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APOSTILA DE DIREITO CIVIL II

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não basta que seja plenamente 
capaz; é imprescindível que seja parte legítima, isto é, tenha competência 
para praticá-lo, dada a sua posição em relação a certos interesses jurídicos. 
A falta de legitimação pode tornar o negócio nulo ou anulável, dependendo 
ela da particular relação do sujeito com o objeto do ato negocial. 
• Para que o negócio jurídico se repute perfeito e válido deverá versar sobre 
objeto lícito, ou seja, conforme a lei, não sendo contrário aos bons 
costumes, à ordem pública e à moral. Além disso, deve ser possível, física e 
juridicamente, o objeto do ato negocial. 
• Finalmente, a manifestação de vontade exerce papel preponderante no 
negócio jurídico, sendo um de seus elementos básicos. Limongi França 
preceitua: “Consentimento é a anuência válida do sujeito a respeito do entabulamento 
de uma relação jurídica sobre determinado objeto”. Tal consentimento pode ser 
expresso ou tácito, receptícias e não receptícias. 
 
 
 
5) INTERPRETAÇÃO DOS NEGÓCIOS JURÍDICOS OU ATOS 
JURÍDICOS: 
 
 
• Quanto à interpretação do negócio jurídico, esta pode ser: declaratória, se 
esta tiver por escopo expressar a intenção dos interessados; integrativa, se 
pretender preencher lacunas contidas no negócio, por meio de normas 
supletivas, costumes, etc., e, construtivas, se objetivar reconstruir o ato 
negocial com o intuito de salvá-lo. 
• A interpretação do negócio situa-se na seara do conteúdo da declaração 
volitiva, fixando-se em normas empíricas, mais de lógica prática do que de 
normação legal, pois o Código Civil contém tão somente cinco normas 
interpretativas, a saber: 
1) nas declarações de vontade atender-se-á mais à sua intenção do que ao 
sentido literal da linguagem (CCB artº 112); 
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2) os negócios jurídicos devem ser interpretados conforme a boa-fé e os usos 
do lugar de sua celebração (artº 113-CCB); 
3) os contratos benéficos e a renúncia interpretar-se-ão estritamente (CCB, 
artº 114); 
4) nos contratos de adesão, havendo cláusulas ambíguas ou contraditórias, 
dever-se-á adotar a interpretação mais favorável ao aderente (CCB, artº 423); 
5) nos contratos de adesão, são nulas as cláusulas que estipulem a renúncia 
antecipada do aderente a direito resultante da natureza do negócio (CCB, artº 
424); 
6) a fiança dar-se-á por escrito e não admite interpretação extensiva (CCB, 
artº 819 e RT 476/157); 
7) a transação interpreta-se restritivamente (artº 843-CCB); 
8) é nula a estipulação contratual que exclua qualquer sócio de participar dos 
lucros e das perdas (artº 1.008-CCB); 
9) quando a cláusula testamentária for suscetível de interpretações diferentes, 
prevalecerá a que melhor assegure a observância da vontade do testador 
(CCB, artº 1899); 
10) Dentre estes, podemos acrescentar o preceito do artº 47 do Código de 
Defesa do Consumidor, em que as cláusulas contratuais serão interpretadas 
de maneira mais favorável ao consumidor. 
• Assim, a observância do negócio jurídico constitui um dos meios 
demonstrativos da interpretação da vontade das partes. A melhor 
interpretação de um contrato é a maneira pela qual os interessados, de 
comum acordo, o executaram. Os eventos posteriores são a melhor 
explicação dos fatos. De qualquer forma, se os termos são claros e 
apropriados, não há como fugir ao sentido literal e gramatical; as várias 
cláusulas da estipulação interpretam-se pondo-as em harmonia, não 
isoladamente. 
• O silêncio importa anuência quando as circunstâncias ou os usos o 
autorizarem, e não for necessária a declaração de vontade expressa (art. 111 
do CCB). 
• Para arremate, a Lei de Introdução ao Código Civil, em seu art. 5º., 
preceitua que “na aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que ela 
se dirige e às exigências do bem comum”. 
 
 
 
 
 
 
 
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CAPÍTULO III 
 
DEFEITOS DOS NEGÓCIOS JURÍDICOS 
 
 
1) GENERALIDADES: 
 
• Segundo vimos anteriormente, o ato jurídico é manifestação da vontade 
tendente a criar, modificar ou extinguir um direito. Para que este 
validamente exista, indispensável é a presença do elemento volitivo, que 
este tenha existido e haja funcionado normalmente. 
• Efetivamente, pode acontecer que a vontade não tenha existido na 
celebração do negócio jurídico, fruto das mais diversas circunstâncias, 
sejam elas transitórias ou duradouras. 
• Pode acontecer ainda que a vontade tenha existido, pois o interessado 
desejou realmente praticar o ato questionado, mas a sua vontade estava 
contaminada por alguns dos vícios do consentimento, eivando o ato de 
nulidade. 
• Por fim, há casos em que a vontade existe e funciona normalmente, mas 
esta se desvia da lei ou da boa fé, e orienta-se no sentido de prejudicar a 
terceiros, ou se infringir o direito. 
• Ocorrendo tais fatos, surgem as figuras do erro ou ignorância, dolo, coação 
ou violência, estado de perigo, lesão, simulação e a fraude contra credores. 
• CLASSIFICAÇÃO: Os cinco primeiros (erro ou ignorância, dolo, coação ou 
violência, estado de perigo e lesão) são os chamados vícios de 
consentimento, pois incidem sobre a vontade impedindo de se externar 
conforme o último desejo do agente. Nos dois últimos (simulação e fraude 
contra credores) trata-se de vícios sociais, pois nesses o consentimento se 
revela desembaraçado de peias. Vejamos com mais vagar cada defeito 
acima relacionado. 
 
 
2) DO ERRO OU IGNORÂNCIA: 
 
2.1) CONCEITO: 
• Ocorre o erro quando o autor da declaração a emitiu inspirado num engano 
ou na ignorância da realidade. É a noção falsa a respeito de um objeto ou 
de determinada pessoa. Tal é equiparado à ignorância, que é o completo 
desconhecimento acerca de um objeto. Num e noutro caso, o agente é 
levado a praticar o ato jurídico que não praticaria por certo, ou que 
praticaria em circunstâncias diversas, se estivesse devidamente esclarecido. 
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2.2) ESPÉCIES DE ERRO: 
 
a) ERRO SUBSTANCIAL: o erro, para viciar a vontade e tornar anulável, é 
de tal força, de tal relevo, de tal consistência, que, sem ele, o ato não se 
realizaria. Declara o artº 138 do CCB: “São anuláveis os negócios jurídicos, quando 
as declarações de vontade emanarem de erro substancial que poderia ser percebido por pessoa 
de diligência normal, em face das circunstâncias do negócio”. Declara ainda o artº 139, I 
do CCB que o erro é substancial quando: “I - interessa à natureza do negócio, ao 
objeto principal da declaração, ou a alguma das qualidades a ele essenciais”. 
a.1) Erro essencial sobre a natureza do ato: (error in ipso negotio) quando se 
tenciona praticar certo ato e no entanto se realiza outro. Inexistindo acordo 
de vontades sobre a própria essência do ato, em virtude de erro substancial, é 
ele ineficaz. Ex. A entrega determinado objeto a título de empréstimo e B 
recebe-o a título de doação. 
a.2) Erro sobre o objeto principal da declaração: (error in ipso corpore rei) 
quando a coisa concretizada no ato em verdade não era pretendida pelo 
agente. A vontade desvia-se devido ao desentendimento sobre o objeto do 
ato, sendo este anulável e o adquirente está autorizado a pedir sua decretação. 
Ex. O comprador acredita estar adquirindo terreno urbano e na verdade está 
adquirindo terreno rural. 
a.3) Erro sobre qualidades essenciais do objeto: (error in substantia) quando 
se supunha existente determinada qualidade que, porém, não existia, tendo a 
falsa crença determinado a vontade. Ex. Adquiro carro de mil cilindradas 
pensando ser de duas mil. Em todas essas hipóteses acima mencionadas o ato 
é ANULÁVEL. 
b) ERRO SOBRE A PESSOA: Estabelece o artº 139, II do CCB: “Concerne 
à identidade ou à qualidade essencial da pessoa