2 Terra Cap Ibracon
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Instituto Brasileiro do Concreto 
 
Livro Materiais de Construção Civil 
 
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CAPITULO 45 
TERRA CRUA PARA EDIFICAÇÕES 
 
Normando Perazzo Barbosa (1) Khosrow Ghavami (2) 
 
(1) Professor Titular, Doutor, Departamento de Tecnologia da Construção Civil 
Centro de Tecnologia, Universidade de Federal da Paraíba 
Cidade Universitária, 58059-900 João Pessoa \u2013 PB 
email: nperazzo@lsr.ct.ufpb.br 
 
 (2) Professor Titular, PhD, Departamento de Engenharia Civil 
PUC-Rio, Rua Marques de São Vicente, 225 
Gávea, 22453-900-Rio de Janeiro - RJ 
email: ghavami@dec.puc-rio.br 
 
 
1 Introdução 
A terra crua, ou seja, no seu estado natural, sem ter sido queimada, já é utilizada, 
desde muito tempo na construção de estradas e barragens. Aqui, o enfoque é dado para 
o uso da terra como material de construção de edificações. 
Construir é uma atividade relativamente recente na história da humanidade. De 
fato, o homem já era capaz de fazer jóias, pinturas, artefatos de caça e pesca, quando há 
cerca de 10 mil anos, com o advento da agricultura, sentiu necessidade de construir suas 
moradas para aguardar as colheitas. Evidentemente, os primeiros materiais de construção 
utilizados foram aqueles ofertados pela natureza, como pedra, palha, galhos e troncos de 
árvores, pele de animais e, sem dúvida, a terra. Com o advento dos materiais 
industrializados, a terra foi sendo esquecida como material de construção, mas, mesmo 
assim, ela ainda hoje abriga parcela significativa da humanidade. Em países asiáticos, 
africanos e do oriente médio, existem ainda cidades construídas quase que inteiramente 
com esse material. Na Figura 1, vêem-se os exemplos oriundos da civilização persa, em 
que a terra misturada a palhas ou a fibras vegetais era material de construção básico. 
 No continente americano, a terra como material de construção foi usada pelos 
incas, maias e mesmo pelos índios norte-americanos. Na Figura 2, vêem-se edificações 
de terra feitas na região de Trujilo, no Peru, país onde, ainda hoje, quase metade das 
moradias é feita de terra. É interessante notar que os índios brasileiros não construíam 
casas de terra, preferindo utilizar madeira e palhas. Assim, no Brasil, a construção com 
terra foi introduzida pelos portugueses. Muitas construções coloniais de qualidade, 
espalhadas por todo o país, foram feitas com a terra crua. Minas Gerais (Figura 3) é ainda 
um exemplo vivo do bom uso que se pode fazer desse material. 
A tradição milenar da terra é agora revivida quando problemas ambientais 
ameaçam o futuro do Planeta. Tome-se como exemplo a fabricação de tijolos e telhas 
cerâmicas. Grande parte das indústrias utiliza como combustível a vegetação local, 
levando ao agravamento do problema do desmatamento. Em certos casos, como em 
algumas zonas do Nordeste Brasileiro, tal problema está a contribuir para o fenômeno da 
desertificação. Somem-se a isso a emissão de gás carbônico causado pela queirma da 
lenha e a enorme quantidade de resíduos gerada por conta de peças cerâmicas que se 
quebram durante o processo de fabricação. Tais resíduos são lançados aleatoriamente na 
natureza, que tem dificuldade a reincorporá-los. 
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Figura 1 \u2013 Cidades construídas em terra crua no Iran: Bam (antes do terremoto de 2003, à 
esquerda) e Yazd (à direita). 
 
 
Figura 2 \u2013 Construções pré-colombianas de terra no Peru (Chan Chan). 
 
 Figura 3 \u2013 Construções coloniais de terra crua em Minas Gerais. 
 A simples utilização, quando possível, da terra crua, em suas diversas formas, nas 
construções seria benéfica para o futuro da humanidade. Esse material milenar, a terra, 
apresenta vantagens, dentre as quais se pode citar: 
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- disponibilidade; 
- propriedades térmicas superiores; 
- absorção e liberação de umidade mantendo ambiente saudável; 
- geração mínima de poluição e baixo consumo energético no seu manuseio; 
- fácil re-incorporação na natureza; 
- facilidade de gerar tecnologias apropriadas. 
 
De fato, a terra é um dos materiais mais abundantes na natureza. Termicamente, 
tem umaum desempenho superior aos tijolos cerâmicos. Um estudo de Garzon (2002) 
mostra que a carga térmica que atravessa uma parede de 20 cm rebocada em ambos os 
lados, num certo intervalo de tempo, é três vezes menor num muro de tijolos crus de solo-
cimento que num de tijolos cerâmicos furados. 
Do ponto de vista do controle de umidade relativa do ar nas edificações, 
experimentos de Minke (2005) mostram que, em um ambiente com 30 m2 de paredes e 3 
m de altura, quando a umidade subitamente passa de 50% para 80%, se forem de tijolos 
de terra crua, as paredes absorvem 9 litros de água em 48 h, ao passo que uma parede 
idêntica de tijolos cerâmicos só seria capaz de absorver 0,9 litros no mesmo período. Se 
ocorrer o contrário, a umidade relativa diminui, as paredes de terra liberam de volta a 
umidade ao ambiente. Por isso, as casas de terra na Europa são tidas como benéficas 
para a saúde. 
 Sendo um material natural, seu manuseio se faz com geração mínima de poluição. 
O consumo energético envolvido é sempre muito menor que o de materiais de construção 
convencionais. Mesmo quando a terra é associada a materiais industrializados, estes 
entram em pequenas proporções; assim, a re-incorporação na natureza é relativamente 
fácil. 
Quanto à eficiência energética, a fabricação de cimento, cal, cerâmica, aço, 
alumínio exige altas temperaturas, ao passo que a terra crua não recebe tratamentos 
térmicos. Se à terra são incorporados materiais como cal ou cimento Portland, pelo fato 
citado de estes entrarem em baixas taxas, globalmente o consumo energético é 
muitíssimo menor que o dos materiais de construção convencionais. 
Finalmente, uma outra vantagem da terra como material de construção é a 
facilidade de gerar tecnologias apropriadas. Pode-se dizer que tecnologia apropriada é 
aquela fácil de se transmitir e de ser absorvida por população com pouca instrução, 
envolvendo equipamentos simples e procedimentos pouco sofisticados. Assim, enquanto 
a fabricação de tijolos cerâmicos exige equipamentos caros e um processo centralizado, 
além de mão-de-obra especializada tanto para fabricá-los quanto para aplicá-los, a 
produção de blocos de terra prensada pode ser feita facilmente com uma prensa manual 
transportável de um local a outro por pessoas que recebam um simples treinamento, 
como se vê na Figura 4 (Barbosa e Mattone, 2002). 
 O apelo ecológico tem feito renascer a arquitetura de terra que, nos dias de hoje, 
está sendo procurada não só pelas pessoas desfavorecidas, mas mesmo pelas camadas 
mais privilegiadas da sociedade atual. Na Figura 5, vê-se um exemplo de moderna 
aplicação da terra, numa casa de luxo, no sul dos Estados Unidos, e numa Igreja cujas 
paredes são de terra, no sul da França. 
 
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Figura 4 \u2013 Fabricação e construção com tijolos prensados de terra crua: exemplo de tecnologia 
apropriada. 
 
 
Figura 5 \u2013 Construções modernas de terra: casa de luxo no Novo México, Estados Unidos, e 
Igreja no sul da França. 
 
1.1 Tecnologias