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e a Política como parâmetros para dirigir e organizar as relações entre os membros da 
comunidade política e que se ocupam de todos os problemas humanos (religião, guerra, natureza 
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etc); as virtudes civis (amor e fidelidade a comunidade, dedicação aos negócios públicos, a 
primazia do público em face do privado etc); a progressiva consciência da definição e proteção 
dos interesses da comunidade concomitantemente com a consciência da definição e proteção da 
individualidade dos seus membros; e a consciência da responsabilidade pessoal como parte de 
uma autêntica conduta Moral (Vasquez, 1989, 31-33). 
 O Mundo Antigo Ocidental não rompeu totalmente com a explicação mítica do mundo, 
mas o homem era reconhecido como um ser constituído de razão e de vontade. A Ética do fim e 
a Ética do Móvel haveriam de refletir esta realidade. 
 
2.2.1. A Ética do Fim no Mundo Antigo Ocidental 
 
A Ética do fim possuiu diversas expressões no mundo antigo. Dentre elas podemos 
destacar Sócrates, Platão e Aristóteles. 
 
Sócrates (séc. V e IV a. C.) 
 
 Sócrates compartilhou o desprezo dos sofistas pelo conhecimento naturalista e pelas 
tradições. Todavia, destes se afastou à medida que condenava o relativismo e o subjetivismo. 
 Sócrates centrou a questão do saber no homem, conforme retrata a máxima “conhece-te a 
ti mesmo”. Buscou um conhecimento fundamentalmente moral, prático e universalmente válido. 
A sua Ética possuía a concepção do bem como felicidade da alma e do bom como útil para a 
felicidade; a virtude como conhecimento, porque quem conhece o bem não age mal, e do vício 
como ignorância, porque somente age mal quem não conhece o bem; e a virtude pode ser 
ensinada e, portanto, transmitida (Vasquez, 1989, p. 237 e 238). 
 
Platão (V e IV a. C.) 
 
 A Ética de Platão possuiu como fundamento primeiro a sua concepção metafísica. Para 
ele haveria o mundo sensível, que apoiaria-se nas idéias imperfeitas e fugazes, que constituiriam 
a falsa realidade, e o mundo das Idéias, que seriam permanentes, eternas, perfeitas e imutáveis, 
que constituiriam a verdadeira realidade e que teria como cume a Idéia do bem (divindade, 
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demiurgo do mundo). O segundo fundamento foi a doutrina da alma. Para ele o homem seria 
animado por três almas: a racional (razão), que contemplaria e queria racionalmente, a colérica 
(vontade ou ânimo), que comandaria a vontade e não queria racionalmente, e a desejante 
(concupiscente ou apetite), que comandaria as necessidades corporais e também não queria 
racionalmente. Assim, (Vasquez, 1989, p. 238 e 239). 
 
Pela razão, como faculdade superior e característica do homem, a alma se eleva – mediante a contemplação – ao 
mundo das idéias. Seu fim último é purificar ou libertar-se da matéria para contemplar o que realmente é e sobretudo 
a Idéia do Bem. Para alcançar esta purificação, é preciso praticar várias virtudes, que correspondem a cada uma das 
partes da alma e consiste no seu funcionamento perfeito: a virtude da razão é a prudência; a da vontade ou ânimo, a 
fortaleza; e a do apetite, a temperança. Estas virtudes guiam ou refreiam uma parte da alma. A harmonia entre as 
diversas partes constitui a quarta virtude, ou justiça 
 
 O homem não alcançaria a plena perfeição isoladamente. A Idéia do homem somente se 
realizaria enquanto bom cidadão e no Estado ou comunidade política. Enfim, a Ética assumia 
conseqüência por meio da Política. 
 Platão, por meio da obra A República, projetou a estrutura e hierarquia das almas no 
Estado. Nele cada parte corresponderia a uma classe especial, cumpriria a sua virtude e tarefa e 
declinaria sobre as demais. Assim, (Vásquez, 1989, p. 239). 
 
(...) à razão, a classe dos governantes – filósofos, guiados pela prudência -; ao ânimo ou vontade, a classe dos 
guerreiros, defensores do Estado, guiados pela fortaleza; e ao apetite, os artesãos e os comerciantes, encarregados 
dos trabalhos materiais e utilitários, guiados pela temperança. Cada classe social deve consagrar-se à sua tarefa 
especial e abster-se de realizar outras. De modo análogo ao que sucede na alma, compete à justiça social estabelecer 
na cidade a harmonia indispensável entre as várias classes. E, com o fim de garantir esta harmonia social, Platão 
propõe a abolição da propriedade privada para as duas classes superiores (governantes e guerreiros) 
 
O homem deveria fugir dos excessos. A ênfase excessiva em uma boa ação desencadearia o seu 
próprio contrário, enquanto que boas ações de nada adiantariam frente a práticas ordinariamente 
ruins. A conduta deveria ser forjada pelo hábito de possuir bons costumes e não tanto em realizar 
boas ações. 
O bem é organizar a cidade tendo como base o verdadeiro conhecimento, de forma que as 
funções necessárias à cidade – a satisfação das necessidades básicas dos habitantes, a defesa do 
território e a administração – corresponda às aptidões de cada um – produtores (camponeses e 
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artesãos), guerreiros e legisladores. Identificar as aptidões por meio da educação e seleção dos 
homens para as funções permitiria determinar e definir as virtudes particulares, bem como a 
virtude que compreenderia todas elas, qual seja, a justiça como cumprimento da função que 
caberia a cada parte no Estado. E concluiu que “ Os males não cessarão para os homens antes que 
a raça dos puros e autênticos filósofos chegue ao poder ( Platão apud Abrão, 1999, p. 52 e 53 ). 
A ética de Platão unificava Moral e Política. A perfeição humana, embora tendo o 
indivíduo como ponto de partida, formava-se no Estado e por meio da subordinação do indivíduo 
ao Estado ou comunidade política. Perfeição esta impedida para quem não possuísse vida moral, 
isto é, o escravo. 
 
Aristóteles (séc. IV a. C.) 
 
 A Ética de Aristóteles possuiu como fundamento primeiro o reconhecimento de que os 
únicos indivíduos existentes seriam os indivíduos concretos, isto é, a idéia existe nos seres 
humanos individuais. Aristóteles rompia, assim, com o dualismo ontológico de Platão, o qual 
separa o mundo sensível do mundo das Idéias. Em segundo lugar, compreendia que haveria um 
movimento universal de passagem incessante do que existe em potência ao ato, seja no mundo 
natural, por exemplo, da passagem da semente à planta, seja no mundo social, por exemplo, da 
passagem do homem ao ser humano. Apenas Deus seria ato puro. 
 O homem seria atividade de passagem da potência (homem) ao ato (ser humano). Esta 
passagem deveria se orientar para Aristóteles pelo fim último do homem, qual seja, a felicidade. 
Por tal compreendia-se a atividade humana representada pela vida teórica ou contemplação 
guiada pela razão, que expressaria características elevadas do homem. Atividade humana 
representada pelo prazer e pela riqueza expressariam características baixas do homem. 
 A vida teórica ou contemplação realizaria-se por meio da aquisição de certas formas de 
agir que os homens adquiririam ou conquistariam pelo exercício, de forma a aprimorar a sua 
dimensão racional e conter a sua dimensão irracional. Estas formas de agir seriam virtudes. Elas 
poderiam ser intelectuais, que se operariam na dimensão racional (razão) do homem, e práticas 
ou Éticas, que se operariam na dimensão irracional (não razão) do homem, isto é, nas paixões e 
apetites humanos. 
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A felicidade decorreria da natureza racional do homem, porque seria fruto do exercício do 
intelecto no campo moral e porque aspiraria ao que seria razoável. Seria, portanto, uma 
conseqüência da vida contemplativa e sossegada, distanciada das perturbações do cotidiano. Em 
Aristóteles, (Vasquez, 1989, p. 240 e 241). 
 
(...) a virtude consiste no termo médio entre dois extremos (um excesso e um defeito). Assim, o valor