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Aula 01 Seja bem-vindo à disciplina de Direito Internacional Público e Direito Internacional Privado. Ao longo das aulas iremos trabalhar, juntos, os conceitos elementares da disciplina, bem como seus institutos fundamentais. Nessa primeira aula iremos trabalhar as noções básicas, princípios e fontes do Direito Internacional Público. Ao Direito Internacional Privado deixaremos as aulas finais. Boa aula e bons estudos. 1. Conceito e nomenclatura Embora a denominação Direito Internacional seja consagrada, não nos parece a que melhor se adeque ao rigor científico. Isto porque considerando, ainda, que existem princípios e normas próprias a cada ramo do direito, é incorreto adotar um nome que não reflita o conteúdo da disciplina. Marcelo D. Varella ensina que a sociedade internacional “composta por Estados, Organizações Internacionais [com natureza jurídica de Direito Público] e, mais recentemente, aceita-se em diferentes níveis a participação de entes com algumas características estatais”. No idioma inglês a denominação é International Law, cuja tradução para os idiomas latinos foi Direito Internacional. De se observar que a expressão Inter-Nacional quer dizer entre-nações. Se para o inglês Nação e Estado podem ser sinônimos, em português não. Juridicamente, um país soberano é um Estado e não uma Nação. Seria correto se o direito internacional, ao assim ser denominado, abrangesse apenas os Estados soberanos, o que já não acontece nos dias de hoje, conquanto surgiram as Organizações Internacionais, ou Organismos Internacionais e o ser humano (que para alguns é sujeito de Direito Internacional Público). Todavia, na Comunidade Internacional, há outros sujeitos que atuam e, por isso, ainda que fosse mais exato denominar a disciplina de direito inter-estatal, já não se mostraria adequado à realidade atual. Assim, seja pela tradição, seja pela comodidade na doutrina brasileira permanece a expressão equivocada de Direito Internacional. Ademais, sendo o direito internacional um Direito entre nações e, por isso, lida com pessoas de direito internacional público, a expressão público se mostra redundante, desnecessária. Havendo, também, quem defenda a a não existência de um Direito Internacional Privado de modo que se não há um direito internacional privado não seria necessária a utilização do termo público. Já com relação ao Direito Internacional Privado, remete-se às normas de Direito privado que foram estabelecidas a partir da convivência do direito interespacial, ou seja, a harmonização de regras de direito que envolvem, em princípio, nacionais de países diferentes e que têm relações a serem confrontadas. Exemplo disso é o negócio que envolve ou indivíduos ou pessoas jurídicas de dois ou mais Estados; o casamento entre nacionais de diferentes países; as questões de direito sucessório de pessoas oriundas de países diversos e que têm regras distintas quanto à sucessão. Os contratos internacionais, os Tratados que regularam certos aspectos da vida privada, como os cheques, e que os países internalizaram grande parte das regras a respeito, baseados em tal Convenção. O objeto do Direito Internacional Privado é o conflito de leis no espaço, visto esse espaço como o de ordenamentos jurídicos diversos. Ambos as disciplinas – Direito Internacional Público e Direito Internacional Privado tem profundas afinidades entre si, trabalhando ambos com fontes e institutos comuns – tratados, nacionalidade, extração – e com o mesmo objetivo – a convivência pacífica e harmônica entre os povos. Estudando a histórica relação entre os países, nota-se que na medida que os países se tornaram independentes e, portanto, soberanos, aumentava também a necessidade de relações internacionais permanentes, possuindo uma base jurídica. Assim, houve necessidade de se estabelecer regramentos disciplinando essas relações. O estudo do direito internacional não se faz alheio à realidade das relações jurídico-políticas entre os Estados e das relações sócio-econômicas daí decorrentes. É bem verdade que a origem elitista e oligárquica dos países europeus, onde se originaram as primeiras regras de direito internacional, caminhando para um complexo de relações e de uma quantidade significativa de países em comparação com o início histórico noticiado, foi necessária a construção normativa baseada no costume e, aos poucos, sendo transformada em regras aceitas, ora costumeiras, ora escritas. Reconhece- se, hoje, a existência não mais de uma sociedade relacional, em que os países, por necessidade econômica, social, histórica e, quase sempre, devido a defesa de interesses egoísticos e disputas bélicas, encontravam-se pontualmente, eventualmente, mas de uma sociedade internacional cujas relações são constantes, contínuas, permanentes, intensas, baseadas em regras escritas e costumeiras, permeada por representações diplomáticas, pela diplomacia parlamentar e um aparato normativo substancial. 2. Sujeitos e atores de direito internacional Na ordem internacional são sujeitos do direito internacional público os Estados e as Organizações Internacionais de Direito Público. O ser humano somente recentemente passou a ser considerado sujeito de Direito Internacional Público, e, mesmo agora, possui capacidade de agir contra o Estado do qual é nacional – nato ou naturalizado – por violação dos Direitos Humanos. Sobre essas situações, cuidaremos no momento oportuno. Marcelo D. Varella estabelece uma distinção entre sujeitos e atores do direito internacional. Os primeiros são dotados de capacidade para titularizar direitos e obrigações na ordem internacional, isto é, os sujeitos detém capacidade de serem titulares de direitos e obrigações. Já os atores, são aqueles que podem participar, de alguma forma, das relações jurídicas e da política internacionais. Para o autor, são atores do Direito Internacional Público: Estados, Organizações Internacionais de Direito Público, as organizações não-governamentais, as empresas, e os indivíduos. De se observar, portanto, que o conceito de atores é bem mais amplo do que o de sujeitos. Sujeitos Atores Estados Estados Organizações Internacionais de Direito Público Organizações Internacionais de Direito Público Ser humano: restrito às relações com seu Estado por violação aos direitos humanos. Organizações não governamentais *.* Empresas privadas *.* Indivíduos. 3. Características da Sociedade Internacional A produção das normas dentro do direito interno nos diversos Estados que compõem a Sociedade Internacional, principalmente nos Estados Ocidentais, quer de origem romanística, quer no sistema do commom law, obedece, em geral, uma padrão centralizado, em que as instituições que compõe o poder do país, classicamente denominado tri-partição do poder, têm um papel bem definido. Assim é que se tem o Poder Executivo ( Presidente, Rei, Primeiro Ministro, etc.), o Poder Legislativo ( uni-cameral ou bi- cameral, o Parlamento ) e o Judiciário ( onde se diz o direito, a jurisdição ). Fala-se, por isto, que é um sistema centralizado. O reconhecimento histórico desta situação, informa que houve um caminhar histórico-social rumo a um Sistema de Governo associado a um Sistema Normativo nos países. Ora por meios pacíficos, ora por meios violentos, tal resultou numa certa homogeneidade nos países ocidentais, em primeiro lugar e, evolutivamente, pode-se dizer na maioria dos países pertencentes à Sociedade Internacional. Na Sociedade Internacional, partindo-se da produção normativa baseada em grande parte no Costume Internacional e na Codificação parcial alcançada até hoje através dos Tratados, é real que esta Sociedade se estruturou de forma diversa das Sociedades Nacionais, internas. Assim, a Sociedade/Comunidade Internacional tem certasos pregos do caixão da Liga das Nações. Com o término da Segunda Grande Guerra Mundial foi colocado em prática um plano que já vinha sendo desenhado pelas potencias mundiais: as Nações Unidas. De abril a julho de 1945 foi elaborada a Conferência das Nações e em 24 de outubro desse ano entrou em vigar a Carta de São Francisco (Carta das Nações Unidas), cuja arquitetura estrutural foi feita pelo presidente Franklin Delano Roosevelt possuindo sede em Manhattan, com extraterritorialidade (sua sede é considerado um território mundial). 3.2.2 Estrutura A O.N.U. possui seis órgãos principais, a saber: a Assembleia Geral, o Conselho de Segurança; o Secretariado; o Tribunal Internacional de Justiça, o Conselho Econômico e Social; o Conselho de Direitos Humanos. Além desses órgãos existem várias agências destinadas a cuidar de uma temática específica. Para o objetivo da presente aula, apenas cuidaremos da Assembleia Geral, o Conselho de Segurança, a Corte Internacional de Justiça e o Secretariado. 3.2.2.1 Assembleia Geral A Assembleia Geral das Nações Unidas é o principal órgão e é responsável pela tomada de decisões importantes, excluídas as competências exclusivas do Conselho de Segurança. Cada Estado integrante da O.N.U. terá uma representação, com até cinco membros, perante a Assembleia Geral, com direito a um voto. Importante destacar que cada país terá direito a um voto, de igual valor para todos. A Assembleia poderá discutir quaisquer questões relativas à manutenção da paz e da segurança internacionais, que a ela forem submetidas por qualquer Membro das Nações Unidas, ou pelo Conselho de Segurança, ou por um Estado que não seja Membro das Nações Unidas, desde que a controvérsia não esteja sendo objeto de discussão no Conselho de Segurança. Como regra geral, as decisões da Assembleia Geral são tomadas por maioria dos membros presentes e que votem (as abstenções não são computadas). Contudo, existem questões de maior relevância e que merecem um quórum qualificado de 2/3 dos membros presente e votantes, quais sejam: a) recomendações relativas à manutenção da paz e da segurança internacionais; b) à eleição dos Membros não permanentes do Conselho de Segurança; c) à eleição dos Membros do Conselho Econômico e Social; d) à eleição dos Membros dos Conselho de Tutela, de acordo como parágrafo 1 (c) do Artigo 86; e) à admissão de novos Membros das Nações Unidas; f) à suspensão dos direitos e privilégios de Membros; g) à expulsão dos Membros; questões referentes o funcionamento do sistema de tutela e questões orçamentárias. A Assembleia Geral se reunirá, ordinariamente, uma vez por ano e, extraordinariamente sempre que for convocada pelo Secretário Gerla, a pedido do Conselho de Segurança ou da maioria dos Membros das Nações Unidas. Merece destaque o fato de que para cada reunião será eleito o seu presidente, de modo que a O.N.U. não possui presidente permanente, mas apenas para a sua Assembleia Geral. 3.2.2.2 Conselho de Segurança O Conselho de Segurança das Nações Unidas é o órgão dentro da estrutura da O.N.U. destinado à manutenção da paz e da segurança internacionais. É composto por 15 (quinze) membros, sendo 05 (cinco) permanentes e 10 (dez) membros não-permanente ou rotativos. São membros permanentes do Conselho de Segurança: China; Rússia; França, Reino Unido; e Estados Unidos da América. Os membros não permanentes serão eleitos pela Assembleia Geral para um mandato de 02 (dois) anos, sendo vedada a reeleição para um período imediatamente ao término do mandato. Todos os membros – permanentes ou não – terão direito a um voto, e as decisões, nas questões processuais, serão tomadas por 09 (nove) votos. Nas demais materiais, também será necessário o quórum de 09 (nove) votos, mas todos os membros permanentes deverão assentir com a decisão. É o chamado poder de veto dos membros permanentes do Conselho de Segurança. Ao contrário da Assembleia Geral, o Conselho de Segurança da está estruturado de forma a funcionar de forma continua, devendo ter representante de todos os países que o integre. O Conselho de Segurança é o único órgão que, independentemente da manifestação da Assembleia Geral, poderá executar suas próprias decisões, que deverão ser cumpridas pelos países partes da O.N.U. e mesmo pelos países que não integrem as Nações Unidas. 3.2.2.3 Corte Internacional de Justiça A Corte Internacional de Justiça, também chamado de Tribunal, é formada por 15 (quinze) juízes, de distintas nacionalidades (não pode ter juízes da mesma nacionalidade). Serão eleitos pela Assembleia Geral da O.N.U. e também pelo Conselho de Segurança para exercerem um mandato de 09 (nove) anos, podendo ser reeleitos. Interessante notar que os Estados-Membros das Nações Unidas não são, automaticamente, signatários da Corte Internacional de Justiça. A Corte funcionará permanentemente, exceto durante as férias judiciárias, cuja data e duração serão por ela fixadas. Terá a Corte competência para resolver as questões levadas à sua jurisdição pelos Estados-Membros, em especial as matérias previstas no artigo 36, de seu estatuto, veja-se: Artigo 36. 1. A competência da Corte abrange todas as questões que as partes lhe submetam, bem como todos os assuntos especialmente previstos na Carta das Nações Unidas ou em tratados e convenções em vigor. 2. Os Estados partes no presente Estatuto poderão, em qualquer momento, declarar que reconhecem como obrigatória, ipso facto e sem acordo especial, em relação a qualquer outro Estado que aceite a mesma obrigação, a jurisdição da Corte em todas as controvérsias de ordem jurídica que tenham por objeto: a) a interpretação de um tratado; b) qualquer ponto de direito internacional; c) a existência de qualquer fato que, se verificado, constituiria a violação de um compromisso internacional; d) a natureza ou a extensão da reparação devida pela ruptura de um compromisso internacional. 3. As declarações acima mencionadas poderão ser feitas pura e simplesmente ou sob condição de reciprocidade da parte de vários ou de certos Estados, ou por -prazo determinado. 4. Tais declarações serão depositadas junto ao Secretário Geral das Nações Unidas, que as transmitirá, por cópia, às partes contratantes do presente Estatuto e ao Escrivão da Corte. 5. Nas relações entre as partes contratantes do presente Estatuto, as declarações feitas de acordo com o artigo 36 do Estatuto da Corte Permanente de Justiça Internacional e que ainda estejam em vigor serão consideradas como importando na aceitação da jurisdição obrigatória da Corte Internacional de Justiça pelo período em que ainda devem vigorar e de conformidade com os seus termos. 6. Qualquer controvérsia sobre a jurisdição da Corte será resolvida por decisão da própria Corte. Nos termos do artigo 38 de seu estatuto, a Corte Internacional de Justiça deverá decidir de acordo com regras de Direito Internacional, aplicando: a) as convenções internacionais, quer gerais, quer especiais. que estabeleçam regras expressamente reconhecidas pelos Estados litigantes; b) o costume internacional, como prova de uma prática geral aceita como sendo o direito; c) os princípios gerais de direito reconhecidos pelas Nações civilizadas; d) sob ressalva da disposição do art. 59, as decisões judiciárias e a doutrina dos publicistas mais qualificados das diferentes Nações, como meio auxiliar para a determinação das regras de direito. As decisões da Corte Internacional de Justiça deverão ser cumpridas pelas partes do processo. Além da função jurisdicional, nos termos do artigo 65 de seu estatuto, a Corte Internacional de Justiça terá função consultiva. 3.2.2.4 Secretariado O Secretariado das Nações Unidas é composto por um Secretário- Geral,que será eleito pela Assembleia Geral mediante recomendação do Conselho de Segurança, para um mandato de 05 (cinco) anos, admitida, por tradição, uma única reeleição. Caberá ao Secretário-Geral formar o restante de seu secretariado, observando a representatividade geográfica possível. Além dessa função, o Secretário- Geral das Nações Unidas funcionará como o braço executivo, podendo participar de reuniões do Conselho de Segurança e mesmo submeter alguma matéria à sua deliberação. Todos os Estados-Membros das Nações Unidas se comprometem, sempre que necessário, despender esforços para ajuda-los a desenvolver seus objetivos. Ainda, a Carta das Nações Unidas, no desempenho de seus deveres, o Secretário-Geral e o pessoal do Secretariado não solicitarão nem receberão instruções de qualquer governo ou de qualquer autoridade estranha à organização. Abster-se-ão de qualquer ação que seja incompatível com a sua posição de funcionários internacionais responsáveis somente perante a Organização. 3.3 União Europeia 3.3.1 Histórico Com o término da Segunda Grande Guerra Mundial, a Europa se via em verdadeira ruína. Visando a reconstrução os Estados da Bélgica, Holanda, Luxemburgo, França, Itália e Alemanha criam, em 1950, a Comunidade Europeia de Carvão e Aço (CECA). De se observar que essa comunidade era formada por países devastados pela guerra e outros com pequenos territórios. Logo na sua criação, a CECA teve estruturas supranacionais de caráter federativo, acima de Estados Soberanos. Ainda na década de 1950, mais precisamente em 1957, foram assinados, na cidade de Roma, 2 tratados que criaram a Comunidade Econômica Europeia – união aduaneira entre os Estados Membros – e a Comunidade Europeia de Energia Atômica, visando a integração energética. Em 1972, ocorreu a primeira entrada de novos membros: Reino Unido, Irlanda e Dinamarca. Em 1979, A Grécia ingressa. Em 1985, foi a vez de Portugal e em !986 a Espanha. No ano de 1993, foi criada a União Europeia, com a integração das três comunidades anteriores (Comunidade Europeia do Carvão e Aço; Comunidade Econômica Europeia; e Comunidade Europeia de Energia Atômica). Foi o Tratado de Maastricht o responsável pela sua criação. No ano de 1995 ingressaram na União Europeia a Áustria, a Finlândia e a Suécia. Também entraram os países do Leste Europeu. Em 2004 ingressaram a Polônia, Lituânia, República Tcheca, Eslováquia, Hungria, Estônia, Eslovênia, Malta e Chipre. No ano de 2007, foi a vez da Romênia e a Bulgária. Também no ano de 2007, foi assinado o Tratado de Lisboa de modo que a União Europeia sucedeu, definitivamente, as comunidades europeias. Recentemente, o Parlamento Europeu aprovou uma Constituição para a União Europeia, contudo, o projeto não foi aprovado por plebiscito nos Estados- Europeus. Atualmente, encontra-se em processo de retirada da União Europeia o Reino Unido, após decisão tomada em plebiscito pelos súditos de Sua Majestade. 3.3.2 Estrutura A União Europeia possui as seguintes estruturas organizacionais: foros executivos (Conselho Europeu e a Comissão Europeia); foros de caráter legislativo (Conselho da União Europeia e o Parlamento Europeu); foros de caráter judiciário (Tribunal de Primeira Instância, Tribunal da Função Pública, Tribunal de Contas e Tribunal de Justiça). 3.3.2.1 Foros Executivos Formado pelos chefes de Estado e de Governo dos países Membros da União Europeia e também pelo presidente da Comissão Europeia, o Conselho Europeia é o órgão responsável por decidir sobre a diretrizes que serão tomadas pela Comunidade. Já a Comissão Europeia, que representa os interesses da União Europeia como um todo, é uma instância supranacional, formada por 27 Comissionários (um de cada país membro da União Europeia, e com a saída do Reino Unido o número deverá ser reduzido para 26). Cabe ao Parlamento Europeu a escolha do presidente da Comissão Europeia. São funções da Comissão Europeia: a) Propor legislação ao Parlamento e ao Conselho; b) Gerir e aplicar as políticas da União Europeia, assegurando a execução das normas emanadas do Conselho, ou do Conselho e do Parlamento Europeu, do orçamento e dos programas adoptados pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho da União Europeia; c) Fazer cumprir a legislação Europeia, zelando pelo respeito do direito comunitário, juntamente com o Tribunal de Justiça; d) Representar a União internacionalmente, negociando acordos internacionais, essencialmente em matéria comercial e de cooperação. 3.3.2.2 Foros Legislativos O Conselho da União Europeia é órgão legislativo da União Europeia, formado por Ministros de cada Estado-Membro da União, agrupados nas diferentes pastas, tais como economia, saúde, agricultura, etc. A tomada de decisões é feita considerando o tipo de matéria a ser aprovada e, aqui, não existe voto igualitário entre os Estados, mas, sim, uma proporcionalidade relativa à população de cada Estado. Assim, quanto mais populoso um país, maior será o peso de seu voto. Já o Parlamento Europeu é integrado por representantes eleitos pela população de cada Estado-Membro. A representação dos Estados será feita de acordo com a população, sendo no mínimo 6 e no máximo 96 Deputados por país. O mandato é de cinco anos não havendo proibição para reeleição. Além da função legislativa, o Parlamento Europeu é responsável por exercer controle democrático e orçamentário. 3.3.2.3 Foros Judiciários Os foros judiciais da União Europeia são integrados pelo Tribunal de Primeira Instância, o Tribunal da Função Pública, o Tribunal de Contas e o Tribunal de Justiça. Insta consignar que no Brasil, o Tribunal de Contas não detém função judicante, mas administrativa, na medida em que apenas exercer fiscalização sobre o orçamento público. Aliás, essa também é a Função do Tribunal de Contas da União Europeia. O Tribunal de Primeira Instância é composto por 27 magistrados, que exercem mandato de 06 anos, sendo a representação de todos os membros da União Europeia. Tem por competência o julgamento de demandas propostas por particulares em face de instituições europeias, bem como o julgamento de recursos dos Estados em face de decisões da Comissão, além de ações de reparação de danos causados por instituições supranacionais. O Tribunal da Função Pública é vocacionado para o julgamento de causas administrativas, destinado a resolver demandas que envolvam as Comunidades Europeias e seus vários agentes administrativos. Por fim, o Tribunal de Justiça da União Europeia, principal órgão judiciário, é composto por 27 juízes, além de 8 advogados gerais. Esses advogados e são escolhidos de comum acordo por todos os membros da União Europeia exercendo função assemelhada à do Ministério Público. O mandato dos juízes e dos advogados gerais é de 06 anos. O Tribunal possui competência para dar a última palavra em relação ao direito comunitário, sendo competente, portanto, para julgar recursos em face de decisões dos demais órgãos judiciários. 3.4. Mercosul 3.4.1 Histórico A primeira tratativa para a criação do Mercosul ocorreu, ainda durante a Segunda Grande Guerra Mundial, entre o Brasil e a Argentina. Pretendiam os dois países a criação de uma união aduaneira. Contudo, em decorrência de questões políticas envolvendo o posicionamento da Argentina durante a Guerra, tal plano não teve seguimento. No ano de 1985 os presidentes da Argentina e do Brasil, respectivamente, Raúl Alfonsin e José Sarney, assinaram o Tratado de Iguaçu, base para iniciar a integração. Em 1991, na cidade de Assunção, no Paraguai, foi assinado o Tratado de Assunção, pelos presidentes da Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, criando o Mercado Comum do Sul, o Mercosul. Em 2003 a Venezuela deu inicio à sua entrada no Mercosul e, como devendoser aprovada pelo Parlamentos de todos os países Membros do Bloco. Argentina e Paraguai rapidamente aprovaram a entrada. O Brasil somente aprovou em 2009. Contudo, o Parlamento do Paraguai jamais aprovou a entrada da Venezuela. Em 2012, um fato político ocorrido no Paraguai acabou por causar a sua suspensão do Mercosul e, com isso, a Argentina, o Brasil e o Uruguai consideraram que a entrada da Venezuela estaria aprovada. O fato político foi o processo de impeachment do presidente Fernando Lugo. Os demais membros do Mercosul consideraram uma ruptura com a ordem democrática e, por isso mesmo, o suspenderam. Realizada nova eleição, o Paraguai foi integrado ao Mercosul. Assim, atualmente o Mercosul conta com apenas 5 membros plenos: Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela. E também 5 Estados associados: Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru. Além desses existem 2 Estados observadores: o México e a Nova Zelândia. 3.4.2 Estrutura O Mercosul possui os seguintes três órgãos principais, a saber: Conselho do Mercado Comum; o Grupo Mercado Comum; O Parlamento do Mercosul. A Presidência do Mercosul é rotativa, para um mandato de 06 seis meses. 3.4.2.1 Conselho do Mercado Comum O Conselho do Mercado Comum, máxima instância do Mercosul, correspondendo-lhe a condução política do mesmo e a tomada de decisões para assegurar o cumprimento dos objetivos e prazos estabelecidos para a constituição definitiva do Mercado Comum. Conselho é integrado pelos Ministros de Relações Exteriores e pelos Ministros de Economia dos Estados-Membros e deve se reunir sempre que necessário, mas pelo menos uma vez ao ano com a presença dos Chefes de Estados dos países- parte. 3.4.2.2 Grupo Mercado Comum O Grupo Mercado Comum é órgão executivo do Mercosul sendo coordenado pelos Ministros das Relações Exteriores dos países-membros, possuindo as seguintes funções: a) velar pelo cumprimento do Tratado; b) tomar as providências necessárias ao cumprimento das decisões adotadas pelo Conselho; c) propor medidas concretas tendentes à aplicação do Programa de Liberação Comercial, à coordenação de políticas macroeconômicas e à negociação de Acordos frente a terceiros; d) fixar programas de trabalho que assegurem avanços para o estabelecimento do Mercado Comum. O Grupo de Mercado Comum terá 4 membros titulares e 4 suplentes de cada Estado-parte, representando os seguintes órgãos dos países parte: a) Ministérios das Relações Exteriores; b) Ministério da Economia ou seus equivalentes (área de indústria, comércio exterior e/ou coordenação econômica); c) Banco Central. 3.4.2.3 Parlamento do Mercosul O Parlamento do Mercosul é integrado por Deputados de cada um dos Estados-partes, seguindo-se uma proporcionalidade com a população. O Brasil e a Argentina, por serem os países mais populosos têm, cada um, 42 Deputados. Já o Paraguai, o Uruguai e a Venezuela têm, cada um 18 Deputados. Uma curiosidade, o brasileiro Arlindo Chinaglia, atualmente, é o presidente do Parlasul. Ao contrário do que ocorre com o Parlamento Europeu, o Parlamento do Mercosul detém apenas competência consultiva, notadamente quanto ao cumprimento da cláusula democrática, quando do respeito aos direitos humanos. Atualmente inexiste eleição especifica para o cargo de Deputados do Mercosul. Assim, hodiernamente os Deputados do Mercosul são escolhidos dentre os membros dos Parlamentos dos países-membros do Mercosul.características que a diferenciam do direito interno dos Estados. São as seguintes características da Sociedade Internacional: a) DESCENTRALIZAÇÃO : Não há um centro de poder de onde parte a Administração mundial, nem a produção de normas. Não há um parlamento permanente, com uma Constituição ou um Tratado que lhe fixe as regras e lhes dê legitimidade. São os sujeitos de Direito Internacional Público (Estados e as Organizações Internacionais) que, em consenso, fixam as regras jurídicas. b) INEXISTÊNCIA DE “PODER JUDICIÁRIO”. Muito embora existam algumas Cortes Internacionais, elas não estão vocacionadas ao julgamento de qualquer matéria ou mesmo ter qualquer pessoa demandando. Os juízes representam as macro-regiões em que o mundo está dividido e somente se submetem à jurisdição dos Tribunais aqueles que, voluntariamente, a aceitam. c) INEXISTÊNCIA DE UM LEGISLADOR CENTRAL. Com efeito, não se concebe um parlamento mundial, eleito pelos países com alguma forma de representação, que discutisse e votasse “leis” internacionais, ainda que, no âmbito da União Europeia já seja possível falar em Parlamento Europeu. A produção normativa está limitada aos Tratados Internacionais de caráter normativo. Como regra, obriga-se ao Tratado quem o ratificou ou a ele aderiu posteriormente. Em muitos casos, há a formulação de reservas que exclui certas obrigações. d) INEXISTÊNCIA DE UMA FORÇA POLICIAL INTERNACIONAL: Não há uma polícia judiciária internacional. A possibilidade do uso da força, em razão de alguma desobediência à decisão da Corte Internacional de Justiça, embora seja possível, ainda não foi usada. Ademais, o uso legitimo da força somente pode ser autorizado pelo Conselho de Segurança da O.N.U. que incumbirá as forças dos Estados-Membros para manter a paz e a segurança internacionais. De observar sempre que a postura do Conselho de Segurança é política e não de justiça, ou seja, não é órgão jurisdicional, sujeito, portanto, às influências do jogo político internacional. e) BASEIA-SE NA IGUALDADE JURÍDICA DOS ESTADOS. A igualdade jurídica significa igualdade formal e tem o mesmo sentido da frase aplicada nas relações civis e penais aplicada aos indivíduos nos países: “todos são iguais perante a lei”. Em relação aos Estados, tal igualdade origina-se no fato de que cada país é soberano e, portanto, todos são iguais quanto à independência e soberania. Na Sociedade Internacional não decorre que a igualdade jurídica signifique igualdade de poder, isto é, igualdade material. Disto decorre que “não existe um poder soberano acima dos Estados” que os presida. f) É UNIVERSAL E ABERTA: É aberta porque preenchidos os requisitos de ser sujeito da mesma qualquer Estado poderá fazer parte, não havendo um número determinado de membros, uma limitação que impeça a entrada de mais sujeitos dentro do que o ordenamento internacional normatiza. Assim, se existem mais de 190 países na Comunidade Internacional, poderá haver mais outros Países que fiquem soberanos e integrem a ordem internacional. Tal assertiva é válida também para as Organizações Internacionais que venham a ser criadas. 4. Fontes do Direito Internacional Público As fontes materiais do Direito Internacional Público se relacionam aos fatores sociais, político, econômicos, históricos e outros que induzem o nascimento da norma positivada. No caso do Direito Internacional, estes fatores estariam imediatamente ligados ao surgimento ora do costume, ora de uma Convenções internacional. Já as fontes formais é o direito revelado na norma, isto é, é a positivação do direito. Pode-se apontar como principais fontes formais: a) costume internacional; b) convenções ou tratados internacionais; c) princípios gerais do Direito Internacional Público; d) os atos unilaterais dos Estados; e) as resoluções obrigatórias das Organizações Internacionais. O Tratado da Corte Internacional de Justiça, em seu artigo 38, prevê as fontes de Direito Internacional Público que devem ser observados em seus julgamentos. Senão, vejamos: Artigo 38 A Corte, cuja função é decidir de acordo com o direito internacional as controvérsias que lhe forem submetidas, aplicará: a. as convenções internacionais, quer gerais, quer especiais, que estabeleçam regras expressamente reconhecidas pelos Estados litigantes; b. o costume internacional, como prova de uma prática geral aceita como sendo o direito; c. os princípios gerais de direito, reconhecidos pelas nações civilizadas; d. sob ressalva da disposição do Artigo 59, as decisões judiciárias e a doutrina dos juristas mais qualificados das diferentes nações, como meio auxiliar para a determinação das regras de direito. A presente disposição não prejudicará a faculdade da Corte de decidir uma questão ex aequo et bono, se as partes com isto concordarem. 4.1 O costume Internacional Algumas regras entre os Estados já existiam de modo prático, como um direito consuetudinário, daí ser denominado também como “Direito internacional não escrito” (“jus non scriptum” ), Direito Internacional Geral, Direito Internacional Comum e por fim Direito Internacional Consuetudinário. Como inexiste um centro unificado de produção de normas internacionais, o consiste, mesmo na atualidade, uma das mais importantes fontes do Direito Internacional Público. O costume possui dois elementos constitutivos, quais sejam, a) um elemento material (consuetudo): consiste em uma prática reiterada de comportamentos, que, no início de sua formação, pode ser um simples uso ou prática; e b) um elemento psicológico (subjetivo): é a “opinio juris vel necessitatis” ou seja, a certeza de que tais comportamentos são obrigatórios. Assim, o costume requer um período longo para que a sua repetição se consolide como fonte do Direito. 4.2 Tratados Internacionais O tratado pode ser conceituado como um acordo internacional concluído por escrito entre Estados ou entre Estados e Organizações Internacionais, regido pelo Direito Internacional Público. Daí porque é uma redundância denominar o tratado como internacional, pois por definição ele já o é. É uma das principais fontes do Direito Internacional e, por isso mesmo, será objeto de estudo da próxima aula. 4.3 Princípios gerais do Direito Internacional São 05 (cinco) os princípios gerais de direito internacional público, quais sejam: a) igualdade entre os Estados; b) autonomia, não ingerência nos assuntos internos dos outros Estados; c) proibição do uso da força e incentivo à solução pacífica de controvérsias; d) respeito aos direitos humanos; e) cooperação internacional. A Constituição Federal, em seu artigo 4º, estampa em princípios nas relações internacionais do Brasil. Senão, vejamos: Art. 4º A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios: I - independência nacional; II - prevalência dos direitos humanos; III - autodeterminação dos povos; IV - não-intervenção; V - igualdade entre os Estados; VI - defesa da paz; VII - solução pacífica dos conflitos; VIII - repúdio ao terrorismo e ao racismo; IX - cooperação entre os povos para o progresso da humanidade; X - concessão de asilo político. A igualdade de soberania leva, inevitavelmente, ao princípio da autodeterminação dos povos, que, em outras palavras, significa caber aos Estados resolverem seus próprios problemas internos. Somente em casos extremados será admitida a intervenção internacional, como, por exemplo, quando ocorrer ruptura com o processo democrático, desrespeito aos direitos humanos por parte do próprio Estado. É fácil perceber que os princípios gerais do Direito Internacional se ocupam de uma visão individualista dos Estados e, com exceção do princípio da soberania, “os demais princípios se dirigema todos os atores envolvidos na sociedade internacional”, tais como os Estados, as Organizações Internacionais, os indivíduos, as empresas, povos insurgentes etc. Como ensina Marcelo Varella os princípios gerais do Direito Internacional são reconhecidos através de um processo e não de um único ato, sendo “necessário um movimento progressivo e contínuo de reconhecimento do princípio, ao longo de práticas dos Estados, em suas relações externas”. 4.4 Atos unilaterais Os atos unilaterais são manifestações de vontade de um único sujeito e Direito Internacional, apto a produzir efeitos jurídicos na esfera da atuação do Direito Internacional Público, e, por isso, erga omnes, na comunidade dos Estados. Embora não previstos no artigo 38 da Corte Internacional de Justiça, os atos unilaterais dos sujeitos de Direito Internacional não carecem da força de gerar normas jurídicas internacionais, exigíveis de quaisquer pessoas submetidas ao Direito Internacional. É que tais atos são praticados com vistas a produzir diretamente tais efeitos, e conformar-se com os usos e costumes internacionais, como o protesto diplomático, a ratificação de um tratado, a retirada de uma organização inter-governamental, o reconhecimento formal de uma situação, digamos, de beligerância (de modo expresso, como um rompimento formal de relações diplomáticas ou, de modo implícito, como a prática de atos incompatíveis com um tratado de amizade e consulta). Pode ser, ainda, que os atos unilaterais derivem de atos gerados no ordenamento interno dos países, contudo geram efeitos externos, tais como têm efeitos internacionais. Como exemplo de atos unilaterais dos Estados temos: o rompimento de relações diplomáticas; advertências; aquiescências; oferecimento dos bons ofícios; promessas, etc. 4.5 Jurisprudência No plano internacional existem várias Cortes Judiciais, tais como ao Corte Internacional de Justiça, o Tribunal Penal Internacional e as Cortes Internacionais de Direitos Humanos. O sistema de precedentes – stare decisis – não foi adotado pelo Estatuto da Corte Permanente de Justiça Internacional. Em parte porque cada caso submetido à Corte guarda suas particularidades. A Corte Internacional de Justiça, além da função judicial, exerce a função consultiva, com a elaboração de pareceres. É o que prevê o artigo 96 da Carta da Organização das Nações Unidas: Artigo 96. 1. A Assembléia Geral ou o Conselho de Segurança poderá solicitar parecer consultivo da Corte Internacional de Justiça, sobre qualquer questão de ordem jurídica. 2. Outros órgãos das Nações Unidas e entidades especializadas, que forem em qualquer época devidamente autorizados pela Assembléia Geral, poderão também solicitar pareceres consultivos da Corte sobre questões jurídicas surgidas dentro da esfera de suas atividades. Da simples leitura do dispositivo é possível perceber que a Assembleia Geral, o Conselho de Segurança, ou qualquer outro órgão ou entidades – desde que autorizados pela Assembleia Geral – podem formular consultas à Corte. Embora o Estatuto da Corte Internacional de Justiça, em seu artigo 59, determine que “a decisão da Corte só será obrigatória para as partes litigantes e a respeito do caso em questão”, por outras palavras, produzem efeitos apenas entre as partes, é inquestionável que essas decisões sirvam de parâmetro interpretativo. Vamos sedimentar o conhecimento?!?!? Sobre os princípios dos Direito Internacional público, considere: vale 0,6 I – os tratados são acordos firmados entre Estados ou entre estes e as organizações nacionais. II –O costume não é fonte do Direito Internacional Público em decorrência da inexistência de norma expressa. III – pela ausência de um órgão de jurisdição internacional, a jurisprudência não é fonte do Direito Internacional Público. Agora marque a alternativa correta: a) os itens I e III estão corretos. b) o item III está correto. c) o item II está correto d) todas estão erradas. Comentário O item I é falso, conquanto os tratados internacionais são pactos feitos entre Estados (dois ou mais) ou entre os Estados e as organizações internacionais de direito público. O item II é falso, pois como visto o costume é, sim, fonte do Direito Internacional Público. O item III é falso. Embora, como visto, não existe o Poder Judiciário em âmbito internacional, existem algumas Cortes Internacionais – Corte Internacional de Justiça; Tribunal Penal Internacional; Corte de Justiça da União Europeia, etc. E, por esse motivo, a jurisprudência é fonte do Direito Internacional Público. Assim, o gabarito correto é a letra “d” Considere as seguintes assertivas I – Os conceitos de sujeitos e atores do Direito Internacional são sinônimos. II – A nomenclatura Direito Internacional Público sofre críticas, pois o conceito de nação e menos amplo que o de Estado. III – Uma das características do Direito Internacional é a descentralização. Agora, marque a alternativa correta: a) O item I é correto e o II é incorreto. b) O item II é correto. c) O item II é incorreto. d) O item II é correto e o III é incorreto. Comentário O item I é incorreto, pois os conceitos de sujeito de direito internacional e de ator de direito internacional não se confundem, pois o termo ator tem maior amplitude. O item II é correto, pois os estudiosos defendem que a denominação mais precisa seria a que levasse em consideração o termo estado e não nação. O item III é correto, pois a descentralização é uma das características do Direito Internacional Público. Gabarito correto é a letra “b” Aula 02 Sejam bem-vindos. Na aula de hoje estudaremos os tratados internacionais. Espero que todos gostem e que tenham um excelente aproveitamento da aula. Tratados Internacionais 1. Conceito O tratado internacional é um acordo formal firmado entre dois ou mais Estados ou entre Estados e Organizações Internacionais de Direito Público, regulados pelo Direito Internacional, destinado à produção de efeitos jurídicos. Deste modo, existe uma impropriedade quando chamamos os tratados de internacionais, uma vez que todos os tratados são internacionais, eis que feitos entre Estados ou entre estes e as Organizações Internacionais de Direito Público. Historicamente os tratados serviam às seguintes finalidades: a) formação de alianças militares; b) celebração da paz; c) estabelecimento de fronteiras; d) intercâmbio econômico e cultural. Inicialmente os tratados eram firmados apenas entre dois Estados, isto é, eram exclusivamente bilaterais. Talvez o tratado mais importante tenha sido o de Westfália, ou melhor, os tratados de Westfália, já que foram feitos vários tratados bilaterais entre os países beligerantes. Os tratados de Westfália são importantes, uma vez que colocaram fim às guerras religiosas que tomaram conta da Europa no século XVII. Por isso são chamados também de paz de Westfália. Esses tratados são responsáveis por inaugurarem uma nova ordem internacional, criando conceitos como a soberania dos Estados e do Estado Nação. 2. Características dos Tratados Os tratados, como acordos que são, determinam a existência de 03 (três) características principais, quais sejam: a consensualidade; a ausência de hierarquia; e a ausência de formalismo. A primeira característica é a consensualidade. Isto é, o tratado deve ser uma manifestação de vontade. Essa manifestação de vontade deve ser livre e desimpedida, fundamentando-se na autonomia dos Estados signatários (participantes do tratado). Será a consensualidade que trará e garantirá a estabilidade ao pacto firmado entre os Estados ou entre estes e Organizações Internacionais. Outra característica dos tratados é a ausência de hierarquia entre eles. De fato, dada a soberania entre ospaíses e, ainda, a inexistência de um Parlamento Global, não se admite a existência de um super tratado, assim considerado aquele que esteja acima dos demais. Entretanto, existe uma exceção à regra. Trata-se do jus cogens, uma espécie de norma imperativa a todos os Estados, cuja existência não é aceita por todos os juristas. Um exemplo de jus cogens é a própria Carta da ONU que determina, no caso de conflito com outros tratados, a sua prevalência. Senão vejamos: Artigo 103. No caso de conflito entre as obrigações dos Membros das Nações Unidas, em virtude da presente Carta e as obrigações resultantes de qualquer outro acordo internacional, prevalecerão as obrigações assumidas em virtude do presente Carta. Por fim, a última característica dos tratados é a ausência de formalismo. A única formalidade é que sejam feitos por escrito, foram disso, inexiste qualquer procedimento específico para a redação e produção dos tratados. 3. Nomenclatura Como já visto, os tratados são acordos firmados entre sujeitos de Direito Internacional Público. Porém, existem várias categorias de tratados, como veremos a seguir: a) tratado: termo é utilizado para os acordos mais solenes, tais como os tratados de paz; b) declaração: trata-se de acordo que cria princípios gerais, sem que se gere algum compromisso entre os signatários; c) carta, pacto ou estatuto: são tratados solenes que criam uma Organização Internacional; d) acordo: tratados que tenham por objeto matérias de cunho comercial, econômico ou cultural; e) concordata: é um tratado tendo a Santa Sé e outro, ou outros Estados. Deste modo são tratados cuja matéria é religiosa. Os chamados gentlemen’s agrément – acordos de cavalheiros – não são tratados, uma vez que não geram obrigações entre as partes, mas apenas revelam uma intenção inexistindo obrigatoriedade. 4. Classificação dos Tratados Podemos classificar os tratados a partir de três categorias mais importantes. A primeira leva em conta a quantidade de países participantes. Por essa classificação, os tratados podem ser bilaterais – firmados entre dois Estados – ou multilaterais – firmados entre vários Estados. A segunda leva em consideração o conteúdo dos tratados. Nesta podemos ter os tratados norma, que criam direitos, entre dois ou mais países partes, sem, contudo, prever uma contraprestação específica. Também, tem- se os tratados contratos que, ao contrário, preveem a criação de benefícios recíprocos entre os países parte. Por outras palavras, criam contraprestações reciprocas. Outra forma de classificar os tratados, levando em consideração o conteúdo, é classifica-los em gerais ou de direitos humanos. Tratados de Direitos Humanos são aqueles que estabelecem direitos fundamentais e dizem respeito à humanidade. Já os tratados gerais, são residuais, isto é, serão todos aqueles que não são de direitos humanos. 5. Elaboração de um tratado A elaboração de um tratado é algo complexo que pode levar meses e até anos desde o início das negociações até que comece a vigorar, gerando deveres e obrigações recíprocos. 5.1 Iniciativa das negociações As negociações para a elaboração dos tratados são iniciadas pelos Estados ou pelas Organizações Internacionais. Tradicionalmente, cabe à diplomacia de cada Estado dar início, através do ministério das Relações Exteriores, órgão ligado ao Poder Executivo. Porém, como pontifica Marcelo D. Varella a diplomação tradicional cede cada vez mais espaço para a paradiplomacia, permitindo que outros órgãos como os do Judiciário e os do Legislativo e até de outros entes federativos participem da elaboração de certos acordos: A paradiplomacia é comumente usada no Brasil. Os acordos entre o Poder Judiciário do Brasil e de outros Estados, como o Equador e o Paraguai para uso de urnas eletrônicas, por exemplo, é uma forma de negociação internacional, que dá origem a um acordo internacional, realizada às margens do Ministério das Relações Exteriores. Para essas negociações os Estados enviam seus representantes. É pratica comum os Estados enviarem seus representantes diplomáticos. A diplomacia é feita por meio da delegação diplomática. Os diplomatas são portadores de uma carta – o diploma – e é essa que garante os plenos poderes para as negociações. Somente serão aceitos para as negociações as pessoas que estiverem portando a carta que lhes garante poderes plenos para tanto. Entretanto, o artigo 7º da Convenção de Viena Sobre Direito dos Tratados prevê algumas situações em que não será necessária a apresentação de plenos poderes. Veja-se: i) a prática dos Estados interessados ou outras circunstâncias indicarem que a intenção do Estado era considerar essa pessoa seu representante para esses fins e dispensar os plenos poderes. ii) os Chefes de Estado, os Chefes de Governo e os Ministros das Relações Exteriores, para a realização de todos os atos relativos à conclusão de um tratado; iii) os Chefes de missão diplomática, para a adoção do texto de um tratado entre o Estado acreditante e o Estado junto ao qual estão acreditados; iv) os representantes acreditados pelos Estados perante uma conferência ou organização internacional ou um de seus órgãos, para a adoção do texto de um tratado em tal conferência, organização ou órgão As negociações, portanto, são feitas entre os diplomatas ou plenipotenciários – pessoas com plenos poderes. Em relação aos tratados multilaterais, existe uma particularidade: os tratados, geralmente, são feitos em conferências – reuniões de negociações realizadas entre os sujeitos de direito internacional. Caso os tratados contenham múltiplos assuntos, é possível a formação de grupos de trabalho, compostos por representantes de todos os países em negociação. Segue-se o princípio do package deal, em que o Estado aceita as conclusões dos grupos de trabalho ainda que não tenha participado de suas reuniões. No Brasil, a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 49, inciso I, determina competir ao Congresso Nacional dar a palavra final em relação aos tratados. Veja-se: Art. 49. É da competência exclusiva do Congresso Nacional: I - resolver definitivamente sobre tratados, acordos ou atos internacionais que acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional; Contudo, o artigo 84, incisos VII e VIII, da Constituição Federal confere ao presidente da República a competência para manter relações internacionais entre Estados, bem como celebrar tratados e acordos internacionais: Art. 84. Compete privativamente ao Presidente da República: (...) VII - manter relações com Estados estrangeiros e acreditar seus representantes diplomáticos; VIII - celebrar tratados, convenções e atos internacionais, sujeitos a referendo do Congresso Nacional; Destarte, como veremos mais adiante, compete ao presidente celebrar tratados que serão submetidos ao Congresso Nacional para ratificação. 5.2 Idiomas dos tratados Os tratados devem ser feitos, a princípio, nos idiomas dos países signatários – partes. Até a Primeira Grande Guerra Mundial, os tratados internacionais eram feitos em francês. Após, houve a mudança no eixo da política internacional com o protagonismo dos Estados Unidos, momento em que o idioma oficial dos tratados, por assim dizer, passou a ser o inglês. Deste modo, os países podem optar por redigirem os tratados em suas próprias línguas ou no inglês. Aliás, mesmo quando redigidos nos idiomas oficiais dos países signatários, é comum, para evitar problemas interpretativos, que seja feito também no inglês. Já os tratados realizados no âmbito da ONU, obrigatoriamente, devem ser redigidos em 06 (seis) idiomas, a saber: inglês, francês, espanhol, russo, chinês e árabe. 5.3 Reservas É possível que em tratado multilateral – aquelefeito por vários Estados – algum Estado não concorde com todas as cláusulas de um tratado, mas que, a despeito disso, pretenda assina-lo. A solução será fazer uma reserva com relação àquela cláusula. Isto significará que ele aceita todas as cláusulas do tratado, com exceção daquela que fez a reserva. Exemplificando: um tratado que tenha 20 cláusulas. O Estado X concorda com todas, menos com a 10ª cláusula. Poderá então se comprometer com todas as demais cláusulas, menos com a 10ª. A reserva, contudo, possui alguns requisitos para que seja feita: a) deve ser em tratado multilateral; b) deve ser feita em qualquer momento do processo de elaboração do tratado. Não pode ser feita após a ratificação do tratado; c) não pode recair sobre cláusula essencial do tratado; d) deve ser formulada por escrito e aceita pelos demais países. 5.4 Assinatura É o ato que coloca fim às negociações para elaboração dos Tratados. Os negociadores ao chegar ao texto final, com a aprovação pelos Estados-partes, decidem pela assinatura. A assinatura, ao contrário do que possa parecer, não é o ato final dos tratados. Uma vez assinado pelos representantes dos Estados ele precisará ser ratificado em cada Estado. Sobre o processo de ratificação, trataremos na aula seguinte. A assinatura poderá ser feita pelo Chefe de Estado – e geralmente é o que acontece. Mas poderá ser feita também pelos ministros das relações exteriores; embaixadores ou chefe de missões diplomáticas, bem como qualquer pessoa que possua poderes para tanto. 6. Ratificação Concluídas as negociações o tratado será assinado. A assinatura será feita pelos representantes do Estado, consoante já visto no item anterior. Entretanto, o tratado ainda não encerrou a etapa de criação. Será necessário que ele seja incorporado ao ordenamento jurídico interno de cada país parte. A essa etapa é dado o nome de ratificação. A ratificação é feita pelo Parlamento de cada Estado membro. Aqui no Brasil, a ratificação é feita pelo Congresso Nacional e deverá ser aprovado em cada uma das duas Casas, primeiro na Câmara dos Deputados, depois no Senado Federal. Após isso, deverá ser sancionado pelo Presidente da República mediante a expedição de um decreto. Esse é o posicionamento do Supremo Tribunal Federal. Alguns doutrinadores entendem que bastaria a aprovação pelo Congresso Nacional, entretanto, o Supremo, como já dito, possui outro entendimento. E é esse que tem sido adotado no Brasil. Será considerado aprovado, no Brasil, quando a maioria simples votar favoravelmente ao Tratado. Aprovado na Câmara dos Deputados, o texto do Tratado será encaminhado ao Senado que, também por maioria simples, deverá aprovar o tratado. Aprovado, o texto é encaminhado ao Presidente da República. Aqui o chefe do Poder Executivo poderá sancionar, mediante a expedição de um decreto executivo. Também poderá o Chefe do Executivo, e isso é raro, vetar o texto do Tratado. Existe uma particularidade na Constituição Brasileira. Caso o Tratado verse sobre direitos humanos. Nos termos do artigo 5º, § 3º, da Constituição Federal, se os tratados sobre direitos humanos forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão incorporados equivalentes às emendas constitucionais. Senão. Vejamos: Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: (...) § 3º Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais. 6.1 Posição do Tratado no Ordenamento Jurídico Brasileiro Feita a ratificação, o tratado ingressa no ordenamento jurídico brasileiro com status de lei ordinária – daí o quórum de aprovação ser o de maioria simples. Contudo, como já visto, versando o tratado sobre direitos humanos e sendo aprovados pelo mesmo procedimento e quórum das Emendas Constitucionais a elas serão equivalentes. A esse respeito, existem duas polêmicas, em decorrência da redação do § 3o do artigo 5o acima transcrito. Por primeiro, o que acontecerá caso os tratados de direitos humanos sejam aprovados pelo Congresso Nacional, mas não por um quórum qualificado de 3/5, mas, por maioria absoluta dos membros, por exemplo? Neste caso, entrariam no ordenamento brasileiro como lei ordinária ou teria ocupariam outra posição? A doutrina oferece duas soluções (correntes). A primeiras delas defende que o § 3o do artigo 5o da Constituição Federal é inconstitucional por violar o § 2o do mesmo artigo. Com efeito, o § 2o diz que “Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte”. Então, para a primeira corrente, ratificado o tratado internacional de direitos, independente do quórum, ele terá, sempre, status de Emenda Constitucional. Já a segunda corrente, e já adiantamos que é a adotada pelo Supremo Tribunal Federal, defende que o tratado ratificado por quórum inferior ao previsto no § 3o do artigo 5o da Constituição Federal, será incorporado com status de lei ordinária. O Ministro Gilmar Mendes defende que tais tratados teriam supralegalidade, isto é, estariam abaixo da Constituição Federal e acima da legislação ordinária. Destarte, para fins de questionamentos em provas objetivas, vale a posição do Supremo Tribunal Federal, mas para a questões subjetivas, deve-se expor as duas posições explanadas. Questão interessando ocorreu na interpretação do tratado de São José da Costa Rica em face do artigo 5o, LXVII, da Constituição Federal. A norma interna, como regra, proíbe a prisão civil por dívida “salvo a do responsável pelo inadimplemento voluntário e inescusável de obrigação alimentícia e a do depositário infiel”. Porém, o tratado, em seu artigo 7o, proíbe todo tipo de prisão civil por dívida, mas excepciona no caso de “mandados de autoridade judiciária competente expedidos em virtude de inadimplemento de obrigação alimentar”. O Supremo Tribunal Federal, após várias decisões que afirmaram a prevalência da norma interna, firmou entendimento de que embora a Constituição Federal permita a prisão do depositário infiel, está não poderá ser regulamentada em lei, editando a súmula vinculante 25, com o seguinte enunciado: Súmula Vinculante 25: É ilícita a prisão civil de depositário infiel, qualquer que seja a modalidade de depósito. Destarte, pelo menos nesse caso, parece ter prevalecido a posição do Ministro Gilmar Mendes. 7. Adesão Os tratados podem ser fechados, quando não admitirem a entrada de outros países após as negociações, ou abertos, quando admitirem que outros países possam dele participar. Nesse último caso, tratados abertos, o processo de aceitação de novos países-parte é chamado de adesão. Sobre esse instituto a Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados, em seu artigo 15, fornece os requisitos essenciais. Veja-se: O consentimento de um Estado em obrigar-se por um tratado manifesta-se pela adesão: a) quando esse tratado disponha que tal consentimento pode ser manifestado, por esse Estado, pela adesão; b) quando, por outra forma, se estabeleça que os Estados negociadores acordaram em que tal consentimento pode ser manifestado, por esse Estado, pela adesão; ou c) quando todas as partes acordaram posteriormente em que tal consentimento pode ser manifestado, por esse Estado, pela adesão. Assim, em início, é o próprio tratadoque disporá sobre a possibilidade, ou não, de adesão. Contudo, nada impede que, posteriormente, os Estados-Parte, em comum acordo, permitam a adesão de outros Estados. Importante notar, que o procedimento para a adesão será determinado pelo próprio tratado ou, em sua omissão, por decisão dos Estados-membros. 8. Validade do Tratado Para que um tratado seja considerado válido, se exige que ele seja feito respeitando as normas de Direito Internacional Público. Assim, deve existir a capacidade das partes, a licitude do objeto do tratado, e que o consentimento seja manifestado de forma livre. A Convenção de Viena sobre Direito dos Tratados, a partir do artigo 46 e até o artigo 53, especifica hipóteses de nulidade, equivale a dizer invalidade, dos tratados, as quais estudaremos individuadamente. O primeiro vício apto a invalidar o tratado refere-se à capacidade das partes para negociar um tratado. Como já visto, o artigo 7o da Convenção de Viena sobre Direito dos Tratados apresenta o rol daqueles que detém legitimidade para atuar em nome dos países na negociação acordo. Eventualmente, pode ocorrer de o representante do Estado não ter poder para manifestar o consentimento em relação a um objeto específico. Neste caso, o Estado apenas não se submeterá ao tratado se a restrição for de conhecimento de todos os países partes. O segundo vício que pode levar à invalidade do tratado refere-se ao objeto. Não se admite que uma norma jurídica, e o tratado é uma, contenha um objeto que ofenda, de qualquer modo, o ordenamento jurídico internacional. Por esse motivo, se exige que o objeto seja lícito. Caso o objeto ofenda normas de direito interno, o Estado ficará submetido àquilo que foi convencionado. Imagine-se que o Brasil firme um tratado estabelecendo que não haverá qualquer recesso judiciário. Esse tratado, inicialmente, ofenderia o atual Código de Processo Civil, contudo, como o Brasil o assinou, a ele se submeteria de tal modo que deveria alterar o Código Processual. Contudo, há situações em que se o tratado ofender normas internas, o Estado não se submeterá a ele. Para tanto se exige que a violação da norma interna seja evidente e que recaia sobre norma de importância fundamental. É o que prevê o artigo 46, da Convenção em estudo. Veja-se: 1. Um Estado não pode invocar o fato de que seu consentimento em obrigar-se por um tratado foi expresso em violação de uma disposição de seu direito interno sobre competência para concluir tratados, a não ser que essa violação fosse manifesta e dissesse respeito a uma norma de seu direito interno de importância fundamental. 2. Uma violação é manifesta se for objetivamente evidente para qualquer Estado que proceda, na matéria, de conformidade com a prática normal e de boa fé. O terceiro vício apto a invalidar um tratado atinge o consentimento livre, existindo quatro possibilidades, a saber: o erro, o dolo, a corrupção do representante e a coação do representante. O erro consiste na falsa percepção de um fato ou situação sem a qual o Estado ou não faria o tratado ou o faria, mas de outro modo (artigo 48, da Convenção de Viena). Já o dolo é uma espécie de erro, mas aqui o Estado (ou o negociador) é levado ao erro por meio de uma conduta fraudulenta de outro Estado negociador (artigo 49). A corrupção do representante do Estado, para invalidar o tratado deve ocorrer pela ação direta ou indireta de outro Estado negociador, nos termos do artigo 50 da Convenção de Viena. Vê-se que aqui o Estado negociador faltou com a boa-fé. Por último, também invalida o tratado, por falta de consentimento livre a coação exercida sobre o representante do Estado, nos termos do artigo 51, da Convenção de Viena. Senão, vejamos: Não produzirá qualquer efeito jurídico a manifestação do consentimento de um Estado em obrigar-se por um tratado que tenha sido obtida pela coação de seu representante, por meio de atos ou ameaças dirigidas contra ele. Não se exige que o ato de coação seja feito, direta ou indiretamente, pelo Estado negociador, basta que haja a coação. 9. Vigência dos tratados Um tratado entrará em vigor, isto é, estará apto a produzir efeitos, na forma e na data que o próprio tratado estabelecer ou nos termos em que for acordado pelos Estados-partes. Caso haja omissão no tratado, ele entrará em vigor tão logo o consentimento seja manifestado por todos os Estados negociadores, de modo que não haverá vacatio legis. É muito comum que o tratado preveja o número mínimo de ratificações para que entre em vigor. 10. Modificação dos Tratados Um tratado poderá ser modificado nos mesmos moldes em que se exige a aprovação, salvo se de outra forma constar do tratado. Caso seja tratado bilateral será necessária a aprovação de todos os países parte. Já se se tratar de tratado multilateral, a modificação seja aprovada segundo o quórum nele previsto. Contudo, os Estados que não consentirem com a modificação não serão a ela obrigados. Exatamente por isso, é possível que nos tratados multilaterais a modificação seja feita por alguns dos Estados-parte. É o chamado tratado inter si (entre si). Assim, ter-se-á um tratado principal, válido para todos os Estados, e um tratado secundário, válido apenas para alguns daqueles Estados-parte no principal. É o que prevê o artigo 41, da Convenção de Viena. Exemplificando: imaginemos um tratado realizado entre Brasil, Estados Unidos, França, Argentina e Equador. Posteriormente, Brasil, Argentina e Equador querem modificar o tratado, mas Estados Unidos e França de opõe. Neste Caso, Brasil, Argentina e Equador poderão fazer um tratado inter si com as modificações pretendidas. Esse tratado inter si, para ser válido, não pode causar nenhum tipo de prejuízo aos Estados-parte no tratado principal, nem ser contrário a alguma disposição dele. 11. Conflito entre tratados Havendo conflito entre os tratados, isto é, tratados feitos pelos mesmos países e que sejam contraditórios entre si, apenas um deles poderá prevalecer. É que não se admite a existência de normas contraditórias no ordenamento jurídico, seja interno, seja externo. Para resolver esse conflito, existem alguns critérios. O primeiro critério é o da hierarquia: o tratado superior prevalece sobre o tratado inferior. Referida regra apenas é aplicado em relação ao tratado das Nações Unidas que, expressamente, diz que havendo algum conflito com outro tratado ele deverá prevalecer. Seria semelhante a um conflito entre a Constituição Federal e uma Lei Ordinária. Qual deve prevalecer? Por certo é a Constituição Federal. E por que? Porque a Constituição é hierarquicamente superior à Lei Ordinária. O segundo critério para a resolução do conflito é a especialidade: o tratado especial prevalece sobre o tratado geral. Vale dizer, que se um tratado que estabeleça regras gerais for conflituoso com um tratado que estabeleça regras específicas, esse último é que prevalecerá. O terceiro critério é o cronológico: o tratado posterior prevalece sobre o tratado anterior. Havendo conflito entre dois tratados, o mais recente deles, que se presume ser o mais avançado, é que deverá prevalecer. 12. Efeitos dos Tratados Como regra geral, um tratado somente cria obrigações ou direitos para os países partes, os quais deverão cumpri-lo sob pena de sofrer as sanções nele estabelecidas sem prejuízo do dever de indenizar os demais Estados-partes. Contudo, é possível que um tratado estabeleça obrigações ou direitos para terceiro, isto é, para Estados que não são parte no tratado. Para tanto, é necessário que os Estados-partes prevejam essa possibilidade no tratado e que o outro Estado, expressamente, a aceite, nos termos dos artigos 35 e 36, da Convenção de Viena. Na hipótese de criação de direito a terceiroEstado, o consentimento dele será presumido. Pode existir, porém, a criação de obrigações a Estados estranhos ao Tratado por meio do costume internacional. É o exemplo de tratados que fixem limites territoriais entre países. Os demais Estados deverão respeita-lo, mesmo não sendo parte. 13. Extinção dos Tratados Como toda norma, o tratado, em princípio, não terá prazo de validade. Vale dizer, que ele não estabelece a data de sua revogação. A extinção do tratado poderá ocorrer por vários modos, que serão estudados neste item. Se o tratado for bilateral, a primeira forma de extinção é a denúncia. Denúncia é instituto pelo qual um Estado manifesta a sua vontade de não mais permanecer como parte em um tratado. Sendo tratado bilateral, feito entre dois Estados, a denúncia feita por um deles, forçosamente levará à extinção do tratado. Contudo, sendo tratado multilateral, a denúncia de um Estado apenas significará a sua retirada do tratado. Assim, a denúncia pode levar à extinção do tratado ou à mera retirada de um Estado do tratado. A segunda forma de extinção do tratado, como já visto, é a possibilidade de conflito com outro tratado. Conflito que será resolvido de acordo com os critérios da hierarquia, especialidade e cronológico. A terceira forma de extinção do tratado é o consentimento unânime dos Estados-partes. Também causa a extinção do tratado as mudanças fundamentais das circunstâncias que levaram os Estados a entabular o tratado. Para tanto se exige: a) a existência dessas circunstâncias tiver constituído uma condição essencial do consentimento das partes em obrigarem-se pelo tratado; e b) essa mudança tiver por efeito a modificação radical do alcance das obrigações ainda pendentes de cumprimento em virtude do tratado. A título exemplificativo: dois Estados estabelecem um tratado de não agressão em um Guerra Mundial. Terminada a Guerra, esse tratado não terá mais qualquer utilidade. Outro exemplo: Estados estabelecem um tratado para salvar as focas da extinção. Como consequência do tratado, a população de focas se multiplica a ponto de gerar o desequilíbrio de outras espécies. São situações que exemplificam mudanças fundamentais e, por isso mesmo, causa a extinção dos tratados. Lado outro, o mero rompimento de relações diplomáticas não é apto a gerar a extinção de um tratado. Por outras palavras, ainda que os Estados estejam com as relações rompidas, os tratados já firmados entre ambos continuam a gerar todos os seus efeitos. Aula 04 Sujeitos de Direito Internacional Público Hoje trataremos dos sujeitos do Direito Internacional Público com ênfase nos Estados. Na próxima aula, cuidaremos das Organizações Internacionais de Direito Público. Boa aula e bom aproveitamento. 1. Sujeitos de Direito Internacional Público: conceito Sujeitos de Direito Internacional Público são os Estados e as Organizações Internacionais de Direito Público e, por isso, podem realizar inovações no ordenamento jurídico internacional. O ser humano não é alçado à condição de sujeito do Direito Internacional Público, mas apenas do Direito Internacional Privado, da mesma forma que as pessoas jurídicas de privado. 2. O Estado como sujeito de Direito Internacional Público Conceituar o Estado não é tarefa fácil, mas, reportando aos estudos da disciplina Teoria Geral do Estado, podemos, de forma bastante singela, conceituar o Estado como sendo uma pessoa jurídica de direito público interno e externo constituído por um povo, um território e dotado de soberania ou governo. Não nos deteremos acerca das teorias relativas às explicações sobre as origens do Estado, pois referido conhecimento já foi abordado nos primeiros períodos do curso. Nos itens a seguir estudaremos os elementos constitutivos do Estado. 2.1 O Povo O povo é o elemento humano do Estado, não havendo Estado sem povo. De plano deve-se alertar que povo não é sinônimo de população, tampouco de nação. A população é uma mera representação numérica, sem qualquer sentido jurídico, abrangendo todas as pessoas que vivam em determinado território do Estado. Já o povo possui um sentido político, referindo-se a um grupo de pessoas que atuem segundo ideias, interesses e representações de natureza jurídica. Embora seja mais próximo do conceito de povo, nação possui um conteúdo distinto. É que a nação possui uma natureza político-sociológica, sendo possível identificar dentro de um povo a existência de variadas nações, como ocorre no Brasil com as chamadas nações indígenas. Nada obstante essas diferenciações, somente poderá ser considerado povo de um determinado Estado aquelas pessoas que possuam vínculo de nacionalidade. Existem duas espécies de nacionalidades, a nata, ou originária, e a naturalizada, ou adquirida. Existem dois critérios básicos para a nacionalidade nata: o jus sanguinis (pelo sangue) que leva em consideração a ascendência da pessoa; e o jus solis (pelo local do nascimento) que leva em consideração tão somente o local onde a pessoa nasceu. 2.1.1 Nacionalidade no Brasil O Brasil, quanto à nacionalidade originária adota os critérios do jus sanguinis e jus solis, combinados com o exercício de função pública. Pode-se adquirir a nacionalidade nata de três maneiras: 1ª) nascendo no Brasil, desde que os pais, sendo estrangeiros, não estejam a serviço do país de origem; 2ª) nascendo no estrangeiro, desde que o pai ou mãe seja brasileiro e esteja a serviço do Brasil; 3ª) nascendo no estrangeiro, de pai ou mãe brasileira, desde que: seja registrado em repartição brasileira competente ou venha a residir no Brasil e opte, a qualquer momento, após a maioridade, pela nacionalidade brasileira. O verbo “optar”, no texto constitucional não possui o sentido de excluir uma das nacionalidades, mas de agregar a nacionalidade brasileira. Já para a aquisição da nacionalidade brasileira derivada – naturalização – são exigidos os seguintes requisitos: 1º) originários de países de língua portuguesa: residência por um ano ininterrupto e idoneidade moral; 2º) originários dos demais países: residência de mais de 15 anos ininterruptos e sem condenação criminal. Em qualquer das hipóteses, a nacionalidade brasileira deverá ser requerida pelos estrangeiros. Situação peculiar é a dos portugueses, que poderão exercer os direitos políticos aqui no Brasil, porém sem que adquiram a nacionalidade brasileira. Basta que haja reciprocidade de tratamento para com o brasileiro em Portugal. A Constituição Federal proíbe que a legislação cria qualquer tipo de diferenciação entre os brasileiros nato e naturalizado. Contudo, o próprio texto constitucional cuidou de limitar o acesso a determinados cargos públicos apenas aos brasileiros natos, a saber: a) presidente e vice-presidente da República; b) presidente da Câmara dos Deputados; c) presidente do Senado Federal; d) ministros do Supremo Tribunal Federal; e) ministro de Estado da Defesa; f) oficiais das Forças Armadas; g) carreiras diplomáticas; h) presidente e vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral; i) cidadãos que irão compor o Conselho da República. Além desses cargos, que são próprios dos brasileiros natos, há outra distinção entre natos e naturalizados e diz respeito à possibilidade de extradição. A extradição é um acordo entre 02 (dois) Estados para o envio de pessoas acusadas de cometer crime no território de algum deles e que se refugie no território dos outros. Com efeito, os brasileiros natos não podem ser extraditados em hipótese alguma. Já os brasileiros naturalizados podem ser extraditados em duas situações: a) nos crimes comuns, desde que cometidos antes da naturalização; e b) nos crimes de tráfico de drogas, cometidos a qualquer tempo, nos termos da lei. Ocorre que até o momento não houve aregulamentação do dispositivo constitucional. Assim, enquanto permanecer a omissão legislativa, apenas o brasileiro naturalizado que cometer crime comum anterior à naturalização poderá ser extraditado. Não se pode confundir a extradição – que é um tratado entre dois Estados soberanos – com a entrega que é o envio de um nacional para responder perante o Tribunal Penal Internacional pela prática de algum crime contra a humanidade. A Constituição Federal impede a extradição de brasileiro nato, mas não impede a sua entrega ao Tribunal Penal Internacional. Assim, caso um brasileiro nato cometa algum crime de competência do TPI ele poderá ser enviado para que ali responda pelos seus atos. 2.1.2 Perda da Nacionalidade Brasileira A Constituição Federal prevê a perda da nacionalidade brasileira em duas situações, a saber: cancelamento da naturalização por sentença transitada em julgado ou que adquirir outra nacionalidade. A segunda hipótese poderá recair tanto no brasileiro nato quanto sobre o brasileiro naturalizado. Prevê, o texto constitucional, em relação à segunda hipótese de perda da nacionalidade, duas exceções: se for adquirida uma nacionalidade originária, nos termos da legislação estrangeira ou se a naturalização decorrer de imposição, pela lei estrangeira, como condição para permanência no país ou para o exercício de direitos civis. 2.2 Território O território pode ser conceituado como sendo a base especial em que um Estado exerce a sua soberania, isto é, o seu poder jurisdicional, fazendo prevalecer o seu direito positivado. Desta forma o território possui as seguintes características: a) delimitação os limites do poder territorial do Estado, sendo, portanto, fator de paz, independência e elemento de segurança; b) fator de estabilidade para a sua população. A delimitação do território pode ocorrer por acidentes geográficos (limite natural), tais como montanhas, mares, rios e lagos. Mas a delimitação pode se dar por meios artificiais, como as fronteiras: região ao redor da linha divisória que separa os territórios entre dois Estados. O território, desde a Idade Média, teve as seguintes naturezas jurídicas, a saber: a) território patrimônio: o território é um patrimônio, mas não pertence ao Estado, mas ao monarca; b) território objeto: o Estado deve atuar como proprietário de seu território; c) território espaço: o território não é mero patrimônio, mas a extensão espacial da soberania do Estado; d) território limite: é o limite material da ação efetiva dos governantes; e) território competência: o território é o âmbito de validade de sua ordem jurídica. 2.2.1 limites terrestres do território Como já dito anteriormente, existem duas formas de delimitar os territórios dos Estados: uma natural e outra artificial. A limitação natural leva em contra os acidentes geográficos, assim, as montanhas, rios, vales, mares, desertos, etc. Já a limitação artificial é feita por meio de tratados entre os Estados vizinhos, fixando marcos fronteiriços. Atualmente, discute-se a construção de muro na fronteira entre Estados Unidos e o México. Insta alertar que ao longo da história humana a construção de muros sempre existiu, mas com o propósito de proteger o povo do Estado (ou da cidade-estado) contra invasões externas. Nunca para impedir a entrada pacífica da população de um país vizinho, ainda mais quando motivado por questão discriminatória. 2.2.2 território marítimo A extensão do território de um país para o mar sempre levou em consideração o critério defensivo, de modo que o território de um Estado se estendia para o mar até onde se poderia fazer a segurança. O primeiro critério utilizado foi o do tiro do canhão, com o posicionamento desta arma no local mais próximo da orla marítima e o território se estenderia até o local atingido pelo disparo. Evidente que com o avanço tecnológico esse critério ficou sobremaneira defasado. Atualmente, é a Convenção de Viena de 1958 quem define o mar territorial e a zona contigua. Nos termos do artigo 1o “a soberania do Estado estende-se, além de seu território e de suas águas internas, a uma zona de mar adjacente a suas costas, designada pelo nome de mar territorial”. Esse mar territorial se estenderá, a partir do baixo-mar (maré baixa) até o limite de 12 milhas náuticas. Caso exista uma ilha, as 12 minhas se iniciarão a partir da maré- baixa da ilha. Adjacente ao mar territorial existe a chamada zona contígua, que se estenderá por mais 12 milhas, contadas imediatamente após o término do mar territorial. Essa zona contígua tem, nos termos do artigo 24 da Convenção de Genebra, por função: a) prevenir as contravenções a suas leis de polícia aduaneira, fiscal, sanitária ou de imigração, cometidas em seu território ou no mar territorial; b) reprimir as contravenções a estas mesmas leis, cometidas em seu território ou no mar territorial. Mário Lúcio Quintão Soares ensina que a partir da necessidade de exploração econômica das riquezas biológicas e minerais foi estabelecido o marco de 200 milhas como sendo o mar territorial. Veja-se: O direito de pesca e a necessidade de exploração econômica do acervo biológico e das riquezas minerais (exploração de petróleo em plataforma submarina), bem como a proteção da fauna e da flora marítimas nas zonas contíguas ao mar territorial, instaram alguns Estados subdesenvolvidos a estabelecer novos parâmetros. Daí surgiu o marco de 200 milhas para seu mar territorial, contrapondo-se às grandes potencias, que almejavam fixar tais limites em 12 milhas, em nome da tradicional liberdade de navegação. Para conciliar os interesses conflitantes, assegurou-se o instituto da passagem inocente, nos termos do artigo 14 da Convenção de Genebra, consiste: a) Sob reserva das disposições dos presentes artigos, os navios de todos os Estados, ribeirinhos ou não do mar, gozam do direito de passagem inocente no mar territorial. b) A passagem é o fato de navegar no mar territorial, seja para atravessá-lo sem entrar nas águas internas, seja para se dirigir às águas internas, seja para alcançar alto-mar, vindo das águas internas. c) A passagem abrange o direito de parar as máquinas e de ancorar, mas somente na medida em que a parada ou a ancoragem constitua incidente ordinário da navegação, ou se imponha ao navio por motivos de aribada forçada ou perigo iminente. d) A passagem é inocente enquanto não atenta contra a paz, a boa ordem ou a segurança do Estado ribeirinho. Esta passagem deve efetuar-se de conformidade com os presentes artigos e outras regras de Direito Internacional. d) A passagem de barcos de pesca estrangeiros não é considerada como inocente se êstes barcos não se conformam com as leis e regulamentos que o Estado ribeirinho pode promulgar e publicar com o fito de lhes proibir a pesca no mar territorial. e) Os navios submarinos têm obrigação de vir à tona de arvorar sua bendeira. É o instituto da passagem inocente que permite, por exemplo que embarcações e aeronaves comerciais transitem no território nacional, bastando que façam as devidas comunicações e que observem o regramento do Estado em cujo território estejam atravessando. Para completar as 200 milhas náuticas, deve-se somar as 12 milhas do mar territorial, 12 milhas da zona contígua e 176 milhas da zona econômica exclusiva, como demonstrado na imagem abaixo: O Brasil, por meio da Lei 8.617/93, estabeleceu o território brasileiro no mar até as 200 milhas náuticas, dizendo que o mar territorial “compreende uma faixa de doze milhas marítima de largura, medidas a partir da linha de baixa-mar do litoral continental e insular” (artigo 1o), que a zona contígua “compreende uma faixa que se estende das doze às vinte e quatro milhas marítimas, contadas a partir das linhas de base que servem para medir a largurado mar territorial” (artigo 4o) e que a zona econômica exclusiva “compreende uma faixa que se estende das doze às duzentas milhas marítimas, contadas a partir das linhas de base que servem para medir a largura do mar territorial” (artigo 6o). 2.2.2.1 plataforma continental A partir do momento em que foi descoberta a existência de grande quantidade de petróleo, com a possibilidade de sua extração, a porção de terra abaixo dos oceanos despertou enorme interesse econômico e, por isso, a necessidade de seu regramento. Nos termos da Convenção da O.N.U., a plataforma continental consiste no: a) o leito do mar e o subsolo das regiões submarinas adjacentes às costas, mas situadas fota do mar territorial, até uma profundidade de 200 metros, ou além dêste limite, até o ponto em que a profundidade das águas sobrejacentes permita o aproveitamento dos recursos naturais das referidas regiões; b) o leito do mar e o subsolo das regiões submarinas análogas, que são adjacentes às costas das ilhas. No Brasil, a Lei 8.617/93, dispõe, em seu artigo 11, que: Art. 11. A plataforma continental do Brasil compreende o leito e o subsolo das áreas submarinas que se estendem além do seu mar territorial, em toda a extensão do prolongamento natural de seu território terrestre, até o bordo exterior da margem continental, ou até uma distância de duzentas milhas marítimas das linhas de base, a partir das quais se mede a largura do mar territorial, nos casos em que o bordo exterior da margem continental não atinja essa distância. Em termos mais simples, a plataforma continental é o subsolo situado abaixo do território marítimo. 2.2.3 território aéreo O espaço aéreo de um Estado é aquele adjacente ao seu território no solo ou no mar. Sobre esse tema existem as seguintes Convenções: Convenção de Paris (1919) e a Convenção de Chicago (1944). Essa última Convenção reconheceu “ter cada Estado a soberania exclusiva e absoluta sôbre o espaço aéreo sôbre seu território”, além de criar a Organização de Aviação Civil Internacional (órgão da ONU), criando regras para o exercício do direito à passagem inocente, nos seguintes termos: a) direito de sobrevoo com fins pacíficos; b) direito de escala técnica para reparações; c) direito de embarcar e de desembarcar no território do Estado signatário mercadorias, passageiros e correio com destino ao Estado de que a aeronave é nacional ou de qualquer Estado signatário. A modernidade e os avanços tecnológicos acabam por criar situações para potenciais conflitos, quais sejam a espionagem por meio de satélites que sobrevoem o espaço sideral. 2.2.4 domínio público internacional Por domínio público internacional deve-se entender os territórios que são insuscetíveis de apropriação por algum Estado, posto que não pertencem a um Estado específico. São insuscetíveis de apropriação: a) os polos terrestres. Em relação à antártica não há qualquer polêmica. Porém em relação ao polo norte (ártico) há controvérsias entre os Estados Unidos e a Rússia que o consideram com parte integrante de seus territórios. b) o alto-mar e o espaço aéreo; c) os corpos celestes, nos termos do tratado sobre os princípios reguladores das atividades dos Estados na exploração e uso do espaço cósmico, todas as atividades exploratórias devem ter em mente “o bem e interesse de todos os países, qualquer que seja o estágio de seu desenvolvimento econômico e científico, e são incumbência de toda a humanidade”. d) a internet. Novamente, com o desenvolvimento tecnológico, a internet passou a ocupar enorme importância, não apenas para a comunicação entre os indivíduos, mas para situações de proteção e segurança. Atualmente fala-se, até mesmo, em cirurgias feitas à distância. Ou mesmo essa aula que estamos tendo agora. 2.3 Soberania ou governo O terceiro elemento do Estado é o governo ou a soberania, posto que não existe Estado sem governo. Para tanto o Estado deve ter autonomia jurídica em relação aos demais Estados. Para tanto é necessário, em primeiro lugar, que haja o reconhecimento dos novos Estados. Imagine-se que os estados do sul do Brasil desejem se separar do país, criando o país do Sul. De nada adiantará se a comunidade internacional não reconhecer a sua existência. E esse reconhecimento é um ato unilateral e discricionário de cada Estado ou Organização Internacional. Contudo é possível vislumbrar alguns requisitos para tal reconhecimento: a) existência de um governo democrático; b) respeito à Carta da ONU; c) garantia aos direitos dos grupos étnicos e nacionais; d) respeito aos limites territoriais estabelecidos; e) aceite os instrumentos pacíficos de solução de controvérsias. Lado outro, já existente um Estado, há a necessidade de reconhecimento do governo. Aqui, a cada sucessão de governo, a comunidade internacional deve reconhecer a nova direção governamental. De forma bastante singela, esse reconhecimento pode ocorrer com, por exemplo, a presença de chefes de Estados na posse do novo governo; a manutenção das relações diplomáticas, a declaração, para dos demais Estados, no sentido de que reconhece a legitimidade do novo governo, etc. A soberania, por seu turno, significa o fato de o Estado não encontrar, internamente, nenhum poder igual ao seu, e, externamente, nenhum poder acima do seu. Assim, na órbita interna, somente o Estado tem o poder de criar seu ordenamento jurídico nacional, que deverá ser observado por todos. Discussão interessante refere-se questão acerca da titularidade da soberania. Num primeiro momento, entendia-se que a soberania pertencia ao monarca (que era o soberano). Após, passou-se a entender que a soberania era titularizada pelo próprio Estado. Hoje, prevalece a ideia de que o titular da soberania é o povo e que o governante é seu mero exercente. Aula 05 Sujeitos de Direito Internacional Público Hoje estudaremos as Organizações Internacionais de Direito Público e, também, as comunidades regiões com ênfase na União Europeia e o Mercosul. Desejo um excelente estudo e um ótimo aproveitamento dos conteúdos ministrados. 3. Organizações Internacionais de Direito Público As Organizações internacionais podem ser de Direito Público ou de Direito Privado, também conhecidas como organizações náo governamentais. As Organizações de Direito Público são sujeitos do Direito Internacional Público podendo, inclusive, ser partes em tratados internacionais. Já as de Direito Privado não podem ser partes em tratados internacionais e os seus atos referem-se a contratos internacionais. 3.1 Histórico Desde a antiguidade existiram organismos supranacionais, a exemplo, na antiguidade clássica, da Liga do Peloponeso – aliança entre as várias cidades-estados gregas visando proteção frente invasões de outros povos. Mas foi no século XX, notadamente após o término da Segunda Grande Guerra Mundial que o mundo viu florescer várias e várias organizações internacionais, principalmente as com víeis de regionalismos ou comunitárias. Dentre os objetivos dessas organizações está a manutenção da paz, mas também as questões comerciais e de desenvolvimento. 3.2 Organização das Nações Unidas 3.2.1 Histórico Ao final da Primeira Grande Guerra Mundial, visando estabelecer uma certa estabilidade e segurança mundial, foi criada a Lida das Nações, organização internacional que reunia as potencias vencedoras da guerra. Contudo, o Congresso dos Estados Unidos não ratificou o Tratado de Versalhes – que criava a Liga das Nações. Com deste modo a Liga se viu esvaziada e enfraquecida. No ano de 1939, Hitler desencadeia a Segunda Grande Guerra Mundial. Esses dois fatos – não ratificação do tratado de Versalhes pelo Congresso dos Estados Unidos e o desencadeamento da Segunda Guerra Mundial – foram