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Obras selecionadas de Lutero. Volume1: Os primórdios. 1517 - 1519

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pecado, mas significava pecado; a apre- 
sentação do pecado não é satisfação, mas busca a sentença do sacerdote, co- 
rno é suficientemente sabido. 
2. Em segundo lugar, demonstro a tese da seguinte maneira: aqueles dois 
poderes - o de ligar e o de desligar - são iguais e se referem a mesma malé- 
ria. No entanto, o sumo pontífice não tem [poder] para ligar e impor nenhu- 
ma pena exceto a canônica ou quinta; logo, também não pode desligar e anu- 
lar alguma [outra]. Ou então teria que se dizer que esses dois poderes são de 
extensão desigual. Se se diz isto, ninguém é obrigado a crer, pois não é prova- 
do por quaisquer passagens da Escritura nem por quaisquer cânones, ao pas- 
so que é claro o texto em que Cristo concedeu [o poder de] ligar sobre a terra 
e [o de] desligar sobre a terra, medindo e estendendo ambos os poderes de 
igual modo. 
3. A extravagante depe. et re. li. V. c. Quod autemmdiz expressamente 
que as remissões não têm validade para quem não as receber de seu juiz, visto 
que ninguém pode ser ligado ou desligado por alguém que não seja seu juiz. 
Certo é, porém, que o ser humano não está sob a jurisdição do papa nas pe- 
nas da primeira, segunda, terceira, quarta e sexta espécies, mas apenas na 
quinta, como é claramente evidente e como ficará mais evidente abaixo. 
Corolario 
Segue-se que a satisfação não é chamada de sacramental porque satisfaz 
pela culpa pura e simplesmente (é que pela culpa satisfazem a terceira e a 
quarta penas), mas porque satisfaz pela culpa segundo os estatutos da Igreja. 
Pois a Deus se satisfaz maximamente por meio de uma nova vida, etc. Mas 
iambém por meio das Escrituras deve ser demonstrado que não é exigida 
qiialquer satisfação pelos pecados. 
Temos aqui João Batista, enviado, segundo o propósito e decreto de 
Ileus, para pregar penitência, e que também disse: "Farei penitência" [Mt 
110 Trata-se das decretais de Gregóiia IX, a segurida das cinco partes principais da coleção de 
leis eclesiásticas designada, desde princípios do s i c . XVI, de Corpus iuris cononici. A r e l è ~ 
rência comoleta é: Decreloles d . Greaorii oaDoe IX, livro V. titulo XXXVIII (De Doenden- 
- . . . . 
liis e1 remikonibus), capitulo 4 (que inicia com as p a l a v r a s ~ u o d ourem), i": Corpus iuris 
cononici, Graz, 1955, v . 2, col. 885. 
72 
3.21, e de novo: "Produzi, pois, frutos dignos da penitência." [Lc 3.8.1 Ele 
mesmo explicou essas palavras, ao responder as multidões que lhe pergunta- 
vam o que deveriam fazer: "Quem tiver duas túnicas, dê a quem não tem; e 
quem tiver comida, faça o mesmo." [Lc 3.11 .I Não vês que, como penitên- 
cia, ele não impós senão aobserváncia dos mandamentos de Deus, e que, por 
isso, quis que sob "penitência" fossem entendidas tão-somente a conversão e 
a mudança para uma nova vida? Mas mais claramente ainda: "Eis que vie- 
ram publicanos e disseram: Mestre, que havemos de fazer? E ele disse: Não 
fazei nada mais do que aquilo que vos foi estabelecido." [Lc 3.12s.I Acaso 
disse aqui: "Deveis satisfazer pelos pecados passados"? De igual modo disse 
aos soldados: "A ninguém maltrateis, a ninguém calunieis, e contentai-vos 
com o vosso soldo." [Lc 3.14.1 Acaso impôs aqui outra coisa do que os man- 
damentos comuns de Deus? Ora, se esse mestre da penitência, instituído por 
Deus para isto, não nos ensinou a satisfação, então ele certamente nos enga- 
nou e não ensinou suficientemente o dever da penitência. 
A segunda passagem é Ezequiel 18.21: "Se o ímpio se converter de sua 
impiedade e fizer o que é reto e justo, certamente viverá e não morrerá." Vê, 
ele nada impõe senão a retidão e a justiça, que devem ser feitas durante toda 
a vida, conforme aquela palavra: "Bem-aventurados os que praticam a reti- 
dão e a ju~tiça em todo tempo." [SI 106.3.1 Terá ele, pois, nos enganado tam- 
bém aqui? 
A terceira passagem é Miquéias 6.8: "Eu te mostrarei, ó ser humano, o 
que é bom e o que o Senhor exige de ti: principalmente que pratiques a justi- 
ça, ames a misericórdia e andes humildemente com o teu Deus." [Aqui] vês o 
que Deus exige do ser humano corno satisfação. Por fim, no que antecede ele 
zomba dos que querem satisfazer através de obras, dizendo: "O que oferece- 
rei de digno ao Senhor? Acaso lhe oferecerei holocaustos e bezerros de um 
ano? Pode ele ser aplacado com milhares de carneiros ou com muitos milha- 
res de bodes? Acaso lhe darei meu primogênito pela minha transgressão, o 
fruto de meu ventre pelo pecado de minha alma?" [Mq 6.6s.l Quer dizer: 
"Não, porque Deus não exige tais coisas pelo pecado, mas sim justiça, mise- 
ricórdia e temor, como foi dito, isto é, uma nova vida." 
Tese 6 
O papa não pode remitir culpa alguma senão declarando e confirmando 
que elafoi perdoada p o r Deus, ou, sem drívida, remitindo-a nos casos reser- 
vados para si; se estes forem desprezados, a culpa permanecera po r inteiro. 
A primeira parte é tão evidente, que alguns61 até confessaram que é uma 
maneira de falar imprópria quando [se diz que] o papa dá remissão da culpa. 
61 Aparentemente, trata-se de Joào Genser von Paltz e Jacó von Jiiteborg. O primeiro foi pro- 
fessor de Lutera na convento de Erfurt. 
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Outros, porém, confessaram não entender. Pois todos confessam que a culpa 
é perdoada unicamente por Deus, conforme 1s 43.25: "Eu, eu mesmo, sou o 
que apago as tuas iniqüidades por amor de mim, e dos teus pecados não me 
lembrarei." E Jo 1.29: "Eis o cordeiro de Deus, que tira os pecados do mun- 
do." E S1 129[1301.3s: "Se observares, Senhor, iniquidades, quem, Senhor, 
subsistirá? Pois contigo está a propiciação." E mais, abaixo: "Junto ao Se- 
nhor há misericórdia, junto a ele, copiosa redenção. E ele quem redime Israel 
de todas as suas iniquidades." (SI 130.7s.) E SI 50[51].10: "Cria em mim, ó 
Deus, um coração puro", etc. E, em tantas obras contra os donatistas62,o B. 
Agostinho outra coisa não diz senão que os pecados são perdoados somente 
por Deus. 
A segunda parte é igualmente muito clara, pois a quem desprezasse os 
casos reservados certamente não seria remitida nenhuma culpa. "Quem vos 
desdenhar", diz ele, "a mim me desdenha." [Lc 10.16.1 Sim, ninguém retor- 
na de Deus com a culpa perdoada se não leva consigo, ao mesmo tempo, re- 
verência para com as chaves. 
Uma vez que esta tese é admitida por todos como verdadeira, não é ne- 
cessário que ela seja reforçada por minha afirmação. Não obstante, indicarei 
aqui o que me preocupa e, mais uma vez, confessarei minha ignorância, se al- 
guém se dignar a me instruir e elucidar essa questão com maior clareza. Em 
primeiro lugar, quanto á primeira parte, parece que essa maneira de falar ou 
opinião é imprópria e incompatível com o texto do evangelho, já que se diz 
que o sumo pontífice desliga, isto é, declara desligada a culpa ou confirma63. 
Pois o texto não diz: "Tudo o que eu desligar nos céus tu desligarás na 
terra", mas, pelo contrário: "Tudo o que desligares na terra eu desligarei, ou 
será desligado, nos céu?"', onde o sentido é mais de que Deus confirma o 
desligamento do sacerdote do que vice-versa. Em segundo lugar, em relação a 
segunda parte, é certo que os casos que o papa desliga são desligados também 
por Deus, e que ninguém pode se reconciliar com Deus se não se reconciliar 
primeiramente, pelo menos em desejo, com a Igreja. Também é certo que a 
ofensa a Deus não é removida enquanto permanecer a ofensa á Igreja. Mas é 
de se perguntar se alguém, tão logo esteja reconciliado com a Igreja, também 
está reconciliado com Deus. O texto sem dúvida diz que tudo o que está desli- 
gado na Igreja estará desligado também no céu, porém não parece seguir-se 
daí que, por este motivo, pura e simplesmente tudo estará desligado no céu, 
mas unicamente aquilo que está desligado na Igreja. Em minha opinião, essas 
h2 Trata-se de movimento surgido no séciilo I V , no Norte da África, o qual rccebcu rei, name