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maiores pensadores éticos de toda a história 
do pensamento, embora muito mal conhecido, freqüentemente deturpado, e por outro lado, a sua 
extraordinária atualidade. Se ele impressionou o jovem Marx e ajudou Marx na sua juventude a 
perceber o sentido da liberdade como libertação interior, como desalienação, hoje ele continua 
extremamente importante para nós, porque em grande parte a sua Ética é um ensino de 
virtuosismo pessoal para que se possa ser feliz, ser sereno, ter prazer, mesmo na adversidade. 
 
Epicuro viveu no século III a.C., numa Grécia que não era mais uma Grécia livre, uma Grécia 
que não conhecia mais aquelas cidade, cada qual tendo o direito de desenvolver a sua própria 
política, o seu próprio regime, a sua própria forma de vida, mas ao contrário, uma Grécia que no 
seu tempo já fazia parte do grande Império Macedônio, desde a vitória de Queronéia, quando os 
macedônios dominam a Grécia, com Felipe, depois com Alexandre. A Grécia não era mais aquele 
mosaico de cidades, de Póleis, capazes de cada uma ter a sua própria experiência e a sua própria 
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fisionomia cultural. Agora não. Era mais um pedaço de um grande império, que é o Império 
Macedônio, que estendia até a Ásia. 
 
 Nesse momento, não se pode mais pretender, como Platão pretendera antes, fazer com que a 
meta final da criação Ética fosse a reforma das cidades, a procura de que a Pólis reespelhasse, ela 
também, a beleza e a harmonia do cosmos. Não, no tempo de Epicuro não há mais aquele sentido 
de cidadania, que a democracia ateniense permitira a alguns que eram considerados cidadãos, não 
há mais a condição de se reunir os chamados cidadãos em uma assembléia para discutir e forjar 
as leis. Agora as leis emanam de cima, vêm diretamente da vontade de Felipe ou de Alexandre, e 
todos são súditos desse soberano e têm que se curvar à sua vontade. 
 
Não há mais liberdade política, mas, por outro lado, mostra Epicuro, mesmo nesses momentos de 
repressão, nesses momentos de cerceamento da liberdade pública, há todo um universo a ser 
trabalhado e a ser conquistado que é o interior que pode ser ele um processo de libertação 
pessoal. Epicuro expressa o seu tempo e afirma que num tempo de adversidade, mesmo assim o 
homem pode e deve ser feliz, o homem pode e deve procurar o prazer, porque ele nasceu para a 
felicidade e é para isso que ele esta destinado. 
 
Saúde da Alma 
 
Ele mostra, porém, que esse prazer, essa felicidade, esse bem, que agora é um bem num sentido 
estritamente pessoal, tem que ser conquistado distante das turbulências da sociedade, distante do 
universo político porque a grande nau que se tem agora que pilotar é na verdade a nau interior, e 
se esta procurando uma saúde tem que ser uma saúde da alma. E essa saúde da alma é aquela 
conquistada pelo afastamento da ignorância, pelo afastamento das crendices, ou seja, pelo uso de 
uma sabedoria, de uma ciência, de um conhecimento que aclara a vida interior, retira daí esses 
obscurantismos todos e faz com que o homem, a partir do conhecimento da natureza das coisas 
possa se posicionar, compreender a sua própria dimensão, compreender o seu próprio papel. 
 
Isso é conseguido, porque, na verdade, ele propõe e é esse o seu estilo, o estilo da sua ética, ele 
propõe todo um programa de auto administração, de auto comando da nau interior, que parte 
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primeiro do esclarecimento feito pela ciência, pela compreensão da natureza das coisas, que no 
caso dele vai ser feito com base no atomismo de Demóclito, que ele reformula. 
 
Prazer 
 
Mas, por outro lado, não é só isso. Essa libertação que o conhecimento esclarecedor permite, ele 
associa também à procura e à valorização permanente do prazer afirmando, provando e 
exemplificando que na verdade o homem não existe em função do sofrimento. O sofrimento é 
uma circunstância, é uma contingência que não determina a vida do homem, e a grandeza, a 
virtude está em auto determinar-se, apesar do sofrimento que aparentemente vem como uma 
fatalidade e o homem consegue vencer pela sua postura íntima. 
 
Ética 
 
Ele ensina uma Ética que é testada em situações extremadas, é uma ética que é testada in 
extremis, não só em situações difíceis de vida, como também em situações últimas de morte. 
 
Serenidade 
 
Epicuro mostra que o homem pode viver bem, viver feliz, viver sereno e morrer sereno e feliz. 
 
Como isso é feito? Isso é feito através de uma espécie de auto gestão de si mesmo, auto 
administração, de autarcia que é a meta que ele propõe. Uma independência interior, um desvio 
da fatalidade que é a fatalidade externa das circunstâncias políticas e sociais que são adversas 
nesse momento, que era a própria fatalidade da sua doença e da sua pobreza. Ele não está 
condenado ao sofrimento, porque ele será feliz ou não, alegre ou triste, dependendo de como ele 
administrar-se interiormente. Ele prova o tempo todo, através de palavras, através de textos, mas 
sobretudo, através de uma vida. 
 
Ele coloca, nos termos do seu tempo, a seguinte afirmativa: ou vida política, ou serenidade e 
felicidade. E hoje nós podemos ler isso de uma forma muito nossa, muito atual. Percebendo que o 
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que ele está exatamente apontando é a grande distância, é a grande diferença entre o campo da 
vida pessoal e o da vida pública. A vida pública, mostrava ele e nós reconhecemos hoje, é um 
campo de antagonismo,é um campo de disputa, é um campo de luta. A vida pessoal pode ser essa 
sim e deve ser essa sim uma vida de serenidade, uma vida de felicidade. O que não se pode é 
pretender é ser feliz no território público, da coletividade, o que não se pode é pretender que o 
universo público esteja à serviço da felicidade pessoal. 
 
O jardim 
 
Por isso se a procura da serenidade, se a procura da liberdade interior, da autarcia é uma procura 
que retira o homem da turbulência da Pólis, ele não se isola, ao contrário, ele se recolhe com os 
amigos ao jardim. E nesse jardim, numa fraternidade lúcida, numa fraternidade esclarecida, ele 
vai procurar no intercâmbio, nas trocas, nos colóquios, nas conversas, ou seja, apoiado no esforço 
de grupo ele vai tentar manter aí o seu trabalho, o seu artesanato interno e só assim, dentro da 
amizade, que esse projeto pode ser realizado. Não é insular o homem, isolar o homem, fazer dele 
aquele que recusa todos os outros e o resto do mundo, é ao contrário, substituir a Pólis, com os 
seus antagonismos, pelo jardim com a sua filia, com a sua amizade e amizade que está no fundo 
do próprio projeto da Filosofia, porque todos sabemos que filosofia não é senão amor à sabedoria, 
amizade pelo conhecimento e é isso que no fundo une esses indivíduos, é isso que no fundo 
aproxima aqueles amigos, porque eles são amigos entre eles porque na verdade todos estão no 
mesmo processo de busca de sabedoria, de busca do conhecimento. 
 
Razão 
 
É importante, portanto, lembrar que a Ética de Epicuro é uma Ética que se funda primeiramente 
no conhecimento, no apoio à razão, na recusa ao obscurantismo, na recusa à crendice, na 
colocação do mundo como alguma coisa à dimensão da compreensão humana, alguma coisa que 
está dentro da possibilidade de compreensão da medida humana, o mundo é mensurável pela 
racionalidade do homem, o mundo pode ser medido pelos sentidos e pela razão do homem, é essa 
a idéia básica que afasta tudo que é obscuro, tudo que parece intangível, tudo que é 
absolutamente insondável e que faz com que os próprios deuses de Epicuro, e ele afirma, os 
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deuses sejam compreensíveis, tenham comportamentos razoáveis e tudo, homens, deuses e 
pessoas sejam no fundo explicáveis racionalmente. 
 
Deuses 
 
Na verdade, o que Epicuro propõe é que a