Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith
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Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith


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Na época, estava casada com seu irmão, Derry. Rodney estava viajando pelo 
México e veio nos visitar bem depois de eu ter me tornado sua cunhada. Assim, foi 
uma situação do tipo 'carroça na frente dos bois', pois quase esquecera dos sonhos da 
infância. Quando finalmente exclamei "Você é meu irmão!" com espanto e satisfação 
ao contemplar o rosto familiar, tão parecido com o meu, muito já havia se passado 
desde esse encontro tardio.
Estávamos sentados juntos no alto da Pirâmide do Sol em Teotihuacan, no 
México, quando percebi tudo.
\u2014 Muito provavelmente \u2014 respondeu-me amigavelmente, seus olhos azuis, 
meus próprios olhos azuis encontrando os seus, semicerrados contra o forte brilho do 
sol da tarde, nossos chapéus de abas largas puxados na direção do pescoço, nossas 
compleições tão semelhantes, nossos corpos altos, magros e de ombros estreitos tão 
similares que poderíamos mesmo ser parentes, não apenas por vínculo conjugai.
\u2014 Um dia, você vai escrever sobre tudo isso \u2014 disse-me depois de muitos 
meses naquela estranha atmosfera do Vale do México, 2100 metros acima do nível do 
mar, onde a altitude, a forte luminosidade e as pessoas da casa, com pendores 
filosóficos, finalmente fizeram alegre sentido. \u2014 Um dia, você vai parar de escrever 
esses romances e vai escrever algo mais importante. \u2014 Meu livro Locusts and wild 
honey (Gafanhotos e mel selvagem) e outros estavam na lista dos mais vendidos na 
época, e os sonhos e fantasias da infância encontravam vazão nessa forma distorcida. 
\u2014 Um dia, você vai escrever sobre o miraculoso. \u2014 Eu estava lendo In search of the 
miraculous (Em busca do miraculoso) de Ouspensky à noite em vez de dormir, pois os 
dias eram repletos de ação e de palavras ansiosas. À sua própria maneira, você dará 
um ou dois indicadores para aqueles que virão depois.
Estou no último quarto da vida. Já falei, dei conferências, escrevi, viajei, ocupei 
meus dias com um atabalhoado galope contra o tempo.
Estou beirando os 70. 'Um dia' deve ser agora.
Minha memória é tão abrangente e límpida que às vezes me pergunto se 
conseguiria \u2014 sob hipnose, por exemplo \u2014 ter a lembrança de tudo.
Conheço a sensação de ser um bebê num carrinho forrado de couro branco 
cheirando a cálido verão; acima de mim, um toldo de seda verde com franjinhas me 
dava sombra. Lembro-me da primeira experiência de causalidade. Se eu 
chacoalhasse as pernas para cima e para baixo, o carrinho se agitava e as franjas 
dançavam. Se ficasse parada, elas não se moviam. Era um tipo diferente e mais 
interessante de causa e efeito do que o conhecimento instintivo que todo bebê tem: 
chorar atrai atenção, vozes, braços, conforto. Isto era algo que eu fazia pelo resultado 
em si, compreendendo que tinha o poder de fazer as coisas acontecer. Deitada, 
pensava nisso, jovem demais para me sentar sem auxílio ou para balbuciar qualquer 
palavra. Deveria ter uns cinco ou seis meses de idade.
Meu 'irmão' surgiu em minha imaginação quando eu estava com uns dois anos 
e meio. Mamãe estava grávida de outro bebê. Disseram-me isto e que ela precisava 
se afastar de mim por alguns dias para ter o bebê.
Eu já sabia de um garoto tão parecido comigo que seria minha segunda 
metade. Aguardei sua chegada com aceitação e confiança. Levaram-me ao berçário e 
me mostraram um bebê recém-nascido num bercinho, em meio a uma fila de outros 
berços numa grande sala.
\u2014 Esta é sua irmãzinha \u2014 disseram-me. \u2014 Uma linda menininha. A confusão 
me assomou.
\u2014 Não. Eu quero meu irmão.
\u2014 Uma irmã, querida, não um irmão.
O berço do lado abrigava um bebê. Sua família o cercava, admirando-o e se 
referindo ao pequeno pedaço de gente como 'ele'. Fui para o lado, olhei intrigada pelas 
barras e exigi que levássemos este. Sabia que os bebês cresciam. Apesar de não ter 
sido como imaginava, este deveria ser o meu esperado. O som de risos adultos 
ressoou por toda parte enquanto me afastaram gentilmente dali.
\u2014 Aquele! Aquele! \u2014 gritei atônita, impotente e incrédula. Apesar de raramente 
apanhar, meus gritos e esperneios ilógicos provocaram ordens severas para me calar, 
e um tapa ardido e inesperado me reduziram a resmungos e, finalmente, ao silêncio. 
Quando fiquei plantada firmemente numa cadeira e me disseram que me 
comportasse, não olhei mais para os bebês nem fui, como me mandaram, até mamãe, 
vestida em sua camisola rosa, reclinada entre travesseiros. Ela estendeu seus braços 
e me chamou. Olhei obstinadamente para o chão, meus pés balançando, lágrimas 
ainda escorrendo. Então, subitamente o mundo se tornou um lugar vazio.
A imaginação criativa sempre me intrigou. Desde pequena, conseguia 
visualizar coisas, ver rostos, ouvir vozes, fazer pessoas, lugares e situações em minha 
mente. Eram tão reais quanto meu ambiente cotidiano. Houve uma época, no início da 
infância, em que tive dificuldade para distinguir os dois tipos de experiência, e me 
acusaram de mentir. Sem o irmão do berçário, o 'ser evocado' como companheiro de 
brincadeiras, passei a recriá-lo em minha mente.
Lentamente ele cresceu e ficou alto. Apesar de seu rosto nunca ter ficado 
perfeitamente definido para mim, conhecia a 'forma que desenhava no espaço'. É 
assim que o definia para mim mesma. Gradualmente, ficou mais velho do que eu, alto, 
magro, rosto comprido, ombros estreitos, rápido e gentil, compreendendo plenamente 
minhas dificuldades. Mantive longas conversas com ele em minha mente, fiz-lhe 
perguntas, obtive respostas confusas que nada mais eram do que sons calmantes e 
reconfortantes. Era como o diálogo noturno dos sapos nas quentes lagoas africanas, 
que mais tarde conheci \u2014 ou as fitas de Raudive, que dão a mesma e ilusória 
impressão de ter certo sentido que, por algum motivo, não é bem inteligível. Eu falava, 
escutava interiormente e ficava em paz.
Só uma vez, no começo da idade escolar, ouvi palavras reais. Meu irmão me 
parecia agitado e perturbado, andando em passos rápidos de um lado para o outro 
numa sala e gritando. "Parte-me o coração. Meu coração está partido". Ele aparentava 
uns 16 ou 17 anos. Infelizmente, nunca conferi com Rodney Collin se ele tinha alguma 
lembrança de um incidente semelhante \u2014 se teria sido mesmo telepatia. Pode ter 
sido.
Normalmente, sua presença era como uma reconfortante extensão de mim 
mesma, e na juventude já tinha parado de inventar histórias de sua eventual vinda. 
Durante anos, o lugar do peitoril onde as cortinas me escondiam e de onde tinha a 
visão do portão e do caminho do jardim, tinha sido meu refúgio e eremitério particular. 
Ao ouvir o rangido do portão de ferro, fechava os olhos e fingia, fingia furiosamente, 
que os passos no caminho de pedra eram do garoto magro e alto. Meus pais o 
saudariam com alegria. "Eis o seu irmão há tanto perdido!" diriam, com a maneira 
teatral dos personagens de contos de fadas. Mas o carteiro, o leiteiro, os vizinhos, as 
amigas de minha mãe e os colegas de meu pai vinham nos ver com muita freqüência, 
e o jogo da infância perdeu a graça.
Um dia, 'pensei-o' pela última vez. Eu era uma jovem repórter no Reading 
Standard, logo antes do começo da guerra. Numa hora de folga, perambulei pelos 
Jardins Forbury, onde as semidestruídas paredes de granito cobertas de hera da 
abadia servem de lar para corvos e gralhas. O cântico medieval, Summer is i'cumin in 
(O verão se aproxima), foi escrito ali, e a reprodução do manuscrito original ficava sob 
um vidro num pilar da clareira central. Concentrando-me, pude ouvir o cântico nos 
ouvidos de minha imaginação, essas camadas sutis da mente que dão forma, cor, 
som, sabor e aroma
Jessica
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