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PSICOPATOLOGIA — TRANSTORNOS DE ANSIEDADE, PÂNICO, PSICOSE E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL 1. Um mesmo comportamento pode aparecer em transtornos diferentes Um dos principais pontos da aula é que não devemos diagnosticar uma pessoa apenas observando um comportamento isolado. Por exemplo, uma pessoa pode não querer sair de casa por motivos completamente diferentes: ● porque tem medo de sofrer um ataque de pânico fora de casa; ● porque acredita que está sendo perseguida ou vigiada; ● porque está deprimida e sem energia; ● porque tem medo de ser julgada por outras pessoas; ● porque evita determinados estímulos sociais; ● porque tem características de personalidade que favorecem o isolamento. Portanto, não basta identificar o comportamento. A pergunta clínica precisa ser: “O que está levando essa pessoa a apresentar esse comportamento?” O isolamento social, por exemplo, não é um diagnóstico. É um fenômeno que pode ocorrer em várias psicopatologias. 2. Forma e conteúdo do sintoma Um conceito importante da psicopatologia é diferenciar: Forma do sintoma: o fenômeno psicopatológico apresentado. Conteúdo do sintoma: a maneira particular como aquele fenômeno aparece naquela pessoa. Por exemplo, uma pessoa pode dizer: “Eu tenho desrealização.” O profissional não deve simplesmente aceitar o rótulo. É necessário investigar: ● O que você chama de desrealização? ● Como isso acontece? ● O que você sente? ● Quanto tempo dura? ● O ambiente parece diferente? ● Parece artificial? ● Parece distante? ● Você sente que está dentro de uma realidade virtual? ● Você continua sabendo que aquilo é apenas uma sensação? Duas pessoas podem utilizar a mesma palavra e estarem descrevendo experiências bastante diferentes. Por isso, diante de um termo que o paciente utiliza, uma estratégia clínica possível é perguntar: “O que isso significa para você?” ou “Descreva para mim como isso acontece.” Isso permite compreender a experiência sem fingir que sabemos exatamente o que o paciente está querendo dizer. 3. Desrealização A desrealização corresponde a uma experiência de alteração da percepção do ambiente. A pessoa pode sentir que: ● o ambiente está distante; ● as coisas parecem irreais; ● tudo parece artificial; ● o mundo parece uma espécie de sonho; ● existe uma sensação de estar “fora daquela realidade”. Ela pode ocorrer, por exemplo, durante episódios intensos de ansiedade ou ataques de pânico. Um ponto importante é que desrealização não significa necessariamente psicose. Na desrealização, geralmente existe algum grau de reconhecimento de que aquela experiência é subjetiva. 4. Transtornos de personalidade e ansiedade A professora chamou atenção para uma característica importante dos transtornos de personalidade. Muitos traços de personalidade são egossintônicos. Isso significa que determinados padrões são percebidos pela pessoa como fazendo parte de sua própria identidade. Ela pode pensar: “Eu sou assim.” Por isso, algumas pessoas com transtornos de personalidade não procuram tratamento diretamente por causa de sua personalidade. Entretanto, podem desenvolver: ● ansiedade; ● depressão; ● crises emocionais; ● conflitos interpessoais; ● sofrimento ocupacional. Esses problemas podem levá-las a procurar atendimento. Então, na clínica, pode acontecer algo assim: 1. o paciente chega por ansiedade; 2. inicia-se o tratamento da ansiedade; 3. ao longo das sessões, percebe-se que determinados padrões continuam presentes; 4. começam a aparecer padrões rígidos de relacionamento, pensamento e comportamento; 5. passa-se a considerar a possibilidade de um transtorno de personalidade associado. Isso explica por que transtornos de personalidade frequentemente são encontrados em pacientes que procuram atendimento por ansiedade. Mas é importante não inverter o raciocínio. Ter ansiedade não significa ter transtorno de personalidade. 5. Cuidado com estatísticas clínicas A professora também fez uma observação metodológica importante. Grande parte das pesquisas sobre transtornos mentais é realizada com pessoas que: ● procuraram atendimento; ● receberam diagnóstico; ● foram internadas; ● participaram de pesquisas; ● chegaram aos serviços de saúde. Existe, portanto, uma parcela da população que apresenta sintomas e nunca procura assistência. Isso pode gerar um viés de seleção. Ou seja: o que encontramos nos serviços de saúde não corresponde necessariamente a todas as pessoas que possuem aquela condição na população. 6. Correlação não é diagnóstico Um exemplo discutido na aula envolveu TDAH e uso de maconha. Foi relatado o caso de um profissional que suspeitou de TDAH porque o paciente utilizava maconha e porque encontrou em um livro uma associação entre TDAH e uso de substâncias. Esse raciocínio é inadequado. Uma associação estatística não significa: “Se A acontece, então B está confirmado.” Pode existir maior frequência de uso de substâncias em alguns grupos com TDAH, mas isso não transforma o uso de maconha em critério diagnóstico de TDAH. Da mesma forma, dizer que determinado estimulante produz sensação subjetiva de calma em alguém não confirma sozinho um diagnóstico de TDAH. O diagnóstico precisa ser feito a partir de critérios clínicos, história do desenvolvimento e prejuízo funcional. Regra importante Um único comportamento raramente confirma um diagnóstico psiquiátrico. 7. Transtornos de ansiedade: um “guarda-chuva” A expressão transtornos de ansiedade representa uma categoria ampla. Quando alguém diz: “Tenho um transtorno de ansiedade.” ainda não sabemos exatamente qual quadro está presente. É necessário especificar. Entre os transtornos discutidos na aula estão: ● ansiedade de separação; ● mutismo seletivo; ● fobia específica; ● transtorno de ansiedade social; ● transtorno de pânico; ● agorafobia; ● transtorno de ansiedade generalizada. Além disso, existem quadros de ansiedade relacionados a: ● substâncias; ● medicamentos; ● condições médicas. Portanto: “Transtorno de ansiedade” é uma classificação geral. O diagnóstico específico depende da natureza do medo, preocupação ou resposta fisiológica apresentada. 8. Característica importante dos transtornos ansiosos A professora enfatizou muito um ponto: A ansiedade costuma produzir manifestações fisiológicas importantes. Entre elas podem aparecer: ● taquicardia; ● sudorese; ● tremores; ● falta de ar; ● aperto no peito; ● tensão muscular; ● desconforto gastrointestinal; ● tontura; ● sensação de sufocamento; ● cefaleia; ● inquietação. Isso ocorre porque ansiedade não é apenas pensamento. Ela mobiliza o organismo. Podemos pensar em componentes: Cognitivos ● preocupação; ● antecipação negativa; ● interpretação de ameaça; ● pensamentos catastróficos. Emocionais ● medo; ● apreensão; ● angústia. Fisiológicos ● alterações autonômicas; ● aumento da frequência cardíaca; ● sudorese; ● respiração acelerada; ● tensão corporal. Comportamentais ● fuga; ● evitação; ● busca de segurança; ● checagem; ● procura de ajuda. 9. Medo e ansiedade não são exatamente a mesma coisa O medo costuma estar relacionado a uma ameaça percebida como mais imediata. A ansiedade frequentemente envolve uma ameaça antecipada. Exemplo: Medo: “Um cachorro está correndo na minha direção.” Ansiedade: “E se amanhã eu encontrar um cachorro na rua e ele me atacar?” Nos transtornos ansiosos, medo e ansiedade podem aparecer juntos. 10. Fobia específica Na fobia específica existe medo intenso relacionado a um objeto ou situação específica. Exemplos: ● animais; ● sangue; ● injeções; ● altura; ● avião; ● tempestades; ● determinados ambientes. A pessoa frequentemente evita o estímulo. Um princípio frequentemente utilizado no tratamento é a exposição, realizada de maneira planejada e terapêutica. 11. Ansiedade social — antigotermo “fobia social” A professora enfatizou a mudança de nomenclatura. O termo utilizado atualmente é: Transtorno de Ansiedade Social Anteriormente era chamado de fobia social. O ponto central não é simplesmente: “não gostar de pessoas” ou “não querer sair de casa”. O núcleo é o medo de avaliação negativa. A pessoa teme: ● ser julgada; ● ser criticada; ● passar vergonha; ● parecer incompetente; ● ser rejeitada; ● demonstrar sinais de ansiedade; ● ser observada negativamente. Pode ocorrer em: ● conversas; ● reuniões; ● apresentações; ● refeições diante de outras pessoas; ● encontros; ● situações de desempenho. Portanto: Ansiedade social ≠ medo de sair de casa. 12. Agorafobia A agorafobia também não deve ser confundida com ansiedade social. Na agorafobia, o medo está relacionado principalmente à ideia de: estar em uma situação da qual seria difícil escapar ou receber ajuda caso algo acontecesse. Exemplos: ● transporte público; ● filas; ● multidões; ● espaços abertos; ● espaços fechados; ● estar sozinho fora de casa. A pessoa pode pensar: “E se eu passar mal aqui e não conseguir sair?” Portanto: Ansiedade social Medo de julgamento, avaliação ou crítica. Agorafobia Medo de não conseguir escapar ou receber ajuda. 13. Transtorno de Ansiedade Generalizada — TAG No TAG existe um padrão persistente de preocupação excessiva envolvendo diferentes áreas da vida. A pessoa pode preocupar-se constantemente com: ● trabalho; ● dinheiro; ● saúde; ● família; ● desempenho; ● estudos; ● futuro; ● segurança; ● responsabilidades. É aquela pessoa que parece estar sempre antecipando problemas. Além das preocupações, aparecem sintomas como: ● inquietação; ● tensão; ● fadiga; ● dificuldade de concentração; ● irritabilidade; ● tensão muscular; ● alterações do sono. A preocupação tende a ser difícil de controlar. 14. “Crise de ansiedade” é um diagnóstico? Esse foi um dos pontos mais enfatizados pela professora. A expressão: “crise de ansiedade” é muito utilizada pela população e até por profissionais. Entretanto, ela não corresponde, por si só, a um diagnóstico específico dos sistemas classificatórios. Quando um paciente diz: “Eu tive uma crise de ansiedade.” o profissional deve investigar. Por exemplo: ● O que aconteceu? ● O que você sentiu? ● Começou de repente? ● Quanto tempo durou? ● Sentiu falta de ar? ● Teve taquicardia? ● Teve medo de morrer? ● Sentiu que perderia o controle? ● Houve alguma situação que desencadeou? O paciente está utilizando uma linguagem cotidiana para descrever um fenômeno. Cabe ao profissional descobrir qual fenômeno ocorreu. 15. Ataque de pânico O ataque de pânico corresponde a um episódio de medo ou desconforto intenso que aumenta rapidamente. Podem ocorrer sintomas como: ● palpitação; ● sudorese; ● tremores; ● falta de ar; ● sensação de sufocamento; ● dor ou desconforto torácico; ● náusea; ● tontura; ● calafrios; ● ondas de calor; ● parestesias; ● desrealização; ● despersonalização; ● medo de perder o controle; ● medo de morrer. A característica destacada na aula foi a experiência abrupta e intensa. O paciente frequentemente relata algo como: “Eu achei que estava morrendo.” Um ataque de pânico pode ocorrer isoladamente. Ter um ataque de pânico não significa automaticamente possuir transtorno de pânico. 16. Ataque de pânico × Transtorno de pânico Essa diferença é muito importante. Ataque de pânico É um episódio. Pode ocorrer uma vez ou eventualmente. Também pode aparecer em outros transtornos. Transtorno de pânico Envolve ataques de pânico recorrentes e inesperados associados posteriormente a preocupação ou mudança comportamental relevante. Após um ataque, a pessoa pode passar a pensar: ● “E se acontecer novamente?” ● “E se eu tiver um infarto?” ● “E se eu perder o controle?” ● “E se eu estiver sozinho quando acontecer?” Também pode começar a: ● evitar lugares; ● evitar atividades; ● evitar sair sozinha; ● modificar sua rotina. A aula corrigiu um ponto importante: Não são “duas ou três semanas”. O critério discutido envolve pelo menos um mês de preocupação persistente ou mudança comportamental após os ataques. 17. “Síndrome do pânico” × Transtorno de pânico No uso popular ainda é comum ouvir: “síndrome do pânico”. Entretanto, a denominação diagnóstica atual utilizada no DSM é: Transtorno de pânico. 18. Psicose e ansiedade são coisas diferentes Uma pessoa psicótica também pode sentir ansiedade. Por exemplo, se ela acredita que está sendo perseguida, provavelmente ficará: ● hipervigilante; ● apreensiva; ● assustada; ● inquieta. Mas a ansiedade pode estar sendo produzida pela experiência psicótica. Portanto: sentir ansiedade não significa que o transtorno principal seja um transtorno ansioso. É necessário investigar o que está produzindo aquela ansiedade. 19. Delírio de perseguição Quando uma pessoa possui uma convicção persistente de que alguém está: ● seguindo-a; ● vigiando-a; ● perseguindo-a; ● planejando prejudicá-la, sem evidências compatíveis com a realidade, pode existir uma experiência delirante persecutória. A pessoa não está apenas com medo. Ela pode estar convencida de que aquilo realmente está acontecendo. 20. Alucinação Alucinação é uma experiência perceptiva que ocorre sem um estímulo externo correspondente. Pode ser: Auditiva Ouvir vozes ou sons. Visual Ver pessoas, objetos ou figuras. Olfativa Sentir cheiros inexistentes no ambiente. Tátil Sentir toques ou sensações corporais sem estímulo correspondente. Gustativa Perceber sabores inexistentes. Um ponto fundamental apresentado na aula: a experiência pode ser extremamente real para o paciente. Não basta simplesmente dizer: “Isso não existe.” 21. Insight e psicose Insight refere-se, simplificadamente, à capacidade da pessoa de reconhecer que determinada experiência pode estar relacionada ao seu estado mental. Uma pessoa pode dizer: “Eu ainda vejo aquela figura, mas sei que provavelmente é uma alucinação.” Existe algum grau de insight. Em outro momento, pode afirmar: “Ela está aqui. Eu tenho certeza.” Nesse caso, o contato crítico com a realidade pode estar bastante comprometido. O grau de insight pode mudar conforme: ● intensidade dos sintomas; ● tratamento; ● uso de medicamentos; ● contexto; ● estágio do episódio. 22. Exemplo clínico apresentado na aula Foi discutida uma paciente jovem com experiências psicóticas importantes. Ela relatava: ● hipervigilância; ● ansiedade; ● falta de ar; ● cefaleia; ● dificuldade de concentração; ● experiências alucinatórias visuais; ● experiências auditivas; ● experiências olfativas; ● pensamentos suicidas. Entre as experiências relatadas estavam: ● um homem alto com a cabeça em formato triangular invertido; ● uma mulher decapitada; ● cheiro de sangue; ● sensação persistente de estar sendo vigiada. Essas experiências eram extremamente vívidas. 23. A cena da cama: experiência alucinatória intensa Um exemplo muito importante foi relatado. A paciente afirmava que um homem estava sentado na cama. A mãe dizia: “Não tem ninguém aqui.” A paciente continuava vendo a figura. A mãe passou a mão sobre a cama para demonstrar que não havia ninguém naquele local. Entretanto, para a paciente, a experiência era tão vívida que ela interpretava a mão da mãe como se estivesse atravessando o corpo do homem. Esse exemplo demonstra como uma experiência alucinatória pode permanecer mesmo diante de tentativas externas de demonstrar a realidade. Também foi relatado que a mãe tirava fotografias do local. Mesmo quando a fotografia não mostrava nada, a paciente continuava percebendo a figura. 24. Não confrontar brutalmente uma experiência psicótica Em experiências psicóticas, simplesmente dizer: “Isso não existe.” geralmentenão resolve. O profissional precisa: ● compreender a experiência; ● avaliar o grau de convicção; ● avaliar o nível de sofrimento; ● identificar risco; ● avaliar funcionamento; ● investigar outros sintomas; ● trabalhar a realidade de maneira cuidadosa. 25. Psicose não significa necessariamente esquizofrenia Outro ponto fundamental da aula: Psicose é um fenômeno. Esquizofrenia é um diagnóstico. Uma pessoa pode apresentar: ● alucinações; ● delírios; ● desorganização; sem necessariamente preencher critérios para esquizofrenia. Sintomas psicóticos podem aparecer, por exemplo, em: ● transtornos do espectro da esquizofrenia; ● episódios de humor com sintomas psicóticos; ● transtorno bipolar; ● depressão grave; ● uso de substâncias; ● condições neurológicas ou médicas; ● outros quadros. Portanto, diante de uma primeira apresentação: não devemos fechar imediatamente o diagnóstico de esquizofrenia. 26. Diagnóstico longitudinal Em psicopatologia, muitas vezes é necessário acompanhar o paciente durante algum tempo antes de estabelecer um diagnóstico definitivo. É preciso observar: ● duração; ● evolução; ● períodos de remissão; ● sintomas de humor; ● alterações cognitivas; ● funcionamento; ● uso de substâncias; ● resposta a medicamentos; ● história pregressa. Por isso, algumas hipóteses diagnósticas precisam permanecer abertas durante a avaliação. 27. Psicose × transtorno bipolar No caso apresentado, a professora levantou a necessidade de investigar também sintomas de humor. A mãe havia relatado que, anteriormente, a paciente estava: ● muito feliz; ● saindo com amigas; ● realizando compras; ● apresentando comportamento diferente do período atual. Isso não significa automaticamente mania. Mas pode justificar investigação de: ● humor elevado; ● aumento de energia; ● redução da necessidade de sono; ● aumento de atividades; ● gastos excessivos; ● impulsividade; ● grandiosidade; ● aceleração do pensamento. Na psicopatologia: um comportamento isolado, como fazer compras, não confirma mania. É necessário avaliar o episódio como um conjunto. 28. Ansiedade pode coexistir com psicose No caso discutido, havia claramente um componente ansioso. Entretanto, técnicas direcionadas apenas à ansiedade seriam insuficientes diante de: ● alucinações intensas; ● perda importante de contato com a realidade; ● comandos relacionados à morte; ● planejamento suicida. Uma técnica de respiração pode ser útil para ansiedade em determinados contextos. Mas não substitui a avaliação do risco e o tratamento de uma condição psicótica grave. 29. Ideação suicida × planejamento suicida Esse foi um dos pontos mais graves da discussão clínica. É importante diferenciar: Ideação suicida Pensamentos relacionados a morrer ou tirar a própria vida. Exemplo: “Não vejo mais sentido em viver.” Planejamento suicida Quando começam a surgir elementos concretos como: ● método; ● local; ● instrumento; ● preparação; ● disponibilidade de meios. No caso apresentado, a paciente descreveu um método e onde obteria o material. Isso representa um aumento importante da gravidade. 30. Avaliação do risco suicida Diante de ideação suicida, é necessário investigar diretamente. Perguntar sobre suicídio não implanta a ideia na cabeça do paciente. É necessário avaliar: ● existência de ideação; ● intensidade; ● frequência; ● planejamento; ● método; ● acesso aos meios; ● intenção; ● tentativas anteriores; ● impulsividade; ● uso de substâncias; ● sintomas psicóticos; ● vozes de comando; ● rede de apoio; ● fatores protetivos. Quando existe risco iminente, o caso exige avaliação emergencial. 31. Plano de segurança A professora também discutiu o plano de segurança. É uma ferramenta que pode ser construída com o paciente para momentos de crise. Pode incluir: 1. sinais de alerta; 2. estratégias pessoais de enfrentamento; 3. pessoas que podem ser contatadas; 4. lugares onde o paciente pode buscar ajuda; 5. profissionais ou serviços de emergência; 6. estratégias para reduzir o acesso a meios potencialmente letais. Exemplo: “Se os pensamentos de morte aumentarem, ligar para determinada pessoa.” O plano não elimina o risco. Mas pode fortalecer uma estratégia de proteção. Importante Um plano de segurança não substitui avaliação emergencial ou internação quando existe risco iminente. 32. Internação psiquiátrica A internação não deve ser compreendida como punição. Em algumas situações, constitui uma medida temporária de proteção e estabilização. Pode ser necessária quando existe, por exemplo: ● risco suicida importante; ● planejamento suicida; ● psicose grave; ● incapacidade de autocuidado; ● agitação severa; ● risco de agressão; ● impossibilidade de manejo seguro fora do ambiente hospitalar. A decisão precisa considerar critérios clínicos, éticos e legais e ser realizada pela equipe responsável. 33. Funcionalidade e prognóstico Transtornos mentais graves não significam necessariamente incapacidade permanente. O prognóstico varia muito. Algumas pessoas apresentam: ● boa resposta medicamentosa; ● recuperação funcional significativa; ● poucos episódios. Outras podem apresentar: ● sintomas residuais; ● recaídas; ● necessidade de múltiplas internações; ● dificuldades cognitivas; ● prejuízo ocupacional; ● necessidade de suporte prolongado. Portanto: não é adequado estabelecer o futuro de uma pessoa somente a partir de uma crise atual. 34. TDAH é transtorno do neurodesenvolvimento TDAH pertence ao grupo dos: Transtornos do Neurodesenvolvimento. Isso significa que sua história começa durante o desenvolvimento. Não é adequado afirmar que alguém “desenvolveu TDAH” somente na vida adulta sem investigar sintomas anteriores. É necessário procurar sinais desde a infância. No DSM-5-TR, vários sintomas precisam estar presentes antes dos 12 anos. Portanto, quando um adulto apresenta dificuldade de concentração, devem ser considerados também: ● depressão; ● ansiedade; ● privação de sono; ● sobrecarga; ● estresse; ● substâncias; ● condições médicas. Dificuldade de atenção isoladamente não significa TDAH. 35. Autismo também pertence ao neurodesenvolvimento O transtorno do espectro autista também é classificado entre os transtornos do neurodesenvolvimento. Mesmo quando o diagnóstico é realizado na vida adulta, os sinais pertencem à história do desenvolvimento. Isso é diferente de dizer que: “A pessoa se tornou autista na vida adulta.” 36. Transtornos do neurodesenvolvimento Dentro desse grande grupo aparecem condições relacionadas ao desenvolvimento, como: ● deficiência intelectual; ● transtornos da comunicação; ● transtorno do espectro autista; ● TDAH; ● transtornos específicos da aprendizagem; ● transtornos motores. O DSM organiza os transtornos inicialmente seguindo uma perspectiva ligada ao desenvolvimento ao longo da vida. 37. DSM e CID Foram apresentados dois grandes sistemas de classificação. DSM Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Na aula foi utilizado principalmente o: DSM-5-TR TR significa: Text Revision — revisão de texto. O DSM costuma trazer descrições mais detalhadas dos critérios diagnósticos. CID Classificação Internacional de Doenças. É utilizada amplamente nos serviços de saúde e na codificação diagnóstica. Por isso, o psicólogo precisa compreender os dois sistemas, especialmente quando trabalha em equipe multiprofissional. 38. Os manuais são instrumentos de consulta Um ponto importante: Não é necessário decorar o DSM inteiro. Os manuais são instrumentos de consulta. O profissional precisa aprender: ● raciocínio psicopatológico; ● diagnóstico diferencial; ● principais categorias; ● como localizar critérios; ● como investigar sintomas. Na dúvida: consulta-se o manual. 39. Mudanças históricasdas classificações As classificações mudam conforme surgem novas evidências. Exemplos discutidos: Antes Fobia social. Atualmente Transtorno de ansiedade social. Antes, popularmente Síndrome do pânico. Atualmente Transtorno de pânico. Algumas condições também foram reorganizadas em capítulos próprios ao longo das revisões dos manuais. Isso explica por que livros antigos podem apresentar classificações diferentes dos manuais atuais. 40. TOC não está mais dentro do mesmo capítulo dos transtornos de ansiedade no DSM Historicamente o TOC esteve muito associado à ansiedade. Atualmente, no DSM, existe uma categoria própria: Transtorno Obsessivo-Compulsivo e Transtornos Relacionados. Nesse grupo estão, entre outros: ● transtorno obsessivo-compulsivo; ● transtorno dismórfico corporal; ● transtorno de acumulação; ● tricotilomania; ● transtorno de escoriação. Portanto: TOC não deve ser colocado simplesmente dentro do guarda-chuva dos transtornos de ansiedade na organização atual do DSM. 41. Trauma também possui categoria própria O transtorno de estresse pós-traumático também deixou de permanecer simplesmente dentro do grupo dos transtornos ansiosos no DSM. Atualmente existe o grupo: Transtornos Relacionados a Trauma e a Estressores. Essa mudança demonstra que os manuais reorganizam as categorias conforme o conhecimento científico evolui. 42. Resumo das diferenças que mais podem aparecer em prova Quadro Característica central TAG preocupação excessiva e persistente em várias áreas Fobia específica medo intenso de objeto ou situação específica Ansiedade social medo de julgamento, crítica ou avaliação negativa Agorafobia medo de não conseguir escapar ou receber ajuda Ataque de pânico episódio abrupto de medo/desconforto intenso Transtorno de pânico ataques recorrentes + preocupação/mudança comportamental persistente Psicose alteração importante na relação com a realidade Alucinação percepção sem estímulo externo correspondente Delírio crença fixa e não compatível com evidências da realidade Desrealização sensação de que o ambiente está irreal ou distante TDAH transtorno do neurodesenvolvimento com início dos sintomas na infância 43. Perguntas que ajudam no diagnóstico diferencial Quando um paciente relata: “Não consigo sair de casa.” Pergunte: Por quê? Se responde: “Tenho medo de ser julgado.” Pense em ansiedade social. Se responde: “Tenho medo de passar mal e não conseguir escapar.” Pense em agorafobia. Se responde: “Não tenho energia nem vontade de fazer nada.” Investigue depressão. Se responde: “Existem pessoas me esperando para me matar.” Investigue fenômenos psicóticos/persecutórios. O comportamento externo pode ser exatamente o mesmo. O mecanismo psicopatológico é completamente diferente. 44. Pergunta central da aula A grande mensagem da aula pode ser resumida da seguinte forma: Não diagnostique pelo comportamento. Investigue o fenômeno que produz o comportamento. O paciente não é um conjunto de rótulos. O profissional precisa compreender: o que ele sente + o que pensa + o que percebe + o que acredita + como reage + há quanto tempo + qual prejuízo isso produz. 45. O que guardar para a prova 1. Transtornos de ansiedade são um grande guarda-chuva. 2. Não existe um único quadro chamado simplesmente “ansiedade”. 3. “Crise de ansiedade” é uma expressão cotidiana e não um diagnóstico específico. 4. Ataque de pânico é um episódio; transtorno de pânico é um diagnóstico. 5. No transtorno de pânico, após os ataques deve existir preocupação persistente e/ou mudança comportamental relevante por pelo menos um mês. 6. Ansiedade social é principalmente medo de julgamento e avaliação negativa. 7. Agorafobia é principalmente medo de não conseguir escapar ou receber ajuda. 8. TAG envolve preocupação excessiva em várias áreas da vida. 9. Fobia específica envolve medo de um estímulo específico. 10. Sintomas fisiológicos são muito importantes nos transtornos ansiosos. 11. Uma pessoa psicótica pode sentir ansiedade sem ter um transtorno ansioso como diagnóstico principal. 12. Alucinação não significa automaticamente esquizofrenia. 13. Psicose é um fenômeno; esquizofrenia é um diagnóstico. 14. Um comportamento isolado não confirma diagnóstico. 15. TDAH e autismo pertencem aos transtornos do neurodesenvolvimento e exigem história de sintomas no desenvolvimento. 16. Correlação não significa causalidade nem confirmação diagnóstica. 17. TOC possui atualmente um capítulo próprio no DSM. 18. Transtornos relacionados a trauma também possuem categoria própria. 19. DSM e CID são instrumentos de consulta. 20. Diante de risco suicida com planejamento, a prioridade é a avaliação de segurança e assistência emergencial, e não apenas o manejo da ansiedade.