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Obras selecionadas de Lutero. Volume1: Os primórdios. 1517 - 1519

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causa da honra, tu 
deves desejar o perdão sem fingimento e crer no Cristo que promete. Sim, 
mesmo que ele absolvesse por leviandade, ainda [assim] obterias paz a partir 
de tua fé. Assim como ele dá o Batismo ou a Eucaristia, seja em busca de lu- 
cro, seja levianamente, seja brincando, tua fé o recebe plenamente. Tão gran- 
de coisa é a palavra de Cristo e a fé nela. Pois lemos nas histórias dos 
mártires'7 que certo comediante quis ser batizado por brincadeira, sim, para 
zombar do Batismo; enquanto era batizado, se converteu, foi verdadeira- 
75 Sc. para perdoar. 
76 C ( . Rm 8.16. 
77 Pi>deinns corirtatal qiie Lutero se ocupou intensivamente com a história das perseguiçóes 
mente batizado por seus companheiros pagãos e imediatamente por eles co- 
roado com o martírio, Do mesmo modo, quando menino, Sto. Atanásio78 ba- 
tizou outros meninos, que, depois, o bispo de Alexandria declarou batizados, 
como [lemos] na História eclesiástica'9. E o B. Ciprianoao repreendeu a paz 
dada muito precipitadamente por um certo bispo Terápio, mas quis que ela 
fosse ratificada. Portanto, somos justificados pela fé, também obtemos paz 
pela fé -não por obras, penitências ou confissões. 
Com respeito a essa sexta e sétima tese aquele nosso leãoai triunfa com 
glória, sim, canta um hino de vitória sobre mim antes da vitória. Daquela 
sentina de opiniões ele tira uma distinção entre uma pena satisfatória e vindi- 
cativa, por um lado, e uma pena medicativa e curativa, por outro, como se 
fosse necessário crer em quem sonha essa espécie de coisa. Não obstante, pe- 
rante o povo, eles escondem essa distinção com extrema prudência, para que 
as indulgências ou, antes, os lucros não sejam prejudicados, se o povo perce- 
besse que são remitidas as tão modestas e inúteis penas vindicativas (isto é, 
inventadas). Depois, para tornar conhecido de todos que não sabe o que é o 
sacerdócio antigo ou o novoaz, ele introduz outra escuridão de palavras e uma 
aos cristãos. Além disso, sempre mostrou grande amor e respeito em relação aqueles que 
derramaram seu sangue. A expressão do original latino gesra morlyrum, no entanto, não se 
refere a uma coletânea que levasse esse nome, mas A Legendo ourea de Jacó a Vaiagine 
(1230-1298). muitissimo usada por Lutero. 
78 Considerado o "oai da ortodoxia". Atanásio defendeu iá no Concilio de Nicéia 1325). con- 
ira Arto, .I d ~ u t r i n a .I.I ltorna.>u,ia dc C r t \ t < , :,>tu ,J I ? ~ I t ~ w ,~qx:t.> 1,) .!r r).% :, :Y>I>.. ~1 
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340) e elaborou a primeira história da igreja, dos primórdibs até o ~bnc i l i a de ~ i c G a . 
80 Cipriano é um dos mais conhecidos pais da Igreja. Batizado em 246. Ioga veia a se tornar 
bispo de Cartago. quando pôde iiderar sua comunidade em meio a perseguição sob Décio. 
Em relação aos que haviam negado a fé em meio às perseguições, Cipriano procurou assu- 
mir uma posição conciliadora. Par outro lado, negou validade aa Batismo oficiado por h e ~ 
reges. Essas duas questões valeram-lhe o anátema do bispo romano Estêvão. Tal anátema 
levou-a a escrever a obra De uniroteecclesioe, na qual defende o principio de que o bispo de 
Roma, apesar do lugar de destaque conferido ao apóstolo Pedro, n2o tem poder judicial 
supremo sobre os demais bispos. Cipriano é o mais importante representante da constitui- 
$20 episcopal da Igreja, contra o papalismo. Seu escrito De unirate ecclesiae foi de grande 
importância para Lutero em sua luta contra o primado papal, mesmo que afirmasse que Ci- 
priano foi "um homem piedoso, mas um teólogo fraca". O fato mencionado por Lutero 
encontra-se na carta de Cipriano ad Fidum (II1,8). 
81 Wimpina-Tetzel. No que se segue, Lutero usa, contra Wimpina-Tetrel, um dito proverbial 
(ante vieroriam encomium canere) que também encontramos nos Adagio de Erasmo. A ex- 
pressão exseniinoillo opinionum é um jogo de palavras com o qual Lutero zomba da p i i n ~ 
cipal obra de Pedro Lombarda, Senlenriorum libri IV . Em virtude dessa obra, Lombaido 
recebera o titulo de mogister sententiorum. 
82 Na 11: tese e nas seguintes, Wimpina-Tetzel afirmam que os sacerdotes cristãos não só 
"proclamam e confirmam" a graça do perdão dos pecados, mas que, realmtnte, a conce- 
dem, mercê do poder das chaves. 
80 
distinção das chaves, [distinguindo entre] as da autoridade, as da excelência e 
as do ministério. Até nossos exímios mestres, os inquisidores da depravação 
herética e defensores da fé católica, absolutamente nada sabem, exceto o que 
sugaram das fragmentadas e rançosas questões do livro IV das Sentençasa). 
Talvez eles queiram [dizer] que aquilo que Cristo desligar com as chaves da 
excelência no céu í j á que na terra ele mesmo não desliga) será desligado num 
céu superior junto a Deus. Mais uma vez, para que o pontífice também seja 
Deus, é preciso inventar um outro Deus, superior, junto ao qual seja desliga- 
do o que ele desligar com as chaves da autoridade no céu superior. Mas fora 
com essas frivolidades! Nós só conhecemos uma espécie de chaves, tão- 
somente as dadas na terra. Concluem eles agora: "Erra, portanto, quem diz 
que o sacerdote da nova lei só desliga confirmando e declarando" (pois nisso 
consistia o ministério do sacerdócio judaico). Oh! que agudeza de inteligên- 
cia e que ingente peso de erudição! Esses homens são realmente dignos de in- 
quirir os hereges e de defender a fé católica - mas contra pedras e pedaços de 
pau! Quão mais corretamente afirma o apóstolo Pauload que o antigo sacer- 
dócio consistia no julgamento de leprosos, na administração da justiça e pu- 
rificação da carne, em comida e bebida e vestimenta e dias festivos, etc.! 
Através disso são denotadas, como numa figura, a justificação no espírito e a 
i purificação do coração, operadas por Cristo na Igreja pelo ministério do no- vo sacerdócio. Assim, eu não propus a sexta tese de coração, como disse lá, e 
sim porque outros pensam desse modo. No entanto, [a propus] porque nem 
mesmo os adversários, com todos os seus mestres, até hoje podem mostrar 
como o sacerdote perdoa as culpas, a menos que apresentem aquela opinião 
herética, mas corrente, segundo a qual os sacramentos da nova lei dão a gra- 
ça justificante a quem não coloca óbice. Pois é impossível conferir os sacra- 
mentos de forma salutar exceto a quem já crê e é justo e digno (pois é necessá- 
rio que quem vemRJ creia; além disso, não é o sacramento que justifica, mas a 
fé no sacramento). Por esta razão, seja lá o que os petulantes sofistas tarame- 
larem, é mais verossímil que o sacerdote da nova lei apenas declara e confir- 
ma a absolvição de Deus (isto é, a indica) e, através dessa indicação e de sua 
sentença, aquieta a consciência do pecador, o qual deve crer na sentença do 
sacerdote e ter paz. Desta maneira o velho sacerdote aquietava aqueles a 
quem julgava puros em corpo ou vestimenta, embora ele próprio não pudesse 
83 A obra de Pedro Lombardo está dividida em quatro livros, par sua vez subdivididos em 
I quoesriones. O primeiro livro trata de Deus, como o sumo bem, o segundo das criaturas, o terceiro da encarnação e da redenção, o quarto dos sete sacramentos e da escatologia. Lute- ro zombava do fato de que em seu tempo ninguém se considerava um doutor sem que tives- 
se escrito um comentário