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Apostila-Questionários-Textos Complementares de Dir. Penal II

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modo, inclusive relações sexuais. Não pode, 
pensa a maioria, haver continuidade delitiva 
entre crimes contra a vida, dado que não são 
crimes da mesma espécie, embora violem o 
mesmo bem jurídico, como p. ex., homicídio 
(art. 121/CP) e aborto (art. 124/CP), vez 
que, consubstanciados na morte de ser 
humano, no primeiro é ela dada extra-
uterinamente, enquanto no segundo intra-
uterinamente (interrupção da gravidez). 
� Exige-se ainda para a configuração do crime 
continuado um liame – enlaçamento, 
entrelaçamento – entre os crimes derivado da 
presença neles de condições objetivas como 
tempo do crime, lugar do crime, maneira de 
execução e outras semelhantes (condições 
objetivas semelhantes – natureza do objeto 
material, relações entre as vítimas – 
pertencentes a uma mesma família, p. ex.). 
� Muito embora o art. 71/CP só faça referência 
para a caracterização do crime continuado da 
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presença necessária de condições objetivas 
entrelaçando os crimes (TEORIA OBJETIVA 
PURA), forçoso convir que não se pode 
prescindir da condição subjetiva, 
caracterizada pela unidade de desígnios – 
vontades – fazendo os crimes parte de um 
mesmo ideal, projeto criminoso preconcebido 
ou predeterminado pelo agente – chamado de 
“dolo total” – ou quando os crimes 
subseqüentes decorrem do aproveitamento da 
mesma oportunidade que deu origem ao 
cometimento do primeiro – facilidades na 
execução, p. ex. – que fazem com que o 
agente manifeste a vontade de prosseguir na 
prática criminosa, ou seja, na realização do 
projeto criminoso (TEORIA OBJETIVO-
SUBJETIVA). 
 
� EXEMPLOS DE SITUAÇÕES QUE, EM TESE, PODEM CONFIGURAR O 
CRIME CONTINUADO – Ladrão que entra num apartamento 
aproveitando-se da ausência do morador, subtraindo seus 
pertences, vindo a perceber da ausência dos demais moradores, 
vendo pois facilidades na consecução de sua empreitada, 
aproveitando-se da oportunidade para, na mesma noite, ou em 
noites seguidas, usando do mesmo instrumento para abrir os 
apartamentos, invadir os demais, subtraindo pertences das 
variadas vítimas – FURTOS (ART. 155/CP) EM CONTINUIDADE 
DELITIVA; Contador que se aproveitando da confiança que lhe é 
depositada pela empresa-vítima, cobra da mesma sempre no 
mesmo dia de cada mês que lhe sejam remetidos os valores para 
confecção de guias e conseqüente pagamento de impostos e 
contribuições, apropriando-se de tais valores, não efetuando ditos 
pagamentos, mas dizendo tê-los pago e guardando consigo as guias 
não pagas – APROPRIAÇÕES INDÉBITAS (ART. 168/CP) EM 
CONTINUIDADE DELITIVA; Homem que, para satisfazer sua 
anormal e doentia lascívia, “instinto” sexual, submete a vizinha por 
diversas vezes em dias distintos à conjunção carnal e a atos 
libidinosos diversos daquela, ameaçando revelar segredo que a 
mulher não quer ver revelado – ESTUPRO (ART. 213/CP) E 
ATENTADO VIOLENTO AO PUDOR (ART. 214/CP) EM 
CONTINUIDADE DELITIVA; Homem que, numa mesma noite, 
durante algumas horas, em locais distintos da cidade, convida 
mulheres para um passeio na sua Ferrari, vindo a levá-las para um 
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mesmo local e mediante violência física a estuprá-las – ESTUPRO 
(ART. 213/CP) EM CONTINUIDADE DELITIVA. 
 
� Pode haver continuidade delitiva entre as 
formas simples e qualificadas de crimes; 
entre crimes consumados e tentados; entre 
crimes comissivos e omissivos; entre crimes 
dolosos (somente) e entre crimes culposos 
(somente). Não há, portanto, possibilidade 
de haver continuidade entre crimes dolosos e 
culposos, como no concurso material e no 
concurso formal 
� CRIME CONTINUADO COMUM – Ocorre quando os 
crimes são dolosos cometidos sem violência 
ou grave ameaça contra a mesma vítima ou 
vítimas diferentes ou então quando são os 
crimes dolosos cometidos com violência ou 
grave ameaça contra a mesma vítima, ou ainda 
quando todos os crimes são culposos – pune-
se com a pena mais grave (se distintas) ou 
uma única (se idênticas), aumentada quando 
da fixação na sentença de 1/6 a 2/3 – o 
aumento é dosado, em regra, pelo número de 
crimes (dois – 1/6; três – 1/5; quatro – 
1/4; cinco – 1/3; seis – metade; sete ou 
mais – 2/3. 
� CRIME CONTINUADO ESPECÍFICO – Ocorre quando 
são os crimes dolosos cometidos com 
violência ou grave ameaça contra vítimas 
diferentes – aplica-se a pena mais grave, se 
distintas, ou uma única, se idênticas, 
podendo, entretanto o Juiz aumentá-la até o 
triplo quando de sua fixação na sentença 
condenatória. O aumento no caso é dosado 
tendo em vista o número de crimes e a maior 
periculosidade do agente, porquanto se visa 
no caso punir mais rigorosamente os 
delinqüentes profissionais, de acentuada 
periculosidade, já que os mesmos parâmetros 
utilizados para fixar-se a pena-base são 
aqui usados na dosagem do aumento – 
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dependendo do número de crimes e valorada 
negativamente a culpabilidade, os 
antecedentes, a conduta social, a 
personalidade, os motivos e as 
circunstâncias do crime na fixação da pena-
base, o aumento na terceira e última fase do 
critério trifásico certamente se aproximará 
do triplo. Cumpre salientar que, pelo 
disposto no parágrafo único do art. 70, tal 
aumento é facultativo, já que usado o verbo 
“poderá o juiz”. 
� Há quem diga da possibilidade de crime 
continuado entre vários homicídios – crimes 
contra a vida – contudo, de se observar o 
enunciado da Súmula 605 do STF, onde vedada 
a continuidade delitiva em crimes contra a 
vida, devendo a referida Súmula ser 
interpretada como uma vedação à solução 
adotada para o crime continuado e não à 
impossibilidade da presença dos elementos da 
figura jurídica. Não haverá, por certo, 
continuidade delitiva entre homicídio e os 
demais crimes contra a vida, face não serem 
crimes da mesma espécie. 
� No crime continuado observa-se a mesma 
disposição do parágrafo único do art. 70 do 
CP, ou seja, abandona-se a regra da 
exasperação se a pena exceder ao que seria 
aplicável com a adoção da regra do cúmulo 
material. 
 
 JURISPRUDÊNCIA – CRIME CONTINUADO 
 
A NECESSIDADE DA UNIDADE DE DESÍGNIOS 
 
“1. A continuidade delitiva (CP, art. 71) não pode prescindir dos requisitos 
objetivos (mesmas condições de tempo, lugar e maneira de execução) e 
subjetivo (unidade de desígnios). 2. Impossibilidade de reexame, na via do 
habeas corpus, dos elementos de prova que o acórdão impugnado levou em 
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consideração para não admitir a continuidade. Precedentes. 3. RHC 
improvido” (Recurso em Habeas Corpus nº 85577/RJ, 2ª Turma do Supremo 
Tribunal Federal, Relatora Ministra Ellen Gracie – j. 16.08.2005, DJU 
02.09.2005). 
 
“Para a caracterização do crime continuado não basta a simples reiteração dos 
fatos delitivos, sob pena de tornar letra morta a regra do concurso material. É 
necessário o preenchimento, entre outros, do requisito da denominada unidade 
de desígnios ou de vínculo subjetivo entre os eventos. Precedentes” (Superior 
Tribunal de Justiça – 5ª. Turma – Relator Ministro Félix Fischer – REsp. 
171.321 – j. 04.02.99 – DJU 22.03.99 – p. 226). 
 
“Reiterada jurisprudência desta Corte entende necessária, para a configuração 
da continuidade delitiva, a existência dos elementos objetivos e subjetivo, este 
consubstanciado na unidade de desígnios” (STJ – 5ª. Turma – Relator 
Ministro José Arnaldo da Fonseca – REsp 177.022 – j. 20.04.99 – DJU 
24.05.99 – p. 187). 
 
“Para a configuração do delictum continuatum, na moldura do art. 71 do CP, 
além da pluralidade de ações e do nexo temporal e circunstancial quanto ao 
local e ao modo de execução, exige-se a comprovação da unidade de 
desígnios”