existe uma hipótese diferente, que é a iniciativa para a elaboração de uma lei ordinária pelos cidadãos através de ação popular. É o que chamamos de lei de inciativa popular. Para que essa iniciativa seja considerada válida, é necessária a assinatura de, no mínimo, 1% do eleitorado do país, distribuído pelo menos por cinco estados, com não menos de 0,3% dos eleitores de cada um deles. Leis delegadas A lei delegada é uma lei equiparada à lei ordinária. A competência para a sua elaboração é do presidente da República, desde que haja pedido e delegação expressa do Congresso Nacional. A delegação é efetivada por resolução, na qual conste o conteúdo juntamente com os termos do exercício dessa atribuição. A lei delegada tem restrições e não pode ter como seu objeto, por exemplo, as seguintes matérias: atos de competência exclusiva do Congresso Nacional; matéria reservada à lei complementar; legislação sobre planos plurianuais; diretrizes orçamentárias e orçamentos, conforme os artigos 59 (inciso IV) e 68, ambos da CF. Medidas provisórias As medidas provisórias são uma espécie normativa privativa do presidente da República que possui força de lei, devendo ser observados os pressupostos constitucionais de relevância e urgência, sob pena de inconstitucionalidade. As medidas provisórias, ressalvado o disposto nos §§ 11 e 12, perderão eficácia, desde a edição, se não forem convertidas em lei no prazo de sessenta dias, prorrogável, nos termos do § 7º, uma vez por igual período. O trâmite da medida provisória começa com a edição dela pelo presidente da República, que a encaminha para a Câmara dos Deputados e, depois, ao Senado Federal. Assim, mesmo sem que o poder legislativo analise a medida provisória, ela começa a vigorar com força de lei. Essa medida se justifica em razão dos pressupostos de relevância e urgência e, se é urgente, deve ser cumprida de imediato pelos cidadãos. 45 INSTITUIÇÕES DE DIREITO A diferença da medida provisória é que ela começa a valer assim que publicada. Depois, ela segue o mesmo rito do processo legislativo, porque a ideia é que a medida provisória se converta em lei. Lembrete O STF é o órgão de cúpula do poder judiciário, e a ele compete, precipuamente, a guarda da Constituição, conforme definido no art. 102 da Constituição da República (Brasil, 1988). Talvez você se questione se o poder judiciário pode ou não decretar a inconstitucionalidade de uma medida provisória. A resposta é que o poder judiciário somente poderá decretar a inconstitucionalidade de uma medida provisória se ela descumprir os requisitos de relevância e urgência na sua edição. Já sabemos que a lei começa a viger em 45 (quarenta e cinco)dias contados da sua publicação, caso ela mesma não estipule prazo diferente. No caso da medida provisória é diferente, porque ela perde a eficácia em 60 (sessenta) dias. Acontece que, muitas vezes, o Congresso Nacional não consegue apreciar tudo nesse prazo. É por isso que o legislador determinou que esse prazo de 60 (sessenta) dias pode ser prorrogado, uma única vez, por mais 60 (sessenta) dias. Assim, o prazo máximo da vigência de uma medida provisória sem que haja apreciação do poder legislativo é de 120 (cento e vinte) dias. Observação O prazo das medidas provisórias fica suspenso durante os períodos de recesso do Congresso Nacional. Outra questão importante sobre a medida provisória é o que se chama de regime de urgência, o qual ocorre quando se passam 45 (quarenta e cinco) dias da edição e publicação da medida provisória sem que ela tenha sido objeto de votação. Então, todas as outras questões que deveriam ser apreciadas pelo Congresso são paralisadas, e a medida provisória ultrapassa as outras pautas. No jargão legislativo, diz-se que “trancou a pauta” para forçar que os parlamentares apreciem a medida provisória. Suponha que a medida tenha sido apreciada pelo Congresso e ele não delibere pela conversão da medida provisória em lei. O que acontece? Primeiramente, ela perde os seus efeitos normativos; depois, ela não pode mais ser editada na mesma sessão legislativa. Isso ocorre porque a medida provisória é uma excepcionalidade do poder executivo, cuja função é executar as leis decididas pelo legislativo, e, portanto, essa excepcionalidade está sujeita a uma série de restrições materiais. 46 Unidade I Confira a seguir as vedações materiais da medida provisória, ou seja, os assuntos que não podem ser tratados em medida provisória (conforme o art. 62 da Constituição Federal de 1988): • Nacionalidade, cidadania, direitos políticos, partidos políticos e direito eleitoral. • Direito penal, processual penal e processual civil. • Organização do poder judiciário e do Ministério Público, carreira e garantia de seus membros. • Planos plurianuais, diretrizes orçamentárias, orçamento e créditos adicionais e suplementares, ressalvado o previsto no art. 167, § 3º, que vise à detenção ou aos sequestros de bens, de poupança popular ou qualquer outro ativo financeiro. • Reservada a lei complementar. • Já disciplinada em projeto de lei aprovado pelo Congresso Nacional e pendente de sanção ou veto do presidente da República. Como você pode perceber, a medida provisória é algo excepcional dentro do ordenamento jurídico e serve apenas quando há relevância e urgência. Decretos legislativos Os decretos legislativos, conforme o Senado Federal (2018), servem para regular matérias de competência exclusiva do Congresso, tais como: ratificar atos internacionais; sustar atos normativos do presidente da República; julgar anualmente as contas prestadas pelo chefe do governo; autorizar o presidente da República e o vice-presidente a se ausentarem do país por mais de 15 dias; apreciar a concessão de emissoras de rádio e televisão; autorizar em terras indígenas a exploração e o aproveitamento de recursos hídricos e a pesquisa e lavra de recursos minerais. Convém ressaltar que os decretos legislativos também podem ser utilizados pelos poderes legislativos de todas as unidades federativas, ou seja, aplicam-se também aos Estados, aos Municípios e ao Distrito Federal. Outra particularidade dos decretos legislativos é que, em razão da matéria que tratam, não dependem de aprovação do chefe do poder executivo – prefeito, governador ou presidente. A Constituição aponta que é da competência exclusiva do Congresso Nacional: • Resolver definitivamente sobre tratados, acordos ou atos internacionais que acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional. • Autorizar o presidente da República a declarar guerra, a celebrar a paz, a permitir que forças estrangeiras transitem pelo território nacional ou nele permaneçam temporariamente, ressalvados os casos previstos em lei complementar. 47 INSTITUIÇÕES DE DIREITO • Autorizar o presidente e o vice-presidente da República a se ausentarem do país, quando a ausência exceder 15 dias. • Aprovar o estado de defesa e a intervenção federal, autorizar o estado de sítio ou suspender qualquer uma dessas medidas. • Sustar os atos normativos do poder executivo que exorbitem do poder regulamentar ou dos limites de delegação legislativa. • Mudar temporariamente sua sede. • Fixar idêntico subsídio para os deputados federais e os senadores, observado o que dispõem os arts. 37, XI, 39, § 4º, 150, II, 153, III, e 153, § 2º, I. Resoluções As resoluções são atos normativos que regulam matérias da competência privativa da casa legislativa, de caráter político, processual, legislativo ou administrativo. Observação As resoluções não podem contrariar os regulamentos e os regimentos, mas explicá-los. Essa espécie normativa pertence aos atos administrativos normativos, pois está relacionada apenas a atos do governo em face dos particulares. Assim, as resoluções partem de autoridades superiores e disciplinam a matéria de sua competência específica. A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), por exemplo, define uma lista de consultas, exames e tratamentos, denominada Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde, que os planos de saúde são obrigados a oferecer, conforme cada tipo de plano – ambulatorial, hospitalar com ou sem obstetrícia, referência ou odontológico. Outro exemplo possível é a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) n. 33, de 3 de junho de 2008, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa, 2008), que aprova o regulamento técnico para planejamento, programação, elaboração, avaliação e aprovação dos sistemas de tratamento e distribuição de água para hemodiálise, visando à defesa da saúde dos pacientes e dos profissionais envolvidos. Como você pode perceber, as resoluções são instrumentos importantes de normatização administrativa dos órgãos técnicos do governo. 48 Unidade I Saiba mais A Secretaria da Receita Federal do Brasil é um órgão específico, singular, subordinado ao Ministério da Economia, que exerce funções essenciais para que o Estado possa cumprir seus objetivos. É responsável pela administração dos tributos de competência da União, inclusive os previdenciários, e dos incidentes sobre o comércio exterior, abrangendo parte significativa das contribuições sociais do país. Também subsidia o Poder Executivo federal na formulação da política tributária brasileira, previne e combate a sonegação fiscal, o contrabando, o descaminho, a pirataria, a fraude comercial, o tráfico de drogas e de animais em extinção e outros atos ilícitos relacionados ao comércio internacional. A Secretaria da Receita Federal do Brasil também produz diversas espécies normativas, com a finalidade de garantir a arrecadação necessária ao Estado, com eficiência e aprimoramento do sistema tributário, contribuir para a melhoria do ambiente de negócios e da competitividade do país e garantir segurança e agilidade no fluxo internacional de bens, mercadorias e viajantes. Para saber mais sobre as normas da Secretaria da Receita Federal do Brasil, acesse o site. Disponível em: http://normas.receita.fazenda.gov.br. Acesso em: 11 nov. 2025 3 DIREITO CONSTITUCIONAL 3.1 Noções introdutórias de direito constitucional Este tópico irá apresentar elementos da teoria geral do Estado para que possamos entender a função da CF como fundamento último do ordenamento jurídico que se compreende de forma sistêmica, uma vez que a norma fundante, anterior à CF, é pressuposta, não escrita – a legitimidade do poder constituinte originário em estatuir ordenamento jurídico soberano a partir da CF. A norma fundamental é a principal lei, a lei maior de um país; é a sua Constituição Federal. Portanto, o direito constitucional é o ramo do direito público que estuda a organização político-administrativa do Estado, que seexpressa através da sua principal lei, denominada Constituição Federal (todo Estado tem uma). A Constituição muitas vezes era tomada pelo mero suporte material, em que se concentrariam as normas de caráter constitucional – ou seja, normas que em sua essência traziam matéria constitucional. 49 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Atualmente, independentemente do conteúdo das normas constitucionais, considera-se ainda que uma constituição deva trazer os elementos básicos conformadores de um Estado; entretanto, o que a caracterizaria seria sua rigidez, ou, mais especificamente, a necessidade de um processo diferenciado e mais rigoroso para a modificação de suas cláusulas. É esse o caso da CF. A Constituição brasileira traz os elementos básicos de nosso Estado – federativo, republicano e presidencialista –, além de estabelecer os direitos fundamentais individuais e sociais; mas também, e principalmente, traz um processo de emenda à Constituição mais rigoroso que o processo legislativo comum, protegendo seu conteúdo de modificações temerárias e arbitrárias. 3.2 Conceito e classificação Um sinônimo usado para a palavra “constituição” é “organização”, que, ordinariamente, expressa a ideia de criação e organização de algo. Pode ser a organização de uma empresa – através do seu contrato social, de um clube, de um sindicato e até mesmo de um partido político qualquer – por meio dos seus estatutos. Quando se trata da organização político-administrativa do Estado, é preciso que tudo esteja bem definido e pactuado com a sociedade. A CF é o contrato político-social que expressa a vontade do povo e o pacto federativo. Portanto, deve conter como o Estado está ordenado, como ele vai funcionar, a distribuição dos poderes, as competências de cada ente estatal e também como promover as garantias e as liberdades individuais dos seus cidadãos. Tudo isso está previsto na CF. Por isso, não se pode conceber um Estado sem Constituição. “Constituição” é um vocábulo de sentido plurívoco e equívoco; isso significa que não tem um sentido unívoco, ou seja, não tem um único e exclusivo sentido. Remonta à ação ou verbo ou à conduta de constituir. Para este estudo, importa compreender “constituição” como a nomenclatura que se dá ao corpo de normas escritas e principiológicas que organizam o Estado e regem a República democrática do Brasil. Eis que o Brasil é um Estado democrático de direito sob ordenamento jurídico soberano, cuja teleologia (que significa “finalidade” mais “fundamento”) está estatuída no art. 3º da Constituição Federal (Brasil, 1988). Note-se, desde já, que a norma pressuposta (isto é, a norma não escrita) é a soberania popular que legitima o poder constituinte a estatuir o Estado democrático de direito, sob ordenamento jurídico soberano, por meio da CF, que, portanto, deve organizar os poderes da República e lhes determinar o exercício do poder (que se funda na soberania popular) e, assim, a organização do Estado e suas competências. A norma pressuposta (também chamada de norma fundante ou norma fundamental) é não escrita e anterior à Constituição. Desse modo, o fundamento último do ordenamento jurídico é a norma pressuposta fundante, que gira em torno da soberania popular, e aí reside a comunicação do direito constitucional com a teoria geral do Estado e com a filosofia do direito. O poder constituinte originário inaugura a ordem jurídica do Estado por meio da Constituição. 50 Unidade I Promulgada (popular) OutorgadaQuanto à origem Escrita Não escrita (costumeira)Quanto à forma Rígida FlexívelQuanto à estabilidade Figura 9 – Critérios de classificação das Constituições Nos regimes democráticos, as constituições são elaboradas e promulgadas por uma Assembleia Nacional Constituinte, formada por representantes eleitos com essa finalidade, ou seja, pessoas eleitas diretamente pelo povo para criar a CF. Portanto, é correto dizer, nesses casos, que a Constituição é popular, pois foi elaborada por representantes eleitos diretamente pelo povo daquele país. Todavia, pode acontecer de a Constituição ser imposta ao povo, ou seja, outorgada por um governante antidemocrático, que a elabora sem a participação popular. A Assembleia Nacional Constituinte é dotada de um poder denominado poder constituinte originário. Pensemos juntos. Diz-se que é constituinte porque a Assembleia Nacional Constituinte recebe a missão, através do voto direto, de criar uma nova Constituição. Também é correto dizer que é um poder originário; isso significa que estabelecerá os fundamentos do Estado, por isso é considerado um poder inicial e ilimitado em termos jurídicos, pois não se subordina a nenhuma lei anterior que poderia limitar de alguma forma o seu alcance. Os representantes eleitos para formarem a Assembleia Nacional Constituinte discutem livre e democraticamente e votam os dispositivos que devem compor a nova Constituição, cujo texto original será promulgado, dando forma à Lei Magna do Estado. A maioria dos autores brasileiros costuma diferenciar as Constituições quanto à sua forma em dois tipos: as escritas e as não escritas. Veja o ensinamento do professor Luís Roberto Barroso: [...] quanto à forma. Tal classificação diz respeito à forma de veiculação das normas constitucionais. Sob esse critério, as Constituições podem ser: a) escritas: quando sistematizadas em um texto único, de que é exemplo pioneiro a Constituição americana; b) não escritas: quando contidas em textos esparsos e/ou costumes e convenções sedimentados ao longo da história, como é o caso, praticamente isolado, da Constituição inglesa (Barroso, 2019, p. 80). Idealmente, as Constituições deveriam ser diplomas legais muito estáveis. Ao longo do tempo, deveriam sofrer poucas alterações, pois as estruturas fundamentais do Estado devem ser robustas suficientemente para resistir ao tempo. É o caso da Constituição dos Estados Unidos da América (EUA), que foi promulgada em 1787, sendo a única até hoje naquele país. Não é o caso do Brasil, que está na sua sétima Constituição: quatro foram promulgadas por Assembleias Constituintes; duas foram impostas, 51 INSTITUIÇÕES DE DIREITO uma por D. Pedro I, naturalmente durante o Império, e outra pela ditadura Vargas; e uma foi aprovada pelo Congresso por imposição do regime militar autoritário que tomou o poder em 1964. Analise o quadro a seguir para consolidar o conhecimento acerca dos períodos e das origens de cada uma dessas sete Constituições brasileiras. Quadro 5 – Relação das Constituições brasileiras Relação Ano/período Origem 1ª Constituição 1824 – Império Imposta pelo Imperador D. Pedro I, logo após a proclamação da Independência do Brasil, em 1822 2ª Constituição 1891 – Brasil República Promulgada durante o governo do Marechal Deodoro da Fonseca, logo após a Proclamação da República, em 1889 3ª Constituição 1934 – Segunda República Promulgada durante o governo Getúlio Vargas 4ª Constituição 1937 – Estado Novo Outorgada pela ditadura de Getúlio Vargas 5ª Constituição 1946 Promulgada durante o governo Eurico Gaspar Dutra 6ª Constituição 1967 – Regime Militar Imposta pelo Governo Militar, logo após o golpe militar de 1964 7ª Constituição 1988 – Constituição Cidadã Promulgada durante o governo de transição de José Sarney, restabelece o regime democrático no Brasil 3.3 A Constituição Diz-se que a Constituição é um documento político, dirigida a todas as pessoas e que deve preferencialmente ser escrita em linguagem comum, evitando-se a linguagem técnica, para que todos os cidadãos possam ler e entender tudo o que ela contém. A Constituição é a lei mais importante do país, mas não é a única. É por isso que as demais leis devem obediência aos seus mandamentos. Imagine como ficaria o funcionamento do Estado se as outras leis – como o Código de Defesa do Consumidor, que regula os direitos dos consumidores – contivessem previsões legais conflitantes com o que foi estabelecido na Constituição. Não seria fácil para ninguém, a sociedade ficariaconfusa. Entretanto, isso às vezes acontece, pois podem surgir novas leis que apresentem dispositivos conflitantes com a Constituição. Não é raro ler uma notícia sobre a inconstitucionalidade de uma determinada lei ou dispositivo legal. Mas você sabe quando isso acontece? A inconstitucionalidade ocorre quando o texto de uma lei confronta a CF. Nesses casos, somente o poder judiciário pode declarar uma lei ou parte dela inconstitucional. A lei perde sua validade por violar os mandamentos da CF. O STF é o órgão do poder judiciário que sempre dará a palavra final sobre qualquer matéria que envolva a CF. Assim, a CF é a principal lei do nosso país, pois regula a República Federativa do Brasil. Todas as demais leis do país, inclusive as Constituições estaduais e as leis orgânicas (principal lei dos Municípios e do Distrito Federal), devem respeitar os mandamentos da CF. 52 Unidade I Ulysses Silveira Guimarães, político e advogado formado pela Universidade de São Paulo (USP), teve forte atuação na oposição à ditadura militar. Ingressou na política em 1945, quando se filiou ao Partido Social Democrático (PSD). Nas palavras de Guimarães (1973, p. 294): A caravela vai partir. As velas estão pandas de sonho, aladas de esperanças. O ideal está ao leme e o desconhecido se desata à frente... Nossa carta de marear não é de Camões e, sim, de Fernando Pessoa ao recordar o brado: “Navegar é preciso. Viver não é preciso”. Posto hoje no alto da gávea, espero em Deus que em breve possa gritar ao povo brasileiro: “Alvíssaras, meu Capitão. Terra à vista!” Sem sombra, medo e pesadelo, à vista a terra limpa e abençoada da liberdade. Esse foi o discurso “Navegar é Preciso”, proferido por Ulysses Guimarães, no dia 22 de setembro de 1973, na convenção do MDB, ao decidir lançar sua “anticandidatura”. Exatos 15 anos depois, no dia 22 de setembro de 1988, foi aprovada, em turno único de votação, a redação final do projeto de Constituição. Saiba mais Para saber mais sobre o discurso proferido por Ulysses Guimarães, leia o texto: GUIMARÃES, U. Discurso do deputado Ulysses Guimarães, presidente da Assembleia Nacional Constituinte, em 5 de outubro de 1988, por ocasião da promulgação da constituição federal. Revista Direito GV, São Paulo, v. 4, n. 2, p. 595-602, jul./dez. 2008. Disponível em: https://tinyurl.com/yc3mxv58. Acesso em: 11 nov. 2025. Apresentada para você a Constituição, vamos agora conhecer as classificações da Constituição Federal de 1988: • Quanto à origem promulgada (popular): foi elaborada por uma Assembleia Nacional Constituinte eleita pelo voto direto em 15 de novembro de 1986. Na ocasião, foram eleitos os membros da Constituinte, composta de 487 deputados e 72 senadores. O Deputado Ulysses Guimarães, do MDB-SP, foi eleito seu presidente em 2 de fevereiro de 1987. A Constituição atual foi aprovada pela Assembleia Nacional Constituinte em 22 de setembro de 1988 e promulgada em 5 de outubro de 1988, dando início à refundação do Estado democrático de direito e consagrando os direitos fundamentais, entre eles o voto direto para todos os níveis do poder legislativo e executivo, inclusive para presidente da República. • Quanto à forma escrita: a Assembleia Nacional Constituinte produziu o texto do diploma legal máximo, que seria batizado como Constituição Cidadã por proclamar os direitos fundamentais e a preservação da dignidade da pessoa humana. 53 INSTITUIÇÕES DE DIREITO • Quanto à estabilidade ou consistência rígida: a Constituição estabelece um processo legislativo restritivo e especial para que seja emendada, embora alguns doutrinadores digam que a Constituição de 1988 seja do tipo rígida, pois existem partes que não podem ser mudadas, mesmo com emendas. Tecnicamente chamamos de cláusulas pétreas, e elas estão dispostas no art. 60 § 4º da CF. Se, como visto, a Constituição, pela sua importância dentro do sistema jurídico, ocupa o estamento mais alto de nossa pirâmide kelseniana, então o que fundamenta a própria Constituição? É justamente este o conceito que será apresentado a você no próximo tema: o poder constituinte. 3.4 O poder constituinte A própria CF traz no seu texto dispositivos que estabelecem a forma pela qual ela poderá ser modificada. Por que isso é importante? Porque o poder constituinte originário só existe durante o período de elaboração da nova Constituição. Após a aprovação e a promulgação da CF, a Assembleia Nacional Constituinte se dissolve, e, junto com ela, o poder constituinte originário se extingue. Então, tudo deve seguir rigorosamente os mandamentos previstos na Constituição, que passa a reger o país, inclusive o procedimento para sua alteração, que recebe o nome de emenda, agora a cargo do Congresso Nacional, que passa a deter o poder constituinte reformador. Importa notar que o Estado não é a origem do direito, ao passo que o próprio Estado é consequência ou efeito do direito. Aliás, a legitimidade do Estado pressupõe a soberania do constituinte originário. Vejamos as lições de Bartolomé Cenzano apud Dromi (2007, p. 170): Não esqueça que se o fundamento dos direitos humanos é a natureza humana e o do Estado é um pacto ou consenso entre indivíduos dotados de direitos e liberdades iguais, todos os indivíduos hão de ter os mesmos direitos na hora de formar parte da manifestação da vontade geral que constitui a essência da comunidade política. Assim, é da própria feição dos direitos fundamentais sua anterioridade ao próprio Estado. Continua Dromi (2007) afirmando que, de um ponto de vista filosófico, todos os direitos fundamentais preexistem. Antes de ser proprietários, somos seres humanos; antes de ter direito à indústria e ao comércio, temos direito à vida e à não discriminação. A vida é a liberdade respeitada. Desse modo, o ordenamento procura consagrar direitos que a evolução histórica reconheceu como indissociáveis da humanidade. A norma e sua interpretação remontariam seu fundamento a princípios universais superiores que deveriam inspirar a legislação, com a convicção de que o direito não se limitaria à norma, mas, ao contrário, seria anterior e superior a ela. 54 Unidade I Figura 10 Disponível em: https://tinyurl.com/3642e2r7. Acesso em: 11 nov. 2025. Alterar a CF de um país pode ser simples ou difícil, e isso dependerá do próprio texto da Constituição, que deve estabelecer critérios flexíveis ou mais rígidos para a sua modificação. O termo correto que designa a alteração do texto constitucional é “emenda”. Assim, sempre que for necessário incluir algum novo dispositivo na Constituição ou modificar o texto já existente, isso só poderá ser feito através de uma emenda constitucional. É por isso que, quando é necessária alguma alteração, por menor que seja, no texto da CF é apresentada uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC). Como já sabemos, existe um processo legislativo especial para que sejam propostas alterações no texto da CF. Lembrete Para as emendas à Constituição, exige-se um quórum de aprovação de 3/5 dos congressistas, votação em dois turnos com rol de legitimados próprio, conforme art. 60 da Constituição Federal (Brasil, 1988). 3.5 Espécies de constituição Classificar algo é importante em razão de suas características. Assim ocorre com a Constituição. As constituições, na medida em que são dotadas de algumas características, podem ser classificadas. A isso chamamos de espécies de Constituição ou tipologia. Qualquer classificação depende de critérios escolhidos pelos estudiosos, e não se pode dizer que um é mais acertado que o outro; talvez mais adequado. Para introduzir o assunto, vamos apresentar as principais classificações. Quanto à forma Quanto à forma, as constituições podem ser classificadas em: outorgadas, promulgadas, cesaristas e costumeiras (não escritas ou consuetudinárias). Outorgada é a constituição imposta de maneira unilateral pelo agente revolucionário (grupo ou governante), que não recebeu do povo a legitimidade para atuar em nome dele.55 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Ao seu turno, a constituição promulgada é também conhecida por democrática, votada ou popular, porque resulta da vontade do povo, exercida por meio dos representantes populares (constituintes). É a Constituição fruto do trabalho de uma Assembleia Nacional Constituinte, eleita diretamente pelo povo, para em nome dele atuar, nascendo, portanto, da deliberação da representação legítima popular. Observação As Constituições outorgadas recebem, por alguns estudiosos, o apelido de Cartas Constitucionais. Assim, não é tecnicamente correto chamar a nossa Constituição de Carta Constitucional, porque a CF de 1988 foi promulgada, e não outorgada. A cesarista não é propriamente outorgada, tampouco democrática, ainda que criada com participação popular, sendo formada por plebiscito popular sobre um projeto elaborado por um Imperador, como os plebiscitos napoleônicos, ou um ditador, como o plebiscito de Pinochet, no Chile. Não existe uma participação popular, pois visa apenas consolidar a vontade do detentor do poder. A classificação de cesarista decorre do título romano “César”. No uso comum, o termo foi usado como sinônimo de imperador e adaptado na Rússia para o título de “Czar”. A constituição costumeira, também chamada de não escrita ou consuetudinária, para Lenza (2017), seria aquela Constituição que, ao contrário da escrita, não traz as regras em um único texto solene e codificado. É formada por textos esparsos, reconhecidos pela sociedade como fundamentais, e baseia-se nos usos, nos costumes, na jurisprudência e nas convenções. Um exemplo clássico é a Constituição da Inglaterra. A doutrina observa que hoje, contudo, mesmo a Inglaterra (exemplo normalmente lembrado de país regido por uma Constituição não escrita) assenta princípios constitucionais em textos escritos, em que pesem os costumes formarem relevantes valores constitucionais. Quanto à extensão Quanto à extensão, as constituições podem ser classificadas em: sintéticas (concisas, breves, sumárias, sucintas, básicas) ou analíticas (amplas, extensas, largas, prolixas, longas, desenvolvidas, volumosas, inchadas). As sintéticas seriam aquelas enxutas, que trazem apenas e tão somente os princípios fundamentais e estruturais do Estado. É uma forma de constituição que não se preocupa em regulamentar absolutamente tudo; desenha apenas os princípios e, por isso, tende a ser mais durável que a analítica. Você pode estar se perguntando: mas e se houver alguma situação que não haja respaldo nos princípios? É aí que ingressa o poder das supremas cortes de justiça, que interpretam os princípios conforme os casos concretos que lhes são apresentados e formam um repositório normativo. As analíticas são aquelas em que o legislador constituinte trouxe para o texto constitucional tudo o que julgou relevante e pertinente como sendo direto e garantia fundamental. Um exemplo de constituição analítica é a nossa CF/88. Veja a seguir. 56 Unidade I Título IX Das Disposições Constitucionais Gerais Art. 242. O princípio do art. 206, IV, não se aplica às instituições educacionais oficiais criadas por lei estadual ou municipal e existentes na data da promulgação desta Constituição, que não sejam total ou preponderantemente mantidas com recursos públicos. § 1º O ensino da História do Brasil levará em conta as contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro. § 2º O Colégio Pedro II, localizado na cidade do Rio de Janeiro, será mantido na órbita federal (Brasil, 1988, grifo nosso). Na sua opinião, seria relevante constar do texto constitucional que o Colégio Pedro II deveria ser mantido sob o comando do Governo Federal? Pois é justamente essa minúcia que poderia ser tratada em outra espécie normativa, mas que o legislador constituinte entendeu pertinente inserir na constituição. Essa crítica foi observada pelo professor Paulo Bonavides (1997), para quem as Constituições se fizeram desenvolvidas, volumosas, inchadas, em consequência principalmente das seguintes causas: a preocupação de dotar certos institutos de proteção eficaz, o sentimento de que a rigidez constitucional é anteparo ao exercício discricionário da autoridade, o anseio de conferir estabilidade ao direito legislado sobre determinadas matérias e, enfim, a conveniência de atribuir ao Estado, através do mais alto instrumento jurídico, que é a Constituição, os encargos indispensáveis à manutenção da paz social. As Constituições podem ser rígidas, flexíveis e semirrígidas ou semiflexíveis. • Rígidas: são aquelas Constituições que exigem, para a sua alteração, um processo legislativo mais complexo e solene do que o processo de alteração das normas não constitucionais. • Flexíveis: são aquelas Constituições que podem ser alteradas conforme o processo legislativo de alteração das normas infraconstitucionais, ou seja, não há diferença no processo de votação, sendo exatamente a mesma dificuldade em alterar a Constituição e uma lei que não é constitucional. • Semiflexíveis: também chamadas de semirrígidas, são aquelas Constituições tanto rígidas quanto flexíveis, ou seja, algumas matérias exigem um processo de alteração mais complicado do que o exigido para alteração das leis infraconstitucionais, enquanto outras não requerem tal formalidade. Leciona Pedro Lenza (2017) que imutáveis seriam aquelas Constituições inalteráveis, verdadeiras relíquias históricas e que se pretendem eternas, sendo também denominadas permanentes, graníticas ou intocáveis. 57 INSTITUIÇÕES DE DIREITO 3.6 Controle de constitucionalidade O controle de constitucionalidade caracteriza-se por uma forma de corrigir no presente e em determinado ordenamento jurídico a adequação ou conformidade com a Constituição. Em outras palavras, é verificar se um ato, lei, decreto ou ação está ou não de acordo com a Constituição. Observe na figura a seguir o esquema do controle de constitucionalidade: Difuso Concentrado Controle de constitucionalidade Preventivo Por omissão legislativa Repressivo Figura 11 – Controle de constitucionalidade Como você observou, o controle de constitucionalidade das leis e demais espécies normativas compreende o controle preventivo e o controle repressivo. O controle preventivo visa prevenir, antes ou durante o processo legislativo, a introdução de uma norma inconstitucional no ordenamento. Assim, no momento que um projeto de lei for apresentado, a pessoa que der início ao processo legislativo deve verificar a regularidade da matéria que irá tratar o projeto de lei. Esse controle preventivo é exercido pelos três poderes: pelo poder legislativo, quando encaminha a matéria para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ); pelo poder executivo, quando o chefe do executivo (presidente, governador ou prefeito) sanciona ou veta o projeto de lei; e, por fim, pelo poder judiciário, que garante que o processo legislativo cumpra as regras da Constituição. O controle repressivo opera por meio do exercício da tutela jurisdicional do poder judiciário e divide-se em duas categorias: o controle difuso ou por via difusa e o controle concentrado. Controle difuso ou via difusa (via indireta ou de exceção ou de defesa) diz respeito basicamente à arguição judicial de inconstitucionalidade por meio de ação judicial cuja causa de pedir verse alguma situação concreta na qual o interessado invoca tutela jurisdicional para obstar incidência da norma. O rito ou a forma processual pode variar, a exemplo da ação de rito ordinário ou de rito comum, ou mesmo embargos à execução, mandado de segurança, entre outros meios processuais. Diz-se que a declaração de inconstitucionalidade é, na via difusa, incidenter tantum, ou seja, pressuposto (preliminar) para a procedência ou improcedência do pedido, de modo que a declaração de inconstitucionalidade antecederia o mérito do pedido – por exemplo, declaração judicial de inconstitucionalidade incidenter tantum com respectiva procedência de mérito de pedidode devolução 58 Unidade I de tributo indevidamente pago ou de declaração de não incidência tributária –, e os efeitos da coisa julgada se restringem às partes da respectiva ação judicial. Controle concentrado ou via concentrada (via direta ou de ação) diz respeito a uma ação judicial cuja causa precípua de pedir seja a declaração de inconstitucionalidade de uma norma, por meio de ação direta de inconstitucionalidade (art. 103 da Constituição Federal) ou da ação declaratória de inconstitucionalidade (art. 103, § 4º, da Constituição Federal), de modo que a ação versa sobre o controle em abstrato de uma norma – norma, em sentido geral, é dotada de generalidade e abstração, e sua vigência implicaria a potência de produzir efeito, isto é, eficácia, independentemente de um ou outro caso concreto individualmente situado. O controle constitucional de omissão legislativa presente no art. 103, § 2º, da Constituição é aquele que pode ensejar propositura de mandado de injunção, nos termos do art. 5º, inciso LXXI, da CF. O mandado de injunção, para Silva (2003), será concedido sempre que a falta de norma regulamentadora torne inviável o exercício dos direitos e das liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade, soberania e cidadania. Continua o autor afirmando que compete ao STF o julgamento do mandado de injunção quando a elaboração da norma for de atribuição do presidente da República, do Congresso Nacional, da Câmara dos Deputados, do Senado Federal, das mesas de cada uma dessas casas legislativas, do Tribunal de Contas da União, de algum dos Tribunais Superiores ou do próprio STF. É importante considerar o controle de constitucionalidade de âmbito estadual, que diz respeito à prerrogativa dada às Constituições estaduais para instituir ação direta de inconstitucionalidade de âmbito estadual (art. 125, § 2º, da Constituição Federal, que implica competência da justiça estadual: art. 97 da Constituição Federal). 3.7 Da organização nacional A República Federativa do Brasil, como qualquer outro Estado contemporâneo, possui uma forma de Estado, uma forma de governo e um sistema de governo. São esses os três pilares da organização nacional dada na CF. A forma de Estado adotada pelo constituinte foi a Federação. Isso significa que a República Federativa do Brasil é formada a partir de um conjunto de entes, chamados federados, havendo dois ou mais entes capazes de legislar. No nosso caso, podem legislar União, Estado e Municípios, cada qual a partir de seu parlamento. Esse vínculo federativo é indissociável, não podendo ser alterado nem mesmo por emenda à Constituição. A forma de governo é republicana. Assim, todo agente político somente exercerá suas funções por tempo determinado. Seu mandato, portanto, outorgado pelo povo soberano, tem tempo de duração. Em uma República, não pode haver mandato sem tempo de duração, sob pena de se descaracterizar o instituto. 59 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Por fim, o Brasil é presidencialista. O presidencialismo é um sistema de governo que se opõe ao parlamentarismo. No presidencialismo, o presidente, ou quem lhe faça as vezes, aglutina as competências de chefe de Estado e de governo, ou seja, representa o Estado brasileiro junto aos Estados estrangeiros, comanda as Forças Armadas e possui competência para tomar decisões administrativas internas. O Brasil difere, portanto, da Inglaterra, onde a rainha possui competências de chefe de Estado, comandando as Forças Armadas e representando o país junto ao restante do mundo, enquanto o primeiro ministro acumula as funções de chefe de governo, tomando decisões administrativas internas. 4 A CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988 Chegamos ao estudo da Constituição Federal. Você já sabe que essa é a principal lei do nosso ordenamento jurídico, que sua classificação é analítica e, portanto, cheia de divisões em títulos, capítulos, seções e subseções, cada grupo com informações sobre a forma de organização da sociedade brasileira. A Constituição Federal de 1988 se epicentra na prevalência da soberania popular, do povo como destinatário final da administração pública, seu funcionamento e serviços. Por isso, a pauta da soberania cadencia a estruturação do Estado em relação ao funcionamento orgânico dos poderes da República, bem como concatena todo o ajustamento do ordenamento jurídico à nova ordem constitucional. Todo esse eixo da soberania popular coaduna o contexto sócio-histórico de superação do regime militar, que amesquinhou o campo das chamadas liberdades civis – aqui, podem ser também referidas como liberdades individuais. Grosso modo, a partir do Renascimento e mais notadamente do Iluminismo (tudo pautado na concepção de homem como dotado de dignidade própria em razão de seus atributos inerentes à condição humana, vontade livre e livre arbítrio) e, sobretudo, a partir do Contratualismo (corrente filosófica que se ocupou de ponderar a formação dos estados nacionais e, pois, do Estado de direito), entende-se por liberdades individuais, e mesmo por liberdades civis, todo o campo de direitos e interesses contra os quais o governante não poderia dispor. Trata-se de um campo de liberdades que o ordenamento resguarda de eventuais investidas desferidas por aqueles no exercício do poder (costuma-se, tradicionalmente, dizer-se daquele que exerce o poder de governante, conquanto o sentido de governante, aqui, seja lato e amplo). Trata-se da pauta da usurpação (a questão das liberdades civis recai na pauta da usurpação), que diz respeito justamente à afirmação da soberania popular, que não poderia ser usurpada pelo governante, compreendido o vocábulo “governante” em sentido lato. Diz-se, tradicionalmente, em teoria geral do Estado e em filosofia do direito, que o amplo campo das liberdades civis decorre do reconhecimento da invariante axiológica da soberania popular que obsta concepção de Estado cuja soberania se epicentre na figura de um déspota absolutista que estivesse legitimado a dizer qual o direito. 60 Unidade I Eis que tanto a função legiferante quanto a função de distribuição de justiça (tutela jurisdicional, iuris dicere), bem como toda a pauta do chamado poder de polícia, remontam, todas, à tópica do poder de império, que abrange o uso legitimado da força (poder coercitivo). O perpassar sócio-histórico de toda essa pauta de teoria geral do Estado e em filosofia do direito, por implicar o campo das invariantes axiológicas e da consciência jurídica dos povos, parte do cotejo do direito das gentes (que muito se associa ao discernimento do conceito de nação em relação ao conceito de povo, tudo em torno da questão da identidade cultural, dos laços sociais de pertença grupal). Por isso falamos em gênio do povo, espírito do povo, concepção lata (da deriva morfossintática saxônica, isto é, do saxão) do volksgeist (que em filosofia do direito se coteja com o conceito do espírito dos tempos, zeitgeist, e daí a questão da experiência dos povos, que conforma sua consciência jurídica e seu sentimento do justo, pauta preliminar do chamado direito das gentes). Em teoria geral do Estado e em filosofia do direito, liberdades civis ou liberdade civil (cuja tópica é mais abrangente que uma ou outra estipulação de sentido e alcance que se pretenda mais epicentrada em direito constitucional) diz respeito, sobretudo, à esfera, margem ou campo de liberdade do homem (tanto do indivíduo quanto do grupo social) contra o qual nenhum governante ou déspota possa investir contra, isto é, possa dispor (porque analienável), de modo que a soberania popular perpassa ao ordenamento jurídico soberano: eis o advento do Estado democrático sob ordenamento jurídico soberano, gênese do chamado Estado moderno. Vejamos mais esta lição de teoria geral do Estado e de filosofia do direito: o direito que fundamenta toda essa pauta de liberdade civil é o direito de livre associação, por meio do qual o homem (cuja qualidade ou natureza decorre da vontade livre e do58 4 A CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988 ....................................................................................................... 59 4.1 Histórico da Constituição de 1988 ............................................................................................... 61 4.2 Preâmbulo ............................................................................................................................................... 63 4.3 Princípios fundamentais .................................................................................................................... 64 4.4 Direitos e garantias fundamentais ................................................................................................ 65 4.5 Tributação e orçamento ..................................................................................................................... 67 4.6 Ordem econômica e financeira ....................................................................................................... 70 4.7 Ordem social ........................................................................................................................................... 72 4.8 Disposições constitucionais gerais ................................................................................................ 79 4.9 Ato das disposições constitucionais transitórias ..................................................................... 79 Sumário Unidade II 5 DIREITO CIVIL .................................................................................................................................................... 86 5.1 Noções introdutórias ao direito civil ............................................................................................ 86 5.2 Da validade dos atos jurídicos ........................................................................................................ 93 5.3 Responsabilidade civil e ato ilícito ................................................................................................ 96 5.3.1 Conceito e requisitos da responsabilidade civil .......................................................................... 99 5.3.2 Responsabilidade objetiva e subjetiva .........................................................................................100 5.3.3 Responsabilidade civil e penal .........................................................................................................102 5.3.4 Reparação do dano ..............................................................................................................................103 5.4 Contratos ...............................................................................................................................................104 5.4.1 Garantias contratuais ..........................................................................................................................107 5.4.2 Confissão de dívida ..............................................................................................................................107 5.4.3 Teoria da imprevisão ............................................................................................................................108 6 DIREITO DO CONSUMIDOR........................................................................................................................110 6.1 Noções introdutórias de direito do consumidor ...................................................................110 6.2 Conceito de consumidor .................................................................................................................112 6.3 Conceito de fornecedor ...................................................................................................................113 6.4 Política nacional de consumo .......................................................................................................116 6.5 Proteção contra práticas comerciais abusivas........................................................................120 6.6 Propaganda enganosa ou abusiva ..............................................................................................122 6.7 Proteção contratual .........................................................................................................................127 Unidade III 7 DIREITO ADMINISTRATIVO .........................................................................................................................135 7.1 Noções introdutórias de direito administrativo.....................................................................135 7.2 Atos administrativos ........................................................................................................................142 7.2.1 Atributos e requisitos ......................................................................................................................... 143 7.2.2 Atos administrativos vinculados e discricionários ................................................................. 145 7.3 Contratos administrativos ..............................................................................................................146 7.4 Licitações ...............................................................................................................................................148 8 DIREITO DE EMPRESA ..................................................................................................................................153 8.1 Noções introdutórias de direito de empresa .........................................................................153 8.2 Origem e evolução histórica do direito comercial ................................................................154 8.3 Fontes do direito comercial ............................................................................................................156 8.4 Empresa, empresário e estabelecimento empresarial..........................................................157 8.5 Empresário individual .......................................................................................................................160 8.5.1 Microempreendedor individual (MEI) ...........................................................................................161 8.5.2 Empresas individuais de responsabilidade limitada (Eireli) ................................................ 162 8.6 Classificação das sociedades empresárias ................................................................................164 8.6.1 Sociedades personificadas ............................................................................................................... 165 8.6.2 Sociedades simples ............................................................................................................................ 166 8.7 Sociedades empresárias ...................................................................................................................168 8.7.1 Sociedade anônima ........................................................................................................................... 168 8.7.2 Sociedade em comandita por ações .............................................................................................170 8.7.3 Sociedade em nome coletivo ...........................................................................................................170 8.7.4 Sociedade em comandita simples ................................................................................................170 8.7.5 Sociedade limitada ...............................................................................................................................171 8.7.6 Sociedades não personificadas ...................................................................................................... 172 8.7.7 Sociedade em comum .......................................................................................................................livre arbítrio), haja vista a sociabilidade ser o traço humano precípuo, organiza-se em sociedade, a partir do volksgeist. Lembrete A Constituição Federal de 1988 se epicentra na prevalência da soberania popular, com respectivo reconhecimento do povo como destinatário final da administração pública e, pois, de seu funcionamento e serviços. Assim, a pauta da soberania concatena tanto a estruturação do Estado em relação ao funcionamento orgânico dos poderes da República quanto o ajustamento do ordenamento jurídico à nova ordem constitucional. Todo esse eixo da soberania popular coaduna o contexto sócio-histórico de superação do regime militar, que amesquinhou o campo das chamadas liberdades civis. 61 INSTITUIÇÕES DE DIREITO 4.1 Histórico da Constituição de 1988 O contexto histórico da Constituição Federal de 1988, conforme antedito, gira em torno da afirmação ou do reconhecimento, incontenível (porque pauta de invariante axiológica da prevalência do valor da vida humana), da soberania popular, que visava superar as feridas nacionais do regime militar, que amesquinhou o campo das chamadas liberdades civis. Pauta do povo como destinatário final da administração pública, quadro que, em última análise, remonta ao chamado direito de livre associação, que atravessa toda a sociabilidade humana (matéria de teoria geral do Estado). Tudo isso se insere no contexto da experiência latino-americana em torno da afirmação das liberdades civis, que parte da experiência comum latino-americana das feridas nacionais legadas pelo regime militar, que malferiu o âmago da vontade popular, inflamou o espírito do povo e exortou as gentes ao reclamo político de observância do direito, cujo triunfo popular resta consubstanciado na Constituição Federal de 1988. Muitas vezes nos deparamos na nossa vida pessoal, bem como profissional, com problemas para os quais não sabemos onde buscar amparo. Então, é importante que você saiba onde procurar informações legais que suportem as suas pretensões e sustentem o seu direito ou sua pretensão. Assim, importa você ter uma visão geral do teor da Constituição Federal de 1988 observando a figura a seguir: Título II Direitos e Garantias Fundamentais Capítulo I – Direitos e Deveres Individuais e Coletivos Capítulo II – Direitos Sociais Capítulo III – Da Nacionalidade Capítulo IV – Dos Direitos Políticos Capítulo V – Dos Partidos Políticos Título III Da Organização do Estado Capítulo I – Da Organização Político-Administrativa Capítulo II – Da União Capítulo III – Dos Estados Federados Capítulo IV – Dos Municípios Capítulo V – Do Distrito Federal e dos Territórios Capítulo VII – Da Administração Pública Capítulo VI – Da Intervenção Seção I – Do Distrito Federal Seção II – Dos Territórios Seção I – Disposições Gerais Seção II – Dos Servidores Públicos Seção III – Dos Militares dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios Seção IV – Das Regiões Preâmbulo Título I Princípios Fundamentais 62 Unidade I Título IV Da Organização dos Poderes Capítulo I – Do Poder Legislativo Seção I – Do Congresso Nacional Seção II – Das Atribuições do Congresso Nacional Seção III – Da Câmara dos Deputados Seção IV – Do Senado Federal Seção V – Dos Deputados e dos Senadores Seção VI – Das Reuniões Seção VII – Das Comissões Subseção I – Disposição Geral Subseção II – Da Emenda à Constituição Subseção III – Das Leis Seção VIII – Do Processo Legislativo Seção IX – Da Fiscalização Contábil, Financeira e Orçamentária Capítulo III – Do Poder Judiciário Seção I – Disposições Gerais Seção II – Do Supremo Tribunal Federal Seção III – Do Superior Tribunal de Justiça Seção IV – Dos Tribunais Regionais Federais e dos Juízes Federais Seção V – Do Tribunal Superior do Trabalho, dos Tribunais Regionais do Trabalho e dos Juízes do Trabalho Seção VI – Dos Tribunais e Juízes Eleitorais Seção VII – Dos Tribunais e Juízes Militares Seção VIII – Dos Tribunais e Juízes dos Estados Capítulo II – Do Poder Executivo Seção I – Do Presidente e do Vice-Presidente da República Seção II – Das Atribuições do Presidente da República Seção III – Da Responsabilidade do Presidente da República Seção IV – Dos Ministros de Estado Subseção I – Do Conselho da República Subseção II – Do Conselho de Defesa Nacional Seção V – Dos Deputados e dos Senadores Capítulo IV – Das Funções Essenciais à Justiça Seção I – Do Ministério Público Seção II – Da Advocacia Pública Seção III – Da Advocacia Seção IV – Da Defensoria Pública Seção I – Do Estado de Defesa Seção II – Do Estado de Sítio Seção III – Disposições Gerais Título V Da Defesa do Estado e das Instituições Democráticas Capítulo I – Do Estado de Defesa e do Estado de Sítio Capítulo II – Das Forças Armadas Capítulo III – Da Segurança Pública Título VI Da Tributação e do Orçamento Seção I – Dos Princípios Gerais Seção II – Dos Limites do Poder de Tributar Seção III – Dos Impostos da União Seção IV – Dos Impostos dos Estados e do Distrito Federal Seção V – Dos Impostos dos Municípios Seção VI – Da Repartição das Receitas Tributárias Capítulo I – Do Sistema Tributário Nacional Capítulo II – Das Finanças Públicas Seção I – Normas Gerais Seção II – Dos Orçamentos 63 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Título VII Da Ordem Econômica e Financeira Capítulo I – Dos Princípios Gerais da Atividade Econômica Capítulo II – Da Política Urbana Capítulo III – Da Política Agrícola e Fundiária e da Reforma Agrária Capítulo IV – Do Sistema Financeiro Nacional Título VIII Da Ordem Social Capítulo IV – Da Ciência, Tecnologia e Inovação Capítulo V – Da Comunicação Social Capítulo VI – Do Meio Ambiente Capítulo VII – Da Família, da Criança, do Adolescente, do Jovem e do Idoso Capítulo VIII – Dos Índios Seção I – Disposições Gerais Seção II – Da Saúde Seção III – Da Previdência Social Seção IV – Da Assistência Social Capítulo II – Da Seguridade Social Capítulo III – Da Educação, da Cultura e do Desporto Seção I – Da Educação Seção II – Da Cultura Seção III – Do Desporto Capítulo I – Disposição Geral Título IX Das Disposições Constitucionais Ato das Disposições Constitucionais Transitórias Figura 12 Como você pode perceber, a nossa Constituição apresenta uma série de informações e princípios que regem toda a sociedade brasileira. Ela representa o ápice histórico de um momento de transição entre a democracia e a ditadura no Brasil. Assim, tornou-se complexa, extensa, mas com um apelido muito pertinente: Constituição Cidadã. 4.2 Preâmbulo O significado da palavra “preâmbulo” é aquilo que vai adiante ou que precede alguma coisa; deriva da palavra latina praeambulus e, para o nosso estudo, entende-se como a parte inicial de uma lei em que se explica ou se justifica a edição e a promulgação. O preâmbulo não possui força normativa. Embora não faça parte do texto constitucional propriamente dito, ele serve como elemento de interpretação e integração normativa, e em razão de não fazer parte do texto constitucional, não pode prevalecer contra qualquer texto que esteja expresso nele. Como você observou na figura 12, a nossa Constituição possui um preâmbulo, que contém os seguintes dizeres: Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, 64 Unidade I o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL (Brasil, 1988). Segundo o professor Alexandre de Moraes (2017), o preâmbulo de uma Constituição pode ser definido como o documento de intenções do diploma e consiste em uma certidão de origem e legitimidade do novo textoe uma proclamação de princípios, demonstrando a ruptura com o ordenamento constitucional anterior e o surgimento jurídico de um novo Estado. O preâmbulo é de tradição em nosso direito constitucional e nele devem constar os antecedentes e o enquadramento histórico da Constituição, bem como suas justificativas e seus grandes objetivos e finalidades. Certamente você reparou que há no preâmbulo Constitucional uma rogação a Deus. Qual seria o real significado e a importância dessa afirmação, já que o Estado brasileiro é laico, ou seja, o Brasil é um país que adota posição neutra no campo religioso? Isso porque a característica do Estado é a imparcialidade em assuntos religiosos, não apoiando ou discriminando nenhuma religião. Para Alexandre de Moraes (2017), a evocação à “proteção de Deus” no preâmbulo da CF não a torna confessional, mas reforça a laicidade do Estado, afastando qualquer ingerência estatal arbitrária ou abusiva nas diversas religiões e garantindo tanto a ampla liberdade de crença e cultos religiosos quanto a ampla proteção jurídica aos agnósticos e ateus, que não poderão sofrer quaisquer discriminações pelo fato de não professarem uma fé. 4.3 Princípios fundamentais A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado democrático de direito e tem como fundamentos: Cidadania Pluralismo político Valores sociais do trabalho e da livre iniciativa Soberania Dignidade da pessoa humana Figura 13 – Fundamentos da República Federativa do Brasil 65 INSTITUIÇÕES DE DIREITO É importante que você saiba que o Estado democrático de direito significa que existem no Brasil normas democráticas, com eleições livres, periódicas e pelo povo, bem como o respeito das autoridades públicas aos direitos e às garantias fundamentais. Esse princípio democrático está claro quando a Constituição (Brasil, 1988) afirma que “todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição” em seu parágrafo único do artigo 1º. 4.4 Direitos e garantias fundamentais Os direitos fundamentais são os direitos humanos escritos na CF. O próprio nome “direitos fundamentais ou humanos” já diz tudo. Representam todos os direitos básicos e necessários à condição humana e que precisam ser protegidos e garantidos pelo Estado. A CF de 1988 recebeu a denominação Constituição Cidadã porque ampliou a proteção desses direitos fundamentais. Muitos políticos e advogados costumam utilizar frases pomposas para se referir às condições mínimas de vida das pessoas ou quando algum direito humano é violado. Trata-se do conhecido princípio da dignidade da pessoa humana. Esse princípio norteia o Estado democrático de direito, ou seja, uma sociedade fundada na solidariedade, na qual todos os cidadãos têm vez e voz, através da concretização dos direitos fundamentais e do voto, respectivamente. Em virtude dessas questões, os artigos 5º, 6º e 7º da CF são vitais, pois descrevem esses direitos. Todos os cidadãos brasileiros devem conhecer esses dispositivos. Assim, a Constituição Cidadã pode ser considerada um marco na democracia brasileira. O artigo 5º da CF possui 76 incisos que dispõem sobre os direitos e as garantias individuais gerais e de natureza penal. Entre as garantias individuais gerais, estão: a liberdade de pensamento; a liberdade de consciência e religiosa; a liberdade de expressão; o direito à privacidade; a inviolabilidade do lar; o sigilo de correspondência; o direito de propriedade e o direito à herança. Para citar um exemplo: o princípio da igualdade entre homens e mulheres significa que os iguais devem ser tratados de modo igual e os desiguais de modo desigual, na medida de sua desigualdade. Como você pode perceber, o art. 5º contempla ainda um dos princípios fundamentais do direito, o da legalidade. Reza o artigo 5º, inciso II, que ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei, ou seja, apenas a lei pode obrigar alguém a fazer (prestação positiva) ou então abster-se de fazer alguma coisa. Um exemplo de deixar de fazer algo são as proibições do Código de Trânsito Brasileiro (Brasil, 1997), como a que consta do art. 81: “Nas vias públicas e nos imóveis é proibido colocar luzes, publicidade, inscrições, vegetação e mobiliário que possam gerar confusão, interferir na visibilidade da sinalização e comprometer a segurança do trânsito”. A integridade física não permite a tortura nem o tratamento desumano ou degradante; não permite a violação do direito à vida e assegura aos ressocializandos o respeito à integridade física. A liberdade de pensamento, culto, crença religiosa, expressão da atividade artística, científica, de comunicação do exercício de qualquer trabalho ou profissão, assim como o respeito ao sigilo profissional, deixam claro o espírito democrático que inspirou a Assembleia Nacional Constituinte de 1988. 66 Unidade I Saiba mais Rui Barbosa, em seu discurso lido por Reinaldo Porchat para os formandos da Faculdade de Direito do Largo do São Francisco da USP, em 1920, quando foi escolhido como paraninfo e não pôde comparecer por motivos de saúde, escreveu o célebre Oração aos moços, no qual afirmou que “a regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social, proporcionada à desigualdade natural, é que se acha a verdadeira lei da igualdade... Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real”. Você pode ler o documento completo em: BARBOSA, R. Oração aos moços. Brasília: Senado Federal; Conselho Editorial, 2019. Disponível em: https://tinyurl.com/yfvvb4bh. Acesso em: 11 nov. 2025. São direitos e garantais de natureza penal: o direito de resposta; a anterioridade da lei; a irretroatividade penal; a individualização da pena; o direito de defesa; não ser preso por dívida e a liberdade provisória. Entre os direitos e as garantias da esfera penal, a Constituição reconhece a instituição do júri popular, segundo a qual as pessoas, ao serem julgadas por crimes contra a vida, devem ser sentenciadas pela própria sociedade, representada pelo corpo de jurados. Como garantia penal, consta a determinação da individualização das penas, ou seja, a pena não passará de uma pessoa a outra. É por isso que não existe no Brasil a hipótese de algum descendente (filho) cumprir uma pena em nome do ascendente (pai). Ainda, a CF garante a estrita legalidade: somente permite a prisão por ordem judicial ou flagrante delito, assegurando diversos direitos dos ressocializandos. E se acontecer, no entanto, de você ter o seu direito de ir e vir cerceado? Em outras palavras, o que acontece se você for preso injustamente? Você poderá utilizar um remédio constitucional chamado de habeas corpus contra a ilegalidade, violência ou coação à sua liberdade de locomoção. A tradução de habeas corpus é “toma-te o corpo”, ou seja, “retome a sua liberdade de ir e vir”. Ela tem cabimento quando há prisão ilegal e não necessita de advogado para sua apresentação na justiça. Isso porque o habeas corpus constitui uma exceção legal à atividade privativa do advogado. É um instrumento processual constitucional, um remédio constitucional previsto no art. 5º, LXVIII, da CF/88, regulamentado pelos artigos 647 a 667 do Código de Processo Penal e que visa prevenir ou sanar a ocorrência de violação ou coação na liberdade de locomoção por ilegalidade ou abuso de poder. Desse modo, como a liberdade está relacionada aos direitos fundamentais da pessoa humana, o habeas corpus pode ser impetrado pela própria parte, por qualquer pessoa em seu favor ou em favor de outra pessoa, e ainda pelo Ministério Público, sendo dispensável a presença do advogado. 67 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Ainda na esfera penal, supondo que em uma emenda à Constituição pretende-se proibir aliberdade de culto ou implantar a pena de morte no Brasil, é fácil concluir que seria inconstitucional, pois a liberdade de culto e a inviolabilidade do direito à vida estão contidas no artigo 5º, que é cláusula pétrea e, portanto, não pode ser modificado. O artigo 6º trata dos direitos sociais dos indivíduos, ou seja, saúde, educação, lazer, trabalho, previdência social e segurança. Já o artigo 7º, que possui 34 incisos, dispõe acerca dos direitos do trabalhador, incluindo: proteção da relação de emprego contra a dispensa arbitrária; Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS); seguro-desemprego; salário mínimo; 13º salário; repouso semanal remunerado; licença-maternidade; aviso prévio; redução dos riscos do trabalho; aposentadoria; creches; pré-escola, entre outros. Dentro desse mesmo espírito democrático, o constituinte garante a liberdade de associação, sendo vedado aquele de caráter paramilitar, a liberdade de reunião e de locomoção. A vida privada, a honra e a imagem também foram preocupações para o constituinte, garantindo-se, assim, a inviolabilidade da casa, do sigilo de correspondência e de comunicação. A constituição também garante o direito de petição, ou seja, de pedir e obter do poder judiciário alguma tutela jurisdicional, bem como certidões e informações dos poderes públicos. Ainda estão previstos no artigo 5º da Constituição Federal o mandado de segurança contra lesão ou ameaça a direito líquido e certo e o habeas data para assegurar o conhecimento ou a retificação de informações constantes em bancos de dados de entidades governamentais ou de caráter público. Lembrete São remédios constitucionais o habeas corpus, o habeas data, o mandado de segurança e o mandado de injunção. Por fim, merece destaque a ação popular, garantida a qualquer cidadão sua propositura, contra ato lesivo ao patrimônio público. 4.5 Tributação e orçamento A Constituição Federal de 1988 trouxe, no título VI, a tributação e o orçamento com suas regras básicas, que orientam a conduta tanto dos particulares administrados, no caso da arrecadação, quanto dos administradores públicos, quando se trata de orçamento. O sistema tributário nacional apresentado no texto constitucional se inicia pelos princípios gerais de direito tributário e estabelece as regras básicas regentes da relação do Estado/Fisco com o particular/contribuinte, definindo as espécies de tributos, as limitações do poder de tributar, a distribuição de competências tributárias e a repartição das receitas tributárias, caracterizando-se, assim, pela rigidez e complexidade. 68 Unidade I Esse conjunto de princípios constitucionais forma um todo orgânico, um verdadeiro corpo normativo que vigora no Brasil a partir das diretrizes constitucionais. E quais são essas diretrizes? Inicialmente, cabe esclarecer que o tributo é imposto, ou seja, uma imposição para convivermos na sociedade. Trata-se de uma colaboração do cidadão para a administração de toda a sociedade. Justamente porque os bens dos cidadãos são apropriados pelo Estado por meio da arrecadação tributária é que se devem ter claras as regras tanto de arrecadação quanto de destinação. É em razão disso que o legislador constituinte decidiu alocar as duas ações em um mesmo título: tributação e orçamento. Para conhecer um pouco mais sobre a história do tributo, convém trazer a história da derrota da cavalaria, narrada por Franz Oppenheimer (1913, p. 146), em tradução livre: A derrocada da cavalaria corresponde à cobrança de tributos previamente delimitados, de modo a se permitir a conservação do excedente do trabalho, que não mais seria destinado ao mantenimento da escorte militaire. O excedente que deixa de ser destinado à cavalaria pode ser comercializado na ville. A derrocada da cavalaria está intimamente ligada ao surgimento de uma nova organização social. Assim, o cavaleiro que protegia contra invasões e dava identidade nacional – com toda a carga simbólica do juramento de fidelidade – é sacrificado para o advento do Estado Nacional. O fundamento do poder de tributar reside no dever jurídico de essencial e estrita fidelidade dos entes tributantes, representados pela União, pelos Estados, pelo Distrito Federal e pelos Municípios, ao que estiver descrito na Constituição da República. Dessa forma, ao mesmo tempo que o legislador constituinte restringiu a liberdade do Congresso Nacional em estabelecer a competência tributária de cada ente federativo – porque ele mesmo estabeleceu quais tributos pertencem a qual ente –, ele descreveu com detalhes as limitações do poder de tributar e a repartição das receitas tributárias, o que torna mais segura a tarefa de arrecadar e gastar os recursos. Existem, conforme a Constituição Federal, três espécies de tributos: os impostos, as taxas e as contribuições de melhoria. As limitações ao poder de tributar constam do art. 150 da Constituição, que elenca algumas limitações ao poder de tributar. Isso porque existem também outros institutos, tal qual a imunidade tributária, que constitui uma limitação ao poder estatal de invadir a propriedade privada através da cobrança de tributos confiscatórios. Aliás, você sabe o que significa tributo confiscatório? Esclarece o professor Alexandre de Moraes (2017) que, apesar da dificuldade na definição dos contornos conceituais e jurisprudenciais, confisco ou confiscação pode ser entendido como o ato do poder público de decretação de apreensão, adjudicação ou perda de bens pertencentes ao contribuinte, sem a contrapartida de justa indenização. Assim, o confisco é estabelecido sempre que o proprietário de um bem o perde, em benefício do poder público, sem a justa indenização. 69 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Diante do exposto, concluímos que as limitações ao poder de tributar são normas legitimadas pela CF que visam impedir as situações por elas descritas, ou seja, restringem a força tributária do Estado. Analisada a parcela que compete à arrecadação, passamos a estudar a parte relativa à utilização dos recursos públicos, tratada no orçamento, tendo em mente, desde já, que a gestão pública é fundamentada basicamente na CF de 1988, nos artigos 165 ao 169. Além da CF, a gestão e administração dos recursos públicos arrecadados em razão dos tributos estão apresentadas na Lei n. 4.320/1964 (Brasil, 1964) e na Lei de Responsabilidade Fiscal (Brasil, 2000). O orçamento público é formado por três documentos: o Plano Plurianual (PPA), a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e a Lei Orçamentária Anual (LOA). Plano Plurianual 4 anos Lei Orçamentária Anual Orçamento fiscal Orçamento da seguridade social Orçamento de investimento das empresas estatais Lei de Diretrizes Orçamentárias Metas e prioridades Figura 14 – Leis do orçamento público Vejamos essas três leis: • Plano Plurianual (PPA): é o instrumento de planejamento do orçamento. Terá vigência para quatro anos e conterá as diretrizes, os objetivos e as metas do governo. A LOA deverá ser elaborada de acordo com os planos estipulados no PPA. • Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO): estabelece quais as prioridades do governo para determinado exercício, extraindo as metas definidas no PPA e atribuindo-as à LOA. Também traz diversas normas que devem ser seguidas na elaboração e durante a execução do orçamento. Até trinta dias após o encerramento de cada bimestre, o poder executivo deverá publicar o relatório resumido da execução orçamentária, chamado de RREO. Essa obrigatoriedade é dada pela CF, e a estrutura de apresentação é detalhada na Lei de Responsabilidade Fiscal. • Lei Orçamentária Anual (LOA): é o orçamento anual propriamente dito. Prevê os orçamentos fiscais, da seguridade social e de investimentos das estatais. Todos os gastos do governo para o ano seguinte são previstos em detalhe na LOA. Dentro da LOA, estão três orçamentos: fiscal, da seguridade social e de investimentos. 70 Unidade I Saiba mais Para saber mais sobre orçamento público, leia o texto a seguir: ORÇAMENTOpúblico. Portal da Transparência, [s.d.]. Disponível em: https://tinyurl.com/ywraadcx. Acesso em: 11 nov. 2025. É proibido fazer vinculações na receita orçamentária, a não ser aquelas expressas pela legislação. Aqui, fazemos menção ao princípio da não afetação da receita. A Constituição também proíbe a abertura de crédito suplementar ou especial (autorizações para despesas) sem autorização legislativa. Além disso, o orçamento público deve ter seus valores determinados. Não é possível elaborar um orçamento com crédito ilimitado. Outra limitação imposta pela Constituição é a de utilizar recursos do orçamento, sem autorização legislativa, para cobrir déficits de empresas, fundações e fundos. Talvez você deva estar se perguntando: e se o governo fizer uma obra que não termine em um ano, ou seja, se o valor gasto pelo governo em investimentos ultrapassar o exercício financeiro? A resposta é simples: todo investimento cuja execução ultrapassar um exercício financeiro deverá estar incluso no PPA ou ter lei que autorize a sua inclusão para que seu início seja permitido. Isso diz respeito ao princípio do planejamento-programação. Se a execução do investimento ultrapassar o exercício financeiro, significa que o valor é relevante; logo, ele deve constar nos planos do governo. 4.6 Ordem econômica e financeira Nos termos da CF, a ordem econômica é fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa e tem por fim assegurar a todos uma existência digna, conforme os ditames da justiça social. A ordem econômica deve observar os seguintes princípios: • Soberania nacional. • Propriedade privada. • Função social da propriedade. • Livre concorrência. • Defesa do consumidor. • Defesa do meio ambiente. • Redução das desigualdades regionais e sociais. • Busca do pleno emprego. • Tratamento favorecido para empresas nacionais. 71 INSTITUIÇÕES DE DIREITO A ordem econômica na Constituição de 1988, em seu artigo 170, optou pelo modelo capitalista de produção, também conhecido como economia de mercado (art. 219), cuja essência é a livre iniciativa. Ainda, assegurou a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei. Confira a lição de Raul Machado Horta (1995, p. 256): No enunciado constitucional, há princípios – valores: soberania nacional, propriedade privada, livre concorrência. Há princípios que se confundem com intenções: reduções das desigualdades regionais, busca do pleno emprego; tratamento favorecido para as empresas brasileiras de capital nacional de pequeno porte (alterado pela EC n. 6/95); função social da propriedade. Há princípios de ação política: defesa do consumidor, defesa do meio ambiente. Sobre os princípios, cabe ponderar os ensinamentos de Alexandre de Moraes sobre o tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte constituídas sob as leis brasileiras que tenham sua sede e administração no país: Emenda Constitucional n. 6, de 15-8-1995, alterou a redação dos arts. 170, IX, 176, § 1º; revogou o art. 171, e criou o art. 246, na Constituição Federal, trazendo novidades em relação ao tratamento das empresas brasileiras. A redação anterior previa como um dos princípios da ordem econômica, o “tratamento favorecido para as empresas brasileiras de capital nacional de pequeno porte”. Por sua vez, o art. 171, que trazia as definições de empresa brasileira e empresa brasileira de capital nacional, foi revogado, inexistindo qualquer diferenciação ou benefício nesse sentido, inclusive, em relação à pesquisa e à lavra de recursos minerais e aproveitamento dos potenciais de energia hidráulica; em face da alteração da redação originária do art. 176, § 1º, da Constituição Federal, basta que sejam empresas constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sua sede e administração no País (Moraes, 2017, p. 861, grifo nosso). Nota-se que houve uma alteração no sentido de estender o tratamento favorecido também às empresas com capital internacional, sendo suficiente ter a sua sede e administração no Brasil e ser constituídas conforme a legislação brasileira, não mais diferenciando capital nacional de capital estrangeiro. Atitudes como a narrada pretendem atender a um dos desejos do constituinte: a busca pelo pleno emprego. 72 Unidade I Moraes (2017) destaca que, apesar de o texto constitucional de 1988 ter consagrado uma economia descentralizada de mercado, autorizou o Estado a intervir no domínio econômico como agente normativo e regulador, com a finalidade de exercer as funções de fiscalização, incentivo e planejamento indicativo ao setor privado, sempre com fiel observância aos princípios constitucionais da ordem econômica. A atuação do Estado na economia se dá de duas formas: de maneira direta (excepcionalmente), nos casos previstos na Constituição e quando necessária aos imperativos da segurança nacional ou a relevante interesse coletivo, conforme definidos em lei, nos termos do art. 173 da Constituição Federal; ou de maneira indireta (via de regra), na qualidade de agente normativo e regulador da atividade econômica no que concerne às funções de fiscalização, incentivo e planejamento, sendo este determinante para o setor público e indicativo para o setor privado, conforme o art. 174 da Constituição Federal. Como exemplo das questões tratadas na seara econômica, tomemos a atividade turística, que é importante para qualquer economia, seja ela nacional, regional ou local, pois o deslocamento constante de pessoas aumenta o consumo, motiva a diversidade de produção de bens e serviços e possibilita o lucro e a geração de emprego e renda. Apesar de alguns estudos demonstrarem que o turismo apresenta efeitos econômicos, sociais, culturais e ambientais múltiplos, os resultados produzidos nem sempre são divididos igualmente entre os envolvidos. Afinal, como qualquer atividade capitalista, produz desigualdades na distribuição dos benefícios e dos custos. A população residente é vítima dos efeitos do turismo e sofre com alguns impactos negativos; por exemplo, o aumento descontrolado do número de turistas e de agressões naturais e culturais. Acerca da função social da propriedade, cabe destacar que está intimamente ligada à política urbana, à política agrícola e fundiária e à reforma agrária. Por função social, entende-se a utilização da propriedade, urbana ou rural, conforme os objetivos sociais de uma determinada cidade. Embora a Constituição garanta o direito à propriedade, a função social impõe limites a ela para poder garantir que o exercício desse direito não seja prejudicial ao bem coletivo. Um exemplo da aplicação desse princípio é a desapropriação para a reforma agrária de terras improdutivas. Isso significa que uma propriedade rural ou urbana não deve atender apenas aos interesses de seu proprietário, mas também ao interesse da sociedade. 4.7 Ordem social A ordem social, baseada no primado do trabalho e tendo por objetivo o bem-estar e a justiça sociais (art. 193 da CF), é prevista nos arts. 193 a 232 do texto constitucional, em que contemplam-se diversos assuntos considerados relevantes para a sociedade, sob a ótica do constituinte quando da elaboração de nossa Constituição. Observe na figura 15 as matérias relativas à ordem social com os respectivos artigos da Constituição Federal. 73 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Or de m s oc ia l Família da Criança, do Adolescente e da Pessoa Idosa Assistência Social Desporto Disposições Gerais Comunicação Social Da Saúde Educação Dos índios Ciência e Tecnologia Seguridade Social Meio Ambiente Previdência Social Cultura Arts. 226 a 230 Arts. 203 e 204 Art. 217 Art. 193 Arts. 220 a 224 Arts. 196 a 200 Arts. 205 a 214 Arts. 231 e 232 Arts. 218 e 219 Arts. 194 e 195 Art. 225 Arts. 201 e 202 Arts. 215 e 216 Figura 15 – Ordem social na Constituição Entre as questões mais significativas acerca da ordem social, está o direito previdenciário.O texto constitucional estabeleceu que a previdência social será organizada em termos de um regime geral, contributivo e de filiação obrigatória (art. 201 da Constituição). Nesse caso, o modelo brasileiro optou por um sistema contributivo em que o regime previdenciário exige a contribuição obrigatória por parte daqueles que se vinculam ao sistema, afastando-se de amostras mais licenciosas nas quais a contribuição é facultativa ou mesmo dispensada. Essa estrutura de financiamento compulsório permite – ou, pelo menos, busca permitir – que o sistema se autoalimente, viabilizando a aposentadoria e a concessão dos demais benefícios previdenciários com base no regime de contribuição daqueles que estão na ativa. No modelo atual, a previdência social é financiada através de um sistema de coparticipação entre a iniciativa privada e o poder público, a partir de tríplice forma, composta pelo financiamento dos empregados, dos empregadores e do Estado, havendo uma forma solidária de integração. É aquilo que muitos denominam de coparticipação no custeio da previdência, a partir de um financiamento da sociedade de forma direta e indireta, que une trabalhadores, empresas e governo em prol de um objetivo comum. Observe a figura 16. 74 Unidade I Segurados Dependentes Servidores da União, dos Estados, dos Municípios e do Distrito Federal RGPS RPPS Pública Complementar - facultativa Social Previdência Privada Aberta Qualquer pessoa - por instituição financeira Fechada - via empresa para seus funcionários PGBL PAGP PRGP PRSA PRI Figura 16 – Previdência social no Brasil A previdência se divide em duas: social e complementar facultativa. A social subdivide-se em Regime Geral de Previdência Social (RGPS) e Regime Próprio de Previdência Social (RPPS). Já a previdência complementar facultativa pode ser pública ou privada, sendo que a privada é aberta, ou seja, acessível a qualquer pessoa que se filie a ela, independentemente de condição, o que é o caso da pública (apenas servidores públicos). A exceção é a previdência privada fechada, destinada apenas aos funcionários de uma determinada empresa. A previdência privada é cessível a qualquer pessoa que deseje e é oferecida por instituições financeiras. São o Plano Gerador de Benefício Livre (PGBL); o Plano com Remuneração Garantida e Performance (PRGP); o Plano com Atualização Garantida e Performance (PAGP); o Plano com Remuneração Garantida e Performance sem Atualização (PRSA) e o Plano de Renda Imediata (PRI). Sobre os preceitos constitucionais relativos à educação, trata-se de um direito de todas as famílias e um dever do Estado, com a colaboração da sociedade e o objetivo de atender ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Os Municípios atuarão prioritariamente no Ensino Fundamental e na Educação Infantil, e os estados e o Distrito Federal atuarão prioritariamente no Ensino Fundamental e Médio. No tocante à igualdade das pessoas com deficiência, a Constituição determinou em seu art. 227, §2, que a lei disporá sobre normas de construção dos logradouros e dos edifícios de uso público e de fabricação de veículos de transporte coletivo, a fim de garantir acesso adequado às pessoas com deficiência. Além disso, assegura a reserva de cargos e empregos públicos, proíbe a discriminação salarial e determina a habilitação e reabilitação para a promoção de sua integração à vida comunitária. 75 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Exemplo de aplicação O Instituto Mara Gabrilli (IMG) atua em projetos que resgatam a dignidade e a autonomia de pessoas com deficiência, além de desenvolver publicações, disponíveis para download, para instruir a população sobre seus direitos e possibilidades. Um dos projetos desenvolvidos pelo Instituto é o Cadê você?, que localiza e identifica pessoas com deficiência residentes nas comunidades mais carentes do município de São Paulo, avalia suas condições de vida, sua situação socioeconômica, seus recursos de acessibilidade e cria uma rede de proteção, levando informações sobre os principais serviços existentes nas áreas de saúde, trabalho, acessibilidade, educação e direito. Conforme as informações do Instituto, há uma equipe do projeto Cadê você? formada por profissionais, como: assistente social, fonoaudiólogo, psicólogo, fisioterapeuta e terapeuta ocupacional. E no seu município, existem ações de institutos voltadas às crianças, às pessoas idosas, às pessoas com deficiência ou aos indígenas? Reflita. Saiba mais Para conhecer melhor o projeto Cadê você?, acesse: INSTITUTO MARA GABRILLI. Projeto Cadê Você? São Paulo: IMG, 2015. Disponível em: https://tinyurl.com/y2ce5sky. Acesso em: 11 nov. 2025. Como já sabemos, a Constituição de 1988 é fruto da consolidação da democracia no Brasil. Assim, existiam muitos desejos de mudança e necessidades reais de regulamentação. É o caso do regramento da comunicação social. Esse regramento é resultado da censura administrativa, levada a efeito pelos órgãos do poder executivo. É por isso que o art. 220 determina que a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto na Constituição. Uma questão sensível é a propaganda de tabaco. A regulamentação da Lei Antifumo n. 12.546 (Brasil, 2011b) é um dos principais temas abordados pelos especialistas. Sancionada em dezembro de 2011, a lei proíbe a propaganda em pontos de venda de cigarros, como padarias e lanchonetes, além de proibir o fumo em ambientes fechados. No que tange à disciplina constitucional do meio ambiente, o art. 225 determina que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. 76 Unidade I A governança ambiental busca minimizar os impactos ambientais que ações governamentais ou empresariais podem ocasionar. Os danos ambientais não conhecem fronteiras, causando prejuízos a empresas e países. Desse modo, os países limítrofes e/ou mesmo distantes devem respeitar as regras de proteção. É por isso que as questões ambientais são tratadas, via de regra, em sede de direito internacional. Apresentaremos aqui um panorama de princípios de direito ambiental, que expõem a forma pela qual a ciência jurídica entende e interpreta as questões relativas ao meio ambiente. Quadro 6 – Panorama de princípios de direito ambiental Princípio da ubiquidade Princípio do desenvolvimento sustentável Princípio do poluidor/usuário-pagador Princípio da cooperação dos povos Princípio da participação Princípio da informação ambiental Princípio da educação ambiental Princípio da prevenção Princípio da precaução Princípio da função socioambiental da propriedade privada Princípio do usuário-pagador Princípio da responsabilidade ambiental A seguir, vamos conhecer melhor cada um desses princípios: • Princípio da ubiquidade: o bem ambiental não encontra qualquer fronteira, seja espacial, seja territorial, seja mesmo temporal. A reparação deve ser a mais ampla possível, levando em consideração não apenas o ecossistema diretamente afetado, mas todos aqueles outros que sofrem consequências negativas, ainda que reflexas, da poluição. A compensação deve atender aos interesses não apenas das gerações atuais, mas das que estão por vir. • Princípio do desenvolvimento sustentável: busca, para o progresso econômico e social, a racionalização no uso dos recursos ambientais, de forma a não apenas satisfazer as necessidades das gerações presentes, mas também não comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazer as suas próprias necessidades. • Princípio do poluidor-pagador ou usuário-pagador: princípio a ser usado para alocar custos das medidas de prevenção e controle da poluição, encorajar (estimular)o uso racional dos recursos ambientais escassos e evitar distorções do comércio internacional e de investimentos. Isso significa que o poluidor deve suportar os custos do implemento das medidas mencionadas, decididas pelas autoridades públicas para assegurar que o ambiente se mantenha em nível aceitável. Em outros termos, o custo dessas medidas deveria refletir-se no preço dos bens e serviços, cuja produção e consumo são causadores de poluição. Tais medidas não devem ser acompanhadas de subsídios, porque desse modo criariam distorções significativas em comércio e investimentos internacionais. 77 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Outra questão importante trazida à Constituição no tópico relativo à ordem social é a proteção da família, da criança, do adolescente e da pessoa idosa. Acerca da família, a definição e os arranjos sociais foram alterados no curso do tempo. A CF/88 preserva a situação de grupo, sem preocupação com gênero e formação de casal (admitindo-se a formação de família para os casos de famílias constituídas por um membro e seus descendentes). Merecem situação especial a criança e o adolescente, conforme art. 227 da CF/88: Art. 227 É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão (Brasil, 1988). Repare no comando legal e na sucessão de agentes que devem cuidar da criança, do adolescente e do jovem: primeiro a família, depois a sociedade e, por fim, o Estado. Nessa questão social tão sensível, existe uma figura essencial na proteção desse grupo de pessoas: o conselho tutelar. O conselho tutelar é um órgão municipal responsável por zelar pelos direitos da criança e do adolescente. Formado por membros eleitos pela comunidade para mandato de três anos, é um órgão permanente e possui autonomia funcional, ou seja, não é subordinado a qualquer outro órgão estatal. Segundo consta no artigo 136 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), são atribuições do conselho tutelar e, consequentemente, do conselheiro tutelar atender não só crianças e adolescentes, mas também atender e aconselhar pais ou responsáveis. O conselho tutelar deve ser acionado sempre que se perceba abuso ou situações de risco contra a criança ou o adolescente, como em casos de violência física ou emocional. Cabe ao conselho tutelar aplicar medidas que zelem pela proteção dos direitos da criança e do adolescente. Saiba mais Leia o livro a seguir, publicado num momento em que o governo federal e a sociedade civil começaram a debater de forma mais profunda o problema da violência em todas as suas formas e manifestações: CARLSSON, U.; VON FEILITZEN, C. A criança e a violência na mídia. Brasília: Unesco Brasil, 1999. Disponível em: https://tinyurl.com/mr3ztt4d. Acesso em: 11 nov. 2025. 78 Unidade I Medidas constitucionais também alcançaram pessoas idosas, a fim de preservar a qualidade de vida, nos termos do art. 230: Art. 230. A família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida. § 1º Os programas de amparo aos idosos serão executados preferencialmente em seus lares. § 2º Aos maiores de sessenta e cinco anos é garantida a gratuidade dos transportes coletivos urbanos (Brasil, 1988). No Brasil, a Lei n. 10.741/2003 (Brasil, 2003) dispõe sobre o Estatuto da Pessoa Idosa. Mas você sabe quem é a pessoa idosa nos termos da lei? São aquelas pessoas com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos. É obrigação do Estado garantir à pessoa idosa a proteção à vida e à saúde, mediante efetivação de políticas sociais públicas que permitam um envelhecimento saudável e em condições de dignidade. Finalmente, sobre a proteção dos indígenas, a Constituição preocupa-se em garantir-lhes o solo, fonte de suas riquezas, bem como a sua cultura. Estatuto do Índio é o nome pelo qual ficou conhecida a Lei n. 6.001/1973 (Brasil, 1973b), que dispõe sobre as relações do Estado e da sociedade brasileira com os indígenas. Em linhas gerais, o Estatuto seguiu um princípio estabelecido pelo velho Código Civil brasileiro (Brasil, 1916): de que os indígenas, sendo “relativamente incapazes”, deveriam ser tutelados por um órgão indigenista estatal – de 1910 a 1967, o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), e, atualmente, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) – até que eles estivessem “integrados à comunhão nacional”, ou seja, à sociedade brasileira. Figura 17 Disponível em: https://tinyurl.com/yv4w8num. Acesso em: 11 nov. 2025. 79 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Segundo o Instituto Socioambiental (ISA), a Constituição de 1988 rompe essa tradição secular ao reconhecer aos indígenas o direito de manter a sua própria cultura. Há o abandono da perspectiva assimilacionista, a qual entendia os indígenas como categoria social transitória, a serem incorporados à comunhão nacional. Pondera o Instituto que a Constituição não fala em tutela ou em órgão indigenista, mas mantém a responsabilidade da União de proteger e fazer respeitar os direitos indígenas. Desde a promulgação da Constituição, surgiram propostas em tramitação no Congresso para rever a legislação ordinária relativa aos direitos dos indígenas. A partir de 1991, projetos de lei foram apresentados pelo executivo e por deputados para regulamentar dispositivos constitucionais e adequar a velha legislação aos termos da nova Carta. Em 1994, uma proposta do Estatuto das Sociedades Indígenas foi aprovada por uma comissão especial da Câmara dos Deputados, mas se encontra paralisada em sua tramitação. 4.8 Disposições constitucionais gerais Nas disposições gerais da Constituição, existem diversos artigos que tratam de temas variados. Entre esses temas, merecem destaque as orientações para os dez anos da criação de um novo Estado na Federação, atribuição constitucional específica ao Ministério da Fazenda para fiscalizar o comércio exterior. Sobre a matéria penal, as disposições gerais determinam que as propriedades rurais e urbanas de qualquer região do país onde forem localizadas culturas ilegais de plantas psicotrópicas ou a exploração de trabalho escravo na forma da lei serão expropriadas e destinadas à reforma agrária e a programas de habitação popular, sem qualquer indenização ao proprietário e sem prejuízo de outras sanções previstas em lei, observado, no que couber, o disposto no art. 5º, sobre a função social da propriedade. Além disso, estabelecem que todo e qualquer bem de valor econômico apreendido em decorrência do tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins e da exploração de trabalho escravo será confiscado e revertido em fundo especial com destinação específica, na forma da lei. 4.9 Ato das disposições constitucionais transitórias O ato das disposições constitucionais transitórias (ADCT) é uma norma transitória, isto é, de irradiação de eficácia (vigência) delimitada pela sua finalidade: cadenciar a organização e o funcionamento – e, portanto, a oferta dos serviços da administração pública – dos poderes da República, simétricos ao ordenamento jurídico advindo da Constituição Federal de 1988. A finalidade do ADCT é estabelecer regras de transição entre o antigo ordenamento jurídico e o novo, instituído pela manifestação do poder constituinte originário, providenciando a cadência e a concatenação do antigo e do novo direito edificado. Assim, o ADCT versa sobre a execução orçamentária concatenada pela organização dos poderes da República e de seu funcionamento, sempre em vista do lastro sócio histórico da CF/1988. Encampada a soberania pelo povo, o Estado democrático de direito, sob ordenamento jurídico soberano, ultrapassao regime militar mediante o poder de império outorgado ao poder judiciário, titular único e exclusivo 80 Unidade I da iuris dicere (tutela jurisdicional), eis que a titularidade soberana do poder de império: potestade de dizer o direito, apenar, empregar força coercitiva (monopólio da violência legitimada, dotada de auto executoriedade própria do poder geral de cautela) por meio do exercício da iuris dicere. Com relação ao conteúdo do ADCT, a própria consultoria legislativa do Senado Federal, em trabalho elaborado por RAAD (2005), alerta que é preciso pôr fim a essa tendência (de inserir ou manter conteúdos no ADCT), pois, de resto, na maior parte das vezes, as disposições inseridas no ADCT poderiam pura e simplesmente figurar como artigos das emendas que as contemplaram de modo irregular. Uma das matérias trazidas no ADCT foi a previsão, no art. 2º, da realização de um plebiscito para eleger o sistema de governo da República. O plebiscito ocorreu no dia 21 de abril de 1993, sendo que a República e o sistema presidencialista de governo foram mantidos pela população. Pelo artigo, a consulta popular estava marcada originalmente para ocorrer no dia 7 de setembro de 1993, mas foi antecipada para 21 de abril de 1993 pela Emenda Constitucional n. 2, de 25 de agosto de 1992. O resultado foi que, de um universo de 90.256.461 eleitores na época, compareceram às urnas 66.209.385 (73,36%), sendo que 551.043 votaram em trânsito na ocasião. A República foi escolhida por 43.881.747 (66,28%) eleitores, e a Monarquia recebeu 6.790.751 (10,26%) votos. Votaram em branco nesse item 6.813.179 (10,29%) eleitores, e 8.741.289 (13,20%) anularam o voto. Já 36.685.630 (55,41%) eleitores optaram pelo sistema presidencialista de governo, e 16.415.585 (24,79%) pelo parlamentarista. Votaram em branco nesse item 3.193.763 (4,82%) eleitores, e 9.712.913 (14,67%) votaram nulo. 81 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Resumo O homem é um ser social e, por isso, em toda sociedade deve existir um conjunto de normas a serem respeitadas. Assim, a origem do direito é a origem do próprio homem. A expressão latina sintetiza claramente essa ideia: ubi societa, ibi jus (“onde há sociedade, existe o direito”). O conceito de direito pode ser interpretado como norma, na medida em que representa a lei, uma faculdade, porque é uma capacidade dada ao sujeito de exercê-la e é também uma ciência social aplicada. Direito também tem a conotação de justiça, ou do que é justo, aquilo que deve ser preservado nas relações sociais. Na Antiguidade, a lei do talião determinava a proporcionalidade entre a conduta considerada criminosa e a retaliação aplicada às pessoas que violavam os preceitos de bem comum. A grande contribuição romana para o direito é a literatura jurídica, e um dos documentos mais importantes do direito romano foi o Corpus Iuris Civilis. O direito objetivo é o conjunto de normas existentes, ao passo que o direito subjetivo representa a permissão que as pessoas têm de invocar as normas jurídicas em seu favor. O direito e a moral se diferenciam pelo campo de atuação, pelos objetivos, pela forma e aplicação da sanção. A moral está no indivíduo, e o direito é a parte social, sendo que a justiça é o seu principal valor. O direito pode ser classificado em privado, que trata dos interesses das pessoas, e público, que se divide em interno e externo e que trata dos interesses das sociedades. As fontes do direito são classificadas em formais (leis, doutrina, jurisprudência e contratos) e subsidiárias (analogia, costumes e princípios gerais de direito). A lei possui uma organização que parte da Constituição Federal, leis complementares e ordinárias, medidas provisórias, decretos e outras espécies normativas, como resoluções, portarias etc. A lei entra em vigor em todo o território nacional após 45 dias da sua publicação, exceto se houver disposição em contrário, que a faça valer antes ou depois desse período. 82 Unidade I A Constituição Federal pode ser classificada quanto à origem em promulgada ou outorgada, quanto à forma em escrita ou não escrita (costumeira) e quanto à estabilidade em rígida ou flexível. A República Federativa do Brasil possui uma forma de Estado federativa, uma forma de governo republicana e um sistema de governo presidencialista. São esses os três pilares da organização nacional dada na CF. Os princípios fundamentais da República Federativa do Brasil são a soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político. O artigo 5º da CF possui 76 incisos que dispõem sobre os direitos e as garantias individuais gerais e de natureza penal. Entre as garantias individuais gerais, estão: a liberdade de pensamento; a liberdade de consciência e religiosa; a liberdade de expressão; o direito à privacidade; a inviolabilidade do lar; o sigilo de correspondência; o direito de propriedade e o direito à herança. A Constituição Federal de 1988 trouxe, no título VI, a tributação e o orçamento com suas regras básicas, que orientam a conduta tanto dos particulares administrados, no caso da arrecadação, quanto dos administradores públicos, quando se trata da forma de o agente público gastar os seus recursos. A ordem social brasileira está baseada no primado do trabalho e tem por objetivo o bem-estar e a justiça sociais. Essa ordem social está prevista nos arts. 193 a 232 da Constituição. O Ato das Disposições Constituicionais Transitórias versa sobre as regras de transição entre o antigo ordenamento jurídico, anterior a 1988, e o novo direito que estava sendo edificado. 83 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Exercícios Questão 1. José Sofrimento procurou um amigo que estuda Direito porque ele está com problemas conjugais e deseja se separar. Ele não é casado, mas vive em regime de união estável com Jane, que também é funcionária na loja de material de construção que ele possui. No entanto, Jane não tem carteira assinada, porque José preferiu que ela constasse no contrato social da empresa como sócia, possuindo 1% do capital social. José pretende romper o vínculo da união estável e, também, deseja que a moça não trabalhe mais na loja, visto que essa situação poderá ficar constrangedora após a separação. Ao receber tais informações, o amigo de José concluiu que o problema é complicado, pois existem aspectos relacionado ao: A) Direito de Família, Direito Empresarial e Direito Previdenciário. B) Direito de Família, Sucessões e Direito do Trabalho. C) Direito de Família, Direito Tributário e Direito do Trabalho. D) Direito Civil, Direito Empresarial e Direito do Trabalho. E) Direito Constitucional, Direito Administrativo e Direito Tributário. Resposta correta: alternativa D. Análise das alternativas A) Alternativa incorreta. Justificativa: Direito de Família é um ramo do Direito Civil. Direito Empresarial aplica-se ao caso em estudo e é utilizado para que o vínculo societário seja desfeito (sendo que, na verdade, ele é falso). Direito do Trabalho aplica-se ao caso em estudo, visto que a funcionária, que era uma falsa sócia, pode alegar que tinha direitos trabalhistas que lhe foram negados em razão da estratégia de colocá-la no contrato social da empresa. B) Alternativa incorreta. Justificativa: Direito de Família e Sucessões são áreas do Direito Civil. No caso, somente o Direito de Família é utilizado para o desfazimento do vínculo de união estável, porque a sucessão se estabelece apenas quando ocorre a morte de alguém que tinha bens a serem partilhados entre sucessores – quase sempre o cônjuge sobrevivente, os descendentes e os ascendentes. O uso do Direito do Trabalho está correto, visto que a funcionária foi falsamente colocada como sócia da empresa e tem direitos trabalhistas a exigir do seu ex-companheiro e empregador. 84 Unidade I C) Alternativa incorreta. Justificativa: Direito de Família é um ramo do Direito Civil e é utilizado para a separação da união estáveldo casal. Direito Tributário não é utilizado no caso em estudo, pois não estão em discussão tributos a serem recolhidos. Direito do Trabalho é utilizado porque a falsa sócia da empresa atuava como empregada e, por isso, tem direitos a exercer. D) Alternativa correta. Justificativa: O problema colocado no enunciado da questão é solucionado com a utilização do conhecimento de três áreas do Direito: • Direito Civil: para solucionar o rompimento da união estável do casal. • Direito Empresarial: para solucionar o contrato social da empresa que falsamente colocava como sócia alguém que, na verdade, era empregada. • Direito do Trabalho: para que a funcionária possa requerer todos os valores que deixaram de ser pagos durante o período em que ela figurou falsamente como sócia e trabalhou como empregada. E) Alternativa incorreta. Justificativa: os três ramos apontados na alternativa são do Direito Público, que não é utilizado para solucionar o caso em estudo, oriundo de uma relação privada de casal, aliada a uma relação empresarial e trabalhista. Questão 2. A Destroy All é uma empresa de construção de condomínios residenciais e empresariais que pretende aprovar um projeto para a construção de duas mil unidades residenciais e três torres de edifícios para empresas e escritórios em uma região próxima à cidade de Salvador, Bahia, área de mangue e com intensa necessidade de proteção ambiental. O projeto vai gerar empregos e aumentar o recolhimento de tributos no município e no estado. Contudo, esse projeto é, sem dúvida, fortemente agressivo à preservação ambiental, o que fez com que o parecer dos técnicos fosse contrário ao projeto, provocando muita polêmica. Em relação a esse caso, considere os princípios a seguir. I – Desenvolvimento sustentável. II – Ubiquidade. III – Autonomia da vontade. 85 INSTITUIÇÕES DE DIREITO O parecer dos técnicos deve estar alicerçado no(s) princípio(s) apresentado(s) apenas em: A) I. B) II. C) III. D) I e II. D) I e III. Resposta correta: alternativa D. Análise dos princípios I – Princípio correto. Justificativa: o princípio do desenvolvimento sustentável pertence à área de Direito Ambiental e determina que o progresso econômico e social só pode ser viabilizado mediante a racionalização do uso dos recursos naturais, de forma a atender aos interesses das gerações atuais e a preservar os interesses das futuras gerações. II – Princípio correto. Justificativa: o princípio da ubiquidade visa garantir a proteção ao meio ambiente, que sempre é considerado um fator relevante para ser estudado preventivamente antes de qualquer atividade, pública ou privada, com objetivo de preservar a qualidade de vida no planeta. III – Princípio incorreto. Justificativa: o princípio da autonomia da vontade permite às partes, no contrato, a agirem em total consonância com sua vontade. Esse princípio é fortemente relativizado no Direito Ambiental, pois não há interesse privado que seja superior ao interesse público da preservação da vida e da qualidade de vida no planeta. 86 Unidade II Unidade II 5 DIREITO CIVIL O direito civil é um dos ramos do direito privado de maior importância, pois ele regula os direitos e as obrigações no âmbito da vida privada das pessoas, ou seja, as formas de aquisição de direitos e obrigações, incluindo os seus bens (patrimônios) e as demais relações participantes da sociedade. A lei que trata do direito civil é a Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Brasil, 2002a), que institui o Código Civil. Esse código, por tratar dos mais variados assuntos, foi dividido em duas grandes partes, que tiveram subdivisões em livros específicos, de modo a facilitar o entendimento e o estudo das matérias afins. Sua divisão foi efetivada da seguinte forma: Parte Geral (Livro I – Das Pessoas; Livro II – Dos Bens; Livro III – Dos Fatos Jurídicos) e Parte Especial (Livro I – Do Direito das Obrigações; Livro II – Do Direito de Empresa; Livro III – Do Direito das Coisas; Livro IV – Do Direito de Família; e Livro V – Do Direito das Sucessões). 5.1 Noções introdutórias ao direito civil O direito civil, tal qual o direito de empresa, comercial e outros ramos, está compreendido no direito privado. Mas nem sempre foi assim. O Código Civil de 1916 incorporou uma parte do que se conhecia por Código Comercial e que tratava do que hoje se conhece como direito de empresa. Outra questão legislativa importante foi a troca do nome da antiga Lei de Introdução ao Código Civil Brasileiro – Decreto-Lei n. 4.657/1942 – para Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro – conforme redação dada pela Lei n. 12.376/2010 –, que inovou seu teor também a reboque da constitucionalização do direito privado operada pela Constituição Federal de 1988. Note-se, de antemão, que a Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, justamente por versar sobre a matéria de teoria geral do direito, alcança a matéria de direito público, a exemplo de regra geral de convalidação de atos administrativos, muito notadamente do art. 20 ao art. 24 da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, autêntico prisma de teoria geral do direito regente de matéria de direito público. Quer um exemplo do que era tratado na Lei de Introdução ao Código Civil e, ainda, compreender como a legislação acompanha a evolução social? Observe a figura a seguir: Estava dentro do Código Civil Servia como orientação para todos os ramos do direito Exemplo: vigência da lei Não se destinando à vigência temporária, a lei terá vigor até que outra a modifique ou revogue É uma lei autônoma Seve como orientação de teoria geral de direito Exemplo: a LICC foi revogada (pela Lei n. 12.376/2010) e passou a se chamar LINDB LINDB LICC Figura 18 – Lei de Introdução ao Código Civil vs. Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro 87 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Repare que toda a evolução do direito civil possui uma característica comum, que são os valores fundamentais da sociedade. Grande parte desses conteúdos são tratados no direito civil, especialmente a personalidade, o patrimônio das pessoas, a forma como as pessoas fazem seus acordos no Brasil, entre outros. O nome do conjunto de valor perene é invariante axiológica. Disse o grande jurista Miguel Reale (1991), em conferência proferida no Rio de Janeiro, em 9 de julho de 1991, na instalação da VI Semana Internacional de Filosofia, promovida pela Sociedade Brasileira de Filósofos Católicos, que assim prestou homenagem ao autor no ensejo de seu octogésimo aniversário: Não creio possa haver tema mais fascinante do que este das invariantes axiológicas, isto é, da existência ou não de valores fundamentais e fundantes que guiem os homens, ou lhes sirvam de referência, em sua faina cotidiana. Seriam como que estrelas valorativas determinantes ou esclarecedoras de cada vocação, desde a do sacerdote para o sagrado à do poeta para a beleza, desde a do empresário para a riqueza à do filósofo para a verdade, desde a do jurista para a justiça à do trabalhador para a produção e o útil-vital. A magnitude do assunto suscita logo uma série de perguntas inquietantes: “serão tais valores primordiais inatos? Se não o forem, terão objetividade em si, mas como e quando a constituíram? Ou serão, ao contrário, meras aparências, simples idealizações subjetivas com que nos enganamos a nós mesmos, mascarando a nossa ignorância?”. Vede que estão em jogo a natureza e o destino do homem, para sabermos se a sua vida tem um sentido, ou é mera folha solta e inerme, entregue aos surpreendentes e imprevistos avatares da História? (Reale, 1991, p. 131). Saiba mais Quer saber mais sobre as variantes axiológicas? Acesse a íntegra do artigo no link a seguir: REALE, M. Invariantes axiológicas. Estudos Avançados, São Paulo, v. 5, n. 13, set./dez. 1991. Disponível em: https://tinyurl.com/ybvn9uw5. Acesso em: 11 nov. 2025. A liberdade é um bem jurídico, um bem da vida, tutelado pelo direito como invariante axiológica consagrada pelaConstituição Federal. A reboque da Constituição de 1988, o Código Civil de 2002 rege a autonomia privada, que diz respeito justamente ao manejo da liberdade pelos particulares, eis que capazes da prática de atos que impliquem assunção de direitos e obrigações. Dir-se-á mais de previsões gerais e abstratas previstas na norma (campo do obrigatório e proibido, não do facultativo), ao passo em que obrigação dir-se-á mais de posições (direitos e obrigações) assumidas por meio de ato ou contrato, justamente em razão do exercício da capacidade civil: o exercício da autonomia privada, que encontra limite ou contra freio em matéria de ordem pública ou matéria de ordem cogente. Isto é, matérias que não são livremente disponíveis pelo exercício da autonomia privada. 88 Unidade II Note-se, ainda, que é muito caro ao direito brasileiro a codificação do direito civil, eis que o Brasil já experimentou em seu processo sócio-histórico a justaposição de ordens jurídicas. Basta recordarmos que a colonização brasileira foi realizada por meio do Padroado Régio: o clero, mais notadamente os jesuítas da Companhia de Cristo, geria a administração pública. A justaposição normativa se dava exatamente porque diversas normas vigoravam ao mesmo tempo, nesse caso, a Igreja e o Estado. Abundam arquivos na Torre do Tombo, em Portugal, que demonstram que a Ordem de Cristo contou com o poder de senhorio, dotado de jurisdição cível e criminal, com poder de mero império (potestade: poder de castigar e de usar força, mesmo violência, reserva de poder coercitivo legitimado) e poder de misto império (poder de exercer jurisdição, exercer atividade judicante, distribuição de justiça) (Noronha, 2008). Somem-se a esse contexto outros fatores, como a incidência de ordenações portuguesas com as derrogações em matéria de silvícolas da terra, isto é, derrogação da norma geral para com os índios, sob incidência de equidade como mecanismo de integração da norma sem que houvesse hipótese de lacuna legislativa, mas em razão da pessoa, o índio. Para reforçar a importância de percebermos quão cara é para o direito brasileiro a codificação escrita de um Código Civil, ponderemos o processo sócio-histórico do direito brasileiro. De início, uma brevíssima notícia histórica: antes da experiência do direito luso-brasileiro com os indígenas e a respectiva derrogação da norma geral escrita por equidade, e mesmo o costume (mecanismos de integração da norma), e sem que houvesse hipótese de lacuna legislativa, Portugal já havia experimentado o assentamento e o convívio com povos então ditos bárbaros, até porque Roma sucumbiu aos bárbaros. De modo que, em Portugal, matéria do chamado direito das gentes – pauta mais estudada em direito constitucional e muito cara à matéria de soberania popular, que muito importa aos usos e costumes que também são fontes de direito, ao lado da norma escrita decorrente de processo legislativo – importava derrogação de ordenação portuguesa pelos usos e costumes dos povos bárbaros. Quem se recorda do livro Eurico, o presbítero, de Alexandre Herculano, pode já ter reparado nas notas do autor a respeito do direito visigodo ou direito visigótico, de importância capital na formação do direito português, que, ademais, convivia, com a justaposição do direito canônico. As Ordenações Filipinas vigeram por mais de três séculos no Brasil, e esse modelo de corpo legislativo que remonta a Portugal do século XVII perpassou ao Código Civil de 1916. Foi essa experiência histórica que determinou a inspiração do Código Civil de 1916 (Gomes, 2006). Tudo ao passo em que as Ordenações Filipinas já surgiram como forma de atualização do direito português anterior, construído nas Ordenações Manuelinas “constituindo, verdadeiramente, uma presença da Idade Média nos tempos modernos” (Gomes, 2006, p. 4). Essa permanência histórica de figuras jurídicas que perpassaria até o Código Civil de 1916 remontaria, ademais, aos comentários e interpretações (glosas) do direito romano, em especial aos entendimentos de Accursio, Bártolo e demais jurisconsultos medievais que interpretavam e comentavam o direito romano (Gomes, 2006). Acerca do liame entre as Ordenações Filipinas que substituíram as Ordenações Manuelinas: 89 INSTITUIÇÕES DE DIREITO As Ordenações Filipinas foram elaboradas em cumprimento ao Alvará de 5 de junho de 1595 pelo qual Felipe II de Espanha mandou rever, reformar e codificar toda a legislação portuguesa. [...]. O método e a sistematização das matérias é o das Ordenações manuelinas. Representam, porém, uma reação contra o direito canônico, na opinião do mesmo Cândido Mendes, apoiada por Martins Junior (Gomes, 2006, p. 4). É que o direito implica justamente uma continuidade, permanência, consagração na experiência sócio-histórica, de modo que há uma permanência relativa das figuras jurídicas. “O direito, indiscutivelmente, inova, apresenta elementos de renovação permanente, mas conserva, sempre, um fulcro de tradição” (Reale, 1991, p. 61). Tanto que, mesmo a chamada Lei da Boa Razão, Lei de 18 de agosto de 1769, determinava que eventuais lacunas nas Ordenações deveriam ser integradas conforme opinião de jurisconsultos de acordo “com as verdades essenciais, intrínsecas, inalteráveis que a ética dos romanos havia estabelecido” (Gomes, 2006, p. 5), conquanto Pontes de Miranda entendesse que a Lei da Boa Razão impediria de invocar entendimento de glosadores medievais a respeito do direito romano nos julgamentos. Da parte final do preâmbulo ao título 64 do livro 3º das Ordenações Filipinas havia previsão de que a aplicação da norma, inclusive em hipótese de ausência de previsão legal (lacuna), deveria procurar respeitar as glosas de Accursio e de Bártolo, com menção expressa de que as glosas de Accursio já estariam, inclusive, incorporadas ao texto das ordenações (Gomes, 2006). O direito romano era fonte subsidiária (supletiva) de direito prevista nas Ordenações do Reino, ao passo que a Lei da Boa Razão, Lei de 18 de agosto de 1769, ressalvou que preceitos do direito romano não seriam aplicados quando se fundassem em costumes particulares dos romanos, que, pois, colidissem com usos e costumes nacionais, assim como não seriam aplicados quando colidissem com matérias políticas, econômicas, mercantis e marítimas (Beviláqua, 1976). Por isso, a Lei de 28 de agosto de 1772 (Estatutos da Universidade de Coimbra) ofereceu o elemento de elucidação na regra seguinte: “São conformes à boa razão as leis romanas aceitas pelo uso moderno” (Beviláqua, 1976, p. 40). Isso fez com que o jurista português, assim como o jurista brasileiro, estudasse direito estrangeiro para aferir a boa razão das leis romanas. Da vigência das Ordenações Filipinas até a vigência do primeiro Código Civil brasileiro (1917), o direito romano era fonte subsidiária (supletiva) de direito de matérias não expressamente reguladas em legislação. Mesmo na contemporaneidade, o direito romano mantém seu valor doutrinário para elucidar questões, abalizar a perquirição do fundamento justo, assimilar e constituir princípios de direito, elementos que compõem a formação da consciência jurídica (Beviláqua, 1976). Observação Fontes supletivas são usadas quando as fontes originárias não satisfazem a necessidade diante do fato concreto. As Ordenações Filipinas vigoraram no Brasil mesmo após a Proclamação da Independência (de 1822), ao passo que a Constituição de 25 de março de 1824 previu no art. 179, inciso XVIII, que se organizasse um Código Civil brasileiro (Gomes, 2006). 90 Unidade II A legislação civil da República remonta à experiência histórica das Ordenações Filipinas: Interessante insistir na observação de que as Ordenações compiladas para o reino de Portugal tiveram vida mais longa e influência mais decisiva no Brasil. Em 1867, Portugal organizou o seu Código Civil, à base do projeto elaborado pelo Visconde Seabra. [...] Essa tradição foi mais respeitada no Brasil, não havendo exagero na proposiçãode que o Código Civil brasileiro constitui, em pleno século XX, uma expressão muito mais fiel da tradição jurídica lusitana do que a que pode representar o próprio Código Civil português promulgado cerca de cinquenta anos antes (Gomes, 2006, p. 9-10). Ordenações, em sentido geral, significam ordens, decisões ou normas jurídicas avulsas, ou, ainda, as coleções de legislações dentro da história do direito português. Elas são muito importantes para o nosso estudo em razão de o Brasil ter sido colonizado por Portugal. O costume era que a coroa, no caso, Portugal, impusesse suas legislações para as colônias, exatamente como ocorreu no Brasil. Desse modo, até que o Brasil se tornasse um Estado soberano e viesse a elaborar a sua própria legislação, as ordenações portuguesas vigoraram aqui. Ordenações Filipinas (1604) Ordenações Manuelinas (1521) Ordenações Afonsinas (1447) Figura 19 – Ordenações que vigeram no Brasil Colônia Retomada para fins de coesão e de conclusão: precisamos perceber quão caro é para o direito brasileiro a codificação escrita de um Código Civil para que haja segurança e estabilidade no exercício da liberdade. Observação O direito versa sobre a cultura e as crenças dos povos, que percebem qual o mínimo ético exigível para viabilizar uma salutar sociabilidade. Todo tráfego de bens da vida pressupõe tráfego social. 91 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Mesmo discernindo o direito das esferas da norma moral, da norma religiosa e de normas de etiqueta social, o direito resguarda o mínimo ético existencial para viabilizar a pacificação social: o direito como justiça. Se é verdade que o direito natural foi superado pelo direito positivo – positivo significa o posto, o previamente estipulado, no sentido de legislado por escrito –, o direito se assenta sobre os Princípios Gerais do Direito – matéria de Teoria Geral do Direito –, muitos dos quais consagrados em adágios latinos – enunciados em latim –, por exemplo, os tria praecepta iuris (três princípios ou preceitos romanos). Veja a seguir: • Honeste vivere: viver honestamente. Diz respeito à toda pauta de vontade manifestamente declarada pelo sujeito. Importa a todo ato e contrato. Este princípio diz respeito ao uso ou ao manejo da liberdade, da autonomia privada. Toda conduta pressupõe um sujeito. • Alterum non laedere: não lesar ninguém. Tradicionalmente, diz respeito à reciprocidade e à proporcionalidade, princípios da paridade, como indenizar dano passível de ser revertido ao estado anterior, tornar indene, retornar ao status quo ante ou compensar, caso o dano seja irreversível (dano ambiental incidente sobre recursos naturais não renováveis como recursos minerais que se exaurem sem que a natureza os reponha ou reproduza) ou não passível de mensuração da extensão do dano em equivalente diretamente mensurável em pecúnia (a exemplo de indenização por danos morais, em princípio, não demonstráveis porque presumíveis em decorrência do injusto de um ilícito, como dano moral in re ipsa, que pode prescindir de prova de sofrimento ou de abalo psíquico, desde que presentes os requisitos configuradores exigidos pela jurisprudência, hipótese na qual indenização é sinônimo de compensação). • Suum cuique tribuere: dar a cada qual o que lhe é devido na justa medida de sua igualdade ou de sua desigualdade. Eis que o direito sequer opera o princípio da causalidade, como outras ciências, porque o direito opera o princípio da imputação: dado A, então deve ser B campo do dever ser, já que o direito tem por objeto a cultura, a regulação ou pacificação do convívio social, isto é, o direito tem por objeto a norma, que é dado da cultura, e não da biologia ou das matemáticas. Este princípio também fundamenta matéria de responsabilidade civil, de indenização, de proporcionalidade, de tudo, enfim, que diga respeito a indenizar ou compensar, bem como toda pauta de abuso de direito. Toda essa pauta remonta ao exercício da autonomia particular, o uso que o sujeito faz de sua liberdade por meio de atos e contratos, vínculos e relações jurídicas. Observação Re, res e rei, grosso modo, trata-se de deriva morfossintática do latim res, que pode ser compreendido como “coisa”. É importante um discernimento preliminar: em filosofia do direito, coisa é tudo que existe, seja corpóreo ou incorpóreo, material ou imaterial, manifesto ou imanifesto, com exceção do ser humano. 92 Unidade II A figura 20 mostra a estrutura de primeiro nível do Código Civil brasileiro. Parte Geral Livro I Das Pessoas Livro I Do Direito das Obrigações Livro II Dos Bens Livro II Do Direito de Empresas Código Civil brasileiro Livro IV Do Direito de Família Parte Final ou Das Disposições Finais e Transitórias Livro III Dos Fatos Jurídicos Livro III Do Direito das Coisas Parte Especial Livro V Do Direito das Sucessões Pessoas naturais ou físicas são os seres humanos. Para o Direito, todos os seres humanos são capazes de gozar de direitos e contrair obrigações na esfera privada Regem as relações jurídicas que têm por objeto as prestações de uma pessoa (devedora) em favor de uma outra (credora) Trata dos valores materiais e imateriais e recebem a denominação de Bens. São geralmente os objetos das relações jurídicas. Podem ser fungíveis e infungíveis, divisíveis, consumíveis e inconsumíveis, ainda singulares e coletivos Disciplina as relações comerciais e estabelece os direitos e obrigações das empresas e dos empresários Estabelece as normas jurídicas que estruturam, organizam e protegem as famílias. Portanto, trata das obrigações e dos direitos que decorrem das relações e do convívio familiar Trata dos acontecimentos naturais ou humanos que são passíveis de gerar efeitos/ consequências no plano jurídico Regula a relação de poder das pessoas sobre os bens, bem como as formas de sua utilização Reúne o conjunto de normas jurídicas que regem as formas e condições de transferência patrimonial após a sua morte, para os seus herdeiros, em função da lei ou de eventual testamento Figura 20 – Estrutura geral do Código Civil brasileiro Observa-se que o Código Civil brasileiro está dividido em três grandes partes. Estudaremos do que trata cada parte, para você ter a visão completa da estrutura e o escopo desse diploma legal, cujos preceitos regulam as relações sociais que merecem proteção jurídica: • Parte Geral: a sociedade é formada por pessoas (cidadãos), portanto, é razoável que o Código Civil estabeleça os conceitos e os princípios em torno da definição de pessoas para o mundo jurídico. Também é feita a classificação dos bens e dos acontecimentos que surgem naturalmente no âmbito da sociedade em consequência do convívio social necessário e inevitável. Esta parte se subdivide em três livros, que tratam: Das Pessoas (naturais e jurídicas); Dos Bens (quanto as suas classificações); e Dos Fatos Jurídicos (negócios jurídicos, atos jurídicos lícitos e ilícitos e da prova). • Parte Especial: formada por cinco livros, que se subdividem em títulos e capítulos, tratando do seguinte: — Do Direito das Obrigações: aborda os direitos e as obrigações no que se refere as suas modalidades, transmissão, quitação e extinção, inadimplemento, contratos de forma geral, as espécies de contratos, os atos unilaterais, os títulos de crédito, a responsabilidade civil e as preferências e os privilégios creditórios. — Do Direito de Empresa: trata dos aspectos legais relacionados com o empresário, a sociedade, o estabelecimento e os institutos das coisas. 93 INSTITUIÇÕES DE DIREITO — Do Direito das Coisas: acentua os institutos relacionados com a posse, os direitos reais, a propriedade, a superfície, as servidões, o usufruto, o uso, a habitação, o direito do promitente comprador, o penhor, a hipoteca e a anticrese. — Do Direito de Família: trata da proteção dos institutos ligados à constituição e à172 8.7.8 Em conta de participação................................................................................................................. 172 8.8 Transformação societária ................................................................................................................173 8.8.1 Incorporação ........................................................................................................................................ 173 8.8.2 Fusão ......................................................................................................................................................... 174 8.8.3 Cisão .......................................................................................................................................................... 174 8.9 Dissolução societária ........................................................................................................................175 8.9.1 Dissolução ............................................................................................................................................... 175 8.9.2 Liquidação ............................................................................................................................................... 176 8.9.3 Extinção ................................................................................................................................................... 177 8.10 Falência e recuperação judicial ..................................................................................................177 9 APRESENTAÇÃO Quando decidimos iniciar um curso superior, é provável que tenhamos considerado que as atividades empresariais muitas vezes são complicadas e certamente demandam uma série de conhecimentos de diferentes áreas. Para buscar soluções práticas que otimizem os recursos das entidades, é importante conhecer técnicas que nos façam alcançar resultados positivos para a organização. Entre as fontes de conhecimentos necessários para ser um bom gestor, encontram-se as instituições de direito, que servem justamente para adequar as ações do administrador de empresas ao ordenamento jurídico e ao uso dos recursos financeiros, físicos, tecnológicos e humanos das empresas. A busca por soluções para qualquer tipo de problema administrativo se relaciona com todas as áreas do direito, não só dentro das relações empresariais, mas fora delas, uma vez que a empresa gera impacto positivo em toda a sociedade, com geração de emprego, renda e desenvolvimento social. Desse modo, esta disciplina tem por objetivo geral demonstrar que as organizações e os cidadãos estão inseridos em um sistema normativo que deve ser respeitado, constituindo-se em uma ameaça e, ao mesmo tempo, uma oportunidade; ou seja: é preciso conhecer as regras do jogo. A partir do estudo desta disciplina, podemos compreender a organização do sistema jurídico brasileiro e quais são os principais ramos do direito que refletem na atividade empresarial, quais sejam: direito constitucional, direito administrativo, direito civil, direito de empresa e direito do consumidor. Ao relacionar esses conhecimentos com a prática empresarial, é possível utilizar nossos saberes e formações parar gerar impactos sobre as pessoas e as organizações. Percebe-se que, além dos aspectos técnicos, a disciplina também aborda concepções práticas que permitem ao estudante vivenciar situações hipotéticas por meio de projetos e trabalhos acadêmicos, cujo objetivo específico é prepará-lo para atuar em um mercado dinâmico e cheio de desafios. 10 INTRODUÇÃO O trabalho apresentado neste livro-texto é direcionado ao profissional de nível superior que irá atuar diretamente em gestão, administração e controladoria, seja ela empresarial, seja estatal. Nosso objetivo é expor ao estudante, em linhas gerais, a teoria do direito em material sistematizado, que parte do contexto histórico até as tarefas cotidianas realizadas nas entidades empresariais e governamentais. A sequência de tópicos respeita a sequência do conteúdo programático da sua disciplina, aprovado pelo Ministério da Educação (MEC). Nessa mesma sequência, já se observa que o direito constitucional se aproxima do direito administrativo, uma vez que pertencem ao direito público, e o direito civil ao direito de empresa e ao direito do consumidor, que se afeiçoam mais ao direito privado. Serão apresentados: a introdução ao direito, o direito constitucional, o direito civil, o direito do consumidor, o direito administrativo e o direito de empresa. Na introdução ao direito, traremos uma abordagem resumida da origem e finalidade do direito como um conjunto de normas reguladoras da vida em sociedade, o que se denomina tecnicamente de teoria geral do Estado. É dentro dessa organização social que as organizações estão inseridas. Ao estudar o direito constitucional, será importante compreender a ideia de Constituição como lei maior de um país, a qual aborda os direitos e as garantias individuais que estão presentes em todas as sociedades civilizadas. Esses direitos repercutem diretamente nas organizações. Nos tópicos de direito civil, você deverá entender a ideia de responsabilidade civil e reparação de danos e contratos. No tópico que trata do direito do consumidor, será possível reconhecer uma relação de consumo e todas as repercussões dela decorrentes, como a responsabilização das organizações por práticas comerciais abusivas. Já em direito administrativo, serão descritos sinteticamente os atos administrativos e os tipos de licitação que obrigatoriamente antecedem os contratos administrativos, os quais, muitas vezes, pertencem ao dia a dia empresarial como fonte de receitas. Será trabalhado o direito de empresa, item que contém informações muito importantes para gestores empresariais. O que se pretende, portanto, é uma análise dos tipos de sociedade existentes no direito brasileiro, apresentando os requisitos de cada tipo societário e as responsabilidades deles decorrentes, bem como as suas formas de extinção, fusão, dissolução e transformação, pertencentes com maior ênfase ao mundo dos negócios. Convém desde já esclarecer que a gestão, a administração e a controladoria empresarial implicam, entre outras atividades, o gerenciamento de fluxos processuais e administrativos, a análise e a organização de documentos legais sem prejuízo da assessoria técnica. Além disso, ao final de cada unidade, haverá um resumo e dois exercícios comentados para que você teste seus conhecimentos acerca do conteúdo apresentado. Bons estudos! 11 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Unidade I Nesta unidade, vamos realizar uma introdução ao direito e conhecer o direito constitucional, considerado, internamente, o ponto mais importante para a teoria do direito. Primeiro, descreveremos o funcionamento do ordenamento jurídico brasileiro e a forma de organizar o direito, ou seja, as suas classificações, para que você compreenda a sua ação e associe com a sua vivência pessoal e profissional. Depois, trataremos do direito constitucional, que contempla em seu estudo a lei mais importante do Brasil: a Constituição Federal (CF) e o seu conteúdo. 1 NOÇÕES INTRODUTÓRIAS DE DIREITO Este tópico irá versar sobre elementos da teoria geral do Estado e da teoria geral do direito, para que se possa situar os diversos ramos do direito, entre direito público e privado, com as suas aproximações, comunicações e distanciamentos relativos, tudo sob fundamento de validade e vigência – potência de se produzir efeito oponível, inclusive mediante monopólio do exercício legitimado da coerção pelo Estado democrático de direito, sob ordenamento jurídico soberano, fundado na soberania popular por meio do poder constituinte originário. Imagine a seguinte cena: você vai ao trabalho em um dia qualquer. No caminho, você repara, sem muita atenção, nas seguintes situações: • A copa de uma árvore florida. • Uma mãe segurando a mão de uma criança para atravessarproteção da família, incluindo direito pessoal, direito patrimonial, união estável, tutela e curatela. Parte muito importante para a vida em sociedade. — Do Direito das Sucessões: inclui sucessões em geral, sucessão legítima, sucessão testamentária, inventário e partilha. • Parte Final ou Das Disposições Finais Transitórias: regula as várias questões genéricas de aplicação do Código Civil, bem como vários pontos importantes para a boa transição do antigo código (que vigeu até 11 de janeiro de 2003) para esse novo. Saiba mais Leia o artigo a seguir, do professor Miguel Reale, expoente da codificação do Código Civil de 2002, bem como de todo o direito, sobretudo o pátrio. REALE, M. Função social do contrato. Professor Miguel Reale, [s.d.]. Disponível em: https://tinyurl.com/mt4r577z. Acesso em: 11 nov. 2025. Com base no exposto, foi possível entender a importância, a abrangência e a complexidade do direito civil para o regramento da vida em sociedade, cujos princípios, institutos e regras estão consolidados no Código Civil brasileiro. A seguir, serão estudados alguns conceitos essenciais para consolidar esse ramo do direito. 5.2 Da validade dos atos jurídicos Negócio jurídico é uma relação jurídica que decorre da manifestação de vontade negocial das partes. Para ser considerado existente, válido e eficaz, ele segue os degraus da chamada escada ou escala ponteana. Para Tartuce (2011, p. 25), negócio jurídico é: Toda ação humana de autonomia privada, com a qual os particulares regulam por si os próprios interesses, havendo uma composição de vontades, cujo conteúdo deve ser lícito. Constituiu um ato destinado à produção de efeitos jurídicos desejados pelos envolvidos e tutelados pela norma jurídica. Todos os negócios jurídicos objetivam o tráfego de bens materiais e imateriais da vida, susceptíveis ou não de mensuração econômica (no que se refere a pessoas, coisas e ações) e pressupõem então atos negociais e ou contratos, porque o epicentro da matéria é o vínculo jurídico. Vínculo, aqui, negocial, 94 Unidade II de tráfego de bens da vida, o liame, nexo entre sujeitos de direitos e de obrigações coobrigados por vínculo negocial. Em razão da natureza ou qualidade do vínculo, tem-se a qualidade do sujeito, isto é, sua posição e sua situação jurídica. Um exemplo de negócio jurídico de simples compreensão é a compra e venda. De um lado, temos o comprador, que aceita ou não o preço que está estabelecido pela outra parte, que é o vendedor. O comprador deve entregar o dinheiro ajustado ao vendedor, e este deve entregar ao comprador o bem objeto da transação. Parece muito simples, mas pode ocorrer uma série de problemas nesse trâmite, como o produto não ser exatamente o que o comprador queria ou o dinheiro entregue ser falso. Assim, o negócio jurídico faz parte do gênero relação jurídica, que pressupõe situações jurídicas que variam entre dois polos: coincidentes e não coincidentes. Explica-se que mútua e recíproca sempre será uma relação negocial entre sujeitos, mas se o interesse não for plenamente coincidente, além de mútuo e recíproco, ao outro sujeito da mesma relação jurídica incumbirá não uma prestação coincidente, mas uma contraprestação – pauta do caráter sinalagmático das contraprestações onerosas, cujo anverso é o vínculo de natureza gratuita ou graciosa, isto é, de caráter não oneroso, a exemplo de convênios que se distinguem dos contratos justamente pela ausência de sinalagma. Observação Sinalagma significa troca mútua. É o vínculo de reciprocidade e troca em um contrato entre duas partes. No contrato sinalagmático, há uma relação de prestação e contraprestação, subsumida na expressão latina do ut des (dou para que dês). Para que os negócios irradiem efeitos oponíveis visados pela vontade manifestada (interesse), são necessários três requisitos, ou planos, demonstrados na figura a seguir, que expõe a chamada escada ou escala ponteana. EficáciaValidade Planos do negócio jurídico Existência Figura 21 – Escada ponteana 95 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Você já pensou que a prática de atos jurídicos pode não partir de uma pessoa natural? Pois é o que acontece nas sociedades coligadas, uma matéria de interesse de conglomerados transnacionais. O Código Civil permite que a vontade que anima os atos praticados por uma sociedade coligada seja a vontade manifestada não apenas por uma ou mais pessoas naturais, na qualidade de representante (ainda que essa pessoa seja integrante de um órgão diretivo colegiado, mas também por órgão de sociedade coligada, como o Conselho Fiscal), de modo que o representante legal que anima a vontade que pratica os atos no interesse da sociedade não seja necessariamente uma pessoa física ou natural. As pesquisas são feitas junto ao respectivo registro público dos atos constitutivos de cada pessoa jurídica e das sociedades empresárias, vez que são os atos constitutivos – contrato social, para as sociedades empresárias – que estatuem e que detêm poderes diretivos para animar a vontade dos atos praticados no interesse da sociedade, tudo em torno da figura do representante legal, que nunca se deve tomar por sinônimo de proprietário nem de sócio. Daí a importância de toda matéria de registros públicos para segurança jurídica e estabilidade da paz social, sobre a qual se sedimenta a sociabilidade humana e todo tráfego social de bens da vida, no que se incluem os vínculos negociais. O plano da existência jurídica compreende três aspectos que devem existir: os agentes, o objeto da transação e que o negócio pretendido não contrarie a lei. O segundo plano, que é o da validade, aprofunda o plano da existência. Esse plano determina que o negócio, para valer perante o ordenamento jurídico, deve ter agentes capazes de realizar o ato. Além disso, o objeto da transação deve ser lícito, possível, determinado ou determinável; a forma deve ser aquela que a legislação determina ou aquela que a lei não proíbe e a vontade deve ser livre, consciente e voluntária. O último plano da escala ponteana é o da eficácia, ou seja, questões acidentais que representam: a condição, que pode ser resolutiva (encerrar o negócio) ou suspensiva (suspender o negócio e seus efeitos por algum tempo); o termo, que é um evento futuro e certo, subdividindo-se em inicial e final; e o encargo, que traz um ônus que pode ser posto ao beneficiado por um ato gratuito. Você pode estar se perguntando: o que acontece se um negócio jurídico não se revestir de todas essas formalidades? A resposta é: depende de qual requisito foi desrespeitado, podendo esse ser ato nulo, que não vigora nunca, e ato anulável. Os atos anuláveis podem decorrer da incapacidade relativa do agente ou por erro, dolo, coação, estado de perigo, lesão ou fraude contra credores, ao passo que os atos nulos são aqueles que foram celebrados por agente absolutamente incapaz, quando o objeto for ilícito, não estiver revestido da forma que a lei determinar, ou a lei proibir expressamente a sua prática. 96 Unidade II 5.3 Responsabilidade civil e ato ilícito Duque (2007) aponta que o direito das obrigações é a principal fonte do direito contratual, ao passo que, no direito, fonte deve ser entendida como qualquer forma de explicar a origem ou causa dos institutos, de modo que, para as obrigações, fonte compreende toda maneira da qual emana a norma, para além da norma escrita, que sempre se coteja com as demais fontes de direito, como jurisprudência, doutrina e princípios gerais do direito. O Código Civil brasileiro reconhece três fontes de obrigações: o contrato, o ato ilícito e as declarações de vontade. A doutrina, entretanto, classifica as fontes de acordo com critérios mais abrangentes. Pressupõem, nesse sentido, a fonte sempre imediata (direta) da lei, seguida de outras fontes mediatas (indiretas), como o contrato e o ato ilícito. Convém ressaltar que não é matéria deste estudo investigar cada uma das fontes obrigacionais, mas apenas demonstrar o direito contratuala partir da liberdade de contratar (livre-iniciativa) (Duque, 2007, p. 103). Recordemos, então, que a responsabilidade civil não tem por requisito a ilicitude da conduta – comissiva ou omissiva –, porque mais importa o conteúdo ou o fundo antijurídico da conduta, que pode, por exemplo, configurar abuso de exercício de direito sem que necessariamente se tenha ilicitude da conduta. A título de mais exemplo, a violação de dever de cuidado, bem como a violação do princípio da confiança – ambas se comunicam com o abuso de direito ou abuso de exercício de direito – podem ensejar responsabilidade civil – responsabilização cível – sem que a conduta seja em princípio ilícita. Não ser ilícita, significa, aqui, por exemplo, a conduta não estar previamente proibida por meio de norma típica, respeitado o princípio da legalidade. A responsabilidade civil não exige ilicitude da conduta como requisito (pauta do princípio da legalidade), ao passo que reclama antijuridicidade (recordemos, por exemplo, o princípio do neminen laedere) da conduta e imputabilidade do sujeito ou agente. Imputabilidade, em geral, diz respeito tanto ao elemento subjetivo, dolo ou culpa, exigíveis em certas hipóteses, quanto à qualidade do agente ou sujeito, ainda que não importe o elemento subjetivo. Um exemplo é a sociedade empresária que deve compensar dano ambiental irreversível, independentemente de dolo ou culpa, para além da responsabilização penal ou criminal da própria pessoa jurídica, independentemente de dolo ou culpa, elemento subjetivo, nesse mesmo exemplo do dano ambiental. O meio ambiente é um bem da vida, um bem jurídico tão caro à ordem constitucional que serve muito bem à finalidade, inclusive didática, de se discernir limites do exercício da autonomia privada e limites do exercício da liberdade, cujos freios são normas cogentes. Veja-se o exemplo do inciso XXIII do art. 21 da Constituição Federal, que assim dispõe: “d) a responsabilidade civil por danos nucleares independe da existência de culpa”. Agora, observe na figura 22 a diferença entre dolo e culpa. 97 INSTITUIÇÕES DE DIREITO No dolo ou conduta dolosa existe uma vontade livre e consciente do agente em provocar o resultado. O agente tem intenção de prejudicar o direito de outrem. Assim, a conduta nasce ilícita e é intencional. Na culpa existe vontade de praticar o ato (tanto que o faz), mas não há intenção de provocar o resultado maléfico e prejudicial, ou seja, quer a conduta, mas não o resultado que dela decorre. Assim, a conduta nasce lícita e o resultado dela não se deseja ou se espera. Figura 22 A responsabilidade civil do inciso XXIII, art. 21 da Constituição Federal de 1988, é um exemplo de hipótese de responsabilidade civil que se perfaria pela antijuridicidade, mais de um resultado do que propriamente uma conduta; tanto que essa norma visa contornar justamente a perquirição de tópicas como criação de situação de risco e dever de controle, ao mesmo tempo que passa ao largo do elemento subjetivo (despreza até mesmo a culpa, que já prescindiria do elemento de vontade deliberada de obter vantagem indevida ou desatender comando normativo, como em casos nos quais se exige demonstração cabal de dolo para configuração de responsabilidade). É possível discernir ilícito de antijurídico da seguinte forma: ilícita, em princípio, é a conduta que avilta norma (campo do proibido e do obrigatório), em razão do princípio da legalidade; já antijurídica é a conduta injusta, ainda que, em princípio, não ilícita, a exemplo do abuso de direito (que inclui ato chicaneiro e emulativo) e do abuso de confiança (o que enseja ponderação de principiologia que inclui, por exemplo, princípio da proporcionalidade, princípio de paridade de armas, princípio de vedação do excesso, entre outros). Veja-se a norma principiológica do art. 927 do Código Civil (Brasil, 2002a): Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo. Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem. Podemos observar que a norma principiológica do art. 927 do Código Civil atravessa desde a tópica da assunção de risco (mais própria da seara da culpa) até a teoria da responsabilização objetiva, para a qual um resultado material antijurídico prescinda de perquirição de elemento subjetivo da autoria (de modo que o antijurídico poderia se configurar, ainda que ausente o elemento do injusto, e sem que viesse à baila a ponderação da causa sine qua non ante conduta omissiva que não implique causa suficiente do resultado antijurídico), apenas porque lesivo de interesse tutelado. 98 Unidade II Observação Sine qua non ou conditio sine qua non é uma expressão latina, traduzida como “sem a/o qual não pode ser”. Refere-se a uma ação cuja condição ou ingrediente é indispensável e essencial. A norma do inciso XXIII do art. 21 da Constituição Federal determina que haverá a responsabilização por dano ambiental, independentemente de haver culpa. É o que se chama de responsabilidade objetiva. As excludentes de ilicitude, como o caso fortuito e de força maior, não se aplicam a esse caso porque o resultado (dano ambiental) é finalístico. Conforme o art. 393 do Código Civil, o devedor não responde pelos prejuízos resultantes de caso fortuito ou força maior, se expressamente não se houver por eles responsabilizado. Talvez você esteja curioso para saber no que consiste o caso fortuito ou a força maior. O parágrafo único do supracitado artigo define que o caso fortuito ou de força maior é aquele que se verifica no fato necessário, cujos efeitos não é possível evitar ou impedir. Um exemplo claro dessa responsabilização é o caso do shopping center que foi obrigado a indenizar clientes atingidos pelo desabamento do teto do estabelecimento. Em primeira e segunda instâncias, o pedido de indenização foi negado sob o argumento de que o desabamento ocorreu por força maior ou caso fortuito – fortes chuvas e ventos que atingiram São Paulo naquele dia. Acontece que, em terceira instância, a ministra relatora do recurso especial, Nancy Andrighi, afirmou que a ocorrência de chuvas, mesmo fortes, está dentro da margem de previsibilidade em uma cidade como São Paulo. Assim, a cliente teve a sua indenização garantida (STJ, 2017). Sobre a responsabilidade dos agentes públicos, há algo um tanto diferente do que se atua em direito privado. Pode-se chegar ao disparate de se desprezar mesmo a figura jurídica dos efeitos residuais do nulo, na sanha de se extremar toda motivação e fundamentação, para se forjar responsabilização objetiva a pretexto de se lavar os traumas nacionais da inoperância estatal, sem que, de pouco ou de nada, se passe de uma estipulação de bode expiatório, cujo expurgo purificaria o restante da coletividade – como se assim se atendesse o binômio eficácia-eficiência de qualquer forma de controle ou de distribuição de justiça social. Esse tipo de injustiça, em geral, parece gravitar em torno do desprezo à norma do parágrafo 6º do art. 37 da Constituição Federal, que prevê responsabilidade objetiva do Estado frente ao particular, sem que haja estatuição de responsabilidade objetiva em face do servidor público, mesmo o superior hierárquico que responde pelo exercício da ascendência hierárquica. Veja-se a referida norma do parágrafo 6º do art. 37 da Constituição Federal: Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte: [...] 99 INSTITUIÇÕES DE DIREITO § 6º As pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado prestadoras de serviços públicos responderão pelos danos que seus agentes, nessaqualidade, causarem a terceiros, assegurado o direito de regresso contra o responsável nos casos de dolo ou culpa (Brasil, 1988). Há de se ter muita cautela, prudência e parcimônia com tudo que possa aparentar responsabilidade objetiva de servidor público, que inexiste, ademais pretensamente fundada em lesividade presumida, que, via de regra, é requisito de procedibilidade, isto é, de admissibilidade de ação coletiva cível desprovida de demonstração cabal do dano – que incumbiria, então, à instrução probatória e jamais a algum malabarismo retórico em torno de lesividade presumida a pretexto de salvaguarda de erário público e menos ainda de indenização de direito da personalidade de ente público por lesão à moralidade administrativa. Contemporaneamente, não se admite vigência do adágio in claris cessat interpretatio, que assim poderia ser vertido ao nosso idioma: em matérias ou textos claros, descabe perquirir sentido e alcance. Lembre-se que toda decisão judicial implica criação de uma norma concreta, exercício do poder de império que o ordenamento jurídico confere à tutela jurisdicional, incidente sobre as partes daquele processo judicial: boa, simples e suficiente razão pela qual toda e qualquer norma sempre reclama estipulação de seu sentido e alcance pelo intérprete (matéria de Hermenêutica). Portanto, cabe à população conhecer seus direitos, reclamar por eles e fazer com que os agentes públicos atendam a todas as necessidades sociais. 5.3.1 Conceito e requisitos da responsabilidade civil Responsabilidade é o significado de uma obrigação que alguém tem de assumir com as consequências jurídicas de sua ação, ou seja, a pessoa possui uma causa que enseja um dever jurídico que lhe sucede. Vejamos um exemplo simples: uma visita leva para sua casa uma criança, e a criança quebra um determinado adorno. A visita sabe que a ação cometida pela criança de quebrar o adorno vai ensejar (além de um óbvio pedido de desculpas) uma reparação no sentido de substituir o bem quebrado. Assim, para o direito, responsabilidade é uma obrigação derivada – dever jurídico sucessivo – de assumir as consequências jurídicas de um fato. A responsabilidade civil é a obrigação que pode determinar que uma pessoa repare o prejuízo causado a outra, por uma ação ou omissão dela, ou por fato de pessoas ou coisas que dela dependam. No exemplo dado no parágrafo anterior, há uma obrigação moral contraída pela visita cuja criança quebrou o adorno, mas não jurídica. É o mesmo que se diz das condutas religiosas morais, cujas penitências para reparar o dano podem, por exemplo, consistir em jejum, oferendas ou rezas. Note-se que não há uma coercitividade institucionalizada dentro da norma moral que exija da pessoa jejuar, ofertar ou rezar. Existe um ponto comum entre a responsabilidade civil (objeto deste estudo) e a responsabilidade penal ou criminal. Ambas decorrem de um fato juridicamente qualificado como ilícito ou não desejado pelo direito, posto que, ao ser praticado, ofende a ordem jurídica. A responsabilidade civil diz respeito ao 100 Unidade II dever daquele que comete ato ilícito de indenizar quem sofre o dano, sendo que o Código Civil procura determinar em que condições uma pessoa pode ser considerada responsável pelo dano sofrido por outra pessoa e em que medida está obrigada a repará-lo. A reparação do dano é feita por meio de indenização, que é, em regra, pecuniária, ou seja, em dinheiro. O dano pode ser à integridade física, aos sentimentos ou aos bens de uma pessoa. Como a responsabilidade civil decorre de uma agressão, dolosa ou culposa, a um bem juridicamente tutelado, ela sujeita o infrator ao pagamento de uma contraprestação, caso o agente não consiga retornar ao status quo ante (estado anterior das coisas). Mas, para a responsabilidade ficar caracterizada, é necessário que existam os seguintes elementos: • Conduta: pode ser positiva ou negativa, ou seja, fazer ou deixar de fazer algo. • Dano: significa a lesão ao bem jurídico tutelado. • Nexo de causalidade: é a relação entre a conduta do agente e o resultado danoso. Existem dois tipos de responsabilidade civil: a contratual e a extracontratual (também chamada de responsabilidade aquiliana). A responsabilidade contratual decorre do inadimplemento da obrigação prevista no contrato, ou seja, houve a violação da norma contratual fixada pelas partes. Sua disposição legal está nos art. 389 até o 395 do Código Civil. Uma vez celebrado o contrato, as partes tornam-se responsáveis pelo seu adimplemento, ou seja, por cumprir aquilo que combinaram. A relação jurídica decorre do contrato obrigacional existente. Já a responsabilidade aquiliana ou extracontratual decorre da violação direta de uma norma legal, regulamentada nos artigos 186 a 188 e 927 e seguintes do Código Civil. Esse tipo de obrigação deriva da desatenção de algum direito preexistente do ofendido, sem que exista qualquer vínculo. Um exemplo é um acidente entre veículos automotores. No entanto, existem outras formas de classificar a responsabilidade civil que não acerca da contratualidade ou extracontratualidade. Trata-se de observar a culpa do agente, o que será visto a seguir. 5.3.2 Responsabilidade objetiva e subjetiva A responsabilidade civil também pode ser classificada no tocante ao sujeito, por meio de sua conduta ao analisar a culpa. Assim, responsabilidade civil subjetiva é aquela em que existe a necessidade de se demonstrar a culpa da pessoa, que atingiu o resultado lesivo ou por ter agido com negligência, imprudência ou imperícia. A responsabilidade subjetiva decorre, portanto, do dano causado em função de ato doloso ou culposo. 101 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Vejamos a seguir a diferença entre as três situações: • Negligência: é a falta de cuidado necessário. • Imprudência: o agente assume um risco desnecessário. • Imperícia: é a ausência de habilidade técnica daquele que pratica o ato, mas que em tese deveria ter. A noção básica da responsabilidade civil subjetiva é o princípio segundo o qual cada um responde pela própria culpa. Desse modo, é necessário que o autor da ação judicial comprove a culpa do réu. Em outras palavras, o ônus da prova incumbe a quem o alegar. Responsabilidade civil objetiva é uma espécie de responsabilidade na qual a ação dolosa ou culposa é irrelevante juridicamente. Apenas é necessário comprovar o nexo de causalidade entre o dano e a conduta do agente para que surja o dever de indenizar. O Código Civil estabelece a responsabilidade civil objetiva do transportador caso haja dano com a carga transportada, pouco importando se o transportador foi cuidadoso ou desleixado no transporte. Talvez você esteja se perguntando se existe alguma hipótese de a responsabilidade civil objetiva não ser considerada. A resposta é positiva. Para afastar a responsabilidade civil objetiva, é necessário que o agente demonstre que a lesão é consequência de caso fortuito ou força maior, de culpa exclusiva da vítima ou culpa exclusiva de um terceiro. Fora isso, será responsável. Ao lado delas existe, ainda, por desenvolvimento da jurisprudência e da doutrina – que já abordamos como fonte do direito neste livro-texto – a teoria do dano in re ipsa, isto é, o dano presumido. Àquele que, mesmo sendo subjetivo, autoriza que o juízo reconheça a existência do dano sem que, para isso, realize longo processo probatório. Imagine-se na seguinte situação: numa trágica manhã, ao buscar seu filho na escola, uma faixa de contenção da polícia aponta a existência de um acidente. Infelizmente, um motorista embriagado perdeu o controle e atingiu seu filho com o veículo. Em face desse evento, você promove o respectivo processo para ser indenizado pelos danos sofridos na esfera moral: a profunda dor e angústia indizível de perder um filho. Não seria cruel que o juiz exigisse que você tivesse que provar que a morte de seu filho te causa dor, sofrimento e angústia? Evidentemente. Por isso, a teoria do direito e da responsabilidadecivil, especificamente, desenvolveram a teoria do dano moral in re ipsa, em que: A presunção do dano ou a teoria objetiva do dano passaram a ser de extrema importância principalmente para o dano moral, uma vez que a prova de sofrimenta, angústia, aflição, desespero etc., chega a beirar o sadismo, justificando, portanto, o entendimento que o ato por si demonstra, pela sua gravidade, a existência de dano à esfera moral do cidadão, tornando, portanto, presumido (Ditão, 2018, p. 72). 102 Unidade II Foi o entendimento, inclusive, consolidado pelo Superior Tribunal de Justiça que reconheceu em caso análogo sobre lesões causadas às crianças que: As crianças, mesmo da mais tenra idade, fazem jus à proteção irrestrita dos direitos da personalidade, assegurada a indenização pelo dano moral decorrente de sua violação, nos termos dos arts. 5º, X, in fine, da CF e 12, caput, do CC/02. A sensibilidade ético-social do homem comum na hipótese, permite concluir que os sentimentos de inferioridade, dor e submissão, sofridos por quem é agredido injustamente, verbal ou fisicamente, são elementos caracterizadores da espécie do dano moral in re ipsa (STJ, 2017). Por isso, ao lado das teorias objetivas e subjetivas da responsabilidade civil existe, ainda, a teoria do dano presumido. 5.3.3 Responsabilidade civil e penal A responsabilidade pode ser cível e penal, alternativa ou cumulativamente, isto é, a configuração de uma não exclui a outra, bem como não implica necessariamente a outra. Grosso modo, a responsabilidade civil implica ilícito civil e responsabilização por meio de procedimento civil, cujo modelo paradigmático de processualidade pátria é o Código de Processo Civil. Assim, a pessoa pode ser retaliada em razão de uma conduta reprovável tanto na esfera civil quanto na esfera penal. Exemplificando essa diferença, podemos ter um único evento do qual irradiam diferentes efeitos jurídicos. Suponha que você tenha presenciado um atropelamento de um motociclista. A primeira coisa que se verificará é se existem ou não vítimas, para acudir o direito à vida. Depois, a extensão do dano material. Nesse caso, é importante salientar que podem existir dois processos diferentes: um de natureza penal, que vai confirmar ou afastar a intenção do agente no atropelamento, caso haja vítima; e outro de natureza civil, para apurar quanto é devido. Ilícito penal, contravenção penal e infração penal são espécies do gênero delito. Ilícitos penais puníveis como crimes estão estatuídos no Código Penal e em normas penais esparsas, legislação penal especial. O processo penal é uma espécie do gênero processo sancionador, e o paradigma modelo de processo sancionador pátrio é o Código de Processo Penal, cuja principiologia rege todo processo sancionador, mesmo em âmbito administrativo sancionador. A responsabilidade penal diz mais respeito ao dever violado, uma vez que pressupõe violação de norma cogente de ordem pública, para além de normas privadas dispositivas fundadas na autonomia da vontade privada. O prisma iuris é sempre o exercício da liberdade e da capacidade de se autodeterminar. Em torno do elemento subjetivo em direito sancionador, perquire-se juízo de autorreprovabilidade da conduta e freios inibitórios, para além de motivação e presença de intenção deliberadamente consciente de prejudicar ou de alcançar resultado proibido: vasto campo da autoria do ilícito, que se perquire no cotejo da materialidade delitiva – o resultado lesivo concreto, a materialidade. Em outras palavras, é necessário que a pessoa conheça o delito e deseje praticá-lo, mesmo quando sua moral o determinar em sentido contrário. É por isso que existe a diferença entre dolo e culpa. 103 INSTITUIÇÕES DE DIREITO 5.3.4 Reparação do dano A responsabilidade pode ser cível, criminal e administrativa. Uma não exclui outra, tampouco uma acarreta necessariamente outra. Um ilícito (ou conduta) pode perfazer, alternativa ou cumulativamente, mais de uma categoria de ilícito; por exemplo, uma conduta ilícita que acarrete condenação penal do autor do ilícito, cumulada com responsabilização cível de se indenizar a vítima. A reparabilidade pode ser consensual, voluntária (como a mediação e a conciliação) ou litigiosa. É litigiosa se obtida por meio de ação judicial ou de arbitragem. A tônica recai no direito potestativo, que diz respeito à faculdade de o interessado exigir a observância compulsória de seu direito lesado: se a providência é pleiteada em procedimento litigioso, tem-se a lide, isto é, pretensão resistida. Ou seja, um interessado invoca a tutela jurisdicional (ou por meio de procedimento de arbitragem) para que o poder judiciário diga qual o direito aplicável. Tem-se, assim, na relação processual: o polo ativo (parte autora), que exerce direito de ação em razão de seu direito potestativo de invocar a tutela jurisdicional ante um direito material lesado; e o polo passivo, ao qual é oportunizada a ciência do processo para que possa exercer seu direito de se opor à pretensão do autor da ação. É por isso que o processo implica pretensão resistida. O autor pretende a tutela e, portanto, pede procedência de seu mérito, e o réu, oportunizada a ciência, contesta para se opor à pretensão do autor. A ideia de responsabilidade penal é que o agente infringe norma penal de direito público – o interesse lesado é da sociedade como um todo, na reponsabilidade civil; o interesse diretamente lesado é de cunho privado. Aí o interessado pode ou não pleitear uma reparação desse dano. O importante é que a responsabilização penal é pessoal e intransferível, podendo responder o réu, inclusive com sua liberdade, e ela não passa da pessoa do condenado maior de 18 anos. Dano material e dano moral Grosso modo, dano material é aquele que não apresenta muita dificuldade na mensuração de sua extensão e, portanto, na sua liquidação ou solução em pecúnia, para que se obtenha o retorno ao status quo ante (tornar indene, reverter ao estado anterior, que pressupõe mensurabilidade do equivalente em pecúnia). O dano moral diz respeito ao campo do imaterial e, mais notadamente, aos direitos da personalidade. Por não ter índole material, tanto sua reversibilidade quanto a mensurabilidade de sua extensão para arbitramento de seu equivalente em pecúnia (estipulação do quantum indenizatório) são mais delicadas: exatamente por não importar a discussão sobre reversibilidade, diz-se compensar mais do que se diz indenizar. Tal qual o dano ambiental irreversível que se compensa, a lesão a direito da personalidade, a exemplo de dor ou abalo psicológico, se compensa. A dor, o sofrimento e o abalo psicológico podem ser presumidos (dano in re ipsa) em razão da natureza do abalo e sempre mediante perquirição do elemento antijurídico ou injusto de uma conduta ilícita ou abusiva. 104 Unidade II O dano moral pode se dar in re ipsa, isto é, independentemente de comprovação ou demonstração de dor, sofrimento ou abalo psicológico, o que implica matéria de dever de informação suficiente, ou seja, clara e transparente, em matéria de tráfego de bens da vida, mais notadamente em matéria de direito do consumidor. Contudo, exige-se demonstração do liame ou nexo causal, bem como da antijuridicidade da conduta comissiva ou omissiva. Há situações concretas que ensejam ponderação de pletora de singularidades do caso concreto (por exemplo, a figura do dano estético indenizável). 5.4 Contratos Destaca-se no Código Civil de 2002, como eixo teleológico (fundamento mais finalidade), o seu art. 421, segundo o qual “a liberdade de contratar será exercida em razão e nos limites da função social do contrato”, a reboque da Constituição Federal de 1988, firme na soberania popular e, pois, na liberdade individual, liberdade civil. O Poder Constituinte assentou nos incisos XXII e XXIII do art. 5º da Constituição Federal que o “direito de propriedade atenderá a sua função social” (haja vista o art. 3º que rege a própria Constituição Federalem razão da soberania popular). São importantes as lições de Dromi (2007) para aclarar a relação entre o direito contratual e a natureza humana. De um ponto de vista filosófico, todos os direitos fundamentais preexistem. Antes de ser proprietários, somos um ser humano; antes de ter direito à indústria e ao comércio, temos direito à vida e à não discriminação – a vida é a liberdade respeitada (Dromi, 2007). O assentamento das avenças em um plano transindividual não implicaria diminuição de garantia para os contratantes porque não se aviltaria o princípio de que o pactuado – ou contraído; contrair-se direitos e obrigações, atributo que adere ao respectivo sujeito contratual; posição, situação, vínculo, próprios do liame contratual – deve ser adimplido, tanto que o adágio romano pacta sunt servanda permanece como princípio geral do direito primaz em direito das obrigações e, pois, em matéria de obrigações contratuais. Tanto é assim que o art. 422 do Código Civil diz que “os contratantes são obrigados a guardar, assim na conclusão do contrato, como em sua execução, os princípios de probidade e boa-fé” (Brasil, 2002a). Probidade é uma das categorias morais dos romanos, tal qual o decoro, a honestidade, entre outras. O vocábulo “probidade” abrange todo o campo semântico do agir honesto e legítimo, isto é, da boa-fé, que envolve o agir legítimo e conforme a respectiva vontade manifestamente declarada, até porque a essência ou substância do ato prevalece sobre a forma. Recorde-se que a bona fides não é atributo do sujeito do enunciado nem da enunciação (há muito já se foram os tempos das Ordálias, nas quais o critério de verdade esteve atrelado ao valor social do sujeito que declarava ou jurava), ao passo que a bona fides se perquire no cotejo da proporcional correspondência entre a vontade manifesta e o bem da vida ou prestação almejados, na medida em que é vedado o abuso de direito. Em direito público, o cotejo da motivação, finalidade e fundamentação do ato pode implicar desvio de objeto, de finalidade ou de poder, porque perquirida a bona fides, mediante exame judicial do mérito administrativo, ainda que discricionário; por exemplo, a figura da lesividade presumida da lei da ação popular, que é norma autorizativa de procedibilidade, isto é, de admissibilidade e processamento, de 105 INSTITUIÇÕES DE DIREITO ação judicial ante lesividade presumida que importa perquirição de justo motivo de ato ou contrato administrativo. Vê-se, pois, que o direito sempre opera de modo lógico-sistêmico porque visa estabilizar a pacificação social, premissa de todo e qualquer tráfego de bens da vida. Recordemos que a propriedade privada foi cara aos ideais humanistas da soberania popular justamente porque o povo reclamou sua soberania contra a usurpação da soberania popular pelo soberano absolutista, que, até então, se entendia ou se pretendia soberano. O soberano era o titular de toda a terra, de todo o território da nação, e escolhia, entre a nobreza, quem receberia a concessão para explorar aquela terra. É importante lembrar que o servo era servo da gleba e não propriamente servo do senhor feudal. Por isso, não se poderia angariar a titularidade nem da terra, bem de raiz, nem sequer do excedente produtivo, que era angariado, tal qual tributo, inclusive não apenas em pecúnia, mas também em gêneros in natura, para se sustentar a cavalaria, que era a força militar mantida pela nobreza para proteger contra invasões e saques os principados e, mais propriamente, proteger a soberania do monarca. Trata-se da afirmação da soberania popular atrelada à afirmação da prevalência do valor social do trabalho, inclusive como fundamento de mobilidade social (o status de cidadão definia a situação do sujeito, e não o estamento social ao qual pertencesse), em razão da igualdade e da isonomia. A cidadania é indissociável das categorias liberdade e igualdade. A isonomia impõe equiparação e justiça social para que a liberdade garanta a igualdade e assim se perfaça a cidadania: daí a soberania popular. O imperativo da função social do contrato veda condutas ou posições abusivas, que impliquem lesão ou risco de lesão ao ordenamento jurídico, haja vista o art. 187 do Código Civil: “também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes” (Brasil, 2002a). O contrato e seu adimplemento devem atentar-se tão somente aos interesses das partes que os estipulam, porque a existência do contrato pressupõe (porque é da finalidade do contrato e, pois, fundamento de existência do contrato) sua função social inerente ao poder negocial para tráfego de bens da vida e, portanto, toda assunção de vínculos e posições para os sujeitos contratuais. Assim é que, como fonte de direito constitucionalizada do direito privado, o parágrafo 4º do art. 173 da Constituição Federal de 1988 não admite negócio jurídico que implique abuso do poder econômico que vise à dominação dos mercados, à eliminação da concorrência e ao aumento arbitrário dos lucros. Quando se extrapolam, por exemplo, os usos e costumes da praça (usos e costumes são fontes do direito, além de mecanismo integrador da norma, sobretudo em matéria de direito negocial, pauta do tráfego de bens da vida) negocial ou do normal e proporcional objetivo das avenças, o poder judiciário não se restringe à apreciação dos alegados direitos dos contratantes porque coteja tanto os valores sociais em jogo quanto a proporcional correspondência à vontade manifestamente declarada. 106 Unidade II Observação Vontade é elemento subjetivo, e interesse é elemento objetivo. Então, a vontade manifestamente declarada perfaz o interesse objetivo; subjetiva é a posição do sujeito, e objetivo é o seu interesse versado por meio da vontade manifestamente declarada. Todo contrato pressupõe sua causação, o que atravessa desde a vontade formativa anterior até o próprio contrato, bem como a vontade manifestamente declarada, e é, pois, o prisma do adimplemento (a exemplo da figura do adimplemento substancial e de efeito residual do nulo indenizável, que prescinde de convalidação porque opera conversão do ato, tal qual a conversão da remuneração em indenização mediante adimplemento ou lesão, prejuízo) por parte de particular sujeito de contratação nula com o poder público. A vedação de enriquecimento sem causa (princípio geral de direito, também conhecido como vedação do enriquecimento ilícito) prevalece sobre qualquer pauta de risco e de prevalência de interesse público, uma vez que o mínimo ético exigível do interesse público primário prevalece sobre todo interesse público secundário, compreendido como interesse de meio (em geral pecuniário), e não de fim, da administração pública. A sociabilidade, caráter humano precípuo, fundadora do próprio Estado, impõe a prevalência da boa-fé para que a pacificação social permita livre tráfego de bens da vida por meio do direito negocial e contratual, bem como do direito obrigacional: daí o sentido e alcance da segurança jurídica que modaliza o princípio geral, segundo o qual as avenças devem ser cumpridas, pacta sunt servanda, justamente para que a causação que atravessa a vontade formadora do vínculo negocial – que define a situação jurídica do sujeito contratual – se perquire ao lúmen da função social do contrato e, assim, dos usos e costumes da praça, bem como à luz do cotejo da situação pessoal do sujeito contratante, respeitando-se a equidade, a proporcionalidade, a paridade de armas, a vedação do excesso, entre outros princípios gerais do direito. Guarde-se esta lição: a função social do contrato não amesquinha nem colide com as livres avenças, nem com o exercício da autonomia privada, mas antes lhes assegura efetiva validade e eficácia, até porque o princípio do pacta sunt servanda não desatende a prevalência da essência do ato sobre a forma e, pois, a perquirição da proporcionalidadeno cotejo da finalidade (tudo pauta, sempre, da boa-fé). A função social do contrato é a garantidora de que os contratos serão cumpridos ou adimplidos. Não é antinômica à segurança jurídica; é, pelo contrário, sua fonte de eficácia-eficiência (capacidade ou potência de produção de efeito) Todavia, é importante destacar que em 20 de setembro de 2019 foi promulgada a Lei n. 13.874 (que recebera o nome de Declaração de Direitos de Liberdade Econômica), tornando-se responsável pela consolidação de um novo paradigma interpretativo calcado na liberdade econômica e promovendo: livre iniciativa; livre exercício da atividade econômica; e disposição sobre a força dos agentes reguladores. Sua grande missão: 107 INSTITUIÇÕES DE DIREITO […] alterou a hermenêutica dos contratos civis e empresariais no Brasil para fortalecer a autonomia negocial de contratos e de negócios jurídicos. A partir da alteração de formulações normativas do Código Civil, observa-se a tentativa de promover uma intervenção mínima por parte do Judiciário, respeitando a liberdade de alocação dos riscos inerentes aos negócios e à excepcionalidade e à limitação das revisões e resoluções contratuais (Silvestre; Passos, 2024, p. 384). São exemplos claros de sua ressignificação o fornecimento de mecanismos para interpretar conceitos outrora abertos e genéricos, como a função social do contrato (art. 421-A do CC2002) e a cláusula de interpretação dos contratos esculpidos no art. 113, do Código Civil Brasileiro, medidos, doravante, pela dicção do “princípio da intervenção mínima” (Brasil, 2019). Tais conceitos também são reproduzidos na busca de critérios mais sólidos na desconsideração da personalidade jurídica (presentes, também, no Incidente de Desconsideração da Personalidade Jurídica no CPC15). 5.4.1 Garantias contratuais As garantias contratuais têm por lastro o vínculo jurídico negocial contratual (art. 104 do Código Civil de 2002), cujo adimplemento obrigado pela vontade manifestamente declarada deve cotejar o art. 412 do Código Civil, vértice de equidade (justamente para tutela dessa principiologia, o direito admite a revisão contratual com base, por exemplo, na teoria da base objetiva, entre outras). Por não ser absoluta a liberdade de contratar, o próprio lastro de garantias deve observar a preservação da relação de equivalências. Destacam-se os direitos reais de garantia: hipoteca, penhor e anticrese. Esses direitos podem lastrear averbação de ônus real em sede de registro público, que obsta livre disposição de bens patrimoniais. A propriedade fiduciária (de fidúcia, no sentido de certeza, confiança, segurança) diz respeito ao lastro de garantia (art. 1.361 ao art. 1.368 do Código Civil). Note-se, ademais, as disposições gerais do art. 1.419 ao art. 1.510 do Código Civil incidentes sobre matéria garantia. Também outras formas de garantia podem ser livremente estipuladas por meio de cláusulas acessórias livremente pactuadas que obedeçam à principiologia que parte do art. 3º e alcança a principiologia da norma geral do art. 412 do Código Civil, vértice de equidade. 5.4.2 Confissão de dívida A assunção de dívida está disciplinada no art. 299 ao art. 303 do Código Civil de 2002, a exemplo de um mero termo de confissão ou assunção de dívida por meio do qual um sujeito capaz opera ato formativo de direito do credor. Veja que a pauta recai, aqui, sobre a declaração do devedor, mais do que sobre a manifestação de vontade do credor; eis que preexistente o débito ou a dívida, em razão de algum vínculo jurídico que implicasse situação ou posição de devedor a algum sujeito que, então, assume (e assim o declara 108 Unidade II manifestamente) sua posição subjetiva de devedor, reconhecendo, pois, a dívida. Para uma situação jurídica qualquer na qual um eventual sujeito devedor recusasse assunção de sua dívida, o credor poderia invocar a tutela jurisdicional para que o poder judiciário declarasse a existência do débito, mediante exame de mérito da causa de pedir, a causa petendi (em direito, causa petendi e pedido definem a natureza ou qualidade da ação ou o rito processual, jamais uma ou outra nomenclatura ou nomen iuris). Importa, ainda, notar-se o inciso III do art. 333 do Código Civil: Art. 333. Ao credor assistirá o direito de cobrar a dívida antes de vencido o prazo estipulado no contrato ou marcado neste Código: III - se cessarem, ou se se tornarem insuficientes, as garantias do débito, fidejussórias, ou reais, e o devedor, intimado, se negar a reforçá-las (Brasil, 2002a). 5.4.3 Teoria da imprevisão Se o sujeito é capaz e livre para encetar negócio jurídico dentro da vida civil, é, portanto, responsável pelos atos praticados, bem como pelo adimplemento de seus contratos, haja vista o lastro de sua bona fides, a boa-fé, que sempre se presume, ao passo que a má-fé, assim como o dolo, sempre deve ser comprovada (dolo compreende a vontade consciente e deliberada de obter proveito indevido ou de obter resultado proibido mediante conduta ilícita, campo do elemento subjetivo). A sociabilidade reclama pacificação social para segurança jurídica no tráfego dos bens da vida. Ao mesmo tempo que a vontade manifestamente declarada vincula o sujeito, sabe-se que a vontade é livre. Da vontade livre e do livre arbítrio decorre a prevalência da dignidade da vida humana (invariante axiológica prevalente), de modo que a vinculação da vontade é sempre relativa (art. 421 e art. 422 do Código Civil). A vontade dos agentes em sede de direito civil é tão valiosa que o contrato pode ser rompido mediante cumprimento da chamada cláusula penal de estipulação facultativa. Embora o nome “cláusula penal de estipulação facultativa” dê ideia de sanção ou penalidade, na verdade trata-se de figura civil, que é livre dispositiva: incide se expressamente prevista, cláusula acessória (para além de demais eventuais consequentes jurídicos, como a solução em perdas e danos acrescida de indenização). Trata-se, pois, da tutela da vontade livre sob a égide do princípio geral do pacta sunt servanda, bem como da prevalência da função do contrato, corolário da autonomia da vontade privada (liberdade civil). Essa pauta recai na norma geral do art. 412 do Código Civil, vértice de equidade. A prevalência do interesse público primário é outro princípio que relativiza a autonomia da vontade primária. Justamente para tutela dessa principiologia, o direito admite expressamente a revisão contratual diante da alteração superveniente das circunstâncias que deram origem ao negócio jurídico (teoria da imprevisão, teoria da base objetiva, entre outras). 109 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Ademais, o princípio da autonomia da vontade confere aos contratantes ampla liberdade para estipular o que lhes convenha, desde que preservada a moral, a ordem pública e os bons costumes, valores que não podem ser derrogados pelas partes. Eis que soem ser ponderados sempre à luz do ato e do sujeito, para além de eventuais circunstâncias pessoais que possam importar à soberania do non liquet: a indeclinabilidade da tutela jurisdicional, compreendido o livre acesso à tutela jurisdicional, que empunha o poder de império com seu poder geral de cautela, sua autoexecutoriedade por meio da titularidade da violência legitimada – o poder coercitivo de fazer-se cumprir compulsoriamente a iuris dicere (pode-se dizer o direito), a exemplo da condução coercitiva debaixo de vara. Em Roma, os pretores portavam ramos de varas (empunhadura, titularidade) da autoexecutoriedade do poder de império (ínsita ao poder geral de cautela). O Estado não desconhece o uso da força. Lembremos que o titular soberano do poder de império, no Estado democrático de direito, é única e exclusivamente o poder judiciário. Na França, Benjamin Constant havia proposto que se erigisse um quarto poder, um poder moderador, que conciliasse os poderes legislativo, executivo e judiciário, desempenhado pelo monarca. Prevaleceu a tripartição dos poderes, tão cara a Montesquieu.Desse modo, a intervenção do poder judiciário nos contratos, à luz da teoria da imprevisão e da teoria da onerosidade excessiva, exige a demonstração de mudanças supervenientes das circunstâncias iniciais vigentes à época da realização do negócio, oriundas de evento imprevisível (teoria da imprevisão) e de evento imprevisível e extraordinário (teoria da onerosidade excessiva), que comprometam o valor da prestação, demandando tutela jurisdicional específica (arts. 317, 478 e 479 do Código Civil). É pressuposta da aplicação das referidas teorias (arts. 317 e 478 do Código Civil) a existência de um fato imprevisível em contrato de execução diferida, que imponha consequências indesejáveis e onerosas para um dos contratantes – o que sempre enseja se ponderar se a sinistralidade ou anômalo poderia ser prevista, evitada, resistida, respeitados o dever geral de cuidado, o princípio geral da confiança, a boa-fé, entre outros. Quanto à imprevisibilidade, tem-se o seguinte exemplo: não se admite imprevisível a onerosidade decorrente de convenção coletiva de trabalho, haja vista sua própria previsibilidade, a reboque do art. 114, § 2º, da Constituição Federal. A jurisprudência examina com cautela e parcimônia as pautas da teoria da imprevisão que versem sobre variações monetárias e cambiárias, em razão da respectiva principiologia regente. Tenhamos em mente que o exercício da livre iniciativa econômica e da livre concorrência que fundamenta o exercício de sociedade empresária pressupõe o risco do negócio, motivo pelo qual se converte receita excedente em lucro para ser distribuído entre os sócios. Portanto, o risco, em princípio, é da livre empresa. 110 Unidade II 6 DIREITO DO CONSUMIDOR 6.1 Noções introdutórias de direito do consumidor Este tópico tem o objetivo de viabilizar a identificação de uma relação de consumo (ou consumerista) e ponderar o escopo de norma cogente indisponível da norma consumerista, que tutela tanto o consumidor individualmente situado quanto o consumidor em termos de sujeito difuso público e indeterminado, o que repercute em matéria de riscos, deveres, responsabilidades, inclusive quanto ao dever de veracidade, de lealdade e de suficiência de informação, ou seja, tudo que atravessa a pauta de práticas abusivas. O direito do consumidor é o ramo do direito que visa equilibrar as relações comerciais que são resultantes do consumo de bens e serviços na sociedade, buscando preservar os interesses dos consumidores, que são considerados hipossuficientes (geralmente, a parte mais fraca nesse tipo de relação). Não é por outro motivo que a principal lei que trata dessas regras denomina-se Código de Defesa do Consumidor (CDC), Lei n. 8.078/1990 (Brasil, 1990b), que, já no seu título, traz explicitamente a ideia de que os consumidores precisam de defesa. Também é possível dizer que os consumidores precisam de proteção. Figura 23 Disponível em: https://tinyurl.com/4xxhfzc5. Acesso em: 11 nov. 2025. Em seu artigo 5º, inciso XXXII, a CF inclui a defesa do consumidor no rol dos direitos fundamentais e impõe ao Estado o dever de promover a defesa dos consumidores. Portanto, o CDC é a consequência legislativa do cumprimento desse mandamento constitucional. Mas você sabe de onde vem essa história de proteger o consumidor? Vejamos um exemplo simples do fabricante de bolsas para viagem. Antigamente, para possuir uma bolsa de viagem, era necessário mandar fazer uma. Assim, todos os elementos da compra, como material, forma de elaboração, preço e prazo, eram discutidos diretamente com o fabricante artesanal da bolsa. O mesmo ocorria com sapatos, roupas, máquinas etc. Essa fase do consumo foi marcada por aquilo que os doutrinadores consumeristas chamaram de bilateralidade na produção. Porém, com a evolução e a avidez das pessoas para consumir, aos poucos, esse trabalho da negociação foi desaparecendo e sendo substituído pela decisão apenas 111 INSTITUIÇÕES DE DIREITO do fabricante, que oferecia o seu produto já pronto, não dando chances para o consumidor questionar ou decidir sobre o produto a consumir. Desse modo, caberia ao consumidor apenas duas hipóteses: aderir ao contrato previamente elaborado pelo fornecedor (contrato de adesão); ou adquirir o produto confeccionado com material de origem e qualidade desconhecidos na maioria das vezes. Torna-se óbvio, então, o desequilíbrio da relação de consumo. O fornecedor passa a prezar pela quantidade em detrimento da qualidade, e, portanto, o consumidor se depara com produtos muitas vezes viciados ou portadores de defeitos, que podem causar prejuízos de ordem econômica ou até mesmo física. As principais regras que visam à defesa e à proteção efetiva dos consumidores foram elaboradas pela Organização das Nações Unidas (ONU), por meio da Resolução n. 39/248, de 10 de abril de 1985 (United Nations, 1985), inspirada na DDC, promulgada pelo Presidente John Fitzgerald Kennedy em 15 de março de 1962 nos Estados Unidos. A declaração trazia quatro pontos principais, conforme podemos ver na figura a seguir: Direito à segurança ou proteção contra a comercialização de produtos perigosos à saúde e à vida Direito a ser ouvido na elaboração das políticas públicas que sejam de seu interesse Direito à opção, no combate aos monopólios e oligopólios e na defesa da concorrência e da competitividade como fatores favoráveis ao consumidor Direito à informação, incluindo os aspectos gerais da propaganda e o da obrigatoriedade do fornecimento de informações sobre os produtos e sua utilização Declaração dos direitos do consumidor Figura 24 – Declaração dos Direitos do Consumidor Os fundamentos apresentados por John Fitzgerald Kennedy permanecem presentes na Resolução 39/248 (United Nations, 1985) e, portanto, fazem parte do ordenamento jurídico brasileiro, uma vez que o Brasil assinou tratados na ONU assumindo o compromisso de criar legislações internas que visem à proteção da relação de consumo. Essa ação trouxe para a CF de 1988, nos termos do art. 5º, inciso XXXII, do art. 24, inciso VIII, do art. 150, parágrafo 5º, e do art. 170, inciso V, a determinação da criação dessa norma, que se materializou pelo CDC (Brasil, 1990b). Desse modo, fica evidente que o CDC tem um caráter social, uma vez que visa defender, organizar e educar a sociedade. Assim explicam Marques e Cavallazzi (2006, p. 61): O Código de Defesa do Consumidor constitui verdadeiramente uma lei de função social, lei de ordem pública econômica, de origem claramente constitucional. A entrada em vigor de uma lei de função social traz como consequência modificações profundas nas relações jurídicas relevantes na sociedade. 112 Unidade II Como você pode perceber, o direito do consumidor destina-se a proteger uma parte que é considerada hipossuficiente, porque não decide mais quais são todas as características e qualidades dos bens, produtos ou serviços que consome. Assim, para equilibrar a relação, é necessário que existam leis que obriguem a parte mais forte da relação de consumo a informar, proteger, ouvir e, acima de tudo, proporcionar ao consumidor o direito de escolha. Antes de adentrar nos conceitos pertinentes ao direito do consumidor, importa esclarecer a relação jurídica existente na relação de consumo. O CDC (Brasil, 1990b) qualificará a relação de consumo quando nas partes figurarem um consumidor e um fornecedor. As partes são definidas assim: Fornecedor Vendedor de um produto ou serviço Consumidor Adquirente de um produto ou serviço Figura 25 A relação de consumo pode ser efetiva, quando se concretiza de fato (por exemplo, a compra e a venda de uma geladeira), ou potencial, quando há a divulgação do produto ou serviço (por exemplo, a propaganda). Portanto, para termos uma relação de consumo, nos termos do CDC, não é necessário que o fornecedor concretamente venda bens ou preste serviço; basta que, mediante oferta, coloque os bens à disposição de consumidores potenciais. 6.2 Conceitode consumidor É importante saber que nem toda relação comercial se configura numa relação de consumo. Todavia, sempre que a relação comercial envolver um fornecedor e um consumidor, estará configurada a relação jurídica de consumo regulada pelo CDC. Portanto, você precisa entender os conceitos de consumidor e fornecedor à luz do CDC, para que seja capaz de reconhecer uma relação de consumo. Tanto pessoas físicas quanto pessoas jurídicas podem ser consumidoras. A condição essencial para que se configure uma relação de consumo é que o comprador adquira o produto ou utilize o serviço como destinatário final, conforme estabelece o artigo 2º do CDC (Brasil, 1990b). O conceito legal de destinatário final se relaciona com a intenção de uso do produto ou consumo final do serviço, ou seja, quando não se pretende adquirir o bem para revenda ou uso profissional. Ao contrário, o bem é retirado do mercado, pois o consumidor final esgota a sua potencialidade comercial através do consumo final; com a utilização do bem, coloca fim na cadeia de produção ou na cadeia de serviços, pois o consumidor final é aquele que utiliza o bem em benefício próprio. Portanto, sempre que o produto ou o serviço for destinado ao consumo final, serão aplicadas as regras do CDC. 113 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Em comentário ao parágrafo único do art. 2º do CDC, enuncia José Geraldo Brito Filomeno: O parágrafo único do comentado art. 2º, porém, trata não mais daquele determinado e individualmente considerado consumidor, mas sim de uma coletividade de consumidores, sobretudo quando indeterminados e que tenham intervindo em dada relação de consumo. [...] Desta forma, além dos aspectos já tratados em passos anteriores, o que se tem em mira no parágrafo único do art. 2º do Código do Consumidor é a universalidade, conjunto de consumidores de produtos e serviços, ou mesmo grupo, classe ou categoria deles, e desde que relacionados a um determinado produto ou serviço, perspectiva essa extremamente relevante e realista, porquanto é natural que se previna, por exemplo, o consumo de produtos ou serviços perigosos ou então nocivos, beneficiando-se, assim, abstratamente as referidas universalidades e categorias de potenciais consumidores (Filomeno, 2004, p. 38). Você sabia que o dia mundial dos direitos do consumidor foi instituído no dia 15 de março em homenagem ao presidente Kennedy? A data foi escolhida porque foi em 15 de março de 1983 que começou a vigorar a Declaração dos Direitos do Consumidor e, em 1985, a Assembleia Geral da ONU adotou os direitos do consumidor como diretrizes das Nações Unidas, o que lhe deu legitimidade e reconhecimento internacional. 6.3 Conceito de fornecedor Fornecedor, em sentido amplo, é alguém que abastece com regularidade outrem com algum produto. São exemplos os fornecedores de farinha de trigo para a padarias, de energia elétrica, gás encanado ou internet. Contudo, a definição de fornecedor dada pelo CDC, em seu artigo 3º, é muito vasta. Isso porque o CDC estabelece que fornecedor é toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada, nacional ou estrangeira, bem como os entes despersonalizados que desenvolvem atividade de produção, montagem, criação, construção, transformação, importação, exportação, distribuição ou comercialização de produtos ou prestação de serviços. Portanto, o CDC busca englobar todas as pessoas capazes de fornecer produtos e serviços e de prestar serviços. Desse modo, podem ser considerados como fornecedores reais os fabricantes, os produtores e os construtores: • Fabricante: quem fabrica e coloca o produto no mercado, incluindo o montador e o fabricante de peça ou componente. • Produtor: quem coloca no mercado produtos não industrializados (in natura), de origem animal ou vegetal (carnes, frutas, legumes etc.). • Construtor: quem introduz produtos imobiliários (casa, apartamento, terreno etc.), respondendo pela construção, bem como pelo material empregado na obra. 114 Unidade II O fornecedor presumido é o importador do produto industrializado ou in natura; os fabricantes ou produtores estão no exterior. Por outro lado, o fornecedor aparente, também chamado de quase fornecedor, é quem coloca seu nome ou sua marca no produto final. Nesse caso, aplica-se a teoria da aparência, que se justifica pela apropriação que a empresa distribuidora faz do produto. Por exemplo: na franquia, o franqueador, titular da marca, é o fornecedor aparente. O concessionário franqueado tem responsabilidade solidária. Já o comerciante e os demais participantes do ciclo produtivo e distributivo são também considerados fornecedores, sendo responsáveis solidariamente. São exemplos os supermercados, as lojas varejistas, as distribuidoras de bebidas etc. Mas você sabe o que são produtos ou serviços para o direito do consumidor? O CDC traz a informação no artigo 3º, que fixa que “produto é qualquer bem, móvel ou imóvel, material ou imaterial” e “serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo, mediante remuneração”. Merecem destaque dois tipos de serviços, sendo que o primeiro (citação a seguir) se enquadra na relação de consumo, e o segundo (citação adiante) não: Os serviços de natureza bancária, financeira, de crédito e securitária estão enquadrados nas relações de consumo. Portanto, por exemplo, surgindo uma ação judicial entre uma pessoa física e um banco, o CDC será aplicado nessa ação judicial. No passado, os bancos defendiam que o CDC não deveria ser aplicado nas suas relações com os clientes, pois os produtos e serviços bancários (crédito – dinheiro) obtidos pelos seus clientes eram utilizados na aquisição de outros bens e serviços, portanto, não se caracterizavam pelo consumo final. Essa tese foi totalmente afastada pelo Superior Tribunal de Justiça, que, na sua Súmula 297 (resumo do entendimento do Tribunal acerca de um determinado assunto), entendeu que “o Código de Defesa do Consumidor é aplicável às instituições financeiras”. Mesmo antes da edição da Súmula 297 do STJ em 2004, já havia nos tribunais superiores precedentes apontando para o reconhecimento da relação de consumo na prestação de serviços financeiros (STJ, 1995, p. 15524). O exemplo a seguir resume claramente o que tratamos: Os bancos, como prestadores de serviços especialmente contemplados no artigo 3º, parágrafo segundo, estão submetidos às disposições do Código de Defesa do Consumidor. O recorrente, como instituição bancária, está submetido às disposições do Código de Defesa do Consumidor, não porque ele seja fornecedor de um produto, mas porque presta um serviço consumido pelo cliente, que é o consumidor final desses serviços, e seus direitos devem ser igualmente protegidos como o de qualquer outro, especialmente porque nas relações bancárias há difusa utilização de contratos de massa e onde, com mais evidência, surge a desigualdade de forças e a vulnerabilidade do usuário. A circunstância de o usuário dispor do bem recebido através da operação bancária, transferindo-o a terceiros, em pagamento de outros bens ou serviços, não o descaracteriza como consumidor final dos serviços prestados pelo banco (STJ, 1995, p. 15524). 115 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Tais serviços, descritos na citação anterior, são decorrentes das relações de caráter trabalhista, especialmente aquelas formais baseadas na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Por isso, essas relações não se caracterizam como relação de consumo e não são regidas pelo CDC. A figura a seguir destaca o fluxo de negociação na cadeia de fornecimento moveleira. São apresentadas as transações comerciais desde o fornecedor de matéria-prima para a indústria moveleira até o consumidor final. Pr od ut os Ag en te s ec on ôm ic os Empresa fornecedora para fabricação de móveis Marcenaria (fabricante de móveis) Móveis industrializados Loja de varejo (vendedor de móveis) Móveis industrializados Consumidor (pessoa que compra móveis para uso na sua residência ouempresa) Móveis industrializados Madeira Cola Embalagem Verniz Dobradiças Ferramentas Aplicação do direito comum Código Civil brasileiroLe i ap lic áv el na re la çã o co m er ci al Aplicação do Código de Defesa do Consumidor (1) (2) (3) Venda de matéria-prima Comércio de varejo Atacado - revenda Figura 26 – Fornecedor-consumidor-bem A figura anterior mostra três transações comerciais. Vamos classificar os agentes econômicos à luz do CDC, identificando a lei aplicável nas respectivas relações comerciais e apontando, em decorrência disso, se caracterizam relações de consumo ou não. Na primeira relação comercial, o negócio ocorre entre uma empresa fornecedora de insumos para indústria moveleira e uma marcenaria – portanto, uma empresa fabricante de móveis. Não há dúvida de que não se trata de uma relação de consumo, pois a marcenaria pode ser caracterizada como consumidor final, na medida em que a compra dos produtos (matéria-prima: madeira, verniz, cola, dobradiças, embalagens, ferramentas etc.) é feita com o objetivo de produzir os móveis para venda ao mercado atacadista. Caso haja divergências entre o fornecedor e a marcenaria, serão resolvidas à luz do Código Civil brasileiro. Na segunda transação, o negócio ocorre entre a marcenaria e uma loja de varejo. Também não há que se cogitar sobre relação de consumo nesse tipo de transação, mesmo já envolvendo móveis industrializados, isto é, prontos para o uso, pois a aquisição das mercadorias (móveis industrializados) se destina à revenda no mercado varejista, e não ao uso próprio. Havendo um contencioso nessa relação comercial, será aplicado também o Código Civil brasileiro. 116 Unidade II Somente a terceira venda se dá no comércio varejista, quando a loja de móveis efetua uma venda, na hipótese proposta pelo exemplo retratado na figura em análise para o consumidor final, seja pessoa física ou jurídica, que tem a intenção de utilizar o bem na sua residência ou na empresa. Portanto, somente nessa última etapa é que há a inequívoca caracterização da relação de consumo. 6.4 Política nacional de consumo A política nacional de relações de consumo tem como objetivo central atender aos princípios e direitos básicos previstos na CF de 1988. Lembrete As relações de consumo devem ser honestas, de boa-fé e preservar o princípio constitucional da dignidade da pessoa humana. Está previsto no caput do art. 4º do CDC: Art. 4º. A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o atendimento das necessidades dos consumidores, o respeito à sua dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus interesses econômicos, a melhoria da sua qualidade de vida, bem como a transparência e harmonia das relações de consumo, atendidos os seguintes princípios [...] (Brasil, 1990b). Em outras palavras, a política nacional de relações de consumo visa garantir que a pessoa humana tenha condições mínimas de ter uma vida segura, com atendimento das necessidades básicas, inclusive o respeito. A proteção à vida, à saúde e à segurança é um dos princípios da relação de consumo. Para Rizzato Nunes (2013, p. 176), “proteção à vida, saúde e segurança são direitos que nascem atrelados ao princípio maior da dignidade, uma vez que, como dissemos, a dignidade da pessoa humana pressupõe um piso vital mínimo”. Quando estudamos o CDC, temos de reconhecer os documentos como um conjunto: um artigo complementa o outro. Assim, a ideia de proteção à vida ocorre no sentido mais amplo; são os aspectos materiais, psicológicos e morais. Quando pensamos em dignidade, temos de visualizar a vida com as suas necessidades essenciais atendidas. Algumas dessas necessidades são descritas a seguir. Proteção e necessidade O CDC nasceu com caráter protecionista e de interesse social, tendo em vista o desequilíbrio econômico entre os fornecedores e os consumidores. Esse desequilíbrio se torna ainda maior em algumas situações, como nos casos de medicamentos, alimentos, energia elétrica, água, esgoto, entre outros. Proteger os consumidores nessas relações é garantir a sua existência com dignidade. 117 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Transparência A transparência representa a obrigação de o fornecedor dar informações claras e objetivas sobre o produto ou serviço, fornecendo todos os esclarecimentos necessários para que o consumidor possa utilizá-lo de forma correta. Harmonia Todas as relações contratuais devem atender ao princípio da boa-fé, ou seja, as partes agem de forma correta, com honestidade, cada uma arcando com suas obrigações e seus direitos. Assim, há um equilíbrio da relação que mantém a harmonia da sociedade, uma vez que ambas as partes têm as suas necessidades atendidas: o fornecedor, de vender; e o consumidor, de adquirir conforme a sua demanda. Vulnerabilidade A lei reconhece a vulnerabilidade do consumidor, uma vez que o domínio técnico e econômico é do fornecedor. O fornecedor tem o domínio dos meios de produção e oferece ao mercado um produto/serviço, enquanto o consumidor tem de escolher entre os produtos/serviços que estão à disposição no mercado, com preço e condições oferecidos pelo fornecedor. Via de regra, o fornecedor tem superioridade econômica em relação ao consumidor. Por exemplo: o valor do capital social de uma montadora de automóveis é maior em relação à renda do comprador de um carro. Quando um carro apresenta um vício, para a montadora, é só um entre milhares; já para o consumidor, muitas vezes, é o seu bem de maior valor. Assim, para que seja atendido o princípio da isonomia, o Estado atua de forma a proteger a parte mais vulnerável e garantir o equilíbrio nas relações sociais. Um exemplo recente de reconhecimento legal veio na Lei n. 14.181/2021 (Lei do Superendividamento) que alterou o Código de Defesa do Consumidor e que visa proteger o consumidor endividado, permitindo a negociação e a repactuação de dívidas de consumo. A lei estabelece um “mínimo existencial”, que é considerado, a partir do caso concreto, o valor mínimo necessário para a sobrevivência digna (como alimentação, moradia e saúde) e, consequentemente, proíbe que as dívidas comprometam esses recursos, impondo uma renegociação sempre que isso acontecer. Para ter acesso ao tratamento pelo superendividamento, o consumidor deve estar em situação de boa-fé e incapaz de pagar todas as suas dívidas sem prejudicar seu mínimo existencial. Liberdade de escolha O consumidor deve ter garantido o seu direito de escolha, levando em consideração a qualidade, o preço e a utilidade do produto. 118 Unidade II Intervenção do Estado Para garantir o equilíbrio das relações de consumo, o Estado intervém de forma direta, assegurando o acesso aos produtos e serviços, garantindo a qualidade e a adequação. Boa-fé Boa-fé é agir com honestidade, lealdade, é acreditar, confiar. O consumidor age de boa-fé ao adquirir o produto ou serviço, e o fornecedor, da mesma forma, produz confiando nas relações comerciais do mercado. Assim, a ideia é garantir um comportamento leal, fiel, a fim de assegurar o respeito entre os contratantes. Equilíbrio O objetivo é garantir um equilíbrio entre as partes, ou seja, apesar das diferenças técnicas e econômicas, o Estado garante igualdade entre as partes contratantes. Direitos básicos do consumidor Segundo o enunciado do art. 6º do CDC: Art. 6º São direitos básicos do consumidor: I – a proteção da vida, saúde e segurança contra os riscos provocados por práticas no fornecimento de produtos e serviços considerados perigosos ou nocivos (Brasil, 1990b). Como complemento dessa proteção legal, o fornecedor de produtos e serviços potencialmente nocivos ou perigosos à saúde ou à segurança deverá informar, de maneira ostensiva e adequada, a respeito de sua nocividade ou periculosidade, sem prejuízo da adoção de outras medidas cabíveis em cada caso concreto. Um exemplo de produto potencialmente nocivo ou perigoso à saúde é o tabaco. Por meio dos estudos de Tolotti e Davoglio(2010), constatou-se a diminuição do consumo mediante leis antifumo restritivas à publicidade, implantadas em 1988, 1995 e 2000, sendo que, nesse período, o consumo foi reduzido em 63 bilhões de unidades, evidenciando-se a relação entre as propagandas e o consumo de tabaco. Tais dados sugerem que conteúdos veiculados pela propaganda na televisão brasileira tendem a interferir significativamente no comportamento do consumidor, apontando a demanda por constantes legislações e políticas públicas baseadas na perda dessa estabilização e consequente retomada do consumo. É nesse sentido que o art. 8º do CDC estabelece os seguintes deveres aos fornecedores de produtos e serviços: 119 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Art. 8º. Os produtos e serviços colocados no mercado de consumo não acarretarão riscos à saúde ou segurança dos consumidores, exceto os considerados normais e previsíveis em decorrência de sua natureza e fruição, obrigando-se os fornecedores, em qualquer hipótese, a dar as informações necessárias e adequadas a seu respeito. Parágrafo único. Em se tratando de produto industrial, ao fabricante cabe prestar as informações a que se refere este artigo, através de impressos apropriados que devem acompanhar o produto (Brasil, 1990b). O risco normal e previsível refere-se a certa expectativa que o consumidor tem em relação ao produto ou serviço, ou seja, representa uma normalidade e previsibilidade do consumidor quanto ao uso e funcionamento rotineiro do produto ou serviço. Por exemplo: um liquidificador apresenta riscos na sua utilização; não se pode, evidentemente, colocar a mão dentro do copo com o aparelho ligado. Esse seria o risco normal e previsível. O direito de proteção à vida, à segurança e à saúde também se refere à não colocação no mercado, ou à retirada do mercado, de produtos com alto grau de nocividade ou periculosidade. Se, após a colocação no mercado, o fornecedor tomar conhecimento da periculosidade, deverá alertar o consumidor, mediante anúncios publicitários, e comunicar o fato às autoridades competentes. Exemplo de aplicação Qualquer prejuízo físico ou moral em virtude do defeito apresentado no produto ou serviço é de inteira responsabilidade do fornecedor. Assim, a prevenção e a reparação dos danos estão intimamente ligadas, na medida em que o recall, ou chamamento, deve sanar qualquer defeito que coloque em risco a saúde e a segurança do consumidor. O recall visa ainda a retirada do mercado, a reparação do defeito ou a recompra de produtos ou serviços defeituosos pelo fornecedor. Você se lembra de algum produto ou serviço em que tenha sido realizado recall? Na sua opinião, quais são os riscos e custos de fazer ou não fazer um recall? Esse direito básico abrange a educação formal nas escolas e a educação informal, a cargo do próprio fornecedor e dos órgãos públicos: Art. 4º [...] IV – educação e informação de fornecedores e consumidores, quanto aos seus direitos e deveres, com vistas à melhoria do mercado de consumo (Brasil, 1990b). A informação que o consumidor deve receber não é somente sobre os riscos do produto, mas também sobre quantidade, características, composição, qualidade e preço. Assim, o direito de informação compreende três facetas, demonstradas na figura 27. 120 Unidade II Direito de informar Direito de ser informado Direito de se informar Direito de informação Figura 27 – Direito de informação no CDC O dever de informar do fornecedor está relacionado ao aspecto do risco à saúde e à segurança do consumidor. Assim, o fornecedor deve oferecer todas as informações sobre os riscos que não são normais e previsíveis em decorrência da natureza dos produtos e dos serviços. Por exemplo: caso uma indústria crie um processador de alimentos cujo manuseio não é, ainda, do conhecimento padrão do consumidor, ela tem de lhe dar informações corretas, claras, ostensivas e suficientes, visando esclarecer todos os riscos inerentes à utilização do produto. A principal forma que deve ser utilizada pelo fornecedor refere-se aos impressos que devem, obrigatoriamente, acompanhar os produtos industrializados (por exemplo, o manual de instruções). Você deve estar se perguntando: mas e se o meu produto for importado? Bem, se o produto for importado, caberá ao importador fornecer as informações, e, se elas já acompanharem o produto, será ele o responsável pela tradução a ser oferecida em impresso próprio, que deverá acompanhar o produto. Importa esclarecer que o CDC prevê como crime a omissão de dizeres ou sinais ostensivos sobre a nocividade ou periculosidade de produtos nas embalagens, nos invólucros, nos recipientes ou na publicidade, com pena de detenção de seis meses a dois anos, além de multa. 6.5 Proteção contra práticas comerciais abusivas As práticas comerciais abusivas referem-se às condições irregulares de negociação nas relações de consumo que ferem a boa-fé, os bons costumes, a ordem pública e a ordem jurídica. Essas condições têm de estar ligadas ao bem-estar do consumidor final. São o abuso contra o consumidor e estão descritas no art. 6º do CDC: “IV – a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva, métodos comerciais coercitivos ou desleais, bem como contra práticas e cláusulas abusivas ou impostas no fornecimento de produtos e serviços” (Brasil, 1990b). A apresentação de produtos ou serviços deve assegurar informações: • Corretas: praticamente o óbvio ululante; seria absolutamente inadmissível que o fornecedor apresentasse informações incorretas. 121 INSTITUIÇÕES DE DIREITO • Claras: a norma pretende evitar o uso de linguagem técnica ou inacessível. Exemplo: bulas de remédios. • Precisas: a lei impede o uso de termos vagos e/ou ambíguos. Por exemplo: bancos informando que o cliente tem dez dias para usar o cheque especial sem que lhe cobrem os juros correspondentes, mas não informando que, se o uso superar o dia 10, os juros do período anterior serão somados e cobrados. • Ostensivas: dirige-se especificamente àquelas informações impressas em letras miúdas, difíceis de serem lidas. A informação ou cláusula impressa dessa forma não tem validade alguma. Ademais, os produtos ou serviços devem apresentar: • Língua portuguesa: seria um disparate aceitar o uso de língua alienígena no contexto nacional, fazendo vingar direitos contra os brasileiros. • Linguagem legível: principalmente quanto a informações manuscritas ou apagadas. Exemplo: receita de médico, tinta opaca etc. As informações sobre os produtos e serviços, nos moldes citados, devem ser em relação a: — Características (tamanho, forma, cor etc.), qualidade (utilidade), quantidade, composição, garantia contratual e origem. — Preço: - Preço à vista: preço só existe à vista. Não se pode confundir preço com forma de pagamento; esta pode ser a prazo, em parcelas, financiada etc. A forma pode variar, mas o preço tem de ser o mesmo que foi estipulado à vista na compra. - Preço visível: o preço tem de estar à mostra, claramente visível para o consumidor, inclusive nos produtos das prateleiras dos supermercados e nas vitrines. A lei visa impedir que o consumidor seja constrangido, isso porque é prática bastante conhecida de venda (a gíria comercial diz “malho”) a de atrair o consumidor para dentro do estabelecimento e oferecer-lhe os produtos sem que ele saiba quanto custa; só depois que ele manifesta desejo de comprar é que o preço é dito. • Prazos de validade: todo produto perecível deve trazer informado o prazo de validade. Observese que certos produtos devem apresentar dois prazos de validade distintos – um até que a embalagem seja aberta e outro para o consumo após sua abertura. São centenas de produtos que a pessoa abre e demora para consumir totalmente. São exemplos o requeijão, o biscoito etc. 122 Unidade II 6.6 Propaganda enganosa ou abusiva A lei estabelece que é proibida, por ser enganosa ou abusiva, qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter publicitário inteira ou parcialmentea rua. • Duas pessoas conversando sobre um serviço mal prestado. • Dois policiais em uma viatura. • Uma faixa pendurada em uma fachada de loja com os dizeres: “Passa-se o ponto”. Você consegue perceber como a ciência do direito atua em cada uma dessas diversas ações corriqueiras em nossa sociedade? Existe uma conexão, além de emocional, jurídica entre a mãe e a criança: uma declaração que o Estado faz, por meio dos cartórios, cujo nome é certidão de nascimento, atesta que a mulher é a mãe e que a criança é a filha dela. Essa é uma das facetas presentes no direito civil. A natureza também é preservada para a nossa e as futuras gerações. Isso é simbolizado pela árvore com a copa florida, cujo cuidado é de responsabilidade de toda a coletividade. Essa determinação de cuidado e preservação ambiental está presente na CF. 12 Unidade I Os policiais representam o Estado, ou seja, a presença dele nas relações com a população, para preservar a ordem. Quem paga o salário dos policiais é a população toda, e o faz, preponderantemente, por meio da arrecadação tributária. Sempre que o governo gasta o dinheiro público, como para comprar uma viatura ou uniformes, a regulamentação ocorre por intermédio do direito administrativo. Ao se queixar de um serviço mal prestado ou de uma mercadoria que foi entregue de forma diferente da combinada, está presente o direito do consumidor, que serve para equilibrar a relação jurídica existente entre o fornecedor e o consumidor. Você sabe o que significa “Passa-se o ponto”? Na linguagem popular, significa que aquele estabelecimento empresarial está sendo vendido. No entanto, essa operação pode envolver diversos aspectos jurídicos, como incluir a transferência do contrato de aluguel do imóvel onde funciona o estabelecimento, os bens, como máquinas e equipamentos, e principalmente o valor da negociação, que também tem um nome corriqueiro: luvas. As luvas correspondem ao preço da estrutura montada em determinado local, que funciona em perfeitas condições de ser explorada comercialmente. Repare que tudo o que for apresentado neste livro-texto terá relação com a sua realidade, que é permeada de forma significativa pelo direito. E se por um lado o direito se apresenta como algo valioso, nobre, imprescindível e benéfico para a nossa sociedade, por outro lado aparece com uma feição antipática, de difícil compreensão e que muitas pessoas têm verdadeiro horror por não entender o seu funcionamento. Como você percebeu, a ciência jurídica decorre da organização social. É por isso que se pode afirmar que ninguém vive isoladamente. O ser humano é gregário por natureza, ou seja, só realiza o seu potencial na vida em sociedade, por meio das relações sociais entre as pessoas. Todos trazemos pelo menos a noção de direito como sinônimo de lei; entendemos facilmente quando a palavra “direito” é empregada como sinônimo de “conjunto de leis que regem as relações sociais em determinado país”. É comum encontrarmos na língua portuguesa uma palavra com mais de um significado, e isso não é diferente com o termo “direito”. “Direito” pode ser o seu braço, por exemplo. Mesmo que o tomemos em seu contexto jurídico, veremos que ainda assim há várias interpretações possíveis para o que se considera direito, e, a princípio, é essencial que você entenda os vários significados com os quais essa palavra é empregada em nosso dia a dia. Vamos utilizar a teoria do direito e da filosofia do direito para dar significado a esse vocábulo tão importante ao nosso estudo. 1.1 Conceito de direito Dis + Rectum significa muito reto, justo; aquilo que é muito justo. Pode-se dizer que o direito é um complexo de normas destinadas à solução de conflitos, realizando-se dessa forma a justiça. Assim, ao longo do tempo, consolidou-se a noção de direito como uma regra ou um conjunto de regras capazes de determinar o que é certo, o comportamento que todos devem adotar e seguir como algo obrigatório em uma determinada sociedade. 13 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Apesar de a palavra possuir uma pluralidade de significados que podem refletir diferentes conceitos – não necessariamente se reduzindo ao seu significado de origem latina –, quase sempre traz a noção fundamental de ser uma regra ou um conjunto de regras vigentes em determinado tempo e em determinado espaço. Você acredita que há alguns anos não era obrigatório usar o cinto de segurança dentro de veículos automotores no Brasil? Com o passar do tempo e a evolução da sociedade, a utilização do cinto de segurança se tornou coercitiva, ou seja, obrigatória para minimizar os impactos de uma colisão. O mesmo raciocínio se aplica ao uso do capacete para motociclistas. Essa observação serve para demonstrar que o direito decorre da evolução da sociedade no tempo. Antes não era necessário. Agora é. A vigência espacial pode ser exemplificada da seguinte forma: você sabia que o valor do salário mínimo vigente no Brasil não é uniforme? Existe um salário mínimo nacional e, em determinados estados da federação, como o Rio Grande do Sul e São Paulo, os valores são superiores ao salário mínimo nacional. Assim, você percebe que a lei assume contornos diferentes, dependendo do local onde você se encontra. Vejamos, então, os principais significados que podem ser atribuídos ao termo “direito”: • Norma: esse sentido é muito importante e o mais comum, pois você certamente encontrará várias definições da palavra “direito” como lei, vale dizer, um conjunto de normas que devem ser seguidas por todos. São normas obrigatórias, pois, caso alguém não respeite uma norma (lei), receberá uma penalidade imposta pelo Estado, que, em última instância, é o agente que detém o poder de obrigar as pessoas a cumprir a lei, inclusive com o emprego da força, se necessário. • Faculdade: aplicamos esse sentido quando a palavra “direito” reflete uma capacidade que é reconhecida a um determinado sujeito. Fica mais fácil com o seguinte exemplo: “Homens e mulheres têm direitos iguais”. • Justiça ou justo: nessas hipóteses, a palavra expressa o sentido de justiça que deve prevalecer nas relações sociais, por exemplo, quando falamos que a liberdade de religião e crença é um direito de todos. • Ciência: esse significado fica bem claro quando ouvimos alguém dizer acertadamente que o direito é uma ciência social aplicada. Repare nas lições de Giorgio Del Vecchio (1934), um grande filósofo e jurista italiano, falecido na década de 1970, que inspirou figuras importantes, como Norberto Bobbio (autor conhecido por sua ampla capacidade de produzir escritos concisos, lógicos e, ainda assim, densos), ao esclarecer que os ordenamentos jurídicos, no tocante ao direito privado, seguiam uma tradição de concepção romana, calcada na naturalis ratio, ou seja, na razão natural, ao passo que o direito público seguia a tradição das déclarations des droits, que seriam expressões típicas da tradição do jus naturae, entendida como direito natural. Del Vecchio falou da importância do estudo da grandiose tradition doctrinale ou grandiosa tradição doutrinal; de não se negligenciar o estudo sob pena de se renunciar à inteligência (apreensão do sentido) do sistema jurídico. 14 Unidade I O professor Franco Motoro (1991) explicou que, dentro das diversas facetas ou sentidos de direito, existem os primados, sintetizados no quadro a seguir: Quadro 1 – Significações do direito Primado do direito-norma Direito é um conjunto de normas, leis ou regras jurídicas aplicáveis às atividades dos homens, sendo uma norma primária que estabelece a sanção. Planiol, Kelsen, Clóvis Beviláqua Primado do direito subjetivo O direito considerado na vida real aparece como um poder do indivíduo, ou seja, o preceito maior é a liberdade, pois direito é conduta, não norma. Savigny, Carlos Cóssio Primado do direito fato social O direito é o fenômeno social por excelência. Mais do que a língua, a religião e a arte, o direito revela a natureza íntima do grupo social; é o controlefalsa ou, por qualquer outro modo, mesmo que por omissão, capaz de induzir ao erro o consumidor a respeito da natureza, de características, qualidade, quantidade, propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços ofertados. Assim dispõe o CDC: Art. 37. É proibida toda publicidade enganosa ou abusiva. § 1º. É enganosa qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter publicitário, inteira ou parcialmente falsa, ou, por qualquer outro modo, mesmo por omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza, características, qualidade, quantidade, propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços. § 2º. É abusiva, dentre outras, a publicidade discriminatória de qualquer natureza, a que incite à violência, explore o medo ou a superstição, se aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança, desrespeite valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança. § 3°. Para os efeitos deste código, a publicidade é enganosa por omissão quando deixar de informar sobre dado essencial do produto ou serviço. Art. 38. O ônus da prova da veracidade e correção da informação ou comunicação publicitária cabe a quem as patrocina (Brasil, 1990b). Como você percebeu, o CDC é bastante exaustivo e pretende coibir todo tipo de publicidade enganosa, ou seja, a que induz o consumidor ao erro durante a decisão de compra. Repare que, mesmo em omissão de informações relevantes, o fornecedor pode manipular e viciar a capacidade de julgamento do consumidor acerca de qualidade, quantidade, propriedades, origem e preço de um determinado produto ou serviço. Portanto, os casos de omissão de informações são as situações nas quais o fornecedor sabe que talvez com aquela informação o consumidor pode decidir pela não aquisição do seu produto ou serviço. Vejamos um exemplo de uma conduta de propaganda enganosa. Ficou famoso no Brasil o dia de promoção do varejo denominado Black Friday, que ocorre sempre na última semana do mês de novembro e que funciona como um grande evento comercial de abertura do período das promoções natalinas. Pois bem, os consumidores são “bombardeados” com um volume gigantesco de promoções e promessas de descontos fabulosos. Muitos adiam o momento das suas compras para a Black Friday na crença de encontrar preços vantajosos, conforme os anúncios veiculados pelos varejistas. Os órgãos de defesa dos 123 INSTITUIÇÕES DE DIREITO consumidores, bem como os próprios consumidores interessados em determinados produtos, passam a acompanhar a evolução dos descontos vários dias antes do grande dia de promoção. No dia, muitas promoções de preço não se concretizam conforme anunciado, pois uma prática comum e lamentável de muitos varejistas, infelizmente desonestos, é majorar os preços poucos dias antes da Black Friday; assim, ao aplicar os descontos, o preço retorna ao valor original, ou seja, ou não há nenhum desconto ou é fixado um desconto muito menor do que de fato foi anunciado. O professor Rizzatto Nunes resume adequadamente tais situações e apresenta exemplos adicionais: É de anotar que para a aferição da enganosidade não é necessário que o consumidor seja aquele real, concretamente considerado; basta que seja potencial, abstrato. Isto é, para saber da enganação é suficiente que se leve em consideração o consumidor ideal. É ele que deve servir de parâmetro para a avaliação. O anúncio é enganoso antes mesmo de atingir qualquer consumidor em concreto; basta ter sido veiculado. Da mesma maneira, é possível detectar um anúncio enganoso sem nem sequer verificar o produto ou o serviço concretamente. É suficiente que do próprio texto, da imagem, do som do anúncio etc. se extraia a enganosidade. Por exemplo, é conhecida a enganosidade do anúncio que diz: “Curso grátis, exceto material didático”. Ora, o curso não é grátis. O que ocorre é que seu preço é cobrado embutido no chamado “material didático”. Outro exemplo amplamente praticado no comércio: a oferta de pagamento à vista com 20% de desconto ou em três vezes sem acréscimo. Se há desconto de 20% à vista, no parcelamento em três vezes o valor correspondente ao desconto (20%) está incluído. Logo, há acréscimo (preço é sempre praticado à vista, depois do desconto). Basta ler o anúncio para verificar a enganosidade (Nunes, 2013, p. 560). Em resumo, enquadra-se na condição de propaganda enganosa tudo aquilo que é prometido aos consumidores, por meio de qualquer tipo de informação – relativa à qualidade, ao preço, às quantidades ou a quaisquer outros tipos de vantagens –, que não seja cumprido pelo fornecedor. Para concluir esta etapa do seu estudo, é essencial que você note a diferença sutil entre propaganda enganosa e propaganda abusiva. Há alguns anos, o Senado Federal fez uma postagem na rede social Facebook. O texto em destaque na página, transcrito a seguir, possui um resumo da principal diferença entre a conduta de propaganda enganosa e a propaganda abusiva. Você sabe a diferença? Propaganda enganosa: divulga informações falsas sobre produtos e serviços, ou omite informações importantes. Propaganda abusiva: divulga mensagens que induzem a comportamentos prejudiciais à saúde e segurança do consumidor, ou gera discriminações (Publicação [...], 2015). 124 Unidade II Saiba mais Para saber mais, leia a reportagem completa em: PUBLICAÇÃO do Facebook do Senado alcança mais de 19 milhões de pessoas. Senado Notícias, 24 ago. 2015. Disponível em: https://tinyurl.com/smpednf2. Acesso em: 11 nov. 2025. Vimos que os fornecedores podem incorrer em condutas desonestas para publicitar a oferta de seus produtos e serviços. O CDC, em seu artigo 39, traz um rol exemplificativo de práticas que se caracterizam como abusivas, e a primeira a ser elencada é a venda casada. Trata-se de condutas, por parte dos fornecedores, que consistem em vantagens manifestamente excessivas em relação aos consumidores. Portanto, o CDC busca coibir tais práticas comerciais, que era algo mais comum no passado, mas que ainda hoje lamentavelmente são realizadas por fornecedores. Leia o artigo 39 do CDC e seu inciso I: Art. 39. É vedado ao fornecedor de produtos ou serviços, dentre outras práticas abusivas: I – condicionar o fornecimento de produto ou de serviço ao fornecimento de outro produto ou serviço, bem como, sem justa causa, a limites quantitativos [...] (Brasil, 1990b). O artigo 39 é composto de 14 incisos que exemplificam práticas consideradas abusivas. Repare que no final do caput desse artigo o legislador incluiu a expressão “dentre outras práticas abusivas”. Isso é muito importante para a nossa análise, pois significa que os 14 incisos são exemplificativos; não esgotam todas as possibilidades de práticas abusivas. Portanto, sempre que estivermos diante de uma das práticas descritas nesse artigo, estaremos inequivocamente diante de uma prática abusiva. Todavia, tais práticas são exemplos, e isso significa que podem ocorrer outras condutas desonestas, por parte dos fornecedores, que não estão elencadas no artigo e que nem por isso deixam de ser consideradas práticas abusivas. Lembrete Sempre que o consumidor enfrentar uma situação na qual o fornecedor impõe uma condição para o negócio que expresse uma vantagem excessiva em relação à posição do consumidor, estará caracterizada uma prática abusiva. 125 INSTITUIÇÕES DE DIREITO A venda casada é uma das práticas abusivas mais comuns do comércio de produtos e serviços. O que caracteriza uma venda casada é a imposição pelo fornecedor da aquisição de um produto ou serviço que o consumidor não deseja como condição para que lhe seja vendido o produto ou serviço desejado. Daí vem o termo “venda casada”, isto é, só se vende o pacote (produto desejado e produto indesejado), ou seja, “tudo ou nada”. É certo que esse tipo de conduta coloca o consumidor em uma posição de vulnerabilidadeem relação ao fornecedor, pois, ao precisar de um dos produtos, o consumidor acaba aceitando levar algo de que não necessita para poder dispor do produto desejado. Atente-se, entretanto, ao conceito, pois o fornecedor pode oferecer promoções por meio de pacotes ou combos (termo que deriva da palavra em inglês combination – combinação, em português), desde que ofereça também os produtos separadamente, ficando exclusivamente a cargo do consumidor decidir pela conveniência de comprar o pacote ou combo. Com relação a esse ponto, ou seja, ao emprego de forma lícita e justa de pacotes e combos pelo comércio, vejamos a lição de Rizzatto Nunes, que nos esclarece com muita propriedade: É preciso, no entanto, entender que a operação casada pressupõe a existência de produtos e serviços que são usualmente vendidos separados. O lojista não é obrigado a vender apenas a calça do terno. Da mesma maneira, o chamado “pacote” de viagem oferecido por operadoras e agências de viagem não está proibido. Nem fazer ofertas do tipo “compre este e ganhe aquele”. O que não pode o fornecedor fazer é impor a aquisição conjunta, ainda que o preço global seja mais barato que a aquisição individual, o que é comum nos “pacotes” de viagem. Assim, se o consumidor quiser adquirir apenas um dos itens, poderá fazê-lo pelo preço normal (Nunes, 2013, p. 601). A seguir, será feita uma breve relação de condutas e práticas tipicamente enquadradas na condição de venda casada e que não devem ser toleradas pelos consumidores. • Consumação mínima em casa de show ou bares. • Financiamento de imóveis ou automóveis pelos bancos condicionado à aquisição de seguro para o respectivo bem. • Pacotes ou combos com os serviços de acesso à internet, TV a cabo e telefone fixo ou celular que não são oferecidos separadamente. • Brinquedos com lanches nas redes de fast-food. • Consumação exclusivamente de produtos vendidos nas entradas das salas de cinemas. • Concessão de cartão de crédito atrelado a seguros ou títulos de capitalização. • Salões de festa que condicionam o aluguel do espaço à contratação do serviço de bufê ou outro serviço qualquer oferecido em conjunto. 126 Unidade II Mas e se você se arrepender da compra? Há proteção jurídica? A resposta é afirmativa. O direito de arrependimento foi incluído pelo legislador no CDC como parte de um sistema de proteção aos consumidores. Nesse caso, em particular, trata-se das situações em que os consumidores adquirem produtos ou serviços fora do estabelecimento comercial. O artigo a seguir acentua bem o exposto: Art. 49. O consumidor pode desistir do contrato, no prazo de 7 dias a contar de sua assinatura ou do ato de recebimento do produto ou serviço, sempre que a contratação de fornecimento de produtos e serviços ocorrer fora do estabelecimento comercial, especialmente por telefone ou a domicílio. Parágrafo único. Se o consumidor exercitar o direito de arrependimento previsto neste artigo, os valores eventualmente pagos, a qualquer título, durante o prazo de reflexão, serão devolvidos, de imediato, monetariamente atualizados (Brasil, 1990b). Portanto, pela leitura do artigo 49, percebe-se que o legislador atribuiu sete dias para que o consumidor reflita sobre a conveniência da compra que efetuou. Entretanto, impõe a condição de que o negócio tenha sido efetivado fora do estabelecimento comercial. O termo “fora do estabelecimento comercial” engloba: • Venda porta a porta, quando o consumidor recebe no seu domicílio a visita do vendedor. • Telemarketing, quando o consumidor compra por telefone, fazendo ou recebendo a ligação de uma central ou diretamente do vendedor. • Catálogos ou correspondência, tipo de venda muito comum em produtos de beleza. • Comércio eletrônico, websites das lojas ou marketplaces (websites que englobam várias lojas num único endereço de internet, como a Amazon). • Canais de venda de produtos que veiculam as ofertas em seus canais de TV e convidam os consumidores a efetivar a compra por meio do telefone ou pela internet. Muito sabiamente o legislador previu as dificuldades enfrentadas pelos consumidores para uma decisão qualificada acerca do produto ou serviço adquirido. Tomemos o seguinte exemplo: um consumidor comparece a uma loja física e compra um tênis. É correto afirmar que ele terá a oportunidade de experimentar ou provar o produto para consolidar a decisão de compra através de uma perfeita avaliação das funcionalidades e da adequação do produto às suas necessidades. Entretanto, imagine que essa mesma compra tenha sido feita por meio de uma loja virtual, ou seja, via comércio eletrônico. Nessa nova situação, o consumidor terá apenas acesso à descrição e às fotos do tênis, não sendo possível provar o produto. Somente quando receber o produto em casa poderá avaliar a real condição dele frente à sua necessidade. Imagine que o consumidor perceba que o tênis não é suficientemente confortável para longas caminhadas, como pensava ao tê-lo avaliado por meio das fotos do website 127 INSTITUIÇÕES DE DIREITO do fornecedor. Em ocorrências como essa, é justo, na perspectiva do CDC, que o consumidor tenha a opção de se arrepender da compra e solicitar o desfazimento do negócio, com a devolução do produto ao lojista virtual e o recebimento de todos os valores pagos. Esse direito de solicitar o cancelamento da compra é justamente o direito de arrependimento, previsto no artigo 49 do CDC (Brasil, 1990b). Entretanto, algumas condições são impostas para o exercício do direito de arrependimento. São elas: • Após reflexão do consumidor, o pedido de desistência do negócio deve ocorrer dentro do prazo de 7 dias da assinatura do contrato ou do ato de recebimento do produto ou serviço. • O negócio deve obrigatoriamente ter ocorrido fora do estabelecimento comercial. Apesar de o caput do artigo 49 destacar o uso do telefone e as vendas domiciliares, é certo que incluem o comércio eletrônico, pois o CDC foi publicado em 1990, quando ainda não existia a internet, que, entretanto, se enquadra perfeitamente na condição “fora do estabelecimento comercial”. • O produto deve se apresentar em perfeitas condições, não denotando sinais de uso ou desgaste. Um ponto vital é que, para exercer o direito de arrependimento e desistir do contrato, o consumidor não é obrigado a apresentar nenhum motivo ou justificativa para o fornecedor. Basta comunicar a sua decisão de cancelamento da compra, desde que dentro do prazo estabelecido. Portanto, é muito importante que o consumidor se manifeste e documente a notificação ao fornecedor, por meio de telefone, e-mail, carta entregue pessoalmente, telegrama ou website do fornecedor. O parágrafo único do artigo 49 fixa que o consumidor deverá, exercendo o direito de arrependimento dentro do prazo legal, ser ressarcido de todos os valores pagos. Portanto, o custo de frete de entrega e retirada deve ser arcado exclusivamente pelo fornecedor, o que já foi reconhecido pelas Cortes Superiores. 6.7 Proteção contratual Cumpre esclarecer que, com relação aos contratos presentes nas relações de consumo, a lei determina que as cláusulas contratuais sejam interpretadas de maneira mais favorável ao consumidor. Por exemplo: a garantia contratual dada pelo fabricante de veículo, em que é determinada a vigência até os 50.000 km ou dois anos de uso, deve ser interpretada como tendo vigência até o fato que ocorrer por último (50.000 km ou dois anos). A seguir, vamos conhecer melhor algumas cláusulas. • Cláusulas abusivas: são cláusulas notoriamente desfavoráveis ao consumidor, parte mais fraca da relação. • Cláusulas exemplificativas: — Cláusula de não indenizar: é nula a cláusula que contenha óbice ao dever legal de indenizar. A proibição atinge qualquer cláusula que tenha por objetivo exonerar, impossibilitar ou atenuar a responsabilidade do fornecedor. 128 Unidade II — Cláusula de renúncia ou disposição de direitos. — Cláusula de limitação da indenização do consumidor.— Cláusula que impeça o reembolso da quantia paga pelo consumidor etc. • Compra e venda à prestação: seja de móveis, seja de imóveis, a lei veda cláusula que estipule a perda total dos valores pagos pelo consumidor em caso de resolução do contrato por inadimplência. É permitida, contudo, a estipulação de pena ao consumidor pelo inadimplemento contratual, desde que essa pena seja equitativa. • Contratos de adesão: são contratos cujas cláusulas tenham sido estabelecidas de forma unilateral e prévia pelo fornecedor, sem que o consumidor pudesse discutir ou modificar substancialmente seu conteúdo. Como o consumidor apenas adere ao contrato, ele recebe o nome de contrato de adesão. A lei não veda, mas estipula certas condições. A principal seria que as cláusulas limitativas de direitos do consumidor deverão ser regidas com destaque, permitindo imediata e fácil compreensão, e todo o escrito deverá ter redação clara e legível. Assim, nos contratos de adesão, o consumidor não tem liberdade para alterar nenhuma das cláusulas constantes do contrato, que já está pronto, sendo apresentado apenas para que ele o assine. Outra determinação importante com relação aos contratos de adesão é que o CDC declara nulas as cláusulas contratuais que prejudiquem o consumidor, mesmo que ele tenha assinado o contrato com plena consciência do seu conteúdo. Por fim, a legislação do consumidor adota o princípio da imprevisão a favor do consumidor, na qual os contratos pactuados entre consumidor e fornecedor continuam a fazer leis entre as partes contratantes, desde que as condições permaneçam como estavam por ocasião do acordo estipulado entre as partes. Dessa forma, é um direito básico do consumidor a modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações desproporcionais ou sua revisão em razão de fatos supervenientes que as tornem excessivamente onerosas ao consumidor. Finalmente, diante de todo o exposto, pode-se chegar a algumas regras que configuram direitos aos consumidores nas relações contratuais: • O consumidor somente estará obrigado ao cumprimento do contrato se tiver tido a oportunidade de conhecer previamente o conteúdo de suas cláusulas. • O consumidor somente estará obrigado ao cumprimento de uma determinada cláusula se sua redação não dificultar a compreensão do sentido dos direitos das partes. • As cláusulas contratuais serão sempre interpretadas da maneira mais favorável ao consumidor. 129 INSTITUIÇÕES DE DIREITO • O consumidor é a parte vulnerável numa relação contratual; assim, terá o privilégio de exigir a revisão de cláusulas contratuais se fatos supervenientes as tornarem excessivamente onerosas: — Se determinada cláusula contratual limitadora de direitos não for grafada em destaque, não obrigará o consumidor ao seu cumprimento. — Se os termos de determinada cláusula não forem claros, a ela não se obrigará o consumidor. — Se os caracteres de determinada cláusula contratual não forem ostensivos e legíveis, ela será inoperante contra o consumidor. 130 Unidade II Resumo O direito civil faz parte do direito privado. Por isso, regula os direitos e as obrigações no âmbito da vida privada das pessoas, ou seja, as formas de aquisição de direitos e obrigações, incluindo os seus bens (patrimônios) e as demais relações participantes da sociedade. O Código Civil de 1916 incorporou uma parte do que se conhecia por Código Comercial e que tratava do que hoje se conhece como direito de empresa. Entendemos, assim, a importância e a complexidade do direito civil para o regramento da vida em sociedade, cujos princípios, institutos e regras estão consolidados no Código Civil brasileiro. Negócio jurídico é uma relação jurídica que decorre da manifestação de vontade negocial das partes. Para ser considerado existente, válido e eficaz, ele segue os degraus da chamada escada ou escala ponteana. Segundo Duque (2007), o direito das obrigações é a principal fonte do direito contratual. A responsabilidade civil é a obrigação que pode determinar que uma pessoa repare o prejuízo causado a outra, por uma ação ou omissão dela, ou por fato de pessoas ou coisas que dela dependam. Existem dois tipos de responsabilidade civil: a contratual e a extracontratual (também chamada de responsabilidade aquiliana). Também pode ser classificada em relação ao sujeito, por meio de sua conduta ao analisar a culpa: responsabilidade civil subjetiva e responsabilidade civil objetiva. A responsabilidade pode ser cível e penal, alternativa ou cumulativamente, isto é, a configuração de uma não exclui a outra, bem como não implica necessariamente a outra. Quanto à reparação do dano, a responsabilidade pode ser cível, criminal e administrativa. Também uma não anula outra, tampouco uma acarreta necessariamente a outra. Como vimos, o Código de Defesa do Consumidor configura-se como um documento protecionista, que visa defender e proteger os interesses dos consumidores, tendo em vista a diferença entre o domínio técnico e o econômico. Toda relação de consumo é travada entre consumidores e fornecedores. O consumidor pode ser pessoa física ou jurídica; a principal característica é adquirir o produto, ou serviço, como destinatário final. O objetivo principal do código é garantir a dignidade do ser humano; dessa forma, o produto ou serviço deverá cumprir aquilo a que se propôs. 131 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Esse consumo deve ser consciente, e o mercado deve atuar obedecendo aos princípios da boa-fé, da transparência e do equilíbrio. Para garantir que esses objetivos sejam atendidos, além de todos os órgãos judiciais, foram criados vários órgãos administrativos, que são divididos por atividade e Estado da federação. 132 Unidade II Exercícios Questão 1. A empresa Suco Forte S/A é fabricante de suco de laranja para exportação e tem entre seus principais clientes empresas estrangeiras que adquirem grandes quantidades de produto para distribuição. Recentemente, uma das caldeiras da empresa explodiu, causando a morte de cinco funcionários. A empresa alegou que se tratava de um fato natural, que todos aqueles que utilizam caldeiras podem ter essa surpresa desagradável. No entanto, o Poder Judiciário entendeu que era devida indenização às famílias dos funcionários mortos. Em relação a esse entendimento, avalie as afirmativas. I – A lei civil determina que todo aquele que, por ato ilícito, causar prejuízo a outrem fica obrigado a reparar o dano. II – O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) determina que as crianças têm direto à proteção do Estado e precisa ser usada no caso em estudo. III – Equipamentos industriais não foram criados para explodir nem para causar prejuízos e, se isso acontece, alguma razão técnica tem que haver e, consequentemente, há responsabilidade daqueles que devem administrar o funcionamento do equipamento. É correto o que se afirma apenas em: A) I. B) II. C) III. D) I e II. E) I e III. Resposta correta: alternativa E. Análise das afirmativas I – Afirmativa correta. Justificativa: todas as pessoas naturais ou jurídicas que causarem prejuízo a outras ficam obrigadas a indenizar os danos, sejam eles materiais ou imateriais, como o dano moral, por exemplo. Se pessoas jurídicas causarem prejuízo a seus empregados, deverão indenizar todos os prejuízos causados, inclusive para familiares, em caso de óbito. 133 INSTITUIÇÕES DE DIREITO II – Afirmativa incorreta. Justificativa: o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) determina o que está colocado na afirmativa. No entanto, na situação em estudo, não há a necessidade da aplicação da lei, pois o Código Civil contém determinação expressa no sentido de ser obrigatória a indenização para todos aqueles que causarem danos a outrem, sejam adultos ou crianças. Assim, no caso tratado, se os funcionários mortos pelo acidente de trabalho tivessem filhos, eles seriam indenizados com fundamento no Código Civil, sem que fosse necessário aplicar o ECA. III – Afirmativacorreta. Justificativa: as empresas são obrigadas a colocar em funcionamento equipamentos que tenham segurança e que não causem danos a ninguém, sejam funcionários ou terceiros (como prestadores de serviços, por exemplo). Caso ocorra um acidente decorrente do mau funcionamento de uma máquina ou de um equipamento, o proprietário da empresa deverá arcar com os prejuízos decorrentes do acidente. Se for possível provar que o mau funcionamento decorreu de erro de fabricação ou de projeto, o proprietário poderá se ressarcir dos valores indenizados. Mas, em princípio, a obrigação de reparar os danos é do proprietário dos equipamentos que causaram esses danos. Questão 2. A loja Magazine Tenha Fé fez uma promoção de notebooks por um ótimo preço: basicamente a metade do valor final comercializado em outras lojas da região. Foram vendidas muitas unidades do produto, mas os consumidores, ao ligarem o equipamento e tentarem colocá-lo em uso, constataram que o notebook não tinha nenhum sistema operando. Ao retornarem à loja, os compradores foram surpreendidas com a informação de que, para o notebook funcionar, era preciso adquirir o sistema “Janelas”, que era oferecido pelo dobro do valor encontrado em outras lojas da região. Essa atitude da loja Magazine Tenha Fé caracteriza: A) Desrespeito ao direito de ser informado e venda casada. B) Desrespeito ao direito de ser informado. C) Desrespeito ao direito de arrependimento. D) Desrespeito ao direito de livre escolha. E) Desrespeito à livre-iniciativa do consumidor. Resposta correta: alternativa A. 134 Unidade II Análise das alternativas A) Alternativa correta. Justificativa: o consumidor tinha o direito de ser informado de que o notebook não continha nenhum sistema que viabilizasse a sua utilização e, principalmente, de que seria necessário comprar o sistema da própria loja, o que caracteriza a venda casada, que é vedada pelo Código de Proteção e Defesa do Consumidor. B) Alternativa incorreta. Justificativa: ocorreu o desrespeito ao direito de ser informado, mas não apenas isso: também houve a prática ilegal de venda casada, expressamente vedada pelo Código de Proteção e Defesa do Consumidor. C) Alternativa incorreta. Justificativa: no caso em estudo, não se aplica o direito de arrependimento previsto no Código de Proteção e Defesa do Consumidor, pois a transação foi realizada na loja, ou seja, pessoalmente, e não por meio remoto. D) Alternativa incorreta. Justificativa: não houve desrespeito ao direito de livre escolha, conforme se depreende do enunciado da questão. E) Alternativa incorreta. Justificativa: o consumidor não tem direito à livre-iniciativa, que é um fundamento da República Federativa do Brasil, garantido pelo artigo 1º da Constituição Federal para as pessoas naturais ou jurídicas que realizam atividades empresariais. 135 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Unidade III 7 DIREITO ADMINISTRATIVO 7.1 Noções introdutórias de direito administrativo O direito administrativo, corolário do direito de Estado, regula as relações ou os vínculos entre os particulares e a administração pública ou os poderes públicos, inclusive com sintética abordagem dos atos administrativos (espécie do gênero ato jurídico) e dos tipos de licitação (procedimentos) que, obrigatoriamente, antecedem os contratos administrativos. O direito administrativo é um ramo do direito público que estuda a administração pública. Segundo Führer e Milaré (2004, p. 110), “direito administrativo é o conjunto de normas que regem a administração pública”. Outra definição que merece destaque é a de Di Pietro (1991, p. 46): O direito administrativo como o ramo do direito público que tem por objeto os órgãos, agentes e pessoas jurídicas administrativas que integram a Administração Pública, a atividade jurídica não contenciosa que exerce e os bens de que se utiliza para a consecução de seus fins, de natureza pública. As disposições gerais da Seção I (art. 37 ao art. 38 da CF), Capítulo VII, Da Administração Pública (art. 37 ao art. 43 da CF), Título III, Da Organização do Estado (art. 18 ao art. 43 da CF), estatuem matéria de ordem principiológica regente da administração pública. Internamente, o Estado brasileiro se submete a esse conjunto de normas, as quais se dão como verdadeira garantia do administrado contra os desmandos dos administradores. Diferem das normas constitucionais porque não organizam propriamente o Estado, mas sim o modo de administração de cada um dos poderes da República. Assim, há um direito administrativo que vincula o executivo, o legislativo e o judiciário. Cada um desses poderes possui um representante que o exerce, no caso, respectivamente, no âmbito da União: o presidente, o Congresso Nacional – Senado e Câmara dos Deputados – e os Juízos Federais, os Tribunais Regionais Federais, o Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal. Cada uma desses poderes, entretanto, possui órgãos que necessitam de administração para que possam alcançar sua finalidade. Esta pode ser considerada a administração pública, em sua totalidade. O presidente, por exemplo, organiza a administração do país e do poder executivo distribuindo uma 136 Unidade III série de tarefas para seus ministros. Cada ministro, por sua vez, divide seu ministério em uma série de órgãos, cada qual com uma competência administrativa. O Congresso Nacional e os Tribunais de Justiça, por meio de seus regimentos internos, organizam-se administrativamente. A função da administração é típica do poder executivo, uma vez que é o chefe do executivo que efetivamente administra o território da Federação, dos Estados e dos Municípios. Isso, no entanto, não significa, como exposto, que os outros poderes não necessitem desempenhar uma administração interna, ou seja, seguir regras para a organização dos órgãos que a compõem. Vejamos um exemplo para ilustrar a questão. O poder executivo, em sua função de administrar, deve decidir como gastar o orçamento público com estradas; mas também deve decidir como se organizarão seus órgãos, como se dividirão ao longo do território e como serão abastecidos de materiais para operar (computadores, veículos etc.). O poder judiciário, ainda que tenha por função julgar, também precisa administrar seus órgãos (quando será necessário contratar mais servidores, como distribuir os Juízos pelas comarcas etc.). Tudo isso é competência administrativa interna do poder judiciário. Por último, o poder legislativo também necessita se organizar internamente, ainda que sua função primária seja legislar. Assim, para fazer leis, é preciso que cada parlamentar tenha assessores que os ajudem nas decisões acerca de votar a favor ou contra a sua promulgação. São necessários também instrumentos para a votação (cadeiras, mesas, matérias para os gabinetes etc.). Por administração ou administração pública pode-se entender tanto o sujeito de direito, pessoas jurídicas de direito público – o titular do interesse coletivo, público e indeterminado o sujeito, e inclusive a figura do sujeito coletivo sempre alcançam a noção de cidadão ou usuário do serviço público, que a reboque da Emenda Constitucional n. 19/1998 (Brasil, 1998) perpassa o conceito jurídico de consumidor, bem como de destinatário final da função ou do serviço –, quanto as funções e os serviços, compreendida a noção da perene oferta de serviço público e de funcionamento estatal, pois o titular da soberania é o povo. O art. 27 da Emenda traz a seguinte informação: “O Congresso Nacional, dentro de cento e vinte dias da promulgação desta Emenda, elaborará lei de defesa do usuário de serviços públicos”. Existe uma diferenciação entre os órgãos e as entidades da administração pública, que são os agentes que vão executar os atos em nome do Estado, para a manutenção da sociedade. É o que se chama de organização da administração pública. Isso porque o exercício da atividade administrativa pelos órgãos da própria pessoa política (União, Estados, Distrito Federal e Municípios)é realizado pela administração pública centralizada. Já os órgãos públicos são centros de competência instituídos para exercer a função administrativa; são partes integrantes da pessoa jurídica, razão pela qual não possuem personalidade jurídica. Para ficar mais claro, seguindo as lições de Costa (2013), a Lei n. 9.784/1999 (Brasil, 1999a), em seu art. 1º, § 2º, considera o órgão como a unidade de atuação integrante da estrutura da administração direta e da estrutura da administração indireta; a entidade, como a unidade de atuação dotada de personalidade jurídica; e, por fim, a autoridade, como o servidor ou agente público dotado de poder de decisão. Desse modo, órgãos que integram a estrutura de uma pessoa jurídica não possuem personalidade jurídica e patrimônio próprio e são resultado de desconcentração. 137 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Autarquia - serviço antônomo: Bacen, Anatel Empresa Pública - pessoa jurídica de direito privado (capital exclusivamente público) - BNDES e Correios Fundação Pública - PJ direito privado - IBGE Sociedade de economia mista - S/A de capital aberto + 50% das Ordinárias sejam do Estado União Estados Distrito Federal Municípios In di re ta Di re ta Figura 28 – Organização da Administração Pública Na figura anterior, o que nos parece mais importante destacar é a presença das sociedades de economia mista, que é disciplinada pelo Decreto-Lei n. 200/1967 (Brasil, 1967) e pelo Decreto-Lei n. 900/1969 (Brasil, 1969). No texto constitucional, o legislador faz referência à sociedade de economia mista para estabelecer que, quando for utilizada para explorar a atividade econômica, deve operar sob as mesmas normas aplicáveis às empresas privadas, inclusive quanto às obrigações trabalhistas e tributárias (art. 173, § 1º), e sujeitar o seu pessoal à proibição de acumulação de cargos, funções ou empregos (art. 37, XVII). Como instrumento de descentralização de atividades ou serviços públicos ou de interesse coletivo, a sociedade de economia mista pode ser instituída tanto pela União quanto pelos Estados-membros e Municípios. No entanto, como essas pessoas agem em nome do interesse público, ou seja, do interesse de toda a coletividade? A norma do art. 37 da CF (Brasil, 1988) elenca os princípios regentes da ordem constitucional administrativa que perpassa pela organização e pelo funcionamento dos poderes da República: Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte. I - os cargos, empregos e funções públicas são acessíveis aos brasileiros que preencham os requisitos estabelecidos em lei, assim como aos estrangeiros, na forma da lei; II - a investidura em cargo ou emprego público depende de aprovação prévia em concurso público de provas ou de provas e títulos, de acordo com a natureza e a complexidade do cargo ou emprego, na forma prevista em lei, ressalvadas as nomeações para cargo em comissão declarado em lei de livre nomeação e exoneração. 138 Unidade III Grande parte dos testes, das provas e dos concursos públicos exige a disciplina principiológica do art. 37 da Constituição. Mas como você poderia fazer para gravar os cinco princípios? Existe um método mnemônico de aprendizagem que pode ser utilizado nos princípios, conforme a figura a seguir: O agente público só pode fazer o que a legislação expressamente determinar Igualdade de tratamento entre todos os administrados com supremacia do interesse público Todos os atos devem ser publicados para que a população dele saiba e o controle O ato praticado é considerado ilegal quando não for moralmente aceitável Agir com presteza, perfeição, buscando sempre o melhor resultado com o menor custo Legalidade Impessoalidade Publicidade Moralidade Eficiência Figura 29 – Princípios constitucionais da administração pública A figura anterior é o famoso “LIMPE” da administração pública, com as principais características de cada princípio. Vamos nos aprofundar um pouco na matéria que rege a administração pública analisando cada princípio. Princípio da legalidade Diferentemente das relações privadas, em que os particulares podem fazer tudo o que a lei não proíbe, na administração pública só pode ser feito o que a lei prevê. Essa vinculação existe não apenas em relação à lei em si, mas também em relação ao ordenamento jurídico como um todo. Lembrete Ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei. A função dos atos administrativos é realizar o que preceitua a lei, sendo-lhes negada a inovação no ordenamento jurídico. Portanto, devem-se ater a estabelecer os meios para concretizar o determinado em lei. Eis a diferença entre o agente público e os particulares: enquanto o primeiro somente deve fazer o que a lei determina, o outro terá a liberdade de fazer tudo o que a lei não proibir. 139 INSTITUIÇÕES DE DIREITO É relevante o alerta feito por Amorim e Horvath (2011) de que não devemos confundir o princípio da legalidade com o princípio da reserva legal ou da legalidade específica; este decorre de cláusula constitucional que determina e indica quais as matérias que, pela sua natureza, só podem ser tratadas por lei formal, sendo vedada qualquer ingerência normativa do poder executivo, como a criação de tipo tributário, tipo penal etc. Princípio da impessoalidade Para Mello (2003), a impessoalidade traduz a ideia de que a administração deve tratar todos os administrados sem discriminações, benéficas ou detrimentosas. Nem favoritismo nem perseguições são toleráveis. Esse princípio tem o objetivo de impedir atuações geradas por antipatia, simpatia, vingança, represália, nepotismo e favorecimentos diversos, bastante comuns em licitações, concursos públicos e no exercício de poder de polícia. Princípio da moralidade Este princípio exige uma atuação ética da administração pública. Isso significa que o agente público deverá distinguir não só o ato legal do ilegal, mas também o honesto do desonesto. Assim, o agente público deverá atuar segundo padrões éticos de probidade, decoro e boa-fé (art. 2º, IV, da Lei n. 9.784/1999). O princípio da moralidade administrativa corresponde à perquirição da validade da motivação ou fundamentação do ato e, pois, viabiliza o reexame judicial de mérito de ato administrativo, mormente por vício de legalidade, compreendido o aviltamento da finalidade do ato; assim, diz respeito ao cotejo entre atividade fim da administração e do exercício da ascendência disciplinar administrativo sancionatória. Qualquer que seja o prisma de análise, a pauta da moralidade administrativa recai sobre a matéria de vício de substância ou de finalidade, bem como de vício de forma, matéria de desvio de objeto, desvio de poder e desvio de finalidade, alcançando, portanto, toda a pauta de convalidação e de efeitos residuais do nulo (por exemplo, a conversão de remuneração do particular que já adimpliu sua prestação de serviços à administração pública, ocorrida por meio de contratação nula, em indenização). Um exemplo de moralidade é o recebimento de auxílio-moradia por um casal de servidores públicos do poder judiciário. Suponha que ambos recebam auxílio-moradia, o STF liberou esse auxílio para qualquer juiz que não tenha à disposição um imóvel funcional, pago pelo poder público. Na sua opinião, é moral a atuação desses servidores? Podemos dizer que é legal, porque ambos são servidores e teriam direito à percepção do benefício. Exemplo de aplicação Um dos mais corriqueiros exemplos de violação ao princípio da impessoalidade ocorre quando um agente político utiliza os recursos públicos para se promover. O juiz Emílio Migliano Neto, da 7ª Vara da Fazenda Pública do Estado de São Paulo, concedeu um pedido liminar interposto pela codeputada Paula Aparecida, da Bancada Ativista composta por membrosdo PSOL, 140 Unidade III que solicitava a suspensão imediata dos trabalhos de pintura em prédios de escolas públicas da rede paulista de azul e amarelo, cores associadas ao partido do governador João Dória, do PSDB (Vieira, 2019). Em nota, a codeputada afirmou que o projeto “Escola + Bonita” fazia propaganda ilegal e uso do direito público para benefício próprio, sendo que a escola pública não pode ser usada como propaganda eleitoral, pois “é da população de São Paulo, não de um governador ou de um partido específico”. No despacho, o magistrado disse que o projeto violou os princípios da moralidade e da impessoalidade ao utilizar cores específicas idênticas ao grupo político de Dória. O Ministério Público teve o mesmo posicionamento. Recorde-se que ser um cidadão e universitário representa um desejo de mudança e cuidado com o uso dos recursos públicos, para transformar nosso meio em um espaço digno e justo para todos. Agora, reflita: você já percebeu alguma violação ao princípio da impessoalidade ou da moralidade administrativa? Princípio da publicidade O princípio da publicidade refere-se ao dever administrativo de manter plena transparência em seus comportamentos. O sigilo só é admitido quando for imprescindível à segurança do Estado e da sociedade, nos casos de segurança nacional e de intimidade e privacidade. Os atos da administração pública devem ser exibidos em público. Impõe-se a transparência na atividade administrativa justamente para que os administrados avaliem se ela está sendo bem ou mal conduzida. É importante destacar que os atos administrativos devem ser motivados e que o administrador público tem o dever de ser eficiente e de prestar contas. Princípio da eficiência O princípio constitucional da eficiência exige que o agente público exerça a atividade administrativa com presteza, perfeição e com rendimento funcional. Essa eficiência deverá atingir não só os agentes públicos, mas também a própria administração pública. Os agentes devem atuar da melhor forma possível, na busca dos melhores resultados. Já a administração deverá estruturar de forma racional sua organização, de modo a atingir os melhores resultados a um menor custo possível. Vejamos os elementos de uma política fiscal efetiva de uso dos recursos públicos: Aumentar receitas: por meio de uma reforma tributária que permita ao Estado arrecadar mais Diminuir despesas: por meio de uma reforma administrativa que possibilite a redução de gastos do governo, assim como uma política monetária de juros mais baixos Figura 30 141 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Lembre-se de que o aumento das receitas não envolve necessariamente o aumento de alíquotas, bases de cálculos ou criação de novos tributos. O que se defende nas ações públicas é a concentração de esforços para aumentar a arrecadação por meio do aumento da quantidade de fatos geradores. Por exemplo: quanto mais renda você aferir, mais imposto de renda você deverá pagar. A diminuição das despesas é matéria corrente e necessária, que envolve aspectos de economia e gestão. Findos os princípios e suas exemplificações, traz-se ao estudo uma questão importante. Por ser o povo soberano e também o destinatário final dos serviços públicos, chegamos à seguinte conclusão: a oferta de serviço essencial, como o serviço médico-hospitalar, deve ser universal, além de contínuo e ininterrupto. Isso porque, em matéria de saúde, o binômio eficácia-vigência e toda a concepção do princípio da eficiência sedem lugar ao princípio da resolutividade, dada a prevalência do bem da vida tutelado, ou seja, a própria vida humana sob tutela da administração. Assim, no conceito de destinatário da função e do serviço públicos, a ação estatal alcança não apenas o cidadão brasileiro (titular da soberania), mas o estrangeiro em solo nacional. Eis que a oferta de serviço essencial médico-hospitalar é universal e de demanda incontenível (prevalência do princípio da resolutividade). Há outras situações nas quais mesmo o estrangeiro em solo nacional se considera destinatário final da administração pública, como é o caso do estrangeiro encarcerado em solo pátrio. Dado o fundamento ético do direito, o conceito de destinatário final da administração pública, incluídos sua função e seu serviço, ultrapassa a questão da soberania como critério definidor da situação jurídica do sujeito destinatário final. Observação A LINDB, por versar sobre a teoria geral do direito, alcança a matéria de direito público. Logo, toda a legislação de direito administrativo também respeitará as disposições da LINDB. Como você percebeu, as ações da administração pública servem para atender às necessidades públicas. Em outras palavras, todos os recursos arrecadados por meio de esforços da coletividade (tributos ou não) devem atender a uma finalidade pública. Para atender às necessidades da coletividade, são necessárias pessoas, e essas pessoas são os servidores públicos em sentido amplo, ou seja, estão à serviço do público, da sociedade. O art. 38 da CF (Brasil, 1988), integrante da mesma seção de Disposições Gerais, disciplina a situação de servidor público no exercício do mandato eletivo: norma cuja principiologia, assim como toda matéria de funcionalismo público, remonta ao art. 37 da CF. Observe a figura 31, que mostra as diferenças existentes entre as espécies no funcionalismo público. 142 Unidade III Servidores públicos: todos aqueles que mantêm com o Poder Público relação de trabalho, de natureza profissional e caráter não eventual, sob o vínculo de dependência Agentes públicos: todas as pessoas físicas ou jurídicas que, sob qualquer liame jurídico e, algumas vezes, sem ele, prestam serviços à administração pública Agentes políticos: presidente e vice, governadores e vices, ministros de Estado Figura 31 Os agentes públicos, os servidores no sentido estrito e os agentes políticos devem se preocupar em praticar atos administrativos que sirvam, de algum modo, ao interesse público. 7.2 Atos administrativos Os atos administrativos têm presunção de legitimidade, exigibilidade e executoriedade; portanto, vão afetar toda a coletividade. Meirelles (1998, p. 131) define ato administrativo como: [...] toda manifestação unilateral da vontade da administração pública que, agindo nessa qualidade, tenha por fim imediato adquirir, resguardar, transferir, modificar, extinguir e declarar direitos, ou impor obrigações aos administrados ou a si própria. Recorde-se que a legalidade na administração não resume a ausência de proibição da lei, mas sim a autorização desta, como condição de sua validade. A legalidade deve ser entendida como estar de acordo com a lei. Para melhor compreender, aos particulares é permitido tudo o que não é vedado pela lei; já à administração pública somente é permitido agir em absoluta harmonia com a lei. Assim, a administração e os seus agentes devem agir em conformidade com princípios éticos. A violação indica também a violação do direito, configurando a ilicitude. É necessário que, no exercício da atividade administrativa, sejam aplicados os princípios da boa-fé e da lealdade. A improbidade administrativa é considerada crime de responsabilidade. Para os servidores públicos, os atos dessa espécie “importarão a suspensão dos direitos políticos, a perda de função pública, a indisponibilidade dos bens e o ressarcimento ao erário, na forma e gradação previstas em lei, sem prejuízo da ação penal cabível”, conforme art. 37, § 4º, da CF (Brasil, 1988). 143 INSTITUIÇÕES DE DIREITO É importante notar que, no tocante ao interesse público, pode-se dizer que a administração pública não tem poderes, mas sim deveres-poderes, uma vez que deve cumprir a finalidade que lhe é determinada. Tem função e dever de buscar o interesse da coletividade; não tem autonomia da vontade nem liberdade, tampouco autodeterminação da finalidade a ser buscada, já que todas seriam características do direito privado. Essas finalidades devemser alcançadas de maneira proporcional, sem que haja abuso de poder, seja ele com meios desproporcionais, seja sem atingir a finalidade determinada. 7.2.1 Atributos e requisitos Como já sabemos, para praticar qualquer ato, é necessário que haja um sujeito ativo, ou seja, que realiza a conduta administrativa tendente a obter a satisfação de uma necessidade pública, com vistas a atender ao interesse público. O sujeito ativo do ato administrativo é o Estado, ou quem lhe faça as vezes. São três os atributos ou características do ato administrativo: presunção de legitimidade, imperatividade e autoexecutoriedade. A presunção de legitimidade é aquela que alcança os atos administrativos e é caracterizada por ser do tipo relativa, ou seja, presume-se. Isso significa dizer que a legitimidade dos atos administrativos, embora se presuma legítima, admite prova em contrário. Compete a quem se sentir prejudicado fazer prova de que o ato administrativo é eivado de vícios, ou seja, questionar a licitude do ato. Até que seja feita prova em contrário, o ato administrativo projeta efeitos, é eficaz. De acordo com Amorim e Horvath (2011), é devido a essa presunção que a partir de sua edição o ato administrativo já pode produzir efeitos, não tendo de aguardar prazo para eventuais questionamentos sobre sua licitude. Lembrete O ônus da prova compete a quem o alegar. Como o ato administrativo praticado é presumidamente lícito, o questionamento judicial acerca de legalidade acarreta inversão do ônus probatório da ilicitude do ato; ou seja, mesmo que tenha sido praticado ao arrepio das previsões legais, cabe ao interessado provar que o ato é ilícito. Imperatividade, para Amorim e Horvath (2011), é o atributo do ato administrativo que impõe a coercibilidade para seu cumprimento ou execução. A imperatividade é indispensável aos atos administrativos, como forma de a administração atingir sua finalidade, qual seja, a satisfação do interesse público. Cabe destacar que nem todos os atos administrativos são imperativos, como os enunciativos negociais, que dependem da vontade do particular na sua utilização. Alguns exemplos são o ato de nomeação e a permissão de uso. Os atos cujo conteúdo seja uma ordem, um provimento, pela sua própria natureza são imperativos e obrigam seus destinatários ao seu fiel cumprimento, sob pena de sanção, a ser aplicada pelo próprio poder público. 144 Unidade III Autoexecutoriedade, segundo Amorim e Horvath (2011), é o atributo de alguns atos administrativos informar que a administração pública pode autoexecutar as sanções por ela impostas aos administrados. É um princípio que tem sido objeto de muita polêmica, mormente após a CF de 1988, que, no art. 5º, LV, assegura o contraditório e a ampla defesa nos processos administrativos e judiciais. A nosso ver, o asseguramento da ampla defesa e do contraditório não é incompatível com a autoexecutoriedade dos atos administrativos. Entre os atos administrativos que gozam da autoexecutoriedade, podemos citar os praticados no exercício do poder de polícia. Você sabe o que é o poder de polícia da administração? Trata-se de atividade estatal que limita o exercício dos direitos individuais em prol do interesse coletivo. Vejamos o seu conceito legal no artigo 78 do Código Tributário Nacional (Brasil, 1996): Art. 78. Considera-se poder de polícia a atividade da administração pública que, limitando ou disciplinando direito, interesse ou liberdade, regula a prática de ato ou abstenção de fato, em razão de interesse público concernente à segurança, à higiene, à ordem, aos costumes, à disciplina da produção e do mercado, ao exercício de atividades econômicas dependentes de concessão ou autorização do Poder Público, à tranquilidade pública ou ao respeito à propriedade e aos direitos individuais ou coletivos. Di Pietro (1991) ensina que o poder da administração pública é limitado no âmbito de dois aspectos opostos: a autoridade da administração pública e a liberdade individual. Do desfecho desse antagonismo jurídico decorre que o princípio da predominância do interesse público sobre o particular é o fundamento do poder de polícia, pois dele se revela a posição de supremacia da administração sobre os administrados. Em relação à autoexecutoriedade dos atos administrativos, Meirelles (1998) afirmou que tem entendimento mais amplo, ao considerar que a administração pública só deve socorrer-se do poder judiciário em casos excepcionais, cabendo ao administrado que se sentir lesado reclamar e buscar a reparação da eventual lesão junto ao poder judiciário. Requisito nada mais é do que uma condição para alcançar determinado fim. Os requisitos do ato administrativo são diversos: agente capaz; objeto lícito; forma prescrita ou não proibida; legalidade; moralidade; finalidade de atender ao interesse público e aos objetivos da lei; publicidade; competência do agente e motivação dada pela lei ou justificada pelo agente. A capacidade ou requisito do agente capaz é uma condição para que se pratique determinado ato em nome do poder público. Essa atribuição ou competência é dada por lei para a prática de certos atos jurídicos em nome da administração pública. Não é competente quem quer, mas quem a lei determina. A competência administrativa não é dada às pessoas físicas, e sim aos sujeitos integrantes da administração pública. 145 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Os atos administrativos hão de buscar, conforme os ensinamentos de Amorim e Horvath (2011), sempre a satisfação do interesse público, ou seja, o interesse coletivo. Essa é a razão jurídica pela qual o ato se encontra abstratamente previsto no sistema jurídico. O não cumprimento da finalidade do ato administrativo acarreta o vício denominado desvio de finalidade, que nada mais é que a distorção entre o ato previsto abstratamente e o ato efetivamente praticado. Leciona Mello (2003) acerca da motivação dos atos administrativos: Parece-nos que a exigência de motivação dos atos administrativos contemporânea à prática do ato, ou pelo menos anterior a ela, há de ser tida como uma regra geral, pois os agentes administrativos não são “donos” da coisa pública, mas simples gestores de interesses de toda coletividade, esta, sim, senhora de tais interesses, visto que, nos termos da Constituição, “todo poder emana do povo” (art. 1º, parágrafo único). São poderes e deveres do administrador público: • Dever de eficiência. • Dever de probidade. • Dever de prestar contas. • Poder-dever de agir. 7.2.2 Atos administrativos vinculados e discricionários Os atos administrativos podem ser vinculados ou discricionários. No primeiro, o poder público deve praticar nos estreitos limites determinados pela lei; no segundo, há uma certa liberdade para sua decisão: Atos vinculados seriam aqueles em que, por existir prévia e objetiva tipificação legal do único possível comportamento da Administração em face de situação igualmente em termos de objetividade absoluta, a Administração ao expedi-los não interfere com apreciação subjetiva alguma. Atos discricionários, pelo contrário, seriam os que a Administração pratica com certa margem de liberdade de avaliação ou de decisão segundo critérios de conveniência e oportunidade formulados por ela mesma, ainda que adstrita à lei reguladora da expedição deles (Mello, 1995, p. 229). Como síntese dos nossos estudos, o quadro 7 elucida os atos administrativos e os poderes e deveres do administrador público. 146 Unidade III Quadro 7 Atributos do ato administrativo Imperatividade Presunção de legitimidade Autoexecutoriedade Requisitos do ato administrativo Agente capaz Objeto lícito Forma prescrita ou não defesa em lei Legalidade Moralidade Finalidade de atender ao interesse público e aos objetivos da lei Publicidade Competência do agente Motivação dada pela lei ou justificada pelo agente Poderes e deveres do administrador público Dever de eficiência Dever de probidade Dever de prestar contas Poder-deverde agir Fonte: Führer e Milaré (2004, p. 111). 7.3 Contratos administrativos Pode-se considerar como contrato administrativo todo e qualquer ajuste entre órgãos ou entidades da Administração Pública e particulares. Nesse contrato é necessário que haja um acordo de vontade para que se forme um vínculo e a estipulação de obrigações recíprocas. Releva destacar que, ainda que a Administração não chame o contrato administrativo de contrato, ele ainda assim será, na prática, um contrato. Quer um exemplo? Quando a Administração envia uma nota de empenho para um fornecedor que já está previamente cadastrado, licitado e escolhido para efetuar o fornecimento de um bem ou serviço, temos um contrato administrativo. Desse modo, seja qual for a denominação utilizada, haverá um contrato. Você já sabe que os contratos são, no mínimo, bilaterais, ou seja, existem partes contratantes, cada qual com direitos e obrigações. No caso dos contratos administrativos, em uma das partes sempre vai figurar o Estado, e na outra o particular. Quando você decide adquirir algo ou construir a sua casa, você deve, em respeito ao seu dinheiro, fazer diversas cotações e buscar no mercado condições favoráveis de negociação, prazo e qualidade. O mesmo raciocínio vale para a administração pública; a diferença é que o dinheiro não é só seu, mas decorre do esforço de toda a coletividade. 147 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Percebe-se aí a responsabilidade do agente público quando vai utilizar o dinheiro que não é seu, mas de todos. Por isso, o legislador determinou expressamente que todos os contratos devem ser precedidos de licitação, ainda que existam cláusulas nos contratos que desequilibrem a relação (em favor da coletividade, nunca do particular). A essas cláusulas, chamamos de cláusulas leoninas, em direito civil, ou cláusulas exorbitantes, em direito administrativo. Para Nohara (2017), “exorbitante” (do latim, exorbitare) designa algo que exorbita ou sai da órbita. Cláusulas exorbitantes são aquelas que seriam anormais se apostas em contratos privados, mas que fazem parte dos contratos administrativos, haja vista os interesses perseguidos. Não são cláusulas leoninas propriamente ditas, pois, enquanto estas preveem desequilíbrios na comutatividade da avença, as cláusulas exorbitantes resguardam ao particular o equilíbrio contratual, uma vez que a parte econômico-financeira do contrato não é alterada sem a autorização do contratado. São exemplos de cláusulas exorbitantes: a possibilidade de alteração unilateral do contrato pela administração, sua rescisão unilateral, a fiscalização do contrato, a possibilidade de aplicação de penalidades por inexecução e a ocupação (na hipótese de rescisão contratual). Também se costuma denominar de cláusula exorbitante a limitação à oposição da exceptio non adimpleti contractus nos contratos administrativos. Assim, os contratos administrativos devem ser sempre cumpridos pelo particular. Nessa queda de braços, quem vence é sempre o Estado, pois ele representa a coletividade. Figura 32 Disponível em: https://tinyurl.com/32yk8r5w. Acesso em: 11 nov. 2025. As cláusulas exorbitantes nos contratos administrativos também são um claro exemplo de supremacia do interesse público. Elas provocam o desnivelamento da relação contratual, tornam a bilateralidade quase uma unilateralidade em favor da administração, em razão da desigualdade jurídica que a cerca. Obviamente, os particulares sabem disso e estão cientes de que, com a assinatura consensual do contrato administrativo, acham-se presos à supremacia do interesse público sobre o privado, traduzida nas cláusulas exorbitantes. 148 Unidade III Quando você é um particular, você decide quando se inicia e quando acaba um contrato de prestação de serviços contínuos. Existem contratos que são vigentes por tempo indeterminado, como a contratação por terceirização de uma empresa de limpeza para o seu estabelecimento comercial. No entanto, não se admite o contrato administrativo com prazo indeterminado com a administração. Logo, todos os contratos dessa natureza devem ter prazo de duração expressamente previsto, nos termos do art. 57, § 3º, da Lei n. 8.666/1993 (Brasil, 1993a). Em regra, os contratos administrativos possuem prazo de duração limitado aos créditos orçamentários, que, como você já sabe, têm duração de um ano, em razão do período de vigência da LOA. Contudo, constata-se que esse prazo poderá ser prorrogado em alguns casos específicos, como o de projetos cujos produtos estejam contemplados nas metas estabelecidas no PPA, os quais poderão ser prorrogados se houver interesse da administração e desde que isso tenha sido previsto no ato convocatório. Lembrete O PPA prevê as metas da administração pelo período de quatro anos. Outra hipótese é a da prestação de serviços a serem executados de forma contínua, como os de limpeza, guarda, segurança e vigilância, que não caracterizam a atividade-fim do Estado e que poderão ter a sua duração prorrogada por iguais e sucessivos períodos, com vistas à obtenção de preços e condições mais vantajosas para a administração, limitada a sessenta meses, ou seja, cinco anos. 7.4 Licitações A CF, ao disciplinar a administração pública no art. 37, XXI, determinou que as compras fossem precedidas de licitação: Ressalvados os casos especificados na legislação, as obras, serviços, compras e alienações serão contratados mediante processo de licitação pública que assegure igualdade de condições a todos os concorrentes, com cláusulas que estabeleçam obrigações de pagamento, mantidas as condições efetivas da proposta, nos termos da lei, a qual somente permitirá as exigências de qualificação técnica e econômica indispensáveis à garantia do cumprimento das obrigações (Brasil, 1988). Em lei complementar (Brasil, 1993b), o legislador determinou o conceito e a finalidade da licitação. Apresenta-se o art. 3º, que conceitua licitação: A licitação destina-se a garantir a observância do princípio constitucional da isonomia, a seleção da proposta mais vantajosa para a administração e a promoção do desenvolvimento nacional sustentável e será processada e julgada em estrita conformidade com os princípios básicos da legalidade, da impessoalidade, da moralidade, da igualdade, da publicidade, da probidade administrativa, da vinculação ao instrumento convocatório, do julgamento objetivo e dos que lhes são correlatos. 149 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Como você observou, os contratos administrativos sempre devem ser precedidos de licitação pública, que pode ser das seguintes modalidades, conforme a figura a seguir: Obrigatória para aquisição de bens e serviços comuns, cujo critério de julgamento poderá ser o de menor preço ou o de maior desconto Pregão Alienação de bens imóveis ou de bens móveis inservíveis ou legalmente apreendidos a quem oferecer o maior lanceLeilão Modalidade de licitação para contratação de bens e serviços especiais e de obras e serviços comuns e especiais de engenharia, cujo critério de julgamento poderá ser: Concorrência Escolha de trabalho técnico, científico ou artístico, cujo critério de julgamento será o de melhor técnica ou conteúdo artístico, e para concessão de prêmio ou remuneração ao vencedor Concurso Para contratação de obras, serviços e compras em que a Administração Pública realiza diálogos com licitantes previamente selecionados mediante critérios objetivos, com o intuito de desenvolver uma ou mais alternativas capazes de atender às suas necessidades, devendo os licitantes apresentar proposta final após o encerramento dos diálogos Diálogo competitivo d) maior retorno econômico c) técnica e preço a) menor preço b) melhor técnica ou conteúdo artístico e) maior desconto Figura 33 – Modalidades de licitação Existem situações em que a Administração Pública não pode ou não se mostra conveniente ao interesse público que se realizem licitações. Essas são chamadas de processos de contratação direta, quecontemplam duas hipóteses: a dispensa e a inexigibilidade de licitação. A dispensa de licitação acontece quando a licitação é possível, mas não atende ao interesse público em razão de alguma excepcionalidade, por exemplo, quando o valor for pequeno, inferior a R$ 125.451,15 (cento e vinte e cinco mil quatrocentos e cinquenta e um reais e quinze centavos) para obras e serviços de engenharia ou de manutenção de automóveis e R$ 62.725,59 (sessenta e dois mil setecentos e vinte e cinco reais e cinquenta e nove centavos) para outras compras, conforme art. 75 da Lei n. 14.133/2021. Existem outras hipóteses, como licitação deserta, fracassada, coleta de recicláveis por associações ou cooperativa de pessoas físicas de baixa renda, suprimentos militares específicos etc. A licitação é inexigível quando a competição for inviável. Mas inviável para a lei significa que não há competição. Quer um exemplo? Imagine que um município necessite contratar um serviço de consultoria especializada para elaborar um plano de saneamento básico. Após uma pesquisa de mercado, constata-se 150 Unidade III que apenas uma empresa possui a expertise e o reconhecimento técnico necessários para a realização do serviço. Nesse caso, a licitação poderá ser considerada inexigível, desde que seja comprovada a singularidade do objeto e a inviabilidade de competição. É importante ressaltar que tanto a dispensa quanto a inexigibilidade de licitação devem ser devidamente justificadas e comprovadas pela administração pública, sob pena de responsabilização dos agentes envolvidos. O objeto da licitação será adjudicado ao apresentador da melhor proposta, dentro dos critérios fixados. Após o julgamento de eventuais recursos, a adjudicação feita pela Comissão de Licitação será homologada pela autoridade administrativa superior, tornando-se, então, definitiva. Destaque Em 1º de abril de 2021, foi promulgada a Lei 14.133/2021 que alterou substancialmente os ditames licitatórios na conhecida Lei de Licitações e Contratos Administrativos. Tais alterações podem ser vistas a seguir. 1. Conceito: licitação é o procedimento administrativo pelo qual um ente público, no exercício da função administrativa, abre a todos os interessados que se sujeitem às condições fixadas no instrumento convocatório a possibilidade de formularem propostas, dentre as quais selecionará e aceitará a mais conveniente para a celebração de contrato. 2. Direito positivo: (i) CF: art. 22, XXVII, (competência privativa da União para dispor sobre normas gerais de licitação); arts. 37, XXI, e 173, § 1º, III; (ii) legislação ordinária: Lei n. 8.666/1993 (lei básica de licitação, que não se limitou às normas gerais); Lei n. 10.520/2002 (pregão); Lei Complementar n. 123/2006 (Estatuto da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte, estendida às Cooperativas pela Lei n. 11.488/2007, art. 34); Lei n. 12.462/2011 (Regime Diferenciado de Contratação - RDC); Lei n. 8.987/1995 (concessão e permissão e serviço público); Lei n. 11.079/2004 (parcerias público-privadas - PPP); outras leis sobre serviços públicos específicos; Lei n. 14.133/2021 (que revoga, no art. 193, inciso II, a Lei n. 8.666/1993, a Lei n. 10.520/2002 e os arts. 1º a 47-A da Lei n. 12.462/2011), vigência da legislação revogada até 30 de dezembro de 2023, conforme Lei Complementar n. 198/2023. 3. Licitação na Lei n. 14.133/2021. 4. Regime jurídico: repetição de normas da Lei n. 8.666/1993, inspiração na Lei do Pregão e na Lei do RDC. 5. Âmbito de aplicação: entidades da administração indireta, com exclusão das empresas públicas, sociedades de economia mista e suas subsidiárias (art. 1º). 151 INSTITUIÇÕES DE DIREITO 6. Tipos de contratos a que se aplica: alienação e concessão de direito real de uso de bens, compras, locação, concessão e permissão de uso de bens públicos, prestação de serviços, obras e serviços de arquitetura e engenharia, contratação e tecnologia da informação e da comunicação (art. 2º). 7. Princípios: legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade, eficiência, interesse público, probidade administrativa, igualdade, planejamento, transparência, eficácia, segregação de funções, motivação, vinculação ao edital, julgamento objetivo, segurança jurídica, razoabilidade, competitividade, proporcionalidade, celeridade, economicidade, desenvolvimento nacional sustentável e mais as disposições da LINDB (art. 5º da Lei n. 14.133/2021). 8. Agente de contratação: faz o papel da comissão de licitação a que se referia a Lei n. 8.666/1993 (arts. 6º, LX, e 8º). Decreto n. 11.246/2022: regulamenta o disposto no § 3º do art. 8º da Lei n. 14.133/2021, sobre atuação do agente de contratação e da equipe de apoio. 9. Comissão de contratação: responsável pelo procedimento nas licitações que envolvam bens ou serviços especiais (arts. 6º, L, e 8º, §§). 10. Defesa das autoridades e agentes públicos participantes da licitação: possibilidade de representação judicial ou extrajudicial pela advocacia pública quando o ato foi praticado com base em orientação constante de parecer jurídico emitido na forma do § 1º do art. 53 (art. 10). 11. Objetivos da licitação: a) escolha da proposta mais vantajosa; b) garantir a isonomia e a justa competição; c) evitar sobrepreço, preços manifestamente inexequíveis e superfaturamento; d) incentivar a inovação e o desenvolvimento nacional sustentável (art. 11). 12. Exigências formais para o processo licitatório (art. 12). 13. Publicidade do procedimento com sigilo das propostas (até a abertura dos envelopes) e possibilidade de sigilo do orçamento estimado da contratação (arts. 13 e 24). 14. Vedações à participação em licitação ou na execução do contrato (art. 14): participação de empresas em consórcio (art. 15); participação de profissionais organizados em cooperativa (requisitos fixados pelo art. 16). 15. Modalidades de licitação (art. 28, sem inclusão da tomada de preços e do convite), com vedação de criação de outras modalidades ou combinação entre elas (§ 2º): a) pregão (art. 6º XLI): — modalidade obrigatória para aquisição de bens e serviços comuns; 152 Unidade III — critérios de julgamento: menor preço ou maior desconto; — procedimento: igual ao da concorrência (art. 17). b) concorrência (art. 6º, XXXVIII): — modalidade cabível para contratação de bens e serviços especiais e de obras e serviços comuns e especiais de engenharia; — critérios de julgamento: b.1) menor preço; b.2) melhor técnica ou conteúdo artístico; b.3) técnica e preço; b.4) maior retorno econômico; b.5) maior desconto. — procedimento: art. 17. c) concurso (art. 6º, XXXIX): — modalidade para escolha de trabalho técnico, científico ou artístico; — critério de julgamento: melhor técnica ou conteúdo artístico; — procedimento: o previsto no edital; — cessão, à Administração, dos direitos patrimoniais relativos ao projeto (art. 93). d) leilão (art. 6º, XL): — modalidade cabível para alienação de bens imóveis ou de bens móveis inservíveis ou legalmente apreendidos; — critério de julgamento: o de maior lance; — procedimento: art. 31; realização por servidor designado pela Administração ou leiloeiro oficial; — leilão eletrônico regulamentado pelo Decreto n. 11.461/2023; 153 INSTITUIÇÕES DE DIREITO e) diálogo competitivo (art. 6º, XLII): — modalidade para contratação de obras, serviços e compras em que a Administração Pública realiza diálogos com licitantes previamente selecionados mediante critérios objetivos, com o intuito de desenvolver uma ou mais alternativas capazes de atender às suas necessidades, devendo os licitantes apresentar proposta final após o encerramento dos diálogos. — critérios objetivos de julgamento (não definidos na lei); — hipóteses de cabimento: art. 32; — condução por comissão constituída de, pelo menos, três servidores, podendo ser contratados profissionais para assessoramento técnico; — procedimento (art. 32, § 1º), com as seguintes fases: (i) divulgação do edital; (ii) apresentaçãode soluções pelos licitantes; (iii) fase de diálogo; (iv) divulgação da solução ou soluções; (iv) fase competitiva; (v) apresentação de propostas; (vi) definição da proposta vencedora. Adaptado de: Di Pietro (2025, p. 442-443). 8 DIREITO DE EMPRESA 8.1 Noções introdutórias de direito de empresa Situado o direito da empresa em relação ao direito civil e, pois, em vista do direito privado, o que se pretende neste tópico é uma análise dos tipos de sociedade existentes no direito brasileiro, com abordagem dos requisitos de cada tipo societário e as responsabilidades deles decorrentes, bem como as suas formas de extinção, fusão, dissolução e transformação. Veremos a classificação das sociedades entre empresárias e empresário individual, antes de classificar as sociedades empresárias, uma vez que essas distinções pertencem à teoria da empresa, ao passo que a forma de constituição empresarial, os agentes que representam a sociedade e a classificação (responsabilidade limitada e ilimitada) pertencem ao direito societário. Para encerrar nossos estudos, conforme já alertado, será apresentada a divisão do direito empresarial, que traz a reorganização e a extinção da personalidade jurídica. Para melhor compreensão, observe a figura 34. 154 Unidade III Agentes societáriosSociedade empresária Dissolução Classificação das sociedades Sociedades (personificação)Empresário individual Transformação Teoria geral do direito societário Teoria da empresa Reorganização e extinção Figura 34 – Organização do direito empresarial 8.2 Origem e evolução histórica do direito comercial O comércio surgiu das tecnologias desenvolvidas pelo ser humano. A partir do momento que o homem aprendeu a dominar o meio pelas técnicas de agricultura ou domesticação dos animais, por exemplo, ele passou a ter mais do que aquilo que efetivamente necessitava para viver. Como você dever recordar das suas lições preliminares de história, o homem retirava da terra tudo o que precisava para sobreviver e, ao dominar as técnicas de plantio e criação dos animais, passou a produzir excedentes. No entanto, esses excedentes nem sempre atendiam a todas suas necessidades, e, portanto, os povoados trocavam-nos uns com os outros. Rodrigues (2016) narra que, com o crescimento das comunidades e sua transformação em vilas e, posteriormente, em cidades, houve a substituição gradual do escambo pela troca monetária. Criaram-se as primeiras moedas, mas surgiu outra dificuldade: para cada lugar, a moeda tinha um significado diferente. Para uma nação, o que representava valor era o marfim; para outra, era o sal; para uma, era o casco da tartaruga; para outra, os búzios, e assim por diante. A autora cita uma interessante passagem acerca do início das trocas e da necessidade de um denominador comum, a moeda: O tenente Cameron em sua viagem pela África (1884) narra como se arranjou para obter uma barca: “O homem de Said queria ser pago em marfim e eu não o tinha. Dei, então, a Ibn Guerib o equivalente em fios de cobre; este me deu em troca pano, que passei a Ibn Selib; este enfim, entregou a importância em marfim ao agente de Said; e eu obtive a barca” (Baccarin; Silva, 1982, p. 46 apud Rodrigues, 2016, p. 9). Na Idade Média, começou a se cristalizar o direito comercial, em razão das primeiras normas e regras que traduziam as práticas existentes no comércio. O professor Rubens Requião (2003) ensinou que na Idade Média também havia discussão e necessidade de temperança nas relações comerciais, 155 INSTITUIÇÕES DE DIREITO pois o direito comercial não possuía regras corporativas, sobretudo dos assentos jurisprudenciais das decisões dos cônsules, juízes designados pela corporação, para em seu âmbito dirimirem as disputas entre comerciantes. Assim: Diante da precariedade do direito comum para assegurar e garantir as relações comerciais, fora do formalismo que o direito romano remanescente impunha, foi necessário, de fato, que os comerciantes organizados criassem entre si um direito costumeiro, aplicado internamente na corporação por juízes eleitos pelas suas assembleias: era o juízo consular, ao qual tanto deve a sistematização das regras do mercado (Requião, 2003, p. 10-11). Os últimos duzentos anos foram marcados por uma multiplicação exponencial da riqueza mundial graças às empresas, organizações humanas que combinam eficientemente os fatores de produção de forma sinérgica e sistêmica para produzir e fazer circular bens e serviços, exatamente o objeto deste tópico. Sempre existiram formas de trabalho organizadas e dirigidas. Porém, a acumulação de capital, a invenção de máquinas de produção em série e a expansão dos mercados pós-revolução industrial provocaram um desenvolvimento da atividade empresarial em dimensões largas, o que até poderia ser desejado, mas nunca previsto naquela ocasião. Saiba mais A história do filme a seguir, escrita por William Shakespeare, retrata uma trama que envolve a prática do comércio e apresenta um julgamento realizado pelo cônsul, além de um romance com um final surpreendente. Vale a pena assistir: O MERCADOR de Veneza. Direção: Michael Radford. Itália; Reino Unido; Luxemburgo: Avenue P, 2004. 138 min. No Brasil, o direito comercial é organizado e sistematizado juridicamente desde 1850. Até o ano de 2002, ele era regido pela teoria dos atos de comércio. Genericamente, o termo “teoria” remente à explicação. Pois é bem isso que faz a teoria dos atos de comércio. A teoria dos atos de comércio forneceu elementos para identificar quem eram os sujeitos das regras de direito comercial. Para quem elas serviam? Como funcionava o sistema que definia quem eram os comerciantes? O próprio nome dá a dica: para se sujeitar ao direito comercial, a pessoa deveria praticar algum dos atos de comércio. Temos, aí, a figura do comerciante, que era quem praticava algum dos atos de comércio. O Decreto n. 737/1850 (Brasil, 1850), em seu art. 19, trazia um rol de atividades que eram consideradas atos de mercancia, ou seja, atos de comércio. Entre os atos de comércio, estavam a compra e venda, a fabricação, a armação de navios, a toca de moedas etc. Então, quem praticava quaisquer desses atos, ou ainda aqueles que estavam no regulamento, era considerado comerciante. 156 Unidade III Repare na lacuna imensa que esse tipo de organização faz: se somente pode ser considerada comerciante aquela pessoa que pratica atos de mercancia constantes de um determinado rol, como fazer para atender às necessidades de alteração decorrentes da própria sociedade, por exemplo, incluir as atividades relativas à tecnologia? Esse foi um importante motivo pelo qual a teoria dos atos de comércio foi substituída pela teoria de empresa, e essa mudança consta hoje do nosso Código Civil (Brasil, 2002a). Lembrete O direito de empresa faz parte do Código Civil, Lei Federal n. 10.406 (Brasil, 2002a), a partir do art. 966. O Código Civil italiano, sob influência da teoria da empresa, tal como o Código Civil brasileiro, não conceitua a empresa, mas sim o empresário, que é quem desenvolve atividade econômica, organizada, exercida profissionalmente para a produção ou a circulação de bens e serviços. Por dedução, a empresa é a atividade do empresário. Por exemplo: a falência, a recuperação judicial, o dever de registrar-se na junta comercial, entre outras questões, só podem ou precisam ser feitos por empresários ou sociedades empresárias. Portanto, é importante saber quem é o empresário e quem é a sociedade empresária. 8.3 Fontes do direito comercial É essencial conhecer as fontes do direito comercial porque fonte é, para o direito, o que origina determinado regramento jurídico, e, caso faltem as fontes primárias (lei), são adotadas as fontes secundárias, as subsidiárias ou as fontes indiretas. São consideradas fontes primárias do direito comercial o Código Comercial (Brasil, 1850) e as matérias de direito empresarial vigentes no Código Civil (Brasil, 2002a). Com o advento doexercido pela aplicação da força de que dispõe uma sociedade politicamente organizada. Marx, H. Lévy-Bruhl, Benjamin Cardozo Primado do direito ciência A previsão do que os tribunais decidirão, a ciência do justo e do injusto a ser estudada e transmitida às novas gerações. Ulpiano, Holmes Primado do direito justo ou devido A função do juiz e do jurista é sempre descobrir e assegurar o que é justo, ou seja, não é da regra que emana o direito; é do direito (jus) que se faz a regra. A noção de justo é a pedra angular de todo o edifício jurídico. Justiniano, Geny Agora fica fácil para você entender o direito como ciência, aquela que se detém em descrever e interpretar o direito positivo. Entretanto, não se deve confundir esses dois conceitos. O direito positivo é a linguagem prescritiva, pois prescreve as condutas que se expressam através do conjunto de normas válidas (em forma de leis) num determinado espaço e tempo, enquanto a ciência do direito apresenta-se em seu caráter descritivo e interpretativo, permitindo a aplicação das leis. 1.2 Origem e finalidade do direito A sociedade é o produto da conjugação de esforços dos seus indivíduos, decorrente do que o professor Dalmo Dallari (1991) nominou como “simples impulso associativo natural e da cooperação da vontade humana”. Assim, vamos começar nossos estudos sobre os povos antigos, verificando como a posição geográfica, a política e a economia interferiram na história jurídica de cada povo. A história do direito busca explicar as intenções e noções de moral e o intuito dos povos que acharam por bem escrever suas normas, em seus conceitos e objetivos. O conceito de “história do direito” é uma produção cultural-científica decorrente das exigências de uma dada sociedade, e o objetivo é o auxílio na compreensão das conexões que existem entre a sociedade, suas características e sua produção em direito. 15 INSTITUIÇÕES DE DIREITO A justiça pode ser definida como “dar a outrem o que lhe é devido”, segundo uma igualdade simples ou proporcional. Nesse caso, a justiça – ou, nesse sentido, o direito – será feita quando um determinado ser humano receber um bem da vida que lhe é devido, guardada uma igualdade, como refletido por Aristóteles: “Eis aí, pois, o que é justo: o proporcional; e o injusto é o que viola a proporção” (Aristóteles, 1991, p. 101). Na justiça distributiva, a igualdade é simples, o que significa que será dado a outrem aquilo que lhe foi tirado. É o caso do direito penal, no qual se pune o criminoso na mesma medida em que este causou danos a um cidadão (é a lógica da pena retributiva); ou, ainda, do direito civil, quando alguém que causa dano a um patrimônio alheio tem de indenizá-lo na mesma quantia da lesão. Na justiça proporcional, o bem devido a outrem deve considerar uma igualdade proporcional, o que, em outras palavras, pode ser dito como dar aos iguais um tratamento igual e aos desiguais um tratamento desigual na medida de sua desigualdade. Assim, a título de exemplo, em uma família em que o irmão mais novo, de três, precisa de tratamentos médicos caríssimos, a este será dado uma parcela proporcionalmente maior da renda familiar, tratando-se dele desigualmente aos outros na medida de sua desigualdade. É o caso, por exemplo, na esfera jurídica, do tratamento dispensado aos consumidores ou trabalhadores, que, pela sua flagrante vulnerabilidade frente às indústrias e grandes empresas, recebem um tratamento desigual da lei, proporcional à sua situação de vulneração. No que tange ao direito enquanto norma, pode-se dizer, por agora, que a norma é um juízo hipotético-condicional, que vincula a uma conduta uma respectiva sanção. A exemplo do que ocorria nas primeiras civilizações, a tradição das normas baseava-se na revelação divina, ou seja, no conhecimento transmitido ao homem diretamente por um deus ou deuses. Você sabia que a primeira legislação significativa na Mesopotâmia foi o chamado Código de Hamurabi (1754 a.C.)? Hamurabi foi, antes de tudo, um excelente administrador e estrategista. Havia em seu território (Babilônia) uma heterogeneidade de pessoas, povos diferentes com línguas, culturas e raças diferentes. Para alcançar a unificação, Hamurabi utilizou três elementos: a língua, a religião e o direito. A lei de talião (em latim, lex talionis; lex: lei e talio, de talis: tal, idêntico), também dita pena de talião, consiste na rigorosa reciprocidade do crime com a pena em razão dele aplicada. Ocorre que essa proporcionalidade ou retaliação desconsidera totalmente razões, circunstâncias ou aspectos da ocorrência da violação dos preceitos. A lei de talião funciona de forma simples: se uma pessoa feriu outra pessoa, a pessoa que feriu deve ser penalizada em grau semelhante. Em interpretações mais suaves, significa que a vítima recebe o valor estimado da lesão em compensação. É o que acontece quando a imprensa escuta a família de alguma vítima fatal da qual se conhece a autoria. O familiar responde: “Não quero nada. Só quero justiça!”. Você pode seguramente substituir a palavra “justiça” pela palavra “vingança”, sem prejuízo algum. Essa relação foi registrada por Hamurabi, cuja intenção por trás do princípio de “olho por olho, dente por dente” seria restringir a compensação ao valor da perda. 16 Unidade I Saiba mais Você imagina que a lei do talião ainda é admitida em alguns países orientais? Pois veja o que ocorreu com a jovem iraniana Ameneh Bahrami: em 2004, ela recusou a oferta de casamento de Majid Movahedi. Ofendido, o homem desfigurou seu rosto com ácido. Ameneh lutou na justiça de seu país para que seu agressor fosse punido de acordo com a justiça retributiva (chamada de qisas) – parte da sharia (lei islâmica) que considera moralmente aceitável punir o criminoso de forma semelhante ao crime que ele cometeu. Caso você tenha se interessado pelo assunto, leia o texto a seguir: IRANIANA perdoa homem que a desfigurou com ácido antes de punição. BBC, 31 jul. 2011. Disponível em: https://tinyurl.com/3e6sbysw. Acesso em: 11 nov. 2025. Uma parcela importante da evolução da história do mundo passa pelo Egito Antigo. No Egito, desenvolveu-se parte do direito privado através da descoberta da existência de contratos que eram feitos por escrito, chamados de documentos da casa. Assim, quem fosse vender algo deveria redigir o contrato e depois lacrá-lo para evitar falsificações. É como funciona a autenticação ainda hoje. Figura 1 Disponível em: https://tinyurl.com/4ksj7u3n. Acesso em: 12 nov. 2025. 17 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Uma figura importante no Egito Antigo foram os escribas. Essa era uma classe social de pessoas alfabetizadas e letradas que ajudavam o Faraó escrevendo todos os documentos oficiais. Naquela ocasião, apareceu o documento do escriba, que foi na verdade o antecessor da escritura pública. No direito penal, ultrapassada a fase da vingança privada presente no Código de Hamurabi, também havia previsão de penas cruéis, tais como chicotadas, abandono dos delinquentes aos crocodilos, trabalhos forçados e mutilações. Outra colaboração que remonta às origens importantes do direito é da Grécia Antiga, cujo principal produto foi a filosofia, por meio de seus pensadores: Sócrates, Platão e Aristóteles. Sócrates, criador da maiêutica, ou parto das ideias, autor da famosa frase “só sei que nada sei”, sugeria a aristocracia como melhor regime, por entender que não era verdade absoluta o fato de que as decisões, por partirem da somatória de muitas ideias individuais (democracia), seriam corretas. Por esse pensamento, foi acusado de traição e condenado. Platão (429 a.C. -347 a.C.), discípulo de Sócrates, foi o responsável pela organização e sistematização do estudo da filosofia. Entre suas obras, destaca-se A República, que trata da forma ideal de Estado e do conceito de justiça. Aristóteles (384 a.C. -322 a.C.), por sua vez, foi discípulo de Platão. Criador da lógica, ficou eternizado ao estruturar o silogismo – que consiste em fazernovo Código Civil, reduziu-se o número de dispositivos vigentes do Código Comercial, pois aquele chamou para si a competência para tratar dos assuntos que cogitavam os arts. 1 ao 456 do Código Comercial. Embora tenham passado a ser tratadas nos Livro II (Parte Especial) do Código Civil (Brasil, 2002a), o fato de estar inseridas no Código Civil não retira a natureza comercial dessas normas, como os títulos de crédito – documento necessário para o exercício do direito, literal e autônomo, nele mencionado, por exemplo, o cheque, a duplicata, a letra de câmbio e a nota promissória. Ainda acerca das fontes formais, cabe ressaltar que o caráter fragmentário do direito comercial, bem como sua natureza dinâmica (liberdade empresarial), propiciam o surgimento de microssistemas legislativos, nos quais trabalham determinadas matérias de forma individualizada, como o CDC, já apresentado neste livro, e a Lei de Falências e Recuperação Judicial, que será tratada adiante. 157 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Quanto às fontes indiretas, são considerados fontes secundárias os usos e costumes mercantis, as leis civis, a analogia e os princípios gerais de direito. Você sabe como funciona o processo de normatização em sede de direito do comércio internacional? O processo de normatização do comércio internacional experimenta, nos dias de hoje, um movimento espiral contínuo, que varia da autorregulação do comércio pelo próprio mercado à regulação do comércio pelo Estado. Naturalmente, o movimento de regulação do comércio pelo Estado, com a finalidade de se adequar às exigências do mercado, termina por criar um ambiente mais favorável ao crescimento do comércio e à atuação do mercado. Este, por sua vez, em virtude de sua liberdade de autorregulação, permanece na busca pelo aperfeiçoamento de suas práticas, recebendo do Estado regulamentação adaptativa, e assim sucessivamente. São exemplos de regulamentações internacionais sobre o comércio: • Leis uniformes sobre letras de câmbio e notas promissórias – Genebra, 1930. • Lei uniforme sobre cheques – Genebra, 1931. • Regras e usos uniformes de créditos documentários, regras uniformes para garantia de contratos (CIC). • Lei modelo de arbitragem (Uncitral). • Convenção internacional sobre compra e venda internacional – Viena, 1980 –, princípios dos contratos internacionais (Unidroit). • Convenção interamericana sobre o direito aplicável aos contratos internacionais (Cidip V) – Cidade do México. Como você pode perceber, não há um direito supranacional, em especial quando se trata de direito de empresa, que regula as relações de comércio. Principalmente em razão da globalização, as relações que já eram frequentes se estreitaram ainda mais; basta perceber a expansão dos aplicativos de compras diretamente de outros países, como a China. Repare que as relações de comércio são pautadas muito mais pela necessidade e pelo utilitarismo do que pela formalidade legal. 8.4 Empresa, empresário e estabelecimento empresarial Anteriormente, vimos que o Código Civil de 2002 trata, no seu Livro II, Título I, do direito de empresa, e, em razão da organização diferente daquela preconizada no antigo Código Comercial, a figura do comerciante despareceu e surgiu a figura do empresário. Assim, aos poucos a nossa sociedade começou a chamar de empresário, e não mais de comerciante, a pessoa que exerce a atividade empresarial ou, como se dizia antes, comercial. Credita-se até que o termo “comerciante” venha a se tornar obsoleto quando utilizado para caracterizar a ocupação da pessoa que exerce atividade empresária. O art. 966 do Código Civil traz o conceito de empresário como aquele que pratica a atividade empresarial e, ao mesmo tempo, no parágrafo único, determina quem não é empresário. Vejamos: 158 Unidade III Art. 966. Considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços. Parágrafo único. Não se considera empresário quem exerce profissão intelectual, de natureza científica, literária ou artística, ainda com o concurso de auxiliares ou colaboradores, salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa (Brasil, 2002a). Portanto, com a edição do Código Civil de 2002, tornam-se obsoletas as noções de comerciante e de ato de comércio, que são substituídas pelos conceitos de empresário e de empresa, respectivamente. O Código Civil de 2002, orientado pela teoria da empresa, separa os conceitos de empresário e sociedade empresária, de um lado, e de empresa, do outro lado. O empresário e a sociedade empresária são sujeitos personalizados de direitos e deveres; são pessoas. A empresa não é um sujeito, mas um conjunto de atividades. Ambos (empresário e empresa) distinguem-se, ainda, da figura do estabelecimento empresarial, que consiste no conjunto de bens utilizados para o exercício da atividade (empresa). Conforme dispõe o art. 966 do Código Civil (Brasil, 2002a), o conceito legal de empresário diz respeito àquele que “exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços”. Tal dispositivo nos indica os principais elementos indispensáveis à caracterização do empresário: profissionalismo; atividade econômica; organizada; para a produção de bens ou serviços. Guardou essas informações? Passemos adiante para esclarecer cada um dos elementos que constituem a atividade econômica organizada, conforme a figura a seguir: Mão de obra: empregados, prestadores de serviços, proprietários e sócios Recursos financeiros: estrutura da empresa prédio, instalações, equipamentos Insumos: matéria-prima, água, energia elétrica, entre outros Recursos intelectuais: forma de utilização dos recursos; know-how Trabalho Capital Terra Tecnologia Figura 35 – Atividade econômica organizada 159 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Entre as atividades econômicas, como pudemos observar na transcrição do parágrafo único do art. 966 do Código Civil, não é empresário quem exerce a profissão intelectual, de natureza científica, literária ou artística, ainda que com o concurso de auxiliares ou colaboradores, salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa. Você consegue compreender o que significa elemento de empresa? Esclarece o professor Marcelo Tadeu Cometti (2014) que, diferentemente do que muitos doutrinadores e professores afirmam, o elemento de empresa não tem qualquer relação com a organização ou não da atividade intelectual, com o seu exercício ou não de forma profissional, com o número de empregados contratados ou mesmo o seu faturamento. A profissão intelectual enquanto “elemento de atividade organizada em empresa”, ou simplesmente “elemento de empresa”, significa ser parcela dessa atividade, e não a atividade em si, isoladamente considerada. É o caso, por exemplo, do médico que agrega à prática da medicina um SPA, onde ao paciente se oferece repouso e alimentação; do veterinário, que, além do seu ofício, possui um pet shop que vende ração para os animais, medicamentos, bem como hospeda os animais na viagem de seus donos. A atividade inicial, a medicina humana e a veterinária são atividades tipicamente intelectuais; porém, ao aumentar a oferta de serviços, há a caracterização do que o legislador chamou de “elemento de empresa”. Outra exceção é a que consta do art. 971 do Código Civil (Brasil, 2002a), que trata do empresário que exerce atividade rural como principal profissão. O artigo autoriza, observadas as formalidades de que tratam o art. 968 e seus parágrafos, requerer inscrição no registro público de empresas mercantis da respectiva sede, caso que, depois de inscrito, ficará equiparado, para todos os efeitos, ao empresário sujeito a registro. Desse modo, podemos afirmar que “empresa” é um conceito abstrato, incorpóreo, pois representa o conjunto de atividades do empresário. O prédio, as máquinas, o nome e os recursos são fatores, elementos desse ente abstratouma ou mais afirmações/premissas maiores e uma afirmação intermediária/premissas menores e chegar dessa forma à conclusão. Estudou a fundo o sentido de justiça ligado ao conceito de igualdade. Admitindo-se que o homem é um ser social pela sua própria natureza e que em toda sociedade deve existir um conjunto de normas a serem respeitadas, chega-se à conclusão de que a origem do direito é a origem do próprio homem. A expressão latina sintetiza claramente essa ideia: ubi societa, ibi jus (“onde há sociedade, existe o direito”). De fato, nem sempre o direito se manifestou em sociedades arcaicas, ou até mesmo em algumas sociedades modernas, dissociadas do campo da moral, da religião e da política. Pelo contrário, a regra, ao menos até a Grécia Antiga, era a de que a esfera do direito interpenetrasse uma série de outras esferas da vida social, confundindo-se com a atividade política e teológica. A título de exemplo, pode-se indicar a Grécia micênica, pelos idos de 1.200 a.C., quando as cidades gregas eram organizadas em torno de um deus-rei (Ánax) que não somente detinha o poder político, mas também religioso. Era a esse deus-rei que se pagavam tributos; em torno dele que se organizava a arquitetura da pólis, e para ele que se direcionavam os louvores. Com a invasão da Grécia micênica pelos dórios, houve uma completa desestruturação desse modo de vida, passando-se, ao longo dos anos, a outro modelo, racionalizado, de política, ética, religião, direito e moral. 18 Unidade I É a partir desse processo de racionalização que o direito, entendido como fenômeno autônomo, encontrará seu paradigma na filosofia grega pós-socrática e, posteriormente, na política romana. Sobre o direito romano, Villey (apud Dromi, 2007) afirma que foi considerado que, se o direito romano tivesse consistido de uma mera prática, de uma arte completamente empírica, não teria podido sobreviver à civilização romana. Mas Roma produziu algo novo, desconhecido mesmo na Grécia, assim como em todos os direitos anteriores: uma literatura técnico-jurídica. No entendimento do autor, portanto, foi um golpe de sorte haver uma literatura técnico-jurídica. Quanto à história do direito no mundo antigo, são dignas de notas as grandes obras militares e legislativas do imperador Justiniano I, que compilou as legislações existentes em seus domínios no Corpus Iuris Civilis, dividido em quatro partes, cujo teor pode ser sintetizado no quadro a seguir: Quadro 2 – Estrutura do Corpus Iuris Civilis Codex “Codex” deriva da palavra latina “caudex” e quer dizer “tronco de árvore”; diz respeito ao suporte do sistema legal. Compilação das constituições imperiais para que os romanos conhecessem todas as leis que vigoravam. Dividido em 12 livros da seguinte forma: Livro I (direito eclesiástico, fontes do direito e das funções dos servidores públicos); Livro II-VIII (direito privado); Livro IX (delitos); Livro X-XII (regras administrativas). Institutas Consideradas uma espécie de manual de direito para os estudantes. Declaradas de uso obrigatório, tiveram força de lei. Divididas em 4 livros. Digesto ou Pandectas Destinou-se à reunião dos pareceres e escritos dos jurisconsultos, no total de 50 livros. Muito se aproveitou dessa obra no tocante aos critérios de interpretação das leis. Novelas Regras do próprio Justiniano que se faziam necessárias no próprio cotidiano, tendo o poder de derrogar as regras dos livros anteriores que se chocassem com o novo direito. Praticamente todas as escritas eram em grego, já que se destinavam às populações do Império do Oriente. Ainda hoje, o direito romano se presta como instrumento para dar respostas práticas e efetivas aos problemas da vida, de modo a compor, solucionar e evitar conflitos, especialmente os ligados ao sistema privado. Segundo Fachin (2001), os três pilares fundamentais – em cujos vértices se assenta a estrutura do sistema privado clássico –, baseados no direito romano e que se encontram na alça dessa mira, são representados pelo contrato, como expressão mais acabada da autonomia da vontade; pela família, como organização social essencial à base do sistema; e pelos modos de apropriação, nomeadamente a posse de propriedade, como títulos explicativos da relação entre as pessoas sobre as coisas. Assim, busca-se compreender quando nasce o direito enquanto norma jurídica e qual sua finalidade. É espinhosa a questão de saber quando o homem, organizado em sociedade, criou o direito, uma vez que onde há organização social há também, em certa medida, direito. No entanto, as artes nos legaram um registro de quando os homens passaram a questionar a pertinência das leis humanas frente às leis dos deuses, o que pode ser um bom indício de um esclarecimento acerca da existência de um direito humano, positivo, feito de normas, para além – ou aquém – do direito natural, divino ou mesmo da ética. 19 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Foi com Antígona, tragédia grega da Grécia Antiga escrita por Sófocles, como terceira parte de sua tragédia tebana, que se deu visibilidade ao paradigma ocidental, hoje corriqueiro, que distingue um direito natural ou divino de um direito dos homens, positivo. Em Antígona, Creonte, tio da personagem que leva o mesmo nome da peça, decide deixar seus sobrinhos mortos, os quais foram tomados por traidores de Tebas, sem funeral. Fez isso por lei humana, quando alcançou o controle político da cidade. Antígona, por sua vez, recusa-se a deixar seus irmãos sem enterro, em especial por se ferir, com isso, uma lei divina, que obriga o culto aos mortos e os rituais fúnebres. Aqui há uma verdadeira cisão entre a lei dos homens e a lei divina, marcando, talvez, a origem de um direito positivo, composto por normas, que encontram sua validade no mundo profano. Se sua origem, entretanto, é de difícil circunscrição, sua finalidade é mais simples de ser compreendida, até mesmo em razão do largo espaço que o direito ocupa na vida do homem moderno. Mesmo o homem mais afastado das grandes cidades, que vive isolado, sabe ou deveria saber que, se matar alguém, haverá a possibilidade de o Estado sancioná-lo com prisão ou pena de morte. Qual a finalidade dessa verdadeira intromissão do direito na vida das pessoas? Ora, aqui, a princípio, a finalidade do direito se apresenta como verdadeira regulação dos atos da vida em sociedade, optando-se por incentivar alguns deles em detrimento dos outros. Porém, essa definição da finalidade do direito ainda é muito genérica, exigindo que se especifique em que medida o direito objetiva regular a conduta humana. De fato, se o direito tem por finalidade regular a conduta humana, é porque pode obrigar alguém a fazer algo, ainda que contra a vontade, ou seja, tem o poder de obrigar. A finalidade última do direito, portanto, está intimamente relacionada à categoria do poder, e elucidá-lo é, em alguma medida, dar um passo para elucidar a finalidade do direito. Por poder, deve-se entender aquilo que já indicava Bobbio (2010): B exerce poder sobre A quando leva A a realizar uma conduta ainda que contra sua vontade, sob pena de sanção se a conduta a ser realizada não se der. Tal definição tem a vantagem de ser extremamente clara. Assim, exerce poder – familiar, no caso – o pai ou a mãe quando exigem que seu filho tire notas boas, sob pena de castigo. Exerce poder – patronal – o patrão que exige do funcionário certo desempenho, sob pena de demissão, por exemplo. O exercício desses poderes subjacentes às relações humanas interessa ao direito em alguma medida, tendo por fim sua regulamentação. Entretanto, a finalidade última do direito é a regulamentação de um poder específico, que em nossas sociedades modernas pode-se chamar de poder político. O poder político é o poder de administrar o uso da violência como forma de coação. Isso significa que, sendo a política a arte de alcançar o bem comum, como queria Aristóteles, ou a mera manutenção desse poder, como queria Maquiavel, fato é que o poder político é aquele que,para garantir o cumprimento das ordens de quem o exerce, pode ser exercido por meio da violência. Portanto, nesse sentido, a finalidade última do direito é regular o exercício legítimo da violência dentro do corpo social. 20 Unidade I Dito isso, como forma de exemplificar o exposto, pode-se elencar cinco estágios pelos quais o direito passou ao longo da história das sociedades. Em um primeiro momento, nas sociedades primitivas, quando ainda não havia uma percepção clara acerca do que era o direito, o poder político se encontrava pulverizado pelos clãs, famílias ou tribos, havendo um exercício descentralizado da violência e das tentativas de coação. Já na Grécia Antiga e em Roma, com uma maior consciência do direito, o poder político passou a ser exercido por um governo centralizado, ainda que este não se submetesse às determinações legais. A Idade Média, com sua descentralização política em uma série de feudos, fez com que novamente o poder político passasse a ser exercido por diferentes agentes. O poder político só voltará a ser exercido de modo centralizado com o Absolutismo, havendo uma concentração de poder nas mãos dos reis. Entretanto, o direito continuaria sendo um instrumento para regular as relações entre particulares em especial, não se submetendo o rei à esfera jurídica. É nesse sentido que se deve compreender as palavras de Luís XIV, rei da França: “Le loi c’est moi” – ou seja, “A lei sou eu”. Por fim, com o advento da Revolução Francesa e da Independência norte-americana, funda-se a base do moderno Estado de direito, em que todos, inclusive os agentes políticos, submetem-se ao império da lei. Daí que, ao menos na Idade Contemporânea, em estados de direito, o direito tem por finalidade última a própria regulação do poder político, legitimando o uso da violência como forma de coação para que se leve as pessoas a agirem de acordo com as condutas previamente fixadas em lei. Por fim, o direito pode ser uma ciência no sentido de que, muitas vezes, deu-se o nome de direito às filosofias ou teorias que tentavam explicar o fenômeno jurídico em sociedade. Assim, o juiz, ao sentenciar, opera o direito em sociedade, mas não como um cientista, uma vez que sua sentença tem um valor deontológico – ou seja, obriga que se dê uma situação qualquer no mundo real, não podendo ser verdadeira ou falsa, apenas válida ou inválida. O cientista do direito, por sua vez, ao explicar o direito, nada obriga que se faça; pelo contrário, tenta afirmar algo acerca do mundo do ser, ou seja, sua afirmação tem um valor ontológico, podendo ser verdadeira ou falsa. 1.3 Direito objetivo e direito subjetivo Para esta disciplina, é importante diferenciar a norma como um todo (objetivo, do objeto) de como ela age em face da conduta do sujeito (subjetivo). Por isso, vamos analisar as visões de alguns autores sobre essas duas relevantes conceituações, iniciando por Dromi (2007), para quem os direitos subjetivos não podem existir à margem do Estado. Para que um direito seja juridicamente exigível, é necessário seu reconhecimento estatal; do contrário, a reclamação de sua observância ou respeito se fundará em razões éticas ou religiosas, mas não no ordenamento jurídico (entendido aqui como direito positivo). 21 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Para Luz (2014), em seu dicionário jurídico, os vocábulos “direito objetivo” e “direito subjetivo” estão conceituados da seguinte forma: • Direito objetivo: conjunto de normas jurídicas, de cumprimento obrigatório, em vigor em determinado momento e em determinado ordenamento jurídico. São normas de direito objetivo a Constituição, o Código Civil, os contratos e os atos administrativo. • Direito subjetivo: faculdade conferida pelo Estado ao cidadão para, consubstanciado na lei e provando legítimo interesse, exercer sua pretensão em juízo. Permissão dada pela norma jurídica para o exercício de uma pretensão; direito de ação assegurado pela ordem pública. Capacidade que o homem tem de agir em defesa de seus interesses, invocando o cumprimento de normas jurídicas existentes, sempre que, de alguma forma, essas regras jurídicas estiverem em conformidade com sua pretensão. Segundo Führer e Milaré (2004), as mais importantes acepções da palavra “direito” são as traduzidas pelas expressões “direito objetivo” e “direito subjetivo”. Para os autores, a diferenciação é a seguinte: • Direito objetivo: é o conjunto de regras vigentes num determinado momento, para reger as relações humanas, impostas coativamente à obediência de todos. Os códigos Penal, de Processo, Civil etc., bem como qualquer uma de suas regras, são exemplos de direito objetivo. Lembra-nos Bobbio (1995, p. 31) que “o termo `direito’, na mais comum acepção de direito objetivo, indica um tipo de sistema normativo, não um tipo de norma”. • Direito subjetivo: é a faculdade ou prerrogativa do indivíduo de invocar a lei na defesa de seu interesse. Assim, ao direito subjetivo de uma pessoa corresponde sempre o dever de outra, que, se não o cumprir, poderá ser compelida a observá-lo através de medidas judiciais. Assim, pode-se considerá-lo como a retirada do estado de inação teórica do direito objetivo, pois “é a faculdade de agir - facultas agendi” (Gomes, 2019, p. 78). Para diferenciar os dois institutos, observe a figura a seguir: Direito objetivo Direito subjetivo Conjunto de regras Leis de códigos Faculdade do sujeito Invocar em defesa de seus interesses Figura 2 – Direito objetivo e direito subjetivo 22 Unidade I Como podemos perceber, conhecer o direito objetivo é parte fundamental para poder exercer o direito subjetivo, ou seja, invocá-lo para sua guarda e proteção. É o que acontece muitas vezes com os direitos do consumidor, do trabalho e até mesmo dentro da esfera empresarial. É justamente este um dos objetivos primordiais deste trabalho: fazer com que você conheça o direito objetivo e possa exercer o direito subjetivo. 1.4 Direito e moral É importante que você consiga diferenciar o direito da moral. Consolidamos no quadro a seguir as principais diferenças entre ambos. Verifique com atenção as características que distinguem esses dois conceitos: Quadro 3 – Comparação entre direito e moral Direito Moral Campo de atuação Na sociedade: as regras jurídicas visam facilitar o convívio social, buscam prevenir e solucionar os conflitos No indivíduo: as regras morais visam o melhoramento do indivíduo Objetivos Orientar as condutas para consolidar valores sociais, sendo a Justiça o maior deles Buscar o bem-estar social, através do aperfeiçoamento dos indivíduos Sanção (penalidade) Privativa de liberdade Restritiva de direito Multa No íntimo da pessoa: remorso, dor de consciência e arrependimento Na sociedade: censura pública e desprezo social Quem aplica a sanção O Estado – através do Poder Judiciário, que tem a função de interpretar as leis e julgar (tribunal, juiz) A consciência individual e/ou a sociedade Exemplos de comportamentos exigidos Obediência ao contrato firmado entre as partes (direito civil). Condutas proibidas por lei (crimes previstos no direito penal). Pagamento de tributos (direito tributário). Seguir as regras de trânsito etc. Cortesia, cavalheirismo, pontualidade, assiduidade, respeito pelo próximo, companheirismo, lealdade, devolver ao dono um objeto achado (mesmo que muito valioso) etc. Percebeu que o campo de atuação do direito é diferente daquele da moral? Alguns autores classificam o direito como um subconjunto da moral. Não é absolutamente verdadeira essa teoria, pois é fácil verificar que o direito não se limita a contemplar somente as regras puramente morais. É certo que existem muitas normas jurídicas – na verdade, a maioria – que prosperam a partir de conceitos morais estabelecidos pelos costumes. Você quer um exemplo prático? O Código de Trânsito Brasileiro, Lei n. 9.503/1997 (Brasil, 1997), visa tão somente organizar o tráfego de pessoas e veículos. Esse é um exemplo de lei que não possuinenhuma relação com a moral, porque é amoral (alheia à valoração moral). Indo um pouco além, podemos trazer à baila a existência de algumas leis que, para determinado grupo social, podem ser até consideradas como imorais e que, apesar de tutelarem fatos considerados imorais por uma parte da sociedade, ainda assim são perfeitamente legais à luz do direito. 23 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Podemos exemplificar, sem nenhuma conotação valorativa de nossa parte, a questão do divórcio (previsto em lei) ou as previsões legais que autorizam o aborto. Alguns países legalizaram a prostituição ou contam com a previsão legal da aplicação da pena de morte. Assim, nota-se que a esfera normativa do direito é diferente da moral. O conjunto de leis de um país (vale dizer, o seu direito) visa construir um ambiente social e de negócios em que haja segurança nas relações entre as pessoas (naturais e jurídicas), que contribui para a redução e prevenção dos conflitos irremediavelmente surgidos nas sociedades, cabendo ao Estado, através do poder judiciário, em última instância, resolver os conflitos entre as pessoas. O Estado pode, inclusive, estabelecer e impor penalidade a uma das partes, que será obrigada a aceitar, sob pena do emprego da força; prerrogativa que nas sociedades desenvolvidas é algo exclusivo do Estado, o qual a utiliza em circunstâncias muito específicas. A moral, por sua vez, em sentido amplo, pode ser entendida como o conjunto de costumes, de usos e de práticas, portanto, de padrões de conduta estabelecidos num determinado tempo por um determinado grupo social. Dessa forma, podemos dizer que a norma moral fixa quais condutas as pessoas, inseridas numa determinada sociedade, devem seguir na busca do seu aperfeiçoamento individual. É correto afirmar, assim, que as normas morais buscam desenvolver o ser humano em sua individualidade, contribuindo para a harmonia social e a melhoria da sociedade como um todo. Nesse instante, é preciso pensar a respeito de alguns aspectos: qual a consequência que uma pessoa enfrenta quando deliberadamente não segue os padrões morais definidos pelo seu grupo social, ou até mesmo religioso? Você já percebeu que ninguém é processado na justiça por descumprir um mandamento moral, como estar sempre atrasado, ser descortês ou desrespeitoso com as pessoas mais velhas, embriagar-se costumeiramente (abusando do álcool, cujo consumo é legalizado) ou até mesmo praticar atos considerados obscenos em público (só para mencionar alguns exemplos bem corriqueiros)? É evidente que esses comportamentos são reprováveis pela nossa sociedade; entretanto, a pessoa experimentará no máximo a reprovação social e até, em alguns casos, o desprezo de seus amigos, familiares ou confrades, dependendo da gravidade da conduta para aquele grupo social. Na esfera íntima, o indivíduo poderá experimentar o sentimento de remorso e tristeza ao aceitar a sua culpabilidade, conforme o julgamento da sua própria consciência. Não há nenhuma força capaz de demover as pessoas desses comportamentos, considerados reprováveis, que não a sua própria consciência, que as induz a reformular a sua conduta diante dos valores prezados pelo seu grupo social. Direito e moral, apesar de diferentes, complementam-se na construção do convívio social, sendo certo que a violação das normas jurídicas fixadas trará consequências externas ao indivíduo, que, inclusive, poderá ser considerado culpado pela justiça e obrigado a cumprir uma determinada pena. Ao contrário disso, verificamos que a não obediência às normas morais trará consequências íntimas (internas) ao indivíduo, ou seja, é no campo de sua consciência pessoal que o remorso ou a reprovação social lhe trará desconforto. É importante destacar que não devemos minimizar a dor que o remorso e a censura social ou religiosa podem trazer para uma pessoa. 24 Unidade I Para finalizar os estudos sobre moral e vontade normativa, convém trazer as lições de Dromi (2007), para quem o bem-estar da coletividade é o parâmetro de justiça que fundamenta o Estado e o ordenamento jurídico. Como já mencionamos, a justiça é um fim da sociedade política. A felicidade social está no bem comum. A justiça é a realização precisa do bem comum objetivo e é a meta do direito. 2 CLASSIFICAÇÕES DO DIREITO O verbo “classificar” significa distribuir em classes e nos respectivos grupos de acordo com um sistema ou método de organização. Assim, classificar o direito representa agrupar, de maneira organizada e conforme as suas similaridades, os ramos da ciência jurídica. 2.1 Ramos do direito Neste tópico, apresentaremos a distinção didático-pedagógica entre os principais ramos do direito, direito público e direito privado, para já se observar a distinção preliminar entre matéria livremente disponível (facultas agendi) e matéria de direito público indisponível cogente. Também iremos ponderar o caráter desses polos dicotômicos meramente didático-pedagógicos, uma vez que as situações individualizadas no tempo e no espaço podem implicar derrogações parciais da autonomia privada pelas normas de ordem pública prevalentes ou cogentes. Figura 3 Disponível em: https://tinyurl.com/58fstx7w. Acesso em: 12 nov. 2025. Vamos realizar uma breve ponderação para situar o direito privado, que compreende, entre outros ramos, o direito civil, no qual se situa o direito de empresa, além do direito do consumidor e do direito comercial. Veremos, ainda, a notícia histórica de que, no Brasil, a partir da Constituição Federal de 1988, o direito privado se constitucionalizou, importando o advento do Código Civil (Brasil, 2002a), com sua matéria de direito de empresa e com a derrogação parcial do antigo Código Comercial. 25 INSTITUIÇÕES DE DIREITO Para que possamos compreender o conceito de responsabilidade civil, de reparação de danos e de contratos, todas essas matérias serão relacionadas ao exercício da autonomia da vontade privada ante as normas livremente dispositivas (facultas agendi) e as normas cogentes de ordem pública indisponíveis. É necessário discernir a categoria da norma: o proibido, o facultado e o obrigatório (no consagrado modelo didático-pedagógico enunciado por Hans Kelsen). E, assim, discernir direito potestativo, isto é, direito oponível, que legitima, inclusive, o exercício de direito de ação para que o Estado lance mão do monopólio da coerção legitimada para observância compulsória do direito potestativo de seu respectivo titular. Para todo esse desígnio do presente tópico, precisamos discernir vontade em relação a interesse e compreender o conceito de vontade manifestamente declarada e de ato jurídico, bem como de contrato. Como você percebeu, em primeiro plano, podemos dividir o direito brasileiro em dois grandes ramos: direito privado e direito público. Entender essas grandes divisões não é tão difícil. Existem vários assuntos e temas que são de interesse somente das pessoas envolvidas numa determinada transação ou num determinado negócio. Exemplo de aplicação Imagine uma situação na qual alguém resolve alugar um carro em uma locadora de veículos durante uma viagem. Haverá direitos e obrigações para ambos os lados desse negócio, que certamente serão regidos por um contrato de locação de veículo entre as partes, registrando-se tudo: condições gerais, preço, data de devolução do veículo, seguro do veículo etc. Assim, é fácil compreender que esse exemplo está na esfera do direito privado, pois o contrato somente interessa aos particulares, que são as partes envolvidas: a pessoa que está alugando o carro e a locadora de veículos. Quando se fala de direito público, o assunto é outro, porque passamos para a esfera pública, ou seja, trata-se de situações nas quais os direitos e as obrigações envolvem os interesses da sociedade como um todo. Esta é uma divisão inaugurada ainda na Antiguidade, em que a sociedade da época compreendeu que existiam assuntos mais relevantes que interessavam à coletividade, enquanto outros aos indivíduos,gerando a expressão dos interesses que importavam à Roma, como os de direito público. Para entender, imagine a obrigatoriedade dos pagamentos dos tributos que recaem sobre todos os cidadãos e empresas. Pode-se dizer que as normas jurídicas que regem a criação e a cobrança dos tributos são de ordem pública, vale dizer, alcançam todos sem distinção, pois é através do recolhimento dos tributos que o Estado se mantém e obtém os recursos necessários para os investimentos nos programas estatais, incluindo saúde, segurança, educação e infraestrutura. Assim, compreende-se o caráter público desse ramo do direito, denominado direito tributário, que interessa indistintamente a todos os cidadãos. 26 Unidade I É correto dizer que o direito positivo é o conjunto de normas jurídicas e que se divide em vários ramos; por exemplo, direito constitucional, direito civil, direito do consumidor, direito trabalhista, direito constitucional e direito tributário. Para ter uma visão geral dos ramos do direito, apresentamos a figura a seguir, que resume os principais ramos do direito privado e do direito público. Direito público Interno Direito Constitucional Direito Administrativo Direito Financeiro Direito Tributário Direito Processual Direito Penal Direito Internacional Público Direito Comercial Direito do Consumidor Direito do Trabalho Direito Internacional Privado Externo Comum Civil Especial Direito privado Figura 4 – A estrutura do Direito Fonte: Siqueira Junior (2019, p. 129). Examinando a figura anterior, percebe-se com facilidade que os ramos relacionados no grupo de direito privado são todos aqueles que tratam das relações entre as pessoas, incluindo as pessoas naturais (pessoas físicas) e as pessoas jurídicas (empresas). O melhor exemplo deles é o direito civil, que podemos de forma simples e objetiva definir como o ramo do direito que se ocupa do conjunto de normas que regulam as relações de ordem privadas, aquelas que envolvem os direitos e as obrigações das pessoas e dos seus bens. É possível notar que os ramos elencados no grupo de direito público tratam dos regramentos importantes para o Estado, portanto, para a sociedade como um todo. Um bom exemplo disso é o direito eleitoral, o que engloba e sistematiza as regras que se destinam a assegurar a organização e o exercício de direitos políticos, principalmente os direitos de votar e ser votado, conforme fixa o artigo 1º do Código Eleitoral Brasileiro (Brasil, 1965). 27 INSTITUIÇÕES DE DIREITO 2.2 Fontes do direito Entender a fonte de alguma coisa significa entender sua origem, ou seja, como e onde nasceu. Nesse momento, interessa-nos compreender como o direito é criado e como é aplicado. Resumindo, queremos que você entenda como as normas jurídicas são produzidas e quais são os principais critérios para a sua interpretação e aplicação. Existem vários significados e teorias acerca das fontes do direito. Entretanto, para ser mais objetivo, recorre-se à interpretação mais aceita entre diversos autores, que avaliam que as fontes do direito são de duas naturezas: fontes materiais do direito, que resultam da dinâmica das forças encontradas na vida em sociedade; e fontes formais do direito, que são as maneiras como essas forças se manifestam no nosso cotidiano. Entretanto, pode ser o caso de essas fontes primárias não produzirem um número suficiente de normas para regular, em toda a complexidade, as relações humanas. Disso decorrem lacunas, ou seja, surgem situações que exigem uma regulação, mas que não encontram solução a partir das normas das fontes diretas. Ainda que não pacificada a matéria, podemos dividir as fontes do direito em fontes diretas e indiretas. As fontes diretas são aquelas de onde o direito nasce em seu estado primeiro, isto é, de onde se extrai a norma jurídica a partir de uma interpretação direta da fonte. São fontes diretas do direito as leis (em sentido amplo), os tratados internacionais e os contratos. Quando faço a leitura da lei e a interpreto, tenho como resultado dessa interpretação uma norma jurídica que deve ser seguida. O mesmo se pode dizer acerca dos tratados, quando das relações entre países diversos, e do contrato, quando da relação entre particulares. Nesse caso, faz-se necessário apelar para outras fontes, indiretas, que possam produzir normas capazes de completar as lacunas. São elas: os costumes, os princípios, a doutrina e a jurisprudência. Pode-se, por exemplo, deduzir uma norma de um costume dado em uma sociedade. Suponhamos que no interior de um estado brasileiro seja corrente o uso de contratos verbais na negociação de animais, e que, pelo tamanho da cidade, muitas sejam as pessoas que testemunham esses contratos. Imaginemos que um contratante ingresse na justiça para que seu contrato de compra e venda seja honrado. O juiz, em vez de dar o contrato por inexistente, uma vez que verbal, poderá, pelo costume, aceitar esse tipo de contrato. Os princípios são normas extremamente genéricas que geralmente são extraídas de uma leitura sistemática da lei. Também elas podem servir de fonte normativa. Um exemplo disso é o caso em que há dúvidas quanto aos fatos arguidos em ação penal. Ora, na dúvida, o juiz deverá decidir pela absolvição do réu. Essa norma não emana de uma lei em específico, mas de um princípio construído a partir da leitura sistemática da Constituição – em razão, por exemplo, da presunção de inocência e do devido processo legal. 28 Unidade I A doutrina e a jurisprudência também podem produzir normas quando indicam a extensão de conceitos e de tipos legais a serem aplicados. O conceito de casa é dado pela doutrina, por exemplo, e a ele se vinculam os operadores do direito. O tratamento que a jurisprudência dá a uma matéria tende a ser reiterado também, muito em função da segurança jurídica. No que tange à jurisprudência, por séculos o sistema brasileiro – herdeiro do sistema romano-germânico em que a lei é a fonte primária – foi vinculado ao sistema da civil law, em que o papel da jurisprudência sempre foi bem colateral. Isso, aliás, se mostrava pela diferença que se dava aos precedentes na cultura anglo-saxã da common law. Sumariamente, tinha-se que: […] a principal característica diferenciadora entre as escolas da civil law (do qual o Brasil é herdeiro, mesmo após a EC 45/2004) e do common law (Inglaterra e Estados Unidos da América, principalmente) é que, cá entre nós, a fonte motora do sistema é a lei, enquanto, todavia, nos países de common law, a função das Cortes é sobremodo mais ampla, dando às decisões judicais maior destaque como fonte do direito (Ditão, 2022, p. 1557). Dessa forma, ao lado da jurisprudência, desde o Código de Processo Civil de 2015, emergiu também uma categoria de fontes do direito: os precedentes. No ordenamento brasileiro, os precedentes compõem um microssistema formado pelo Novo Código de Processo Civil, principalmente os arts. 489, §1º, incisos V e VI, 926, 927 e 988, pela Lei 9.868/1999 (Lei da ADI e da ADC), pela Lei 9.882/1999 (Lei da ADPF), pela Lei 11.417/2006 (Lei da Súmula Vinculante) e pela Constituição Federal. Esses diplomas legais devem ser articulados e interpretados para o uso dos precedentes, suprindo reciprocamente eventuais lacunas e constituindo um microssistema dentro do nosso ordenamento jurídico (Cramer, 2016, p. 210). Atualmente, as decisões judiciais realizadas pelos Tribunais Superiores tem força de impor aos juízes o dever de observá-las ao lado da lei escrita, equiparando o sistema da common law ao da civil law e aproximando as escolas culturais como ferramenta de promoção de igualdade (decisões iguais aos casos iguais) e segurança jurídica (previsibilidade dos tribunais). Observe que essas fontes são indiretas porque a qualquer momento podem ser modificadas ou desmentidas por lei, ou melhor, pelas fontes diretas. Todavia, com a criação de sistemas – como Súmula Vinculante, Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas, Incidente de Assunção