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COMO ENTENDER CAOS POLÍTICO DE HOJE? John Mearsheimer e sua obra Tragédia da Política das Grandes Potências Uma introdução à obra que explica retorno da rivalidade entre as potências IE REALPOLITIK OPINIÃO NÃO É CONHECIMENTONum momento em que noticiário voltou a girar em torno de guerras, rivalidade entre potências e disputas por hegemonia, a obra de John Mearsheimer recuperou uma atualidade rara. Este ebook apresenta, de forma clara e organizada, núcleo de A Tragédia da Política das Grandes Potências: realismo ofensivo, a lógica trágica do sistema internacional e as previsões do autor sobre China, Ucrânia e retorno da competição estratégica. Ao longo das páginas, 0 leitor encontrará uma introdução sólida à vida de Mearsheimer, aos conceitos centrais de sua teoria e ao modo como sua obra ajuda a interpretar 0 caos político de hoje. Neste ebook, você encontrará: Quem é John Mearsheimer e por que sua obra importa Os fundamentos do realismo ofensivo A tragédia das grandes potências e a busca por hegemonia China, Ucrânia e 0 retorno da rivalidade global "As grandes potências buscam sem descanso oportunidades de ganhar poder sobre suas rivais." John J. Mearsheimer REALPOLITIKCOMO ENTENDER CAOS POLÍTICO DE HOJE SUMÁRIO Quem é John Mearsheimer? Cientista político americano nascido em 1947, formado pela academia militar de West Point e doutor pela Universidade Cornell, leciona na Universidade de Chicago desde 1982. É apontado, por admiradores e adversários, como realista mais influente de sua geração, e um dos raros acadêmicos cuja atravessou os muros da universidade para alcançar 0 grande público. que ele ensina? Que os Estados vivem num sistema sem autoridade acima deles, no qual as intenções alheias permanecem indecifráveis e socorro externo é uma aposta, jamais uma garantia. Nesse ambiente, acumular mais poder que os rivais deixa de ser ambição e passa a ser prudência; a busca pela hegemonia, longe de acidente moral, é 0 comportamento que 0 próprio sistema fabrica. Por que obra importa? Publicada em 2001 e ampliada em 2014, A Tragédia da Política das Grandes Potências previu 0 retorno da competição entre as potências num momento em que 0 Ocidente celebrava 0 fim dos conflitos e aposentava a palavra rivalidade. 0 século XXI, com guerra na Europa e tensão crescente na Ásia, vem lhe dando razão com uma pontualidade desconfortável. Por que ler este ebook? Ele oferece uma introdução estruturada à vida do autor, à lógica do realismo ofensivo e às previsões do livro, capítulo a capítulo, com a ponte para os conflitos que dominam 0 noticiário de hoje. Ao final, leitor terá em mãos a gramática que transforma 0 caos aparente do mundo em texto legível, você irá entender um pouco mais do que de fato está acontecendo. 2COMO ENTENDER 0 CAOS POLÍTICO DE HOJE I INTRODUÇÃO Nos ANOS QUE SE SEGUIRAM à queda do Muro de Berlim, formou-se no Ocidente um consenso confortável. A história teria chegado ao seu destino, como anunciava Francis Fukuyama em ensaio que virou texto obrigatório da época; a democracia liberal e 0 livre comércio integrariam planeta, antigos inimigos se converteriam em sócios comerciais, e a guerra entre grandes potências iria para 0 museu das relíquias, ao lado das monarquias absolutas e das pestes medievais. A década parecia confirmar a promessa em cada manchete. A OTAN se expandia sem disparar um tiro, os mercados se abriam uns aos outros, e os Estados Unidos desfrutavam de uma supremacia que dispensava rivais à altura. vocabulário público trocou a estratégia pela governança, a fronteira pela integração, 0 inimigo pelo parceiro comercial; falar em conflito entre potências soava tão anacrônico quanto discutir couraçados. John Mearsheimer publicou A Tragédia da Política das Grandes Potências em 2001, contra esse consenso e com plena consciência do que fazia. A tese do livro dirá, dentre outras coisas, que as grandes potências competem por poder há séculos e continuarão competindo, porque a estrutura do sistema internacional as obriga; a bonança dos anos 1990 era um intervalo, uma calmaria pré-tempestade. livro se propunha a explicar a mecânica dessa competição com clareza e se abstendo com indiferença do otimismo ambiente. A recepção inicial tratou a obra como peça de museu escrita fora de hora, 0 testamento erudito de uma era encerrada. Duas décadas bastaram para inverter os papéis. Com guerra de conquista na Europa, tensão crescente no estreito de Taiwan e rearmamento em marcha em todos os continentes, livro perdeu 0 ar de provocação acadêmica e ganhou função de mapa; os otimistas de 1990 é que hoje parecem datados. Este texto se propõe a percorrer a vida do autor, a lógica de sua teoria e as previsões que a obra sustenta, na ordem em que 0 próprio livro de Mearsheimer as constrói. caos político de hoje possui uma lógica interna, mais antiga que os personagens que 0 encenam, e a obra de Mearsheimer existe para expô-la. Quem a compreende passa a ler 0 noticiário como quem lê capítulos de um enredo conhecido. 3COMO ENTENDER 0 CAOS POLÍTICO DE HOJE II VIDA E CONTEXTO JOHN JOSEPH MEARSHEIMER NASCEU no Brooklyn, em Nova York, em 1947, e cresceu numa América que descobria 0 preço da hegemonia recém-conquistada. Entrou para a academia militar de West Point ainda adolescente e formou-se em 1970, com a guerra do Vietnã ao fundo, corroendo as pieguices oficiais sobre 0 uso da força; serviu depois cinco anos como oficial da Força Aérea, tempo suficiente para conhecer por dentro a máquina militar sobre a qual escreveria a vida inteira. A vida acadêmica veio em seguida, com 0 doutorado pela Universidade Cornell em 1980 e, dois anos depois, a cátedra na Universidade de Chicago, onde leciona até hoje. endereço carrega simbolismo; foi na mesma Chicago que Hans Morgenthau, patriarca do realismo moderno, ensinou por décadas. jovem professor herdava, junto com prédio, uma tradição de pensar 0 poder sem eufemismos. A formação militar deixou marca visível no método. Seu primeiro livro de peso, Conventional Deterrence, de 1983, estudava a dissuasão por armas convencionais com a minúcia de quem calcula divisões, distâncias e estoques; Mearsheimer escreve sobre a guerra como quem a estudou por dentro, com uma atenção a exércitos, geografia e logística que falta a boa parte de seus pares. Em seus argumentos, 0 número de blindados e a largura dos oceanos pesam tanto quanto os conceitos. Sua carreira foi construída contra as correntes dominantes, quase como método. Em 1990, quando a Guerra Fria terminava sob aplausos, ele publicou um artigo prevendo que a Europa ainda sentiria falta da estabilidade que a ordem bipolar garantia, tese recebida à época como excentricidade de pessimista. Em 2003, opôs-se em público à invasão do Iraque que boa parte do establishment de segurança aplaudia, e 0 tempo tratou de escolher lado certo dessa aposta também. episódio mais custoso veio em 2007, quando publicou com Stephen Walt um livro sobre 0 peso do lobby pró-Israel na política externa americana. A tempestade que se seguiu fechou portas, rendeu acusações duríssimas e teria encerrado carreiras menos sólidas; ele seguiu escrevendo como se nada devesse, e em 2018 lançou The Great Delusion, ajuste de contas com a ilusão liberal que guiou Washington no pós-Guerra Fria. A obra The Tragedy 4COMO ENTENDER CAOS POLÍTICO DE HOJE of Great Power Politics, lançada em 2001, permanece 0 centro dessa obra toda, e consolidou sua posição curiosa no debate americano, a de exótico mais lido da disciplina. 5COMO ENTENDER 0 CAOS POLÍTICO DE HOJE III REALISMO OFENSIVO A TEORIA DO LIVRO parte de cinco premissas de aparência inofensiva, e boa parte de sua força vem justamente dessa modéstia inicial. A primeira afirma que 0 sistema internacional é anárquico, no sentido preciso de que nenhuma autoridade paira acima dos Estados para arbitrar disputas ou socorrer vítimas; anarquia, aqui, descreve uma arquitetura, jamais um pandemônio. Cada Estado responde por si num mundo sem número de emergência para discar e ser socorrido. A segunda premissa observa que toda grande potência dispõe de alguma capacidade militar ofensiva, isto é, de meios para ferir as vizinhas, ainda que em graus muito distintos; para cada pescoço, lembra autor com humor tragicômico, existem duas mãos. A terceira acrescenta 0 dado que envenena tudo. A certeza sobre as intenções alheias está fora do alcance de qualquer Estado, hoje e daqui a dez anos, porque capacidades se contam em desfiles e estaleiros, ao passo que intenções moram na cabeça dos governantes, mudam com eles e são omitidas e distorcidas quando convém. A quarta premissa estabelece a sobrevivência como objetivo primeiro de todas as potências; Estados perseguem prosperidade, prestígio e ideologia, porém nenhum desses prêmios se desfruta depois que 0 território é conquistado ou que 0 regime é deposto. A quinta e última assume que as grandes potências são atores racionais, capazes de pensar estrategicamente sobre 0 ambiente em que vivem, 0 que dispensa qualquer suposição de sabedoria. Racionalidade, aqui, significa calcular, e cálculos podem errar. Tomada isoladamente, cada premissa beira 0 truísmo. Reunidas, elas produzem um mecanismo implacável de análise. Se ninguém virá me socorrer, se meus vizinhos podem me ferir e se me é impossível ler as intenções deles, a única garantia sólida de sobrevivência é ser mais forte do que todos, e cada rival, seguindo 0 mesmo raciocínio, chega à mesma conclusão. medo, na política internacional, tem menos de acidente e mais de clima permanente; 0 sistema, povoado de potências insatisfeitas, reserva 0 sossego apenas a quem alcança uma preponderância que quase nunca se alcança. "Great powers, I argue, are always searching for opportunities to gain power over their rivals, with hegemony as their final goal." JOHN J. MEARSHEIMER, THE TRAGEDY OF GREAT POWER POLITICS, CAP. 2 6COMO ENTENDER CAOS POLÍTICO DE HOJE Tradução livre: As grandes potências, sustento eu, buscam sem descanso oportunidades de ganhar poder sobre as rivais, tendo a hegemonia como objetivo final. A hegemonia funciona como estrela polar dessa navegação, orientando mesmo quem jamais chegará a ela. Disso decorre batismo da teoria; realismo é ofensivo porque 0 sistema recompensa quem avança quando 0 custo compensa, e a moderação vira luxo que pode findar um Estado negligente. 7COMO ENTENDER 0 CAOS POLÍTICO DE HOJE IV ONDE MORA TRAGÉDIA TÍTULO DO LIVRO, THE TRAGEDY OF GREAT POWER POLITICS, carrega 0 argumento mais profundo, e convém levá-lo a sério. Na tragédia grega, a ruína dispensa vilões; ela nasce de personagens que fazem exatamente 0 que sua posição exige, diante de uma plateia que enxerga 0 desfecho muito antes deles. É essa a estrutura que Mearsheimer identifica na política internacional, um palco em que atores sensatos produzem, juntos, desastres que nenhum deles desejou. mecanismo tem nome antigo na disciplina, 0 dilema de segurança. Tudo 0 que um Estado faz para se proteger, armar-se, aliar-se, fortificar fronteiras, é lido pelo vizinho como ameaça, e a resposta do vizinho devolve 0 susto multiplicado; a espiral se alimenta de precauções, dispensando qualquer agressor original. Corridas armamentistas, esferas de influência e guerras preventivas deixam de parecer patologias e revelam-se respostas racionais a um ambiente sem árbitro, condutas que a prudência recomenda e a história premia. "This situation, which one consciously designed or intended, is genuinely tragic." JOHN J. MEARSHEIMER, THE TRAGEDY OF GREAT POWER POLITICS, CAP. 1 Tradução livre: Essa situação, que ninguém desenhou nem pretendeu conscientemente, é genuinamente trágica. Aqui 0 realismo ofensivo se separa de seus parentes, e a genealogia importa. realismo clássico de Hans Morgenthau localizava a raiz da competição na natureza humana, numa vontade de domínio que habita 0 príncipe desde sempre; corrigir 0 mundo exigiria corrigir 0 homem, empresa de resultado já conhecido pela humanidade. realismo defensivo de Kenneth Waltz transferiu a causa para 0 sistema, porém apostou que esse sistema pune os expansionistas e premia os moderados, de modo que a sensatez recomendaria contentar-se com a segurança existente. Mearsheimer, contudo, dirá que 0 sistema fabrica a agressão por conta própria, sem precisar de tiranos nem de gente má, e costuma punir com a extinção quem recusa 0 jogo; a Polônia do século XVIII, repartida três vezes por vizinhos maiores, ilustra 0 destino reservado às potências que confiam demais na própria inocência. Se 0 diagnóstico está 8COMO ENTENDER CAOS POLÍTICO DE HOJE certo, as consequências causam apreensão a qualquer plateia que se julgue fora desse ciclo. Moralizar a política externa vira gesto decorativo, e as instituições internacionais administram 0 dilema sem jamais dissolvê-lo. A tragédia, no fim, dispensa vilões porque dispensa escolhas verdadeiras. Cada potência age como deve, sabendo que as demais farão 0 mesmo, e 0 resultado coletivo é 0 que nenhuma delas escolheria sozinha. Entender isso muda menos 0 mundo do que 0 leitor; ele passa a exigir das nações exatamente aquilo que a posição de cada uma permite, e a desconfiar de quem promete mais. 9COMO ENTENDER 0 CAOS POLÍTICO DE HOJE V PODER E SEUS LIMITES PODER, NO LIVRO, tem medida concreta, e a insistência nesse ponto separa Mearsheimer de tanta análise vaporosa. Existe 0 poder latente, feito de população e riqueza, a matéria- prima de que os exércitos são fabricados; e existe 0 poder efetivo, encarnado sobretudo em forças terrestres capazes de conquistar e manter território. Marinhas bloqueiam e aviações castigam, porém apenas soldados ocupam capitais, e é por isso que 0 exército segue sendo, na contabilidade do livro, a moeda final do poder. As armas nucleares complicaram essa aritmética sem revogá-la. Entre potências nucleares, a guerra total virou aposta suicida, e a destruição mútua assegurada empurrou a competição para outros tabuleiros, as guerras por procuração, a corrida tecnológica, a disputa por posições; a superioridade atômica capaz de vencer de fato uma guerra nuclear permanece fora do alcance de todos. equilíbrio convencional, portanto, continua decidindo quem manda onde, exatamente como antes de Hiroshima. Existe ainda um freio que a geografia opõe aos maiores apetites, e Mearsheimer lhe deu nome de batismo, 0 poder de contenção das águas, the stopping power of water. Oceanos são barreiras formidáveis à projeção de força; atravessá-los com exércitos inteiros, abastecê- los e sustentá-los em praia hostil é empresa que arruinou conquistadores de todos os séculos. Por causa deles, potência alguma, nem mesmo os Estados Unidos no auge, jamais alcançou hegemonia global, e a ilha, da Inglaterra vitoriana à América dos dois oceanos, sempre dormiu mais tranquila que continente. prêmio realista é menor e mais concreto, a hegemonia regional, domínio incontestado da própria vizinhança. Apenas os Estados Unidos a conquistaram, no hemisfério ocidental, ao longo do século XIX, e 0 dividendo dessa vitória explica boa parte do século seguinte; com as costas seguras em casa, os americanos ganharam a liberdade de intervir em toda parte, luxo que nenhuma potência cercada de rivais conhece. Dessa assimetria nasce 0 roteiro do século. 0 hegemon regional adquire um interesse permanente em impedir que outra potência repita 0 feito em outra parte do planeta, porque um rival com as costas igualmente seguras ficaria igualmente livre para vagar pelo mundo. A rivalidade entre a potência estabelecida e a potência em ascensão deixa de ser escolha de governantes e se converte em imperativo estrutural, 0 que ilumina de uma vez a 10COMO ENTENDER CAOS POLÍTICO DE HOJE obsessão americana com a Alemanha de ontem, a União Soviética de anteontem e a China de agora. 11COMO ENTENDER 0 CAOS POLÍTICO DE HOJE VI As ESTRATÉGIAS DAS POTÊNCIAS BOA PARTE DO LIVRO percorre cento e cinquenta anos de história, do Japão imperial à Alemanha guilhermina e nazista, da União Soviética aos Estados Unidos, para flagrar as potências em movimento e testar a teoria contra os fatos. passado, ali, funciona como laboratório; cada guerra e cada paz armada viram experimento sobre como os Estados de fato se comportam quando 0 medo aperta. Quem se defende dispõe de duas estratégias principais. A primeira é balanceamento, quando um Estado assume ele próprio 0 custo de conter 0 agressor, armando-se por dentro e costurando alianças por fora; a segunda, mais barata e mais tentadora, é repasse de custos, quando ele manobra para que outro pague a conta da contenção. Potências repassam sempre que podem e balanceiam quando devem, porque sangrar em causa alheia nunca foi bom negócio, e a conta do heroísmo chega antes da glória. Os anos 1930 oferecem 0 retrato acabado dessa preferência. As democracias europeias passaram a década empurrando umas às outras a tarefa de deter Hitler, cada qual torcendo para que a tempestade desabasse no quintal alheio; e 0 pacto germano-soviético de 1939, lido nessa chave, foi 0 repasse mais espetacular do século, com Stálin comprando tempo e apontando a guerra para 0 Ocidente. A estratégia saiu cara a quase todos os praticantes, que diz algo sobre seus limites e nada sobre seu apelo. As opções de quem ataca são mais variadas. Há a guerra aberta, quando 0 cálculo fecha favoravelmente; a chantagem, que colhe concessões exibindo a força sem gastá-la; e expedientes mais tortuosos, como atrair dois rivais para uma guerra mútua e assistir de camarote enquanto ambos sangram. livro examina cada um com a mesma neutralidade de entomologista, recusando ao leitor 0 consolo de tratar essas condutas como aberrações que não existem. Dessa galeria sai desmontada uma crença estimada do liberalismo, a de que a conquista não compensa. Compensou muitas vezes; impérios cresceram e prosperaram pela espada, anexações pagaram-se em tributo, mão de obra e posição, e 0 cálculo que os moveu segue à disposição de qualquer potência que enxergue na força um instrumento de boa relação entre custo e benefício. apaziguamento, por sua vez, raramente sacia 12COMO ENTENDER CAOS POLÍTICO DE HOJE apetites que a estrutura alimenta. leitor sai dessas páginas com menos ilusões e mais critérios, 0 que talvez seja a definição honesta de educação política. 13COMO ENTENDER 0 CAOS POLÍTICO DE HOJE VII PREVISÃO SOBRE A CHINA A EDIÇÃO DE 2014 ganhou um capítulo final dedicado à pergunta que definirá as próximas décadas, e a resposta de Mearsheimer dispensa rodeios já no prefácio. "Can China rise peacefully? Regrettably, my answer is no." JOHN J. MEARSHEIMER, PREFÁCIO À EDIÇÃO ATUALIZADA, 2014 Tradução livre: A China pode ascender pacificamente? Lamentavelmente, minha resposta é não. argumento é uma aplicação direta da teoria. Se a China continuar enriquecendo, fará 0 que toda grande potência em ascensão fez antes dela; converterá riqueza em força militar, buscará dominar a Ásia como os Estados Unidos dominaram hemisfério ocidental e trabalhará para empurrar os americanos para longe de suas águas, erguendo uma Doutrina Monroe com características chinesas, para usar a imagem que próprio autor repete em palestras. Nada disso exige maldade em Pequim; exige apenas que a China se comporte como potência. Os Estados Unidos, fiéis ao papel de hegemon estabelecido, farão 0 que hegemons fazem, montar uma coalizão para conter a ascensão do rival; e os vizinhos da China, do Japão à Índia, da Austrália ao Vietnã, tenderão a abrigar-se sob 0 guarda-chuva chinês, porque potências menores temem mais 0 gigante da porta ao lado do que 0 gigante do outro lado do oceano. A geografia, mais uma vez, distribui os papéis antes que os governos os escolham. capítulo foi escrito antes da guerra comercial, antes do cerco tecnológico a Pequim e antes dos pactos militares que hoje redesenham 0 Indo-Pacífico; releitura alguma envelheceu. leitor de 2014 podia tratá-lo como especulação de gabinete, e leitor de hoje 0 lê como crônica. Resta a ressalva que 0 próprio autor faz questão de manter. A competição lhe parece inevitável; a guerra, apenas provável, e tanto mais provável quanto pior administrada for a rivalidade que ninguém mais pode desfazer. 14COMO ENTENDER 0 CAOS POLÍTICO DE HOJE VIII UCRÂNIA E MUNDO DE HOJE A GUERRA NA UCRÂNIA deu a Mearsheimer uma notoriedade que raros acadêmicos conhecem em vida, e processo começou bem antes dos tanques. Em 2014, no auge da crise da Crimeia, ele publicou na Foreign Affairs artigo Why the Ukraine Crisis Is the West's Fault, sustentando que "the United States and its European allies share most of the responsibility for the crisis", isto é, que os Estados Unidos e seus aliados europeus carregam a maior parte da responsabilidade pela crise. A raiz do problema, escreveu, estava na expansão da OTAN em direção às fronteiras russas, processo coroado pela cúpula de Bucareste, que em 2008 prometera a Ucrânia e Geórgia um futuro ingresso na aliança; grande potência alguma, argumentava ele, tolera avanço semelhante à sua porta, e os Estados Unidos seriam os primeiros a não tolerar. Um ano depois, numa palestra na Universidade de Chicago que ultrapassaria vinte milhões de visualizações no YouTube, ele resumiu 0 prognóstico numa frase que envelheceria de modo sinistro: "the West is leading Ukraine down the primrose path", 0 Ocidente conduz a Ucrânia por um caminho florido; e 0 resultado final, completou, é que país sairá arruinado. A sala ouviu com 0 ceticismo educado que se reserva aos pessimistas profissionais, e 0 vídeo dormiu anos na obscuridade das gravações acadêmicas. A invasão em grande escala de 2022 transformou 0 professor, da noite para 0 dia, em profeta e réu ao mesmo tempo. As visualizações explodiram, as entrevistas se multiplicaram por horas a fio, e a acusação de apologista de Moscou passou a acompanhá- lo em cada aparição; circulou até abaixo-assinado pedindo seu afastamento da própria universidade. Poucas trajetórias ilustram melhor 0 preço de ter razão, ou de parecer tê-la, no assunto errado. A resposta dele permaneceu a mesma em todos os palcos. Explicar as causas de uma guerra difere de justificá-la, tal como 0 médico que diagnostica a doença sem por isso defendê-la; atribuir a Putin a decisão do crime e ao Ocidente a construção do cenário são operações compatíveis, e confundi-las empobrece as duas. Os críticos respondem que argumento subestima a agência russa e as ambições imperiais de Moscou, e 0 debate segue vivo, áspero, longe de qualquer veredito. 15COMO ENTENDER CAOS POLÍTICO DE HOJE Você, leitor, tampouco precisa dar razão ao diagnóstico para reconhecer 0 essencial, que ele foi feito sete anos antes da invasão em grande escala, com a teoria do livro funcionando à vista de todos. A tragédia anunciada no título encontrou, na planície ucraniana, seu palco mais literal. 16COMO ENTENDER 0 CAOS POLÍTICO DE HOJE IX CRÍTICAS E QUE PERMANECE A OBRA COLECIONOU ADVERSÁRIOS à altura, e 0 inventário das objeções ajuda a medir 0 tamanho do alvo. Os liberais objetam que instituições, comércio e democracia mudaram jogo desde 1945; economias entrelaçadas tornariam a guerra um péssimo negócio, organizações internacionais domesticariam a anarquia, e democracias consolidadas simplesmente desaprenderam a guerrear entre si. A União Europeia serve de prova viva, um continente que passou séculos se esquartejando e hoje disputa, no máximo, frontes comerciais. Os construtivistas atacam por outro flanco, lembrando que ideias e identidades moldam interesses, e que as potências leem 0 mundo com olhos diferentes; normas mudam, e a guerra de conquista, banal no século XIX, tornou-se tabu no XXI, ao menos por agora. Há ainda as zonas de silêncio que os próprios simpatizantes reconhecem na teoria, as relações entre democracias aliadas, 0 peso da política interna sobre decisões externas, os líderes que agiram contra toda lógica estrutural e arrastaram países inteiros consigo. próprio Mearsheimer, aliás, tratou de preencher uma dessas lacunas, dando ao nacionalismo papel central em seu livro de 2018; sinal de que a teoria admite reforma sem admitir demolição. As objeções, tomadas em conjunto, desenham perímetro do que realismo ofensivo explica bem, as relações entre potências rivais, e do que explica menos, a vida interna das alianças e as paixões que movem os povos. tempo, porém, tem sido generoso com 0 núcleo do argumento. A competição entre grandes potências voltou ao centro do palco mundial; a guerra de conquista retornou à Europa depois de gerações; 0 Japão e a Alemanha rearmam-se em escala que soaria fantasiosa dez anos atrás; e a rivalidade sino-americana segue 0 roteiro do capítulo final com disciplina de elenco ensaiado. Cada previsão pontual comporta discussão, mas a direção geral, dificilmente. Para uma obra de ciência social com um quarto de século, ela se mostrou quase profética de tão precisa. Livros que acertam tanto costumam ser lidos por gerações, e livros tão certeiros, relidos a cada crise. A obra The Tragedy of Great Power Politics pertence às duas categorias, 0 que explica sua permanência nas estantes e nas polêmicas. 17COMO ENTENDER CAOS POLÍTICO DE HOJE X INFLUÊNCIA E LEGADO A TRAGÉDIA DA POLÍTICA das Grandes Potências, de Mearsheimer, tornou-se, desde a publicação, 0 texto contra 0 qual as demais escolas precisam se medir; combatê-lo virou rito de passagem em periódicos e bancas, e vocabulário do livro, do realismo ofensivo à hegemonia regional e ao poder de contenção das águas, entrou na circulação corrente da disciplina e dos jornais. Poucos livros acadêmicos deste século conseguiram tanto, e menos ainda conseguiram causando apreensão em tanta gente. Gerações de estudantes formaram-se discutindo suas teses, a favor ou contra, e a cadeira simbólica de Morgenthau em Chicago encontrou ocupante à altura da lenda; quando os departamentos de relações internacionais precisam de um adversário exemplar para exercitar os alunos, é 0 realismo ofensivo que sobe ao ringue. Ser 0 alvo preferencial de uma disciplina inteira é forma peculiar de consagração, e ele a exerce com visível apetite. Fora da academia, Mearsheimer virou um fenômeno improvável. Palestras suas somam dezenas de milhões de visualizações, entrevistas de horas circulam entre um público que jamais abriu um manual de relações internacionais, e num tempo saturado de análise rasa, milhões procuram um professor beirando os oitenta para entender 0 noticiário. À esquerda ele soa cínico, à direita soa derrotista, e segue sendo lido por ambas, sina reservada a quem descreve jogo em vez de torcer nele. fato diz algo sobre ele, e talvez ainda mais sobre a fome do público por explicações que respeitem a sua inteligência. legado maior está aí; Mearsheimer tornou 0 realismo legível fora dos seminários, fornecendo ao leitor comum um instrumento que se tornou a chave interpretativa para entender caos político de hoje. 18

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