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indisfarçável, a dispensar essa forma de estar no mundo. O assombro de que 
falamos aqui foi substituído não simplesmente por interesses práticos os mais rasos, mas 
principalmente por uma visão do mundo inteiramente modelada a partir do progresso 
da técnica. É como se a técnica primeiro houvesse se autonomizado (como se ela tivesse 
se transformado em algo que existe por si mesma) e depois tivesse passado a gerir nossa 
maneira de pensar o mundo. Evidentemente, se nossas vidas se organizarem em torno 
da técnica como um fim em si, a experiência humana do mundo como potencialidade 
de problematizações soará mesmo um pouco estranha. 
No entanto, não precisamos nos mostrar convencidos do esgotamento do sentido de nosso 
pensamento em limites tão estreitos. Não necessitamos nos satisfazer com uma noção 
de racionalidade tão pobre. Entre outras coisas, a filosofia serve para fazer frente ao que 
tomamos como inevitável, serve para ampliar nosso sentido do possível para lembrar o 
caráter aberto da experiência humana. Podemos, como reação à tal banalização de nosso 
estar no mundo, desejar saber como viemos a conceber nossas vidas em termos de valores 
tão reduzidos. Podemos desejar saber a que forças serve essa visão de mundo que se 
esgota na dimensão técnica do pensamento. Isto, é claro, significará nos espantarmos 
diante do empobrecimento de nossos imaginários contemporâneos. Significará retomar 
o espanto contra aquilo mesmo que não cessa de tentar diminuí-lo.
Descobriremos talvez que a técnica agora pode estar sendo instrumentalizada para 
consagrar continuamente um modelo de mundo e um modelo de sujeito. Esses modelos 
tomam forma numa cultura de valores mercantilistas que, baseada numa coercitiva 
moral do consumo de novidades, como discutida na Unidade I, implica um verdadeiro 
programa de destruição da memória coletiva, alienando-nos de obras de cultura e de 
tradições inteiras de pensamento. O gozo com as novidades, a cuja produção contínua 
a técnica serve, está nos alienando do próprio compromisso com o passado histórico, 
o qual não deveria ser imaginado como dimensão com que deixamos de ter quaisquer 
laços orgânicos. 
Defendemos aqui que o conhecimento de tais obras e tradições precisa ser entendido 
e sentido, por todos nós, como necessário. E isto assim o teria de ser não porque tal 
conhecimento possa ajudar em nossas carreiras ou porque “agreguem valor” à nossa 
formação profissional, mas porque é ele que nos permite o envolvimento num processo 
de humanização mais amplo e abre caminho para uma contextualização mais elaborada 
de nossa situação como seres pensantes. 
Só será possível refletir sobre uma perda do sentimento de espanto por parte de um 
homem tiranizado pelo gozo com a técnica e com o imediatismo dos objetivos cultuados 
na sociedade de consumo quando aprendermos a estranhar de novo o território em que 
nos encontramos na vida contemporânea. 
É importante que se perceba um ponto: aqui não estamos a criticar a existência ou a 
A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofia
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relevância da técnica, mas a sua elevação à condição de uma verdadeira visão de mundo. 
Se, por um lado, é mesmo verdade que a evolução da técnica nos leva a um crescente 
progresso na expansão de muitas de nossas potencialidades, por outro não deve ser 
tomada como verdadeira a afirmação de que, quando nos referimos ao progresso técnico, 
estamos nos referindo a um concomitante aperfeiçoamento da capacidade humana de 
pensar. É isso exatamente que desejamos sublinhar. À medida que a racionalidade 
técnica se tornar sinônima do próprio ato humano de pensar, sua única forma relevante 
de expressão, já teremos esquecido o quão amplas são as possibilidades da reflexão. 
Podemos continuar?
A apreensão perplexa do mundo; a problematização.
Aristóteles, filósofo grego do século IV a.C., sobre o qual iremos falar mais à frente, 
julgava essencial esse espanto, essa admiração, para o exercício da filosofia. Ele diz, a 
respeito, no capítulo II do Livro I de sua Metafísica:
Metafísica: Foi, com efeito, o espanto que levou, como hoje, os primeiros 
pensadores à especulação filosófica. No início seu espanto dizia respeito 
às dificuldades que se apresentavam em primeiro lugar ao espírito; 
depois, avançando pouco a pouco, estenderam sua exploração aos 
fenômenos mais importantes, tais como os fenômenos da Lua, os do Sol e 
das estrelas, e enfim à gênese do universo. Ora, perceber uma dificuldade 
e espantar-se é reconhecer a própria ignorância (1972).
Num diálogo de Platão intitulado Teeteto, a delicada mensageira da palavra dos deuses, 
Íris, é mencionada como a filha do titã que personifica justamente o assombro. O que se 
quer dizer com essa forma mais poética de pôr as coisas é que o assombro, o espanto, 
antecede o conhecimento de algo que se eleva da opinião comum: tal conhecimento 
deriva diretamente dele. Assim, lemos na aludida passagem (a saber, no passo 155c-d 
do Teeteto):
 
Pelos deuses, Sócrates, causa-me grande admiração o que tudo isso possa ser, e só de 
considerá-lo, chego a ter vertigens.
Sócrates: Estou vendo, amigo, que Teodoro não ajuizou erradamente tua natureza, pois 
a admiração é a verdadeira característica do filósofo. Não tem outra origem a Filosofia. 
Ao que parece, não foi mau genealogista quem disse que Íris era filha de Taumante 
(Platão, 2001, p. 55).
Mas como esse espanto, essa admiração se traduz mais concretamente? Fernando 
Savater, num livro chamado As perguntas da vida, cuja leitura nunca cansaremos de 
recomendar, ajuda-nos a entender, com exemplos, essa prática do estranhamento tal 
como exercida pelo filósofo. Ele o faz citando uma passagem de Uma breve introdução 
à Filosofia, de Thomas Nagel, um filósofo contemporâneo e bastante influente.
A principal ocupação da Filosofia é questionar e esclarecer algumas ideias 
muito comuns que todos nós usamos todos os dias sem pensar sobre 
elas. Um historiador pode se perguntar sobre um determinado momento 
do passado, mas o filósofo perguntará: o que é o tempo? Um matemático 
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A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofia
pode investigar as relações entre os números, mas um filósofo perguntará: 
o que é um número? Um físico irá perguntar do que são feitos os átomos 
ou o que explica a gravidade, mas um filósofo perguntará: como podemos 
saber que existe algo fora de nossas mentes? Um psicólogo pode investigar 
como uma criança aprende uma linguagem, mas um filósofo perguntará: 
por que uma palavra significa algo? Qualquer um pode perguntar se é 
mau furar a fila do cinema sem pagar, mas um filósofo perguntará: por 
que uma ação é boa ou má? (Savater, 2001, p. 8-9).
Observe, com base na passagem acima, que o espanto do filósofo se dirige para questões 
que já são vistas como solucionadas ou como não merecendo problematização, seja 
da parte do cientista, seja da parte do senso comum. O espanto do filósofo se traduz 
em questões de natureza mais abrangente. É bem verdade que esta é apenas uma 
das formas de caracterizar a curiosidade do filósofo: a busca por definições essenciais 
com que Sócrates imaginou a agenda filosófica. Há outras maneiras de caracterizá-la, 
sem dúvida. Por enquanto, fiquemos com esta, e comecemos a nos perguntar: como 
podemos imaginar o conhecimento? A que ele se dirige? Quais suas fontes? Terá o 
conhecimento sua fonte na experiência concreta ou é justamente numa forte oposição 
Teeteto
 http://pt.wikipedia.org/wiki/Teeteto
Indo além
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UNISUAM.
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a ela que o conhecimento se tornará possível? Será possível chegar a uma certeza com