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Recursos Terapêuticos: Arte, Cultura e População
Professora Especialista: Bruna Menezes
UA 5
Corpo, corporeidade, movimento e expressão
O corpo apenas executa atividades ou também sente, comunica, lembra e participa?
Percurso da aula de hoje
19h–19h50
Corpo vivido e corporeidade
corpo além do biológico
corpo histórico, relacional e sensorial
consciência corporal
19h50–20h40
Movimento, ritmo e expressão
gesto e linguagem corporal
movimento e dança como ocupações
acessibilidade, consentimento e ética
21h–21h30
Exercício avaliativo
análise de uma prática corporal
redesenho acessível
entrega em grupo
O corpo para além da estrutura biológica
O conhecimento funcional continua importante
força, amplitude, coordenação, equilíbrio, mobilidade e processamento sensorial podem interferir no desempenho das atividades.
…Mas não explica sozinho a experiência corporal
O corpo também carrega história, memória, afetos, identidade, hábitos, valores culturais e maneiras de participar das relações e dos espaços.
Perguntas para a Terapia Ocupacional:
O que este corpo consegue fazer?
Como a pessoa vive essa experiência?
Que significado o movimento possui?
Em que contexto ele acontece?
Que condições favorecem ou limitam a participação?
Corporeidade: o corpo vivido
Corporeidade: experiência de existir e relacionar-se no mundo por meio do corpo.
Não é sobre apenas de “ter um corpo”, mas de perceber, sentir, mover-se, ocupar espaços, encontrar outras pessoas e construir significados corporalmente.
Duas pessoas podem executar o mesmo movimento e vivê-lo de maneiras completamente diferentes.
Movimento semelhante ≠ significado semelhante.
Um corpo atravessado por múltiplas dimensões
Histórico
experiências, trabalho, hábitos, mudanças, memórias
Relacional
proximidade, toque, vínculos, comunicação, limites
Sensorial
sons, texturas, movimento, luz, temperatura, posição corporal
Expressivo
gesto, postura, ritmo, criação, presença e linguagem corporal
Cultural
valores, danças, rituais, modos de cumprimentar, vestir e ocupar espaços
Ocupacional
o corpo participa de brincar, trabalhar, cuidar, criar, circular e conviver
Corpo histórico: as experiências deixam marcas
O corpo é atravessado pelas atividades realizadas ao longo da vida.
Trabalho, brincadeiras, esportes, cuidado, adoecimento, acidentes, práticas religiosas e experiências de discriminação podem influenciar como a pessoa percebe e utiliza o próprio corpo.
Uma postura, um ritmo ou um gesto podem carregar aprendizagens e memórias construídas durante muitos anos.
Perguntas possíveis
Que experiências este corpo viveu?
Que atividades ajudaram a constituí-lo?
O que mudou?
Que gestos ou movimentos permanecem significativos?
Que experiências corporais foram interrompidas?
CASTRO (2000)
Corpo relacional: proximidade, toque e consentimento
As experiências corporais são construídas também nas relações.
Distância, contato visual, toque, maneiras de cumprimentar e formas de ocupar o espaço variam entre pessoas e contextos culturais.
O toque pode representar cuidado para alguém e invasão, medo ou desconforto para outra pessoa.
Em práticas corporais, não presumir conforto com:
toque
proximidade
olhos fechados
improvisação
movimentos em grupo
apresentações públicas
Consentimento + alternativas reais de participação.
Corpo sensorial: o ambiente também participa da experiência
Som
volume, ritmo, previsibilidade
Visão
luz, contraste, movimento no espaço
Toque
texturas, pressão, contato
Movimento
velocidade, equilíbrio, posição corporal
Ambiente
temperatura, espaço, proximidade
Regulação
pausa, escolha, antecipação, duração
O objetivo não é obrigar todas as pessoas a tolerarem os mesmos estímulos, mas ampliar condições de envolvimento, escolha e regulação.
Consciência corporal: perceber não é “corrigir”
Pode envolver atenção a:
respiração
apoios
tensões
postura
fadiga
conforto/desconforto
limites e localização no espaço
Cuidado importante
Perceber o corpo não significa responsabilizar a pessoa por condições produzidas socialmente.
Reconhecer cansaço, dor ou tensão precisa ser articulado às possibilidades reais de transformação do cotidiano e do ambiente.
Gesto e linguagem corporal: comunicar sem transformar o corpo em “código”
Postura, olhar, expressão facial, silêncio, distância e gestos participam das relações e podem comunicar experiências.
Mas não existe uma tabela universal capaz de traduzir o significado de cada gesto.
Cruzar os braços, evitar o olhar ou permanecer em silêncio podem ter sentidos diferentes conforme a pessoa e o contexto.
Troque a interpretação automática por investigação
Em vez de: “está fechado porque cruzou os braços”.
Pergunte: está com frio? busca apoio? sente dor? protege-se? está confortável assim?
Observar ≠ concluir sem contexto.
Castro (2000) 
Movimento como ocupação e expressão
O movimento está presente em brincar, trabalhar, cozinhar, cuidar, dançar, celebrar, rezar, praticar esporte e circular pela cidade.
Ele pode constituir uma ocupação e também uma forma de expressão.
Uma análise ampla observa intenção, ritmo, direção, intensidade, espaço, relação com objetos, pessoas e significado cultural.
Não reduzir o movimento à execução “correta”.
Castro (2000). 
Ritmo: muito além da música
Ritmo aparece na respiração, caminhada, fala, trabalho, rotinas, ciclos e práticas culturais.
Atividades possuem velocidade, duração, alternância, pausas e sequências (e esses elementos influenciam a participação).
Em uma experiência coletiva, é possível:
acompanhar um ritmo comum
criar variações
produzir sons ou gestos
escolher pausar
participar observando ou conduzindo
Dança: ocupação, expressão e participação cultural
A dança pode ser trabalho, lazer, arte, celebração, prática religiosa, convivência, memória ou resistência.
Não se limita a uma técnica formal nem exige um corpo “ideal”.
Participar pode envolver mover-se sentado ou em pé, criar gestos, produzir ritmos, escolher músicas, organizar o espaço, narrar, registrar ou observar.
Perguntas antes de propor dança
A pessoa deseja participar?
Que relação ela tem com essa linguagem?
Há desconforto com toque ou exposição?
Existem valores culturais ou religiosos envolvidos?
Que outras formas de participação são possíveis?
Corpo, corporeidade e expressão
Companhia Crepúsculo – Programa Especial (TV Brasil)
Conheça a ONG Crepúsculo de BH – Programa Especial (TV Brasil)
Antes de assistir
Observe como cada pessoa se movimenta, ocupa o espaço e se expressa.
Preste atenção às escolhas dos participantes e às relações com outras pessoas.
Identifique apoios que favorecem a participação e a criação.
A CREPÚSCULO é Organização social que promove o desenvolvimento do ser humano por meio de ações inclusivas para pessoas com deficiências, suas famílias e a sociedade, com metodologia que contempla arte, cultura, saúde e assistência social. Infelizmente parece ter encerrado suas atividades.
Corpo, cultura e modos coletivos de aprender
Em diferentes comunidades, conhecimentos podem ser produzidos e transmitidos corporalmente: fazendo, observando, acompanhando, repetindo, convivendo e ocupando o território.
O corpo, atividade, território, ancestralidade e espiritualidade podem aparecer profundamente articulados em determinados modos de vida.
Isso não autoriza generalizações: cada contexto precisa ser conhecido em suas especificidades.
Para a Terapia Ocupacional
aproximar-se com escuta;
reconhecer saberes locais;
evitar transformar práticas culturais em técnicas sem contexto;
aceitar o lugar de aprendiz.
Diversidade corporal e acessibilidade: mudar a proposta, não “corrigir” a pessoa
Barreiras possíveis em uma prática corporal
exigir permanência em pé
usar somente comandos orais
impor velocidade única
tornar o toque obrigatório
usar música excessivamente alta
valorizar um padrão de movimento
exigir exposição pública
Possibilidades de acessibilidade
opções sentadas e em pé
demonstrações visuais e verbais
pausase escolha de intensidade
participação sem toque
diferentes papéis na atividade
antecipação da sequência
planejamento compartilhado
Cuidados éticos nas práticas corporais
Explicar
o que será feito e por quê
Consentir
não presumir toque ou exposição
Oferecer alternativas
sentado, em pé, observando, conduzindo
Respeitar limites
dor, fadiga, cultura, religião, privacidade
Evitar julgamento
peso, aparência, “qualidade” estética do movimento
Permitir pausa/recusa
sem constrangimento ou punição
Participar corporalmente não significa fazer exatamente o mesmo movimento que todas as outras pessoas.
Corpo, corporeidade e expressão
Companhia Crepúsculo – Programa Especial (TV Brasil)
Conheça a ONG Crepúsculo de BH – Programa Especial (TV Brasil)
Depois de assistir
Que cena revela o corpo como experiência vivida, para além de suas funções?
Como os movimentos expressam intenções, sentimentos e singularidades?
O que os vídeos provocam sobre padrões de corpo e possibilidades de participação?
Relacione as cena à corporeidade e ao direito à participação cultural.
Analisando uma atividade corporal em Terapia Ocupacional
Corporal
posição, mobilidade, coordenação, equilíbrio, resistência
Sensorial
som, luz, toque, movimento, proximidade, intensidade
Cognitiva
atenção, compreensão, memória da sequência, decisão
Emocional
segurança, exposição, confiança, imagem corporal
Social
cooperação, negociação, sincronização, respeito a limites
Cultural
origem, significado, religiosidade, gênero, território, códigos sociais
Participação
escolha, adaptações, pausas, papéis, autoria
Atividade avaliativa em grupo 
Tempo: +-30 minutos | 21h–21h30 | entrega em sala
Situação
Uma terapeuta ocupacional organiza uma oficina de dança. A sequência é demonstrada em pé, todos devem reproduzir os mesmos movimentos, a música permanece alta, parte da atividade ocorre em duplas com toque nas mãos e ao final cada dupla deve se apresentar para o grupo.
Tarefa do grupo
Analisar as barreiras da proposta e redesenhá-la para ampliar participação, escolha, significado e acessibilidade.
Grupos fixos de aproximadamente 5/6 estudantes. Somente presentes constam na entrega. Valor: 0,75 ponto.
Cada grupo, uma perspectiva diferente
1
Pessoa usuária de cadeira de rodas
2
Pessoa com dor crônica e fadiga
3
Pessoa surda
4
Pessoa com deficiência visual
5
Pessoa sensível a sons intensos
6
Pessoa com defensividade tátil
7
Pessoa com restrição religiosa/cultural a certos contatos corporais
8
Pessoa desconfortável com exposição pública
9
Pessoa que precisa de instruções mais curtas e previsíveis
10
Pessoa idosa que prefere movimentos em menor intensidade
As perspectivas não definem a pessoa; servem apenas para obrigar o grupo a pensar como a proposta pode oferecer múltiplas formas de participação.
Roteiro de entrega…respondam na mesma folha
1. Barreiras
Quais aspectos da proposta podem dificultar ou impedir a participação?
2. Significado
Que informações ainda precisaríamos conhecer sobre a pessoa e sua relação com dança/movimento?
3. Redesenho
Como mudar ambiente, instruções, ritmo, toque, intensidade ou forma de participação?
4. Escolha
Que alternativas reais de participação serão oferecidas?
5. Terapia Ocupacional
Como a análise de atividade contribui sem reduzir a experiência ao desempenho motor?
Encerramento
Para levar da UA 5
O corpo não apenas executa atividades: sente, comunica, aprende, lembra, ocupa espaços e participa de relações.
Na Terapia Ocupacional, trabalhar com o corpo não significa produzir um movimento padrão, significa criar condições para experiências significativas, escolhidas e acessíveis.
Referências
CASTRO, E. D. Arte, corpo e Terapia Ocupacional: aproximações, intersecções e desdobramentos. Revista de Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo, São Paulo, v. 11, n. 1, p. 7-12, 2000. 
BRUNELLO, M. I. B. Reflexões sobre a influência do fator cultural no processo de atendimento de Terapia Ocupacional. Revista de Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo, São Paulo, v. 2, n. 1, p. -, 1991.
DORNELES, Patrícia Silva. Políticas culturais. In: Cavalcanti & Galvão. Terapia Ocupacional: fundamentação e prática. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2025. cap. 38, p. 375-384. 
SALASAR, D. N. Diversidade e acessibilidade cultural. In: Cavalcanti & Galvão. Terapia Ocupacional: fundamentação e prática. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2025. cap. 39, p. 385-391. 
COSTA, S. L; MACEDO, M. D. C. Povos e comunidades tradicionais. In: Cavalcanti & Galvão. Terapia Ocupacional: fundamentação e prática. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2025. cap. 40, p. 392-397]. 
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