Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith
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Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith


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não estava 
olhando, ou confessar, num palanque público, que certa vez deixou de cumprir um PQ 
obrigatório quando estava na quarta forma.
\u2014 Apesar de tudo, isso está ficando um pouco ridículo \u2014 disse a Roger após 
as alegres conversas fiadas de uma reunião à beira da fogueira num dos campos do 
general Winser, com canções evangélicas americanas e salsichas bem-passadas na 
brasa. \u2014 Sinto que voltei à quarta forma.
Tivéramos uma longa 'sessão de partilha' após o lanche, no qual alguns líderes 
do grupo lavaram a roupa suja em público de maneira constrangedora, e uma garota 
neurótica, que confessou odiar a mãe, aparentemente inócua, teve um longo ataque 
de histeria. A pobre senhora estava sentada com a cabeça entre as mãos, ouvindo 
esse anúncio público de uma centena de pequenos queixumes infantis.
Roger andava meio tristonho há alguns dias. Sequer abrira a boca para cantar 
a animada canção do RM:
Tivemos pais que ousaram cruzar a última fronteira,
Viram o custo e rumaram para o Oeste onde sua visão
ficou clara.
Agite-nos, inquietude Divina, e ponha-nos nos caminhos
que trilharam,
Nossa paixão e vontade forjarão uma nação livre do ódio
e temente a Deus...
Anteriormente, até que gostava da camaradagem dos encontros noturnos de 
verão. Na maioria, eram estudantes de Oxford, com seus jovens rostos reluzentes 
cheios de calor humano, generosidade e esperanças para o futuro. Provocávamo-nos 
em meio a um inocente idealismo. Cada geração teve sua versão da síndrome do RM, 
suponho, e eu o vi repetir-se várias vezes desde então, do Flower Power dos hippies e 
da MT a Billy Graham, a Bhagwan Rajneesh e um punhado de cultos menores. É um 
fenômeno da juventude que ainda não foi testada, mantendo a experiência da vida a 
distância. Morre em quase todo indivíduo após alguns anos.
Roger tinha um motivo diferente para a tristeza, e com o tempo ele veio à tona 
numa enxurrada.
\u2014 Em Hays News eles têm registros sobre cada um de nós. Num arquivo. 
Como uma espécie de registro de polícia ou de médico. Eles analisam cada um, 
discutem seu passado, lêem todos os pecados partilhados, esse tipo de coisa. Quando 
fiquei a sós por algum tempo, li a minha ficha. E a sua. Contemplei ambas. Depois, 
rasguei-as.
Fiquei horrorizada. Era como uma pessoa 'de confiança' na cadeia passando a 
perna nos guardas. Quando disse isso, Roger respondeu:
\u2014 Guardas?
Olhamos um para o outro. E, de súbito, todo o esquema nos pareceu bastante 
estranho e sinistro. 
Eventualmente, meu instinto jornalístico veio à tona com toda a força, e escrevi 
um longo artigo para o Oxford Times, pondo-o com hesitação na escrivaninha de meu 
pai. Ele não tinha feito nenhum comentário sobre minha conexão com o grupo, mas 
quando leu o artigo, disse "nada mal, nada mal mesmo", e o publicou sem cortes na 
página do editorial.
Foi uma análise razoável para uma moça de 19 anos, creio, mostrando o valor 
e os perigos, os fenômenos interessantes, além do duvidoso e do tolo. Como era 
praxe nos jornais do interior na época, o artigo foi assinado apenas com minhas 
iniciais. O dia da grande manchete ainda não havia chegado.
Para meu espanto, o artigo despertou uma enorme quantidade de 
correspondência e comentários. Teólogos, decanos da igreja, o cônego John 
Stansfield de Christchurch, os vigários locais, até donas-de-casa e pais ansiosos que 
achavam que tinham 'perdido' seus filhos para o movimento do RM, foram levados a 
escrever com tamanha profusão e verbosidade que a seção de cartas foi preenchida 
apenas com comentários sobre o Grupo durante semanas \u2014 até que meu pai teve de 
pôr fim ao caso com uma nota de rodapé que dizia "Esta correspondência está 
encerrada".
De modo geral, parece que as pessoas que freqüentavam igrejas aprovaram o 
movimento. O cônego Stansfield queria saber quem era 'esse' tal de JYH para ousar 
criticar um método que não seria nada mais, nada menos do que uma versão moderna 
de Pratice of the presence of God (Prática da presença de Deus), do irmão Lawrence. 
General Winser, que também desconhecia a autoria, ficou furioso com o autor por 
menosprezar um movimento que não fez nada além de "redimir os jovens desta 
geração''.
Outros, porém, reclamaram como os pais dos moonies* [Adeptos da seita do 
Reverendo Moon (N. do T.)]* na década de 80; diziam que sua prole deixara de ter 
interesse pelos estudos ou pela carreira, e que nada faziam senão ficar sentados, 
caderneta à mão, ou perambular pela vizinhança constrangendo a todos com suas 
espúrias confissões de pecados e revelações pessoais desnecessárias, atormentando 
os leigos com fanatismo evangelizador e uma enorme quantidade de livros e tratados 
religiosos. A convicção de que detinham o monopólio da Verdade não era muito 
diferente da mantida pelas Testemunhas de Jeová. Eles também acreditavam ser o 
Povo Eleito.
Durante algum tempo, fiquei com um pé em cada lado. Não queria perder meu 
círculo de jovens amigos. Mas, cada vez mais, percebi que não ia simpatizando com 
eles.
Um dia, Peter Farrow, jovem e agradável cura, cuja companhia me era 
perfeitamente aceitável, levou-me até um bosque perto de Oxford. A seu pedido, 
estacionamos numa clareira coberta de folhas. Nesse lugar, deveríamos cumprir nosso 
costumeiro PQ, e para isso pegamos nossos cadernos. Lembro que Peter tinha me 
dado um fichário novo, bonito, encadernado em couro, de presente de aniversário. 
Sentados um do lado do outro, fechamos os olhos em obediente escuta.
Após alguns minutos, percebi subitamente que a respiração de Peter tinha 
ficado mais pesada, e sua mão buscou a minha. Depois, voltando-se firmemente para 
mim, disse com brilhante confiança:
\u2014 Recebemos a mesma orientação, não foi? Devo me casar com você e, 
juntos, trabalharemos por Cristo e mudaremos o mundo.
Fiquei horrorizada.
\u2014 Não, não! Não recebi nenhuma orientação assim!
\u2014 Escute novamente, Joyce. Ele está lhe dizendo isso, em alto e bom som.
Ao mesmo tempo exasperada e subitamente alarmada com seu impulso e seus 
braços, que agora tentavam me envolver ainda mais estreitamente, empurrei-o e abri a 
porta do carro.
\u2014 Devemos estar escutando Deuses diferentes \u2014 eu disse.
\u2014 Não seja tola! Só existe um Deus. Você sabe muito bem disso.
\u2014 Não tenho tanta certeza. De qualquer modo, se eu me casar com alguém, 
será com Roger \u2014 gritei, gesticulando furiosa.
Peter me olhou com desapontamento e desaprovação, reduzido 
temporariamente ao silêncio. Então:
\u2014 Você nunca vai se casar com Roger, disso tenho certeza \u2014 berrou 
enquanto eu caminhava pelas árvores na direção da estrada e dos ônibus para 
Oxford.
Quanto a esta última profecia, tinha razão. A guerra começou poucas semanas 
depois, Roger se alistou na RAF como piloto de bombardeiro e foi morto no ano 
seguinte durante um ataque sobre Colônia.
Quanto a mim, deixei o Grupo de Oxford, não vi mais o RM como uma 
experiência interessante e dirigi minha atenção para outras coisas. O Rearmamento 
Moral não funcionara, pois o conflito na Europa ocorreu do mesmo modo, e estava 
claro que, dentro em breve, eu mesma deveria servir as forças armadas.
Contudo, a idéia de escutar algum tipo de 'voz interior' ficou constantemente 
em meus pensamentos, e em períodos de estresse eu às vezes recorria a ela com 
sucesso. 
 3
A guerra corrompe a todos.
A jovem inocente e idealista, com idéias sobre verdade e beleza, noção do 
valor do jornalismo e nenhuma experiência sexual além de um ou dois abraços 
desajeitados estimulados por sonhos e fantasias
Jessica
Jessica fez um comentário
Todos deveriam ler!
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