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AUTARQUIA BELEMITA DE CULTURA DESPORTOS E EDUCAÇÃO CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DO VALE DO SÃO FRANCISCO CURSO DE BACHARELADO EM ENGENHARIA AGRONÔMICA FILOMENO CHARLES BARBOSA DA SILVA ESTUDO SOBRE A VULNERABILIDADE DAS FAMÍLIAS AGRICULTORAS À SECA E AS ESTRATÉGIAS DE ADAPTAÇÃO ADOTADAS BELÉM DO SÃO FRANCISCO – PE 2026 FILOMENO CHARLES BARBOSA DA SILVA ESTUDO SOBRE A VULNERABILIDADE DAS FAMÍLIAS AGRICULTORAS À SECA E AS ESTRATÉGIAS DE ADAPTAÇÃO ADOTADAS Artigo Científico apresentado ao Curso de Bacharelado em Engenharia Agronômica do Centro de Ensino Superior do Vale do São Francisco – CESVASF, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Engenharia Agronômica. Orientador: Prof. João Pedro de Souza Santos. BELÉM DO SÃO FRANCISCO – PE 2026 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................................5 2 REFERENCIAL TEÓRICO 7 2.1 Seca, vulnerabilidade e mudanças climáticas 7 2.2 Agricultura familiar no Semiárido brasileiro 8 2.3 Vulnerabilidade das famílias agricultoras à seca 8 2.4 Estratégias de adaptação e convivência com o Semiárido 9 2.5 Tecnologias sociais e segurança hídrica 10 2.6 Assistência técnica, informação e capacidade adaptativa 10 2.7 Políticas públicas e adaptação à seca 11 2.8 Mulheres e vulnerabilidade no contexto rural 11 2.9 Lacunas identificadas na literatura 12 3 METODOLOGIA 12 3.1 Caracterização da pesquisa 12 3.2 Área de estudo 12 3.3 Participantes da pesquisa 13 3.4 Instrumento de coleta de dados 13 3.5 Procedimentos de coleta 13 3.6 Procedimentos de análise 13 3.7 Aspectos éticos 14 3.8 Limitações da pesquisa 14 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO 15 4.1 Perfil das famílias agricultoras participantes 15 4.2 Caracterização das atividades agrícolas 17 4.3 Impactos da seca sobre as famílias agricultoras 18 4.4 Frequência da seca percebida pelos agricultores 19 4.5 Formas de armazenamento de água 19 4.6 Estratégias utilizadas para enfrentar a seca 20 4.7 Acesso a apoio ou programas governamentais 21 4.8 Percepção dos agricultores sobre o aumento da seca 22 4.9 Sugestões dos agricultores para enfrentar melhor a seca 22 4.10 Síntese dos resultados 23 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS 23 REFERÊNCIAS 25 ANEXOS VULNERABILIDADE DAS FAMÍLIAS AGRICULTORAS À SECA E ESTRATÉGIAS DE ADAPTAÇÃO: UM ESTUDO COM AGRICULTORES DO MUNICÍPIO DE CHORROCHÓ-BAHIA Filomeno Charles Barbosa da Silva (CESVASF) Charllesbarbosa222@gmail.com Prof. Me. João Pedro Alves de Souza Santos (CESVASF) (e-mail) RESUMO A seca constitui um dos principais fatores de vulnerabilidade socioeconômica e ambiental das famílias agricultoras do Semiárido brasileiro, afetando a disponibilidade de água, a produção agropecuária, a renda e as condições de vida das populações rurais. Este artigo tem como objetivo analisar a vulnerabilidade das famílias agricultoras à seca e identificar as principais estratégias de adaptação adotadas por agricultores do município de Chorrochó, no estado da Bahia. A pesquisa caracteriza-se como um estudo de campo, de natureza descritiva e exploratória, com abordagem qualiquantitativa. Para a coleta de dados, foi elaborado um questionário direcionado às famílias agricultoras, contemplando aspectos relacionados ao perfil socioeconômico, atividades produtivas, impactos da seca, acesso à água, estratégias de adaptação, políticas públicas e percepção dos agricultores sobre as mudanças climáticas. A discussão teórica fundamenta-se em estudos recentes sobre agricultura familiar, vulnerabilidade climática, capacidade adaptativa, convivência com o Semiárido e tecnologias sociais de acesso à água. Os resultados empíricos deverão ser apresentados a partir das respostas efetivamente obtidas com a aplicação do instrumento de pesquisa, evitando-se a utilização de dados não coletados. A análise pretende contribuir para a compreensão das condições de vulnerabilidade das famílias agricultoras de Chorrochó e para o fortalecimento de estratégias e políticas públicas voltadas à convivência sustentável com a seca. Palavras-chave: Agricultura familiar. Seca. Vulnerabilidade. Adaptação. Semiárido. Chorrochó. ABSTRACT Drought is one of the main factors of socioeconomic and environmental vulnerability for farming families in Brazil's Semi-Arid region, affecting water availability, agricultural production, income, and the living conditions of rural populations. This article aims to analyze the vulnerability of farming families to drought and identify the main adaptation strategies adopted by farmers in the municipality of Chorrochó, in the state of Bahia. The research is characterized as a field study, of a descriptive and exploratory nature, with a qualitative-quantitative approach. For data collection, a questionnaire was developed for farming families, covering aspects related to socioeconomic profile, productive activities, impacts of drought, access to water, adaptation strategies, public policies, and farmers' perception of climate change. The theoretical discussion is based on recent studies on family farming, climate vulnerability, adaptive capacity, living with the semi-arid environment, and social technologies for access to water. The empirical results should be presented based on the actual responses obtained from the research instrument, avoiding the use of data that was not collected. The analysis aims to help understand the vulnerability conditions of farming families in Chorrochó and to strengthen strategies and public policies focused on sustainable living with drought. Keywords: Family farming. Drought. Vulnerability. Adaptation. Semi-arid. Chorrochó. 1 INTRODUÇÃO A seca constitui um fenômeno recorrente no Semiárido brasileiro e representa um dos principais desafios enfrentados pelas populações que dependem diretamente dos recursos naturais para sua sobrevivência. Embora a seca seja uma característica climática historicamente presente na região, seus efeitos sobre as famílias agricultoras estão relacionados não apenas à redução das precipitações, mas também às condições socioeconômicas, ao acesso à água, à infraestrutura disponível, às formas de produção e à capacidade das famílias de desenvolver estratégias de adaptação. No Semiárido, a agricultura familiar possui importante função social e econômica, contribuindo para a produção de alimentos, a geração de renda e a permanência das famílias no meio rural. Entretanto, a irregularidade das chuvas e a ocorrência de períodos prolongados de estiagem podem comprometer significativamente a produção agrícola e pecuária. A insuficiência hídrica afeta o cultivo, a criação de animais e o abastecimento das próprias famílias, tornando a disponibilidade de água um dos elementos centrais para a compreensão da vulnerabilidade rural. Estudos realizados nos últimos anos demonstram que a capacidade de adaptação dos agricultores familiares está relacionada a diferentes fatores, entre eles o acesso à informação, à assistência técnica, às políticas públicas, às tecnologias sociais, ao crédito, à infraestrutura hídrica e aos conhecimentos construídos pelas próprias comunidades. Castro e Cerezini (2024), ao analisarem a capacidade adaptativa de agricultores familiares do Semiárido brasileiro, destacam a importância de fatores como educação, informação, inovação e assistência técnica para o enfrentamento das mudanças climáticas. Nesse contexto, as estratégias de convivência com o Semiárido assumem papel relevante. Tecnologias sociais, como cisternas de consumo e de produção, barreiros, barragens subterrâneas e sistemas de aproveitamento e armazenamento de água, podem ampliar a capacidade das famílias rurais de enfrentar os períodos de estiagem. Cavalcante, Mesquita e Rodrigues-Filho (2020) ressaltam que as cisternas representam uma importante tecnologia social para o fortalecimento da capacidade adaptativa dos agricultores familiares do Semiárido. O município de Chorrochó, localizado na região norte do estado da Bahia, apresenta características próprias do contexto semiárido, comsignificativa presença da população rural e atividades produtivas condicionadas pela disponibilidade e irregularidade das chuvas. A agricultura e a criação de animais fazem parte da dinâmica econômica e social das comunidades rurais, fazendo com que os períodos de estiagem tenham impacto direto sobre as condições de vida das famílias. Diante dessa realidade, torna-se relevante compreender como os agricultores percebem os efeitos da seca, quais são as principais dificuldades enfrentadas e quais estratégias são utilizadas para reduzir seus impactos. Mais do que identificar os problemas, é necessário compreender as capacidades existentes nas comunidades e os mecanismos utilizados pelas famílias para permanecerem produzindo e vivendo no território. Assim, este estudo busca responder à seguinte questão-problema: de que maneira a seca afeta as famílias agricultoras do município de Chorrochó/BA, e quais estratégias de adaptação são adotadas por essas famílias para enfrentar os impactos da estiagem? O objetivo geral é analisar a vulnerabilidade das famílias agricultoras à seca e identificar as estratégias de adaptação adotadas por agricultores do município de Chorrochó/BA. Como objetivos específicos, pretende-se: identificar o perfil socioeconômico das famílias participantes da pesquisa; verificar as principais atividades agrícolas e pecuárias desenvolvidas; analisar os impactos da seca sobre a produção e a renda familiar; identificar as principais dificuldades relacionadas ao acesso à água; conhecer as estratégias utilizadas pelas famílias para enfrentar os períodos de estiagem; verificar o acesso a políticas públicas, programas e tecnologias sociais; analisar a percepção dos agricultores sobre a ocorrência e a intensidade das secas; e discutir possibilidades de fortalecimento da capacidade adaptativa das famílias agricultoras. A realização desta pesquisa justifica-se pela necessidade de compreender a realidade vivenciada pelas famílias agricultoras em um município inserido no Semiárido baiano. O conhecimento das dificuldades enfrentadas e das estratégias construídas pelos próprios agricultores pode contribuir para o planejamento de ações públicas mais adequadas às necessidades locais. Além disso, o estudo possui relevância social, uma vez que a agricultura familiar representa importante meio de subsistência para numerosas famílias rurais. Compreender os efeitos da seca sobre essa população pode favorecer a construção de estratégias que contribuam para a segurança hídrica, alimentar e econômica das comunidades. Do ponto de vista científico, a pesquisa contribui para ampliar as discussões sobre vulnerabilidade e adaptação no Semiárido, especialmente a partir de uma perspectiva local. Embora existam diversos estudos sobre seca e agricultura familiar no Nordeste brasileiro, ainda são necessários estudos que considerem as especificidades dos municípios e das comunidades rurais. 2 REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 Seca, vulnerabilidade e mudanças climáticas A seca pode ser compreendida como um fenômeno associado à redução significativa das precipitações durante determinado período, podendo produzir consequências ambientais, econômicas e sociais. No Semiárido brasileiro, sua ocorrência faz parte da dinâmica climática regional, mas seus impactos podem ser ampliados pelas condições de vulnerabilidade das populações afetadas. A vulnerabilidade diante dos eventos climáticos não depende exclusivamente da intensidade do fenômeno natural. Ela também está relacionada à capacidade das pessoas e comunidades de antecipar, enfrentar, absorver e superar seus efeitos. Dessa forma, famílias que possuem maior acesso à água, infraestrutura, recursos financeiros, assistência técnica e informações tendem a apresentar melhores condições para enfrentar períodos de estiagem. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas destaca que as alterações climáticas podem intensificar riscos relacionados à disponibilidade hídrica e à produção agrícola, especialmente em regiões que já apresentam condições de vulnerabilidade. Entre as possibilidades de adaptação encontram-se a conservação do solo e da água, mudanças nos sistemas produtivos, adoção de cultivares mais resistentes à seca e melhoria das práticas de manejo (IPCC, 2022). No Nordeste brasileiro, a discussão sobre mudanças climáticas assume importância particular devido à dependência de grande parcela da população rural em relação às condições climáticas. Marengo et al. (2022) destacam que a ocorrência de secas no Nordeste apresenta importantes consequências para a agricultura e para a segurança alimentar, sendo necessária a combinação de políticas públicas e estratégias de adaptação. A vulnerabilidade, portanto, deve ser analisada de maneira multidimensional. Não se trata apenas de verificar se uma família possui água ou não, mas de compreender as condições econômicas, sociais, produtivas e institucionais que determinam sua capacidade de enfrentar situações adversas. 2.2 Agricultura familiar no Semiárido brasileiro A agricultura familiar desempenha papel significativo na organização econômica e social do meio rural brasileiro. No Semiárido, essa importância está associada tanto à produção de alimentos quanto à manutenção das famílias no território. As condições de produção, entretanto, são influenciadas diretamente pela irregularidade das chuvas. Em sistemas agrícolas dependentes da precipitação, períodos prolongados de estiagem podem provocar perdas de lavouras, redução da disponibilidade de pastagem, mortalidade de animais e diminuição da renda familiar. A agricultura familiar do Semiárido desenvolveu historicamente conhecimentos e práticas destinadas à convivência com condições de baixa disponibilidade hídrica. Essas estratégias incluem a diversificação da produção, armazenamento de água, criação de animais adaptados às condições locais, utilização de sementes resistentes e aproveitamento de recursos disponíveis no próprio território. Fragoso et al. (2021) destaca que os agricultores familiares de áreas de sequeiro desenvolvem diferentes estratégias para enfrentar as dificuldades relacionadas às condições climáticas do Semiárido. Essas estratégias demonstram que os agricultores não são sujeitos passivos diante da seca, mas constroem alternativas de sobrevivência e adaptação a partir de seus conhecimentos e experiências. Nesse sentido, analisar a vulnerabilidade das famílias agricultoras exige reconhecer tanto as dificuldades existentes quanto as capacidades construídas ao longo do tempo. 2.3 Vulnerabilidade das famílias agricultoras à seca A vulnerabilidade das famílias agricultoras pode ser compreendida a partir da relação entre exposição aos eventos climáticos, sensibilidade aos seus impactos e capacidade de adaptação. Uma família que depende exclusivamente da agricultura de sequeiro, por exemplo, apresenta maior exposição aos períodos de estiagem. Quando essa condição é acompanhada pela ausência de reservatórios, baixa renda, pouca assistência técnica e dificuldade de acesso a políticas públicas, a vulnerabilidade tende a ser ampliada. Por outro lado, famílias que possuem diferentes fontes de renda, acesso a tecnologias de armazenamento de água, diversificação produtiva e apoio institucional podem apresentar maior capacidade de enfrentar períodos prolongados de seca. Milhomens (2022), ao analisar a percepção de risco e a capacidade adaptativa de agricultores familiares agroecológicos do Semiárido brasileiro, evidencia a importância das soluções sociotécnicas, das políticas de água, das condições sociais e do acesso aos mercados para o fortalecimento da capacidade de adaptação. A vulnerabilidade deve, portanto, ser analisada considerando as especificidades de cada território. As características ambientais são importantes, mas não explicam sozinhas a condição de vulnerabilidade das famílias. 2.4 Estratégias de adaptação e convivência com o Semiárido A ideia de convivência com o Semiárido representa uma mudança na maneira de compreender a relação entre as populações rurais e ascondições climáticas da região. Em vez de considerar a seca exclusivamente como um problema a ser combatido, essa perspectiva busca desenvolver estratégias que permitam às famílias viver e produzir de acordo com as características ambientais do território. Entre as estratégias de adaptação encontram-se a diversificação das atividades produtivas, armazenamento de água, adoção de práticas de conservação do solo, utilização de tecnologias sociais, diversificação das fontes de renda e acesso a assistência técnica. Maia et al. (2021) demonstram que programas voltados à resiliência climática podem produzir efeitos positivos sobre a produção e a qualidade de vida de pequenos agricultores do Sertão brasileiro. Os autores evidenciam a importância de ações que combinem assistência técnica, tecnologias produtivas e estratégias de convivência com as condições climáticas. Da mesma forma, Maia et al. (2022) identificaram relação entre programas de resiliência climática e eficiência técnica de pequenos produtores rurais no Semiárido, demonstrando que intervenções direcionadas podem contribuir para melhorar o desempenho dos sistemas produtivos. As estratégias de adaptação, contudo, não devem ser compreendidas apenas como medidas individuais. A capacidade de adaptação das famílias também depende da existência de políticas públicas e de infraestrutura adequada. 2.5 Tecnologias sociais e segurança hídrica A disponibilidade de água é um dos principais elementos para a permanência das famílias agricultoras no Semiárido. Nesse contexto, as tecnologias sociais de captação e armazenamento de água possuem papel fundamental. As cisternas representam uma das principais tecnologias utilizadas para ampliar o acesso à água em comunidades rurais. Além de contribuírem para o consumo doméstico, algumas modalidades possibilitam o armazenamento de água para produção agrícola e criação de animais. Cavalcante, Mesquita e Rodrigues-Filho (2020) analisaram o papel das cisternas de segunda água no fortalecimento da capacidade adaptativa de agricultores familiares brasileiros e destacaram a importância dessas tecnologias para a adaptação às condições climáticas. Mesquita e Cavalcante (2021) também evidenciaram que os programas de infraestrutura hídrica voltados à agricultura familiar podem fortalecer a capacidade adaptativa dos agricultores do Semiárido, especialmente quando articulados a outras políticas e estratégias. Entretanto, o acesso à água não resolve isoladamente todos os problemas relacionados à seca. Estudos demonstram que a capacidade de armazenamento e a quantidade disponível podem ser insuficientes durante períodos prolongados de estiagem. Dessa forma, é necessário combinar diferentes estratégias. 2.6 Assistência técnica, informação e capacidade adaptativa A capacidade de adaptação dos agricultores também está relacionada ao acesso ao conhecimento e à assistência técnica. Informações sobre previsão climática, manejo do solo, escolha de culturas, armazenamento de água, alimentação animal e tecnologias produtivas podem contribuir para a tomada de decisões. Castro e Cerezini (2024) destacam que educação, informação, inovação e assistência técnica são fatores relevantes para a capacidade adaptativa dos agricultores familiares do Semiárido. A assistência técnica pode contribuir, por exemplo, para a adoção de práticas de produção mais adequadas às condições climáticas locais. Entretanto, para produzir resultados consistentes, precisa estar articulada às experiências e conhecimentos dos próprios agricultores. O conhecimento tradicional das comunidades rurais também constitui importante recurso de adaptação. Os agricultores desenvolvem, ao longo das gerações, formas próprias de interpretar as condições climáticas e organizar suas atividades produtivas. 2.7 Políticas públicas e adaptação à seca As políticas públicas possuem papel estratégico na redução da vulnerabilidade das famílias agricultoras. Programas de acesso à água, crédito, assistência técnica, aquisição de alimentos e apoio à produção podem contribuir para melhorar as condições de vida das populações rurais. Mesquita et al. (2020) destacam a importância dos programas destinados aos agricultores familiares durante os períodos de seca e diante da necessidade de adaptação às mudanças climáticas no Semiárido. Estudos recentes também apontam impactos positivos de tecnologias sociais sobre a renda rural. Pesquisa publicada em World Development em 2024 identificou efeitos positivos de programas de cisternas sobre a renda das famílias agricultoras, especialmente entre pequenos produtores e famílias de menor renda. No contexto baiano, ações recentes voltadas ao acesso à água e à convivência com o Semiárido incluem a implantação de cisternas, barreiros, barragens subterrâneas e outras tecnologias destinadas ao abastecimento e à produção. Em Chorrochó, ações públicas recentes incluem a implantação de tecnologias de armazenamento de água e iniciativas destinadas ao fortalecimento da agricultura familiar e da resiliência climática. Essas ações demonstram que a questão da água permanece central para o desenvolvimento rural do município. 2.8 Mulheres e vulnerabilidade no contexto rural A vulnerabilidade à seca também apresenta dimensões relacionadas à organização social das famílias. As mulheres desempenham importante papel na agricultura familiar, na organização doméstica e na gestão dos recursos utilizados pelas famílias. Valerio, Panzone e Siliprandi (2024), ao analisarem o empoderamento das mulheres na agricultura no Semiárido nordestino, identificaram relações importantes entre acesso a crédito, extensão rural e fortalecimento da autonomia das mulheres. Assim, políticas de adaptação precisam considerar as diferentes responsabilidades e condições existentes dentro das famílias agricultoras, garantindo que mulheres e outros grupos sociais tenham acesso efetivo aos recursos, informações e oportunidades. 2.9 Lacunas identificadas na literatura A literatura recente demonstra avanços importantes na compreensão da vulnerabilidade climática e das estratégias de adaptação dos agricultores familiares do Semiárido. Entretanto, ainda existem lacunas relacionadas à análise de realidades municipais específicas. Grande parte dos estudos apresenta análises em escala regional ou estadual. Embora essas pesquisas sejam fundamentais, estudos locais podem revelar características que permanecem invisíveis em análises mais amplas. Nesse sentido, investigar a realidade das famílias agricultoras de Chorrochó pode contribuir para aproximar a discussão teórica da experiência concreta dos agricultores, identificando dificuldades, estratégias e necessidades específicas do município. 3 METODOLOGIA 3.1 Caracterização da pesquisa Esta pesquisa caracteriza-se como um estudo de campo, de natureza descritiva e exploratória, com abordagem qualiquantitativa. A abordagem quantitativa será utilizada para organizar e analisar as respostas obtidas por meio do questionário, permitindo identificar frequências e proporções relacionadas às diferentes variáveis investigadas. A abordagem qualitativa será utilizada para interpretar as percepções dos agricultores, suas experiências com os períodos de seca, as estratégias utilizadas e as dificuldades enfrentadas no cotidiano. A combinação das duas abordagens possibilita uma compreensão mais ampla do fenômeno estudado, uma vez que os dados quantitativos permitem dimensionar determinadas características, enquanto os dados qualitativos possibilitam compreender experiências, percepções e significados atribuídos pelos participantes. 3.2 Área de estudo A pesquisa foi realizada no município de Chorrochó, localizado no estado da Bahia e inserido no contexto do Semiárido brasileiro. O município apresenta significativa presença de comunidades rurais e atividades agrícolas e pecuárias desenvolvidas por famílias que dependem, em diferentes graus, das condições climáticas. A escolha do município como área de estudo está relacionada à relevância da agricultura familiar para as comunidades ruraise à necessidade de compreender os impactos da irregularidade das chuvas sobre as famílias agricultoras. 3.3 Participantes da pesquisa Os participantes da pesquisa são agricultores e agricultoras familiares residentes e/ou produtores no município de Chorrochó, Bahia. A seleção dos participantes considerou como critério principal a existência de vínculo direto com atividades agrícolas ou pecuárias desenvolvidas em âmbito familiar. A quantidade final de participantes corresponde ao número efetivamente alcançado durante a aplicação do questionário. 3.4 Instrumento de coleta de dados Para a coleta das informações foi elaborado um questionário direcionado às famílias agricultoras. O instrumento, contempla questões relacionadas ao perfil dos participantes, atividades produtivas, condições de acesso à água, impactos da seca, perdas na produção, estratégias de adaptação, utilização de tecnologias sociais, acesso a políticas públicas, assistência técnica e percepção sobre as mudanças climáticas. O questionário foi estruturado de forma a possibilitar a organização dos dados quantitativos e, simultaneamente, a identificação das percepções e experiências dos participantes. 3.5 Procedimentos de coleta A aplicação do questionário ocorreu diretamente com agricultores participantes da pesquisa, respeitando a disponibilidade e as condições de cada participante. Antes da aplicação, os participantes foram informados sobre os objetivos da pesquisa, a finalidade acadêmica dos dados e o caráter voluntário de sua participação. As respostas foram registradas de maneira organizada, garantindo-se a confidencialidade das informações e a proteção da identidade dos participantes. 3.6 Procedimentos de análise Após a coleta, os dados quantitativos foram organizados em planilha eletrônica e submetidos à análise descritiva. Foram calculadas frequências absolutas e relativas, permitindo identificar a distribuição das respostas entre as diferentes categorias. Quando houver quantidade suficiente de respostas, poderão ser realizadas análises comparativas entre variáveis, como acesso à água e perdas produtivas, utilização de tecnologias sociais e percepção da seca, ou assistência técnica e adoção de estratégias de adaptação. As respostas de natureza qualitativa foram analisadas por meio da identificação de temas recorrentes, categorias de significado e percepções apresentadas pelos agricultores. Os resultados serão apresentados por meio de tabelas e gráficos, acompanhados de discussão fundamentada na literatura científica. 3.7 Aspectos éticos A pesquisa observou os princípios éticos aplicáveis às pesquisas envolvendo seres humanos. A participação deverá ocorrer de forma voluntária, mediante esclarecimento dos objetivos e procedimentos da pesquisa. Deverão ser preservados o anonimato, a privacidade e a confidencialidade das informações fornecidas pelos participantes. A Resolução CNS nº 510/2016 estabelece princípios éticos relacionados às pesquisas em Ciências Humanas e Sociais, incluindo respeito à autonomia, aos direitos dos participantes, aos valores sociais e culturais e à proteção da identidade. Quando aplicável ao desenho institucional da pesquisa, deverão ser observados também os procedimentos exigidos pelo sistema CEP/CONEP. 3.8 Limitações da pesquisa Entre as limitações da pesquisa encontra-se a possibilidade de dificuldade de acesso a determinados agricultores e comunidades rurais, especialmente em razão das distâncias entre as localidades e das condições de deslocamento. Outra limitação está relacionada ao caráter localizado do estudo. Por se tratar de uma pesquisa realizada em Chorrochó, seus resultados não poderão ser automaticamente generalizados para todas as famílias agricultoras do Semiárido brasileiro. Além disso, a análise estará condicionada às informações fornecidas pelos participantes, podendo refletir percepções individuais sobre os períodos de seca e suas consequências. 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO A pesquisa contou com 17 participantes, cujas respostas permitiram analisar características socioeconômicas, atividades agrícolas, impactos da seca, formas de armazenamento de água, estratégias de adaptação, acesso a apoio governamental e percepção dos agricultores sobre a intensificação da seca. 4.1 Perfil das famílias agricultoras participantes Os questionários permitiram identificar o sexo, a idade, a localidade, a escolaridade e o número de pessoas residentes nos domicílios dos participantes. Quanto ao sexo, foram identificados 11 participantes do sexo masculino, 5 do sexo feminino e 1 questionário sem marcação nessa questão. Entre os participantes, predominam pessoas com idade superior a 50 anos. Apenas 6 participantes estão na faixa de 31 a 50 anos, não havendo participante com até 30 anos. Tabela 1 – Perfil dos participantes segundo sexo e faixa etária Variável Categoria Frequência Percentual Sexo Masculino 11 64,7% Feminino 5 29,4% Não informado 1 5,9% Faixa etária Até 30 anos 0 0,0% 31 a 50 anos 6 35,3% Acima de 50 anos 11 64,7% Total 17 100% Fonte: Dados da pesquisa (2026). Em relação à escolaridade, observa-se uma presença significativa de participantes que declararam não ser alfabetizados. Foram 8 participantes nessa condição, enquanto 6 participantes declararam possuir ensino fundamental completo, 2 participantes ensino fundamental incompleto e apenas 1 participante declarou possuir ensino médio. Não houve participante com ensino superior. Tabela 2 – Escolaridade dos participantes Escolaridade Frequência Percentual Não alfabetizado 8 47,1% Fundamental incompleto 2 11,8% Fundamental completo 6 35,3% Ensino médio 1 5,9% Ensino superior 0 0,0% Total 17 100% Fonte: Dados da pesquisa (2026). Quanto ao número de pessoas residentes nas famílias, 7 participantes indicaram residências com 1 a 3 pessoas, 9 participantes indicaram de 4 a 6 pessoas e 1 participante informou possuir mais de 6 moradores. Tabela 3 – Número de pessoas residentes no domicílio Número de pessoas Frequência Percentual 1 a 3 7 41,2% 4 a 6 9 52,9% Mais de 6 1 5,9% Total 17 100% Fonte: Dados da pesquisa (2026). Os dados revelam, portanto, um grupo predominantemente formado por agricultores adultos e idosos, com baixa escolaridade formal. Esse perfil é relevante para a compreensão da vulnerabilidade, especialmente porque a experiência acumulada no trabalho agrícola aparece associada a longos períodos de convivência com as condições climáticas do Semiárido. 4.2 Caracterização das atividades agrícolas Todos os participantes que responderam à questão sobre o tempo de atuação familiar na agricultura indicaram que suas famílias trabalham com a atividade agrícola há mais de dez anos. Esse resultado demonstra a forte relação histórica dos entrevistados com o meio rural. Quanto à principal atividade agrícola, foram identificadas situações de produção exclusivamente agrícola, criação de animais e combinação das duas atividades. Tabela 4 – Principal atividade agrícola desenvolvida Atividade Frequência Percentual Plantio 4 23,5% Criação de animais 3 17,6% Plantio e criação de animais 9 52,9% Não desenvolve atualmente 1 5,9% Total 17 100% Fonte: Dados da pesquisa (2026). Observa-se que a combinação entre plantio e criação de animais constitui a situação mais frequente entre os entrevistados. Essa diversificação pode representar uma forma de organização da produção familiar diante das condições ambientais do Semiárido. Entre as culturas mencionadas, destacam-se principalmente milho e feijão. Também foram registradas respostas indicando o cultivo de palma e cebola em situações específicas. Quanto à finalidade da produção, 11 participantes afirmaram utilizar a produção tanto para o consumo da família quanto para venda, enquanto 5 participantes indicaram utilização para consumo familiar. Um questionário não apresentou resposta para essa questão. Tabela 5 – Destinação da produção Destinação Frequência Percentual* Consumo da família 5 29,4%Venda e consumo da família 11 64,7% Não informado 1 5,9% Total 17 100% *Percentuais calculados sobre o total de 17 questionários. Fonte: Dados da pesquisa (2026). Os dados indicam que a produção possui simultaneamente uma dimensão de subsistência e geração de renda, fazendo com que os efeitos da seca possam atingir tanto a segurança alimentar quanto a capacidade econômica das famílias. 4.3 Impactos da seca sobre as famílias agricultoras A questão sobre os efeitos da seca demonstra uma forte percepção dos impactos entre os participantes. Dos 17 entrevistados, 16 participantes afirmaram que sua produção foi afetada pela seca, enquanto apenas 1 participante respondeu negativamente. Resposta Frequência Percentual Sim 16 94,1% Não 1 5,9% Total 17 100% Tabela 6 – Produção afetada pela seca Fonte: Dados da pesquisa (2026). Entre os principais impactos mencionados, destaca-se a falta de água, seguida pela perda da produção e pela morte de animais. Como a questão permitia múltiplas respostas, os percentuais não devem ser somados. Tabela 7 – Principais impactos da seca mencionados Impacto Frequência Percentual sobre os participantes Falta de água 15 88,2% Perda da produção 12 70,6% Morte de animais 9 52,9% Redução da renda 1 5,9% Êxodo rural/outro impacto mencionado 1 5,9% Fonte: Dados da pesquisa (2026). A predominância da falta de água demonstra que a vulnerabilidade das famílias está diretamente relacionada à disponibilidade hídrica. Os relatos também mostram que os efeitos da seca não se restringem à produção agrícola, atingindo a criação de animais e, em alguns casos, a própria dinâmica econômica e social das famílias. 4.4 Frequência da seca percebida pelos agricultores As respostas demonstram uma percepção bastante forte sobre a recorrência da seca. Dos 17 participantes, 15 participantes afirmaram que a seca ocorre todos os anos, enquanto 2 participantes classificaram sua ocorrência como frequente. Frequência percebida Frequência Percentual Raramente 0 0,0% Às vezes 0 0,0% Frequentemente 2 11,8% Todos os anos 15 88,2% Total 17 100% Tabela 8 – Frequência da seca percebida pelos participantes Fonte: Dados da pesquisa (2026). Esse resultado reforça a percepção de que a seca constitui um fenômeno recorrente na realidade das famílias entrevistadas, deixando de ser percebida apenas como um evento excepcional e passando a fazer parte da organização cotidiana da produção rural. 4.5 Formas de armazenamento de água A disponibilidade de estruturas para armazenamento aparece como um dos principais elementos relacionados às estratégias de convivência com a seca. Entre os entrevistados, foram mencionados poços, cisternas e açudes/barragens, sendo comum a presença de mais de uma dessas estruturas na mesma propriedade. Tabela 9 – Formas de armazenamento de água utilizadas Forma de armazenamento Frequência Percentual* Cisterna 16 94,1% Poço 11 64,7% Açude/Barragem 16 94,1% *Questão de múltipla resposta; os percentuais não totalizam 100%. Fonte: Dados da pesquisa (2026). A cisterna e o açude/barragem aparecem como as formas de armazenamento mais recorrentes. A presença de diferentes estruturas em uma mesma propriedade demonstra que as famílias utilizam estratégias combinadas para garantir a disponibilidade de água durante os períodos de estiagem. 4.6 Estratégias utilizadas para enfrentar a seca As respostas indicam que os agricultores utilizam diferentes estratégias para reduzir os efeitos da estiagem. Entre as alternativas apresentadas no questionário, destacam-se o armazenamento de água, a redução da área plantada, a irrigação e o plantio de espécies consideradas mais resistentes à seca. Tabela 10 – Estratégias de adaptação utilizadas Estratégia Frequência Percentual* Armazenamento de água 14 82,4% Redução da área plantada 8 47,1% Irrigação 5 29,4% Plantio resistente à seca 2 11,8% Outras estratégias 1 5,9% Não informou estratégia 1 5,9% *Questão de múltipla resposta; os percentuais não totalizam 100%. Fonte: Dados da pesquisa (2026). O armazenamento de água constitui a principal estratégia identificada, sendo citado por 14 dos 17 participantes. A redução da área plantada também aparece como mecanismo importante, indicando que alguns agricultores ajustam sua produção à quantidade de água disponível. Entre as respostas abertas, foram mencionadas ainda a necessidade de mais cisternas e poços, maior capacidade de armazenamento de água, apoio aos produtores e disponibilização de palma para os agricultores. 4.7 Acesso a apoio ou programas governamentais A questão específica sobre recebimento de apoio ou programa do governo apresentou resultados divididos. Cinco participantes afirmaram ter recebido algum tipo de apoio, enquanto 12 responderam negativamente. Tabela 11 – Recebimento de apoio ou programa governamental Resposta Frequência Percentual Sim 5 29,4% Não 12 70,6% Total 17 100% Fonte: Dados da pesquisa (2026). Entre os apoios mencionados pelos participantes que responderam positivamente, aparecem cisterna tipo calçadão, cisterna e estruturação de poço. Esse resultado merece atenção porque, embora as estruturas de armazenamento de água sejam apontadas pelos próprios agricultores como fundamentais para enfrentar a seca, a maioria dos entrevistados declarou não ter recebido apoio ou programa governamental. 4.8 Percepção dos agricultores sobre o aumento da seca Um dos resultados mais expressivos da pesquisa está relacionado à percepção dos participantes sobre a intensificação da seca. Todos os 17 participantes responderam que a seca aumentou nos últimos anos. Tabela 12 – Percepção sobre o aumento da seca Resposta Frequência Percentual Sim 17 100% Não 0 0,0% Não sabe 0 0,0% Total 17 100% Fonte: Dados da pesquisa (2026). A unanimidade das respostas demonstra uma percepção coletiva de agravamento das condições de estiagem. Essa percepção está associada às respostas anteriores, especialmente à frequência anual da seca e aos impactos sobre a disponibilidade de água, produção agrícola e criação de animais. 4.9 Sugestões dos agricultores para enfrentar melhor a seca A questão aberta permitiu identificar algumas demandas apresentadas diretamente pelos participantes. Entre as respostas, destacam-se: · construção ou disponibilização de mais cisternas e poços; · ampliação das estruturas de armazenamento de água; · construção ou melhoria de barragens; · maior apoio aos produtores rurais; · maior apoio para água destinada aos animais e às plantações; · maior informação e assistência aos agricultores; · disponibilização de palma para os agricultores. Entretanto, parte dos participantes não respondeu à questão ou declarou não saber informar. Portanto, as respostas abertas devem ser compreendidas como manifestações individuais dos entrevistados, e não como opinião de todo o grupo. 4.10 Síntese dos resultados Os resultados obtidos nos 17 questionários apontam para um cenário de elevada vulnerabilidade das famílias agricultoras diante da seca, especialmente em razão da recorrência do fenômeno e de seus efeitos sobre a disponibilidade de água e a produção. A pesquisa revelou que 94,1% dos participantes afirmaram ter sua produção afetada pela seca, enquanto 88,2% consideraram que a seca ocorre todos os anos. A falta de água foi o impacto mais citado, aparecendo em 15 dos 17 questionários. Ao mesmo tempo, os agricultores demonstram capacidade de adaptação por meio da utilização de diferentes estratégias. O armazenamento de água constitui a principal delas, sendo identificada em 82,4% dos questionários como estratégia utilizada. Cisternas e açudes/barragens aparecem como estruturas presentes na grande maioria das respostas. Outro aspecto relevante é a combinação entre agricultura e criação de animais, identificada em 9 dos 17 questionários. Essa diversificação representa uma característica importante dos sistemas produtivos analisados, embora a própria seca tambémprovoque perdas na criação animal. Em relação às políticas públicas, apenas 29,4% dos participantes afirmaram ter recebido algum apoio ou programa governamental, enquanto 70,6% responderam negativamente. As respostas abertas reforçam a demanda por ampliação das estruturas de armazenamento e por maior apoio aos produtores. Por fim, a percepção dos agricultores sobre o agravamento da seca foi unânime: 100% dos entrevistados afirmaram que a seca aumentou nos últimos anos. Dessa forma, os dados coletados indicam que a vulnerabilidade observada em Chorrochó está relacionada principalmente à escassez e à irregularidade da água, aos impactos sobre a produção e à necessidade de ampliar as estratégias de armazenamento e apoio às famílias agricultoras. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS A seca constitui um importante fator de vulnerabilidade para as famílias agricultoras do Semiárido brasileiro, especialmente para aquelas que dependem diretamente das condições climáticas para desenvolver suas atividades produtivas. Seus efeitos ultrapassam a dimensão ambiental, alcançando a produção de alimentos, a criação de animais, a renda familiar, a segurança hídrica e as condições de permanência das famílias no meio rural. A revisão da literatura realizada demonstra que a vulnerabilidade das famílias agricultoras não pode ser explicada exclusivamente pela ocorrência da seca. A capacidade de enfrentar os períodos de estiagem está relacionada às condições socioeconômicas das famílias, ao acesso à água, à infraestrutura, à assistência técnica, à informação, às tecnologias sociais e às políticas públicas. As estratégias de convivência com o Semiárido constituem alternativas importantes para a redução da vulnerabilidade. A utilização de cisternas, barreiros, barragens, sistemas de armazenamento de água, diversificação produtiva e práticas de manejo adequadas pode contribuir para aumentar a capacidade de adaptação das famílias. Entretanto, a literatura também demonstra que nenhuma estratégia isolada é suficiente para enfrentar períodos prolongados de estiagem. É necessário articular tecnologias sociais, políticas públicas, assistência técnica, acesso a crédito, diversificação da produção e fortalecimento da organização comunitária. No caso de Chorrochó, a realização da pesquisa de campo permitirá identificar de forma mais precisa como essas condições se manifestam na realidade das famílias agricultoras do município. A análise das respostas do questionário deverá possibilitar a identificação das principais dificuldades enfrentadas e das estratégias construídas pelos próprios agricultores. É fundamental que as políticas públicas voltadas à agricultura familiar considerem as especificidades locais. Ações destinadas à ampliação da segurança hídrica, ao fortalecimento da produção, à assistência técnica e à geração de renda podem contribuir significativamente para a redução da vulnerabilidade. Também se recomenda o fortalecimento de programas de tecnologias sociais de acesso à água, especialmente aqueles destinados tanto ao consumo quanto à produção. A implantação dessas estruturas deve estar acompanhada de orientação técnica e mecanismos que garantam sua manutenção e utilização adequada. Outra medida importante consiste no fortalecimento da assistência técnica e da extensão rural. O acesso contínuo à informação pode auxiliar os agricultores na adoção de práticas produtivas mais adequadas às condições climáticas e na utilização eficiente dos recursos naturais. A diversificação das atividades produtivas e das fontes de renda também deve ser incentivada, reduzindo a dependência das famílias em relação a uma única atividade econômica e, consequentemente, diminuindo os impactos de possíveis perdas decorrentes da seca. Para pesquisas futuras, recomenda-se ampliar o número de comunidades investigadas e realizar estudos comparativos entre diferentes localidades do município de Chorrochó e de outros municípios do Semiárido baiano. Também podem ser desenvolvidos estudos longitudinais que acompanhem as famílias durante diferentes períodos de chuva e estiagem. Por fim, destaca-se que compreender a vulnerabilidade das famílias agricultoras à seca significa reconhecer não apenas os problemas enfrentados, mas também os conhecimentos, experiências e capacidades desenvolvidas pelas comunidades. A convivência com o Semiárido pressupõe justamente o fortalecimento dessas capacidades e a construção de condições sociais, econômicas e ambientais que permitam às famílias permanecer no território com dignidade, segurança e melhores condições de produção. REFERÊNCIAS BRASIL. Conselho Nacional de Saúde. Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012. Dispõe sobre diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos. Brasília, DF, 2012. __________Resolução nº 510, de 7 de abril de 2016. Dispõe sobre as normas aplicáveis a pesquisas em Ciências Humanas e Sociais cujos procedimentos metodológicos envolvam a utilização de dados diretamente obtidos com os participantes. CASTRO, César Nunes de; CEREZINI, Monise Terra. 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