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Aula 04 Sujeitos de Direito Internacional Público Hoje trataremos dos sujeitos do Direito Internacional Público com ênfase nos Estados. Na próxima aula, cuidaremos das Organizações Internacionais de Direito Público. Boa aula e bom aproveitamento. 1. Sujeitos de Direito Internacional Público: conceito Sujeitos de Direito Internacional Público são os Estados e as Organizações Internacionais de Direito Público e, por isso, podem realizar inovações no ordenamento jurídico internacional. O ser humano não é alçado à condição de sujeito do Direito Internacional Público, mas apenas do Direito Internacional Privado, da mesma forma que as pessoas jurídicas de privado. 2. O Estado como sujeito de Direito Internacional Público Conceituar o Estado não é tarefa fácil, mas, reportando aos estudos da disciplina Teoria Geral do Estado, podemos, de forma bastante singela, conceituar o Estado como sendo uma pessoa jurídica de direito público interno e externo constituído por um povo, um território e dotado de soberania ou governo. Não nos deteremos acerca das teorias relativas às explicações sobre as origens do Estado, pois referido conhecimento já foi abordado nos primeiros períodos do curso. Nos itens a seguir estudaremos os elementos constitutivos do Estado. 2.1 O Povo O povo é o elemento humano do Estado, não havendo Estado sem povo. De plano deve-se alertar que povo não é sinônimo de população, tampouco de nação. A população é uma mera representação numérica, sem qualquer sentido jurídico, abrangendo todas as pessoas que vivam em determinado território do Estado. Já o povo possui um sentido político, referindo-se a um grupo de pessoas que atuem segundo ideias, interesses e representações de natureza jurídica. Embora seja mais próximo do conceito de povo, nação possui um conteúdo distinto. É que a nação possui uma natureza político-sociológica, sendo possível identificar dentro de um povo a existência de variadas nações, como ocorre no Brasil com as chamadas nações indígenas. Nada obstante essas diferenciações, somente poderá ser considerado povo de um determinado Estado aquelas pessoas que possuam vínculo de nacionalidade. Existem duas espécies de nacionalidades, a nata, ou originária, e a naturalizada, ou adquirida. Existem dois critérios básicos para a nacionalidade nata: o jus sanguinis (pelo sangue) que leva em consideração a ascendência da pessoa; e o jus solis (pelo local do nascimento) que leva em consideração tão somente o local onde a pessoa nasceu. 2.1.1 Nacionalidade no Brasil O Brasil, quanto à nacionalidade originária adota os critérios do jus sanguinis e jus solis, combinados com o exercício de função pública. Pode-se adquirir a nacionalidade nata de três maneiras: 1ª) nascendo no Brasil, desde que os pais, sendo estrangeiros, não estejam a serviço do país de origem; 2ª) nascendo no estrangeiro, desde que o pai ou mãe seja brasileiro e esteja a serviço do Brasil; 3ª) nascendo no estrangeiro, de pai ou mãe brasileira, desde que: seja registrado em repartição brasileira competente ou venha a residir no Brasil e opte, a qualquer momento, após a maioridade, pela nacionalidade brasileira. O verbo “optar”, no texto constitucional não possui o sentido de excluir uma das nacionalidades, mas de agregar a nacionalidade brasileira. Já para a aquisição da nacionalidade brasileira derivada – naturalização – são exigidos os seguintes requisitos: 1º) originários de países de língua portuguesa: residência por um ano ininterrupto e idoneidade moral; 2º) originários dos demais países: residência de mais de 15 anos ininterruptos e sem condenação criminal. Em qualquer das hipóteses, a nacionalidade brasileira deverá ser requerida pelos estrangeiros. Situação peculiar é a dos portugueses, que poderão exercer os direitos políticos aqui no Brasil, porém sem que adquiram a nacionalidade brasileira. Basta que haja reciprocidade de tratamento para com o brasileiro em Portugal. A Constituição Federal proíbe que a legislação cria qualquer tipo de diferenciação entre os brasileiros nato e naturalizado. Contudo, o próprio texto constitucional cuidou de limitar o acesso a determinados cargos públicos apenas aos brasileiros natos, a saber: a) presidente e vice-presidente da República; b) presidente da Câmara dos Deputados; c) presidente do Senado Federal; d) ministros do Supremo Tribunal Federal; e) ministro de Estado da Defesa; f) oficiais das Forças Armadas; g) carreiras diplomáticas; h) presidente e vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral; i) cidadãos que irão compor o Conselho da República. Além desses cargos, que são próprios dos brasileiros natos, há outra distinção entre natos e naturalizados e diz respeito à possibilidade de extradição. A extradição é um acordo entre 02 (dois) Estados para o envio de pessoas acusadas de cometer crime no território de algum deles e que se refugie no território dos outros. Com efeito, os brasileiros natos não podem ser extraditados em hipótese alguma. Já os brasileiros naturalizados podem ser extraditados em duas situações: a) nos crimes comuns, desde que cometidos antes da naturalização; e b) nos crimes de tráfico de drogas, cometidos a qualquer tempo, nos termos da lei. Ocorre que até o momento não houve a regulamentação do dispositivo constitucional. Assim, enquanto permanecer a omissão legislativa, apenas o brasileiro naturalizado que cometer crime comum anterior à naturalização poderá ser extraditado. Não se pode confundir a extradição – que é um tratado entre dois Estados soberanos – com a entrega que é o envio de um nacional para responder perante o Tribunal Penal Internacional pela prática de algum crime contra a humanidade. A Constituição Federal impede a extradição de brasileiro nato, mas não impede a sua entrega ao Tribunal Penal Internacional. Assim, caso um brasileiro nato cometa algum crime de competência do TPI ele poderá ser enviado para que ali responda pelos seus atos. 2.1.2 Perda da Nacionalidade Brasileira A Constituição Federal prevê a perda da nacionalidade brasileira em duas situações, a saber: cancelamento da naturalização por sentença transitada em julgado ou que adquirir outra nacionalidade. A segunda hipótese poderá recair tanto no brasileiro nato quanto sobre o brasileiro naturalizado. Prevê, o texto constitucional, em relação à segunda hipótese de perda da nacionalidade, duas exceções: se for adquirida uma nacionalidade originária, nos termos da legislação estrangeira ou se a naturalização decorrer de imposição, pela lei estrangeira, como condição para permanência no país ou para o exercício de direitos civis. 2.2 Território O território pode ser conceituado como sendo a base especial em que um Estado exerce a sua soberania, isto é, o seu poder jurisdicional, fazendo prevalecer o seu direito positivado. Desta forma o território possui as seguintes características: a) delimitação os limites do poder territorial do Estado, sendo, portanto, fator de paz, independência e elemento de segurança; b) fator de estabilidade para a sua população. A delimitação do território pode ocorrer por acidentes geográficos (limite natural), tais como montanhas, mares, rios e lagos. Mas a delimitação pode se dar por meios artificiais, como as fronteiras: região ao redor da linha divisória que separa os territórios entre dois Estados. O território, desde a Idade Média, teve as seguintes naturezas jurídicas, a saber: a) território patrimônio: o território é um patrimônio, mas não pertence ao Estado, mas ao monarca; b) território objeto: o Estado deve atuar como proprietário de seu território; c) território espaço: o território não é mero patrimônio, mas a extensão espacial da soberania do Estado; d) território limite: é o limite material da ação efetiva dos governantes;e) território competência: o território é o âmbito de validade de sua ordem jurídica. 2.2.1 limites terrestres do território Como já dito anteriormente, existem duas formas de delimitar os territórios dos Estados: uma natural e outra artificial. A limitação natural leva em contra os acidentes geográficos, assim, as montanhas, rios, vales, mares, desertos, etc. Já a limitação artificial é feita por meio de tratados entre os Estados vizinhos, fixando marcos fronteiriços. Atualmente, discute-se a construção de muro na fronteira entre Estados Unidos e o México. Insta alertar que ao longo da história humana a construção de muros sempre existiu, mas com o propósito de proteger o povo do Estado (ou da cidade-estado) contra invasões externas. Nunca para impedir a entrada pacífica da população de um país vizinho, ainda mais quando motivado por questão discriminatória. 2.2.2 território marítimo A extensão do território de um país para o mar sempre levou em consideração o critério defensivo, de modo que o território de um Estado se estendia para o mar até onde se poderia fazer a segurança. O primeiro critério utilizado foi o do tiro do canhão, com o posicionamento desta arma no local mais próximo da orla marítima e o território se estenderia até o local atingido pelo disparo. Evidente que com o avanço tecnológico esse critério ficou sobremaneira defasado. Atualmente, é a Convenção de Viena de 1958 quem define o mar territorial e a zona contigua. Nos termos do artigo 1o “a soberania do Estado estende-se, além de seu território e de suas águas internas, a uma zona de mar adjacente a suas costas, designada pelo nome de mar territorial”. Esse mar territorial se estenderá, a partir do baixo-mar (maré baixa) até o limite de 12 milhas náuticas. Caso exista uma ilha, as 12 minhas se iniciarão a partir da maré- baixa da ilha. Adjacente ao mar territorial existe a chamada zona contígua, que se estenderá por mais 12 milhas, contadas imediatamente após o término do mar territorial. Essa zona contígua tem, nos termos do artigo 24 da Convenção de Genebra, por função: a) prevenir as contravenções a suas leis de polícia aduaneira, fiscal, sanitária ou de imigração, cometidas em seu território ou no mar territorial; b) reprimir as contravenções a estas mesmas leis, cometidas em seu território ou no mar territorial. Mário Lúcio Quintão Soares ensina que a partir da necessidade de exploração econômica das riquezas biológicas e minerais foi estabelecido o marco de 200 milhas como sendo o mar territorial. Veja-se: O direito de pesca e a necessidade de exploração econômica do acervo biológico e das riquezas minerais (exploração de petróleo em plataforma submarina), bem como a proteção da fauna e da flora marítimas nas zonas contíguas ao mar territorial, instaram alguns Estados subdesenvolvidos a estabelecer novos parâmetros. Daí surgiu o marco de 200 milhas para seu mar territorial, contrapondo-se às grandes potencias, que almejavam fixar tais limites em 12 milhas, em nome da tradicional liberdade de navegação. Para conciliar os interesses conflitantes, assegurou-se o instituto da passagem inocente, nos termos do artigo 14 da Convenção de Genebra, consiste: a) Sob reserva das disposições dos presentes artigos, os navios de todos os Estados, ribeirinhos ou não do mar, gozam do direito de passagem inocente no mar territorial. b) A passagem é o fato de navegar no mar territorial, seja para atravessá-lo sem entrar nas águas internas, seja para se dirigir às águas internas, seja para alcançar alto-mar, vindo das águas internas. c) A passagem abrange o direito de parar as máquinas e de ancorar, mas somente na medida em que a parada ou a ancoragem constitua incidente ordinário da navegação, ou se imponha ao navio por motivos de aribada forçada ou perigo iminente. d) A passagem é inocente enquanto não atenta contra a paz, a boa ordem ou a segurança do Estado ribeirinho. Esta passagem deve efetuar-se de conformidade com os presentes artigos e outras regras de Direito Internacional. d) A passagem de barcos de pesca estrangeiros não é considerada como inocente se êstes barcos não se conformam com as leis e regulamentos que o Estado ribeirinho pode promulgar e publicar com o fito de lhes proibir a pesca no mar territorial. e) Os navios submarinos têm obrigação de vir à tona de arvorar sua bendeira. É o instituto da passagem inocente que permite, por exemplo que embarcações e aeronaves comerciais transitem no território nacional, bastando que façam as devidas comunicações e que observem o regramento do Estado em cujo território estejam atravessando. Para completar as 200 milhas náuticas, deve-se somar as 12 milhas do mar territorial, 12 milhas da zona contígua e 176 milhas da zona econômica exclusiva, como demonstrado na imagem abaixo: O Brasil, por meio da Lei 8.617/93, estabeleceu o território brasileiro no mar até as 200 milhas náuticas, dizendo que o mar territorial “compreende uma faixa de doze milhas marítima de largura, medidas a partir da linha de baixa-mar do litoral continental e insular” (artigo 1o), que a zona contígua “compreende uma faixa que se estende das doze às vinte e quatro milhas marítimas, contadas a partir das linhas de base que servem para medir a largura do mar territorial” (artigo 4o) e que a zona econômica exclusiva “compreende uma faixa que se estende das doze às duzentas milhas marítimas, contadas a partir das linhas de base que servem para medir a largura do mar territorial” (artigo 6o). 2.2.2.1 plataforma continental A partir do momento em que foi descoberta a existência de grande quantidade de petróleo, com a possibilidade de sua extração, a porção de terra abaixo dos oceanos despertou enorme interesse econômico e, por isso, a necessidade de seu regramento. Nos termos da Convenção da O.N.U., a plataforma continental consiste no: a) o leito do mar e o subsolo das regiões submarinas adjacentes às costas, mas situadas fota do mar territorial, até uma profundidade de 200 metros, ou além dêste limite, até o ponto em que a profundidade das águas sobrejacentes permita o aproveitamento dos recursos naturais das referidas regiões; b) o leito do mar e o subsolo das regiões submarinas análogas, que são adjacentes às costas das ilhas. No Brasil, a Lei 8.617/93, dispõe, em seu artigo 11, que: Art. 11. A plataforma continental do Brasil compreende o leito e o subsolo das áreas submarinas que se estendem além do seu mar territorial, em toda a extensão do prolongamento natural de seu território terrestre, até o bordo exterior da margem continental, ou até uma distância de duzentas milhas marítimas das linhas de base, a partir das quais se mede a largura do mar territorial, nos casos em que o bordo exterior da margem continental não atinja essa distância. Em termos mais simples, a plataforma continental é o subsolo situado abaixo do território marítimo. 2.2.3 território aéreo O espaço aéreo de um Estado é aquele adjacente ao seu território no solo ou no mar. Sobre esse tema existem as seguintes Convenções: Convenção de Paris (1919) e a Convenção de Chicago (1944). Essa última Convenção reconheceu “ter cada Estado a soberania exclusiva e absoluta sôbre o espaço aéreo sôbre seu território”, além de criar a Organização de Aviação Civil Internacional (órgão da ONU), criando regras para o exercício do direito à passagem inocente, nos seguintes termos: a) direito de sobrevoo com fins pacíficos; b) direito de escala técnica para reparações; c) direito de embarcar e de desembarcar no território do Estado signatário mercadorias, passageiros e correio com destino ao Estado de que a aeronave é nacional ou de qualquer Estado signatário. A modernidade e os avanços tecnológicos acabam por criar situações para potenciais conflitos,quais sejam a espionagem por meio de satélites que sobrevoem o espaço sideral. 2.2.4 domínio público internacional Por domínio público internacional deve-se entender os territórios que são insuscetíveis de apropriação por algum Estado, posto que não pertencem a um Estado específico. São insuscetíveis de apropriação: a) os polos terrestres. Em relação à antártica não há qualquer polêmica. Porém em relação ao polo norte (ártico) há controvérsias entre os Estados Unidos e a Rússia que o consideram com parte integrante de seus territórios. b) o alto-mar e o espaço aéreo; c) os corpos celestes, nos termos do tratado sobre os princípios reguladores das atividades dos Estados na exploração e uso do espaço cósmico, todas as atividades exploratórias devem ter em mente “o bem e interesse de todos os países, qualquer que seja o estágio de seu desenvolvimento econômico e científico, e são incumbência de toda a humanidade”. d) a internet. Novamente, com o desenvolvimento tecnológico, a internet passou a ocupar enorme importância, não apenas para a comunicação entre os indivíduos, mas para situações de proteção e segurança. Atualmente fala-se, até mesmo, em cirurgias feitas à distância. Ou mesmo essa aula que estamos tendo agora. 2.3 Soberania ou governo O terceiro elemento do Estado é o governo ou a soberania, posto que não existe Estado sem governo. Para tanto o Estado deve ter autonomia jurídica em relação aos demais Estados. Para tanto é necessário, em primeiro lugar, que haja o reconhecimento dos novos Estados. Imagine-se que os estados do sul do Brasil desejem se separar do país, criando o país do Sul. De nada adiantará se a comunidade internacional não reconhecer a sua existência. E esse reconhecimento é um ato unilateral e discricionário de cada Estado ou Organização Internacional. Contudo é possível vislumbrar alguns requisitos para tal reconhecimento: a) existência de um governo democrático; b) respeito à Carta da ONU; c) garantia aos direitos dos grupos étnicos e nacionais; d) respeito aos limites territoriais estabelecidos; e) aceite os instrumentos pacíficos de solução de controvérsias. Lado outro, já existente um Estado, há a necessidade de reconhecimento do governo. Aqui, a cada sucessão de governo, a comunidade internacional deve reconhecer a nova direção governamental. De forma bastante singela, esse reconhecimento pode ocorrer com, por exemplo, a presença de chefes de Estados na posse do novo governo; a manutenção das relações diplomáticas, a declaração, para dos demais Estados, no sentido de que reconhece a legitimidade do novo governo, etc. A soberania, por seu turno, significa o fato de o Estado não encontrar, internamente, nenhum poder igual ao seu, e, externamente, nenhum poder acima do seu. Assim, na órbita interna, somente o Estado tem o poder de criar seu ordenamento jurídico nacional, que deverá ser observado por todos. Discussão interessante refere-se questão acerca da titularidade da soberania. Num primeiro momento, entendia-se que a soberania pertencia ao monarca (que era o soberano). Após, passou-se a entender que a soberania era titularizada pelo próprio Estado. Hoje, prevalece a ideia de que o titular da soberania é o povo e que o governante é seu mero exercente.